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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.21 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1517-86922015210101605 

Artigos Originais

Validade preditiva da medida e estimativas do VO2máx no desempenho de Mountain Bikers

Predictive validity of VO2máx measurement and estimates in Mountain Bikers' performance

Validez predictiva de la medida y estimativas del VO2máxen el desempeño de Mountain Bikers

Fernanda Mainardi 1  

Allan Inoue 1   2  

Fernando Augusto de Saboia Pompeu 3  

Tony Meireles Santos 4  

1Universidade Gama Filho (UGF), Rio de Janeiro, RJ, Brasil

2Universidade Estácio de Sá (UNESA), Nova Friburgo, RJ, Brasil

3Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil

4Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife, PE, Brasil

RESUMO

INTRODUÇÃO:

considerando o racional para a utilização das equações preditivas na estimativa do VO2máx em atletas, nenhum estudo estabeleceu sua validade para o desempenho no mountain bike cross-country(XCO).

OBJETIVO:

comparar diferentes estratégias de determinação do VO2máx, de forma direta ou indireta, para a predição do desempenho em uma prova real e outra simulada.

MÉTODOS:

20 atletas de XCO do sexo masculino (31,6 ± 6,8 anos; 68,1 ± 6,5 kg; 175,5 ± 5,7cm; 64,9 ± 4,4 mL. kg-1.min-1), foram submetidos a três sessões experimentais. A primeira visita consistiu na estratificação de risco, avaliação antropométrica e teste progressivo máximo. Na segunda, foi realizada a prova simulada e, na terceira, foi realizada a competição de XCO.

RESULTADOS:

a correlação entre a prova simulada e as equações preditivas do VO2máx de forma absoluta alcançaram relação quase perfeita (r ≥ 0,9). As correlações entre a competição real e as estimativas de VO2máx relativizadas à massa corporal alcançaram resultados classificados como muito altos (r = 0,7-0,89). As associações entre a medida direta do VO2máx e a simulação apresentaram uma classificação baixa para valores relativos à massa corporal (r = 0,10, IC95%-0,35 a 0,51). Para o desempenho real, a classificação foi moderada (r = 0,48, IC95% 0,009 a 0,78).

CONCLUSÃO:

o presente estudo foi o primeiro a demonstrar a validade preditiva das estimativas do VO2máx para o desempenho simulado e real de MTB. Em complemento, confirmou a baixa validade preditiva da medida direta do VO2máx para o mesmo propósito.

Palavras-Chave: reprodutibilidade dos testes; esportes; desempenho atlético; exercício

RESUMEN

INTRODUCCIÓN:

considerando el racional para el uso de las ecuaciones predictivas en la estimativa del VO2máx en atletas de ciclismo, ningún estudio estableció su validez predictiva para el desempeño en el mountain bike cross-country (XCO).

OBJETIVO:

comparar diferentes estrategias de determinación del VO2máx, de forma directa o indirecta, para la predicción del desempeño en una prueba real y otra simulada.

MÉTODOS:

veinte atletas de XCO del sexo masculino (31,6 ± 6,8 años; 68,1 ± 6,5 kg; 175,5 ± 5,7cm; 64,9 ± 4,4 mL. kg-1.min-1), fueron sometidos a tres sesiones experimentales. La primera visita consistió en la estratificación de riesgo, evaluación antropométrica y test progresivo máximo. En la segunda, fue realizada la prueba simulada y en la tercera fue realizada la competición de XCO.

RESULTADOS:

la correlación entre la prueba simulada y las ecuaciones predictivas del VO2máx de forma absoluta alcanzaron relación casi perfecta (r ≥ 0,9). Las correlaciones entre la competición real y las estimativas de VO2máx relativizada a la masa corporal alcanzaron resultados clasificados como muy grande (r = 0,7-0,89). Las asociaciones entre la medida directa del VO2máx y la simulación presentaron clasificación pequeña para valores relativos a masa corporal (r = 0,10, IC95% -0,35 a 0,51). Para el desempeño real, la clasificación fue moderada (r = 0,48, IC95% 0,009 a 0,78).

CONCLUSIÓN:

el presente estudio fue el primero en demostrar la validez predictiva de las estimativas del VO2máx para el desempeño simulado y real de MTB. En complemento, confirmó la baja validez predictiva de la medida directa del VO2máx para el mismo propósito.

Palabras-clave: reprodutibilidade dos testes; esportes; desempenho atlético; exercício

ABSTRACT

INTRODUCTION:

considering the rationale for the use of predictive equations to estimate VO2max in athletes, no study has established its validity for performance in mountain bike cross-country (XCO).

OBJECTIVE:

the aim was to compare different strategies for determining VO2max, directly or indirectly, for predicting performance in a simulated and in a real competition.

METHODS:

20 XCO male athletes (31.6 ± 6.8 anos; 68.1 ± 6.5 kg; 175.5 ± 5.7cm; VO2max 64.9 ± 4.4 mL. kg-1.min-1), were submitted to three experimental sessions. In the first visit, there were risk stratification, anthropometric evaluation and maximum progressive test. In the second, a simulated race was performed and, in the third session, a XCO competition was performed.

RESULTS:

the correlation between the simulated competition and the predictive equations of VO2max in absolute values reached an almost perfect relationship (r ≥ 0.9). The correlations between the real competition and estimated VO2max relativized to body mass achieved results classified as very high (r = 0.7 to .89). The associations between the direct measurement of VO2max and the simulation were classified as small for values relative to body mass (r = 0.10, CI95% -0.35 to 0.51). For the actual performance, the classification was moderate (r = 0.48, CI95% 0.009 to 0.78).

CONCLUSION:

this study was the first to demonstrate the predictive validity of the estimates of VO2max for the simulated and real MTB performance. In addition, it confirmed the low predictive validity of direct measurement of VO2max for the same purpose.

Key words: reproducibility of results; sports; athletic performance; exercise

INTRODUÇÃO

O mountain bike (MTB) cross-country olímpico (XCO) é uma modalidade caracterizada como intermitente de alta intensidade1. Os determinantes do desempenho nesta modalidade incluem, entre outras variáveis, a máxima capacidade de produção de potência por via aeróbia2, competência esta diretamente associada ao consumo máximo de oxigênio (VO2máx).

É bem aceita a importância do VO2máx na determinação da aptidão cardiorrespiratória e do nível de saúde, além de sua utilidade na prescrição de exercícios cardiorrespiratórios. O método direto de análise de gases é considerado padrão ouro para esta medida3. Entretanto, sua utilização se restringe aos ambientes de pesquisa ou clínicos devido à complexidade dos procedimentos, custo e qualificação profissional4. Esta medida historicamente valorizada na avaliação de atletas apresenta limitada utilidade em dimensão prática5 , 6. Pode-se concluir que, baseado numa análise de custo vs efetividade e em evidências da literatura7 , 8, a recomendação para este procedimento com o enfoque no desempenho atlético, pode ser questionada, justificando sua manutenção basicamente pela tradição. Em complemento, inexistem diretrizes claras de utilização desta variável para a prescrição de treinamento competitivo.

Alternativamente, a estimativa do VO2máx tem sido recomendada em ambientes que não possuam a estrutura necessária para a realização do método direto de análises de gases. Tal recomendação sustenta-se mesmo considerando a crítica de diversos autores sobre a precisão (validade concorrente)9 dos métodos indiretos para estimativa do VO2máx 4 , 10, sendo defendida pelo Colégio Americano de Medicina do Esporte há várias décadas. Para a população em geral, o método de reserva recomendado por essa instituição para a prescrição de exercícios3 foi validado para a estimativa do VO2máx 11 em indivíduos ativos, mas não atletas. Em dimensão atlética no ciclismo, dois estudos estabeleceram recomendações objetivas para a determinação do VO2máx utilizando estratégias indiretas8 , 12. Entretanto, tais abordagens não foram comparadas em conjunto e suas validades preditivas do desempenho atlético não foram investigadas.

Apesar de não tradicional, parece existir um razoável racional para o uso de equações preditivas para estimativa do VO2máx em atletas. Via de regra, os modelos preditivos se utilizam da potência aeróbia máxima (Wmáx)5 , 8 ou submáxima11 para estimar o VO2máx a partir de equações simples ou combinadas. Alguns estudos já demonstraram que a Wmáx alcançada em um teste aeróbio é um ótimo preditor de desempenho8 , 12. Considerando a característica colinear destas variáveis, é esperado que ocorra uma transferência do poder preditivo do desempenho atlético observado na Wmáx, ou submáxima, ao VO2máx, quando estes são utilizados na sua predição. Este racional apresenta-se como um novo paradigma em relação ao tema, onde a relevância das associações entre os valores estimados de VO2máx e o desempenho (validade preditiva) se sobreporia à precisão da medida direta do VO2máx (validade concorrente), possibilitando uma discriminação mais adequada dos atletas avaliados. Entretanto, nenhum estudo estabeleceu a validade preditiva das equações de estimativas do VO2máx para o desempenho competitivo em XCO. Assim, o objetivo deste estudo foi comparar diferentes estratégias de determinação do VO2máx, de forma direta e indireta, para a predição do desempenho de XCO em uma prova real e simulada.

MÉTODOS

Participaram do estudo 20 atletas de MTB do sexo masculino, classificados como de nível regional e nacional. Todos os atletas treinavam seis dias por semana, há pelo menos cinco anos incluindo campeões e vice campeões estaduais. Quatro atletas foram excluídos do estudo, um devido a problemas na mensuração do consumo máximo de oxigênio e três por problemas mecânicos durante a competição. As análises dos dados realizadas utilizaram tantos atletas quanto possível dependendo da disponibilidade das informações. Suas características são apresentadas na tabela 1. Todos os atletas concordaram com os procedimentos do experimento através da assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os procedimentos foram aprovados pelo Comitê Institucional de Ética (parecer 051.2010).

Tabela 1. Característica da amostra (n = 20). 

Variáveis Média ± DP
Idade (anos) 31,6 ± 6,8
Massa (kg) 68,1 ± 6,5
Estatura (cm) 175,5 ± 5,7
Gordura Percentual (%)* 7,3 ± 2,8
FCRep (bpm) 56,3 ± 6,4
FCmáxR (bpm) 189,6 ± 9,6
VO2máx (mL.kg-1.min-1) 64,9 ± 4,4
LL (w) 212,4 ± 28,5
OBLA (w) 259,0 ± 28,2

FCRep - Frequência cardíaca de repouso; FCmáxR - Frequência máxima real; VO2máx - Estabelecido no teste progressivo máximo; LL (w) - Limiar de Lactato; OBLA (w) - Acumulação de lactato ; * - Segundo equação de Siri (5) com base na densidade corporal de Jackson e Pollock (4).

A presente pesquisa de corte transversal foi realizada utilizando um total de três encontros, sendo dois em laboratório e outro durante uma competição de MTB (Campeonato Lagos). Na primeira visita, foi realizada uma bateria de medidas antropométricas e o teste progressivo máximo. Na segunda, os atletas realizaram a prova simulada e na terceira visita, os atletas participaram da competição de MTB. Os testes de laboratório foram realizados em um ambiente com temperatura em torno de 21oC e no mesmo local e horário (± 2 h de variação). Os atletas foram orientados a evitar alimentos sólidos nas 3 h que antecederem os testes, hidratar-sead libitum somente com água e a não realizar exercícios físicos de alta intensidade nas 24 h anteriores às avaliações.

Teste aeróbio máximo: O VO2máx foi determinado em um teste progressivo máximo em uma bicicleta acoplada pela roda traseira em um ciclo ergômetro eletrônico (Computrainer(tm) Lab 3D, RacerMate, Seattle, USA). A bicicleta foi ajustada seguindo as preferências de cada atleta. A calibração do equipamento seguiu as recomendações do fabricante e de Davidson13. A roda traseira da bicicleta foi calibrada em 100psi. Foi realizado um aquecimento de 10 min e potência de 100 W. Os atletas puderam escolher a cadência preferida desde que entre 70 a 90 rotações por minuto (RPM)14. O teste foi iniciado com potência de 100 W e incrementos de 30 W a cada 5 min. A interrupção foi na exaustão voluntária máxima ou quando a rotação mínima estipulada de 70 RPM não fosse mantida por 10 s15. Houve o monitoramento contínuo da frequência cardíaca (Polar(r) RS 800 CX (Polar Electro, Oy, Finland) e ao final de cada estágio houve registro da percepção subjetiva de esforço (CR100)16.

Medida Direta do VO 2máx : Durante o teste progressivo máximo, as variáveis de trocas gasosas respiratória foram medidas por um analisador metabólico Vacumed Vista-Mini CPX (Ventura, Califórnia, USA) com o software Vista Turbo Fit 5.1 (Ventura, Califórnia, USA) em circuito aberto. O analisador foi calibrado como recomendado pelo fabricante. Para a determinação direta do VO2máx, foi utilizado o maior valor de consumo de oxigênio atingido durante o teste progressivo máximo (média de 30 s).

Cálculo da W máx : A maior potência completada pelo individuo em 300 s foi definida como potência máxima. Quando o último estágio não fosse completado (300 s), a Wmáx foi determinada segundo a equação de Kuipers et al. 17.

Estimativas do VO 2máx : Foram utilizadas quatro equações preditivas do VO2máx, sendo três baseadas na potência máxima alcançada no teste progressivo máximo (Hawley e Noakes8, Eq. 1; Lamberts et al.12, Eq. 2; e ACSM3Eq. 3); e uma baseada na potência submáxima e sua FC correspondente (Swainet al.11, Eq. 4):

Determinação dos limiares de lactato: Nós últimos 30 s de cada estágio do teste aeróbio, amostras de sangue (25 µL) foram coletadas do lóbulo da orelha e imediatamente analisadas usando uma técnica eletroenzimática (YSL(r) 1500 Sport, Yellow Springs Instruments, Yellow Springs, OH). Antes de cada teste, o analisador foi calibrado de acordo com as instruções do fabricante. Dois limiares foram identificados: (a) limiar de lactato (LL) como sendo a potência que provocou um aumento de 1 mmol.L-1 na concentração de lactato sanguíneo acima dos valores medidos durante o exercício a 40-60% do VO2máx 18; (b) O início de acumulação de lactato (OBLA) como a potência correspondente a uma concentração fixa de lactato de 4 mmol.L-1 19.

Prova simulada de MTB: O teste de desempenho simulado foi realizado em laboratório e completado pelos atletas utilizando os mesmos equipamentos e ajustes já descritos para o teste aeróbio. Para minimizar o estresse térmico, um ventilador foi direcionado para os sujeitos durante todo o teste. Em todos os testes o Computrainer foi utilizado com o softwareinterativo 3D versão 1,0 (Racermate Inc.) para simular uma competição. Para cada teste, o Computrainer foi conectado a um laptop, o qual estava localizado à frente do ciclista.

Após um aquecimento de 10 min e carga de 100 W, o teste de desempenho consistiu de quatro voltas no percurso de 9.9 km com grau de inclinação variando de 0 a 10%, com tempo total de aproximadamente 100 min. Os atletas estavam livres a consumirem águaad libitum, trocar de marcha, decidir o RPM e quando pedalar em pé. Houve o monitoramento contínuo da FC e da escala subjetiva de esforço CR10016. Os atletas foram orientados a completar o teste o mais rápido possível, utilizando a estratégia de escolher seu próprio ritmo.

Competição MTB: A competição regional circuitocross-country foi realizada em um circuito de 5,2 km, com um total de seis voltas, em um dia de verão a uma temperatura de "24° C e umidade de "65%. Antes da competição, todos os indivíduos realizaram um aquecimento livre de acordo com suas próprias preferências. Os participantes foram instruídos a completar a prova o mais rápido possível e beber água ad libitum. O tempo médio oficial da corrida foi de 8251 ± 524 s, fornecido pelos organizadores, foi utilizado para todas as análises.

Análise estatística

As variáveis analisadas foram apresentadas pela média ± desvio padrão e testadas para normalidade e homogeneidade pelo teste de Shapiro-Wilk e Levene, respectivamente. O coeficiente de correlação de Pearson foi utilizado para verificar a correlação entre o desempenho de XCO em prova simulada e real e o VO2máx determinado pelas diferentes estratégias investigadas e enunciado em sua forma absoluta e relativa à massa corporal. Devido ao tamanho da amostra, apresentaremos os resultados das correlações com os seus respectivos intervalos de confiança com 95% de precisão (IC95%). Esta abordagem foi recentemente recomendada pelo corpo editorial em estudo publicado do nosso grupo2. Os coeficientes de correlação foram interpretados por meio da escala de magnitudes proposta por Hopkins (www.sportsci.org): < 0,1, trivial; 0,1 - 0,29, pequeno; 0,3 - 0,49, moderada; 0,5 - 0,69, grande, 0,7 - 0,89, muito grande; ≥ 0,9, quase perfeito. As análises foram realizadas no software Graphpad Prism5(GraphPad Inc., Califórnia, EUA), adotando-se um nível de significância de P < 0,05.

O objetivo do presente estudo foi comparar diferentes estratégias de determinação do VO2máx, de forma direta e indireta, para a predição do desempenho aeróbio de XCO em uma prova real e simulada, estabelecendo assim, de maneira comparativa, a validade preditiva das variações desta variável.

RESULTADOS

Os resultados da medida direta do VO2máx e de suas estimativas pelos diferentes métodos investigados encontra-se na tabela 2. Observa-se que, em média, as estimativas do VO2máxforam ≅ 28% abaixo do valor máximo medido. Hove diferença significativa entre todos os métodos preditivos e a medida direta do VO2máx (P < 0,0001).

Tabela 2. Valores médios, desvio padrão (DP) e intervalo de confiança (IC 95%) do VO2máx medido e estimados pelas equações preditivas. 

VO2máx Absoluto (L.min-1) Relativo (mL.kg-1.min-1)
Média ± DP IC95% Média ± DP IC95%
Medida Direta 4,4 ± 0,39 4,2; 4,59 64,9 ± 4,4 62,8; 66,9
Estimado
Hawley e Noakes, 1992 3,8 ± 0,24 3,7; 3,02 56,5 ± 5,0 54,1; 58,8
Lamberts et. al., 2012 3,3 ± 0,28 3,2; 3,46 49,3 ± 4,5 47,2; 51,5
ACSM – Reserva 3,7 ± 0,25 3,6; 3,79 54,4 ± 4,2 52,4; 56,3
ACSM - Pot. Máx. 3,6 ± 0,24 3,5; 3,74 53,5 ± 4,5 51,5; 55,4

As associações entre o VO2máx e o desempenho simulado e real apresentaram elevada e significativa associação. Na figura 1 encontram-se as associações entre o VO2máx em termos absolutos e a prova simulada, enquanto na figura 2 estão as associações entre o VO2máx em termos relativos e a prova real. Os resultados encontrados classificam-se entre quase perfeito e muito grande, respectivamente.

Figura 1. Melhores resultados de correlação entre a potência máxima e as várias determinações do VO2máx com desempenho na prova simulada em valores absolutos.. 

Figura 2. Melhores resultados de correlação entre a potência máxima e as várias determinações do VO2máx com desempenho na competição real em valores relativos a massa corporal. 

Na figura 1, observa-se que a correlação entre a prova simulada e as equações preditivas do VO2máx em forma absoluta alcançaram força associativa quase perfeita (r ≥ 0,9). Para as equações de Hawley e Noakes8, Lamberts et al. 12, ACSM - Reserva3 e a equação do ACSM - Pot. Máx.3 foram observadas magnitudes associativas de -0,90, -0,90, -0,88 e -0,91, respectivamente. Na figura 2, as correlações entre o desempenho na competição e as estimativas de VO2máx relativizada á massa corporal e estabelecidas pelas equações preditivas alcançaram resultados classificados como muito grande (r = 0,7-0,89), com correlações de -0,77, -0,78, -0,77 e -0,77 para as equações de Hawley e Noakes8, Lamberts et al. 12, ACSM - Reserva3 e ACSM - Pot. Máx.3, respectivamente. É possível que os melhores resultados associativos observados na prova simulada em comparação à real tenham sido consequência de um ambiente mais controlado, com menor efeito de variáveis intervenientes.

As demais relações, com piores desempenhos (r < -0,17), estão apresentadas natabela 3. O desempenho em competição real associado ao VO2máx absoluto resultou em baixa correlação com as equações de Hawley e Noakes8 (r = -0,31), Lamberts et al. 12 (r = -0,31), ACSM - Reserva3 (r = -0,19) e ACSM - Pot.Máx.3 (r = -0,25). Nas associações entre o desempenho em prova simulada e o VO2máx relativo, foram observadas para as equações de Hawley e Noakes8, Lamberts et al. 12, ACSM - Reserva3 e ACSM - Pot.Máx.3 correlações de -0,17, -0,31, -0,24 e -0,24, respectivamente, sendo estes resultados classificados no máximo como possuindo pequena associação.

Tabela 3. Valores de baixa correlação entre o desempenho e a prova simulada, de forma relativa, e o desempenho e a competição real, de forma absoluta. 

Variáveis VO2máx (mL.kg-1.min-1) vs. Prova Simulada (n = 20) VO2máx (L.min-1) vs. Competição (n = 17)
Potência Máxima (W) -0,23 (-0,61;0,23) -0,31 (-0,69;-0,19)
VO2máx por Medida Direta 0,10 (-0,35;0,51) 0,48 (0,01;0,78)
VO2máx Estimado
Hawley e Noakes,1992 -0,17 (-0,57;-0,29) -0,31 (-0,69;-0,19)
Lamberts et. al., 2012 -0,31 (-0,66;-0,14) -0,31 (-0,68;-0,19)
ACSM - Reserva -0,24 (-0,62;-0,21) -0,19 (-0,61;-0,31)
ACSM - Pot. Máx. -0,24 (-0,62;-0,21) -0,25 (-0,65;-0,26)

Destaca-se que, em nenhuma das análises realizadas, o VO2máx medido diretamente alcançou elevada associação com o desempenho, apresentando classificação pequena e moderada para as relações entre VO2máx relativo vs. prova simulada e VO2máx absoluto e prova real, respectivamente. Este achado confirma a baixa validade preditiva da medida direta do VO2máx quando atletas são analisados frente a condições competitivas.

DISCUSSÃO

Este estudo foi o primeiro a comparar as equações sugeridas por Noakes5 e Hawley e Noakes8 com as estimativas pelo método de reserva e pela potência máxima, ambas utilizando a equação do ACSM para o ciclismo. Em complemento, foram comparadas a potência máxima alcançada no teste aeróbio e a medida direta do consumo máximo de oxigênio. Os resultados do presente estudo demonstraram que, como já reportado anteriormente5 , 6, a determinação direta do VO2máxnão apresentou correlação significativa com o desempenho atlético, confirmando a baixa relevância desta medida na explicação dos desempenhos competitivos. A melhor predição do VO2máx se deu pelo uso das equações preditivas. Observou-se discreta, porém irrelevante superioridade, em especial pela equação do ACSM utilizando a potência máxima relativizada à massa corporal, na predição da prova simulada. Já para a prova real, a equação de Hawley e Noakes8, em termos absolutos, demonstrou maior valor de correlação.

Há um grande volume de evidências citando o VO2máx como uma medida de desempenho em atletas de endurance20, comomountain bikers, ciclistas de estrada21 , 22, ciclistas de pista23, triatletas24 e corredores25. Entretanto, Noakes6 sugeriu ineditamente que o VO2máxsomente era um bom preditor do desempenho quando grupos heterogêneos de indivíduos eram estudados, se tornando um fraco preditor do desempenho quando atletas homogêneos eram avaliados5. Além disso, Luciaet al.7 demonstraram melhoras na Wmáx sem nenhuma mudança no VO2máx, enquanto Hoogeveen26 demonstraram melhoras no VO2máx com poucas mudanças na Wmáx. Estes dois estudos demonstram a dissociação adaptativa destas variáveis em atletas. Assim, o presente estudo confirma evidências anteriores demonstrando a fragilidade da medida direta do VO2máx para a compreensão e diferenciação do desempenho em atletas com características semelhantes.

Por outro lado, a Wmáx é uma importante variável preditora do desempenho5 , 27. Hawley e Noakes8 reportaram uma significativa correlação (-0,91, p < 0,001) entre a Wmáx e o tempo em um contra-relógio de 20 km. Balmer et al.28 observaram significativa correlação entre Wmáx e a potência média mantida em um contra relógio de 16,1 km (r = 0,99, p < 0,001). Resultados semelhantes com atletas demountain bike foram demonstrados por Gregory et al. 29 e Inoue et al. 2.

Até onde pudemos identificar, apenas um estudo foi encontrado explorando o potencial das estimativas do VO2máx na predição do desempenho atlético em corredores. Santos et al. 30 compararam o poder preditivo do método de reserva proposto por Swain et al. 11 para estimativa do VO2máx com a potência crítica na predição do desempenho de 10 e 21,1 km no plano horizontal e 3,6 km em aclive. Os autores observaram que a estimativa do VO2máxpossibilitou as melhores associações (-0,95, -0,96 e -0,83) e os menores erros padrões de estimativa (1,7 min, 3,9 min e 5 min) para as três condições investigadas, respectivamente. Estes resultados foram ≅ 4,95% melhores do que os observados pela potência crítica.

Em conjunto, a abordagem metodológica empenhada possibilitou de maneira abrangente um olhar crítico sobre o papel do VO2máx determinado por abordagens diretas e indiretas na predição do desempenho em provas simulada e real. Destaca-se que, tradicionalmente, esta temática vinha sendo explorada exclusivamente pelo olhar da validade concorrente das determinações do VO2máx e não pela validade preditiva, resultando numa histórica e equivocada contraindicação da utilização das abordagens indiretas de estimativa do VO2máx dada a sua questionável precisão. Estudos futuros deverão estabelecer se em outras modalidades e públicos tais resultados se confirmarão.

CONCLUSÃO

O presente estudo foi o primeiro a demonstrar a validade preditiva das estimativas do VO2máx para o desempenho simulado e real de MTB. Em complemento, confirmou a baixa validade preditiva da medida direta do VO2máx para a predição do desempenho. Como aplicabilidade prática, recomenda-se que estudos futuros orientados para a investigação do desempenho e intervenções orientadas ao treinamento de atletas prefiram a abordagem indireta de determinação do VO2máx em detrimento da medida direta, que por sua vez deverá ser utilizada quando o objetivo for o de coletar outras variáveis relacionadas ao desempenho (limiares ventilatórios, economia de movimento etc.) ou clínicas (pulso de oxigênio etc.).

AGRADECIMENTOS

Tony Meireles Santos recebe apoio financeiro da Fundação Carlos Chagas de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ E-26/110.153/2).

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Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

Recebido: 16 de Fevereiro de 2013; Aceito: 13 de Agosto de 2014

Correspondência: Tony Meireles dos Santos. Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - Campus Recife. Departamento de Educação Física. Av. Jornalista Anibal Fernandes, s/n. 50670-901tony.meireles@ufpe.br

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