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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

versión impresa ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.19 no.4 São Paulo jul./ago. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922013000400011 

ARTIGO ORIGINAL
CIÊNCIAS DO EXERCÍCIO E DO ESPORTE

 

Comparação entre diferentes modelos de periodização sobre a força e espessura muscular em uma sequência dos menores para os maiores grupamentos musculares

 

 

Juliano SpinetiI,III; Tiago FigueiredoI,II,III,IV; Belmiro Freitas de SallesI; Marcio AssisV; Liliam FernandesI; Jefferson NovaesI; Roberto SimãoI

IUniversidade Federal do Rio de Janeiro. RJ, Brasil
IIUniversidade Gama Filho. RJ, Brasil
IIIUniversidade Trás os Montes e Alto Douro. Portugal
IVUniversidade Estácio de Sá
VDepartamento de Fisiologia do Exercício – Fluminense Football Club. RJ, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Estudos comparando modelos de periodização em sequências de treinamento resistido (TR) realizadas do menor para o maior grupo muscular sobre as alterações musculares em indivíduos destreinados em TR são escassos.
OBJETIVO:
Comparar o efeito da periodização ondulatória (PO) e da periodização linear (PL) sobre a força máxima e hipertrofia muscular em uma sequência de execução dos exercícios dos menores para os maiores grupamentos musculares.
MÉTODOS: Vinte e nove homens não experientes em (TR) foram distribuídos aleatoriamente em três grupos: PO (n =10), PL (n = 13) e grupo controle (GC, n = 9). Os indivíduos realizaram o teste de uma repetição máxima (1RM) nos exercícios rosca bíceps (RB), rosca tríceps (RT), puxada aberta (PA) e supino reto (SR), contração isométrica voluntária máxima (CIVM) e espessura muscular (EM) para flexores de cotovelo (FC) e extensores de cotovelo (EC) antes e após o período de 12 semanas de treinamento. O grupo PO variou o volume e a intensidade do treinamento diariamente, e o grupo PL a cada quatro semanas. O GC não realizou TR. Foi realizada uma ANOVA de dois caminhos com medidas repetidas, e cálculo do tamanho do efeito (TE), nas cargas obtidas para analisar o efeito do tratamento sobre as variações pré- e pós-período de TR.
RESULTADOS: Os principais achados do estudo foram: 1) o grupo PO apresentou maior TE para 1RM dos exercícios RT e RB e para EM dos FC e EC quando comparado ao grupo PL; 2) não houve diferença no TE para os exercícios SR e PA que finalizavam a sessão.
CONCLUSÃO: Ambos os modelos de periodização adotados foram eficientes para promover aumentos de força e hipertrofia muscular. Contudo, segundo o cálculo do TE, a PO promoveu maior incremento da força máxima nos exercícios que iniciaram a sessão e hipertrofia muscular.

Palavras-chave: treinamento resistido, testes de força, hipertrofia muscular, periodização.


 

 

INTRODUÇÃO

Periodização do treinamento físico refere-se à manipulação das variáveis metodológicas do treinamento físico divididas em fases lógicas, e tem por objetivo realizar ajustes específicos para o aumento do desempenho físico e prevenir o excesso de treinamento1. A utilização da periodização no treinamento resistido (TR) ganhou considerável popularidade nos últimos anos. Atualmente, atletas de elite, fisiculturistas e frequentadores de academias de ginástica utilizam a periodização do treinamento físico no TR, com o objetivo de melhorar o desempenho2,3. No que se refere ao aumento da força muscular, ao comparar programas de TR com periodização linear (PL, que realiza variações no volume e na intensidade do treinamento em períodos mensais) e programas não periodizados (que não apresentam variações de intensidade, número de séries e repetições e intervalo de recuperação entre séries e exercícios) foram observados maiores ganhos de força após a realização de programas de TR realizados com PL, quando comparados a programas não periodizados1.

Além da comparação da PL e programas não periodizados, outros autores4-7 avaliaram novas formas de alternar as variáveis do TR com um modelo de periodização que foi denominado periodização ondulatória (PO). A hipótese da PO é que a maior frequência de alternância de volume e intensidade (realizada a cada sessão) proporciona mudanças de estímulos mais frequentes, fazendo que o sistema neuromuscular se adapte a cada sessão de treinamento e evite a estagnação do incremento da força muscular6. Alguns estudos que compararam os efeitos da PL e PO demonstraram maiores ganhos de força, potência muscular e resistência muscular localizada, em programas de PO quando comparados a programas de PL4,6,8-10; porém, outros estudos não demonstraram diferenças significativas entre os dois sistemas5,7,11. Os maiores ganhos de força máxima encontrados em programas com PO são atribuídos à maior manipulação do volume e intensidade do treinamento, que permite uma melhor relação estímulo/recuperação e prevenção de excesso de treinamento físico, que pode ser ocasionado pelo aumento linear da intensidade do treinamento utilizado na PL1,4,6,8,10,12-15. Já os estudos que não encontraram diferenças entre a PL e a PO atribuem os ganhos de força ao volume total de treinamento físico e sugerem que a PL seja utilizada em programas de treinamento que tenham como objetivo um pico de desempenho físico7,11.

Estudos recentes5-7 dos modelos de PL e PO indicam a necessidade de novas investigações, principalmente quando se comparam os modelos previamente descritos. Adicionalmente, estudos comparando modelos de periodização em indivíduos destreinados em TR são escassos, e poucos estudos verificaram as alterações musculares como o volume muscular5,9. Outro ponto importante é que todos os estudos que compararam modelos de periodização utilizaram sessões com sequências de exercícios seguindo do maior para o menor grupo muscular5,7,9 e a ordem dos exercícios pode interferir no aumento da força muscular16. Desta forma, nenhum estudo anterior verificou a influência da PL e da PO em uma sequência do menor para o maior grupo muscular; portanto, o objetivo do presente estudo foi comparar o efeito da PO e PL sobre a força máxima e hipertrofia muscular em uma sequência de execução dos exercícios dos menores para os maiores grupamentos musculares. Nossa hipótese é que a PO será mais eficiente que a PL para a melhora das variáveis dependentes analisadas.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Amostra

Trinta e dois homens, alunos do curso de formação de sargento da Marinha do Brasil, foram aleatoriamente distribuídos em três grupos. Todos eram fisicamente ativos e realizavam exercícios físicos de calistenia e aeróbicos. Todos os indivíduos relataram não ter experiência em TR. O fato dos indivíduos estarem participando do curso de formação de sargentos da Marinha do Brasil foi importante para que os indivíduos tivessem uma rotina diária semelhante durante o período de estudo. O primeiro grupo (PO, n = 10) treinou utilizando PO com variação diária da sobrecarga e do número de repetições máximas (RM). O segundo grupo (PL, n = 13) utilizou a PL, começando entre 12 e 15 RM nas primeiras semanas de treinamento e terminando com 3 a 5 RM nas últimas quatro semanas. O terceiro foi o grupo controle (GC, n = 9) que continuou executando o programa de atividade física militar regular durante o período de 12 semanas, mas não realizou o programa de TR. A comparação dos resultados do GC foi importante para verificar se o treinamento físico militar interferiu de forma significativa na força máxima e hipertrofia muscular.

Os critérios de inclusão do estudo foram: a) ser fisicamente ativo, mas não possuir experiência em TR; b) ser militar e aluno do curso de formação de sargento durante o protocolo experimental; c) não executar nenhum tipo de atividade física regular durante o período de estudo, com exceção do TR prescrito e o treinamento físico militar; d) não ter nenhuma limitação funcional para o TR ou para execução do teste de 1RM; e) não apresentar nenhuma condição médica que pudesse influenciar no programa de treinamento físico; f) não usar nenhuma suplementação nutricional durante o período de estudo.

Todos os participantes assinaram um termo de consentimento para participação em pesquisa e foram informados dos procedimentos dos testes e do protocolo de treinamento a ser executado durante o período de estudo. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ, Brasil, com protocolo número 014/018.

Teste de uma repetição máxima (1RM)

Após duas semanas de familiarização com os exercícios da sessão de TR, o que totalizou quatro sessões, todos os participantes realizaram duas sessões de teste de 1RM com intervalo de 48 a 72 horas entre as sessões. Os testes de 1RM foram executados para todos os exercícios usando uma ordem alternada. Os exercícios avaliados foram os mesmos utilizados no programa de treinamento: rosca bíceps em pé com barra reta (RB), rosca tríceps em pé na polia alta (RT), puxada aberta pela frente na polia alta (PA) e supino reto (SR). No primeiro dia foram executados os testes de 1RM e 48 a 72 horas após os testes foram repetidos para determinar a reprodutibilidade das cargas. A maior carga obtida nos testes foi utilizada para a análise estatística. Com o objetivo de não interferir nos resultados, nenhum exercício foi realizado entre os testes de 1RM. O protocolo do teste de 1RM foi descrito previamente17.

Para minimizar os erros durante os testes de 1RM, as seguintes estratégias foram adotadas: a) instruções padronizadas sobre os procedimentos de teste foram fornecidas aos participantes; b) os participantes receberam instruções sobre a técnica de execução dos exercícios; c) todos os indivíduos receberam estímulos verbais durante os testes; d) o peso de todas as anilhas, placas e barras utilizadas foram verificados em uma balança de precisão. A carga de 1RM foi determinada através de, no máximo, cinco tentativas para cada exercício, com um intervalo de cinco minutos entre as tentativas e 10 minutos entre os exercícios. Após as 12 semanas de treinamento, o teste de 1RM foi conduzido de forma similar ao momento pré-treinamento com objetivo de comparar com as cargas obtidas no pré-teste.

Contração isométrica voluntária máxima (CIVM)

O teste de contração CIVM foi previamente descrito18,19. Foi utilizado um teste isométrico de carga máxima para os flexores do cotovelo (FC) e extensores de cotovelo (EC). Para os FC, os indivíduos permaneciam sentados com o cotovelo direito flexionado a 90 graus. Já para os EC, o indivíduo ficava em decúbito dorsal com o ombro e cotovelo direito flexionado a 90 graus. Após comando verbal, o indivíduo realizava a CIVM por um período de oito segundos. A carga máxima considerada foi o valor máximo obtido no teste, medido em quilogramas-força. O punho estava envolto por uma cinta fixa presa a um cabo rígido e inextensível, conectado ao transdutor de força fixo no chão.

Medidas de espessura muscular

Para avaliação da espessura muscular (EM) foi utilizado um aparelho de ultrassonografia (US) modelo EUB-405, com transdutor linear e matriz de 512 elementos, com frequência de excitação de 7,5 MHz, resolução de profundidade de 65 mm e resolução lateral de 80,3 mm. Foi utilizado gel para o acoplamento acústico e para evitar a depressão da superfície da pele. Com os indivíduos em pé e com os braços relaxados ao longo do corpo, foi medida a circunferência do braço direito (CIR), a 60% do comprimento do braço (L), definido como a distância entre o processo do acrômio da escápula e o epicôndilo lateral do úmero. O transdutor foi acoplado transversalmente ao segmento para medir as espessuras dos flexores e extensores primários do braço anterior e posterior, respectivamente20. A EM foi considerada como a distância entre as interfaces do tecido muscular com o tecido ósseo e adiposo20,21, calculada com recursos do aparelho, condicionada à escolha da imagem com a melhor visualização. A medida da EM foi feita duas vezes consecutivas e a média foi utilizada para análise de dados.

Protocolo de treinamento

Após a obtenção das cargas em 1RM nos exercícios RB, RT, PA e SR, os sujeitos foram divididos aleatoriamente em um dos três grupos (PO, PL ou GC). Cada um dos grupos treinados (PO e PL) foi caracterizado pela forma de variação do volume e da intensidade do treinamento (tabela 1).

 

 

Um professor de educação física com experiência em TR supervisionou todas as sessões de treinamento. A frequência do programa de treinamento foi de duas sessões semanais com um intervalo de 72 horas entre as sessões, sendo totalizadas 24 sessões durante um período de 12 semanas, todas ocorrendo entre sete e oito horas da manhã. A análise dos dados foi realizada somente dos indivíduos que completaram as 24 sessões de treinamento.

Durante o programa de treinamento foram utilizados os mesmos exercícios executados na seguinte ordem para ambos os grupos: RB, RT, PA e SR. Os modelos de periodização sugeridos para o estudo foram aplicados a todos os exercícios. Sempre que os indivíduos realizavam mais repetições que as previstas para as séries de um exercício, a carga era incrementada para aquele exercício específico. Antes de cada sessão de treinamento, os sujeitos realizavam um aquecimento específico, incluindo 20 repetições com uma carga de 50% da utilizada no primeiro exercício da sessão. Durante a execução dos exercícios, os sujeitos foram encorajados verbalmente no decorrer de todas as séries para realizarem a série até a falha concêntrica. A técnica do movimento utilizada durante os testes de 1RM foi definida como padrão para que uma repetição fosse realizada com sucesso. A velocidade de execução da repetição não foi controlada, mas os participantes foram orientados a manter uma velocidade em que a técnica de execução não fosse modificada. A adesão ao programa de treinamento foi de 100%. Porém, apenas 90,1% participaram de todas as avaliações. Dos que não participaram, dois indivíduos pertenciam ao grupo PL e dois indivíduos pertenciam ao GC.

Tratamento estatístico

A reprodutibilidade dos testes de 1RM foi determinada pelo coeficiente de correlação intraclasse (CCI). A análise estatística foi inicialmente feita pelo teste de normalidade de Shapiro-Wilk e pelo teste de Bartlett para verificar a homocedasticidade dos grupos. Todas as variáveis apresentaram distribuição normal e homocedasticidade. Em seguida, uma ANOVA de dois caminhos com medidas repetidas 2 x 3 (pré-pós x grupos) (tempo [pré-treino versus 12 semanas de treinamento] x grupos [PO versus PL versus GC]) foi utilizada para verificar se houve diferença entre pré- e pós-treinamento sobre os testes de 1RM, CIVM e EM entre grupos. Quando necessário, as análises foram executadas usando o teste post-hoc Fisher's protected test for least significant differences (LSD). O cálculo do tamanho do efeito sobre o teste de 1RM, CIVM e EM foi realizado de acordo com a diferença, entre as médias pré- e pós-teste, dividida pelo desvio padrão pré-teste22. A escala proposta por Rhea23 foi aplicada para a classificação da magnitude do tamanho do efeito da força máxima, CIVM e EM. O teste t foi utilizado para analisar diferenças entre a carga total mobilizada (repetições x carga) e o número de repetições total (séries x repetições) em ambos os programas de treinamento. Em todos os casos adotou-se como nível de significância p < 0,05. Os dados foram analisados no software Statistica versão 7.0 (Statasoft, Inc., Tulsa, OK).

 

RESULTADOS

Na tabela 2 são apresentados os dados da descrição da amostra no pré-treinamento.

 

 

Teste de 1RM

Os resultados da reprodutibilidade das cargas obtidas nos testes de 1RM demonstraram altos CCI para o teste antes do treinamento para PO (SR r = 0,92, PA r = 0,90, RT r = 0,97 e RB r = 0,99), PL (SR r = 0,94, PA r = 0,92, RT r = 0,95 e RB r = 0,95), e GC (SR r = 0,94, PA r = 0,96, RT r = 0,92 e RB r = 0,93). Nos testes pós-treinamento também foram encontrados altos CCI para os três grupos: PO (SR r = 0,96, PA r = 0,94 RT r = 0,96 e RB r = 0,94), PL (SR r = 0,95, PA r = 0,94, RT r = 0,93 e RB r = 0,95) e GC (SR r = 0,95, PA r = 0,95, RT r = 0,94 e RB r = 0,95). Após 12 semanas, ambos os grupos de treinamento apresentaram aumentos significativos em relação às medidas pré-treinamento, porém não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos de treinamento. O grupo PO foi superior ao GC nos testes para RB e RT, e o grupo PL foi superior ao GC no teste de RT (figuras 1 e 2).

 

 

 

Repetições totais e carga total mobilizada

O volume total de repetições foi semelhante entre os grupos de treinamento com 2.894 ± 107 e 2.970 ± 111 repetições para PO e PL, respectivamente. Não foram encontradas diferenças para a média da carga total mobilizada entre PO e PL (369.025 ± 119.611 e 367.820 ± 144.027, respectivamente).

Contração isométrica voluntária máxima

Após 12 semanas, ambos os grupos de treinamento obtiveram incrementos significativos para flexão do cotovelo (FC) e extensão do cotovelo (EC). Entretanto, não houve diferenças significativas entre os grupos de treinamento. Ambos os grupos de treinamento foram superiores ao GC para as medidas pós-treinamento de FC; contudo, apenas PO foi superior ao GC para o teste de EC (figura 3).

 

 

Espessura muscular (EM)

A PO aumentou de forma significativa a EM dos FC e EC, o grupo PL aumentou significativamente a EM dos EC, porém não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos de treinamento (figura 4).

 

 

Análise do tamanho do efeito (TE)

Na tabela 3 podem ser visualizados os resultados do TE após 12 semanas de treinamento para o teste de 1RM. Os exercícios RT e RB demonstraram magnitude "grande" quando realizados em PO (3,70 e 2,04, respectivamente) e magnitudes "moderadas" e "pequenas" quando realizados em PL (1,47 e 1,12, respectivamente).

Em relação aos resultados da EM, os indivíduos que executaram a PO obtiveram resultados superiores aos obtidos pelos indivíduos do grupo PL. O grupo PO obteve magnitude "pequena" para EC e FC (1,14, 0,80, respectivamente), já o grupo PL obteve magnitude "trivial" para EC e FC (0,47 e 0,26, respectivamente).

 

DISCUSSÃO

O objetivo deste estudo foi avaliar e comparar o efeito de dois modelos de periodização (PO e PL) sobre a força máxima e hipertrofia muscular em uma sequência de TR realizada do menor para o maior grupamento muscular. Os maiores achados deste estudo foram que a PO foi mais efetiva para promover melhoras sobre a força dinâmica máxima nos exercícios que iniciavam a sessão e sobre a hipertrofia muscular do EC e FC. Adicionalmente, ambos os modelos de periodização do treinamento físico adotados foram eficientes para promover incrementos sobre a força máxima e que o treinamento físico militar executado pelo GC sem adição do TR não promoveu modificações sobre os parâmetros analisados.

Ao interpretar os resultados dos estudos em TR, não se deve observar somente a aceitação ou rejeição da hipótese nula, mas também o efeito que o tratamento teve sobre a variável dependente, chamado TE. Através do cálculo do TE foi possível verificar, com base em uma diferença padronizada das médias, o real efeito do tratamento sobre grupos independentes22. Para verificar a magnitude do tratamento através do TE, Rhea23 sugeriu uma escala de avaliação. Após a análise do TE, o modelo de PO demonstrou maior magnitude nos exercícios RB e RT (que iniciavam a sessão) nos testes de 1RM, comparado aos resultados obtidos pela PL. Por outro lado, os exercícios PA e SR (que finalizavam a sessão) apresentaram magnitudes similares para ambos os grupos de treinamento, classificada como "pequena".

Nossos resultados indicam que os exercícios que finalizaram a sessão de treinamento (SR e PA), por estarem alocados no fim da sequência, foram executados sob fadiga prévia, promovida pelos músculos acessórios já acionados durante a execução de RB e RT16,24,25, e consequentemente foram menos sensíveis aos incrementos de força máxima, o que indica que o SR e PA, além de apresentar menores incrementos de força, também não foram influenciados pelo modelo de periodização adotado. Dessa forma, observa-se uma maior eficiência da PO na evolução da força dinâmica máxima na fase inicial do treinamento para os exercícios que iniciam a sessão e na hipertrofia muscular dos EC e FC, porém os mesmos resultados não foram encontrados em relação ao aumento da CIVM. Corroborando parcialmente estes resultados, dois estudos realizados com amostras compostas por homens treinados4,6 verificaram superioridade da PO sobre os ganhos em força máxima.

Em estudo similar ao nosso, Simão et al.9 avaliaram indivíduos não treinados após 12 semanas de TR, divididos em três grupos, PO, PL e GC. Foram utilizados os mesmos exercícios do presente estudo, porém com a ordem inversa de execução (SR, PA, RT, RB). Corroborando os resultados do presente estudo, os autores demonstraram superioridade da PO na evolução do 1RM no SR e RB. No presente estudo, a PO demonstrou maior magnitude em relação à PL nos exercícios RB e RT, que estavam no início da sequência de exercício. No estudo de Simão et al.9, o SR foi executado no início da sessão de treinamento, e consequentemente apresentou sensibilidade ao modelo de periodização adotado, porém o mesmo não aconteceu com a PA, que possivelmente foi afetada negativamente por estar alocada após o SR na sessão. Contudo, no estudo de Simão et al.9, o RB, que esteve posicionado no fim da sequência, apresentou maior incremento de força quando executado pela PO. Uma possível explicação para as divergências dos resultados pode estar associada ao tamanho dos grupamentos musculares envolvidos em cada exercício24.

Prévios estudos demonstraram que a ordem dos exercícios pode influenciar o desenvolvimento da força máxima16,24,25. Adicionalmente, nossos resultados indicam que o modelo de periodização do TR talvez não exerça a mesma influência sobre todos os exercícios em uma sequência, pois os exercícios que iniciam a sessão de treinamento podem ser potencializados pela manipulação das variáveis pertinentes a intensidade e volume. Dias et al.24 examinaram a influência da ordem dos exercícios na força máxima de homens jovens destreinados após oito semanas de treinamento. Os resultados demonstraram diferenças significativas nos exercícios para pequenos grupamentos musculares (RB e RT) entre as diferentes sequências de exercícios, sugerindo que a ordem dos exercícios pode ser particularmente importante durante os estágios iniciais do TR em homens jovens destreinados, principalmente nos exercícios para pequenos grupamentos musculares. Esses resultados corroboram os nossos, visto que os maiores incrementos na força máxima foram nos exercícios para os pequenos grupamentos musculares, nos quais o modelo de periodização exerceu maior influência. Baseado nos resultados de Dias et al.24, uma possível explicação para o fenômeno ocorrido no presente estudo pode estar associada à ordenação de execução dos exercícios, em que os exercícios posicionados no fim da sessão apresentaram menores magnitudes de incremento de força máxima independente do modelo de periodização utilizado.

Em relação aos resultados dos testes de CIVM, ambos os grupos de treinamento demonstraram aumentos significativos nas medidas pré e pós treinamento para os FC e EC, e em relação ao GC nos testes dos FC, porém apenas o grupo PO foi superior nos testes dos EC, sem diferenças significativas entre PO e PL. Hartmann et al.13 avaliaram estudantes esportistas e não encontraram diferenças significativas entre os grupos de treinamento (PO e PL) e o GC para a CIVM realizada no exercício SR. No presente estudo, o percentual de evolução nos testes de CIVM foi inferior ao encontrado nos testes de 1RM para os mesmos grupos musculares, porém a PO obteve magnitude "pequena" para a evolução das cargas, o que demonstra que o teste foi sensível ao protocolo de treinamento adotado. No entanto, ambos os grupos de treinamento no estudo de Hartmann et al.13 apresentaram magnitude "trivial", o que evidencia que o teste não foi sensível ao protocolo utilizado. As diferenças dos resultados podem estar associadas ao nível de força dos sujeitos no início de cada estudo, pois no presente estudo os indivíduos relataram não possuir experiência em TR; já no estudo de Hartmann et al.13, um dos critérios de inclusão foi possuir, no mínimo, um ano de experiência em TR. Desta forma, conclui-se que as modificações do comportamento da curva força-velocidade em teste isométrico não são semelhantes em indivíduos com diferentes níveis de força após fases iniciais de TR26.

O protocolo utilizado no presente estudo foi suficiente para promover adaptações nas medidas de EM dos EC, mesmo não havendo diferenças significativas entre PO e PL. Ambos os grupos de treinamento apresentaram EM dos EC superiores ao GC. No entanto, as mesmas respostas não foram encontras para os FC, no qual não houve diferenças entre os grupos de treinamento e o GC, só havendo diferença pré- e pós-treinamento para o grupo PO. Adicionalmente, os dados do TE demonstraram que a PO apresentou maior magnitude na hipertrofia dos EC e FC comparada à PL. Esses resultados sugerem a superioridade da PO em relação à PL nas fases iniciais do TR sobre os ganhos em hipertrofia muscular, indicando que a alternância constante do volume e da intensidade pode resultar em maiores ganhos. Uma possível explicação para que a EM dos FC tenha apresentado evolução apenas na PO pode estar relacionada à maior estimulação do sistema neuromuscular6. Os participantes do grupo PO foram submetidos a constantes variações na sobrecarga mobilizada, no número de repetições realizadas e a diferentes intervalos de recuperação a cada sessão, ficando menos expostos à monotonia da carga de treinamento quando a intensidade e volume são manipulados em bases mensais4, o que pode promover estagnação das adaptações neuromusculares9.

Outro aspecto importante a ser analisado é o somatório do peso mobilizado e volume de repetições executadas por cada grupo de treinamento ao longo das sessões. Não foram observadas diferenças significativas tanto para o volume de repetições quanto para a carga mobilizada. Tal fato demonstra que o método de zona de repetições, o qual propicia o treinamento por repetições máximas, não influenciou no volume e na carga de trabalho. Desta forma, podemos afirmar que as diferenças encontradas entre os grupos de treinamento foram em decorrência do modelo de periodização adotado.

O presente estudo possui limitações. Dentre as mais importantes podemos citar o tempo de duração do experimento (12 semanas), que pode não ter sido suficiente para promover respostas ótimas sobre a hipertrofia muscular27. Adicionalmente, uma maior frequência semanal, assim como um maior volume de exercícios por grupo muscular, poderia ter induzido maiores repostas sobre as variáveis dependentes analisadas. Futuros estudos devem analisar os modelos de periodização no TR através de modelos experimentais mais longos e com maiores volume de exercícios por grupo muscular.

 

CONCLUSÃO

Os modelos de PO e PL no TR foram eficientes para promover melhorias sobre as variáveis analisadas ao longo das 12 semanas, porém a PL só obteve melhores respostas que o GC sobre o teste de 1RM do exercício RT e CIVM dos FC, e não promoveu melhora na EM dos FC, ao passo que, em alguns parâmetros analisados, a PO foi mais eficaz quando comparada à PL. Adicionalmente, com base nos dados do TE, a PO foi mais efetiva para promover aumentos nas cargas de 1RM dos exercícios que iniciaram a sessão e na EM dos FC e EC. Baseados em tais resultados, confirmamos a hipótese inicial, de que a PO é mais efetiva no aumento dos níveis de força dos exercícios que iniciam a sessão e sobre a hipertrofia muscular na fase inicial do treinamento quando comparada à PL.

 

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Correspondência:
Departamento de Ginástica da Escola de Educação Física e Desportos. Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Av. Pau Brasil, 540, Ilha do Fundão
21941-901 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
juliano.spineti@hotmail.com

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

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