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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

versão impressa ISSN 1517-8692versão On-line ISSN 1806-9940

Rev Bras Med Esporte vol.21 no.4 São Paulo jul./ago. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1517-869220152104084012 

Artigos Originais

Análise isocinética e cinética de corredores e triatletas com e sem histórico de fratura por estresse

Isokinetic and kinetic analysis in runners and triathletes with and without history of stress fracture

Análisis isocinético y cinético en corredores y triatletas con y sin historial de fracturas de estrés

Natália Mariana Silva Luna 1  

Angélica Castilho Alonso 1   3  

Marcos Serra 1  

Nathalie Ferrari Bechara Andare 1  

Eduardo Yoshio Nakano 2  

Danilo Sales Bocalini 3  

Júlia Maria d'Andrea Greve 1  

1Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Laboratório do Estudo do Movimento, São Paulo, SP, Brasil

2Universidade de Brasília, Departamento de Estatística, Brasília, DF, Brasil

3Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, SP, Brasil

RESUMO

INTRODUÇÃO:

A associação da fadiga muscular com o aumento da força vertical de reação do solo representa risco de fratura por estresse de tíbia em esportes como a corrida de longa distância e o triatlo. Objetivo: Analisar e comparar parâmetros do componente vertical das forças de reação do solo e parâmetros musculares isocinéticos da flexão plantar (FP) e dorsiflexão (DF) do tornozelo entre grupos de corredores de longa distância e triatletas com e sem histórico de fratura por estresse de tíbia.

MÉTODOS:

Setenta e cinco atletas de corrida de longa distância e triatletas do sexo masculino, com média de idade de 30,26 ± 6,51 anos foram divididos de acordo com a história pregressa de fratura por estresse de tíbia em: grupo fratura (GF), composto por 12 indivíduos com história de fratura por estresse da tíbia, e grupo não-fratura (GNF), composto por 37 indivíduos sem história de fratura por estresse de tíbia. Os parâmetros cinéticos foram medidos durante a corrida por meio de uma plataforma de força AMTI, e os parâmetros isocinéticos por meio de dinamômetro isocinético Biodex (System 3).

RESULTADOS:

Para todas as variáveis isocinéticas e cinéticas, não houve diferenças entre GF e GNF.

CONCLUSÃO:

Ainda que não se tenha identificado uma diferença de desempenho entre os grupos estudados, o perfil cinético (impacto) e isocinético (atividade muscular) mostra que o treinamento da corrida com déficits em cuidados com a condição muscular e o controle de fatores extrínsecos pode criar uma situação de risco de ocorrência de fraturas por estresse.

Palavras-Chave: corrida; tornozelo; cinese; atletas

ABSTRACT

INTRODUCTION:

The association of muscle fatigue to increased vertical ground reaction force imposes the risk of tibial stress fracture in sports like long-distance running and triathlon. Objective: To analyze and compare parameters of the vertical component of ground reaction forces and isokinetic muscle parameters of plantar flexion (PF) and dorsiflexion (DF) of the ankle between groups of distance runners and triathletes with and without a history of tibial stress fracture.

METHODS:

Seventy-five male long-distance runners and triathletes with a mean age of 30.26±6.51 years were divided according to the previous history of tibial stress fracture: fracture group (FG), composed 12 individuals with a history of stress fracture of the tibia and non-fracture group (NFG), composed of 37 individuals with no history of stress fracture of the tibia. The kinetic parameters were measured during the run through a force platform AMTI and isokinetic parameters through an isokinetic dynamometer Biodex (System 3).

RESULTS:

For all isokinetic variables and kinetics, there were no differences between FG and NFG.

CONCLUSION:

Although a difference in performance has not been identified between groups, the kinetic profile (impact) and isokinetic impact (muscle activity) shows that the running training with deficits in muscle condition care and control of extrinsic factors can create a risk of occurrence of stress fractures.

Key words: running; ankle; kinesis; athletes

RESUMEN

INTRODUCCIÓN:

La asociación de la fatiga muscular al aumento de la fuerza vertical de reacción del suelo representa un riesgo de fractura por estrés de la tibia en deportes como las carreras de fondo y triatlón. Objetivo: Analizar y comparar los parámetros del componente vertical de las fuerzas de reacción del suelo y los parámetros musculares isocinéticos de flexión plantar (FP) y dorsiflexión (DF) del tobillo entre grupos de corredores de fondo y triatletas con y sin antecedentes de fractura por estrés de la tibia.

MÉTODOS:

Setenta y cinco atletas de carreras de larga distancia y triatletas del sexo masculino, con un promedio de edad de 30,26 ± 6,51 años fueron divididos de acuerdo con el historial clínico anterior de fractura por estrés de tibia, en: grupo fractura (GF) compuesto por 12 individuos con antecedentes de fractura por estrés de la tibia, y grupo no-fractura (GNF), compuesto por 37 individuos sin antecedentes de fractura por estrés de la tibia. Se midieron los parámetros cinéticos durante la carrera por medio de una plataforma de fuerza AMTI y los parámetros isocinéticos a través de un dinamómetro isocinético Biodex (System 3).

RESULTADOS:

Para todas las variables isocinéticas y cinéticas, no hubo diferencias entre GF y GNF.

CONCLUSIÓN:

A pesar de que no se haya identificado una diferencia de rendimiento entre los grupos estudiados, el perfil cinético (impacto) e isocinético (actividad muscular) demuestra que el entrenamiento de carrera con déficit en el cuidado de la condición muscular y control de los factores extrínsecos puede crear un riesgo de aparición de fracturas por estrés.

Palabras-clave: carrera; tobillo; cinesis; atletas

INTRODUÇÃO

Em esportes aeróbios de longa distância, como a corrida e o triatlo1 , 2, os membros inferiores são focos frequentes de lesões de sobrecarga, das quais destaca-se a fratura por estresse da tíbia3. Essa lesão desenvolve-se por meio de sobrecarga repetitiva que altera a homeostase óssea, aumentando a atividade osteoclástica, com reparação inadequada4.

A fratura de estresse é de etiologia multifatorial, destacando-se os fatores intrínsecos (anatômicos, biomecânicos, demográficos) e extrínsecos (características relacionadas ao treinamento)5. Em esportes que envolvem corrida, um fator de risco importante para a fratura por estresse de tíbia é a fadiga da musculatura que envolve essa estrutura óssea, dorsiflexores e flexores-plantares, uma vez que desencadeia perda da capacidade de contração excêntrica dos dorsiflexores durante o toque do calcanhar6, redução da transferência da energia mecânica entre as fases excêntrica e concêntrica7 e diminuição da capacidade desses músculos de dissipar as forças de impacto8 , 9.

O histórico anterior de fratura por estresse de tíbia também tem sido relacionado com o risco de nova lesão10 - 12. Porém, ainda há uma necessidade de se pesquisar quais aspectos são mais afetados no atleta após a consolidação da fratura por estresse de tíbia, reabilitação e volta às atividades esportivas. O desempenho da força e resistência da musculatura de dorsiflexores e flexores-plantares, que pode caracterizar o quanto essa musculatura suporta a sobrecarga de treinamento e, portanto a capacidade de manter por mais tempo sem fadiga, bem como as forças verticais de reação do solo são parâmetros importantes para se avaliar após histórico de fratura por estresse.

Alguns estudos apontam diferenças significativas no componente Z do vetor das forças de reação do solo entre grupo com histórico anterior de fratura por estresse de tíbia e grupo sem histórico10 , 13. Em contrapartida, outros autores não encontraram diferenças significativas1 , 12 , 14 . Popp et al. 15 mostraram que um grupo de corredoras de longa distância com fratura pregressa apresentou área transversal menor da musculatura da perna, porém afirmam que a área de secção transversa é uma medida indireta e há necessidade de uma avaliação mais quantitativa para confirmar esses resultados.

A avaliação do desempenho muscular dinâmico em situações de fadiga ou esforço rápido pode ser realizada por meio do dinamômetro isocinético, método que pode determinar o padrão funcional da força e do equilíbrio muscular16. As forças que caracterizam impacto são representadas pela componente Z do vetor das forças de reação do solo e podem ser mensuradas por meio da plataforma de força1, ferramenta mais utilizada para a análise da cinética do movimento17.

Enquanto a caracterização das forças verticais de reação do solo em grupos de corredores de longa distância com histórico de fratura por estresse de tíbia é estudada por vários autores1 , 10 , 13, não existem muitas pesquisas que fazem a análise concomitante dessas e do desempenho da musculatura do tornozelo7. Além disso, a maioria dos estudos foca o corredor de longa distância, havendo poucos estudos comparativos com outros esportes (triatlo).

Este estudo teve como objetivo comparar grupos de corredores de longa distância e triatletas com e sem histórico de fratura por estresse de tíbia, quanto à resistência e força da musculatura dorsiflexora e flexora-plantar do tornozelo, medidas pela dinamometria isocinética, bem como quanto as variáveis cinéticas relacionadas com a componente Z do vetor da força de reação de solo, medidas por uma plataforma de força, buscando entender melhor os fatores predisponentes da fratura por estresse de tíbia nestes atletas e assim fornecer possíveis subsídios para o trabalho de reabilitação e de prevenção dessa lesão.

MÉTODOS

O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil (nº 932/08).

A amostra consistiu de 26 triatletas, que faziam treinamento regular de triatlo com finalidade competitiva por no mínimo um ano (6,5 ± 5,6 anos) e possuíam um volume de treinamento semanal (homogêneos nos três meses anteriores às avaliações) de no mínimo 30 km de corrida (50,71 ± 16,04 km), 60 km de ciclismo (230,76 ± 84,1 km) e 5 km de natação (9,32 ± 4,11) e de 23 corredores de longa distância, submetidos a um treinamento regular deste esporte com finalidade competitiva por no mínimo um ano (6,5 ± 5,6 anos) e possuíam um volume de treinamento semanal (homogêneos nos três meses anteriores às avaliações) de no mínimo 60 km (104,23 ± 36,89 km). Os triatletas e corredores de longa distância não tinham lesões nas articulações do tornozelo nos últimos seis meses, definindo-se lesão como um evento que afastou o atleta do esporte por 24 ou mais horas consecutivas2 e não tiveram dor durante o período de realização dos testes. A amostra foi dividida de acordo com o histórico pregresso de fratura de estresse de tíbia: GF, composto por 12 indivíduos com histórico de fratura por estresse da tíbia e GNF, composto por 37 indivíduos sem histórico de fratura por estresse de tíbia. O critério de inclusão para o GF foi ter apresentado fratura por estresse da tíbia há mais de seis meses, diagnosticada por médico. Para o GNF, o critério era nunca ter apresentado fratura por estresse de tíbia.

Para a realização das avaliações, os indivíduos foram previamente agendados em uma única sessão. Foram orientados a comparecer com traje esportivo e tênis de uso habitual (para os atletas o tênis de treinamento)1 , 11 e não deveriam ter feito atividade física de alta intensidade nas últimas 12 horas. No dia da avaliação, os indivíduos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para a participação do estudo e responderam a um questionário sobre anos de treinamento regular, bem como volume e frequência de treinamento. Após tais procedimentos, foram medidas a altura e massa corporal de todos os participantes e em seguida estes foram encaminhados para a avaliação da plataforma de força, seguida da avaliação isocinética.

Os dados referentes às forças de reação do solo foram coletados por meio de uma plataforma de força (AMTI) conectada a um computador (marca ITAUTEC, Brasil) via conversor A/D. A plataforma era ligada 30 minutos antes do início das coletas para verificação dos parâmetros de amplificação, frequência e captação dos sinais. A frequência utilizada foi 200Hz, o tempo necessário para aquisição foi de 3s e o software utilizado para cálculo das medidas foi Bioanalises AMTI (Estados Unidos). A plataforma (1,2 X 0,6m) estava fixa em superfície plana e coberta por um tapete preto para que os indivíduos não soubessem em que posição se encontrava. Os indivíduos foram orientados a correr em um trajeto de 10,5 metros na média do passo de treinamento (velocidade média de 3,75 m/s ± 7%) e deveriam aterrissar completamente um dos pés na plataforma (situada a 5,32 metros do ponto inicial), sem alterar o passo de forma significativa10. Tal situação é chamada de experiência prática e indica o sucesso da aquisição1 , 10.

Para o processo de familiarização da avaliação e para o registro de dados foram realizadas dez experiências práticas, quantidade apropriada para avaliar os dados de força de reação de solo18. Destas dez experiências, cinco foram realizadas com o membro direito e cinco com o esquerdo17 e a determinação de qual dos membros seria o primeiro, foi por sorteio11. Foi observado qual dos pés era apoiado na plataforma quando ele iniciava o trajeto com o membro inferior direito e quando iniciava com o membro inferior esquerdo19. As variáveis cinéticas analisadas foram: tempo total em segundos correspondente ao período que o pé ficou em contato com o solo (ST); força máxima ao longo do eixo vertical (FzMax); média das forças ao longo do eixo vertical (FzAvg); força correspondente a máxima desaceleração ao longo do eixo vertical; (FzMax Deceleration); força correspondente a máxima aceleração ao longo do eixo vertical (FzMax Acceleration); tempo em segundos em que ocorre a FzMaxAcceleration (FzMax Acceleration@Time). Todas as variáveis relacionadas às forças verticais de reação do solo foram normalizadas pelo peso corporal10.

Para avaliação das variáveis isocinéticas foi utilizado um Dinamômetro Isocinético (marca Biodex - System 3, Software versão 3.2-Estados Unidos). Previamente ao teste, os indivíduos foram submetidos a um aquecimento, em bicicleta ergométrica, durante 5 minutos que consistiu de um esforço submáximo (carga e cadência confortáveis que não provocassem fadiga)20. Em seguida, alongaram os músculos dorsiflexores e flexores plantares dos pés em três séries de 30 segundos21. Antes do início dos testes, o dinamômetro isocinético foi calibrado e posicionado para a realização do teste. Os indivíduos foram posicionados sentados com o membro a ser testado com um suporte na região distal da coxa e a planta do pé apoiada em uma placa rígida. O eixo biológico de movimento da articulação do tornozelo foi alinhado com o eixo mecânico do dinamômetro e o joelho foi mantido com 300 de flexão. A placa rígida permitia a amplitude de 200 de flexão plantar a partir da posição neutra do tornozelo. O indivíduo era mantido na posição por dois cintos torácicos e um pélvico e faixas de velcro sobre a porção distal da coxa e área dos metatarsos na região dorsal do pé. Eram orientados a segurar nos apoios laterais da cadeira para melhorar a estabilização.

Após posicionamento foram realizadas três repetições submáximas para familiarização com o equipamento22. Para registro dos dados, foram feitas uma série de cinco repetições na velocidade de 600/segundo e outra de 30 repetições na 1800/segundo23, com repouso de 10 segundos entre as séries, no modo concêntrico/ excêntrico e no modo excêntrico / concêntrico, ambos para flexão plantar e dorsiflexão. Todos os testes foram bilaterais e sempre se iniciava pelo membro inferior direito. Durante o período de execução dos testes foi realizado um encorajamento verbal padronizado e constante para que os indivíduos mantivessem o máximo de força durante as contrações22. Na velocidade de 600/segundo foi analisado o pico de torque, definido como o torque máximo obtido na série de cinco repetições; expresso em newton-metro (Nm) e o trabalho da repetição máxima, definido como a melhor repetição da série; expresso em joule (J). Na velocidade de 1800/segundo foi analisado o trabalho total (Total Work), definido como a soma do trabalho muscular realizado nas 30 repetições da série; expresso em joule (J).

Análise Estatística

Os valores obtidos nos dois grupos para todas as variáveis foram expostos em planos tabulares e a normalidade destes foi verificada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Os membros não-dominantes e dominantes foram comparados por meio do teste t para amostras dependentes em todos os grupos com objetivo de observar possíveis diferenças entre estes. Como não foram encontradas diferenças significativas entre os membros, as análises não os discriminaram. Para a comparação, entre o grupo de triatletas e corredores com histórico de fratura por estresse de tíbia (Grupo F) e o grupo de triatletas e corredores sem histórico (Grupo NF), das variáveis que apresentaram distribuição gausiana foi utilizado o teste t para amostras independentes. No caso de distribuição não-normal, foi utilizado o teste não-paramétrico Mann-Whitney. A comparação entre os dois grupos quanto ao desempenho isocinético a 180 graus por segundo da contração excêntrica dos flexores plantares foi feito por meio do teste exato de Fisher. Para as análises foi utilizado o software estatístico SPSS (Statistical Package for Social Science - Estados Unidos) versão 15.0 para Windows e foi adotado valor de p ≤ 0,05 como estatisticamente significante.

RESULTADOS

Avaliação Cinética

Na avaliação cinética a comparação das variáveis cinéticas entre o grupo fratura e não-fratura não mostrou diferenças significativas (tabela 1).

Tabela 1. Valores das médias, desvios-padrão das variáveis cinéticas da amostra de atletas e a comparação entre o Grupo Fratura (GF) e Grupo Não-Fratura (GNF). 

Grupo Fratura Grupo Não Fratura p
Média (DP) Média (DP)
ST 0,19 (0,03) 0,20 (0,028) 0,21
FzMax. 2,78 (0,31) 2,64 (0,31) 0,068
FzAvg 1,65 (0,15) 1,59 (0,20) 0,168
FzMD 2,56 (0,36) 2,46 (0,31) 0,168
FzMAccl. 1,94 (0,21) 1,82 (0,30) 0,088
FzMA@Time 1,77 (0,24) 1,82 (0,21) 0,339

(DP) desvio-padrão; (p) valores estatísticos obtidos na comparação dos grupos por meio do teste t de Student. (ST) tempo de apoio; (FzMax.) força máxima vertical; (FzAvg) média das forças verticais; (FzMD) força vertical de desaceleração; (FzMAccl.) força vertical de aceleração; (FzMA@Time) tempo que ocorre a Força vertical de aceleração.

Na avaliação isocinética a comparação das variáveis isocinéticas, tanto para a velocidade de 180 graus por segundo quanto para a de 60 graus por segundo, entre o GF e GNF não mostrou diferenças significativas (tabela 2).

Tabela 2. Médias e desvios-padrão das variáveis isocinéticas na velocidade de 180 e 60 graus por segundo, no modo excêntrico-concêntrico (ECC/CO) e concêntrico- -excêntrico (CO/ECC), da amostra de atletas e a comparação entre o GF e o GNF. 

Grupo Fratura Grupo Não Fratura p
Média (DP) Média (DP)
Velocidade 180
Modo ECC/CO
TW CO.DF 74,13 (27,14) 66,11 (24,77) 0,182
AT CO.DF 175,00 (17,19) 184,72 (44,35) 0,501
DT CO.DF 249,58 (22,74) 240,40 (27,01) 0,137
Modo CO/ECC
TW ECC.DF 172,29 (173,12) 171,75 (138,73) 0,988
AT ECC.DF 238,33 (69,88) 343,09 (422,29) 0,888
DT ECC.DF 180,00 (8,84) 183,24 (13,45) 0,412
A/AR 60,07 (21,07) 62,10 (22,20) 0,695
TW CO.FP 391, 62 (96,13) 386,51 (102,77) 0,908
AT CO.FP 17,08 (4,64) 16,89 (4,94) 0,835
DT CO.FP 80,41 (2,04) 81,08 (3,12) 0,33
Velocidade 60
Modo ECC/CO
PT ECC. FP 37,76 (7,37) 35,2 (7,93) 0,182
MTW ECC.FP 7,52 (1,76) 7,15 (2,21) 0,447
PT COM. DF 35,22 (5,78) 32,85 (6,61) 0,12
MTW CON.DF 6,97 (1,23) 6,89 (1,69) 0,836
A/AR 94,60 (12,67) 94,38 (14,04) 0,944
Modo CO/ECC
PT COM. FP 139,40 (28,93) 131,89 (22,92) 0,195
MTW CON.FP 27,27 (7,42) 26,18 (5,51) 0,513
PT ECC. DF 138,67 (29,21) 134,60 (22,23) 0,536
MTW ECC.DF 29,97 (7,71) 29,57 (6,54) 0,806
A/AR 99,79 (8,04) 102,53 ( 7,76) 0,14

(DP) desvio-padrão;(ECC) excêntrico; (CO) concêntrico; (FP) flexão plantar; (DF) dorsiflexão; (TW) trabalho total; (AT) tempo de aceleração; (DT) tempo de desaceleração; (PT) pico de torque (MTW) trabalho da repetição máxima; (A/AR) relação agonista/antagonista; (p) valores estatísticos obtidos na comparação dos grupos por meio do teste t de Student e teste Mann-Whitney.

Da mesma forma, não foram encontradas diferenças significativas entre o GF e GNF quanto ao desempenho isocinético a 180 graus por segundo da contração excêntrica dos flexores plantares (tabela 3).

Tabela 3. Frequência absoluta e relativa do desempenho da contração excêntrica dos flexores plantares na velocidade de 180 graus por segundo da amostra de atletas e a comparação entre o Grupo Fratura (GF) e o Grupo Não-Fratura (GF). 

Grupo Fratura Grupo Não Fratura
Frequência
n (%)
Frequência
n (%)
p
Desempenho da contração ECC. FP 180 1,000
Satisfatório 3 (25,0%) 10 (27,0%)
Não satisfatório 9 (75%) 27 (73,0%)

(ECC) excêntrica; (FP) flexores plantares; (p) valores estatísticos obtidos na comparação dos grupos por meio do teste Exato de Fisher

DISCUSSÃO

O presente estudo comparou a resistência e força isocinéticas da musculatura dorsiflexora e flexora-plantar do tornozelo e a força de reação de solo (análise cinética) de grupos de corredores de longa distância e triatletas com e sem histórico de fratura por estresse de tíbia, buscando o maior entendimento da etiologia das fraturas de estresse da tíbia.

A comparação das variáveis cinéticas entre o grupo fratura e não-fratura não mostrou diferenças significativas. Outros estudos, apesar de realizarem essa avaliação somente com corredores, também não encontraram diferenças. Bennel et al. 14 não encontraram diferenças significativas entre um grupo de corredoras com histórico de fratura por estresse de tíbia e um grupo sem histórico, para a força máxima ao longo do eixo vertical e forças verticais correspondentes a máxima desaceleração e aceleração, bem como para o tempo de duração destas. Milner et al. 12 também não mostraram diferenças significativas para força máxima ao longo do eixo vertical entre corredoras com histórico de fratura por estresse e as sem histórico. Um estudo de Crossley et al. 1 que avaliou 46 atletas de corrida do sexo masculino, mostrou que os atletas que haviam sofrido fratura por estresse de tíbia há 1,9±1,3 anos não diferiram de atletas corredores sem fratura por estresse de tíbia com relação à força máxima ao longo do eixo vertical e força vertical correspondente a máxima desaceleração e tempo de duração destas.

Em contrapartida, outros autores encontraram diferenças significativas entre um grupo de atletas com histórico de fratura por estresse de tíbia e outro sem histórico. Ferber et al. 13 mostraram que corredoras com histórico de fratura por estresse de tíbia apresentaram maior força máxima ao longo do eixo vertical , taxas de cargas e pico de aceleração tibial que um grupo de corredoras sem histórico de fratura por estresse. Grimston et al. 10, observaram que corredoras com histórico de fratura por estresse (sete de tíbia e três de fêmur) apresentaram força máxima ao longo do eixo vertical e força correspondente a máxima desaceleração ao longo do eixo vertical maiores do que aquelas sem histórico de fratura por estresse. Da mesma forma, Hreljac et al. 11 apesar de não especificarem a lesão de uso excessivo, mostraram que indivíduos praticantes de corrida, tanto homens como mulheres, com lesão há pelo menos três meses apresentaram maior força máxima ao longo do eixo vertical e maior força vertical correspondente a máxima desaceleração, do que indivíduos que não tiveram.

O estudo em questão se diferencia de outros citados por apresentar um número de atletas com histórico de lesão menor e por mesclar corredores de longa distância e triatletas. No entanto, a ausência de diferença significativa entre grupos fratura e não-fratura pode ter sido em função dos atletas que tiveram fratura terem passado por um processo de reabilitação adequado e assim não mostrarem alterações expressivas decorrentes da fratura por estresse de tíbia. O aumento da força máximo no eixo vertical pode estar relacionada com a ocorrência de fraturas de estresse, mas possivelmente outros fatores podem estar associados como: aspectos anatômicos, fadiga, tempo e intensidade de treinamento, intervalos entre competições, condicionamento muscular e assim quando se avaliam atletas com fraturas de estresse após a consolidação, reabilitação e volta às atividades esportivas, alguns destes fatores podem ter se modificado, fazendo com que os parâmetros cinéticos sejam similares aos indivíduos sem fratura e justifiquem as discrepâncias na literatura.

A dinamometria isocinética foi feita nas velocidades de 600/segundo (avaliar força muscular) e 1800/segundo (avaliar resistência, potência e controle neuromuscular) nos músculos dorsiflexores e flexores plantares do tornozelo, tanto para a atividade concêntrica e excêntrica.

Na comparação entre o grupo fratura e não-fratura, não se observaram diferenças significativas entre as variáveis isocinéticas, tanto para a velocidade de 1800/segundo quanto para a de 600/segundo. Pode-se inferir destes dados que a recuperação dos com fraturas foi adequada, sem repercussão evidente na atividade muscular. Ainda que o aumento da força máxima no eixo vertical e a deficiência no desempenho dinâmico da musculatura de tornozelo sejam fatores relacionados com a ocorrência de fraturas de estresse na tíbia, outros aspectos intrínsecos (demográficos, anatômicos, biomecânicos) e extrínsecos (características do treinamento e tipo de piso) não podem ser descartados.

A maioria dos estudos que compararam grupos com e sem histórico de fratura por estresse de tíbia enfocou apenas aspectos biomecânicos12 , 24 , 25 havendo relativa escassez sobre o desempenho muscular. O estudo de Popp et al. 15, que também analisou a força muscular em corredoras de longa distância com e sem histórico de fratura por estresse em membro inferior, usou como critério de avaliação a área de secção transversa muscular. Os resultados mostraram que o grupo com fratura pregressa apresentou área transversal menor da musculatura da perna e sugerem que a força muscular da musculatura do tornozelo é importante para a melhor absorção do impacto e prevenção da fratura por estresse. No entanto, a área de secção transversa é uma medida indireta de força muscular e há necessidade de uma avaliação mais direta e quantitativa para confirmar esses resultados.

Apesar das limitações da avaliação isocinética (posicionamento e velocidade angular), seu uso na análise de atletas é consagrado pela possibilidade de se ter dados precisos sobre o desempenho muscular26. Há dificuldade para de comparar os diversos estudos isocinéticos devido às diferenças dos protocolos: número de repetições, velocidade e tipo de contração, assim como posicionamento do indivíduo e a marca do dinamômetro27. Há falta de dados na literatura sobre a contração excêntrica isocinética dos flexores e extensores de tornozelo, que foi um aspecto importante do nosso estudo e que mostrou uma menor atividade muscular nos atletas quando comparado com o controle. Esse achado pode ser importante para orientar o treinamento e preparo físico dos corredores e triatletas na prevenção da fratura de estresse e outras lesões.

Ainda que não se tenha identificado uma diferença de desempenho nos atletas com e sem fratura dos dois grupos estudados, o perfil cinético (impacto) e isocinético (atividade muscular) mostra que o treinamento da corrida, sem um adequado cuidado com a condição muscular, pode criar uma situação de risco para a ocorrência de fraturas. As duas avaliações, quando analisadas em conjunto, apontam, com clareza, para a necessidade de estabelecer programas de fortalecimento muscular específicos, para prevenção de desequilíbrios e sobrecargas, que possam causar lesões. É possível que programas de treinamento dos dorsiflexores e flexores-plantares, com objetivos específicos (força, resistência, potência com variação de amplitude de movimento e velocidade), promovam melhoras da condição muscular durante a corrida, diminuindo o risco de fratura por estresse de tíbia.

O controle dos fatores extrínsecos: calçados, superfícies de treinamento e volume de treinamento, períodos de recuperação adequados e intrínsecos: correção das alterações biomecânicas e anatômicas e prevenção dos desequilíbrios musculares e sobrecargas podem diminuir o risco de fraturas por estresse na tíbia. Este estudo, ainda que limitado pela metodologia disponível e pela dificuldade de se avaliar indivíduos pré-fratura, pode ajudar no entendimento e desenvolvimento dos programas de prevenção e reabilitação da fratura por estresse de tíbia em corredores de longa distancia e triatletas.

CONCLUSÃO

A comparação das variáveis cinéticas e isocinéticas entre o grupo fratura e não-fratura não mostrou diferenças significativas.

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 06 de Março de 2013; Aceito: 26 de Junho de 2014

Correspondência: Rua Oscar Freire, 1799, ap1008, Cerqueira César. São Paulo, SP, Brasil. nmsluna@gmail.com

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