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Interações (Campo Grande)

Print version ISSN 1518-7012

Interações (Campo Grande) vol.13 no.2 Campo Grande July/Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1518-70122012000200002 

ARTIGOS

 

Quilombolas e recursos florestais medicinais no sul da Bahia, Brasil

 

Quilombolas group and medicinal forest resources in southern Bahia, Brazil

 

Quilombolas et les ressources forestières médicinales dans le sud de Bahia, Brésil

 

Los Quilombolas y recursos forestales medicinal en el sur de Bahía, Brasil

 

 

Renata dos Santos MotaI; Henrique Machado DiasII

IBióloga. Universidade do Estado da Bahia/Teixeira de Freitas. E-mail: nannamotta23@hotmail.com
IIDoutor em Meio Ambiente. Professor do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). E-mail: henrique.m.dias@ufes.br

 

 


RESUMO

Buscou-se interpretar o conhecimento tradicional de uma comunidade quilombola acerca do uso de espécies vegetais com fins terapêuticos. Adotaram-se entrevistas semiestruturadas e análise de discurso para sua interpretação. Identificaram-se no herbário 57 espécies com fins medicinais. Conclui-se que o conhecimento é imprescindível para manutenção sociocultural dessa comunidade vulnerável e como forma de geração de trabalho e renda à luz do desenvolvimento sustentável local.

Palavras-chave: Etnobotânica. Comunidades tradicionais. Interdisciplinaridade.


ABSTRACT

We interpreted the traditional knowledge of a Quilombola group about the use of plant species for therapeutic purposes (medicinal). Were adopted semi-structured interviews and discourse analysis to its interpretation. We identified 57 species in the herbarium for medicinal purposes. It is concluded that knowledge is essential for maintenance of socio-cultural vulnerable community and as a way of generating jobs and income the light of local sustainable development

Key words: Ethnobotanical. Traditional group. Interdisciplinary.


RÉSUMÉ

Nous avons essayé d'interpréter les connaissances traditionnelles d'une communauté Quilombola sur l'utilisation d'espèces végétales à des fins thérapeutiques. Ont été adoptées entretiens semi-structurés et de l'analyse du discours à son interprétation. Nous avons identifié 57 espèces de l'herbier à des fins médicinales. Il est conclu que la connaissance est essentielle pour le maintien de communautés vulnérables socioculturelles et comme un moyen de générer des emplois et des revenus de la lumière du développement durable local.

Mots-clés: Ethnobotanique. Communautés traditionnelles. Interdisciplinaire.


RESUMEN

Tratamos de interpretar los conocimientos tradicionales de una comunidad Quilombola sobre el uso de especies de plantas con fines terapéuticos. Se adoptaron entrevistas semiestruturadas y análisis del discurso para su interpretación. Se identificaron 57 especies en el herbario con fines medicinales. Se concluye que el conocimiento es esencial para el mantenimiento de las comunidades vulnerables socio-cultural y como una forma de generar empleos e ingresos a la luz del desarrollo sostenible local.

Palabras clave: Etnobotánica. Comunidades tradicionales. Interdisciplinario.


 

 

Introdução

Ao longo de sua existência, o ser humano acumulou informações (etnoconhecimento) sobre o ambiente a partir das constantes observações dos episódios característicos da natureza e na experimentação empírica no uso dos recursos naturais disponíveis (JORGE; MORAIS, 2003). Nesse sentido, o etnoconhecimento destaca-se por ter essa estreita cumplicidade e interdisciplinaridade com todas as áreas da ciência, destacando-se a antropologia, biologia, química, farmacologia e física (DI STASI, 1996). Rodrigues e Carvalho (2001) afirmam que a etnobotânica, como subárea do etnoconhecimento, é o primeiro passo para a interdisciplinaridade envolvendo botânicos, agrônomos, antropólogos, médicos, químicos e físicos, a fim de estabelecer quais são as espécies vegetais promissoras para pesquisas agrícolas, florestais e medicinais.

Albuquerque (2005) afirma que a etnobotânica torna possível o reconhecimento da distribuição, origem e diversidade das plantas cultivadas ao longo do tempo no espaço. Fonseca-Kruel e Peixoto, (2004), Maioli- -Azevedo e Fonseca-Kruel (2007) e Alves et al. (2007) enfatizam que a etnobotânica diz respeito ao estudo das sociedades humanas, passadas e presentes, e suas interações ecológicas, genéticas, evolutivas, simbólicas e culturais com as plantas. Cotton (1996) afirma que ela apresenta, como característica básica de estudo, o contato direto com as populações tradicionais, cuja confiança permita conquistar com aproximação e vivência, resgatando o conhecimento possível sobre a relação de afinidades entre o ser humano com as plantas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente 80% da população mundial dependem de remédios tradicionais e caseiros através do uso direto de plantas (BUENO et al., 2005). Zuchiwschi et al. (2010) e Pinto et al. (2006) afirmam que a continuidade nesse uso pode ser ameaçada devido à interferência dos fatores externos à dinâmica social do grupo, como a exposição das comunidades às pressões econômicas e culturais externas. No Brasil, a ciência fitoterápica é uma prática terapêutica incentivada pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2001), e tem obtido um progresso considerável devido a sua comprovada eficiência. Almeida (2003) afirma que a utilização de plantas medicinais no país é uma prática comum, resultante da forte influência cultural dos indígenas miscigenados com as tradições africanas, oriundas de três séculos de tráfico de escravos negros e da cultura europeia trazida pelos colonizadores.

Em relação ao uso dos recursos florestais associados a populações tradicionais, Amorozo (1996) afirma ser este a forma desenvolvida pelas sociedades a respeito do uso no mundo vegetal, englobando a cultura do grupo social e a classificação sistemática no uso das plantas. Gottlieb et al. (1996) enfatizam que isso é importante no Brasil, uma vez que seu território abriga uma das floras mais ricas do mundo, da qual 99% são desconhecidas fitoquimicamente. Francischi et al. (2005) enfatizam que a população brasileira utiliza um arsenal terapêutico instituído por pelo menos trezentas plantas medicinais, sendo consumidas in natura ou em diferentes forma de preparação, movimentando um mercado de mais de US$ 400 milhões/ano.

Rodrigues e Carlini (2003) afirmam que o país deveria ser um foco de descobertas de novos produtos fitoterápicos em virtude das altas taxas de biodiversidade e endemismo presentes nos seus biomas, associadas à diversidade cultural revelada em mais de 220 etnias indígenas e inúmeros grupos quilombolas distribuídos ao longo do território nacional, do que resulta em alta riqueza no conhecimento da flora brasileira quanto aos bens e serviços associados e seu potencial fitoterapêutico. Abreu (2007) afirma que a vinda de negros ao Brasil propiciou a troca de elementos culturais relacionados às plantas, além disso, muitas são utilizadas nos rituais e sempre estiveram associadas aos velhos costumes africanos, e por isso, foram introduzidas aos seus hábitos cotidianos no país.

Nesse sentido, Barroso et al. (2010), Monteles e Pinheiro (2007), Pereira et al. (2007) e Rodrigues e Carlini (2003) abordaram a importância de se realizar levantamentos etnobotânicos das plantas medicinais em comunidades quilombolas, pois estas possuem amplo conhecimento no uso desses recursos vegetais medicinais. Esse fator está ainda mais relacionado, principalmente, com sua origem étnica (AMOROZO, 2002). No entanto, à medida que a relação com o território se transforma pela modernização no campo, a rede de transmissão do conhecimento sobre as plantas passa a sofrer alterações (ZUCHIWSCHI et al., 2010). Amorozo (1996) afirma que a degradação ambiental e a intrusão de novos elementos culturais, nos sistemas de vida tradicionais, ameaçam o amplo acervo de conhecimento empírico assimilado por essa população ao longo das centenas de anos. Diante disso, Zuchiwschi et al. (2010) e Pilla et al. (2006) ressaltam que, ao resgatar o conhecimento popular das técnicas terapêuticas, também de certa forma se resgata o modo de aprendizado que contribuiu para a valorização da medicina popular local, subsidiando de informações os programas de saúde pública e conservação da biodiversidade.

Christo et al. (2006) afirmam que uma das ações prioritárias para os programas de conservação da biodiversidade é a inclusão de comunidades tradicionais no processo de proteção e manejo sustentável da biodiversidade. Esse fato pode ser observado com o estabelecimento da categoria de uso sustentável no processo de criação de unidades de conservação da natureza (LEI n. 9985/00), que estabeleceu um conjunto de áreas protegidas que permitem a permanência de populações tradicionais em seu interior (Exemplo - Florestas Nacionais; Reserva Extrativista; Reserva de Desenvolvimento Sustentável - RYLANDS; BRANDON, 2005).

Nesse sentido, o presente estudo objetivou realizar um levantamento etnobotânico em quintais florestais de uma comunidade remanescente de quilombolas, avaliando sua importância como fonte de conhecimento tradicional agregado à biodiversidade local, junto das plantas medicinais, verificando suas indicações terapêuticas, posologia e procedência, bem como subsidiando programas que fortaleçam a proteção cultural dessas comunidades perante a sua susceptibilidade às atividades de degradação sociocultural e ambiental do entorno.

 

1 Área de estudo e breve histórico

Este estudo foi realizado no distrito de Helvécia (17º48'S; 39º39'W), município de Nova Viçosa, extremo sul da Bahia. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE ) (2010), a população do município é de 38.256 e a do distrito de Helvécia, de 3.500 habitantes. A economia é fundamentalmente baseada na pequena agricultura (subsistência), pecuária e indústria madeireira para fins de carvão e celulose. O distrito traz sinais de um lugar que foi referência na concentração de negros escravos no interior do estado da Bahia, em todos os períodos em que se deu o processo da escravidão (ABREU, 2007).

A comunidade de Helvécia era uma colônia suíço-alemã estabelecida em 1818 e dependeu da mão de obra escrava para o cultivo do café até a Abolição, em 1888. Em meados de 1880, grande parte dos colonos já havia deixado a região, muitos dos quais retornando à Europa. Porém, após a Abolição, muitos dos ex-cativos permaneceram nas terras vizinhas das antigas plantações, praticando uma cultura de subsistência. A partir de 1897, a vila de Helvécia passaria a viver em função da estação ferroviária Bahia-Minas, que foi desativada em 1966. No entanto a implantação de monocultura de eucalipto alterou a fisionomia e a cultura da região, desalojando muitas famílias que viviam do cultivo e da produção familiar, em pequenas propriedades, para as grandes cidades. Atualmente, os remanescentes de quilombolas trabalham como empregados em grandes propriedades agrícolas, muitos sem direitos trabalhistas, ou sobrevivem da clandestinidade no roubo de eucaliptos e produção de lenha ilegal (ABREU, 2007). Porém alguns descendentes de quilombolas buscaram superar essa transformação cultural a partir da possibilidade de sobreviver respeitando os costumes do passado e os valores dos ancestrais, procurando estratégias de desenvolvimento sociocultural. Foi quando, em 01 de março de 2004, a comunidade foi reconhecida como um remanescente de quilombola (ABREU, 2007).

 

2 Delineamento experimental

Foram realizadas seis idas ao campo para coleta das informações, sendo duas para levantamento dos informantes e quatro para as entrevistas semiestruturadas junto aos selecionados e para a coleta do material botânico. As entrevistas constaram de questionário individual, com perguntas referentes às plantas utilizadas por eles (MORAIS et al., 2005 e RODRIGUES; CARVALHO, 2001). Os dados obtidos foram registrados em uma caderneta de campo. Para preservação da identidade dos entrevistados foram utilizados letras de A a D para a divulgação dos resultados e discussão ao longo deste trabalho. Tal questionário possibilitou aos entrevistados explanar suas opiniões e argumentos (ALENCAR; GOMES, 1998).

Os dados foram coletados a partir de uma amostragem intencional não-probabilística (ALENCAR; GOMES, 1998), por meio da qual os informantes foram selecionados de acordo com indicações de membros da própria comunidade. Os dados florísticos da etnobotânica foram coletados nos quintais dos entrevistados, conforme Pereira et al. (2007) e Pasa et al. (2005). Os quintais florestais estão localizados próximos às residências, mais precisamente nos fundos dos terrenos, e apresentam área média de 0,26ha, variando entre 0,08 e 1,0ha. De modo geral, as espécies vegetais encontram-se distribuídas aleatoriamente nas proximidades da casa não seguindo um arranjo espacial pré-definido.

Dos entrevistados, duas são mulheres e dois homens, com idade entre 45 e 65 anos, sendo os remanescentes diretos de 3ª geração de africanos. Estes compõem a amostra da entrevista recolhida junto da comunidade. Cabe ressaltar que a quantidade de entrevistados é baixa devido à escassez de informantes que foram selecionadas pela própria comunidade, junto dos critérios pré-estabelecidos por eles, i.e. amplo conhecimento tradicional sobre as plantas e parentescos mais próximo de ascendentes africanos.

Dos entrevistados, todos trabalham com pequenas propriedades agrícolas, dedicando--se à cultura de subsistência. Dessa produção, o eventual excedente é comercializado nas feiras livres no próprio distrito ou em outras localidades próximas, como Posto da Mata e Teixeira de Freitas, Bahia. Esse excedente provém normalmente da produção artesanal da farinha de mandioca ou de outras culturas agrícolas em menor proporção, como o feijão, milho, arroz, abóbora, batata e outros legumes.

Para o uso dessa metodologia, foi utilizada a pesquisa participante ou observação participante (BORGES, 2009; CARVALHO; SOUZA, 2000), como técnica da pesquisa qualitativa de levantamento de dados primários, propiciando uma aproximação melhor com o sujeito e com a realidade socioespacial da qual este faz parte, uma vez que inclui pessoas representativas. Portanto isso possibilita que o pesquisador tenha acesso ao cotidiano do sujeito pesquisado por meio do seu discurso e de sua prática social. Segundo Borges (2009), ela exige do pesquisador suas impressões pessoais e subjetivas sobre o que vai ser pesquisado e, portanto, requer uma relação estreita com seus objetos de pesquisas. Por isso é uma técnica em que o processo de observação é feito de maneira direta, analisando suas convivências cotidianas, e tem sido empregada em pesquisas que envolvem formas de interpretar e compreender o coletivo. Além do levantamento de dados e informações sobre o grupo pesquisado, Carvalho e Souza (2000) afirmam que essa técnica envolve a ação direta sobre a realidade do grupo pesquisado. Por isso esses autores ressaltam que a observação participante é uma proposta concreta de procedimento metodológico.

Em relação à identificação dos espécimes vegetais, foram realizadas coletas do material botânico no momento das entrevistas. Todo o material foi herborizado conforme metodologia convencional aplicada em taxonomia vegetal no laboratório de Botânica da Universidade do Estado da Bahia - campus Teixeira de Freitas - e identificados por taxonomista do herbário da Universidade Estadual de Santa Cruz (HUESC), em Itabuna, Bahia, por meio de chaves analíticas de classificação botânica e por comparação com exsicatas depositadas naquele herbário.

Com base nas informações obtidas, foi elaborada uma listagem de espécies organizada por ordem alfabética das famílias botânicas, seguidas pelo nome científico, nomes populares, parte vegetativa utilizada e categoria de uso popular. Todas as plantas citadas foram coletadas na presença dos informantes, pois eles têm a tendência de coletar somente a parte usada da planta, dificultando a identificação, por isso foi dado um tratamento botânico mais amplo. A forma de tabulação e ordenação foi baseada por Alexiades (1996).

 

3 Plantas medicinais e etnoconhecimento

Através desta pesquisa, foram identificadas 57 espécies, as quais estão distribuídas em 32 famílias botânicas. As famílias com maior riqueza florística foram Asteraceae, Fabaceae e Lamiaceae (5 espécies cada), seguidas de Amaranthaceae, Myrtaceae, Poaceae, Rubiaceae e Verbenaceae (3 espécies cada). As demais famílias apresentaram uma ou duas espécies (Tabela 1).

Em relação ao perfil dos informantes, eles possuem uma linguagem terapêutica popular quase que própria no que se refere às enfermidades e aplicações das plantas, com algumas expressões bem particulares, como por exemplo: "esta planta serve pra quem tá com intestino zangado" (informante A), o que significa em uma linguagem popular: "prisão- -de-ventre". Todos os informantes salientaram que a dosagem utilizada é fundamental para a cura das enfermidades, e que o excesso dessas plantas ou o seu uso prolongado pode provocar "intoxicação". Essa informação, à luz da observação participante (CARVALHO; SOUZA, 2000), demonstra certa precaução no uso dos recursos medicinais populares.

Similarmente aos resultados obtidos em outras localidades (FRANCO; BARROS, 2006; MONTELES; PINHEIRO, 2007), verificou-se que o maior número de espécies indicadas para esse estudo foi para o tratamento de doenças associadas ao aparelho respiratório, como por exemplo: "tosse, gripe, resfriado, asma, rouquidão", somando 13% do total (Tabela 1). Espécies indicadas para gastrite somaram 11% e, para o tratamento de diabetes e atividades renais, 10% cada uma. Para controle de pressão arterial e dores de cabeça, 8% cada uma. Sendo o restante distribuído em menor percentual para combate de dor de ouvido, afta, antecipação de parto, sinusite, picada de inseto, veneno de cobra, coração, doenças da mucosa, problemas que somados representam 36% dos casos a que se aplicam as espécies citadas neste estudo.

O modo de administrar o tratamento tradicional é por via oral, principalmente em forma de chá (70%), seguido do sumo (10%) e da "garrafada" (5%), este último sendo o processo no qual a planta fica imergida na água ou no álcool por um tempo determinado, comumente chamado pelos erveiros de "vinhar na água ou no álcool". As espécies de Guiné (Petiveria tetranda), Junco (Cyperus articulatus) e Aroeira (Schinus terebinthifolius) são exemplos de plantas preparadas como "garrafadas". O "banho" também é uma forma de preparo utilizada com algumas espécies, destacando-se a manga (Mangifera indica), utilizada pelas mulheres para antecipar o "parto da mulher".

Algumas espécies são utilizadas misturadas com outros alimentos, a exemplo do mel de abelhas associado à Jaqueira (Artocarpus heterophyllus), do sal com o "emenda-nervo" (Borreria capilata) e outras espécies vegetais, como o "saião" (Kalanchoe sp.) indicados para tratamento de gastrite. De acordo com informante B, existem receitas que tornam mais eficaz a ação do tratamento, como exemplo: "não comer farinha, fritura e nem ingerir álcool". No entanto, Alves et al. (2007) alertam que essa prática da mistura pode ser perigosa, pois nem sempre o processo de preparação é o mais indicado, mesmo para plantas diferentes, gerando combinações que resultam em efeitos imprevisíveis a saúde da pessoa que a ingeriu. Pilla et al. (2006) afirmam que um bom critério para justificar o uso de plantas medicinais é verificar a concordância no uso delas pela comunidade, ou seja, quanto maior for a concordância entre os membros, mais passível ela é para ser utilizada.

Neste estudo, a parte da planta mais utilizada foi a folha (56%), seguida do ramo foliar (20%) e da raiz (16%). Amoroso (2002) obteve resultados semelhantes estudando o uso e a diversidade de plantas medicinais em outras comunidades, principalmente no uso da estrutura vegetativa não fértil. Gonçalves e Martins (1998) afirmam que a explicação mais plausível para o uso das folhas na preparação de remédios deve-se ao fato de sua maior disponibilidade durante todo o ano e pela concentração da maior parte dos princípios ativos para o tratamento. Pilla et al. (2006) afirmam que o uso das folhas apresenta um caráter de conservação do recurso vegetal, a partir do extrativismo de produtos florestais não-madeiráveis, pois ela não impede o desenvolvimento vegetativo e, principalmente, não degrada o sistema reprodutivo da planta.

As comunidades extrativistas que habitam essa comunidade quilombola, assim como de outras regiões do país, necessitam direta e indiretamente dos produtos e serviços disponibilizados pelo ecossistema no qual residem, principalmente em regiões em que a população é vulnerável aos impactos promovidos pelo entorno (ABREU, 2007). Bastos (1995) observou o mesmo paradigma para o litoral paraense, em que vários produtos, de origem vegetal, são utilizados na alimentação, na medicina caseira, na confecção de currais e barcos, e na obtenção de carvão, tintas e resinas para calafetagem de embarcações e como forma de geração de trabalho e renda.

Nenhum dos entrevistados transmitiu seus conhecimentos sobre a utilização, dosagem e preparo das plantas medicinais aos seus filhos. Dentre os motivos apresentados, destaca-se a falta de tempo ocasionada pelo trabalho dos filhos para ajudar na renda familiar e, principalmente, a falta de interesse por parte dos próprios familiares. Franco e Barros (2006) afirmam que vários são os fatores que contribuem para que o conhecimento da população tradicional sobre o uso das plantas medicinais fique armazenado junto às pessoas mais idosas da comunidade, não permitindo a transmissão desse conhecimento. Forey e Lindsay (1997) afirmam que os medicamentos tradicionais (alopáticos) fizeram com que os tratamentos à base de erveiros ficassem em desuso, demonstrando assim a perda de uma cultura ao longo dos anos.

Para estimular o reconhecimento dessas práticas pela população mais jovem da comunidade estudada, discute-se à luz de Fonseca-Kruel e Peixoto (2004), os quais afirmam que se deve estimular o conhecimento tradicional do meio ambiente a partir da criação de espaços que possibilitem o compartilhamento do saber entre os jovens da comunidade, bem como do estabelecimento de hortos que contribuam para a manutenção e valorização das tradições no uso de plantas.

Fonseca-Kruel e Peixoto (2004) também destacam o importante papel de seus estudos sobre o uso sustentável da biodiversidade a partir da valorização e aproveitamento do conhecimento empírico das sociedades humanas, bem como na definição de sistemas de manejo e incentivo à geração de conhecimento científico e tecnológico voltados para o uso sustentável dos recursos naturais. De forma similar, é imprescindível a geração de conhecimento como subsídio à implantação de propostas de geração de trabalho e renda e inclusão social em áreas carentes de políticas públicas de inserção comunitária, utilizando o conhecimento empírico das populações tradicionais locais. Nessa perspectiva, que o manejo dos recursos naturais torna-se um dos instrumentos pelos quais se pode chegar a um processo de desenvolvimento sustentável à luz de sociedades sustentáveis (DIEGUES, 2001), pois qualquer sistema de gestão deve levar em consideração não só a diversidade de cenários ambientais, como também os cenários econômicos, políticos, sociais e culturais (SOARES, 2002).

Nesse enfoque, Sauer (2004) integra todos esses fatores abordados (usos diretos e indiretos dos recursos florestais) como dois elementos de paisagens interligadas, um no sentido de área física, como o somatório de todos os recursos naturais que o ser humano tem a sua disposição na área, e outro como a sua expressão cultural, de saber, "a marca da ação do ser humano sobre a área". Ou seja, as pessoas associadas dentro e com a área, tendo grupos associados por descendência ou tradição.

 

Considerações finais

Durante o levantamento etnobotânico, verificamos que esse conhecimento mostra-se como uma ferramenta sócio-ambiental- -cultural eficiente para prática de manejo sustentável e conservação de espécies florestais de uso local. No entanto também verificamos que esse conhecimento tradicional junto a esta comunidade quilombola em Helvécia está sendo perdido, principalmente devido à baixa assimilação desse conhecimento pelos descendentes diretos. Nesse sentido, uma revisão das políticas de valorização cultural dessa comunidade, associada com o desenvolvimento educacional e científico, torna-se perspicaz para um melhor engajamento desse remanescente cultural no extremo sul da Bahia.

 

Referências

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Recebido em 28/7/2011; revisado e aprovado em 2/11/2011; aceito em 28/1/2012