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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

versão impressa ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.19 no.5 São Paulo set./out. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922013000500004 

ARTIGO ORIGINAL
CINEANTROPOMETRIA

 

Comparação do percentual de gordura obtido por bioimpedância, ultrassom e dobras cutâneas em adultos jovens

 

 

Eduardo Borba Neves; Wagner Luis Ripka; Leandra Ulbricht; Adriana Maria Wan Stadnik

Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba – Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Comparar o ultrassom (US) portátil e a bioimpedância elétrica (BIA) com as dobras cutâneas (DC) para estimar o percentual de gordura corporal em adultos.
MÉTODOS: Foram avaliadas 195 militares, sexo masculino, sendo coletados: peso, estatura, percentual de gordura por bioimpedância, dobras cutâneas e ultrassom (US) em nove pontos (tríceps, subescapular, bíceps, peitoral, médio axilar, abdominal, suprailíaca, coxa e panturrilha). Além da estatística descritiva, foram utilizados gráficos de dispersão, o teste Kolmogorov-Smirnov, coeficiente de correlação
π (rho) de Spearman, o Wilcoxon Signed Ranks Test e a regressão linear para a elaboração de uma nova equação para a estimativa do percentual de gordura corporal em adultos jovens (do sexo masculino).
RESULTADOS: O grupo apresentou idade média de 23,07 ± 7,55 anos, para peso e estatura os valores da média e desvio padrão foram: 72,65 ± 10,40 kg; 1,74 ± 0,06 metros, respectivamente. Comparando os resultados entre US e DC, verificaram-se correlações significativas para todos os pontos avaliados, sendo a prega da coxa a com maior correlação, seguida pelo peitoral. Comparando-se os três métodos, o US apresentou melhor correlação com a BIA do que com as DC. Pode-se propor uma nova equação de estimativa do percentual de gordura por US, que apresentou uma melhor correlação com o método das DC do que aquela utilizada pelo próprio equipamento.
CONCLUSÃO: Foi possível verificar que na população estudada o US e a BIA podem estimar o percentual de gordura corporal com boas correlações com o método da DC.

Palavras-chave: ultrassom, bioimpedância, dobras cutâneas, composição corporal.


 

 

INTRODUÇÃO

Uma das características desenvolvidas ao longo da evolução humana foi a capacidade de estocar energia na forma de gordura, uma característica que ocorre desde os nossos ancestrais que encaravam condições extremas de sobrevivência. Com a evolução das espécies esta característica se tornou um ponto negativo, porque nas últimas décadas o homem vem desenvolvendo tecnologias para ajudá-lo a preservar energia e fazer menos esforços, transformando-o em um indivíduo obeso e hipocinético1. Comumente é mostrada pela literatura a existência de inúmeros problemas relacionados ao excesso de peso, acúmulo ou perda excessiva de gordura2. A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica a obesidade como uma epidemia do século XXI, destacando que existem 300 milhões de pessoas nesta situação3. Estes problemas podem ser diagnosticados, por exemplo, pela avaliação da composição corporal (CC), que ao longo dos tempos tem-se mostrado como potencial fonte de estudos por tratar-se de ferramenta que busca quantificar os componentes do organismo humano4, permitindo assim o acompanhamento em diversas variáveis da aptidão física relacionada com a saúde, doença e qualidade de vida das pessoas5.

Devido à relevância das informações sobre composição corporal, novos instrumentos surgem para completar lacunas existentes em praticidade, fidedignidade e reprodutibilidade6. Buscariolo et al.4 destacam a avaliação dos componentes da composição corporal pelas técnicas de dobras cutâneas (DC) e a utilização de índices relacionando a massa corporal à estatura como o índice de massa corporal (IMC), como as mais utilizadas para estimativa da gordura subcutânea (%G), cada qual com suas vantagens e limitações; por exemplo, a OMS devido a razões práticas, coloca o IMC como um indicador válido para estudos epidemiológicos e em situações com indisponibilidade de equipamentos. Contudo, esta técnica não mostra forte correlação com a gordura corporal real. O uso do adipômetro, por sua vez, pode ser bastante preciso desde que seja realizado por um profissional treinado e usando o equipamento adequado7. Outros métodos menos utilizados podem ser mencionados, como a pesagem hidrostática (PH), a tomografia computadorizada, a bioimpedância elétrica (BIA), o Dual Energy X-Ray Absorptiometry (DEXA) e a ultrassonografia (US)8,9. No entanto, estes últimos são, muitas vezes, de difícil execução e/ou possuem um custo elevado, sendo utilizados normalmente em ambiente laboratorial. Com a maior acessibilidade da tecnologia, observa-se tendência para o desenvolvimento de técnicas mais sofisticadas para estimativa da composição corporal, voltadas à utilização fora do ambiente laboratorial2.

Rodrigues et al.2 compararam as técnicas de bioimpedância, dobras cutâneas e a pesagem hidrostática (método de referência) e concluíram que as dobras cutâneas se correlacionavam melhor com o método de referência do que a bioimpedância. Resultado semelhante foi encontrado por Lintsi et al.10, quando compararam as DC e a BIA com os resultados obtidos por DEXA. Assim, as DC continuam sendo o método de escolha para a avaliação de grandes grupos a baixo custo. O emprego do US para a estimativa do percentual de gordura tem sido utilizado pela zootecnia com relativo sucesso, como demonstrado no estudo realizado por Suguisawa et al.11 em bovinos; contudo, nota-se carência na literatura do emprego do US na população humana.

A principal vantagem da bioimpedância elétrica e do US portátil em relação às dobras cutâneas seria a minimização das variações inter e intra-avaliador, portabilidade do equipamento e facilidade de manuseio por iniciantes. Neste sentido, o presente trabalho tem por objetivo comparar o US portátil e a BIA com as DC para estimar o percentual de gordura corporal em adultos jovens.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal que avaliou a composição corporal de 195 homens, militares do Exército Brasileiro sediados no município de Curitiba. A coleta de dados aconteceu no mês de julho de 2010.

Para a avaliação antropométrica foram utilizados os seguintes materiais: fita métrica flexível com 0,5 cm de largura, graduada em centímetros e décimos de centímetros, adipômetro científico (Cescorf ) calibrado; balança digital (Wiso W801), com capacidade de 0-180 kg e graduação de 100 g; estadiômetro (WCS Woody Compact). Para a bioimpedância, foi utilizado o aparelho BF-900 (Maltron, Reino Unido), com eletrodos de gel para ECG. A ultrassonografia foi feita com a utilização do aparelho BX2000 (BodyMetrix – IntelaMetrix, Inc.) acoplado em um microcomputador Pentium 4, 3.4 Ghz, com 2 Gb de memória RAM.

Para calcular o IMC foi utilizada a equação massa corporal (kg) sobre altura ao quadrado (em metros). Foram adotados como normal valores abaixo de 25 kg/m2 e como sobrepeso valores acima ou iguais a esta referência, Neves12 destaca que o risco relativo de mortalidade associado com o IMC é representado por um gráfico em forma de U ou J, no qual os valores abaixo de 25 kg/m2 compreendem menos risco à saúde.

Foram coletadas medidas dos pontos: peitoral (PT), tríceps (TR), subescapular (SB), axilar médio (AM), suprailíaco (SI), abdome (AB), coxa (CX), panturrilha medial (PM) e bíceps (BI); onde a espessura da dobra cutânea foi determinada três vezes para cada ponto e, posteriormente, calculada a média aritmética.

Para o cálculo da densidade corporal (DC) foi utilizada a equação de sete dobras desenvolvida por Jackson e Pollock13, e para estimativa do percentual de gordura foi utilizada a equação de Siri14.

Para bioimpedância todos os sujeitos foram orientados com relação aos seguintes procedimentos15: não ingerir grande quantidade de água; não realizar refeições nas duas horas anteriores ao exame; não ingerir bebidas alcoólicas ou realizar exercícios vigorosos nas 24 horas anteriores ao exame; e ter urinado pelo menos 30 minutos antes do teste. As medidas foram efetuadas uma única vez com o indivíduo em decúbito dorsal, trajando apenas roupa de banho e livre de qualquer objeto metálico, sendo fixados quatro eletrodos no lado direito nas mãos e pés do avaliado.

A análise por ultrassom, que opera na frequência de 2,5 MHz, deu-se também em uma única vez, o aparelho funcionou com uma interface via porta USB ao microcomputador. Seu software BodyView, baseado nos índices de refração do músculo, gordura e osso, dimensionou as camadas e mediu em milímetros a quantidade de gordura do ponto analisado, sendo a fração de reflexão (R) gordura-músculo R = 0,012 e músculo-osso R = 0,22 (figura 1). O coeficiente de refração é calculado com base na mudança de velocidade e de direção que sofre a onda sonora ao passar de um meio elástico a outro. Foram avaliados os mesmos pontos do adipômetro e o percentual de gordura foi calculado automaticamente pelo software do equipamento.

 

 

O estudo utilizou a estatística descritiva, com medidas de posição e dispersão para caracterização da amostra e estatística inferencial para correlação das variáveis e verificação de significância. Para análise da correlação entre os valores em milímetros obtidos pelo adipômetro e do equipamento de ultrassom, recorreu-se ao coeficiente de correlação de Spearman. Utilizou-se a técnica de regressão linear para se chegar a uma nova equação de predição de percentual de gordura corporal a partir dos valores de espessura da camada pele-gordura estimados pelo US. O Wilcoxon Signed Ranks Test foi utilizado para verificar a diferença entre as médias das medidas de DC, BIA e US. O pressuposto para a utilização das estatísticas não paramétricas foi o teste de Kolmogorov-Smirnov.

O estudo seguiu os aspectos éticos recomendados pela Resolução nº 196/96 sobre pesquisa envolvendo seres humanos, bem como os princípios éticos contidos na Declaração de Helsinki .

 

RESULT ADOS

Foram avaliados 195 militares, todos do sexo masculino, com idade média de 23,07 ± 7,55 anos; para peso, estatura e IMC os valores da média e desvio padrão foram: 72,65 ± 10,40 kg; 1,74 ± 0,06 metros e 23,96 ± 3,02 kg/m2, respectivamente; para o percentual de gordura, obtido pelas pregas cutâneas, o valor médio do grupo foi de 14,59 ± 6,42%, conforme mostrado na tabela 1.

 

 

As variáveis estudadas foram verificadas com o teste de Kolmogorov-Smirnov e não apresentaram distribuição próxima da curva normal. Os resultados da tabela 2 mostram os valores em milímetros a partir da leitura do adipômetro com o valor apresentado pelo US.

Pela tabela 2 pode-se perceber que em apenas três pontos anatômicos (subescapular, supraíliaca e coxa) os valores médios do US foram menores que os medidos por DC. A maior discrepância encontrada foi na espessura cutânea de bíceps. O Wilcoxon Signed Ranks Test indicou diferença estatisticamente significativa entre as médias dos seguintes pontos anatômicos: tríceps, bíceps, peitoral, abdominal, suprailíaca, coxa e panturrilha. Os resultados apresentados na tabela 3 expressam a correlação entre os três métodos utilizados, sendo estes calculados para a amostra geral e seccionados por IMC menor que 25 kg/m2 e maior ou igual a 25 kg/m2. O Wilcoxon Signed Ranks Test indicou diferença estatisticamente significativa entre as médias dos percentuais de gordura avaliados por bioimpedância e por DC e entre os avaliados por bioimpedância e por US. Em ambos os casos a bioimpedância superestimou os valores (p < 0,001). A tabela 4 apresenta as correlações ponto a ponto para os valores obtidos em milímetros com o adipômetro e o aparelho de ultrassom. Quando analisado o grupo de maneira geral foram observadas correlações significativas entre todos os pontos avaliados, sendo que as medidas que apresentaram maior e menor correlação foram a prega da coxa (rho = 0,715) e a de panturrilha (rho = 0,249), respectivamente.

 

 

 

 

Uma possível explicação para baixa correlação para a panturrilha pode ser a proximidade das camadas gordura-músculo e músculo-osso e, no que se refere à prega de coxa, a boa correlação pode estar ligada às espessuras das camadas, que nesse local são relativamente menores.

A identificação dos pontos anatômicos com melhor correlação permitiu a elaboração de uma nova equação (equação 1), considerando-se os locais com correlação superior a 0,600 e as variáveis idade e peso. Esta foi desenvolvida por meio de uma regressão linear em que se determinou a seguinte equação:

onde: Gord_US_novo – percentual de gordura calculado a partir da estimativa da espessura das camadas de pele-gordura pelo US portátil Bodymetrix, peso e altura dos sujeitos;

USTríceps – espessura estimada pelo US para o sítio anatômico do tríceps;

USCoxa – espessura estimada pelo US para o sítio anatômico da coxa;

USSubescapular – espessura estimada pelo US para o sítio anatômico subescapular.

A medida de peitoral foi desconsiderada na equação, pois apresentou coeficiente menor do que 0,10, uma vez que, apesar da medida de peitoral do US apresentar uma boa correlação com a medida de DC do mesmo ponto anatômico, quando se trata do percentual de gordura como variável independente, existem outras variáveis dependentes, como o peso e a idade, que modificaram a capacidade de predição do percentual de gordura pela medida de peitoral do US. Os valores de percentual de gordura obtidos por meio desta equação apresentaram uma correlação rho = 0,783 por Spearman.

 

DISCUSSÃO

O excesso de gordura corporal é na realidade uma doença crônico-degenerativa que está associada ao aumento na morbidade e mortalidade de adultos, porque ele é um fator desencadeante para muitas desordens para os homens, como doenças cardiovasculares, diabetes, diminuição da capacidade respiratória e até mesmo câncer16,17. Assim, instrumentos para avaliar precisamente, com confiabilidade, ampla aplicabilidade, tornaram-se um fator fundamental18.

Obter o percentual de gordura utilizando o adipômetro é uma ferramenta útil quando você tem um avaliador treinado e confiável, e este pode ser utilizado para monitorar a composição corporal da população. Infelizmente, o número de equações utilizadas por este método indica o uso para populações específicas, o que aumenta o erro esperado deste método19. Historicamente, a técnica da ultrassonografia para a avaliação da gordura subcutânea, segundo os estudos de Whittingham20, vinha sendo utilizada com frequência em animais domésticos, sendo que o autor, após algumas modificações na metodologia original, deixou uma impressão favorável quanto ao seu uso em grupos de seres humanos. Ainda dentro deste contexto, Booth et al.21 chegaram a levantar a possibilidade de que as medidas por ultrassom da gordura subcutânea serem mais fidedignas do que por compasso, fato refutado por Sloan22, que encontrou resultados semelhantes entre os valores de dobras cutâneas e as medidas por ultrassom.

O estudo de Booth et al.21 avaliou a estimativa de CC por US, BIA e DC. Com relação às medidas de DC, o estudo demonstrou que ocorriam diferenças entre as duas medidas realizadas, sendo que na primeira coleta os resultados eram sempre superiores aos da segunda coleta, principalmente em indivíduos mais obesos. Resultado este que os autores atribuíram à compressão da camada de gordura durante o uso do compasso. A melhor correlação encontrada foi entre o US e a BIA (r = 0,98, stantard error = ±0,24) do que entre as DC e a BIA (r = 0,81, stantard error = ±0,57) ou DC e US (r = 0,81, stantard error = ±0,60). Sendo que os autores destacaram como principal aspecto do seu estudo a diferença entre os resultados obtidos através da estimativa pelas DC e as outras duas técnicas.

Esta pesquisa encontrou resultados semelhantes, uma vez que a correlação entre o US e a BIA foi maior (0,767), do que pela BIA e DC (0,742) e US e as DC (0,709), conforme apresentado na tabela 3. Com relação aos sujeitos mais obesos, IMC maior ou igual a 25, verifica-se também que ocorre uma alteração nas correlações obtidas, uma vez que nestes a correlação encontrada diminui na comparação entre todos os métodos. Contudo, nesta população, a correlação entre o US e as DC é maior (0,629) do que entre o US e a BIA (0,623). Estes resultados parecem reforçar a limitação da estimativa da CC em sujeitos mais obesos.

Contudo, pode-se destacar algumas limitações do estudo de Booth et al.21, sendo as principais: o baixo número de sujeitos (de ambos os sexos) envolvidos e a coleta em poucos pontos anatômicos, uma vez que os resultados comparando o US e a BIA e as DC e a BIA foram obtidos somente a partir da avaliação da prega abdominal e utilizando 20 e 14 sujeitos, respectivamente. Uma melhor comparação, mas ainda limitada, foi obtida entre as DC e o US, que utilizou as dobras abdominal e subescapular em 35 pessoas.22

Em 1984, foi conduzida uma pesquisa por Fanelli e Kuczmarski23, envolvendo 124 homens com idades entre 18 e 30 anos, comparando a CC obtida por três técnicas, DC, US (7,0 MHz) e pesagem hidrostática (PH). As medidas de gordura subcutânea com o US e DC foram realizadas em sete pontos anatômicos: tríceps, subescapular, bíceps, abdominal, suprailíaca, coxa e panturrilha e demonstraram uma boa correlação para todos os pontos, sendo mais altas para tríceps (r = 0,807), abdominal (r = 0,855) e coxa (r = 0,871). Para estimar qual o método era mais exato para estimar a gordura corporal, ambos foram comparados com a pesagem hidrostática e ambos apresentaram altas correlações, apesar de as DC apresentarem uma correlação mais alta para cinco (tríceps, bíceps, subescapular, suprailíaca e panturrilha) dos sete pontos avaliados. O US obteve correlações melhores somente no abdome e coxa.

Este estudo também apresentou a prega da coxa com a mais alta correlação; contudo, a mais baixa foi a panturrilha enquanto que no estudo de Fanelli e Kuczmarski23 foi a subescapular (0,677).

O estudo de Black et al.24 com US com pulsos de alta frequência (10 MHz) comparou as estimativas de gordura subcutânea entre o US, DC e tomografia computadorizada (CAT). Neste estudo foram investigados 39 voluntários (30 homens e nove mulheres) para a comparação entre o US e as DC, em quatro pontos anatômicos (abdominal, subescapular, tríceps e coxa) e 10 pacientes (quatro homens e seis mulheres) para a comparação entre a CAT e o US (em quatro pontos localizados no abdome, situados a 5 e 10 cm de cada lado da região umbilical). Na comparação entre o US e a CAT, o US subestimou a CC e, na comparação entre o US e as DC, os resultados foram inversos, uma vez que o US obteve medidas mais altas que as DC (apesar de a diferença ter sido estatisticamente significativa para duas das medidas: subescapular e coxa). O estudo conclui que está claro que o sistema de medida por ultrassom pode produzir estimativas de espessura de gordura subcutânea satisfatórias, quando comparada com a CAT (r = 0,758) ou com as DC (r = 0,804).

Os autores ainda descrevem que as DC apresentaram uma redução de 20% no valor da prega abdominal, em comparação com o US, devido à forma de compressão pelo instrumento, e que a melhor aplicação da técnica de DC foi no abdome (r = 0,865) devido à facilidade de pinçamento desta dobra cutânea. Os outros pontos deram correlações mais pobres devido à dificuldade de pinçamento, principalmente na região da coxa, que possui a camada de gordura mais fina (r = 0,343).

Um problema encontrado no decorrer do estudo de Black et al.24, entre pessoas obesas, foi o aparecimento de membrana divisória (septum) na camada de gordura, pois esta situação resultava na formação de dois ecos na aferição na medição do US. Em nosso estudo, como a amostra utilizada era de homens magros (IMC geral de 23,96), esta situação não deve ter interferido nos resultados.

A análise da gordura corporal total realizada por Pineau et al.25, com 93 atletas jovens entre 18 e 33 anos, média de 23,5 anos, de ambos os sexos (24 mulheres e 69 homens), comparou os resultados obtidos através do US portátil (5,0 MHz) e do DEXA. Como resultados, os autores verificaram que a estimativa da gordura corporal total realizada pelo US e pelo DEXA obteve um alto nível de acurácia para ambos os sexos (geral r = 0,99, stantard error = ±1,13; mulheres (n = 11) r = 0,98, stantard error = ±1,61; homens (n = 35) r = 0,98, stantard error = ±0,96).

Estudo recente de Reyes et al.26, realizado com crianças obesas, indicou que as correlações obtidas para o segmento adiposo intra-abdominal medido por US foram melhores do que as obtidas pela antropometria. Além disso, encontraram associações significativas entre a deposição adiposa intra-abdominal estimada pelo US e a presença de fatores de risco cardiovascular, que permitiram discriminar a presença de alterações nos parâmetros metabólicos das crianças obesas.

Outro estudo divulgado pela empresa IntelaMetrix, os autores Utler e Hager27 compararam o resultado da estimativa de composição corporal pela pesagem hidrostática, DC e US em uma população heterogênea de 70 lutadores do ensino médio. Nesse estudo foi encontrada uma correlação de 0,97 entre a pesagem hidrostática e o US, e de 0,96 entre a pesagem hidrostática e as DC.

As dobras cutâneas que apresentaram maior correlação neste estudo foram: a coxa, peitoral, subescapular e tricipital (tabela 3). Contudo, chama a atenção o fato de o US ter superestimado os valores das pregas tricipital e peitoral e subestimado os valores das dobras subescapulares e coxa quando comparado com as DC. Esse fato pode estar ligado às distâncias entre as interfaces gordura-músculo e músculo-osso, que são consideradas como pontos de referência na técnica utilizada pelo equipamento.

O princípio de funcionamento do Bodymetrix (2,5 MHz) segue o modo mais simples de operação de um sistema de ultrassom, isto é, pulsos de ultrassom de curta duração são enviados por um único transdutor que também funciona como receptor dos ecos refletidos nas interfaces entre as diversas camadas corporais. As maiores reflexões ocorrem nas grandes interfaces, por exemplo: na camada de gordura subcutânea e no músculo. Entretanto, ocorre espalhamento das ondas ultrassônicas nas interfaces pequenas (partículas menores que o comprimento de onda do ultrassom), por exemplo: gordura intramuscular. Neste sentido, a distribuição aleatória de interfaces dá origem a interferências causando artefatos no sinal. Haymes et al.28, no estudo com 20 mulheres e 17 homens, verificaram que a correlação entre as medidas obtidas por meio das DC e pelo US foram geralmente mais altas entre as mulheres sobre cada uma das quatro pregas aferidas (abdominal, suprailíaca, subescapular e antebraço). Tal fato reforça a ideia de que a variabilidade das distâncias entre as interfaces em cada ponto anatômico ainda é uma questão mal resolvida nesta metodologia.

Como a população estudada foi de jovens considerados magros e militares, que realizam cotidianamente exercícios na barra fixa e, consequentemente, desenvolvem o músculo grande dorsal, as dobras subescapular e coxa representam áreas com desenvolvimento muscular; a subestimação neste caso coincide com os achados de Suguisawa et al.11, que estudaram a composição corporal de bovinos e verificaram que a medida que aumentava a musculosidade da carcaça existia uma diminuição da estimativa da gordura subcutânea via US.

A identificação dos pontos anatômicos com melhor correlação possibilitou o desenvolvimento de uma nova equação (equação 1) para obtenção do percentual de gordura corporal por meio de uma regressão linear. Essa nova equação apresentou uma correlação significativamente melhor com as DC (rho = 0,783) do que os valores de percentual de gordura calculados pelo software do aparelho Bodymetrix (rho = 0,709).

Bioimpedância é a magnitude da oposição do substrato biológico à passagem de uma determinada corrente elétrica (alternada). Sua medida é influenciada por variáveis como: frequência do sinal elétrico, processos eletroquímicos, temperatura, potencial de hidrogênio (pH), estado de hidratação e a viscosidade do fluido ou tecido biológico em questão8. Assim, os tecidos magros são altamente condutores de corrente elétrica devido a grande quantidade de água e eletrólitos, ou seja, apresentam baixa resistência à passagem da corrente elétrica. Por outro lado, a gordura, o osso e a pele constituem um meio de baixa condutividade, apresentando, portanto, elevada resistência.

Dentre os aparelhos de bioimpedância testados por Rodrigues et al.2, aquele que demonstrou os maiores índices de concordância e associação com a pesagem hidrostática foi o Maltron BF-900, o mesmo utilizado neste estudo. Entretanto, no presente estudo, a correlação encontrada com o método de referência foi superior (rho = 0,742) ao encontrado por Rodrigues et al.2, que foi r = 0,55 com um p < 0,01.

Do ponto de vista elétrico, os tecidos biológicos podem ser interpretados como um circuito complexo formado por resistores e capacitores dispostos tanto em série quanto em paralelo, e que agem como condutores ou dielétricos, no qual o fluxo de corrente seguirá o caminho de menor oposição8. Assim, o fato de se observar uma maior correlação entre a bioimpedância e as DC em sujeitos com IMC > 25 talvez esteja ligada à estimativa do valor da reatância dos capacitores que simulam a interface eletrodo-pele, pois nos sujeitos com mais tecido adiposo subcutâneo, a variabilidade da reatância dessa interface tende a exercer menor influência no valor final da impedância.

Por esse mesmo motivo se explicaria a boa correlação (rho = 0,767) encontrada entre as medicas obtidas pelo US e pela bioimpedância, uma vez que, como discutido anteriormente, camadas de pele-gordura muito finas parecem aumentar a variabilidade das medidas do US.

 

CONCLUSÃO

Novas ferramentas foram criadas para suplementar lacunas na utilização prática, com confiabilidade e reprodutibilidade; contudo, todos os métodos de avaliação da composição corporal apresentam aspectos positivos e negativos. Ao se comparar os percentuais de gordura estimados pelo ultrassom (US) portátil e pelas dobras cutâneas (DC), verificou-se correlações significativas entre todos os pontos avaliados. Os pontos com maiores correlação foram coxa (rho = 0,715) e peitoral (rho = 0,700), pontos estes com a espessura de gordura menores e maior desenvolvimento muscular. As piores correlações encontradas foram panturrilha (rho = 0,249) e axilar média (rho = 0,377).

De maneira geral, o US superestimou os valores de percentual de gordura quando comparados com os obtidos por DC, exceto para as dobras subescapular, suprailíaca e coxa. Resultados semelhantes foram descritos em outros estudos, mostrando que as DC apresentaram uma redução de 20% no valor da prega abdominal em comparação com o US, devido à forma de compressão pelo instrumento, e que a melhor aplicação da técnica de DC ocorria em pontos com facilidade de pinçamento da dobra cutânea. Comparando as três metodologias, verificou-se que o US apresentou uma melhor correlação com a BIA (rho = 0,767) do que com as DC (rho = 0,709), tanto no geral quanto entre os mais magros. Entre os com sobrepeso e obesos (IMC maior ou igual a 25), a situação inverte-se e a correlação entre US e as DC é maior (rho = 0,629) do que entre o US e a BIA (rho = 0,603). Por fim, baseando-se nos pontos anatômicos com melhor correlação (superiores a 0,600), sugere-se uma nova equação por meio de uma regressão linear, para estimativa de CC por US que aumentou a correlação obtida por meio da equação tradicional de rho = 0,709 para rho = 0,783. Apesar da melhora na correlação não ultrapassar 0,080 pontos, é importante observar que a nova equação utiliza apenas três pontos anatômicos, o que reduz o tempo de coleta de dados com melhora na estimativa do percentual de gordura quando comparado com os valores estimados por DC.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao CNPq e ao CAPES pelo apoio a esta pesquisa.

 

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Correspondência:
Departamento Acadêmico de Educação Física
Av. Sete de Setembro, 3.165, Rebouças
80230-901 – Curitiba, PR, Brasil
borbaneves@hotmail.com

Recebido em 28/04/2011, Aprovado em 09/08/2013.

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

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