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Interações (Campo Grande)

versão impressa ISSN 1518-7012

Interações (Campo Grande) vol.15 no.1 Campo Grande jan./jun. 2014

https://doi.org/10.1590/S1518-70122014000100010 

ARTIGOS

 

Aspectos de Engenharia para a adaptação do Estádio Municipal do Pacaembu à prática do Rúgbi

 

Engineering aspects for adaptation of Municipal Stadium Pacaembu to the practice of Rugby

 

Aspects d'ingénierie pour l'adaptation de Stade Municipal de Pacaembu à la pratique du rugby

 

Aspectos de ingeniería para la adaptación del Estadio Municipal de Pacaembu para la práctica del Rugby

 

 

André Ferreira Overa; André Munhoz de Argollo Ferrão

Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, São Paulo, Brasil. andyovera@gmail.com, argollo.andre@gmail.com

 

 


RESUMO

Atualmente, o Sport Club Corinthians Paulista é o clube responsável pela maior parcela das receitas do Estádio Municipal do Pacaembu, porém, a partir de 2014, esse quadro irá se alterar, pois o Corinthians terá seu estádio próprio. Paralelamente, o Rúgbi se apresenta como um esporte em ascensão e popularização no Brasil, gerando uma nova demanda por estádios. O Pacaembu sempre foi um equipamento esportivo vanguardista, abrigando uma vasta gama de modalidades esportivas em suas dependências, atendendo às demandas da sociedade e às suas próprias no que diz respeito à viabilidade econômica e à promoção de sua identidade de "Templo do Esporte". Em vários países do mundo, o Rúgbi é um esporte amplamente difundido, movimentando um grande mercado de fãs. Partindo-se da hipótese de que o Estádio do Pacaembu pode se tornar um palco do Rúgbi, neste Artigo apresentase uma análise dos parâmetros de Engenharia aplicados ao estádio para a prática do Futebol, e conclui-se que, com poucas intervenções, ele pode abrigar o Rúgbi de maneira satisfatória. Utilizando-se de parâmetros adaptados ao Rúgbi para se avaliar os quesitos técnicos de desempenho de estádios de futebol, e aplicando-os ao contexto do Estádio do Pacaembu, foi possível identificar as necessidades de adequação.

Palavras-chave: Pacaembu. Estádios esportivos. Rúgbi.


ABSTRACT

Currently, the Sport Club Corinthians Paulista is the club responsible for the largest portion of the revenue of the Municipal Stadium of Pacaembu, but from 2014 this situation will change, because the Corinthians will have its own stadium. Meanwhile, the Rugby presents itself as a sport rising and popularizing in Brazil, creating a demand for new stadiums. The Pacaembu always been an avant-garde sports equipment, housing a wide range of sports in its facilities, meeting the demands of society and their own as to the economic viability and promotion of their identity as "Temple of Sport". In many countries, the Rugby is a sport widely diffused, moving a large market of fans. Based on the hypothesis that the Pacaembu Stadium could become a scene of Rugby, this article presents an analysis of the parameters of Engineering applied to the stadium to practice football, and concluded that, with few interventions, he can host the Rugby satisfactorily. Using parameters adapted to Rugby to evaluate the performance technical issues of football stadiums, and applying them to the context of Pacaembu Stadium, it was possible to identify the needs of adaptation.

Key words: Pacaembu. Sports stadiums. Rugby.


RÉSUMÉ

Actuellement, le Sport Club Corinthians Paulista est le club responsable de la plus grande partie des recettes du stade municipal de Pacaembu, mais à partir de 2014 cette situation va changer, parce que le Corinthians disposera de son propre stadium. Cependant, le rugby se présente comme un sport à la hausse, gagnent en popularité au Brésil, en créant une nouvelle demande pour de nouveaux stades. Le Pacaembu toujours a été un équipement d'avant-garde de sport, abritant un large éventail de sports dans ses installations, répondant aux exigences de la société et de leur propre en ce qui concerne la viabilité économique et la promotion de leur identité de «Temple du sport». Dans beaucoup de pays, le rugby est un sport largement diffusé, déplacement un grand marché de fans. Sur l'hypothèse que le Stade Pacaembu pourrait devenir un lieu de Rugby, cet article présente une analyse des paramètres de l'ingénierie appliquée au stade pour pratiquer le football, et a conclu que, avec peu d'interventions, il peut héberger le rugby de manière satisfaisante. Utilisant les paramètres appropriées pour le rugby afin d'évaluer les performances techniques des stades de football, et de les appliquer au contexte de Pacaembu stade, il a été possible d'identifier les besoins de remise en forme.

Mots-clés: Pacaembu. Stades de sports. Le rugby.


RESUMEN

En la actualidad, el Sport Club Corinthians Paulista es el club responsable de la mayor parte de la renta del Estadio Municipal de Pacaembu, pero a partir de 2014 esta situación va a cambiar, porque el Corinthians tendrá su propio estadio. Todavía el Rugby se presenta como un deporte en ascenso y popularización en Brasil, creando una demanda de nuevos estadios. El Pacaembu siempre ha sido un equipamiento de vanguardia deportiva, que alberga una amplia gama de deportes en sus instalaciones, cumpliendo con las exigencias de la sociedad y de su propia relación con la viabilidad económica y la promoción de su identidad como "Templo del Deporte". En muchos países, el rugby es un deporte muy difundido, creando un gran mercado de aficionados. Sobre la base de la hipótesis de que el estadio Pacaembu podría convertirse en un lugar de Rugby, en este artículo se presenta un análisis de los parámetros de la ingeniería aplicada al estadio para practicar fútbol, y llegó a la conclusión de que, con pocas intervenciones, se puede alojar el Rugby satisfactoriamente. Utilizando parámetros adaptados a Rugby para evaluar los aspectos técnicos de rendimiento de los estadios de fútbol, y su aplicación al contexto de Pacaembu Stadium, fue posible identificar las necesidades de adecuación.

Palabras clave: Pacaembu. Estadios deportivos. Rugby.


 

 

Introdução

Com a notícia de que o Brasil sediaria a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, houve um grande aquecimento no mercado da construção civil, já que o País necessita modernizar sua infraestrutura urbana e territorial. Aeroportos, estradas, obras de arte como pontes e viadutos, melhorias urbanas, conjuntos residenciais e de hotelaria, enfim, várias regiões do Brasil se transformaram em verdadeiros canteiros de obra. As reformas e construções de estádios de futebol e de outros equipamentos esportivos compõem esse contexto favorável à Engenharia Civil. Tal fato se deve, em grande parte, à defasagem desse tipo de equipamento em terras brasileiras, tanto em termos de quantidade e distribuição pelo território nacional, como em termos de qualidade e segurança de suas instalações.

Porém, dentre os muitos estádios de futebol e equipamentos esportivos existentes no Brasil, um específico chamou a atenção da sociedade paulista e brasileira: o Estádio Municipal do Pacaembu. Esse estádio não passará por reformas nem abrigará jogos da Copa do Mundo de 2014 ou dos Jogos Olímpicos de 2016, porém, para atender às demandas desses eventos, será inaugurado um novo grande Estádio de Futebol que passará a sediar os jogos do Sport Club Corinthians Paulista, os quais hoje são sediados no Estádio do Pacaembu e que constituem a sua principal fonte de receita. Esse fato preocupa os administradores do estádio, como se pode depreender da declaração em público de Bebetto Haddad: "o que nós precisamos, efetivamente, é encontrar uma saída para que o Pacaembu não morra, para que o Pacaembu não caia no desgaste, não seja um velho em fim de carreira" (informação verbal)1.

Paralelamente, o Rúgbi aparece como um esporte em plena ascensão no Brasil, obtendo espaço em campanhas publicitárias, tendo seus jogos transmitidos ao vivo pela emissora de televisão SPORTV2 (torneios nacionais) e ESPN (torneios internacionais). Percebe-se um grande aumento do número de praticantes em todas as regiões brasileiras, além da evidente evolução no desempenho das equipes nacionais no cenário competitivo mundial, fatos esses que se devem a uma maior e mais constante presença nos campeonatos de Rúgbi. Isso tudo justifica a nova demanda advinda do Rúgbi para nossos Estádios de Futebol.

 

O significado do Estádio do Pacaembu para a cidade e o estado de São Paulo: uma breve contextualização

O Estádio Municipal do Pacaembu constitui um dos palcos mais charmosos e tradicionais do cenário esportivo brasileiro, muito importante principalmente para o Futebol. Localizado num bairro nobre e central da Cidade de São Paulo, o bairro do Pacaembu, o estádio foi inaugurado no dia 27 de abril de 1940, como resposta às pressões exercidas por "esportistas, figuras públicas e modernistas, como Mário de Andrade. Foi ele que sugeriu a criação de um local que pudesse receber atividades esportivas, eventos culturais e apresentações musicais" (SEME, 2012). Há que se considerar que, desde o início da concepção do estádio do Pacaembu, pelo fato de não haver até então um palco esportivo de magnitude compatível com a grandeza de São Paulo, já a maior e mais progressista cidade brasileira, "a imprensa, sobressaltada com o evidente descompasso, passaria a fazer questão da praça de esportes monumental o seu principal cavalo de batalhas na área desportiva" (SEVCENKO, 1992, p. 59).

Portanto a importância de um estádio como o que veio a ser o Pacaembu era reconhecida por vários setores da sociedade paulista, não só como estandarte para alavancar a prática do esporte, mas também como um empreendimento capaz de promover a difusão cultural na cidade e, consequentemente, promover o próprio status de uma cidade que "não podia parar".

Desde a sua inauguração, o estádio do Pacaembu abrigou alguns dos maiores eventos esportivos brasileiros de diversas modalidades, a maioria deles contando com grandes personalidades do Esporte, como por exemplo: o jogo de estreia de Leônidas da Silva, o "Diamante Negro", pelo São Paulo Futebol Clube, em 1940; a primeira luta de Eder Jofre, o maior pugilista brasileiro da história, que, em 1943 com apenas sete anos, subiu ao ringue pela primeira vez para uma exibição de luta-mirim; seis jogos da Copa do Mundo de Futebol de 1950; importantes clássicos paulistas como o famoso jogo disputado entre Corinthians e Palmeiras em fevereiro de 1955, que decidiu o Campeonato Paulista de 1954, como parte das comemorações do "IV Centenário da Cidade de São Paulo"3; diversos jogos de Pelé pelo lendário Santos Futebol Clube na década de 1960; os Jogos Pan-Americanos de 1963, abrigando competições de atletismo, saltos ornamentais, natação e boxe; a maior parte dos jogos do Sport Club Corinthians Paulista, a partir de 1970, inclusive a Decisão da Copa Libertadores da América de 2012, quando se sagrou campeão deste Torneio, pela primeira vez, causando extraordinária comoção em toda a cidade de São Paulo e no Brasil todo; o Supercross na década de 1980; duas finais do Campeonato Brasileiro, Palmeiras e Corinthians (1994), Santos e Botafogo (1995); duas finais da Copa Libertadores da América, sendo uma em 2002, disputada entre São Caetano e Olímpia (do Paraguai) e a outra, em 2011, disputada entre Santos e Peñarol (do Uruguai); no final da década de 2010, "o programa Clube Escola, criado com o intuito de levar os jovens da rede pública de ensino a ocupar os equipamentos esportivos municipais, chegou ao Pacaembu, com a introdução do Clube Escola de Tênis" (SEME, 2012).

Além disso, no Pacaembu foi realizada a primeira transmissão ao vivo de um even-to esportivo para a televisão brasileira em 1952, um jogo de futebol entre Corinthians e São Paulo, comentado direto do gramado por Ary Silva, sendo este um grande marco tanto para o esporte como para a televisão. Recentemente foi ventilada a possibilidade de se realizar um evento de artes marciais do Ultimate Fighting Championship (UFC) em suas dependências, conforme notícia veiculada no portal UOL Esporte no dia 20/01/2012, o que confere a esse monumento o status de espaço de vanguarda que, desde a sua inauguração, o Pacaembu ostenta.

 

Uma questão de engenharia do empreendimento

Atualmente o Sport Club Corinthians Paulista é o principal usuário do estádio do Pacaembu, sendo o responsável pela maior parcela de suas receitas, pagando R$ 52.750,00 por partida que obtenha uma renda de bilheteria superior a R$ 440.000,00 (SEME - Decreto 52.040/2010), considerando aproximadamente 15.000 espectadores pagando R$ 30,00 pelo ingresso. Tal situação ocorre com uma frequência de, em média, três vezes por mês e, no caso dos jogos do Corinthians, o público de 15.000 torcedores é sistematicamente superado com folga (CBF, 2011).

Porém, a partir de 2014, o Corinthians possuirá seu próprio estádio4 e dificilmente voltará a usar o Estádio do Pacaembu com tanta frequência, fato que obrigará a Administração do estádio a pensar em alternativas para o seu uso, fortalecendo a hipótese de que o Pacaembu venha a ser explorado com maior intensidade por outras modalidades esportivas que, além de contribuir para com o equilíbrio das finanças do estádio, contribuirão, principalmente, para com a manutenção da sua imagem, que é a de um importante patrimônio histórico da cidade e do estado de São Paulo, tombado pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) em 1998, pela Resolução SC 05/98, e que, portanto, necessita ser utilizado e promovido como templo esportivo, que é.

Diferentemente dos estádios privados que visam apenas ao lucro, fato que faz com que estes se submetam a interesses comerciais que, por vezes, divergem dos interesses eminentemente esportivos, o Estádio do Pacaembu é mantido pela prefeitura da Cidade de São Paulo e, por isso, pode servir a todo empreendimento esportivo ou cultural que dele necessite como infraestrutura. Valorizase a responsabilidade e a função social de ser o Estádio do Pacaembu um equipamento urbano especializado principalmente para a prática esportiva.

Também é notório que o Estádio do Pacaembu já se estabeleceu como um dos templos do futebol brasileiro, inclusive abrigando o Museu do Futebol. Portanto jamais algum outro esporte que venha a ser praticado no estádio deverá gerar conflito com a possibilidade de manutenção da prática do futebol em suas dependências. Nesse contexto, propõe-se o estudo de viabilidade à prática do Rúgbi no Pacaembu.

 

O Rúgbi no Brasil: um empreendimento viável

Nos últimos anos, a popularidade do Rúgbi no Brasil tem crescido muito. O Esporte que é, por aqui, majoritariamente praticado por jovens universitários de classe média, tem conquistado espaço na mídia esportiva e também em campanhas publicitárias, assim, sugerindo uma nova perspectiva sobre sua difusão, de maneira mais democrática dentre as diversas classes sociais e por uma parcela mais significativa da população. Além disso, já se sabe que o Rúgbi será agregado às competições nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, na modalidade Rúgbi de Sete.

Atualmente, segundo informa a Confederação Brasileira de Rugby (CBRu, 2011), o Brasil possui mais de 30 mil praticantes e, segundo o sítio eletrônico da International Rugby Board (IRB, 2012)5, mais de 10 mil federados e 230 clubes no país. O Rúgbi já é praticado em 21 estados brasileiros e no Distrito Federal. Hoje, todos os estados federativos das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste possuem praticantes e clubes já constituídos ou, ao menos, em formação.

As Seleções Brasileiras de Rúgbi servem como um bom referencial do otimismo e evolução do esporte no país. Em três anos, o Brasil projetou-se da 45ª para a 27ª posição no ranking da Confederação Internacional de Rúgbi (IRB, 2012) na categoria Masculina Adulta, e atualmente ocupa a 33ª posição. Além disso, desde 2008, o Brasil conquistou o direito de participar da divisão de elite do Campeonato Sul-americano de Rugby, que conta apenas com os quatro países mais bem qualificados na CONSUR (Confederação Sulamericana de Rugby). Na categoria Feminina, a Seleção Brasileira conquistou a 10ª posição no último Campeonato Mundial realizado em Dubai-EAU (em 2009) - a melhor posição alcançada por uma equipe brasileira em Mundiais. Nessa mesma categoria, a seleção disputou no mês de Julho de 2010 o Campeonato Mundial Universitário, conquistando a 6ª posição.

Outros países Sul-americanos, de rivalidade esportiva histórica com o Brasil, como Argentina, Chile e Uruguai, já têm o esporte amplamente difundido em seus territórios, reforçando a ideia de que o Rúgbi apresenta um grande potencial a ser desenvolvido no território brasileiro, dada a proximidade cultural esportiva compartilhada com os mencionados países. Hoje, o Rúgbi é composto por, segundo informações do sítio eletrônico da IRB, mais de 5,5 milhões de praticantes em 117 países, configurando-se assim, como um dos esportes coletivos mais populares do mundo, em especial nos países de colonização Inglesa.

 

Critérios de Engenharia para a adequação de um estádio de Futebol para o Rúgbi

Dado o fato de que o Rúgbi ainda não é um esporte amplamente difundido em terras brasileiras, não existem métodos ou critérios específicos que avaliem a capacidade máxima de um estádio para receber partidas desse esporte no Brasil. A fim de avaliar as possibilidades de adequação técnica do Estádio do Pacaembu para abrigar o Rúgbi, estabeleceu-se uma análise comparativa com base nos critérios definidos por La Corte (2007), relacionados às exigências da prática do Futebol, tendo em vista as especificidades e semelhanças entre os dois esportes, com o objetivo de avaliar a pertinência de se aplicar tais critérios adaptados à prática do Rúgbi.

Ao analisar os critérios propostos por La Corte (2007), já aplicados por ele mesmo ao Estádio do Pacaembu, foi possível compreendê-los melhor. Nota-se que existem alguns de fácil mensuração como: o tamanho do campo de jogo, distâncias de visibilidade, tempo de evacuação do estádio, etc.; mas também existem outros que foram definidos por La Corte como sendo mais subjetivos, isso pelo fato de a coleta de dados para os tais critérios ter sido feita através de entrevistas com usuários do estádio. Assim, determinadas informações foram baseadas na percepção dos usuários sobre questões, por exemplo, de conforto ambiental no estádio. Todavia é possível concluir que a maior limitação de um estádio de Futebol para receber partidas de Rúgbi se dará nas dimensões do campo de jogo, que é definido pelas regras do esporte, já que todos os outros critérios são relacionados ao conforto do indivíduo, seja ele desportista, espectador ou prestador de serviço nas dependências do estádio.

 

Conclusão: do ponto de vista da Engenharia, o Estádio do Pacaembu pode abrigar o Rúgbi

Ao analisar a situação específica do Estádio do Pacaembu diante dos critérios de avaliação já definidos por La Corte (2007), adaptados para este estudo, conclui-se que existem aqueles que jamais atenderão às exigências mínimas para um perfil excelente, tais quais: acesso a vias de circulação rápida nas proximidades do estádio; locação em sítio que não obstrua as vias adjacentes e facilite o acesso do público ao estádio; capacidade máxima de público atual; e distância máxima de visibilidade.

Dos critérios definidos por La Corte (2007) que atualmente não atendem plenamente às especificações de desempenho relacionadas às exigências da prática do Futebol, existem aqueles que, com intervenções de Engenharia mais agressivas, passam a ser atendidos, como: presença de estacionamento para os espectadores, adequação das dimensões dos degraus de acesso das arquibancadas, inclinação de rampas, distâncias entre os portões de acesso, distâncias entre bilheterias e portões de acesso, número de mictórios por pessoa por setor, etc. Vale ressaltar que a viabilidade de tais intervenções não prescinde do respeito às Resoluções de Tombamento do Pacaembu, dado o fato de que não somente o Estádio Municipal, mas também todo o bairro do Pacaembu são reconhecidos como patrimônio do estado de São Paulo, tombado pelo CONDEPHAAT.

Finalmente, existem critérios técnicos que podem ser atendidos a partir de aplicações da Engenharia muito simples e pouco agressivas, tais como: distância das placas de publicidade e campo de jogo, altura das placas de publicidade, altura das grades perimetrais ao campo, armários e bancos adequados nos vestiários, tipo de sinalização de saída do estádio, tipo de iluminação baliza6 do estádio, e a numeração clara de filas e assentos.

O campo de jogo, adaptado para o Futebol, mede 105 m x 68 m. Porém, no Pacaembu, a dimensão máxima para o campo de jogo poderia chegar a 108 m x 77 m, sendo essas dimensões limitadas por interferências arquitetônicas presentes, tais como o posicionamento dos espaços de área técnica e banco de reservas utilizados no Futebol, a pista de atletismo e placas de publicidade. Portanto, de acordo com a IRB (2012) e considerando as dimensões permitidas para o campo de jogo do Rúgbi, o estádio do Pacaembu está apto a receber partidas dessa modalidade esportiva, pois a menor dimensão não pode ultrapassar 70 m e a maior deve ser inferior a 144 m. Ressaltese que os valores das dimensões mínimas do campo de jogo permitidas pela IRB para a prática do Rúgbi são mais flexíveis e podem ser facilmente adaptadas às condições do estádio do Pacaembu, conforme ilustra a Figura 1.

 

 

Outro forte indício de que o Estádio do Pacaembu - dadas as dimensões do gramado ou mesmo seu contexto histórico de "templo do futebol brasileiro" - reúne condições de receber jogos de Rúgbi é o fato de que, na Argentina, país que possui características muito parecidas com as do Brasil no que tange à cultura futebolística e esportiva, em geral, existem alguns estádios que servem simultaneamente ao Futebol e ao Rúgbi, guardando essa dupla função. Dois dos principais exemplos argentinos são:

• Estadio San Juan del Bicentenario, localizado na província de San Juan, Argentina, abriga partidas do Club Atlético San Martín de San Juan, o gramado tem dimensões de 105 m x 68 m e sua capacidade é de 25.000 espectadores.

• Estadio Único de la ciudad de La Plata, localizado na cidade de La Plata, província de Buenos Aires, Argentina, abriga partidas do Club Estudiantes de La Plata e do Club de Gimnasia y Esgrima La Plata, seu gramado tem dimensões de 105 m x 70 m e sua capacidade é para 40.000 espectadores.

Pode-se, portanto, prever o desenvolvimento do Rúgbi brasileiro a partir do modelo argentino, que, dentro de uma cultura esportiva semelhante, é muito bem sucedido. Também na África do Sul o Rúgbi e o Futebol compartilham os mesmos estádios.

Portanto, o Estádio do Pacaembu, que sempre foi considerado um equipamento vanguardista desde a sua inauguração em 1940, seja como infraestrutura de apoio ao desenvolvimento de diversos esportes no Brasil, seja como palco consagrado do mais popular esporte nacional, pode assumir novamente seu papel de vanguarda e atender a essa nova demanda proveniente do Rúgbi, sem necessariamente descaracterizar-se como importante palco do Futebol.

 

Referências

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Recebido em 30/11/2012; revisado e aprovado em 23/01/2013; aceito em 16/02/2013

 

 

1 Bebetto Haddad é Secretário Municipal de Esportes da cidade de São Paulo, e tal declaração foi dada em evento realizado no dia 20/03/2012, no Museu do Pacaembu.
2 SPORTV é um canal fechado de televisão, exclusivo de esportes, pertencente ao grupo GLOBOSAT, um dos maiores do Brasil.
3 A povoação de São Paulo de Piratininga surgiu em 25 de janeiro de 1554 com a construção de um colégio jesuíta por doze padres, entre eles Manuel da Nóbrega José de Anchieta, no alto de uma colina escarpada, entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí (cf. http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=49139).
4 De acordo com o sítio eletrônico da empresa Odebrecht (http://www.odebrechtnacopa.com.br/corinthians), que é a empresa responsável pela construção do Estádio do Corinthians, as obras registradas deverão ser finalizadas no mês de dezembro de 2013, a fim de se credenciar como o cenário escolhido pela FIFA para abrir a Copa do Mundo de 2014.
5 Confederação Internacional de Rúgbi: International Rugby Board (IRB).
6 La Corte (2007) usa esse termo para definir a iluminação das áreas de circulação interna do estádio.

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