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Educação e Pesquisa

versão impressa ISSN 1517-9702versão On-line ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.44  São Paulo  2018  Epub 27-Jul-2017

http://dx.doi.org/10.1590/s1678-4634201706161972 

Artigos

Walking ethnography e entrevistas na análise de experiências estéticas no Cerrado1

Valéria Ghisloti Iared2 

Haydée Torres de Oliveira3 

2- Universidade Federal do Paraná, Palotina, PR, Brasil. Contato: valiared@gmail.com

3- Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP., Brasil. Contato: haydee.ufscar@gmail.com

Resumo

Pautado na fenomenologia-hermenêutica, o estudo se propõe a comparar e discutir diferentes possibilidades para coleta de dados durante uma pesquisa que procurou compreender, em profundidade, o significado da experiência estética para um grupo de dezessete pessoas em relação ao Cerrado. Essas possibilidades surgiram em decorrência da preocupação em responder à questão de pesquisa, em que as pesquisadoras buscaram dialogar com outras opções teórico-metodológicas. Sendo assim, o estudo se embasou em leituras clássicas como Merleau-Ponty e Gadamer e, gradativamente, ampliou-se o escopo teórico, incorporando autores(es) contemporâneos como Sarah Pink e Tim Ingold. Logo, o artigo apresenta as limitações e potencialidades de dois tipos de coleta de dados – walking ethnography e entrevistas – como possibilidades metodológicas para compreender a experiência estética desse grupo no Cerrado. Baseado em um paradigma interpretativo, o objetivo do presente artigo é tecer considerações sobre a potencialidade de se ampliar o diálogo com outras perspectivas metodológicas a fim de proporcionar maior consistência para a investigação. Identificou-se que as entrevistas e o walking ethnography forneceram diferentes perspectivas e foram complementares. Considerou-se, então, que a entrevista possibilitou conhecer as memórias de infância, histórico de envolvimento ético e político dos(as) participantes, enquanto que o foco do walking ethnography residiu nas práticas corporais e multissensoriais no Cerrado. As respostas afetivas testemunhadas durante o walking ethnography foram consideradas elementos fundamentais para a compreensão da experiência em uma abordagem fenomenológica e ampliaram as possibilidades de análise do presente estudo.

Palavras-Chave: Etnografia em movimento; Investigações móveis; Entrevistas; Educação ambiental; Fenomenologia hermenêutica

Introdução

O presente estudo apresenta e discute as limitações e potencialidades de dois tipos de coleta de dados — entrevistas e walking ethnography / mobile studies / sensory ethnography4 — como possibilidades metodológicas para se compreender a experiência estética de um grupo de pessoas num fragmento de Cerrado, no interior paulista. Essa investigação é oriunda de uma pesquisa de doutorado (IARED, 2015), na qual realizamos as duas técnicas para obtenção de dados, não para compará-las, e sim com o intuito de buscar responder à questão de pesquisa: quais as naturezas das experiências estéticas no Cerrado de um grupo de participantes com histórico de vínculo emotivo com esse local? A preocupação com a coerência entre o referencial teórico e a metodologia utilizada para coleta de dados refletiu-se em um aprofundamento intelectual, o qual será explicitado durante o artigo como tentativa de justificar nossas escolhas durante a investigação. Como já ressaltado, apesar de não ter sido o objetivo da pesquisa de doutorado, percebemos a importância de trazer essas metodologias em foco como contribuição para refletir sobre as abordagens teórico-metodológicas em educação ambiental.

O referencial teórico-metodológico assumido na pesquisa foi a fenomenologia- -hermenêutica que estabelece o sensível como região pré-reflexiva que remete a um nível de experiência do indivíduo que é anterior à linguagem, não começa ou se esgota na linguagem, contudo é sensível e reflete nosso envolvimento com o mundo (MERLEAU--PONTY, 1971). Isto é, se estamos no mundo, sabemos que estamos no mundo e temos uma percepção dele, ainda que não formulada em linguagem. Para a fenomenologia hermenêutica, é nesse nível pré-reflexivo que se dá a experiência de mundo. Logo, estudar o fenômeno da experiência estética do Cerrado é investigar esse nível que é anterior à linguagem, sendo que acessar e representar a zona pré-reflexiva por formas verbais e textuais pode ser problemático do ponto de vista teórico-metodológico (PAYNE, 2013; PINK, 2009; THRIFT, 2008), justamente porque a preocupação em relação à comensurabilidade da pesquisa em educação ambiental tem sido um dos pontos de debate em publicações no campo (PAYNE, 2009; ROBOTTOM; HART, 1993). A opção por novos caminhos metodológicos na pesquisa em educação ambiental vem sendo motivada por alguns outros estudos, como os de Hart (2005, 2013). Segundo o autor, como pesquisadores reflexivos, devemos compreender os limites dos nossos conhecimentos, estar mais conscientes das múltiplas camadas da realidade e ser críticos em relação às nossas próprias investigações para nos desafiarmos a pensar para além das definições tradicionais e espaços familiares. Para tanto, o aporte de outros campos de conhecimento como antropologia, filosofia, psicologia vêm se estabelecendo como uma força que nos impulsiona a reconhecer nossos desafios e buscar inovações metodológicas (HART, 2013).

Além disso, a problematização em relação aos limites da representação dos dados vem crescendo nas ciências sociais, levando à formulação da teoria não representacional (ALVESSON, 2002; THRIFT, 2008). Esses autores questionam pesquisas conservadoras que concebem as questões sociais como estáticas e superficiais, levando a algumas técnicas de coleta de dados que tiram fotografias da realidade e as representam por meio de números e palavras. A recente publicação de Jackson e Mazzei (2012) nos desafia a pensar, por exemplo, sobre a insuficiência da técnica da entrevista, dependendo da teoria que nos orienta na investigação. Segundo Thrift (2008), nossas pesquisas, tradicionalmente, vêm acessando e representando o mundo por meio de números e palavras verbais ou textuais. Defendemos aqui que esse argumento é significativo quando estamos lidando com a dimensão estética e afetiva da vida. De acordo com a perspectiva fenomenológica, essa experiência emocional ocorre em um nível anterior à linguagem. Como, então, acessá-la e representá-la para além das formas textuais e verbais? Assumindo a abordagem fenomenológica-hermenêutica, propusemo-nos, então, dialogar com autores(as) de diferentes ontologias e epistemologias, a fim de buscar compreender, em profundidade, o significado da experiência estética num contexto específico. Esse movimento foi o resultado de um deslocamento intelectual das próprias pesquisadoras, que iniciaram seus estudos com a leitura de clássicos como Merleau-Ponty e Gadamer e que ampliaram para o escopo teórico do estudo autores(as) contemporâneos como Sarah Pink e Tim Ingold. Dessa maneira, passamos por autores(as) como Merleau-Ponty (1971), com uma ontologia mais subjetivista, Paulo Freire (2010), que nos faz pensar em uma ontologia dual, ou, ainda, Tim Ingold (2011) que nos apresenta a indissociabilidade entre mente, corpo e cultura. Disso decorrem diferentes epistemologias, baseadas na interpretação hermenêutica, como acreditava Gadamer (2006), no diálogo, recorrendo a Freire (1994), ou no corpo engajado no mundo, discutido por Ingold (2011). Esses autores, apesar de se aproximarem na abordagem interpretativa, têm alguns conceitos diferentes que merecem destaque, como, por exemplo, a interpretação na hermenêutica de Gadamer e o diálogo em Freire, que podem ser concebidos enquanto metodologias de pesquisa, são ampliados na ideia de Ingold de que compreendemos a experiência vivenciando junto/com/como tudo que habita o mundo. Isso traz a perspectiva de um(a) pesquisador(a) que também esteja presente na multissensorialidade da experiência, ligando-os na mesma atividade diária de outras pessoas (PINK, 2009). Segundo esta autora, a percepção sensorial não é apenas dialogada, e nossas interações sociais não são apenas baseadas em comunicações verbais e impressões visuais. Ou seja, apreender as experiências de outras pessoas pode ser melhor compreendido quando nós, pesquisadores(as), também estamos vivenciando e não apenas ouvindo ou lendo as “representações dessas experiências” (THRIFT, 2008).

Walking ethnography

A entrevista é uma técnica de coleta de dados amplamente utilizada e difundida nas pesquisas sociais (ALVESSON, 2002; MINAYO, 2004; ROLLEMBERG, 2013). No entanto, alguns(mas) autores(as) (PAYNE, 2013; PINK, 2009; ROLLEMBERG, 2013) percebem a entrevista tradicional como um método com algumas limitações e não adequado ao campo das sensibilidades. Ao pesquisar a afetividade e o sensível, é necessário aplicar metodologias mais coerentes com essa dimensão da experiência humana. Particularmente, acreditamos que uma das tarefas da pesquisa em educação ambiental está em como interpretar e representar, para além das relações humanas, a “materialidade da experiência” (CONNOLLY, 2010), que traz o afetivo e o significado das percepções, sensações e relações com o mundo mais que humano. Essa tarefa demanda uma inovação metodológica na investigação em educação ambiental ao buscar compreender como nosso corpo encarnado no mundo sente, percebe e se relaciona na/com a/como natureza (PAYNE, 2013).

Na última década, vem crescendo o número de pesquisas nas chamadas “mobile investigations” (LORIMER, 2011; PINK et al., 2010). Em termos gerais, essa concepção de movimento é vista como ontologicamente anterior às representações epistemológicas e tem contribuído para o desenvolvimento de diferentes perspectivas de mobilidade. Movimento não é uma prática unidirecional, que nos move do ponto A ao ponto B. Mover é ser/estar imerso no ambiente, percebendo-o (INGOLD, 2011), sentindo com os sentidos e atribuindo significados (MERLEAU-PONTY, 1971). Como exemplo, trazemos o livro A Philosophy of Gardens (COOPER, 2006), no qual o autor defende que, na experiência estética de um jardim, todos os sentidos estão envolvidos — visão, audição, tato, olfato, sabor — porque “nós não apenas olhamos para um jardim de uma janela ou um terraço, mas olhamos para ele ao nos movermos ao longo dele ou através dele” (COOPER, 2006, p. 30, tradução nossa). A experiência estética do jardim acontece no fluxo do movimento: as flores crescem e morrem, árvores perdem as folhas, as plantas respondem às mudanças de sazonalidade, enquanto que os(as) jardineiros(as) acompanham e fazem parte desse movimento do jardim.

De acordo com Sheets-Johnstone (1999), Johnson (2007), Ingold (2000, 2011), dentre outros, a nossa forma de perceber e agir no mundo emerge por meio de nossas capacidades sensório-motoras. Essa capacidade corporal e sensorial não pode ser compartimentalizada ou desagregada em formatos que tratam cada sentido de forma isolada e independente. Em vez disso, no nível fenomenológico de interpretação e descrição, assumimos a concepção de sinestesia proposta por Merleau-Ponty (1971), reiterada por Abram (1996) e também contemplada na noção do sensorium (STOLLER, 1989). Efetivamente, esses conceitos entrelaçam as modalidades sensoriais na maneira como as pessoas se relacionam, se movem, habitam e se tornam parte do ambiente. Merleau-Ponty (1971) e Abram (1996) afirmam que a nossa experiência primordial e pré-conceitual é inerentemente sinestésica, na qual as coisas e os elementos que nos cercam não são inertes e, sim, expressivos. Para Ingold (2000, 2011), Kusenbach (2003) e Johnson (2007) o significado emerge do movimento que acontece em um nível anterior à linguagem. Para interpretar esses significados pré-racionais mais profundos de nossos encontros corporais com o mundo, precisamos compreender como esses movimentos constituem nossa percepção corporal e, consequentemente, nosso ser ético e político corporificado. Esse processo de investigação influencia, inevitavelmente, a forma como concebemos e construímos o currículo, a pedagogia e a teoria da aprendizagem. Devemos olhar “mais profundamente aspectos da experiência que se encontram em um nível anterior a palavras ou frases” (JOHNSON, 2007, p. 17, tradução nossa). Nesse sentido, devemos nos concentrar na importância do movimento corporal, uma vez que a vida é movimento e nós percebemos o mundo em movimento (INGOLD, 2000, 2011).

Johnson (2007) afirma que temos ligações viscerais com a vida desde a nossa concepção como criaturas da carne. O significado vem de nossas percepções corporais, movimentos, emoções e sentimentos. Essas conexões viscerais abordam o campo da estética, mas não a estética como o estudo da arte e, sim, como o estudo de tudo que tem fortes ligações com o nosso corpo encarnado (HERMANN, 2005; JOHNSON, 2007; MARIN, 2006; SHUSTERMAN, 2008; SULLIVAN, 2001). Estética, aqui, compreende as ligações intrínsecas com o mundo e a capacidade humana de atribuir sentido à experiência. Johnson (2007) acrescenta que a fenomenologia tem sido marginalizada dentro de alguns campos de pesquisa, mas algumas investigações recentes em neurociências vêm enfatizando a importância da mente encarnada (embodied mind) (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1991) para o desenvolvimento de emoções em relação às questões cognitivas. Na verdade, muitas abordagens interdisciplinares (GALLAGHER, 2005; JOHNSON, 2007; SHEETS- -JOHNSTONE, 2009; SHUSTERMAN, 2008) têm discutido a somaestética (SHUSTERMAN, 2008) como crucial para o nosso ser cognitivo, ético e político (JAMES, 2006; PAYNE, 2013; SULLIVAN, 2001). Essa orientação filosófica recente (que é fenomenológica) propõe a virada corporal (PAYNE, WATTCHOW, 2009; SHEETS-JOHNSTONE, 2009) e foca no corpo como o centro e origem do nosso ser no mundo, ou seja, uma mente encarnada, em que a “não separação entre o pensar e o fazer é evidente; assim, também é a não separação do sentir e do movimentar-se “(SHEETS-JOHNSTONE, 2009, p. 61, tradução nossa).

Pink (2009) argumenta fortemente em defesa de um método que considere a multissensorialidade da experiência para acessar a maneira como um grupo de pessoas vivencia o ambiente. A autora motiva o engajamento do(a) pesquisador(a) nessas experiências, ligando-os na mesma atividade realizada pelas pessoas envolvidas na pesquisa. Segundo ela, a percepção sensorial não permeia somente a fala, porque nossas interações sociais não são apenas baseadas em comunicações verbais e impressões visuais. Em vez disso, elas estão totalmente incorporadas em eventos multissensoriais, logo os(as) pesquisadores(as) devem estar abertos(as) para as múltiplas formas de exploração e reflexão sobre as novas rotas/formas de conceituar o conhecimento. Nossa experiência é incorporada e o(a) pesquisador(a) apreende a experiência das outras pessoas por meio do seu próprio corpo engajado. Ingold (2000, 2011) dá primazia ao movimento, ao argumentar que os lugares são produzidos a partir do movimento, porque estamos entre as idas e vindas dos seres humanos e não humanos ou, como Cooper (2006), que ressalta que percebemos o movimento da estação, sol, árvores, cheiros e assim por diante. A proposta de Pink (2009) não é uma análise das percepções sensoriais e culturais, mas a utilização das suas próprias experiências sensoriais como pesquisador(a) ao apreender e compreender as experiências, as formas de conhecer e perceber e significar das outras pessoas.

Ingold e Vergunst (2008) propõem a caminhada para entender melhor a variedade de significados atribuídos por nós a algum tema, porque, para Ingold (2011), perceber é se juntar aos fluxos de materiais e movimentos que contribuem para nossa formação permanente. Além disso, a caminhada não é restrita aos seres humanos, mas também explorada por animais (INGOLD; VERGUNST, 2008) e seu potencial consiste em aumentar as relações sociais entre seres humanos e não humanos, o que é um ponto-chave para a dimensão estética da educação ambiental. Lorimer (2011) usa o termo genérico new mobile studies para caracterizar essa técnica utilizada em formas multidisciplinares de pesquisa e de práticas culturais. Na verdade, há um aumento nas metodologias do caminhar nas ciências sociais e humanas ao longo da última década (PINK et al., 2010) como uma estratégia para explorar novas compreensões da experiência vivida: caminhada compartilhada — shared walk (LEE; INGOLD, 2006); acompanhar natural — natural go-along (KUSENBACH, 2003); caminhada comentada — commented walks (WINKLER, 2002); entrevista em movimento — walking interview (EVANS; JONES, 2011); etnografias móveis — mobile ethnographies (PORTER et al., 2010).

Diante do que foi exposto, nossa proposta neste artigo visa discutir duas formas de coletar os dados em uma investigação que tinha como questão de pesquisa: quais as naturezas das experiências estéticas no Cerrado de grupos de pessoas que têm por característica um histórico de forte engajamento afetivo com esse ambiente?

A coleta de dados em duas perspectivas diferentes

Para a definição do público participante deste estudo, procuramos pessoas que tivessem um histórico de envolvimento em relação ao bioma Cerrado, que não remetesse a experiências pontuais no ambiente em questão, mas, sim, a uma memória afetiva e um vínculo emocional profundo construídos a partir de valores intrínsecos com o bioma. Daí advém o termo no plural, experiências, no título do artigo, uma vez que os(as) participantes vêm experienciando por meio de diversas oportunidades no/com o Cerrado. Optamos por esse tipo vegetacional pelo seu histórico de ocupação no Brasil e por estarmos inseridas num território com a presença de Cerrado. Considerando esse perfil de envolvimento, convidamos grupos de pessoas que sabíamos a priori terem um histórico de relação afetiva com o Cerrado, não se remetendo a uma região geográfica específica do Brasil. Dessa maneira, foram convidados grupos nos quais as pesquisadoras já estavam inseridas ou, ao menos, com os quais tinham contato: Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Ambiental / UFSCar (Gepea), Projeto de Educação Ambiental e Lazer/ UFSCar (Pedal), Ecovila Tibá de São Carlos e grupo de monitores(as) do Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC) da USP. O Gepea é composto por professore(as), graduandos(as), pós-graduandos(as) e pessoas interessadas em refletir e discutir a educação ambiental sob a perspectiva da pesquisa. O Pedal é um grupo composto por ciclistas que buscam viajar e passear por paisagens não urbanas, que permitem o contato com matas, cachoeiras, praias e trilhas como uma alternativa de fruição do lazer desvinculada do consumo. A Ecovila Tibá de São Carlos é um grupo de interessados(as) em morar e conviver em um local que propicie um contato mais intenso com a natureza, sendo que, para isso, buscam uma gestão compartilhada como forma de organização do grupo. Os(as) monitores(as) do CDCC são bolsistas ou voluntárias(os) que guiam visitas em alguns locais de São Carlos, sendo que uma dessas visitas é realizada no Cerrado da UFSCar.

Por meio de entrevistas semiestruturadas, objetivamos compreender quais emoções e sentimentos foram vivenciados no Cerrado a partir das seguintes perguntas: quais elementos chamam atenção nesse tipo de vegetação? Quais sentimentos e emoções são despertados? Quais vivências foram e continuam sendo agradáveis e por quê? As entrevistas, num total de dezessete, foram realizadas de junho a dezembro de 2012 com duração de quarenta minutos, em média, nas casas ou locais de trabalho dos(as) participantes. Dos(as) dezessete entrevistados(as), todos(as) são ligados à atividades na universidade, por terem realizado ou ainda realizarem atividades na ou em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) — campus São Carlos e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Ao nos pautarmos em uma abordagem hermenêutica, compreendemos que a interpretação dos dados se dá no diálogo entre o(a) pesquisador(a) e os(as) participantes da pesquisa. Nesse sentido, seguimos algumas etapas que julgamos coerentes com o referencial teórico-metodológico adotado. Primeiramente, retornamos a transcrição da entrevista aos envolvidos na pesquisa, permitindo que eles(as) fizessem correções no texto, alterando, retirando e até acrescentando situações, opiniões e informações que julgassem importantes. A partir desse corpus de análise, sistematizamos as entrevistas aproximando as unidades de texto (palavras e frases) que se repetiam em expressões que as representavam. Essa sistematização foi organizada em forma de tabelas, as quais voltaram aos(às) entrevistados(as) para que discutissem se nossa interpretação da experiência estava coerente com que sentiam e vivenciavam. Nossa preocupação era oportunizar momentos de reflexão que transcendessem a entrevista, que se caracteriza por relatar uma experiência em pouco tempo de conversa e, muitas vezes, não reflete todas as ideias, memórias e opiniões dos(as) participantes (ROLLEMBERG, 2013). Nesse sentido, novamente, o(a) entrevistado(a) pôde analisar a sistematização, complementar e mesmo alterar o que foi conversado. Após essa etapa, reorganizamos a sistematização e análise dos dados com base nessa interpretação que consideramos mais dialógica e, portanto, condizente com o referencial teórico-metodológico adotado. No entanto, ainda assim, assumimos aqui os limites da representação dos dados coletados por meio dessa técnica, o que é ponto de preocupação da teoria não representacional de Thrift (2008), pois as entrevistas são entendidas como oportunidades e momentos de co-construção entre pesquisador(a) e participante e não como extração de verdades ou fatos (ROLLEMBERG, 2013).

Após essa fase da coleta de dados, houve um aprofundamento teórico por parte das pesquisadoras, o que acarretou um deslocamento teórico-metodológico. Percebemos que a questão de pesquisa poderia ser mais amplamente respondida, ao buscar uma maior coerência entre o referencial teórico e a metodologia: se a experiência que temos com o mundo ocorre em um nível pré-reflexivo, que é anterior à linguagem, como, então, acessá-la e descrevê-la por meio de entrevistas (linguagem verbal)? Logo, nossa opção foi coletar mais dados, com os(as) mesmos(as) participantes para aplicar uma outra técnica baseada na perspectiva das investigações do movimento (LORIMER, 2011). Cabe salientar que foram realizadas práticas prévias anteriores à coleta descrita com grupos e locais variados, possibilitando segurança e experiência no momento de aplicação efetiva da técnica.

Em outubro e novembro de 2014, convidamos novamente os(as) dezessete participantes para uma manhã de caminhada em um fragmento do Cerrado localizado no interior paulista. Desse grupo, dez pessoas aceitaram o convite, sendo que duas foram em uma data (Caminhada 1) e outras oito em outra (Caminhada 2). O fragmento de Cerrado escolhido foi o campus da UFSCar (São Carlos-SP) pela facilidade de acesso e por ser um local que faz parte de cotidiano deles(as) (KUSENBACH, 2003; PINK, 2009). As duas caminhadas foram realizadas durante a primavera; a temperatura, nos dois dias, estava amena (em torno dos 25 ºC), o tempo nublado com o sol surgindo em torno das dez horas da manhã.

Na revisão da literatura realizada para subsidiar essa investigação, não identificamos um único modelo ou padrão regular a seguir em relação aos procedimentos de coleta de dados, o que nos permitiu projetar nossas técnicas de acordo com o nosso contexto e demandas. Pink (2009) afirma que essa variedade é um resultado da virada sensorial nas ciências sociais e humanas, resultando em uma série de inovações recentes. Dada a diversidade de técnicas utilizadas durante a caminhada em movimento ou etnografia sensorial, optamos por não utilizar nenhum tipo de trajeto ou roteiro pré-estabelecido. Os(as) participantes poderiam escolher a trilha a ser seguida, o tempo da caminhada e quais aspectos da paisagem vivenciar. Não recorremos à gravação digital, apenas foram anotados alguns aspectos que consideramos importantes, além de palavras-chaves, em um bloco de notas. Na primeira caminhada, foram registradas as respostas afetivas ao movimento das duas participantes (Ana e Betina)5 e, na segunda, dos oito presentes, foram registrados os movimentos de quatro participantes (Cassandra, Davi, Elvira e Frederico). Optamos por não registrar as observações de todo o grupo pela limitação da própria pesquisadora para acompanhar todas as pessoas. Durante exercícios-piloto de walking ethnography, essa dificuldade foi percebida, o que influenciou a decisão de registrar os movimentos, expressões e ações de algumas pessoas do grupo. A decisão de quais pessoas acompanhar não foi tomada a priori, tendo surgido assim que a caminhada começou e foi baseada na percepção da pesquisadora das pessoas cujo ritmo do caminhar poderia ser acompanhado. Ao voltar da caminhada, aproximadamente uma hora após a prática, a pesquisadora, em seu local de trabalho, elaborou uma descrição detalhada da caminhada. A partir da descrição, construímos narrativas que buscavam representar de uma maneira mais poética a experiência dos(as) participantes. O processo de elaboração das narrativas foi demorado, sendo que escrevemos e rescrevemos diversas vezes como desafio de torná-las ecopoéticas (PAYNE, 2013). O autor defende essa abordagem ecoartística no testemunho da experiência como uma maneira de discorrer mais fielmente sobre as experiências estéticas da natureza. Optamos por redigir uma narrativa por participante, totalizando seis narrativas (Ana, Betina, Cassandra, Davi, Elvira e Frederico), afim de não dividir significados segundo categorias ou tendências e produzir em estórias que usam metáforas e analogias como forma de explorar as diferentes compreensões do mundo (MCPHIE; CLARKE, 2015; PAYNE, 2013). Os resultados de cada coleta de dados serão brevemente apresentados, a fim de se levantar as potencialidades e limitações de cada uma.

Resultados e discussão

Consideramos como corpus de análise da primeira coleta de dados as entrevistas após o retorno para os(as) participantes. Durante as entrevistas, diversos assuntos foram abordados sobre o Cerrado, como por exemplo, histórias de infância e adolescência, nas quais o papel da família foi muito influente; posicionamento ético e político em relação às pressões de expansão sobre o bioma Cerrado; e descrição de momentos prazerosos e marcantes de vivência no Cerrado. Os trechos de entrevista a seguir ilustram esses assuntos:

[...] me despertou curiosidade essas novas informações do tanto que essa área tinha sido desmatada ou o tanto que ela não é considerada pelo Brasil institucionalmente e, constitucionalmente, pelas legislações. Isso tudo eu fui procurando saber, durante a minha convivência, a minha vivência aqui em São Carlos. (Entrevista – Raquel).

Olha, meus pais moram numa área que, quando eles mudaram para lá era somente de sítios e fazendinhas pequenas. Agora está bem mais urbanizado. Mas desde a minha infância eu tenho tido contato com a natureza. Desde quando eu era muito pequena, eles já começavam a ir acampar com a gente. Então, eles sempre nos levaram para ter contato com a natureza. (Entrevista – Camila).

Em São Carlos, a gente tem uma prática muito forte do ciclismo e, especificamente, do uso do Cerrado para fazer essa prática [...] E o prazer que dá conhecer esse espaço, de chegar até lá. [...] Mas esse meu outro contato com o Cerrado através da bicicleta me fez expandir o olhar [...] Em ocasiões em que eu passava por um animal... Isso é muito engraçado! Eu tenho 31 anos, eu parecia uma criança de feliz! (Entrevista – Márcio).

A segunda metodologia possibilita a mudança no referencial dos(as) participantes que, ao invés de descrever as memórias por meio da linguagem, passam a vivenciar a experiência no/com o/como Cerrado. Outro ponto fundamental é a perspectiva da pesquisadora que também estava percebendo e sentindo o Cerrado junto com os(as) participantes. É importante ressaltar que diálogos sobre outros assuntos surgiram na caminhada, mas nossos registros focam a resposta afetiva ao estar em movimento no Cerrado. A partir da caminhada pelo Cerrado, nós descrevemos a experiência para então elaborar narrativas ecopoéticas, consideradas como representação mais apropriada dos dados obtidos. As anotações da caminhada, diferentemente das entrevistas, não voltaram para os(as) participantes e a constituição das narrativas foi um processo de elaboração de escrever e reescrever diversas vezes, na tentativa de levar o(a) leitor(a) a imaginar o cenário vivenciado. Alguns trechos das narrativas ilustram essa perspectiva:

Ana andava tocando as folhas e os troncos ao mesmo tempo em que conversava comigo e com Betina. Às vezes, ela avistava algo na mata e nos chamava para compartilhar a descoberta. Em uma dessas observações, Ana encontrou uma abelha que ela nunca tinha visto antes. Um brilho no olhar mostrava o encanto pelas cores da abelha! (Caminhada 1 – Narrativa Ana).

Cassandra avistou uma flor aberta que até então ela só tinha encontrado fechada. Ela ficou maravilhada com o fato da flor, quando fechada, ser vermelha e quando aberta, ser branca e vermelha, comentando sobre a delicadeza das flores no Cerrado ao compará-las com rendas. O encanto era tamanho que ela gostaria de plantar algumas espécies de Cerrado no seu quintal! Em um determinado trecho, nós comemos uma fruta típica do Cerrado e, desde então, Cassandra passou a procurar por outros sabores do Cerrado. (Caminhada 2 – Narrativa Cassandra).

Elvira viu uma pegada de veado e ficou satisfeita ao saber que eles também circulam perto da entrada. Ela andava junto ao grupo, prestando atenção na mata ao lado do aceiro. Em um ponto, parou de repente! Ela havia avistado uma flor e, de tão maravilhada, quis fazer da flor um pingente para seu colar. [...] No fim da nossa caminhada, o sol saiu, e Elvira, satisfeita, disse que era melhor andar no Cerrado em dias nublados. Logo em seguida, ela se deparou novamente uma pegada de veado, mas em outro local. Foi quando ela brincou dizendo que havíamos feito o mesmo caminho do veado. (Caminhada 2 – Narrativa Elvira).

Os sabores e frutas do Cerrado não foram abordados durante as entrevistas, fato que foi muito recorrente na segunda caminhada. Pink (2008, 2009) afirma a importância do conhecimento sensorial do(a) investigador(a) em técnicas de etnografia que incluem práticas alimentares produzidas por meio da partilha de gostos. Aqui nós estendemos esse conhecimento para a possibilidade provocada por essa experiência para motivar o corpo imerso no Cerrado. Em certo sentido, então, os frutos estão dentro do movimento do ciclo de vida do qual nós somos convidados a participar. A relação de curiosidade e encantamento (como aconteceu com a abelha da Ana) e a vontade de continuar explorando o Cerrado a ponto de levá-lo para casa (como o pingente da Elvira e as plantas no quintal da Cassandra) são mais evidentes e explícitas na caminhada. De fato, Elvira, no final de sua entrevista, comentou que não tinha conseguido relatar em palavras todo seu sentimento afetivo e sua história de vínculo com o Cerrado. Nas entrevistas, também identificamos alguma dificuldade em descrever as emoções e explicar essa relação afetiva, como disseram Frederico e Betina:

É... [silêncio] Porque ele merece ser defendido. Porque eu não concordo com argumentos de “ah, vamos defender, porque tem plantas medicinais”. Vamos defender, porque, sei lá, como alguém que defende sua casa ou defende a vida de uma pessoa. Porque ele tá lá, ele merece. Ele não merece ser destruído, entendeu? Ele merece ser protegido, sabe? É uma coisa mais interna, sei lá. Ah, que perguntas difíceis [risos]. (Entrevista – Frederico).

Ah... [silêncio] Eu não sei... [silêncio] Até hoje é uma coisa que eu lembro com muito carinho. Eu gostava muito de estar lá, de ficar dias na chácara. De caminhar pelas regiões ali, né? É Cerrado aquela área. (Entrevista – Betina).

Na entrevista foi possível conhecer um pouco do histórico de luta de algumas pessoas pelo Cerrado, assunto que não foi conversado durante a caminhada. Ao mesmo tempo em que as emoções de estar no Cerrado não precisaram ser descritas para a pesquisadora, uma vez que foram testemunhadas por ela:

Quando entramos na área de Cerrado, Frederico ficou concentrado em observar a mata ao lado do aceiro. Ele tirou sua câmera da mochila e foi andando sozinho, separado do grande grupo. [...] Frederico não demonstrava medo de adentrar e explorar a mata, enquanto muitos(as) do grupo continuavam caminhando pelo aceiro. Ele chegava a demorar minutos para voltar quando adentrava a mata. (Caminhada 2 – Narrativa Frederico).

Betina andava perto da mata ao longo do aceiro, sempre muito calma e de andar lento. Ela tocava e cheirava as folhas e os troncos, atenta aos detalhes ao longo do percurso. Para ela, a beleza do Cerrado está precisamente nas folhas aveludadas e peludas e nos troncos grossos e espinhosos! (Caminhada 1 – Narrativa Betina).

Essa mudança de perspectiva é um dos pontos mais fortes dessa metodologia. A relação durante a caminhada não é de pesquisador(a)-participante e, sim, todos(as) ao mesmo tempo vivenciando o fenômeno (HORTON et al., 2014). Os(as) autores(as) comentam sobre ambos estarem olhando de frente para o mundo e não olhando um para o outro. Segundo nossa compreensão, a pesquisadora também estava imersa, e isso apareceu nas narrativas com o uso da primeira pessoa do plural, como demonstra esse trecho a seguir:

Alcançamos o Cerrado novamente, e Ana, com o andar lento, estava atenta ao ambiente, apontando para pegadas e plantas que reconhecia. No final da trilha, fomos surpreendidas por um tatu e, em seguida, um lagarto que atravessaram o aceiro! Paramos no ponto onde o tatu entrou na mata e tentamos ouvir ou ver alguma coisa. O arbusto se moveu e ficamos felizes com essa surpresa inesperada! (Caminhada 1 – Narrativa Ana).

A percepção da devastação do Cerrado e da mudança da paisagem foram identificadas nas entrevistas e consideramos como um dos fatores que chamou a atenção para um posicionamento político em relação ao Cerrado (IARED, OLIVEIRA, 2013). O interessante foi isso surgir na caminhada também, mas não no formato de linguagem verbal e sim como uma resposta do corpo ao envolvimento afetivo. Nas duas caminhadas, passamos por uma área de eucalipto e, em ambas, o grupo andou com uma velocidade maior do que aquela com que passou pelo Cerrado:

Betina apertou os passos quando estávamos atravessando a área de eucalipto. Em poucos minutos, alcançamos a área de Cerrado novamente e o sol apareceu. Betina aceitou o convite de uma sombra de árvore para se refrescar. (Caminhada 1 – Narrativa Betina).

O grupo estava andando mais rápido no bosque de eucaliptos, e Davi seguiu os mesmos passos. Apesar do passo rápido, ele ainda se atentava para as árvores e para o céu, sem mais tocar e cheirar, mas sempre atento às paisagens. Chegamos a outra área de Cerrado, essa já um pouco impactada. O sol surgiu. Davi voltou a andar perto da mata, tocando e cheirando as folhas. (Caminhada 2 – Narrativa Davi).

A resposta afetiva ao espaço também foi identificada no ritmo do caminhar no estudo de Edensor (2010). Seguindo a mesma linha, Myers (2011), em uma investigação na qual caminhou pela cidade com imigrantes refugiados, percebeu que os sentimentos de pertença são produzidos por meio de práticas cotidianas. Nosso argumento aqui é que os participantes parecem demonstrar profunda identidade com o Cerrado quando se deslocam nessa paisagem, o que não aconteceu na área de eucalipto. Foi interessante perceber isso não só pelas entrevistas, mas, também, pelo movimento corporal ao longo dessas áreas. Como disseram Ingold e Vergunst (2008), o caminhar não é apenas o que o corpo faz, mas, também, o que o corpo é. Em consonância com a afirmação de Myers (2011) e Edensor (2010) de que, nessa metodologia do walking ethnography, nosso corpo responde à paisagem que estamos percorrendo, destacamos outro aspecto que divergiu nas duas coletas: a mata ciliar no Cerrado. Tanto na caminhada 1 como na caminhada 2, os grupos optaram por um percurso que não passou por uma região de mata ciliar, sendo que em várias entrevistas, esse ponto foi ressaltado como um atrativo durante atividades no Cerrado. As entrevistas de Pietra e Davi ilustram esse deslumbre com a mata ciliar:

Eu gosto muito do sol. No Cerrado, a gente tem uma visão ampla. O sol bate nas nossas costas. Você tá sempre andando num plano, assim, daqui a pouco você encontra uma... Uma... Uma matinha ciliar. Você tem aquele contraste que é maravilhoso, que a água que é maravilhosa, ela fica trinta vezes mais maravilhosa por causa do sol ardente. (Entrevista – Pietra).

Uma outra coisa interessante é que lá, bem no meio do Cerrado, existe um tablado que foi feito há muitos anos. E este tablado é justamente num local que existe uma insurgência de água. Então, é um local que tem muitas árvores ao redor. [...] E como é interessante de se observar a diferença de temperatura [...] A experiência de você estar caminhando, pedalando, enfim, no meio do Cerrado, em qualquer parte da cidade, inclusive, né? E de repente, ir até aquele ambiente em que a natureza, em que as árvores são relativamente grandes e são fechadas e de insurgência de água. Como é uma diferença de temperatura incrível entre estar dentro daquele ambiente e fora daquele ambiente. O que nos ajuda a compreender de forma bastante direta fenômenos como derretimento da calota polar, o efeito estufa, uma série de coisas que são ditas na televisão. (Entrevista – Davi).

Como já mencionado anteriormente, o walking ethnography é considerado uma metodologia contemporânea e vêm crescendo o número de publicações sobre ela na última década. A mistura, complementação ou comparação entre o caminhar e técnicas tradicionais foram abordadas em alguns estudos. Por exemplo, Evan e Jones (2011) realizaram um estudo comparativo entre entrevistas sedentárias e entrevistas na caminhada. Os resultados indicaram que os dados gerados na caminhada são profundamente influenciados pelas paisagens em que eles ocorrem, enfatizando a importância do ambiente. Já Horton et al. (2014) usaram as duas técnicas (entrevistas semiestruturadas e caminhadas) para discutir a importância do andar nas experiências cotidianas de crianças e adolescentes na Inglaterra. Ao contrário de Evan e Jones (2011), as duas técnicas não foram colocadas em comparação, mas produziram narrativas para análise e discussão, isto é, foram usadas em complemento. James e Bixler (2008) recorreram à caminhada como uma das técnicas de um projeto mais amplo e concluíram que caminhadas são formas alternativas às entrevistas, principalmente em contextos de relações de poder, nos quais o contato visual e o silêncio podem causar situações de desconforto e constrangimento. Para os(as) autores(as), o ritmo de caminhada compartilhada incentiva uma relação de confiança entre pesquisador(a) e participante. De fato, isso foi um aspecto que nós percebemos na caminhada, por ser uma proposta menos formal ou mais espontânea. Na nossa interpretação, os(as) participantes se sentiram mais à vontade e não alvos ou objetos do nosso estudo.

Outros estudos utilizaram essa metodologia de diferentes maneiras, como, por exemplo, Wylie (2005) em uma autoetnografia, na qual produziu uma narrativa de sua experiência de um dia caminhando em uma costa litorânea, ou Mcphie e Clarke (2015), ao elaborar estórias a partir de uma aula na qual caminharam em um parque. Concordamos com Kusenbach (2003) ao dizer que pesquisas que realizam apenas entrevistas e não se propõem a uma abordagem mais próxima da realidade das pessoas, correm o risco de não trazer para a discussão aspectos da experiência cotidiana das pessoas. Essas vivências trazem à tona práticas corporais e sensoriais que estão no nível pré-reflexivo e são elementos cruciais para a compreensão da experiência em uma abordagem fenomenológica. Assim como a autora, defendemos que nenhuma técnica de coleta de dados é superior à outra, mas faz-se necessário refletir sobre as possibilidades de se ampliar a compreensão do fenômeno estudado e, portanto, podemos pensar em várias técnicas de coletas de dados que podem ser usadas em complemento.

Considerações finais

A fenomenologia busca compreender a experiência que ocorre em um nível pré-reflexivo, anterior à linguagem (MERLEAU-PONTY, 1971). Ora, se nosso objetivo foi trazer à luz esse nível anterior à linguagem, não parece insuficiente acessá-lo e representá-lo apenas pelas entrevistas? Apresentamos nesse estudo dados de duas diferentes técnicas aplicadas a um mesmo grupo de participantes, na busca por responder a uma questão de pesquisa segundo a abordagem interpretativa. Ao longo da nossa análise, identificamos que as entrevistas e a caminhada nos fornecem diferentes perspectivas e são complementares. Consideramos, nesse sentido, que a entrevista possibilitou conhecer as memórias de infância, histórico de envolvimento ético e político dos(as) participantes, enquanto que o foco do walking ethnography residiu nas práticas corporais e multissensoriais no Cerrado, que também podem se desdobrar em aspectos afetivos. Essa metodologia se mostrou coerente, uma vez que a pesquisadora testemunhou as respostas afetivas e estéticas das pessoas, permitindo mais um outro de interpretação para o fenômeno estudado. Aqui reside outro fato importante, em relação ao qual o walking ethnography parece ser uma proposta interessante para estudos fenomenológicos. A experiência estética é uma prática sensorial e não verbal/textual, o que culmina na segunda preocupação. Logo, a proposta de estarmos, pesquisador(a) e participante, com os corpos engajados, testemunhando a mesma experiência, nos leva a crer que podemos ampliar a compreensão do fenômeno, uma vez que, para além de descrever ou relatar por formas verbais ou textuais, estamos todos(as) com nossos corpos imersos na vivência.

Ao tecer essa comparação, consideramos que uma técnica expande a perspectiva da outra, ampliando a compreensão da realidade estudada e possibilitando responder à questão de pesquisa a partir de diferentes lentes da realidade. Logo, sugerimos que outras investigações possam usar essas técnicas em articulação, procurando sempre estar atentas à comensurabilidade da pesquisa.

Para além da técnica em si, as formas de representação dos dados também foram diferentes: transcrições das entrevistas e narrativas. Percebemos essa possibilidade de elaboração de estórias como um diferencial, já que nos permite incorporar elementos mais próximos da sensibilidade e emoção como alternativa à linguagem formal e acadêmica. Dessa maneira, sentimentos e emoções puderam ser representados de outra maneira, contribuindo para a compreensão do fenômeno. Recomendamos que novos estudos explorem essas e outras formas de representação da vivência para que possamos seguir refletindo sobre o campo de pesquisa baseado na abordagem interpretativa.

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4- Temos optado por manter os termos em inglês: walking ethnography, mobile studies ou sensory ethnogaphy.

5- Os nomes são fictícios de modo a respeitar o anonimato dos(as) participantes do estudo.

Recebido: 02 de Abril de 2016; Aceito: 10 de Agosto de 2016

Valéria Ghisloti Iared é doutora em Ecologia e Recursos naturais pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais (PPGERN/UFSCar) e professora adjunta do Departamento de Biodiversidade da Universidade Federal do Paraná.

Haydée Torres de Oliveira é doutora em Ciências da engenharia ambiental e professora titular do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Carlos.

1 - Agradeço aos (às) participantes da pesquisa pela disposição de estarem presentes em diversos momentos e pela oportunidade de realizar essa investigação. Obrigada ao CNPq pela bolsa de estudos no Brasil e à Capes pela concessão de subsídio durante o programa de douramento sanduíche na Monash University, Melbourne, Austrália.

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