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Educação e Pesquisa

versão impressa ISSN 1517-9702versão On-line ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.41 no.4 São Paulo out./dez. 2015  Epub 10-Abr-2015

http://dx.doi.org/10.1590/s1517-97022015041920 

Artigos

O sujeito diante da aceleração e da ilimitação contemporâneaI

Subjects in the face of contemporary acceleration and limitlessnessI

Claudine Haroche1 

1Centre National de la Recherche Scientifique Edgar-Morin, Paris, França. Contato:clharoche@aol.com

RESUMO

A ampliação dos fluxos tecnológicos, com sua velocidade e crescente aceleração, tem acompanhado e até mesmo provocado a emergência de um mundo líquido e doravante globalizado, em que real e virtual, profundamente imbricados, tendem a ser desprovidos de limites. A construção do sujeito na modernidade bem como as condições da vida psíquica e social foram assim profundamente perturbadas. As condições contemporâneas são dominadas por fluxos sensoriais e informacionais contínuos que, estimulando e até mesmo impondo a instantaneidade e a imediatidade, embaraçam a possibilidade de temporização e de reflexão ao longo do tempo. Esses fluxos provocam efeitos sobre as maneiras de ser, de viver, de pensar, os modos de representação de si e do outro e ainda sobre as maneiras de sentir e de perceber: ao exercer uma pressão contínua sobre os indivíduos, provocam a perda de critérios estáveis e o princípio de limites tangíveis ou pelo menos perceptíveis no espaço e no tempo. Os fluxos contínuos levam o indivíduo a formas de propriedade de si ilimitadas, ao mesmo tempo em que induzem um estreitamento do espaço interior: induzem uma insegurança psíquica e social profunda e, além disso, formas de angústia inéditas.

Palavras-Chave: Personalidade contemporânea; Sociedade líquida; Globalização; Aceleração; Ilimitação

ABSTRACT

The increase in technological flows as well as their speed and acceleration are followed by the emergence of a liquid and globalized world in which real and virtual are not easy to separate and tend to be deprived of clear limits. In modernity, the construction of subjects and the very conditions of psychic and social life have been deeply distressed. Contemporary conditions are dominated by continuous flows of information that have an effect on everybody´s senses. These flows encourage – and even impose – instantaneousness and immediacy that prevent the action of thinking over time. They also have effects on lifestyles, ways of being and thinking and ways of representing oneself and the others, as well as ways of feeling and perceiving: by exerting continuous pressure on individuals, they make them lose stable criteria and the principle of limits that are tangible or at least perceptible in space and time. At the same time, these continuous flows induce individuals to unlimited types of property of themselves, while resulting on the impoverishment of innermost being: they provoke deep psychological and social insecurity and, furthermore, unprecedented types of anxiety.

Key words: Contemporaneous personality; Liquid life; Globalization; Acceleration; Limitlessness

A modernidade ocidental colocou no âmago da condição humana, em particular mediante o viés dos tratados de civilidade do Renascimento, exigências de contenção do corpo, de controle de si, de afastamento do outro, delimitando assim um exterior e um interior em cada um — um foro interior. Essas exigências de contenção têm subtendido uma concepção específica do sujeito definindo-se — pelo menos no Ocidente — por uma delimitação de si no espaço, induzindo um sentimento de continuidade e privilegiando a percepção de uma estabilidade da existência sobre a qual se fundamenta a propriedade de si. Essa concepção tem contribuído para estabelecer uma separação entre o íntimo, o privado e o público: ela constitui a base daquilo que conduzirá à cidadania (COUTINE; HAROCHE, 1991).

Essa separação e essa concepção do sujeito que supõe uma fronteira entre um espaço interior e exterior são desde então contestadas, abalo este do qual Marx e Engels, já no século XIX, no capitalismo, haviam percebido os primeiros sinais “de uma agitação permanente ‘que iria dominar todas as relações duradouras e estáveis’” (GITLIN, 2003, p. 116-117; BERMAN, 1982).

As condições contemporâneas da vida mental se prendem atualmente à tecnologia, à velocidade, à aceleração, induzindo uma ausência de reflexão ligada à rapidez, à instantaneidade, à imediatidade. A velocidade, a aceleração, as tecnologias perturbaram profundamente os modos de vida: traduzindo-se na deslocalização¸ na desterritorialização, na ilimitação, essas condições induzem um sentimento de instabilidade, de permanente mudança, intensificando a incerteza, às vezes a angústia, e atualmente o isolamento e a insegurança. Elas teriam efeitos sobre as maneiras de ser e de viver, sobre as estruturas de pensamento, de ideação, os modos de representação e de expressão de si e do outro, bem como sobre as maneiras de sentir e de perceber. O advento de uma atividade constante induz uma ausência de reflexão que impõe a instantaneidade, a imediatidade. Essa concepção de sujeito encontra-se hoje em dia abalada, posta em questão pela fluidez de um mundo em que o real e o virtual, profundamente imbricados, estão desprovidos de limites. Ela é fundamentalmente desafiada pela sensação continua de mudança permanente.

As tecnologias contemporâneas que invadem os indivíduos pela onipresença de imagens sobre telas são obstáculos à construção do sentido, da inteligibilidade, a ponto de impedi-los de compreender o que fazem e o mundo em que vivem (AUBERT; HAROCHE, 2011). Elas induzem e intensificam os efeitos específicos sobre as maneiras de sentir, acarretando uma não-separação, uma indistinção, que atinge e coloca em xeque a economia psíquica e, em particular, os mecanismos de defesa. A diminuição ou mesmo a diluição dos limites provocam efeitos consideráveis sobre a subjetividade, sobre a personalidade contemporânea.

Reforçados por uma aceleração crescente, esses fluxos induzem uma pressão contínua sobre os indivíduos, provocando a perda de pontos de referência estáveis e do princípio de limites tangíveis, ou pelo menos perceptíveis, no espaço e no tempo. Incitam o indivíduo a formas de propriedade ilimitada de si, ao mesmo tempo em que induzem um estreitamento do espaço interior (CASTEL; HAROCHE, 2001). Ao contribuir para mudar os modos de existência, as relações entre os indivíduos, esses fluxos modificam o modo pelo qual o sujeito pensa e, mais do que isso, constrói-se. Trata-se de processos paradoxais, cujo desenvolvimento está ligado, por um lado, à busca ou à obrigação de uma extensão ilimitada de si, o eu exterior, “visível”, concomitante ao processo de redução de si, o eu “interior” (HAROCHE, 2007, cap. 9).

Breve genealogia da construção da subjetividade

A identidade constituía-se e se desenvolvia antigamente sob o olhar do outro – é o que se compreende da leitura de Rousseau: ela não podia se desenvolver e se consolidar uma vez que protegida do olhar1 — o que será compreendido e elucidado plenamente a seguir. A necessidade de ser visto é acompanhada de certa concepção do eu que supõe uma separação entre o íntimo, o privado e o público, e marcos, limites.

Atualmente, estamos envolvidos por um fluxo contínuo no nível da sensação que, favorecendo o efêmero e, com isso, o indistinto, obstrui a elaboração no nível psíquico. Desse modo, a interação instável deu lugar, com o enfraquecimento dos liames, ao isolamento e a uma vulnerabilidade reforçada. As formas de inteligibilidade e de percepção do real, sendo propostas em termos diferentes, induzem efeitos psíquicos consideráveis nos funcionamentos da subjetividade. Talvez se deva neste ponto propor a questão de saber se podemos enfrentar as formas de divisão, de fragmentação da psique humana induzidas pelo caráter contínuo da sensação, dos fluxos sensoriais e informacionais que induzem e reforçam uma ilimitação espacial e uma aceleração temporal. Até onde e com que efeitos?

A multiplicidade das identificações, a fragmentação, o fracionamento intensificado do eu – atenuado pelo movimento: a aceleração bem poderia ser devida à sensação permanente, contínua. Poderemos perceber quando a sensação do movimento é permanente? Poderemos pensar, refletir em sociedades tornadas flexíveis, sem fronteiras exteriores, sem limites interiores? (CASTEL; HAROCHE, 2001; GAUJELAC, 2009; SENNETT, 2008).

Essas são questões a que Ravaisson e Bergson se ligaram ao estudar os fluxos, ao examinar o funcionamento deles, suscetíveis de esclarecer as evoluções psíquicas mais recentes, a fluidez dos mecanismos contemporâneos que tendem a pôr em questão os funcionamentos do eu (RAVAISSON-MOLLIEN, 1999, p. 71). Ravaisson destaca o papel da repetição, de uma repetição contínua, da existência de uma sensação permanente e de seus efeitos sobre os sentimentos: essa sensação os atenua, enfraquece-os, provocando-lhes a mobilidade (RAVAISSON-MOLLIEN, 1999, p.74-75). Em que e de que maneira essa mobilidade influi sobre o eu? Longe de emanar dele, essa atividade incessante, ao contrário, a ele se impõe, e o ativa, o esgota, o dilui de certa maneira ao decuplicá-lo, ao amplificá-lo pela hiperatividade. Bergson ressaltará então o encadeamento, a não delimitação, a continuidade dos estados do eu, apegando-se às características do eu (BERGSON, 2003, p. 3).

Sensação contínua: perda do sentimento de si e risco de atomização interior

A modernidade, com a emergência do fenômeno urbano, em particular no século XIX, provocou mudanças, perturbações nas maneiras de viver e de sentir, com a fragmentação do eu. A questão do declínio das mediações e da extensão dos meios de comunicação e das tecnologias, a questão do eu que atualmente volta a se propor de modo intenso no mundo contemporâneo. Que tipos de efeitos produz a fluidez experimentada de modo contínuo na aceleração sobre a consciência, sobre o vivido, [sobre] os sentimentos existenciais de um indivíduo? Como funciona o eu na sensação de uma continuidade imposta, sofrida, de uma pressão contínua? O período contemporâneo em que o movimento se intensificou, se acentuou a ponto de ser contínuo, desenvolve-se num contexto e num espírito que tende a perturbar a sociedade, o mundo e o próprio indivíduo: o psiquismo, o aparato psíquico – com o que desviaria radicalmente a estabilidade, ou ao menos a regularidade do ritmo, sua previsibilidade e, com isso, sua inteligibilidade.

Essas indagações decuplicam-se hoje em dia pela intensificação dos fluxos sensoriais, informacionais dos meios de comunicação onipresentes. A sensação de movimento contínuo acarreta um estreitamento da consciência, uma exteriorização da esfera interior, concomitantes a uma fragmentação do eu e a uma espacialização da experiência: uma relação com o tempo que parece dissolver-se, uma relação com o espaço ilimitado e virtual, tendem a ser acompanhadas por um empobrecimento interior, pelo sentimento de perda de si e da extensão ilimitada da sensorialidade2. Os efeitos produzidos pelas impressões e sensações contínuas desviam o tempo do pensamento, da reflexão, obstruindo o exercício da consciência, a consciência de si e do outro: essas sensações contínuas influem profundamente, de modo obscuro, difuso, impalpável e intenso na elaboração das percepções, dos conhecimentos e, além disso, mais amplamente sobre as capacidades psíquicas, afetando fundamentalmente a capacidade de experimentar o sentimento de existência do eu. A persistência na maneira de ser e a representação do sujeito teriam se alterado profundamente. De fato, esse sentimento supõe certa forma de continuidade¸ do passar do tempo, requer um limite entre interioridade e exterioridade. Esse limite está atualmente posto em questão pelas evoluções das formas de tecnologias contemporâneas, o que induz perturbações — em parte conhecidas, em parte inéditas — sobre o funcionamento da subjetividade e da formação do eu.

Os mecanismos da percepção, a relação com o mundo, com a sociedade, com o outro, os liames em constante mudança, implicam e induzem o transitório, o efêmero, um conhecimento que tende, por razões intrínsecas, à pressa, à superficialidade, à falta de aprofundamento por falta de tempo. Lembremo-nos da crescente massa de informações contínuas que, nas sociedades contemporâneas, contribuem para desenvolver uma fluidez crescente, formas de individualismo, que acarretam uma fragmentação, formas exacerbadas de concorrência e de isolamento que, por sua vez, entravam a continuidade, o sentimento de si. Essas condições provocam incerteza — incerteza por vezes radical — quanto a si mesmo e quanto ao outro, abrindo — ou pelo menos podendo abrir — caminho a uma insegurança psíquica profunda. A ilimitação em ação na fluidez das sociedades contemporâneas leva-nos a voltar a propor insistentemente a questão tanto do outro quanto do eu. A fragmentação, os modos de divisão do sujeito atenuados, ilimitados¸ conduziriam a uma representação, a uma construção diferente de si e, com isso, a uma economia diferente dos funcionamentos psíquicos que supõe uma nova concepção da psique humana?

Levando adiante as indagações de Ravaisson e Bergson, certo número de importantes trabalhos têm se apegado ultimamente à questão dos modos de existência. Que virá a ser essa construção do sujeito quando este é muito menos confrontado com o olhar e com a fala de um outro, de um semelhante, mas, antes, com telas, com o audível e o visível — com o audiovisual — e mais ainda com o fluxo? (AUBERT; HAROCHE, 2011). O sentimento de existência, do eu, de si posto em questão com a sensação de uma mudança permanente: sua aceleração provoca formas de divisão psíquica inéditas (SENNETT, 2008). Os modos de relação com o objeto, na medida em que condicionam as formas de propriedade de si é o que gostaríamos agora de abordar.

O sentido posto em questão pela aceleração

Os indivíduos eram vistos através de mediações anteriores, em sua dimensão corporal, física, concreta; mediações essas que tinham a ver com os códigos de civilidades, com maneiras aprendidas e transmitidas pela tradição, pela educação, numa palavra: transmitidas pela prática da vida. Nos dias de hoje, são percebidos, vistos através de telas.

Para delimitar o impacto das tecnologias sobre os funcionamentos sensoriais e psíquicos do indivíduo, voltemos a certo conjunto de trabalhos das décadas de 1950 e 1960, que têm sua origem nos trabalhos pioneiros de [Walter] Benjamin. Benjamin preocupava-se com as evoluções das técnicas e com aquelas decorrências do capitalismo, bem como com os efeitos delas sobre os funcionamentos sensoriais e psíquicos do indivíduo, levando assim a medir o papel da técnica no modo como se constrói o sujeito e como se desenvolvem as subjetividades (BENJAMIN. 2000). Tais questões encontram-se também no âmago dos trabalhos de antropologia, de teoria e de história dos meios de comunicação, os de Innis, e depois os célebres de McLuhan que, no final da década de 1950, reconhecera com toda a clareza o papel essencial que assumiriam não mais apenas as técnicas, mas, mais do que isso, as tecnologias e os suportes da comunicação (McLUHAN, 2002). Do manuscrito ao impresso, depois à reprodução mecânica e a seguir tecnológica dos signos e das imagens e, finalmente, às telas, McLuhan discernira assim – ao longo do tempo, e isso desde 1956 – os transtornos sociais, políticos e psicológicos induzidos pelos novos meios de comunicação. Ele estabelece assim que, a partir da invenção da imprensa, “a imaginação... tenderá cada vez mais a pôr em ação o visual” (McLUHAN, 2002, p. 124)3.

McLuhan observara assim que “quando mudam as relações entre sentidos, os homens mudam”, discernindo, pois, evoluções no modo como os indivíduos sentem e percebem com a extensão das tecnologias (McLUHAN, 2002, p. 265). As sociedades contemporâneas, ao pôr em ação a tela e a imagem, contribuem para garantir e encorajar uma visibilidade imediata, efêmera e em constante mudança, que provoca perturbações consideráveis nos indivíduos: a partir de então, estes são vistos ou percebidos por meio de uma mídia técnica — a tela — e não mais através das mediações anteriores, que punham em ação concretamente seus corpos, mediações essas que tinham a ver com as maneiras aprendidas e transmitidas pela tradição, pela educação, pela prática da vida.

A visibilidade interessa às concepções do psiquismo, às representações psíquicas, ao espaço mental, destacando processos indissociavelmente sociais e políticos: essas representações, esse espaço mental, tendem a se diluir por trás das aparências, e em todo caso a declinar. A visibilidade perturba profundamente as condições em que o sujeito se forma, se constrói. Ela desloca a fronteira entre interior e exterior em cada indivíduo, do mesmo modo que as fronteiras entre indivíduo e mundo exterior. Talvez devamos indagar se ela apaga, se ela induz outras formas de percepção, outros modos de subjetividade. Parece também ser necessário indagar se essa visibilidade – imposta, sofrida, buscada ou execrada – não nos despoja de nossa interioridade e com isso de liberdade e de imaginário criador.

Para existir profissionalmente, socialmente, o indivíduo já não dispõe do tempo de perceber: ele deve – deveria – de fato ver bastante, tudo, constantemente4. Ele não tem tempo para refletir e, consequentemente, vê-se privado de exercer uma capacidade de discernimento. O indivíduo pode conhecer a satisfação da sensação e do poder, mas tende a ser privado da escolha, do desejo ou até mesmo da necessidade de alternância entre pausa e atividade, entre mostrar-se e permanecer ao abrigo dos olhares.

Essa separação entre uma interioridade própria do sujeito e uma exterioridade constituída pelos outros tende, de agora em diante, a se diluir para dar lugar à sensação induzida pelo movimento que leva a um ritmo ininteligível. Um exemplo preciso: Gunther Anders foi de certo modo um dos primeiros a lançar as bases dos trabalhos sobre a condição pós-humana. Na década de 1960, sobre a questão da técnica, Anders irá dar continuidade às intuições e análises de Benjamin, de Adorno e de Horkheimer, que haviam entrevisto os efeitos políticos contemporâneos provocados sobre a subjetividade pela sensação do movimento contínuo (ANDERS, 1999, 2002).

Ao levar em conta o social, o político e a sensorialidade, Anders apresenta um conjunto de observações sobre os efeitos provocados, acentuados, reduzidos pela técnica: a incapacidade de imaginar, de ver e de sentir. Anders situa a razão, a origem do mal em “uma ‘decalagem’ entre a capacidade de fabricar induzida pela técnica moderna e a capacidade de representar-se o produto, o efeito final dessa fabricação” (ANDERS, 1999, p. 15-17).

E esse é um ponto sobre o qual é necessário insistir, por ser tão crucial: Anders conclui daí que “nosso mundo, ao se subtrair tanto de nossa representação quanto de nossa percepção, torna-se cada vez mais obscuro. Tão obscuro que não podemos sequer reconhecer sua obscuridade” (ANDERS, 1999, p. 51-2).

A técnica vai, passo a passo, tender a despojar o indivíduo de uma parte de sua atividade manual, as tecnologias contemporâneas, por sua vez, vão progressivamente surpreender o indivíduo por uma aceleração cada vez mais forte que o excede, que vai além dele, a ponto de impedi-lo de dominar, de compreender e de pensar no que ele faz e no mundo em que vive. O que a aceleração provoca? A falta de discernimento, induzida pela perda dos pontos de referência, e a ausência de limites, a ilimitação.

Uma questão crucial a que não é fácil responder: podemos perceber, apesar da aceleração? Podemos perceber sem limitação? Essas evoluções põem em questão a interioridade suscetível de abrigar e de proteger, de ocultar uma parte do indivíduo dos olhares dos outros – o íntimo, o pudor. Elas conduzem a questões sociais e políticas importantes: a consciência crítica, a capacidade de julgar, de resistir, de recusar. Elas provocam uma perturbação na construção do sujeito e nos funcionamentos da subjetividade: ao implicar e estimular a atividades e vidas paralelas simultâneas, o eu passa a ser talvez mais do que dividido: fragmentado; o eu passa a ser talvez diluído, supondo a existência de um núcleo, de um elemento de unicidade ou, pelo menos, de persistência e de estabilidade.

Da capacidade de imaginação5 à ausência de atividade mental

As formas de estabilidade que supõem uma ancoragem, um enraizamento psíquico, subjetivo, tanto no espaço quanto no tempo, ainda que desigualmente vividas e reconhecidas por cada um, passam a ser cada vez mais abaladas: ao acarretar uma ausência de quadro espacial, temporal, de limites, essas condições são, pois, suscetíveis de conduzir a um desenraizamento subjetivo.

À medida que a mudança permanente acarreta a perda de pontos de referência espaciais e temporais estáveis, uma adaptação ilimitada e contínua se impõe ao indivíduo, sem que ele possa lhes perceber o sentido. Compreende-se então que a questão da inteligibilidade que requer a duração, a interrupção, as pausas, volta a se colocar hoje em dia de maneira intensa. Que funções possuem as novas tecnologias na construção do indivíduo e em sua existência? Será uma função que tende a ultrapassar, a exceder a percepção e a capacidade de compreensão, de discernimento dos indivíduos? Dependerá ela, então, de uma concepção da representação do movimento que teríamos ignorado ao nos limitarmos, nos restringirmos a oposições dualistas? Poderemos perceber sem continência? A aceleração mergulha-nos atualmente numa continuidade que nos excede, que vai além de nós e provoca formas instáveis de fragmentação e de divisão psíquica inéditas. Com a capacidade psíquica de percepção, de distinção, de diferenciação, de discernimento e de sentido, golpeados com a diluição dos limites do eu, dos limites e do eu – os indivíduos seriam agora remetidos e limitados ao seu eu, um si mesmo privado de apoio, de sustentação, de proteção tanto exterior quanto interior, um si mesmo impreciso, indefinido, descomprometido. A sensação contínua é acompanhada do sentimento descontínuo de existir e, mais ainda, provoca um sentimento contínuo de inexistência. Compreende-se que a época contemporânea seja, a partir daí,confrontada com a ilimitação do virtual, da tecnologia e, além disso, do narcisismo.

Aceleração, medo, sentimento de insegurança

Em Le futurisme de l’instant [O futurismo do instante, sem tradução para o português], Virilio insiste com muita justeza sobre “A importância desastrosa da informática que desintegra a amplitude mesma de toda realidade comum (geográfica, cultural, histórica)”, que “afeta nossas relações¸ não somente subjetivas e interpessoais, mas ainda mais e, sobretudo nossa relação com o mundo” (VIRILIO, 2009, p. 78). Os homens têm uma necessidade psíquica de ancoragem territorial, espacial, temporal e sensorial. Virilio se refere então a Marinetti, um dos futuristas do século passado, e que escreveu em 1913: “os homens foram adquirindo sucessivamente o sentimento da casa, o sentimento do bairro em que vivem, o sentimento da zona geográfica, o sentimento do continente”. Virilio assinala que “eles possuem hoje em dia o sentido do mundo e não têm necessidade de conhecer o que faziam seus ancestrais, mas sim de saber o que fazem todos os seus contemporâneos” (VIRILIO, 2010, p. 95-6).

Em outro ensaio, Paul Virilio continua dizendo que “a deslocalização do emprego do espaço acrescida da desorientação do emprego do tempo de uma vida quotidiana ritmada outrora pela alternância dos dias e das noites está agora subvertida pelas rupturas de ritmos de uma vitalidade... integralmente desnaturada” (VIRILIO, 2010, p. 44). Virilio observa então que a “interreatividade” substituiu a “intermediação dos empregos de outrora” e que o enraizamento foi perturbado por “uma simultaneidade interativa, assistindo assim a supressão da primeira lei do urbanismo, “a persistência do local”; [isso] nos leva então a uma questão crucial: como viver a relação com os outros e com o mundo, com o mundo inteiro instantaneamente? Na imediatidade, sem mediações? O que o leva a concluir que “o risco supremo de nossa quotidianidade, esse ‘modo de vida’... que desaguará amanhã, se não nos cuidarmos, em uma vitalidade tornada no fundo inabitável pelo excesso... de uma vida sem nenhum ‘modo de emprego’” (VIRILIO, 2010, p. 44, 66). De modo geral, o resultado desse estado de ilimitação e de indiferenciação é que não chegamos mais a saber o que é eu, o que é o outro – isso faz parte de nosso corpo. Essa é a razão pela qual desejaríamos retornar ao espaço, ao corpo, ao objeto, ao artesão e à criatividade: reencontrar assim a propriedade de si na criatividade.

No início da década de 1950, Arendt discernira, em A condição humana, o caráter de “durabilidade” dos objetos, sua objetividade. E exatamente sobre esse ponto – a relação com o objeto – é que gostaríamos de concluir. Os objetos, escreveu Arendt, “têm por função estabilizar a vida humana” e, prosseguia: “sua objetividade tem a ver com o fato de que os homens, a despeito de sua natureza mutável, podem recuperar sua identidade em suas relações com a mesma cadeira, a mesma mesa” (ARENDT,1983, p. 188). Mas, ela acrescentava, antecipando de certa maneira as questões que iriam progressivamente se colocar com o virtual, “o que é novo... é que as coisas materiais que vemos, que representamos, e que tinham nos servido para medir as coisas imateriais de que não podemos forjar uma imagem, são igualmente ‘inimagináveis’”. Desaparece o mundo dado pelos sentidos, o mundo transcendente também desaparece e, com ele, a possibilidade de transcender, no conceito e no pensamento, o mundo material. Não é, pois, de surpreender que o novo universo seja não apenas “praticamente inacessível, mas ainda ‘sequer pensável’” (ARENDT,1983, p. 361; GUIGNARD, 2011). Examinemos o que Arendt nos dá a entender nas entrelinhas: podemos nós — intelectual, psiquica e sensorialmente — fazer a economia da realidade, da ideia mesma de realidade comum, compartilhada? Como, então, não renunciar a compreender, a encontrar sentido no mundo em que vivemos?

Resistir à dessocialização: o objeto e o espaço potencial

Em 1994, num de seus últimos textos, Deleuze assinalara o papel decisivo da criatividade na civilização: “criar, afirmava ele, sempre foi algo diverso de comunicar”, acrescentando a seguir que não se podia perverter a criatividade (DELEUZE, 2003: p. 238). Essa é a razão pela qual gostaríamos de concluir abordando a questão da criatividade em uma sociedade de informação e de comunicação permanente, no estado de aceleração, de ilimitação e de indiferenciação que ela induz. Explicitar o modo pelo qual se concebe o objeto na relação com o pensamento, concebê-lo, imaginar outros, poderia levar-nos a compreender os funcionamentos psíquicos contemporâneos.

Para nos dedicarmos a conceber outros desenvolvimentos e outros funcionamentos, particularmente aqueles do eu no estado de ilimitação e de indiferenciação, parece necessário retornar aos trabalhos de Winnicott — pelas questões ali levantadas, pelas hipóteses que formula e pelas pistas que abre a partir do final da década de 1940. Ao vislumbrar “uma terceira área de existência” que constitui um espaço potencial que ele descreve como “(situado) entre a realidade interior do indivíduo e a realidade do mundo que é exterior [...] o mundo da realidade compartilhada” e que alcança “um modo de existir intermediário” (WINNICOTT, 2005, p.126), Winnicott pode de fato nos permitir abordar a questão do enraizamento e do desenraizamento na existência, nas formas de desterritorialização, da falta de pertencimento na ilimitação e indiferenciação contemporânea, nos mundos, nos personagens virtuais, de conceber assim formas de interação — todavia diferente da de Simmel.

Nessa área intermediária, Winnicott evidencia de fato uma genealogia da construção do eu através da relação entre eu e não-eu, através dos modos de simbolização e ainda através do que ele denomina ”objetos transicionais” e “fenômenos transicionais”. Ele introduz “a noção de um estado intermediário”, que ele situa nessa “terceira área da existência, que não está nem no indivíduo, nem fora dele (WINNICOTT, 2005, p. 28-9; 31), o que permite então pensar o espaço interior em sua relação com o objeto que induz um certo tipo de atividade mental e este através de um espaço intermediário. É num estágio precoce do desenvolvimento da criança que Winnicott situa esses fenômenos transicionais, que vão a pouco e pouco conduzir da “incapacidade... de reconhecer e aceitar a realidade” à “capacidade que ela adquirirá progressivamente de fazê-lo” (WINNICOTT, 2005, p. 30).

É necessário propor aqui a hipótese de que esse modo de existir intermediário está na base das formas de simbolização, que ele permite o exercício da mediação e se situa num espaço potencial que, ele mesmo, poderia significar virtual, ou quando menos permitir pensar o espaço virtual (CASTARÈDE, 2011). Winnicott insiste, então, no fato de que o espaço transicional “indica o progresso da criança em direção à experiência vivida”, enfatizando a necessidade de “dar uma oportunidade à experiência informe, às pulsões criativas motoras e sensoriais de se manifestar”, propondo que “é sobre a base do jogo que se edifica toda a existência experiencial do homem” (WINNICOTT, 2005, p.126). O jogo, o prazer, não poderiam se limitar a significar a sensação de satisfação contínua: o jogo permite as atividades de diferenciação, as práticas de discernimento, constituindo um caminho para a abordagem dos fenômenos psíquicos e sociais que não poderiam a priori ser em nada violentos, mas, como assinala Winnicott, bem ao contrário, torna possível “através do objeto transicional, o processo que conduz a criança a aceitar a diferença e a semelhança” (WINNICOTT, 2005, p.36). Ora, Winnicott especifica que “o objeto transicional (é) a primeira posse não eu” e que “no modo de relação com o objeto¸ o sujeito autoriza certas modificações do eu, modificações de uma forma” (WINNICOTT, 2005, p.165). Todavia, acrescenta ele que “o objeto, se deve ser utilizado, deve necessariamente ser real, no sentido de que faz parte da realidade compartilhada¸ e não ser simplesmente um feixe de projeções” (WINNICOTT, 2005, p.166). Como então compreender os objetos transicionais, seu papel, seu status, se não pela educação, pela aprendizagem dos modelos de comportamentos, da aprendizagem dos conhecimentos? Winnicott acrescenta ainda: “o que me interessa antes de mais nada... é a área intermediária situada entre o subjetivo e o que é percebido objetivamente” (WINNICOTT, 2005, p.31). E ela é tanto o caráter objetivo da percepção quanto a construção de um espaço que pareceria doravante faltar. O que é que constitui atualmente a vida subjetiva e o que é objetivamente percebido num mundo em que as fronteiras entre real e virtual tendem a se diluir?

O futuro do sentimento de existência

Para concluir, gostaríamos de voltar à aceleração, à ilimitação que a acompanha e à necessidade de repensar o caráter dualista, binário, dos modos de percepção, à luz de alguns dos textos de Nietzsche (1982).

De modo realmente essencial para nosso propósito, Barbara Stiegler lembra que “o termo [incorporação], tomado por Nietzsche da biologia celular de sua época, significa que o que distingue o corpo vivo em relação a um corpo inorgânico [...] reside em sua capacidade de fazer entrar nele o que não é ele, de fazer entrar o outro ou o estranho em seu próprio corpo” (STIEGLER, 2011, p.141). A autora debruça-se então sobre o desenvolvimento contemporâneo desses processos que dissolvem as fronteiras na imediatidade e na ilimitação das sociedades contemporâneas, destacando que “longe de adaptar-se passivamente ao fluxo do devir, o corpo vivo lhe impõe, e deve impor-lhe suas próprias exigências em termos de retardamento, de separação e de organização” (STIEGLER, 2011). Essas exigências – que evocam o papel decisivo dos modelos de comportamentos na sociedade, a educação, a civilidade, a urbanidade – são construídas, desenvolvem-se passo a passo no correr do processo. Stiegler conclui então que “essa precisão é essencial. Ela significa que a singularidade dos seres vivos nunca é algo dado (num Si mesmo íntimo, num foro interior ou numa individualidade original que já estaria lá no fundo de si). Essa singularidade, ao contrário, não pode senão se formar na articulação singular operada pelo próprio ser vivo entre, por um lado, o fluxo do devir e, por outro, as estases indispensáveis à sua incorporação” (STIEGLER, 2011, p. 142).

A ilimitação no espaço e no tempo pode induzir mecanismos perniciosos, mecanismos suscetíveis de engendrar a barbárie ligada à incapacidade de representação do outro, ligada ainda à pressão contínua e à tendência à diluição da subjetividade como forma de continuidade ao longo do tempo.

O conjunto desses trabalhos aborda fundamentalmente uma questão raramente explicitada e tratada como tal: quê virá a ser a condição humana quando o homem aí estiver privado de um elemento de permanência interior, de um núcleo, e ao mesmo tempo for obrigado a ser constante e inteiramente visível?

O fato de ver, de tudo olhar, como o de saber não ver constituíam o objeto de aprendizagens, de regras e de princípios que visavam proteger, respeitar o outro, e se proteger, se defender, pela observância de formas, de maneiras. Essa é a lição que podemos tirar da leitura de La civilisation des moeurs [O processo civilizador, v. 1], ou ainda de La société des individus [A sociedade dos indivíduos] (ELIAS, 1991).

O status da invisibilidade nas sociedades contemporâneas mudou de maneira profunda: reduziu-se, comprimiu-se, até mesmo desapareceu, e julgamos ser esse um fenômeno sem dúvida importante e inédito (AUBERT, 2013). Isso poderia ser profundamente revelador de formas inéditas de privação de si que se traduzem, entre outras coisas, por aquilo que chamamos de mal-estar; além disso, porém, ela induz um estreitamento, um empobrecimento do espaço interior, do imaginário, altera o modo pelo qual outrora éramos e nos tornávamos sujeito e como o podemos fazer agora. Para tornar-se sujeito, é preciso ter alguém que olhe, o que supõe atenção, consideração, e benevolência que possam escapar à vista e colocar-se ao lado do olhar, da escuta e da fala.

Em meados da década de 1980, no trabalho que dedicara a Foucault, Deleuze propunha que a relação consigo – como espaço de liberdade individual – não estava protegida dos sistemas institucionais e sociais: ele observava, de fato, que “o poder (tinha) cada vez mais bloqueado nossa vida quotidiana, nossa interioridade e nossa individualidade, que se havia tornado individualizante” (DELEUZE, 1986, p.111). No entanto, ele pensava que haveria “sempre uma relação consigo (capaz) de resistir aos códigos e aos poderes” (DELEUZE, 1986, p.111). Há, haveria condições em que o sujeito não possa fazer-se, formar-se, na medida em que não consiga mais resistir? Essa capacidade de resistência será ainda possível – física e psiquicamente – com os mecanismos intrusivos e acelerados que impõem uma adaptabilidade contínua, sem limite, infinita? Extenuando-a, então, até os limites do corpo.

Em 1923, em “Le Moi et le çà” [O eu e o Id], Freud uma vez mais se mostrou precursor. Reconhecendo que “não poderíamos precisar o que o eu teme do perigo exterior e do perigo libidinal no id”, ele, no entanto, também assinalou: “sabemos que é a expansão ou o aniquilamento, mas não podemos concebê-lo analiticamente” (FREUD, 1997, p. 273).

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1- No século XVIII, Rousseau foi um dos primeiros pensadores da modernidade a se mostrar especialmente atento à necessidade fundamental de ser visto, de ser olhado para existir. Para Rousseau, os sentimentos nascidos do olhar dos outros estavam na base do sentimento de existência: remetiam a uma concepção da integridade do indivíduo que supõe a autoestima e a dignidade.

2 - Quanto a isso, lembremo-nos do incessante aumento dos efeitos especiais no cinema, dos jogos cada vez mais violentos, do som cada vez mais alto da música techno, por exemplo, que atestam a existência de uma cultura da ilimitação e da intensificação de estímulos sensoriais, que tendem então a revelar um estreitamento das condições e dos dispositivos do conhecimento e do papel do sujeito na consciência reflexiva.

3- Nota do tradutor: todas as citações foram por mim traduzidas livremente para o português.

4- E, desse modo, mostrar-se o mais possível, constantemente.

5 - A autora utiliza a palavra francesa mentalisation. Para reforçar o sentido de ação, de atividade mental, ao mesmo tempo em que evitando os riscos de confusão com os usos terapêuticos da “mentalização” (utilizados por certa psicologia a partir dos anos 1990), e o contexto negativo a que o termo “ideação” aparece associado também na psicologia (como em “ideação suicida”, por exemplo), optamos pelo uso do termo “imaginação” (ademais, mais próximo ao repertório sociológico). [N.R.T.].

I- Replicamos neste texto trabalhos realizados nos últimos anos, trabalhos dedicados ao futuro do sensível nas sociedades contemporâneas, entendendo por isso tanto os sentidos e a sensorialidade quanto os sentimentos. L’avenir du sensible, PUF, 2008. É na fronteira entre sociologia e antropologia que aqui nos situamos, próximo sob muitos aspectos de Mauss, que estabeleceu que os comportamentos e os sentimentos são em grande parte construídos e regidos por modelos.

Recebido: 30 de Abril de 2014; Aceito: 04 de Setembro de 2014

Claudine Haroche é diretora de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica Edgar-Morin, Paris, França.

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