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Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702

Educ. Pesqui. vol.37 no.4 São Paulo Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022011000400005 

ARTIGOS

 

Moral no mundo adulto: a visão dos jovens sobre os adultos de hoje

 

 

Helena Amstalden Imanishi; Vanessa Lopes dos Santos Passarelli; Yves Joel Jean-Marie Rodolphe de La Taille

Universidade de São Paulo

Correspondência

 

 


RESUMO

A pergunta central desta pesquisa é: como os adolescentes da atualidade julgam os adultos no que se refere essencialmente a critérios morais? Responder a essa indagação possui relevância para a formação ética e moral dos alunos devido a duas razões principais: a primeira refere-se ao desenvolvimento moral do adolescente; a segunda, à aparente deserção do espaço público por parte dos jovens em favor do espaço privado. Nesse sentido, o objetivo do presente trabalho foi verificar como os jovens julgam moralmente os adultos e se, de fato, eles operam uma clara cisão entre as esferas privada e pública. Foram realizadas separadamente duas pesquisas: no estudo 1 (E1), utilizou-se um questionário fechado de 24 questões e duas questões abertas; no estudo 2 (E2), além da aplicação de um questionário com 14 perguntas, foi realizado um debate em grupo acerca delas. É importante ressaltar que, neste artigo, são analisadas tanto questões presentes nos dois estudos, quanto algumas presentes apenas no E1. Os resultados obtidos mostram certa desconfiança dos jovens em relação à moralidade dos adultos. A maioria não os considera pessoas éticas e, de forma geral, critica sua condução da esfera pública. Além disso, os jovens questionam as virtudes dos adultos e consideram o egoísmo como o maior defeito deles, associando-o a uma preocupação exclusiva com a esfera privada. Dividem-se quanto à sabedoria, à responsabilidade e à confiança atribuída aos adultos de hoje. Os dados apontam, ainda, que a imagem do adulto apresentada é relativizada a partir da distinção entre os adultos da esfera pública e aqueles da esfera privada.

Palavras-chave: Jovens - Adultos - Valores - Moral - Contemporaneidade.


 

 

A pergunta central da presente pesquisa é: como os jovens da atualidade julgam os adultos no que se refere essencialmente a critérios morais (como justiça, responsabilidade, cuidado com a educação, com o meio ambiente, com a política etc.)? Mas por que fazer tal indagação? Terá ela relevância para a formação moral e ética dos jovens?

Pensamos que sim, e isso se justifica por duas razões complementares entre si. A primeira refere-se ao desenvolvimento moral do jovem: sabe-se que este se dá na interação com o mundo social.

Na perspectiva de Jean Piaget (1992), a relação com os adultos, considerados autoridades morais, caracteriza a fase de heteronomia moral, fase esta superada por outra, a da autonomia moral, fruto, segundo o autor, de relações de reciprocidade, possíveis entre pares, ou seja, nas relações das crianças e jovens entre si. Fôssemos ater-nos a essa descrição, não pareceria útil responder à pergunta acima formulada, pois não somente os adultos a que se remete Piaget não são quaisquer adultos, mas sim aqueles da esfera privada, investidos de afetividade, como também mesmo eles tenderiam a perder influência moral, sendo substituídos pelos pares.

Todavia, é preciso atentar para o fato de que Piaget nunca disse que jovens seriam necessariamente autônomos, pois, em suas próprias palavras, "notemos que essas duas morais (heteronomia e autonomia) se reencontram no adulto" (1998, p. 33). Lembremos que Piaget queria sustentar a tese de que há um desenvolvimento moral e este caminha da heteronomia para a autonomia; ele não pretendia afirmar, porém, que a heteronomia seria característica moral apenas de crianças pequenas.

Ora, admitindo que a heteronomia ainda pode ser característica de jovens e adultos, e lembrando que ela advém de e reforça-se por relações assimétricas, é relevante conhecer o que os jovens pensam desses não pares que são os adultos. Três quadros, ao menos, podem ser encontrados. O primeiro: os adultos são vistos pelos jovens como pessoas morais e, logo, provavelmente inspiradoras de suas próprias condutas. O segundo: apenas os adultos de sua esfera privada, investidos afetivamente, são vistos como pessoas morais, mas os demais não. Terceiro quadro: os adultos não são vistos como pessoas de comportamento moral. Nesse último caso, a não ser que os jovens tenham, o que é bem pouco provável, conquistado plena autonomia, estamos diante de um cenário no mínimo problemático para sua formação moral.

Tal problemática fica ainda mais clara se nos remetermos à perspectiva de Lawrence Kohlberg (1981), que, na trilha aberta por Piaget, caminhou para uma teoria sofisticada de estágios do desenvolvimento moral. Sabe-se que é de se esperar que os jovens tenham superado os estágios pré-convencionais e que estejam ainda nos estágios chamados convencionais. Ora, as características desses estágios suscitam claramente a importância do entorno social. A definição geral do estágio convencional refere-se à manutenção das expectativas da família, do grupo e da nação, e à identificação com as pessoas envolvidas nos respectivos grupos. O estágio três, ilustrado pela expressão ser um bom menino (ou boa menina), privilegia as esferas privadas (família ou grupo social), enquanto o estágio quatro privilegia a esfera pública e a manutenção da ordem social. Há, portanto, no estágio convencional, referência assimétrica ao entorno social para a legitimação da moral, e, nesse entorno, os adultos, tanto na condição de membros da família quanto de cidadãos da sociedade, são parte não desprezível.

Em suma, parece-nos importante, do ponto de vista do desenvolvimento moral, procurar saber como os jovens julgam moralmente os adultos, pois estes são referências incontornáveis nessa faixa etária.

Há mais uma razão atinente ao desenvolvimento moral para empreender tal investigação. Estamos referindo-nos ao sentimento de confiança (LA TAILLE, 2006), que não é exclusivamente moral. Por exemplo, podemos confiar num piloto de avião em razão das competências que ele possui. A mesma coisa pode ser dita em relação a um médico. Porém, para além da dimensão da competência, reencontramos a dimensão moral, pois de nada adianta possuir competências se a pessoa que as possui não age com seriedade ou honestidade.

Voltando ao exemplo do piloto, por mais treinado e talentoso que ele seja, se pilotar com desleixo ou sob efeito de alguma droga que consumiu conscientemente, poderá causar um acidente e este deverá ser atribuído à sua falta de responsabilidade para com os outros, ou seja, à sua falta de senso moral. Assim explicitada a dimensão moral da confiança, devemos perguntar-nos se a falta de confiança nos outros pode ser fator complicador para o desenvolvimento da moralidade e para as ações morais.

Em se tratando de uma pessoa autônoma, a resposta é negativa, pois ela pauta suas ações não sobre os modelos das ações de outrem, mas sim sobre princípios intimamente legitimados. Em compensação, se for heterônoma, é de se esperar que, se houver falta de confiança generalizada nos outros, ela estará privada de modelos morais para seus juízos e ações. Frequentemente se ouvem pessoas justificarem transgressões, não dizendo que agiram certo, mas sim lembrando que todo mundo faz a mesma coisa, o que pode ser traduzido por já que ninguém merece confiança, não vejo porque eu deveria ser o único confiável.

Logo, é válido afirmar que a falta de confiança nos outros pode ser fator deletério para a construção do senso moral, notadamente porque crianças e jovens elegem tais outros como referências importantes. E, pelo que já vimos aqui, sendo os adultos pessoas significativas para os jovens, o grau de confiança que neles depositam é variável ponderável para avaliar fatores facilitadores ou complicadores da construção de sua moralidade. Não queremos dizer com isso que a falta de confiança acarretaria mecanicamente uma falta de desenvolvimento moral (seria reducionista afirmá-lo), porém, ela certamente pode acarretar uma fragilidade do querer agir moral (LA TAILLE, 2006, 2009b).

Vejamos agora a segunda razão pela qual empreendemos o presente estudo: a aparente deserção do espaço público por parte dos jovens em favor do espaço privado.

Numa pesquisa recente, com amostra de 5.160 sujeitos, alunos de ensino médio da Grande São Paulo (LA TAILLE; HARKOT-DE-LA-TAILLE, 2005), verificou-se que instituições públicas como a mídia, a religião, o poder religioso, os partidos políticos e o Congresso Nacional são pouco merecedoras de confiança por parte dos jovens. Vejamos os números (arredondados): 63% não confiam ou confiam pouco nas instituições religiosas, 70% não confiam ou confiam pouco no Poder Judiciário, 95% não confiam ou confiam pouco nos partidos políticos, 71% não confiam ou confiam pouco no Congresso Nacional e 82% não confiam ou confiam pouco nos meios de comunicação. Em compensação, 97% dizem confiar ou confiar muito na instituição familiar.

Outro dado reforça essa clara valorização da família, espaço privado, em detrimento do espaço público: ele se refere ao grau de influência que os jovens julgam ter três instituições sobre os seus próprios valores. A primeira é a religião, que 62% deles julgam ter pouca ou nenhuma influência. A segunda são os meios de comunicação, que 67% deles julgam ter pouca ou nenhuma influência. Novamente, a família destaca-se, pois 92% dos sujeitos pesquisados afirmam que os pais têm muita ou média influência sobre seus próprios valores.

Ora, sendo os pais e os que dirigem as instituições públicas adultos, temos uma clara cisão: na esfera privada, há confiança e atribuição de valores; fora dela, há pouca confiança e também pouca atribuição de valores. Haveria, portanto, os adultos privilegiados - aqueles do espaço privado - e os outros, pouco significativos - os da esfera pública. Note-se que tais dados também são relevantes para a dimensão moral, pois atribuir valor e confiança apenas à esfera privada não somente reduz drasticamente o número de pessoas a quem se atribui senso moral, como equivale a uma constatação de pouco exercício da cidadania por parte dos adultos, uma vez que tal cidadania é característica desejável das ações no espaço público.

Em razão das análises e dos dados que acabamos de apresentar, resolvemos aprofundar a questão e verificar essencialmente: 1) como os jovens julgam moralmente os adultos e 2) se, de fato, operam uma clara cisão entre as esferas privada e pública. Cremos que os dados que vamos apresentar são relevantes para a educação, pois esta é ministrada por adultos da esfera pública. Voltaremos à questão em nossas conclusões.

 

Método

Foram realizadas separadamente duas pesquisas, cujas denominações serão, a partir deste momento, respectivamente: E1 (estudo 1) e E2 (estudo 2). No E1 foram realizadas 24 perguntas e no E2, 14 perguntas. Dentre as questões, 11 estão presentes em ambos os estudos, 13 apenas no E1 e três somente no E2. É importante notar que, no presente artigo, serão analisadas tanto questões presentes nos dois estudos, quanto algumas presentes apenas no E1.

Estudo 1

O E1 foi realizado no ano de 2008, em duas escolas particulares e duas públicas da cidade de São Paulo, com um total de 520 alunos, de ambos os sexos, todos cursando o ensino médio. O instrumento utilizado compreendia um questionário fechado, contendo 24 questões, e duas questões abertas.

Estudo 2

O E2 foi realizado em 2008 com um total de 36 alunos do ensino médio. Eles foram divididos em seis grupos de seis integrantes cada um, sendo que três dos grupos eram de uma escola pública e os outros três de uma escola privada. Cada um deles foi composto por três jovens do sexo masculino e três do sexo feminino. Para cada integrante do grupo foi distribuído, inicialmente, um questionário fechado com 14 perguntas. Posteriormente, era proposta uma discussão sobre os temas ali presentes, de forma que eles pudessem refletir sobre cada questão.

 

Resultados e análise

A avaliação dos adultos pelos jovens incidiu sobre alguns aspectos, os quais apresentaremos separadamente:

1. Atributos e qualidades adultas

As perguntas dessa parte buscavam abordar aspectos que, tradicionalmente, estiveram relacionados à imagem do adulto. O objetivo era que o adolescente pudesse avaliar o adulto nas seguintes categorias: sabedoria, responsabilidade e ética.

No E1, o atributo sabedoria dividiu a opinião dos jovens. Para 44,42% deles, os adultos de hoje são considerados pouco sábios e a mesma porcentagem é verificada entre aqueles que os consideram sábios. No E2, houve um pequeno aumento daqueles que consideram os adultos de hoje sábios (57,1%).

 

Gráfico 1

 

Apesar de certa divisão nas respostas, é significativo que quase metade dos sujeitos no E1 e mais da metade no E2 não considerem os adultos de hoje pessoas sábias, e que aqueles que os consideram muito sábios não passem de 4% no E1, sendo que essa alternativa não foi escolhida por nenhum dos participantes do E2.

No E2, os entrevistados da instituição pública atribuíram a pouca sabedoria dos adultos à falta de informação. Esta estaria relacionada, para alguns jovens, ao fato de os adultos não possuírem uma boa formação escolar; para outros, ao fato de desconhecerem seus direitos, leis e, também, à forma como se relacionam com a política.

A partir dos apontamentos desses jovens, é possível pensar que o papel da experiência talvez ceda lugar à importância da informação em nossos tempos. Para Christopher Lasch (1983), não apenas nossas sociedades perderam o conceito de sabedoria, como o conhecimento adquire importância apenas do ponto de vista instrumental. Com o avanço tecnológico aliado à dinâmica do consumo, o conhecimento torna-se constantemente obsoleto e, portanto, intransferível. Diante desse cenário, podemos questionar-nos se os adultos de hoje não se apresentam mesmo um pouco perdidos, pouco autorizados - e pouco se autorizando - no lugar daqueles que se utilizam de sua experiência para guiar os mais novos. A quantidade de especialistas que procuram informar - ou dar uma receita - aos pais sobre a maneira certa de educar é um exemplo do quanto a sabedoria tem-se distanciado da ideia de experiência.

Quanto ao atributo responsabilidade, observamos, a partir do E1, que 69,04% dos adolescentes consideram os adultos responsáveis ou muito responsáveis e, com porcentagem parecida, 71,4% dos jovens escolheram tais alternativas no E2.

 

Gráfico 2

 

No entanto, devemos questionar-nos sobre qual adulto os jovens tinham em mente ao responderem a tais perguntas. No E2, a partir da discussão em grupo, evidenciou-se o fato de a maioria dos jovens ter dificuldades em responder acerca dos adultos em geral. Segundo eles, seria complicado generalizar. Isso talvez se deva ao fato de terem como referência aqueles de seu convívio íntimo, principalmente os pais. Estes parecem ser uma referência norteadora para tais jovens.

Vale notar ainda que, no E2, observou-se que a responsabilidade atribuída aos adultos era, preponderantemente, relacionada à família e ao trabalho. Quando a responsabilidade ligava-se ao tema político, os jovens consideravam que os adultos não seriam responsáveis.

Nas falas desses jovens, podemos identificar duas tendências que nos parecem relacionadas. Na primeira, existe a dificuldade em pensar no adulto em geral ou, inversamente, a preocupação em avaliar cada um em sua individualidade. Ora, a necessidade de particularização e de aproximação ao outro dar-se a partir daquilo que lhe há de mais íntimo apresenta-se como um grande valor contemporâneo. Gilles Lipovetsky (2005) entende que essa particularização reduz as diferenças instituídas socialmente e prioriza a hiperdiferenciação dos comportamentos individuais.

Tal análise também se relaciona à segunda tendência dos jovens, qual seja, a distinção entre esfera pública e privada, sendo apenas a última digna de confiança. Assim, quando os jovens dizem que os adultos são pessoas responsáveis, poderíamos questionar-nos a qual adulto (em geral, ou do convívio íntimo) eles se referem. Aparentemente, quando se trata de indivíduos da esfera privada, a avaliação tende a ser mais positiva, como demonstram os dados.

Podemos sugerir não apenas que a imagem do adulto é influenciada pelo grau de intimidade que os jovens tenham com ele, como também que os adultos são mais mal avaliados quando está em questão sua capacidade de relacionar-se e atuar no mundo público. Essa hipótese recebe força diante dos dados a seguir.

Dentre os atributos analisados, parece pertinente afirmar que ética é o que mais faz referência às relações sociais e públicas. Quando se solicitou aos jovens que avaliassem os adultos quanto ao atributo ética, as respostas negativas foram as mais evidenciadas: 59,8% dos jovens no E1 e 80,9% no E2 consideram os adultos de hoje pessoas pouco ou nada éticas.

 

Gráfico 3

 

Nas entrevistas do E2, ao falarem de ética - falta de ética -, os grupos fizeram referência ao mundo público. Referiram-se às relações que os adultos estabelecem, portanto, no espaço coletivo e comum. Os jovens destacaram temas como: ambiente de trabalho, escola, meio ambiente e política.

Em dois grupos da escola pública, os alunos apontaram o egoísmo como predominante na sociedade atual. Essa convivência entre as pessoas no espaço público seria marcada, segundo os jovens, por uma preocupação com aquilo que se refere ao próprio indivíduo e a seus interesses.

Tendo em vista a importância da ética nas relações sociais e públicas, devemos perguntar-nos como os adultos são avaliados do ponto de vista de sua atuação nessa esfera. Uma má avaliação reforça nossa hipótese de que a intimidade e a impessoalidade são critérios importantes para os jovens quando julgam os adultos de hoje.

2. O adulto e o mundo público

Nesse tópico, as questões relacionavam-se a como os jovens avaliavam a condução do mundo pelos adultos, fazendo referência à atuação dos últimos especialmente na esfera pública. Uma das questões era mais geral, a saber, Como os adultos de hoje dirigem o mundo?, e as outras, específicas. Dentre estas, apenas a pergunta Como os adultos de hoje conduzem a educação das novas gerações? esteve presente tanto no E1 quanto no E2. As restantes - Como os adultos de hoje conduzem a política?, Como os adultos de hoje conduzem as questões ambientais? e Como os adultos de hoje conduzem as informações e programas veiculados pela mídia? - fizeram parte apenas do E1.

Quando indagados, no E1, sobre como os adultos de hoje dirigem o mundo, a resposta foi negativa para 71,34% dos jovens, os quais avaliaram que os adultos de hoje conduzem o mundo mal ou muito mal. Tal resultado é ainda maior no E2, em que 85,7% dos adolescentes também responderam dessa maneira. Certamente, esses dados demonstram um pessimismo entre os jovens em relação à capacidade dos adultos em serem responsáveis pelo mundo.

 

Gráfico 4

 

A partir das entrevistas do E2, nota-se que os jovens apresentam temas como política, meio ambiente, educação, saúde e segurança. De modo geral, eles reprovam a forma como os adultos conduzem essas questões.

Novamente, apareceu em dois grupos da escola particular uma diferença na resposta, caso considerassem os adultos de seu convívio ou os adultos em geral. Além disso, alguns jovens falaram da dificuldade em generalizar, ou seja, em avaliar os adultos em geral, uma tendência que já observamos antes.

Aparentemente, quanto mais anônimo o adulto for, menos amistoso ele parecerá; quanto mais estão em jogo as habilidades e comportamentos impessoais - característicos dos relacionamentos fora do âmbito privado -, menos apto o adulto parecerá.

Em relação a como os adultos de hoje conduzem a educação, no E1, a opinião dos jovens ficou dividida, tendendo a uma avaliação negativa: 55,97% avaliaram negativamente (mal ou muito mal). No E2, apenas 16,7% dos jovens avaliaram que os adultos conduzem bem ou muito bem, e 83,4%, ao contrário, avaliaram tal condução de forma negativa.

 

Gráfico 5

 

Nas entrevistas do E2, apareceram duas dimensões educacionais, novamente relacionadas aos binômios intimidade x impessoalidade, privado x público. De um lado, uma dimensão mais afetiva, relacionada à família, e, de outro, uma dimensão mais impessoal, associada à educação escolar. Os jovens de todos os grupos consideram que a preocupação dos adultos com a educação dá-se apenas em relação aos seus filhos; assim, a educação de seu país ou do mundo ficaria em segundo plano.

A tendência a uma avaliação negativa dos adultos repetiu-se nas outras esferas do mundo público. Em relação à política, quase todos os sujeitos (90%) afirmaram que os adultos de hoje conduzem mal ou muito mal a política, e nenhum jovem considerou tal conduta muito boa. No que concerne ao meio ambiente, a crítica também é severa: 83,47% consideram que os adultos conduzem mal ou muito mal as questões ambientais. Em relação à mídia, a avaliação negativa é menos intensa, embora significativa. Para 42,69%, os adultos de hoje conduzem mal ou muito mal as informações e os programas veiculados pela mídia.

Resumindo os dados obtidos até o momento, observamos que em nenhum domínio da esfera pública os resultados foram predominantemente positivos. Ao contrário, ou as respostas dividiam-se, ou indicavam quase unanimidade entre os jovens na avaliação de que os adultos não são capazes de conduzir certas esferas do mundo público.

A confiança na conduta dos mais velhos e no contexto que antecede o indivíduo - o mundo propriamente dito - desempenha papel importante no desenvolvimento e na preparação dos jovens para habitar o mundo, em suas esferas cada vez mais amplas. Para essa premissa, não faltam teorias e mesmo senso comum que a ratificam, o que torna os presentes dados, no mínimo, preocupantes.

Quando questionados, no E1, sobre o grau de confiança que sentem nos adultos, a hesitação dos jovens em responder positivamente fica evidente na divisão das respostas encontradas.

 

Gráfico 6

 

No gráfico 6, chama a atenção o fato de os jovens dividirem-se quanto à confiança inspirada pelos adultos de hoje. Apesar de as frequências de sujeitos que confiam e que confiam pouco serem parecidas, é significativo que 40,77% confiem pouco e apenas 5,58% confiem muito, indicando que a confiança nos adultos é questionada.

Entendemos que essa questão reflete os dados apresentados nas outras perguntas. Vimos que os jovens consideram os adultos pessoas responsáveis e até sábias, mas a confiança nos mesmos não tem a mesma expressividade. A aparente contradição pode ser compreendida a partir da diferença que os jovens estabelecem entre esfera privada e esfera pública, nas relações íntimas e nas condutas políticas e sociais. Como temos observado, nossos jovens tendem a privilegiar ou a valorizar mais as primeiras em detrimento das segundas. A confiança nos adultos parece ter tal distinção como referência.

3. Os valores dos adultos

As questões dessa parte buscavam investigar quais eram os valores dos adultos de hoje na opinião dos jovens. É importante destacar que os estudos sobre a contemporaneidade e seus ideais mostraram-se importantes para que essas perguntas, bem como suas possíveis respostas, pudessem ser pensadas e elaboradas.

Dentro do tema sobre os valores dos adultos de hoje, perguntou-se para os jovens qual poderia ser a maior virtude dos adultos, sendo três delas morais (honestidade, solidariedade e justiça) e uma pragmática (competência profissional). No E1, 46,73% dos jovens pensam que a competência profissional é a maior virtude dos adultos de hoje. Os adolescentes do E2 apontaram na mesma direção, e 59,5% deles optaram por essa alternativa.

 

Gráfico 7

 

A virtude que se destaca, portanto, não é uma virtude moral. Lembremos que os adultos de hoje não foram bem avaliados do ponto de vista ético. Além disso, no debate realizado sobre essa questão (E2), todos os grupos da escola privada falaram da dificuldade de escolher qualquer uma das quatro opções listadas, sugerindo que não viam virtudes possíveis. Segundo eles, nenhuma delas seria uma virtude do adulto de hoje, e teriam escolhido competência profissional por eliminação. Além disso, para dois grupos da escola particular e um da escola pública, a competência profissional está estritamente relacionada ao interesse pelo dinheiro.

Vejamos o que disseram os jovens sobre as demais alternativas. No E2, a soma das três virtudes morais aproxima-se da porcentagem daquela pragmática, o que poderia levar-nos a uma perspectiva otimista quanto à visão de um adulto ético pelos jovens. No entanto, não é isso que observamos nas discussões dos grupos.

Quanto à honestidade, em um dos grupos da escola particular, comentou-se que a escolha dessa alternativa refletia o desejo de que os adultos tivessem a referida virtude. O mesmo ocorreu com a solidariedade, demonstrando que tais desejos enfatizam a falta dessas virtudes nos adultos de hoje. Em dois grupos da escola particular, os jovens ainda enfatizaram que considerariam os adultos honestos ou solidários se pensassem em suas famílias, mas não nos adultos em geral.

Em relação à justiça, os alunos da escola pública falaram de sua ausência. Eles referiram-se a preconceitos sofridos devido à classe social (na busca por emprego) e à cor da pele, bem como à impunidade em relação aos crimes. Pouco escolhida em ambos os estudos (11,92% no E1, e 4,8% no E2), a justiça é, no entanto, a grande referência do ponto de vista teórico no desenvolvimento moral. Ela também é apontada como a mais importante, dentre outras virtudes, segundo jovens de uma pesquisa realizada por Yves de La Taille e Elizabeth Harkot-de-La-Taille (2005).

Nesse estudo, os jovens foram indagados sobre a importância que atribuem a virtudes - uma não moral (competência profissional), duas morais (honestidade e tolerância) e uma tanto moral quanto jurídica (a justiça). Esta última foi a alternativa mais escolhida entre eles, com 44,5%.

O mesmo foi observado também em outra pesquisa realizada por La Taille e colaboradores (LA TAILLE, 2009b). Dentre os dados, dois chamam a atenção: um deles revela que, dentre dez virtudes listadas, a justiça é a segunda mais importante segundo os jovens, atrás apenas da humildade; o outro aponta que as virtudes que mais faltariam aos adultos de hoje seriam justamente as duas primeiras do ranking das virtudes (humildade e a justiça). Como aponta La Taille (2009a), valoriza-se mais o que se julga faltar do que o que se julga presente. A mesma ponderação pode ser feita em relação à honestidade e à solidariedade, alternativas escolhidas no E2, segundo os jovens, devido ao desejo de que os adultos tivessem-nas como virtudes.

Se as virtudes dos adultos de hoje são questionadas, quais seriam seus principais defeitos? É o que a próxima questão de nossa pesquisa indagava aos jovens. Essa pergunta, mais uma vez, apresentava uma opção pragmática - desatualização/desinformação1 - e três defeitos que se relacionavam a uma conduta contrária àquela moral - egoísmo, vaidade e covardia.

Tanto no E1 como no E2, o defeito egoísmo destacou-se, sendo o mais escolhido (55,58% no E1, e 52,4% no E2), seguido por desatualização/desinformação (17,69% no E1, e 28,6% no E2).

Aparentemente, a ideia de um adulto autocentrado, preocupado com seus próprios interesses, é recorrente e já havia sido citada, indiretamente, nas discussões dos grupos apresentadas até o momento.

Essa imagem em nada contradiz os ideais contemporâneos, marcados pelo movimento de culto à expansão da consciência e do crescimento pessoal, de referência ao corpo e de preocupações individuais. Os autores costumam comparar a agitação política e cultural da década de 1960 com o cenário atual, referindo uma crescente desafeição da coisa pública. A esse respeito, Lipovetsky (2005) afirma que

a despolitização e a 'dessindicalização' atingem proporções jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se esgota, raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias em longo prazo. (p. 32)

 

Gráfico 8

 

Nas entrevistas do E2, foi possível notar que, para os jovens, os adultos preocupam-se com o privado (amigos, família). Querem sustentar-se, viver uma vida boa, sem se importar com os outros. Estaria ocorrendo, segundo os jovens, um processo de individualização, já que as pessoas pensam somente nelas mesmas. Dois grupos da escola particular ainda relacionaram o egoísmo ao capitalismo.

Os entrevistados também salientaram que esse defeito decorreria da idade. Quando jovens, os adultos teriam o ímpeto de realizar mudanças, mas isso se perderia ao envelhecerem, pois teriam que trabalhar e sobreviver. O trabalho é visto como algo que toma tanto espaço na vida dos mais velhos, demanda tanto tempo de dedicação, que os impediria de transformar a realidade em que vivem. A juventude, portanto, estaria, no futuro, fadada a ser como a geração anterior.

Ainda é importante notar que a falta de informação esteve presente no discurso de um dos grupos da escola particular e de todos os grupos da escola pública, estando, muitas vezes, associada à preocupação com o mundo ou, como se tem preferido chamar, com a esfera pública, preocupação esta que certamente contém uma dimensão ética. Para os jovens, o desconhecimento viria prejudicar ainda mais a sociedade, que já é egoísta. Segundo eles, essa desinformação estaria ligada à educação, à política e ao modo de governo. Existiria também uma falta de responsabilidade dos meios de comunicação com a população ao veicularem somente aquilo que dá audiência. Por último, eles ainda comentaram que as pessoas desconhecem seus direitos.

A pergunta seguinte questionava o que os adultos mais esperam para suas vidas. O questionário oferecia quatro opções de resposta: dinheiro, visto seu importante papel em  uma sociedade de consumo capitalista,; fama/sucesso/poder2, atributo recorrente nos

discursos comuns e acadêmicos, tendo em

vista as discussões sobre vivermos em uma sociedade do espetáculo; reconhecimento social, que se contrapõe ao aspecto superficial da fama; e, no campo das relações privadas, constituir família.

A opção por dinheiro foi a mais escolhida em ambos os estudos (73,27% no E1, e 50,0% no E2). Devemos considerar que tal escolha, inicialmente óbvia, é reflexo de como nossa sociedade estrutura-se: o dinheiro torna-se base de acesso àquilo que é valorizado pela população, permeando as relações sociais, as expectativas futuras, as possibilidades de escolha. No E2, também teve destaque a opção sucesso/fama/poder, alternativa escolhida por 23,8% dos jovens; já no E1, apenas 1,73% optaram por essa alternativa. Tal diferença pode ser explicada pela nomenclatura utilizada. No E1, utiliza-se apenas fama e, no E2, sucesso/fama/poder, a qual se mostra muito mais abrangente.

 

Gráfico 9

 

Apesar de mais frequente, a opção por sucesso/fama/poder no E2, no final das contas, estava associada ao dinheiro, como evidenciaram as entrevistas.

Todos os grupos da pesquisa destacam a importância de ganhar dinheiro. Numa sociedade capitalista, seria preciso ter uma renda - tratar-se-ia de uma necessidade humana. As pessoas estudariam para ter uma profissão, para ganhar dinheiro e, assim, comprar sua casa, sustentar sua família, pagar as contas. Para alguns dos jovens, o dinheiro torna-se nocivo quando se resume a um meio para aquisição de status e poder (dinheiro a mais do que o necessário).

No E1, perguntou-se, inversamente, o que os jovens consideravam como sendo o maior temor dos adultos de hoje. Temer o desemprego mostrava-se uma forte opção não apenas devido aos discursos que circulam na mídia e na realidade brasileira, mas também pelas análises que muitos pensadores fazem a respeito da estrutura de nossas sociedades (BAUMAN, 1998). As respostas dos sujeitos foram coerentes com tais discursos, bem como com a imagem de que dinheiro seria a grande aspiração dos adultos de hoje. Para 61% dos jovens, o maior temor dos adultos de hoje é o desemprego.

Retomemos nossa questão inicial, qual seja, o modo como os jovens julgam os adultos de hoje, especialmente do ponto de vista moral. Pudemos observar que a insegurança quanto à conduta e aos atributos desses adultos, especialmente aqueles da esfera pública, habitam as avaliações dos jovens. Também salientamos a importância que tal avaliação tem na perspectiva que cada adolescente traça para seu projeto de vida e suas condutas futuras, bem como na própria imagem que ele pode fazer de si no futuro.

No E1, ambas as perguntas foram realizadas. Na primeira, a questão era a respeito do quanto os jovens gostariam de se parecer com os adultos de hoje; na segunda, sobre quão parecidos eram os projetos de vida dos mais novos e dos mais velhos. As perguntas são intrinsecamente relacionadas; mas de que forma? O senso comum diria que a admiração levaria ao desejo de ter uma vida parecida, e que, em contrapartida, a falta de vontade em ser como esses adultos implicaria querer ter um projeto futuro diferente. No entanto, vejamos as respostas dos jovens:

 

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Os gráficos revelam que apenas 30% dos jovens gostariam de ser parecidos ou muito parecidos com os adultos. Além disso, 20% - número bastante significativo - não gostariam de se parecer em nada com os adultos de hoje. No entanto, 51% dos adolescentes do E1 acreditam que seus projetos de vida são parecidos ou muito parecidos com os dos adultos de hoje. O desejo de ser parecido com os adultos é menor do que a semelhança entre os projetos de vida de ambas as faixas etárias.

A partir da entrevista no E2, pudemos notar, novamente, a questão relativa aos aspectos público e privado. Alguns jovens afirmam que, caso considerassem os adultos mais próximos, responderiam que seus projetos de vida seriam parecidos com os adultos de hoje, mas, se levassem em conta os adultos em geral, a resposta mudaria para pouco parecidos.

No E2, a maioria dos jovens (57,1%) acha que seu projeto de vida é pouco parecido com a vida dos adultos de hoje. No entanto, os jovens não parecem estar convictos disso no debate. Em todos os grupos, eles afirmam possuir um projeto de vida parecido com o dos adultos no que se refere a constituir família e ter um emprego. Com menor frequência aparece o quesito ganhar dinheiro.

Para parte dos entrevistados, seria muito difícil pensar em uma alternativa ao modo de vida dos adultos; na verdade, ela poderia até existir, mas eles apresentam-na num tom irônico, revelando quão inusitada lhe parecem: "Um negócio pouco parecido é, sei lá, você ir pra uma mata e viver de caça". É interessante notar que se trata de um modo de vida de subsistência.

Em outra declaração é possível notar outras possibilidades:

pouco parecido seria revolucionário. Eu acho que, por mais que a gente saiba o que está errado, que teria que melhorar muito um monte de coisa, a nossa vida, a vida que eu levo, vai ser, provavelmente, a mesma coisa que os meus pais são hoje, que os pais dos meus amigos. Muito pouco parecido seria, de repente, doar sangue.

Vale observar que, embora a via política seja apontada, assim como a atividade de doar sangue, a qual talvez indique a solidariedade para com os demais, elas aparentam ser opções marginais. Isso porque parece inevitável, aos entrevistados, que eles levem uma vida parecida com os adultos que lhes são mais próximos.

Outros jovens fazem ponderações no sentido de que talvez seja realmente difícil fugir do modo de vida dos adultos em relação à família e ao trabalho, mas, se continuarem com a mentalidade atual, podem operar mudanças, sendo elas realizadas nos detalhes.

O aparente paradoxo encontra algumas explicações possíveis. Optar por um projeto de vida diferente exige que uma forma alternativa de vida seja concebida. Nos anos 1960 e 1970, por exemplo, havia um questionamento e uma crítica em relação aos valores vigentes - que, em última instância, representavam o mundo adulto -, mas era possível aos jovens da época, ainda que de modo idealizado, propor uma forma alternativa de futuro e de viver a vida.

Atualmente, muitos verificam certa apatia dos jovens e pouco engajamento nas questões do mundo, principalmente quando eles são comparados às gerações anteriores. Mas seria esse apenas um problema da juventude? Poderíamos pensar inversamente: se a sociedade atual tem refletido aquilo que Lipovetsky (2005) denomina de deserto pós-moderno - certa indiferença ou recuo da esfera pública -, o que deveríamos esperar de nossos jovens? Neste ponto, podemos retomar a pergunta de nossa pesquisa e sua importância. Entender como os jovens avaliam os adultos de hoje refere-se às próprias perspectivas éticas dos jovens, visto suas perspectivas futuras estarem estreitamente relacionadas ao ambiente e às referências adultas que possuem.

Não é de se espantar, portanto, que, apesar das críticas aos adultos, poucos jovens vejam-se diferentes dos primeiros no futuro. A distância atual entre os domínios privado e público não apenas resulta na cisão entre adultos confiáveis ou não - imagem que nossos jovens repetem durante a pesquisa -, como também traz como consequência a dificuldade, senão a impossibilidade, de cada um ver-se como possível agente transformador deste mundo público.

 

Conclusão 

Perguntamo-nos, nesta pesquisa, como os jovens julgam os adultos na atualidade no que se refere, essencialmente, a critérios morais. Os resultados indicam que apenas os adultos da esfera privada, investidos afetivamente, são avaliados de forma positiva.

Apesar de existirem universos nos quais essa divisão não se faz de forma tão rígida, a cisão entre um mundo público e um mundo privado pode ser vivenciada pelo homem contemporâneo. A esfera pública - universo da cidadania, baseada em leis impessoais e, em princípio, de validade para todos - passou a equivaler à vida que se passa fora da família e dos amigos íntimos - a esfera privada, tendo esta como base o afeto e a intimidade. Podemos ainda acrescentar duas marcas contemporâneas relacionadas a tais domínios: uma entendida como certo desinvestimento da esfera pública, e outra, em estreita relação com a primeira, referente à associação entre mundo público e desproteção, agressividade.

Certo desinvestimento da esfera pública fica evidenciado quando comparamos a atualidade à agitação política e cultural das décadas de 1960 e 1970. Essa indiferença ao mundo público relaciona-se ao movimento concomitante de superinvestimento do eu. Os interesses atualmente se consagram aos cuidados com a saúde, à busca por uma boa situação financeira, à expectativa pelas férias, ou seja, a uma vida sem ideais ou finalidades transcendentais.

De outro lado, nossas sociedades intimistas privilegiam as experiências de aproximação e calor humano, enquanto a impessoalidade encontra-se no polo negativo dessa hierarquia de valores. Basta observamos o novo formato de sucesso dos programas de televisão, o reality show, em que todos os temas - culinária, viagens, sonhos, projetos de artistas - são exibidos a partir de uma aproximação ao dia a dia, às emoções verdadeiras, à intimidade de seus participantes. A contrapartida dessa ideologia da intimidade (SENNETT, 1988) é a dificuldade cada vez maior dos indivíduos em representar papéis sociais e lidar com a vida social, pois são justamente as barreiras e regras impessoais o que é capaz de proteger o indivíduo no processo de sociabilidade.

Retomando a presente pesquisa, os resultados obtidos permitem-nos concluir certa desconfiança dos jovens em relação à moralidade dos adultos. A maioria deles não considera os adultos de hoje pessoas éticas e, de forma geral, critica sua condução da esfera pública (como dirigem o mundo, a política e o meio ambiente). Eles questionam as virtudes desses adultos, elegendo a competência profissional como a maior virtude por exclusão; consideram o egoísmo o maior defeito dos adultos, associando-o a uma preocupação exclusiva com a esfera privada; dividem-se quanto à sabedoria e à confiança atribuída aos adultos de hoje; avaliam os adultos como responsáveis, mas essencialmente quando tal responsabilidade mostra-se vinculada à esfera privada.

No entanto, os resultados permitem-nos inferir que a avaliação negativa ou a desconfiança em relação aos adultos por parte dos jovens apresenta um critério: o grau de intimidade que tenham com esses adultos ou, como temos preferido chamar, a divisão que os jovens fazem entre adultos da esfera pública e adultos da esfera privada.

Atualmente, a relação entre os mais novos e os mais velhos torna-se menos determinada por convenções sociais e mais dependente das ligações afetivas estabelecidas em seu interior. Se, por um lado, a liberdade contemporânea pode levar a uma maior flexibilidade, por outro, ela também gera mais insegurança, visto que pais e filhos são obrigados a recorrer aos próprios recursos por não encontrarem apoio no meio social.

As tendências em nossas sociedades de privatização das relações sociais e de declínio da esfera pública verificam-se nesta pesquisa e parecem conduzir a uma cisão, na qual, de um lado, temos o adulto público, reflexo do mundo exterior, visto como mau, perigoso e, consequentemente, desinvestido, e, de outro, o adulto privado, simbolizando a família como espaço de proteção e tranquilidade. Os jovens entrevistados demonstraram que, apesar das críticas e do pouco desejo de serem parecidos com os adultos, têm dificuldades em visualizar um projeto de vida alternativo.

O papel da escola é importante nesse sentido, por ser ela a principal instituição responsável por essa passagem no momento da formação das crianças e dos jovens. A difícil tarefa de educar complica-se quando percebemos que os últimos tendem a não confiar nos adultos, especialmente quanto mais anônimos tais adultos forem. Se entendemos que o desenvolvimento do jovem, bem como a realização do projeto de uma vida que valha a pena, depende do entorno social, permanece a questão sobre como fica o processo de socialização quando pouca segurança é visualizada no mundo público.

 

Referências

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.         [ Links ]

KOHLBERG, Lawrence. Essays on moral development. San Francisco: Harper & Row, 1981.         [ Links ]

LA TAILLE, Yves de. Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre: Artmed, 2006.         [ Links ]

______. As virtudes segundo os jovens. In: MENIN, Maria. S. de Stefano; LA TAILLE, Yves de. Crise de valores ou valores em crise? Porto Alegre: Artmed, 2009a. p. 46-69.         [ Links ]

______. Formação ética: do tédio ao respeito de si. Porto Alegre: Artmed, 2009b.         [ Links ]

LA TAILLE, Yves de.; HARKOT-DE-LA-TAILLE, Elizabeth. Valores dos jovens de São Paulo. São Paulo: Instituto SM para a Equidade e a Qualidade Educativa, 2005.         [ Links ]

LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1983.         [ Links ]

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. São Paulo: Manole, 2005.         [ Links ]

PIAGET, Jean. Le jugement moral chez l'enfant. Paris: PUF, 1992.         [ Links ]

______. De la pédagogie. Paris: Odile Jacob, 1998.         [ Links ]

SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Helena Amstalden Imanishi
Rua Paulo Franco, 142, ap. 131
05305-030 - São Paulo/SP
helenaai@cosnet.com.br

Recebido em: 04.03.2010
Aprovado em: 10.10.2010

 

 

Helena Amstalden Imanishi é mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e graduada em Psicologia pela Universidade de São Paulo.
Vanessa Lopes dos Santos Passarelli é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo. E-mail: vanessalsp@hotmail.com.
Yves Joel Jean-Marie Rodolphe de La Taille é professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Ministra aulas de Psicologia do Desenvolvimento e desenvolve suas pesquisas na área de Psicologia Moral, tendo publicado diversos artigos, capítulo de livros e livros sobre o tema. Seu livro Moral e ética: dimensões educacionais e afetivas (Artmed, 2006) recebeu o prêmio Jabuti em 2007. E-mail: ytaille@uol.com.br.

1 - No E1, a expressão utilizada foi são desatualizados; no E2, falta de informação.
2-  No E1, o termo utilizado foi fama; no E2, sucesso, fama, poder.

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