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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.19 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2013

https://doi.org/10.1590/S1517-86922013000600009 

ARTIGO ORIGINAL

 

Efeito de diferentes métodos de recuperação sobre a remoção de lactato e desempenho anaeróbio de futebolistas

 

Effect of diferents methods of recovery on the lactate removal and anaerobic performance in soccer players

 

Efecto de diversos métodos de recuperación sobre la remoción de lactato y el desempeño anaeróbico de futbolistas

 

 

Homero Gustavo FerrariII, III; Ramon OliveiraI; Marcos Vinicius StrapassonI; Ricardo Alexandre Rodrigues Santa CruzI, IV; Cleiton Augusto LibardiV; Claudia Regina CavaglieriII

IUniversidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP); Programa de Pós-Graduação em Educação Física - Piracicaba, SP, Brasil
IIUniversidade Estadual de Campinas (Unicamp); Faculdade de Educação Física - Campinas, SP, Brasil
IIIFaculdades Integradas Einstein de Limeira - Limeira, SP, Brasil
IVUniversidade Estadual de Roraima (UERR) - Boa Vista, RR, Brasil
VUniversidade Federal de São Carlos (UFSCAR) - Departamento de Educação Física - São Carlos, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: O futebol é caracterizado como uma modalidade com intensidades elevadas, realizado de forma intermitente e com sequências aleatórias de fases de esforço e recuperação, dessa forma estratégias que possam de alguma forma minimizar a fadiga muscular, pode fornecer uma importante vantagem competitiva.
OBJETIVO: O presente estudo teve como objetivo comparar diferentes tipos de métodos de recuperação sobre remoção de lactato (La-) sanguíneo e desempenho anaeróbio de futebolistas.
MÉTODOS: A amostra foi composta por 23 atletas de futebol entre 16 e 17 anos do sexo masculino, divididos em três grupos: recuperação ativa (RA), passiva (RP) e com gelo (RG). Para a avaliação da capacidade aeróbia foi utilizada a velocidade crítica e para a indução da hiperlactacidemia e desempenho anaeróbio foi utilizando o teste de RAST, aplicado antes (T1) e após (T2) os intervalos de recuperação. As dosagens de La- sanguíneo ocorreram nos minutos dois, quatro, seis, oito e 10 durante a recuperação. A análise de variância ANOVA one-way foi utilizada para a comparação entre as variáveis de caracterização dos grupos. A ANOVA two-way foi realizada para a comparação entre os valores pico e mínimo de La- sanguíneo e o desempenho anaeróbio no T1 e T2 para as três condições de recuperação.
RESULTADOS: Não foi verificada diferença significante entre T1 e T2 para a potência máxima e média em nenhum dos grupos estudados (p > 0,05). Foi verificada maior remoção do La- sanguíneo para a RA (47,62%), quando comparada a RG (16,9%; p = 0,001) e a RP (18,20%; p = 0,02).
CONCLUSÃO: Pode-se concluir que a RA, RP e RG são eficazes para manutenção do desempenho anaeróbio de jogadores de futebol sub-17. A recuperação ativa se demonstrou mais eficiente para a remoção do La- sanguíneo quando comparada a RP e RG.

Palavras-chave: crioterapia, fadiga muscular, futebol.


ABSTRACT

INTRODUCTION: Soccer is characterized as a sport of high intensity, performed intermittently and with random sequences of periods of effort and recovery; thus, strategies that can somehow minimize muscle fatigue can provide an important competitive advantage.
OBJECTIVE: This study aimed to compare different methods of recovery with the removal of blood lactate (La-) and anaerobic performance of soccer players.
METHODS: Twenty-three male soccer players between 16 and 17 years were divided into three groups: active recovery (RA), passive recovery (RP) and ice recovery (RG). To assess the aerobic capacity the critical speed was used, and for the induction of hyperlactacidemia and anaerobic performance the RAST test was applied before (T1) and after (T2) the recovery intervals. The measurements of blood La- were made at 2, 4, 6, 8 and 10 minutes during the recovery period. The one-way ANOVA was used to compare the variables that characterize the groups. A two-way ANOVA was performed for comparison between the peak and minimum values of blood La- and anaerobic performance at T1 and T2 for the three recovery conditions.
RESULTS: There was no significant difference between T1 and T2 for maximum and average power in the studied groups (p>0.05). It was observed greater removal of blood La- (47.62%) for the RA when compared to RG (16.9%; p = 0.001) and RP (18.20%; p = 0.02).
CONCLUSION: RA, RP and RG are effective to maintain the anaerobic performance of soccer players under 17. Active recovery was shown more efficient for removing the blood La- when compared to RP and RG.

Keywords: cryotherapy, muscle fatigue, soccer.


RESUMEN

INTRODUCCIÓN: El fútbol se caracteriza como siendo una modalidad con altas intensidades, realizado de modo intermitente y con secuencias aleatorias de fases de esfuerzo y recuperación; de esta manera, las estrategias, que de alguna forma puedan minimizar la fatiga muscular, pueden dar una importante ventaja competitiva.
OBJETIVO: Este estudio tuvo como objetivo comparar tipos diferentes de métodos de recuperación sobre la remoción de lactato (La-) sanguíneo y el desempeño anaeróbico de futbolistas.
MÉTODOS: La muestra se compuso de 23 atletas de fútbol, entre 16 y 17 años, del sexo masculino, divididos en tres grupos: recuperación activa (RA), pasiva (RP) y con hielo (RH). Para la evaluación de la capacidad anaeróbica se utilizó la velocidad crítica, y para la inducción de la hiperlactacidemia y el desempeño anaeróbico se usó la prueba de RAST, aplicada antes (T1) y después (T2) de los intervalos de recuperación. Las dosificaciones de La- sanguíneo ocurrieron en los minutos dos, cuatro, seis, ocho y diez durante la recuperación. El análisis de variancia ANOVA one-way fue utilizado para la comparación entre las variables de caracterización de los grupos. La ANOVA two-way se hizo para la comparación entre los valores pico y mínimo de La- sanguíneo y el desempeño anaeróbico, en el T1 y T2, para las tres condiciones de recuperación.
RESULTADOS: No se verificó diferencia significativa entre T1 y T2 para la potencia máxima y media en cualquiera de los grupos estudiados (p > 0,05). Fue verificada más remoción del La- sanguíneo para la RA (47,62%), al ser comparada a la RH (16,9%; p = 0,001) y la RP (18,20%; p = 0,02).
CONCLUSIÓN: Se puede concluir que la RA, RP y RH son eficaces para el mantenimiento del desempeño anaeróbico de jugadores de fútbol sub-17. La recuperación activa se mostró más eficiente para la remoción del La- sanguíneo en comparación con la RP y la RH.

Palabras clave: crioterapia, fatiga muscular, fútbol.


 

 

INTRODUÇÃO

O futebol é caracterizado como uma modalidade com intensidades elevadas, realizado de forma intermitente e com sequências aleatórias de fases de esforço e recuperação1. Jogadores profissionais se deslocam em campo em média 11 quilômetros por partida, sendo que desse total 26% são em alta intensidade, sobretudo, em atividade de aceleração do corpo, o que pode representar em torno de 42% do total de energia despendida, evidenciando, portanto, uma relevante participação do sistema anaeróbio para o fornecimento de energia2. Bangsbo et al.3 verificaram em atletas profissionais que as ações de curta duração e alta intensidade podem se repetir de 150 a 250 vezes por partida, evidenciando a alta contribuição dos sistemas da creatina fosfato (CP) e glicólise anaeróbia para a ressíntese de ATP.

A contribuição do sistema anaeróbio durante o jogo também é demonstrada pelas concentrações de lactato (La-) sanguíneo. Segundo alguns estudos, essas concentrações podem variar em média de cinco a sete milimolares (mM) por litro4,5. O aumento dos níveis de lactato (La-) e prótons de hidrogênio (H+) produzidos no músculo pode estar relacionado à queda do rendimento do atleta. Essa relação é baseada no fato de que os H+ produzidos no músculo poderiam reduzir o pH, tendo como consequência prejuízo na contração muscular6. Dessa forma, com a dinâmica do futebol moderno, é inevitável a fadiga muscular durante o jogo, com um aumento mais acentuado no segundo tempo5.

Assim estratégias que possam de alguma forma minimizar a fadiga muscular, pode fornecer uma importante vantagem competitiva, uma vez que no futebol um jogo é vencido por meio de uma única ação motora. Dessa maneira, muitos recursos têm sido utilizados no âmbito esportivo com a finalidade de otimizar a recuperação muscular como, por exemplo, recuperação ativa (exercícios de baixa a moderada intensidade), contraste térmico (alternância de exposição ao frio e calor), massagem e crioterapia (aplicação de frio); e, embora a relação do La- e fadiga ainda não estar bem estabelecida, a maioria desses recursos tem sido utilizada com o objetivo de acelerar a remoção do La- sanguíneo6.

Dessa forma, o presente estudo teve como objetivo comparar o efeito de três diferentes métodos de recuperação (gelo, passiva e ativa) na remoção do lactato sanguíneo e desempenho anaeróbio de jogadores de futebol da categoria sub-17.

 

MÉTODOS

Amostra

A amostra foi composta por 23 atletas de futebol da categoria sub-17 (idade 16,35 ± 0,65 anos, estatura de 176,43 ± 6,03 cm e massa corporal 70,59 ± 7,73 kg), pertencentes a uma equipe de futebol do interior do estado de São Paulo, participante de competições de nível estadual. A rotina do clube incluía cinco dias de treinamento semanal, com uma média de quatro horas diárias, em duas sessões, além de jogos realizados aos finais de semana. Foram excluídos os goleiros por apresentarem capaci­dade aeróbia diferenciada em função das demandas exigidas pela posição em campo, e os atletas que apresentaram lesões ou qualquer condição especial de saúde que comprometesse o desempenho nos testes. Todos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os procedimentos aqui adotados estão de acordo com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos sob protocolo 10-05/107.

Desenho experimental

Todos os atletas foram submetidos ao teste de RAST (T1) para indução da lactacidemia. Em seguida, foram aleatorizados em três grupos para a realização dos diferentes métodos de recuperação com tempo fixo de 10 minutos para todos os grupos.

Recuperação passiva (RP, n = 8): os atletas ficaram em repouso na posição sentada;

Recuperação ativa (RA, n = 8): foi realizada uma corrida com intensidade referente a 80% da velocidade crítica (Vcrit) em campo de futebol de grama natural em percurso de 20 metros em dinâmica de vai e vem. Durante a RA, a corrida foi interrompida por no máximo 15 segundos para as coletas de sangue; e Recuperação com imersão em gelo (RG, n = 7): os atletas ficaram em repouso na posição em pé dentro de um recipiente com água gelada suficiente para cobrir os membros inferiores, com temperatura variando entre 8ºC e 10ºC. Para o controle da temperatura da água foram realizadas medições a cada dois minutos utilizando um termômetro. Identificado a temperatura abaixo ou acima do estabelecido, era realizada a manutenção da temperatura adicionando gelo ou água quando necessário.

Para os três grupos foram coletadas, durante os intervalos de recuperação, amostras de sangue nos seguintes momentos: imediatamente após e dois, quatro, seis, oito e 10 minutos após o T1 para dosagem de lactato sanguíneo. Em seguida, todos os atletas realizaram novamente o teste de RAST (T2) para verificar o comportamento do desempenho anaeróbio frente aos três protocolos de recuperação. Para a realização da comparação entre os diferentes métodos de recuperação foi utilizado o maior (pico) e o menor (mínimo) valor de lactato sanguíneo de cada sujeito obtido durante a recuperação.

Capacidade aeróbia

A capacidade aeróbia foi avaliada por meio da velocidade crítica (Vcrit), pelo modelo distância-tempo7. Para tanto, os sujeitos foram submetidos a três tiros máximos nas distâncias de 800, 1.600 e 2.400 metros em pista oficial de atletismo de 400 metros. Foram coletados os tempos para cada desempenho para posterior cálculo da Vcrit através da equação matemática de inclinação de reta.

Indução da lactacidemia e desempenho anaeróbio

Para tanto, foi utilizado o teste de RAST (Running-based Anaerobic Sprint Test), composto de seis tiros máximos de 35 metros com intervalos de 10 segundos entre um tiro e outro, sendo que por meio da massa corporal do avaliado e dos tempos de cada tiro é possível calcular a potência pico, média e mínima do avaliado, além do índice de fadiga8,9. Para a medição do tempo de cada tiro bem como dos intervalos foram utilizados cronômetros manuais. O teste foi realizado em campo de futebol de grama natural e todos os avaliados utilizaram chuteiras. Para comparação entre os desempenhos, o teste foi aplicado antes e após os intervalos de recuperação.

Coleta de sangue para dosagem de lactato sanguíneo

Foram coletados 25 µl de sangue do lóbulo da orelha, utilizando-se capilares de vidro heparinizados e calibrados. Após cada coleta, o sangue foi imediatamente armazenado em microtubos do tipo Eppendorff de 1,5 ml, contendo 50 µl de solução de Naf 1%. Em seguida, os tubos foram armazenados em recipiente térmico contendo gelo e levados para o laboratório para a determinação das concentrações de lactato sanguíneo. O lactato sanguíneo foi determinado por meio do analisador eletroquímico modelo YSL 1500 STAT (Yellow Springs, OH, EUA).

Análise estatística

Inicialmente foi realizado o teste de Shapiro-Wilk para testar a normalidade dos dados. A análise de variância ANOVA one-way foi utilizada para a comparação entre as variáveis de caracterização dos grupos. A ANOVA two-way foi realizada para a comparação entre os valores pico e mínimo de lactato sanguíneo e o desempenho anaeróbio no T1 e T2 para as três condições de recuperação (gelo, passiva e ativa). Sempre que um valor significante de F foi obtido, o post-hoc de Scheffé foi aplicado. Em todas as análises foi adotado nível de significância de p < 0,05. Para todas as análises foi utilizado o pacote estatístico Statistica 7.0 (Statistica, Tulsa, EUA).

 

RESULTADOS

Em relação às variáveis de caracterização dos grupos não foram verificadas diferenças significantes (p>0,05), demonstrando a homogeneidade dos sujeitos (tabela 1).

 

 

Na tabela 2 estão expressos valores de potência máxima e média obtidos no T1 e T2 para os RG, RP e RA. Não foram identificadas diferenças significantes nos valores de potência máxima e média para nenhum dos grupos estudados (p > 0,05). A figura 1 apresenta a remoção do lactato sanguíneo após os diferentes métodos de recuperação. Os métodos RG, RP e RA demonstraram redução do lactato sanguíneo após o período de recuperação (p = 0,0003, p = 0,0004, p = 0,0001, respectivamente). Na comparação entre os métodos de recuperação, não houve diferença significante nos valores pico de lactato sanguíneo (p > 0,05) após o T1. Porém, foi verificada maior remoção do lactato sanguíneo (mínimo) para a RA (47,62%), quando comparada a RG (16,9%; p = 0,001) e a RP (18,20%; p = 0,02).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A proposta do presente estudo foi investigar os efeitos da recuperação com gelo (RG), passiva (RP) e passiva (RP) na remoção do lactato (La-) sanguíneo e desempenho anaeróbio de jogadores de futebol da categoria sub-17. Os resultados principais encontrados no presente estudo foram:

1) os métodos de recuperação não influenciaram o desempenho anaeróbio de jogadores de futebol da categoria sub-17; 2) a RA demonstrou-se mais eficaz para a remoção do lactato sanguíneo.

Em exercícios intermitentes, a queda no desempenho anaeróbio pode estar relacionada a fatores como microlesões na estrutura contrátil do músculo esquelético, conhecida como dano muscular10 e ao acumulo de H+, favorecendo, portanto, a queda do pH intracelular11. Além disso, outros fatores como a depleção de substratos (principalmente glicogênio muscular), hipertermia e acúmulo de vários metabólitos, entre eles: magnésio (Mg2+), adenosina difosfato (ADP), fosfato inorgânico (Pi), amônia (NH3) e espécies reativas de oxigênio (ROS)11.

Estratégias de recuperação com o objetivo da manutenção do desempenho têm sido amplamente estudadas12-15. Em especial a RA e RG (i.e. crioterapia) parecem trazer importantes benefícios para a manutenção do desempenho anaeróbio. Pesquisadores demonstraram que a RG pós-exercício pode atenuar o dano muscular induzido por uma resposta inflamatória devido a uma diminuição da permeabilidade dos vasos sanguíneos e linfáticos16. Além disso, tem sido sugerido que a RG pode influenciar o processo regenerativo, que inclui a produção de proteínas de choque térmico e proliferação de células satélites, que são essenciais para o processo de reparação-adaptação17. Já a RA parece ser mais efetiva para a remoção do La- sanguíneo em função da manutenção do fluxo sanguíneo acima do repouso, facilitando a captação do La- sanguíneo pelos diversos tecidos para ser oxidado, como, por exemplo, músculo esquelético, músculo cardíaco, cérebro, pâncreas, rins, pulmão, intestino entre outros18. No presente estudo, embora a RG e a RP tenham demonstrado menor remoção do La- sanguíneo quando comparadas à RA, isso não refletiu na queda da potência máxima e média no T2. Contrariamente aos nossos achados, alguns estudos verificaram queda de desempenho quando a RG é utilizada como método de recuperação. Richendollar et al.13 avaliaram os efeitos de quatro diferentes condições de recuperação (gelo, contraste, repouso passivo) no desempenho do salto vertical, agilidade (shutle run) e velocidade (40 jardas). Os resultados apontaram queda no desempenho dos testes neuromotores para ambos os grupos que envolviam a aplicação de gelo. Por outro lado, mais recentemente, foi demonstrado que a RG é considerada um importante método para recuperação dos níveis de força e potência após a realização dos exercícios anaeróbios intermitentes15, embora pareça não ser tão efetiva para a remoção do La-19. Resultados similares também foram encontrados por Vaile et al.12, que verificaram melhor manutenção no desempenho utilizando a RG quando comparado à RA, mesmo com vantagem para a RA na remoção do lactato.

De fato, a queda do desempenho de velocidade após a partida de futebol não foi correlacionada com as alterações de La- e pH muscular; entretanto, foi relacionado com a diminuição dos níveis de glicogênio muscular5. Dessa forma, estratégias de intervenção que tenham como objetivo preservar ou acelerar a ressíntese de estoques de glicogênio durante o exercício e entre intervalos de recuperação são importantes para desempenho esportivo tanto em exercícios contínuos como intermitentes5. Estudos têm mostrado que a ressíntese de glicogênio muscular é acelerada quando se utiliza intervalos de recuperação passiva em relação à ativa após exercícios de alta intensidade16. No presente estudo, não houve melhora no T2 para o GP. O mesmo foi verificado para o grupo RG, que embora também tenham ficado em repouso passivo não melhoraram o desempenho no T2. Corroborando com esses achados, Baroni et al.19 compararam os efeitos da RG e RP sobre a remoção do La- sanguíneo após exercício de alta intensidade em jogadores de futebol das categorias sub-15 e sub-17. Os resultados mostraram que a RP apresentou decréscimo significativo da concentração de La- sanguíneo, enquanto que o mesmo não foi verificado com a RG. Um efeito bastante evidente da aplicação do frio local na musculatura é a vasoconstrição, e que provavelmente é o efeito que melhor explique a ineficiência da RG na velocidade de remoção do lactato sanguíneo em função da diminuição do fluxo sanguíneo20. Entretanto, no presente estudo não foi verificada diferença na remoção do La- sanguíneo entre RG e RP. Embora o tempo de imersão em gelo tenha sido similar (i.e. 10 minutos), é possível que a diferença entre os estudos esteja relacionada à temperatura com que a RG foi realizada.

A maior taxa de remoção foi observada no grupo RA (figura 1). Esse resultado vem ao encontro com a literatura, em que vários estudos têm demonstrado que a recuperação ativa é mais efetiva para a remoção do La- sanguíneo quando comparada à recuperação passiva14,21,22 em função da manutenção do fluxo sanguíneo acima do repouso, facilitando a captação do La- sanguíneo pelos diversos tecidos para ser oxidado18. O aumento do fluxo sanguíneo durante a recuperação ativa é maior em relação à recuperação passiva. Além disso, o transporte de lactato é significativamente mais rápido nas fibras musculares oxidativas em relação às fibras glicolíticas. As fibras musculares de contração lenta priorizam a oxidação do lactato, enquanto as fibras musculares glicolíticas primariamente convertem lactato para glicogênio18. Considerando que há predomínio da ativação das fibras de contração lenta durante a intensidade de recuperação ativa adotada no presente estudo, pode-se concluir que esse fator foi otimizado nessa intervenção.

A intensidade do exercício em que a recuperação ativa é realizada tem grande influência na velocidade da remoção do La- sanguíneo. Recomenda-se intensidades de 30 a 70% do consumo máximo de oxigênio (VO2máx)21 e de 80 a 100% do limiar anaeróbio (Lan)23. O teste utilizado no presente estudo para identificação do limiar anaeróbio foi indireto (Vcrit). Estima-se que este superestime em 2 e 9%24 a máxima fase estável de lactato sanguíneo (MFEL), que é considerada padrão ouro24. Entretanto, intensidade de 80% da Vcrit adotada neste estudo parece ter atingido a recomendação da literatura em relação à faixa de intensidade mais adequada para a recuperação ativa23, mesmo que este tenha superestimado a MFEL.

Mesmo a recuperação ativa tendo se demonstrado mais eficaz na remoção do La-, para todos os métodos de recuperação investigados (i.e. gelo, passiva e ativa) a potência máxima e média foi mantida no T2. É possível que somente uma sessão teste RAST não tenha promovido fadiga ou dano muscular suficiente para que isso ocorresse, o que pode ter sido um fator limitante do presente estudo. Futuros estudos utilizando uma maior quantidade de estímulos anaeróbios podem ser realizados para verificar se os métodos de recuperação influenciam o desempenho anaeróbio da mesma forma que o presente estudo.

 

CONCLUSÃO

Pode-se concluir que a recuperação ativa, passiva e com gelo, são eficazes para manutenção do desempenho anaeróbio de jogadores de futebol sub-17, quando duas sessões são realizadas com curto tempo de recuperação (i.e. 10 minutos). Além disso, a recuperação ativa se demonstrou mais eficiente para a remoção do lactato sanguíneo quando comparada à recuperação passiva e ativa.

 

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Endereço para correspondência:
Rua Pedro Guarino, 120
Vl. Limerânea, Limeira - SP
CEP: 13482-458
hgferrari@ig.com.br

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

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