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Linguagem em (Dis)curso

versão impressa ISSN 1518-7632

Ling. (dis)curso vol.11 no.3 Tubarão set./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1518-76322011000300001 

Apresentação/Presentation

 

 

Solange Leda Gallo

Universidade do Sul de Santa Catarina

 

 

A proposta desta coletânea de textos é apresentar reflexões sobre a prática da divulgação científica enquanto prática discursiva. Tendo como foco a divulgação de conhecimento, a revista traz análises de materiais diversos: diferentes mídias (revistas, embalagens, sites), diferentes materialidades (fotografias, textos verbais, vídeos) e diferentes discursividades (discurso publicitário, jornalístico, literário).

Estamos considerando aqui um conceito bastante amplo de divulgação de conhecimento, que temos desenvolvido no grupo de pesquisa Produção e divulgação de conhecimento*, no âmbito do qual tomamos a noção de divulgação como forma de pôr em circulação, de publicar, de fazer ver, de produzir um gesto de interpretação sobre textos que se apresentam enquanto objetos, sejam eles de que materialidades significantes forem.

Dessa forma, procuramos compilar aqui trabalhos que analisam esses objetos-textos procurando compreender sua forma material, que sempre poderia ser outra, mas não o é por razões históricas, sociais e ideológicas que procuramos descrever e analisar.

Trazemos, então, para este número especial da revista Linguagem em (Dis)Curso, artigos que tivemos a oportunidade de receber, cujos autores nos apresentam belíssimas análises, de diferentes perspectivas, identificadas pelo gesto analítico constitutivo do discurso de divulgação de conhecimento.

As duas primeiras análises aqui compiladas incidem sobre a divulgação científica. José Horta Nunes e Dantielli Assumpção Garcia analisam a prática de documentação e divulgação do saber linguístico realizada pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomando como exemplar de análise a Revista nº 400 (1998), índice que organiza e divulga toda a produção da Revista do IHGB desde 1839 até 1998. Como um dos resultados da análise, vemos que "embora até se apresente a diversidade das línguas do Brasil, esta é homogeneizada na tematização, gerando assim um controle do multilinguismo existente no Brasil desde o início da colonização". Essas e outras conclusões apresentadas pelos autores interessam na medida em que permitem compreender o funcionamento de um "discurso segundo que se mostra como um discurso de documentação da produção das RIHGB", mas que é um discurso que, por meio dos certos procedimentos racionais, classificatórios e de divulgação científica, tem o poder de interpretar/produzir (um)a determinada história legítima do Brasil. Suzy Lagazzi analisa as capas de diferentes edições da revista científica da FAPESP. O interesse maior dessa análise reside no fato de percebermos nessas capas, relacionadas à ciência e seus efeitos de sentido que tendem para o que é verdadeiro, inequívoco, inquestionável, justamente um efeito de sentido de equivocidade. Na relação entre a produção do conhecimento considerado como científico e sua divulgação, tomando a Análise do Discurso materialista, conforme proposta por Pêcheux, a autora explora a composição do verbal e da imagem na busca por compreender efeitos de sentido contraditórios que são produzidos pelo discurso de divulgação científica.

Em seguida temos textos literários interpretados em diferentes materialidades. Nádea Regina Gaspar e Pedro Ivo Silveira Andretta, baseados em Foucault, também fazem uma análise de capas, com foco na relação entre o texto verbal "Dom Casmurro", obra literária de Machado de Assis, e as capas que emolduraram esse texto no decorrer dos anos e das sucessivas edições publicadas nos séculos XIX e XX. O interesse dos autores foi o de compreender como os enunciados encontrados nessa relação "gestaram um determinado discurso sobre o texto, já que as capas funcionam no domínio da ordem dos 'saberes', diferenciando-se da narrativa escrita, que opera como matéria-prima da ciência literária". Os "olhares femininos" constituem o recorte dessa análise, que permite ver através desses olhares uma formação discursiva que delineia um modo de ser brasileiro. Os autores mostram que os efeitos de sentido relacionados a essa formação discursiva são produzidos pelo discurso de divulgação dessa obra literária, materializado nas suas diferentes capas.  Silvana Mabel Serrani e Silvânia Siebert propõem uma análise da adaptação enquanto "transferência", a partir da crônica A mulher que fuma, de Mario Prata. As autoras situam essa "transferência de sentidos como uma nova materialidade significante que passa a ser lida e interpretada por um outro leitor, o que lê imagens em movimento, o 'teleleitor'", sujeito de outra discursividade. "Ao tomar, principalmente, o texto de imagem como um texto com funcionamento diferente do verbal, o adaptador provoca uma possibilidade outra de ler o texto adaptado, distante da noção de tradução, que tenta apagar a presença do sujeito tradutor como autor que coloca em funcionamento um texto em outra língua".

Temos ainda três textos relacionados a práticas da comunicação social, a saber, o jornalismo, a publicidade e marketing e a imprensa em específico. Telma Domingues da Silva toma a publicidade e o marketing enquanto lugares discursivos que desenvolvem o que a autora chama de "Educação Ambiental para um consumo qualificado do cidadão urbano". A autora mostra uma forma contemporânea de captura do sujeito que, aparentemente, "exerce sua cidadania" ao consumir produtos que exibem, nas suas embalagens, dados de uma "responsabilidade sócio-ambiental". Ainda no âmbito da Comunicação Social, ver ensaio após os artigos, Susana Dias, em seu papel-pesquisa, como ela intitula seu objeto, também traz uma crítica ao modo de funcionamento da imprensa que, ao interpretar o mundo, a vida e as ciências, opera "uma repetição incessante da vida". Susana desenvolve, então, uma rica abordagem da relação infrutífera que o homem estabelece com esse dizer estéril e finaliza apontando para "quando o papel-imprensa se torna capaz de uma escrita-vida, liberta um tempo em que os seres-objetos do mundo, a vida, não estão no papel, representados no papel". Por outro lado, Andréia da Silva Daltoé, ainda na perspectiva discursiva, discute as formas de divulgação das metáforas de Lula pela mídia, nos dois mandatos. A autora mostra que a maioria dos sentidos atribuídos a estes dizeres "os deslocam para o espaço do erro, do desvio, do absurdo e da ignorância", apontando para uma espécie de estranhamento em relação às metáforas. A análise permite perceber que a imagem que temos do presidente da República, e a maior ou menor identificação que temos com essa imagem, pode ser permanentemente determinada pelo modo como a mídia interpreta os seus dizeres.

Finalmente, temos dois trabalhos que tratam da questão da divulgação em ambientes virtuais. Simone de Mello de Oliveira analisa um blog de divulgação de ciência que possibilita a compreensão da autoria nessa textualidade virtual, na qual se mesclam saberes da escrita de âmbito privado e público, e na qual a função-autor não está plenamente recoberta por um efeito de autoria que lhe dá unidade, como é o caso do discurso de escrita não virtual. Nesse espaço discursivo, a autora busca compreender o modo como se constitui a posição-sujeito divulgador de ciência, considerando as condições de produção do discurso jornalístico nas novas TICs. Por outro lado, Simone encontra "um funcionamento presente nos blogs como um todo e no blog analisado em especial, que é o copiar e colar", e considera que "esse funcionamento, visto à luz das novas tecnologias, aparece como constitutivo de uma nova forma de relação do sujeito com a escrita". Cristiane Dias e Olívia Ferreira do Couto procuram compreender qual é o modo de subjetivação do sujeito contemporâneo em relação às novas formas de produção do conhecimento, na formação social das novas tecnologias de informação, e como esse sujeito se relaciona com as "coisas-a-saber" (Pêcheux, 2008) através das mídias sociais. Nessa procura as autoras comentam o deslizamento de um "quem sou" para "o que está", o que coloca o foco da constituição no "outro" (aquilo que está fora, mas que é constitutivo do sujeito) e não no "eu" (o sujeito em sua essência) e avançam, então, ao compreenderem que esse lugar de enunciação de si é também um lugar de busca pelo sentido da própria existência desse sujeito na história, enquanto "esse movimento é a própria construção do conhecimento". Isso permite a elas concluir que "as redes sociais não são, portanto, máquinas de aprender, assim como as instituições de ensino não o devem ser, mas são espaços de identificação do sujeito, regidos por redes de memória não redutíveis a uma ciência régia".

Esta coletânea foi produzida como um dos resultados do estágio pós-doutoral realizado por mim na Universidade de Campinas, Unicamp, no âmbito do Nudecri (Núcleo de Criatividade), sob a orientação do professor doutor Eduardo Guimarães. O capítulo aqui publicado na seção Retrospectiva é de minha autoria e procura apresentar um pouco do trabalho que vem sendo desenvolvido no PPG em Ciências da Linguagem da Unisul, Santa Catarina, em parceria com o Nudecri – Unicamp. Trata-se de uma reflexão "sobre as questões relacionadas à produção do conhecimento na nossa sociedade e sobre o modo como este é significado no seio das relações de poder, que se materializam em contradições". Foi a partir dos trabalhos de Eduardo Guimarães e Eni Orlandi (IEL – Unicamp) e, posteriormente, no âmbito da parceria estabelecida entre as duas instituições, que essa forma de abordagem da divulgação de conhecimento começou a ser desenvolvida pelo nosso grupo de pesquisa, em Santa Catarina, culminado no meu estágio pós-doutoral, que estabelece mais um ponto de encontro entre pesquisadores da análise de discurso que se voltam para a questão da produção de conhecimento.

Agradeço a Eduardo Guimarães, aos colegas autores, ao grupo de pesquisa, ao Nudecri e aos pesquisadores do Labeurb (Laboratório de estudos urbanos) e do Labjor (Laboratório de jornalismo), aos colegas do PPGCL, ao pessoal da Revista, e a todos que tornaram possível este trabalho!

 

 

* Grupo de pesquisa registrado no CNPq desde o ano de 2004, sob minha coordenação.