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Linguagem em (Dis)curso

versión impresa ISSN 1518-7632

Ling. (dis)curso (Impr.) vol.11 no.2 Tubarão mayo/agosto 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1518-76322011000200008 

ARTIGO DE PESQUISA

 

"Mate um nordestino afogado" -análise crítica de um artigo da revista época

 

"Drown a Northeastern to death" — Critical analysis of an article of Época magazine

 

"Mate un nordestino ahogado" — Análisis crítico de un artículo de la revista Época

 

 

Luciano Amaral Oliveira

Docente da Universidade Federal da Bahia (UFBA); Doutor em Letras e Lingüística pela UFBA. Email: lucianoamaral64@yahoo.com

 

 


RESUMO

Este ensaio traz a análise crítica do discurso construído por Ruth de Aquino no texto O preconceito das Mayaras, publicado na revista Época logo após o segundo turno da eleição presidencial de 2010, vencida por Dilma Rousseff. Inicialmente, são feitas considerações sobre a veiculação explícita de preconceitos em textos publicados neste século e no século passado. Em seguida, é feita a análise do texto de Aquino com base nas escolhas temáticas e semânticas que ela faz. Os objetivos deste texto são contribuir para as reflexões sobre a veiculação de preconceitos raciais em textos de circulação pública e contribuir para a produção de textos na área da Análise Crítica do Discurso no Brasil.

Palavras-chave: Análise Crítica. Preconceito. Racismo.


ABSTRACT

This essay brings the critical analysis of the discourse constructed by Ruth de Aquino in the text O preconceito das Mayaras (Mayaras'prejudice), published in Época magazine immediately after the second term of the presidential election in 2010, won by Dilma Rousseff. Initially, some considerations are made about the explicit dissemination of prejudice through texts published in this century and in the last century. After that, the analysis of Aquino's text is carried out based on her thematic, syntactic and semantic choices. The objectives of this essay are to contribute to the reflections on the dissemination of racial prejudice through texts that circulate publicly and to contribute to the production of texts in the area of Critical Discourse Analysis in Brazil.

Keywords: Critical Analysis. Prejudice. Racism.


RESUMEN

Éste ensayo trae el análisis crítico del discurso construido por Ruth de Aquino en el texto Él prejuicio de las Mayaras, publicado en la revista Época luego de la segunda vuelta de la elección presidencial de 2010, vencida por Dilma Rousseff. Inicialmente, son hechas consideraciones sobre la vehiculación explícita de prejuicios en textos publicados en este siglo y en el siglo pasado. Enseguida, es hecho el análisis del texto de Aquino con base en las elecciones temáticas y semánticas que él hace. Los objetivos de este texto son contribuir para las reflexiones sobre la vehiculación de prejuicios raciales en textos de circulación pública y contribuir para la producción de textos en el área del Análisis Crítico del Discurso en Brasil.

Palabras-clave: Análisis Crítico. Prejuicio. Racismo.


 

 

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O título deste ensaio foi inspirado em palavras escritas por uma jovem estudante paulista de Direito logo após a confirmação da vitória democrática e incontestável de Dilma Rousseff nas eleições presidenciais de 2010. A jovem em questão se chama Mayara Petruso e inspirou outras pessoas de São Paulo a verbalizarem seus preconceitos contra as pessoas oriundas de estados da região Nordeste do Brasil.

As reações à explosão de postagens preconceituosas no Twitter que se seguiram ao apelo de Petruso, o qual foi considerado criminoso pela Ordem dos Advogados do Brasil, por meio da sua seção em Pernambuco, tomaram conta da internet e mobilizaram a imprensa nacional. A Época, uma revista sediada em São Paulo, notoriamente de tendência conservadora, também participou dessas reações. Sua edição de 8 de novembro de 2010 veiculou um texto, na seção "Nossa Antena", de autoria de Ruth de Aquino, com o título O preconceito das Mayaras. Esse texto serviu de mote para a redação do presente ensaio, cujo objetivo é propor uma análise crítica ao discurso de Aquino para expor a sua posição ideológica, que, no final das contas, também é a posição da revista, independentemente daquele tradicional alerta protocolar de que as ideias veiculadas nos textos que compõem a revista são de responsabilidade dos autores. Com este ensaio, espero contribuir para a produção de textos na área de Análise Crítica do Discurso, ainda com pouco espaço em algumas — se não em muitas — universidades brasileiras, e para as reflexões acerca da produção de discursos preconceituosos.

Inicialmente, tecerei algumas considerações sobre a veiculação explícita de preconceitos por meio de textos escritos. Para isso, usarei trechos de textos publicados no século XX e no século XXI para ilustrar e contextualizar a veiculação explícita de preconceitos. Em seguida, abordarei a veiculação implícita de preconceitos a partir da análise das macroestruturas e microestruturas semânticas do texto de Aquino.

 

2 O PRECONCEITO EXPLÍCITO

Em épocas de patrulhamento linguístico motivado pelo programa "Politicamente Correto", verbalizar publicamente pensamentos preconceituosos é menos frequente do que era há algumas décadas. Contudo, vez por outra, a mídia divulga comportamentos linguísticos e não linguísticos que revelam os preconceitos variados que marcam a sociedade brasileira, e.g. casais de gays e de lésbicas são moralmente assediados em bares, restaurantes e até universidades de cidades grandes, como São Paulo e Rio de Janeiro; pessoas negras são vítimas de racismo em aeroportos, supermercados e universidades; pessoas oriundas de estados do Nordeste são alvos de assédio moral e de racismo.

Este ensaio gira em torno de questões discursivas relacionadas ao racismo e ao preconceito de origem geográfica. Portanto, preciso deixar claro de que forma entendo o termo racismo. Para isso, aproprio-me das palavras de Tzvetan Todorov (1993, p. 107):

A palavra "racismo", em sua acepção corrente, designa dois domínios muito diferentes da realidade: trata-se, de um lado, de um comportamento, feito, o mais das vezes, de ódio e desprezo com respeito a pessoas com características físicas bem definidas e diferentes das nossas; e, por outro lado, de uma ideologia, de uma doutrina referente às raças humanas. As duas não precisam estar necessariamente presentes ao mesmo tempo. O racista comum não é um teórico, não é capaz de justificar seu comportamento com argumentos "científicos"; e, reciprocamente, o ideólogo das raças não é necessariamente um "racista" no sentido corrente do termo, suas visões teóricas podem não ter qualquer influência sobre seus atos; ou sua teoria pode não implicar na existência de raças intrinsecamente más.

Assim, Todorov chama de "racialismo" as ideologias racistas e de "racismo" os comportamentos racistas. E é dessa forma que o termo racismo é usado neste ensaio. Vejamos alguns exemplos de comportamentos linguísticos racistas.

No começo do século XX, era publicado o livro O animismo fetichista do negro baiano. Seu autor é Raimundo Nina Rodrigues, médico e antropólogo nascido no Maranhão no século XIX. Naquela época, era possível publicar textos carregados de preconceitos sem a menor preocupação com a reação da opinião pública, o que demonstrava como a sociedade brasileira era pouco ou nada refratária a questões relativas ao racismo. Nina Rodrigues (2005 [1900], p. 96), por exemplo, fala do "fraco desenvolvimento intelectual dos negros africanos" e comenta sobre a prática religiosa dos negros e mestiços baianos (2005 [1900], p. 16-17, grifos meus):

Uma vez organizado o culto, facilmente se compreende que, de preferência ao culto católico de que nada ou pouco podiam compreender, houvessem os negros de outras nações e procedências adaptado como sua essa religião africana, que estava mais ao alcance da sua inteligência rudimentar, e mais de acordo com seu modo de sentir.

Nina Rodrigues escrevia de uma forma tão ofensiva assim porque a sociedade brasileira do começo do século XX, recém-saída da nefasta experiência de quatro séculos de escravidão, já havia naturalizado a discriminação racial, levando as pessoas a vê-la como algo normal, natural. Assim, não era necessário que ele tivesse cuidado para não expor seu preconceito pelo fato de não haver nenhum tipo de punição a comportamentos que eram considerados naturais pela sociedade da época, como, por exemplo, os comportamentos racistas.

Vale lembrar que o termo naturalização é comumente usado por analistas críticos do discurso. E aí está o problema: quando um determinado comportamento, como o ato de discriminar alguém por meio da língua, se torna naturalizado, fica mais difícil de combatê-lo. Norman Fairclough (1995, p. 28) esclarece que o processo de naturalizar ideologias como o racismo, a homofobia e o sexismo significa tornar tais ideologias senso comum não ideológico. Por isso, Fairclough (1995) lembra que "Adotar metas críticas significa ter o objetivo de elucidar tais naturalizações e, de uma maneira mais geral, tornar claras as determinações sociais e os efeitos de discurso que são caracteristicamente opacos aos participantes" .

Foi esse estado de coisas na sociedade brasileira que deixou os irmãos Raul Valença e João Valença à vontade para comporem a música que foi posteriormente modificada e popularizada por Lamartine Babo: O teu cabelo não nega. A música foi lançada em 1932. Eis um pequeno trecho:

O teu cabelo não nega Mulata
Porque és mulata na cor Mas como a cor não pega
Mulata
Mulata quero o teu amor

Note-se que o eu lírico deseja o amor da mulata apenas pelo fato de que "a cor não pega". A proximidade semântica entre cor e doença estabelecida pela palavra pega é clara: o eu lírico rejeita aquela cor da mesma forma que deseja não ser contagiado por uma doença. E essa marchinha de carnaval marca presença até hoje em bailes carnavalescos.

Um leitor atento poderá me questionar: se essa música continua a ser tocada e cantada nos bailes de carnaval, em um contexto social bem diferente daquele em que os irmãos Valença a compuseram, pode-se afirmar que hoje ainda é possível ter comportamentos racistas sem se correr o risco da punição? Não, isso não é possível. Contudo, o que surge em casos assim é o discurso naturalizador de preconceitos: "é apenas uma música", "é só uma piada", "é só uma brincadeirinha", "é só um ditado popular". Ora, músicas, piadas, brincadeiras e ditados populares não são "só" algo inocente ou divertido: são elementos culturais reprodutores de preconceito e, assim, instrumentos de naturalização de discursos preconceituosos. Mas é exatamente porque se sabe que hoje há punição legal para comportamentos racistas que tal discurso é adotado. A lógica subjacente é a seguinte: se não fosse uma música ou uma piada, por exemplo, o texto seria considerado sério e, por essa razão, passível de punição; logo, alega-se que o texto não é sério para escapar à punição.

Vejamos agora três exemplos bem recentes de discursos racistas. O primeiro ocorreu no dia 19 de janeiro de 2011. O jornal Gazeta online publicou uma matéria sobre algo terrível: "Tópico em site de relacionamento 'rezo para que mais negros morram' associa racismo à maior tragédia climática do Brasil". O site de relacionamento em questão é o Orkut, onde jovens cariocas postaram mensagens sobre a morte de centenas de pessoas negras durante a tragédia ocorrida na região serrana do Rio de Janeiro naquele ano. Outros jovens, também por meio do Orkut, reagiram, protestando fortemente contra esses comportamentos racistas. Os comentários que deram início à confusão foram feitos no dia 15 de janeiro de 2011 por alguém que se diz chamar Mateus, embora os outros membros da comunidade desconfiem que seu perfil seja falso. A seguir, reproduzo alguns desses comentários para que o leitor possa ter uma ideia do que o suposto Mateus postou no Orkut:

"Negros são lixo, fezes, escória humana!"
"Estou feliz da vida, nada me deixa mais feliz do que ver essa negrada morrendo e sofrendo."
"O RJ antigamente poderia ser comparado ao Jardim do Eden, mas com a chegada dos negros, o RJ se transformou em uma verdadeira Sodoma e Gomorra africana. O RJ deve ser repovoado por gente branca, os negros devem ser suprimidos desse paraíso."
"Negro bom é negro debaixo da terra!"

O ódio racial está explicitamente marcado nas escolhas lexicais e nos pensamentos desse jovem. Por isso, o crime cometido por ele é passível de punição de dois a cinco anos de reclusão e multa. O problema é que pessoas como esse tal Mateus comportam-se dessa maneira na esperança ou na quase certeza de saírem impunes por causa do anonimato que a internet parece proporcionar por meio de perfis falsos no Orkut. Em um caso como esse, a punição depende da boa vontade e do empenho da Polícia Federal no sentido de investigar a origem dos comentários postados no Orkut, o que é possível pelo rastreamento do IP do computador do usuário.

O segundo exemplo também aconteceu em 2011. Usuários racistas da internet escolheram um alvo inesperado: a escola de samba paulista Acadêmicos do Tucuruvi. E por que ela foi alvo de ameaças? Por ela ter apresentado um enredo que presta homenagem aos nordestinos. Eis um trecho do samba-enredo intitulado Oxente, o que seria da gente sem essa gente? São Paulo, a capital do Nordeste!:

Sou cabra da peste, vim lá do nordeste

São Paulo é minha capital

Levando alegria, eu vou por aí

Eu sou valente, sou Tucuruvi

De acordo com a repórter Juliana Soares (2011), do Diário de São Paulo, a escola registrou um boletim de ocorrência por ter recebido emails ameaçando-a caso ela não desistisse de desfilar, no Carnaval de 2011, o tema sobre a migração nordestina para a cidade de São Paulo. Segundo Soares (2011), o primeiro e-mail enviado para a escola dizia o seguinte: "Vocês deveriam ser proibidos de desfilar numa avenida de minha cidade com um enredo nojento e racista desses. [...] Querem exaltar o Nordeste, desfilem por lá e não na minha cidade que é São Paulo, capital do Estado de São Paulo". E eis um trecho de um dos emails enviado por alguém que se intitula "paulistano com orgulho" ameaçando a Acadêmicos do Tucuruvi: "Vou dar um aviso. Na primeira ameaça que alguém receber de qualquer verme dessa escola de samba de merda a coisa vai ficar preta. E outra coisa. São Paulo não é capital do NE (nordeste) porra nenhuma".

O anonimato proporcionado pela internet tem encorajado pessoas racistas a expressarem seus ódios e preconceitos em sites de relacionamento e através de e-mails. Se alguém será punido nesse caso, é impossível prever. Entretanto, às vezes, a punição a crimes cometidos na internet ocorre.

Foi o que aconteceu com Mayara Petruso, responsável pelo terceiro exemplo de casos de discurso racista na internet. Em novembro de 2010, logo após o segundo turno das eleições presidenciais, Petruso deu início àquilo que seria uma série de manifestações racistas que inundaram o Twitter postando as seguintes mensagens: "Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado" e "AFUNDA BRASIL. Deem direito de voto pros nordestinos e afundem o país de quem trabalha para sustentar os vagabundos que fazem filho pra ganhar o bolsa 171".

Só faltou a essa jovem imitar aquela mulher do senador, no primeiro romance de Jorge Amado (1996 [1930]), uma "bairrista de irritar" que havia acabado de chegar ao país do carnaval, e exclamar: "Mesmo porque o Brasil é São Paulo!".

As consequências do comportamento racista de Petruso vieram de imediato. Em primeiro lugar, surgiram, na mídia, fortes reações contra o seu comportamento. Em segundo lugar, graças a essas reações, Petruso foi despedida do escritório de advocacia onde estagiava. Finalmente, a Ordem dos Advogados do Brasil, seção Pernambuco, entrou na Justiça contra a estudante paulista por crime de racismo e de incitação pública ao crime (CARTA CAPITAL, 2011).

Petruso serviu de inspiração para outros jovens expressarem seu ódio pelas pessoas oriundas de estados do Nordeste. Eis algumas mensagens desses jovens divulgadas pela revistas Época e Carta Capital, as quais, infelizmente, não trazem a identificação dos autores:

"Brasil!!! Um país de tolos!!! Parabéns jegues nordestinos!!! Tomara que morram de fome eternamente, povo folgado que se refugia em sp!!!";
"Não tenho orgulho do Nordeste. Prefiro sul/sudeste. Lá tem pessoas mais instruídas e inteligentes. Não me identifico com essa burrice local";
"O nordeste é um lugar onde nós, pessoas brancas de classe média alta, vamos fazer turismo sexual comendo umas baianinhas vagabundas";
"Danem-se. Continuo odiando qualquer lugar acima de Belo Horizonte. Espero que vocês morram... de fome ainda por cima";
"Dividam o Brasil no meio, me nego a ser da mesma nação dos nordestinos".

O ódio veiculado em "tomara que morram de fome eternamente", "matem um nordestino afogado", "Espero que vocês morram... de fome ainda por cima" e "Continuo odiando qualquer lugar acima de Belo Horizonte" em nada deixa a desejar aos sentimentos envolvidos nos comportamentos dos neonazistas de plantão.

Observando-se atentamente essas mensagens, percebe-se a dicotomia Nós/Outros por meio da polarização endogrupo-exogrupo no discurso desses jovens. Van Dijk (2008, p. 14) esclarece que:

O discurso racista e, de forma mais geral, o discurso ideológico dos membros de um grupo (endogrupo), por exemplo, tipicamente enfatizam, de várias maneiras discursivas, as características positivas do Nosso próprio grupo e seus membros, e as (supostas) características negativas dos Outros, o grupo de fora (exogrupo). [...] Percebemos que uma estratégia geral envolvida na reprodução discursiva (por exemplo, racista ou sexista) de dominação, a saber, a polarização endogrupo-exogrupo (exaltação do endogrupo versus derrogação do exogrupo), pode ser realizada de várias formas.

Vejamos algumas evidências dessa estratégia de polarização endogrupo- exogrupo (i.e., paulistas-nordestinos) naquelas mensagens postadas no Twitter. O Quadro 1, Microestruturas semânticas na polarização endogrupo-exogrupo, traz palavras, frases e orações usadas por aqueles jovens para se referirem aos membros do seu endogrupo e aos membros do exogrupo, organizadas por esferas conceituais.

 

 

Se tentarmos resumir o que está no quadro em relação aos nordestinos, temos o seguinte: os nordestinos não são gente, não trabalham, não são brancos, não são honestos e não têm inteligência. A suposta desonestidade vem implícita na acusação de que os nordestinos "fazem filho pra ganhar o bolsa 171", numa referência ao Programa Bolsa Família e ao Artigo 171 do Código Penal, que diz respeito a estelionato e outras fraudes. Note-se o uso de baianinhas para se referir a todas as mulheres nordestinas e que tem o papel temático de paciente da ação do verbo comendo, cuja conotação é sexual e cujo agente é nós, pessoas brancas da classe média alta.

Esses casos de comportamentos racistas e de preconceito de origem geográfica relatados aqui são semelhantes às manifestações preconceituosas que tiveram como alvo constante, durante os oito anos em que governou o Brasil, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além disso, servem para mostrar como a mídia conservadora deixa transparecer nas entrelinhas dos seus textos o seu lado preconceituoso, conforme a próxima seção aborda.

 

3 O PRECONCEITO NAS ENTRELINHAS

Os textos produzem resultados tanto de natureza discursiva quanto de natureza extradiscursiva. Como assinala Fairclough (2008), eles levam pessoas a obterem ou perderem um emprego; fazem guerras serem iniciadas ou interrompidas. Assim, os textos também fazem com que ideias sejam disseminadas, ideologias reproduzidas e preconceitos reforçados.

O trabalho ideológico dos textos é mais eficaz quando é menos visível, como lembra Fairclough (1989). Por essa razão, a análise crítica de textos é uma ferramenta importante para tornar mais visíveis posições ideológicas que se encontram nas suas entrelinhas. Isso não significa afirmar que o analista crítico do discurso vá procurar a verdade oculta no texto. Significa, simplesmente, que ele vai oferecer uma leitura alternativa àquela que a superfície textual oferece se impusermos aos textos leituras rápidas.

Vale ressaltar também que nem todo texto é carregado de valores ideológicos: aqueles que circulam socialmente, principalmente os que são produzidos por meios de comunicação de massa, são quase sempre carregados de valores ideológicos, diferentemente de uma pequena parte dos textos que circulam em esferas privadas sobre assuntos do dia-a-dia.

Para realizar a análise crítica do texto de Ruth de Aquino (2010), O preconceito das Mayaras, seguirei a orientação de Teun van Dijk (2009), analisando as macroestruturas e microestruturas semânticas do texto. As macroestruturas semânticas são o tema e os tópicos abordados por Aquino. As microestruturas semânticas são as escolhas lexicais e sintáticas feitas pela autora, assim como os movimentos semânticos que ela realiza.

No título do texto em questão, O preconceito das Mayaras, o plural do nome próprio metonimizado indica que o comportamento racista expresso no Twitter naquele pós-eleição não se limitou a Mayara Petruso. Algumas outras pessoas como ela, i.e., jovens e paulistas, se comportaram preconceituosamente. Dessa forma, Aquino prepara o leitor para o julgamento que faz dessas Mayaras, que reagiram de maneira "irritada e burra à vitória de Dilma Rousseff no Nordeste", sugerindo aí nas entrelinhas que há uma maneira calma e inteligente de reagir à vitória de Dilma, com a qual ela também não parece estar contente.

Entretanto, julgar sempre é um ato arriscado. Afinal, como julgar os outros? Ela o faz à maneira do filósofo relativista oitocentista Claude-Adrien Helvétius, como lembra Todorov (1993, p. 64): "Nossos julgamentos sobre os outros, mesmo que se disfarcem com as cores da objetividade e da imparcialidade, só descrevem, na realidade, a distância que deles nos separa: quanto mais próximos, mais os estimamos". No fim das contas, como mostrarei à frente, Aquino não foge à defesa do seu endogrupo.

A verdadeira preocupação de Aquino, i.e., defender seu endogrupo (Nós) em detrimento do exogrupo (Outros) vem à tona de imediato ao mencionar outra façanha de Mayara Petruso: ela despertou "uma onda de comentários de ódio e preconceito contra os paulistas". Ficam, assim, claros os dois temas que vão dominar o texto de Aquino: o primeiro, explícito e esperado, anunciado pelo título, é o comportamento racista daqueles jovens no Twitter; o segundo é o suposto comportamento preconceituoso e injusto de nordestinos contra os paulistas.

Aquino começa a desenvolver o primeiro tema com uma frase famosa, já quase lugar-comum, de Euclides da Cunha: "o nordestino é antes de tudo um forte". A colunista o faz com o objetivo óbvio de demonstrar uma suposta solidariedade para com os alvos da campanha racista no Twitter, que é, na verdade, uma estratégia retórica muito comum que é chamada de empatia aparente por Van Dijk (2008). Em uma clara dicotomia Nós/Outros, no velho hábito de se favorecer o endogrupo em detrimento do exogrupo, ela vai apontar apenas elementos negativos e estereotipados atribuídos aos nordestinos, a começar pelo próprio termo nordestinos, jogando, no mesmo balaio, pessoas de estados e cidades tão culturalmente diversificados como as que ocupam a região Nordeste.

Dominada pela ficção do Sertão, Aquino (2010) só consegue mencionar estereótipos, como a seca, a separação de parentes pela migração e a falta de terra: "A seca, a separação de parentes pela migração, a falta de terra, a renda menor, a oportunidade cavada à base de luta e provação, tudo isso faz deles resistentes". Logicamente, ela menciona fenômenos socioculturais sem problematizá-los, como se naturais fossem e como se eles estivessem presentes em todos os cantos do Nordeste.

O preconceito de Aquino a impede de mencionar, por exemplo, as excelentes pesquisas realizadas por universidades e as realizações de empreendedores nos estados nordestinos. Ela só consegue mencionar os porteiros, os peões de obra, os garçons, os cozinheiros e os lavadores de prato, em São Paulo e no Rio de Janeiro, como se todos eles fossem do Nordeste e como se tais ocupações fossem as únicas que as pessoas oriundas dos estados nordestinos pudessem ter por serem, na visão dela, naturalmente subalternos aos burgueses paulistas e cariocas. Eis as palavras de Aquino (2010): "Os nordestinos estão nas portarias, construções e nos restaurantes do Rio de Janeiro e de São Paulo".

A estratégia retórica da empatia aparente é, mais uma vez, usada por Aquino, apelando para uma suposta homogeneidade linguística para suavizar a explicitação que faz da dicotomia Nós/Outros: "o povo de cá e o de lá, todos brasileiros falando a mesma língua". Ela continua com sua empatia aparente ao citar escritores e cantores de estados nordestinos, como João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz e Gilberto Gil, após o que ela arremata: "É sem fim a contribuição cultural dos nordestinos".

Note-se aí que são os nordestinos que contribuem culturalmente para uma sociedade não explicitada. Seria essa sociedade a brasileira? Seria essa sociedade a combinação da paulista com a carioca? Talvez essas duas se resumam em apenas uma: a brasileira. E a exclamação da senhora do senador no país do carnaval vem aos meus ouvidos mais uma vez: "Mesmo porque o Brasil é São Paulo!" Faltaria apenas acrescentar o Rio de Janeiro a essa exclamação.

O segundo grande tema de Aquino é desenvolvido nas entrelinhas do seu texto. No movimento semântico que Van Dijk (2008) chama de inversão, i.e., o ato de culpar a vítima, ela aponta sua arma textual para um cidadão brasileiro oriundo da cidade pernambucana de Caetés: o expresidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eis o trecho do texto de Aquino:

Mas o preconceito existe na cabeça de muitas Mayaras por aí. Um sentimento escondido que essa moça escancarou. Numa eleição em que o presidente Lula estimulou a rixa e a animosidade entre ricos e pobres, é normal que os ânimos continuem acirrados. Anormal é todo esse ódio e desprezo de uma estudante, e logo de direito.

Ora, no frigir dos ovos, Aquino coloca a culpa de todo o acontecimento no ex-presidente Lula: foi ele que "estimulou a rixa e animosidade entre ricos e pobres" durante a campanha eleitoral de 2010. Leia-se: entre paulistas e cariocas, de um lado, e nordestinos, do outro lado. E, segundo Aquino, a reação das Mayaras, de ânimos acirrados, é "normal", natural. Afinal, quem mandou Lula provocar?

E vale notar aí nesse trecho a inserção do tópico relativo a Lula, a qual seria considerada uma quebra de coerência local no texto de um escritor inexperiente. Não é o caso de Aquino. Ela faz a quebra deliberadamente para não perder a oportunidade de criticar o exogrupo por meio de um ataque a uma figura emblemática desse grupo.

Um último comentário sobre esse trecho se faz necessário. Aquino considera anormal todo o ódio e o desprezo pelos nordestinos demonstrados por uma estudante. E o mais grave para ela ainda é o fato de a estudante ser do curso de Direito. Ora, quer dizer que se a estudante for de Letras, de Medicina ou de Dança, o ódio racial e o desprezo causado por preconceito de origem geográfica são menos inaceitáveis? Aquino parece esquecer que ter respeito pelos outros ocorre independentemente da formação acadêmica, do grau de escolaridade ou da profissão.

O curioso é o termo que ela usa quando comenta a sugestão de um dos jovens racistas de separar o Nordeste do resto do Brasil: "É xenofobia em alto grau." Aquino escolhe a palavra xenofobia e, como ela mesma percebe que é uma qualificação inadequada, uma tentativa fracassada de eufemismo, ela faz um comentário metalinguístico para tentar justificar sua escolha lexical: "O significado de 'xenofobia' é preconceito com estrangeiros, mas se aplica a esse caso".

Será que se aplica mesmo? Bem, se o termo xenofobia se aplica a esse caso, então os nordestinos são estrangeiros no país dela. A explicação de Aquino não consegue me convencer. Afinal, como diz a esposa do senador no país do carnaval, "o Brasil é São Paulo!". Logo, o Nordeste não é parte do Brasil e os nordestinos são estrangeiros nesse país. Fica aí patente, na sua explicitude lexical, a separação entre "o povo de cá e o de lá", entre Nós e os Outros.

Aquino se recusa a usar o termo racismo para se referir ao crime de Petruso, embora ela mesma informe que a estudante de Direito responderá na Justiça por crimes de racismo e de incitação a homicídio, e não por xenofobia. Aliás, ela destaca a punição a ser dada a Petruso como o lado bom dessa história. Mas isso é apenas um mote para dar sequência ao segundo tema do seu texto: "O lado ruim é que detonou uma campanha de ódio contra os paulistas. Não sei até que ponto a Justiça reage com a mesma presteza contra quem demonstra preconceito contra ricos e brancos". Novamente, ela faz o movimento semântico da inversão, da culpabilização das vítimas.

No último parágrafo do seu texto, numa curiosa e proposital quebra retórica de paralelismo semântico, Aquino, ao criticar os parlamentares brasileiros, numa mudança de tópico claramente feita para colocar os comportamentos racistas da jovem paulista num patamar de importância inferior ao absenteísmo dos deputados federais, ela se refere à origem dos parlamentares da seguinte forma: "paulistas, cariocas, nordestinos, nortistas e sulistas". Ela deixa de fora Minas Gerais, Espírito Santo e a região Centro-Oeste, tratando metonimicamente São Paulo e Rio de Janeiro como se regiões fossem e massifica os outros estados em regiões homogeneizadas.

Talvez a esposa do senador, "bairrista de irritar" e que havia chegado no navio, esteja errada: o país do carnaval é São Paulo e o Rio de Janeiro.

 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Do exposto até aqui, três questões ficam claras. Em primeiro lugar, não se deve confundir liberdade de expressão com comportamentos racistas, homofóbicos, indigenofóbicos e sexistas. Comportamentos assim não apenas contribuem para reproduzir desigualdades sociais na medida em que naturalizam relações desiguais de poder, como também podem levar pessoas a cometerem crimes, sendo a escravidão e os campos de concentração nazistas os exemplos mais emblemáticos disso.

Em segundo lugar, comportamentos preconceituosos podem ocorrer de forma sutil, disfarçada. No caso dos textos veiculados pela mídia impressa nacional, como o de Ruth de Aquino, o disfarce vem na forma de entrelinhas, nas escolhas lexicais, nos movimentos semânticos, nas escolhas temáticas.

Por isso, a Análise Crítica do Discurso não deveria ficar ausente dos currículos de Letras. Ela pode auxiliar na formação de professores conscientes do seu papel de formar leitores críticos, atentos aos disfarces textuais com os quais produtores textuais vestem seus preconceitos.

Na educação básica, a presença de professores que incentivam os alunos a se tornarem leitores críticos é fundamental para a formação de cidadãos mais alertas às arapucas textuais. Para Van Dijk (2008, p. 3435), a inclusão dos estudos críticos do discurso (ECD) no currículo escolar é:

[...] relevante para cidadãos em geral, porque eles podem aprender a ser mais conscientes acerca dos propósitos das elites discursivas e de como os discursos públicos podem informar incorretamente, manipular ou, por outro lado, os danificar. Isto é, a principal meta social e prática dos ECD é desenvolver estratégias discursivas de dissensão e resistência.

E os cursos de Letras no Brasil deveriam incluir em seus currículos disciplinas voltadas para a Análise Crítica do Discurso por duas razões importantíssimas. A primeira é o fato de eles serem os principais responsáveis pela formação de professores de português. A segunda razão é o fato de os professores de português terem a formação de leitores como uma de suas principais metas.

Uma última consideração a fazer aqui é que é necessário enfatizar-se que o comportamento preconceituoso de alguns jovens paulistas e o discurso preconceituoso de Aquino não autorizam a generalização que joga no mesmo balaio todos os paulistas. Assim como é equivocado considerar que todos os nordestinos têm certas características e comportamentos, é equivocado imaginar que todas as pessoas oriundas de São Paulo sejam racistas e que detestem as pessoas oriundas do Nordeste.

Encerro este ensaio com a certeza de ter cumprido com meus dois objetivos: (1) oferecer uma leitura crítica do texto de Aquino e (2) contribuir para a produção de textos acadêmicos que utilizam a análise crítica do discurso como abordagem de análise para desnaturalizar discursos. Afinal, a Análise Crítica do Discurso é um campo de estudos que considero, eu insisto, fundamental para a formação de leitores.

 

REFERÊNCIAS

AMADO, J. O país do carnaval. Rio de Janeiro: Record; Espanha: Altaya, 1996 [1930]         [ Links ].

AQUINO, R. de. O preconceito das Mayaras. Época, São Paulo, 8 nov. 2010, p. 138.         [ Links ]

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Recebido em: 07/04/11.
Aprovado em: 23/08/11.

 

 

1 Cf. o trecho original: "Adopting critical goals means aiming to elucidate such generalizations, and more generally to make clear social determinations and effects of discourse which are characteristically opaque to participants".