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Linguagem em (Dis)curso

Print version ISSN 1518-7632

Ling. (dis)curso vol.11 no.3 Tubarão Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1518-76322011000300010 

ENSAIO

 

Papel, vida e acontecimento...*

 

Paper, life and event...

 

Papel, vida y suceso...

 

 

Susana Oliveira Dias

Doutora em Educação na área de Conhecimento Linguagem e Arte. Pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Coordenadora do Mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor-IEL-Unicamp)). Email: susana@unicamp.br

 

 


RESUMO

O papel-imprensa se efetua como uma máquina que emite signos furiosamente, que faz ver e faz falar dentro de uma sintaxe dominante, forçando a pensar no jogo das representações e a reencontrar o que já estava dado. Expõe violentamente um tempo de morte marcado pela centralidade do sujeito no pensamento. Neste texto proponho explorar os conceitos de signo, acontecimento e fabulação de Gilles Deleuze para buscar deslocamentos no pensar o papel-imprensa. Ao desdobrar os signos – atualidade, velocidade, objetividade e veracidade – pela superfície do acontecimento emerge uma violência distinta, afirmativa, um esvaziamento das significações já dadas desses signos que abre para um devir-qualquer-coisa do papel. Possibilidades de que o papel-pesquisa encontre forças de vida pela fabulação.

Palavras-chave: Imprensa. Signo. Fabulação. Pós-estruturalismo.


ABSTRACT

The paper-press functions as a machine that furiously emits signs, that imposes seeing and talking within a dominant syntax, forcing one to think of the game of representations and to rediscover what was always already there. It violently expose a time of death marked by the centrality of the subject in thought. In this article I propose to explore the concepts of sign, event and fabulation by Gilles Deleuze to seek the shifts in the thinking of the paper-press. When unfolding such signs – speed, present time, objectivity and truthfulness – a distinct violence emerges through the event's surfaces, affirmative, an emptying out of the already given significations of these signs that allows for an anything-becoming of the paper; possibilities that the paper-research can find life forces by means of fabulation.

Key words: Press. Sign. Fabulation. Post-structuralism.


RESUMEN

El papel prensa se efectúa como una máquina que emite signos furiosamente, que hace ver y hace hablar dentro de una sintaxis dominante, forzando a pensar en el juego de las representaciones y a reencontrar lo que ya estaba dado. Expone violentamente un tiempo de muerte marcado por la centralidad del sujeto en el pensamiento. En este artículo propongo explorar los conceptos de signo, suceso y fabulación de Gilles Deleuze para buscar movimientos en el pensar el papel prensa. Al desdoblar los signos – actualidad, velocidad, objetividad y veracidad – por la superficie del suceso emerge una violencia distinta, afirmativa, un vacío de las significaciones ya dadas de esos signos que abre para un devenir-cualquier-cosa del papel. Posibilidades de que el papel-pesquisa encuentre fuerzas de vida por la fabulación.

Palabras-clave: Prensa. Signo. Fabulación. Postestructuralismo


 

 

1 O violento mundo dos signos

A noção de signo, que Gilles Deleuze explora em seus estudos com a literatura, movimenta a escrita deste papel-pesquisa, que promove, entretanto, um deslocamento desse conceito para um pensamento com os papéis-mídias.

Nos estudos com a obra de Proust, Em busca do tempo perdido (À La recherche du temps perdu), Deleuze explora em diversos de seus textos o conceito de signo, amplamente utilizado pelo escritor. O signo permite ao filósofo pensar na Recherche distanciado das análises que nela privilegiaram a representação da vida de Proust, a narração de suas vivências, a recuperação de suas memórias, sua biografia. Distancia-se das análises que submetem o acontecimento ao sujeito. Nos campos da educação e comunicação tal pensamento (sem sujeito) emerge com violência e estranhamento.

Para Alejandro Cerletti, a educação não deveria abrir mão do sujeito, e, em seu encontro com a Recherche, insiste que "[...] há um sujeito Proust unido ao acontecimento Proust" (2004, p. 8, grifo do autor). O "acontecimento"1, para Cerletti, refere-se ao cruzamento entre a obra e a vida do autor para elucidação dos vínculos entre a obra de arte e o tempo. Nesse "acontecimento" convergem três planos: "o relato do herói-narrador", "a vida o autor-escritor" e o "olhar do leitor". A obra só teria sentido pelo leitor, mas, sobretudo, pelo autor, Marcel Proust, responsável por concretizar sua autoaprendizagem, exploração de si mesmo no livro, capaz de recuperar, refazer, reinventar o tempo, na realização da obra de arte. A experiência da escrita transfiguraria a vida do escritor e do herói-narrador. Caberia ao leitor construir a si mesmo, construir a obra, reinventar seu tempo, pela leitura2.

Jorra da escolha de Deleuze (2003, 2006b) um pensamento que privilegia trajetos distintos deste. Deslocando a centralidade do sujeito da percepção, e dando força à impessoalidade, esvazia a ideia de Proust ou do herói como narrador da obra. O narrador ganha contornos múltiplos, desarranjados, sem órgãos, sem organismo, sem visão, sem vivências, sem lembranças. A escrita é o narrador. Para Roberto Nascimento (2006), ao potencializar a noção de que o narrador-herói não funciona como sujeito, o "Eu" aparece como apropriação dos "eus larvares". "Seus constantes deslocamentos e a impossibilidade de focá-lo fixamente e por inteiro indica algo que lhe antecede e lhe constitui" (NASCIMENTO, 2007, p. 5). Dizer Eu, projetar um Eu e encontrar um Eu, que corresponderia ao sentido, consistem, para Deleuze, em operações que geram paradas, fixações, estabilizações no pensar. "[...] o pensamento é muito mais estes momentos terríveis que somente podem ser suportados nas condições de um sujeito larvar" (DELEUZE, 1968, p.156 apud NASCIMENTO, 2006, p. 4).

O signo permite o ultrapassamento do sujeito, remete a realidades transversais. Deleuze destaca na obra de Proust as aporias por que passa o Eu, os becos sem saída, em que a expectativa de centramento é logo corroída, diz Nascimento, que tem escolhido para pensar a educação (alunos, instituições) a imanência deleuziana no lugar da subtancialização3, por esta trazer o risco "de perdermos de vista a pluralidade de suas relações, subsumindo-as em uma imagem abstrata geral" (2007, p. 3). Tomando a aprendizagem como um exercício de despersonificação, suspeita do tempo, e de sua verdade essencial.

Os signos, o tempo e o pensamento estão, para Gilles Deleuze, entrelaçados. Os signos nos forçam a pensar, "porque estes nos colocam na boca um estranho sabor de paradoxo, um intenso desassossego, a impressão de uma grande farsa no ar, a sensação, enfim, de que perdemos de repente o chão" (NASCIMENTO, 2007, p. 4). Para Zourabichvili, ao mesmo tempo em que o signo comporta diferentes mundos, o mundo exterior no qual tecemos nosso existir "devém interessante" somente na medida em que ele "faz signo e perde assim sua unidade tranquilizadora, sua homogeneidade, sua aparência verídica" (1994, p. 37 apud NASCIMENTO, 2007, p. 5). 

"[...] os encontros têm como objeto os signos" (VASCONCELLOS, 2006, p. 4). Para Jorge Vasconcellos, as conexões que Gilles Deleuze faz entre signo, pensamento e criação são potentes porque se opõem a uma imagem dogmática do pensamento, em que o pensamento aparece como a busca natural pelo verdadeiro, na qual o bom senso e o senso comum são tomados como potências compartilhadas por todos os humanos, e no qual o modelo da recognição é preponderante, funcionando e fazendo funcionar a centralidade do sujeito no pensamento (NASCIMENTO, 2006, p. 5-6).

O mundo dos signos, dos sintomas, do obscuro, da violência, contrapõe-se ao mundo da racionalidade. Os signos se efetuam, ao mesmo tempo, como objetos de encontro com os mundos e efeitos de encontros com os mundos. Como se os mundos aguardassem, ficassem à espera infinita por um acontecimento. Possibilidades de gestação. O que teria acontecido? O acontecimento, o sentido, para Deleuze, não pertence a um sujeito, não corresponde ao vivido, nem ao visível, é, antes, pura reserva. Subvertendo o bom senso e o senso comum, que estabelecem a aliança entre o eu, o mundo e Deus, o acontecimento deleuziano afirma o paradoxo, indo sempre nos dois sentidos (bom senso e senso comum), e, ao mesmo tempo, no não-senso da identidade perdida, irreconhecível. 

A linguagem parece, de qualquer maneira impossível, não tendo mais sujeito que se exprima ou manifeste nela, nem objeto a designar, nem classes e propriedades a significar segundo uma ordem fixa. É contudo aí que se opera a doação de sentido, nesta região que precede todo bom senso e senso comum. Aí a linguagem atinge sua mais alta potência com a paixão do paradoxo (DELEUZE, 2006a, p. 81).

Mundo e linguagem expõem-se ao arrombamento que os signos promovem, rompendo à força com aquilo que se daria naturalmente, surgem forças distintas no pensar, no ato de pensar. Forças intoleráveis, dores, gritos. Os signos podem ser considerados como parte da linguagem, mas também algo que está antes da linguagem, além da linguagem. Neste trabalho escolho pensá-los pelo quase, como vestígios de intensidades. Fagulhas. Faíscas. Que são emitidos, contidos, envolvidos pelos/nos papéis. Que dão a ver, colocam, impõem, instauram problemas. Para Deleuze, os signos são sintomas de doenças. "[...] a doença é uma variação contínua que abre para um número incalculável de experiências e experimentos [...]" (LINS, 2005, p. 1233). Potencialidades de vazar e proliferar sentidos. Vibrar o encontro. Encontrar não é interpretar, reconhecer, explicar. "O encontro é, talvez, a mesma coisa que um devir ou núpcias [...]" (DELEUZE; PARNET, 2004, p. 14-15).

 

2 Signos mundanos e amorosos

Rapidez, atualidade, veracidade e objetividade emergem como signos do papel-imprensa. "Cada sinal, não importa o que é, faz violência" (DELEUZE, 2006b). Diz-se que vivemos numa era mundana, cujos escritos-imagens retratam a vida de uma sociedade elitizada. Nesse movimento, o papel-imprensa efetua-se como um signo mundano. Os signos mundanos remetem ao próprio mundo, ao mundo material, às características corpóreas. A violência exercida ao pensamento pelos signos do papel-imprensa se efetuam pela ordem da percepção e da recognição. Forçam a interpretar, explicar, traduzir, a estabelecer associações analógicas, a encontrar o todo que corresponderia às partes. Querem valer pelo seu sentido. Usurpam a possibilidade de outros sentidos. O papel-imprensa como um signo mundano faz funcionar as associações analógicas, que querem fazer corresponder a parte ao todo. O papel-imprensa emerge como parte do todo indústria de papel, parte de um projeto neoliberal e globalizante. Reencontra-se, assim, o que já estava dado: o papel-imprensa como representante do mercado. Tempo de morte.

As imagens e escritas que circulam no papel-imprensa também agem como signos do arquivo, documento, testemunho, fidelidade, realidade e verdade ao propor uma relação quase transparente com a percepção, ao quererem agir como extensão física da visão. No desejo de representação fidedigna das coisas e de apreensão material do mundo, essas imagens e palavras querem fotografar a realidade, ser espelhos do mundo ou representação da perspectiva de um sujeito sobre ele. Esses signos atravessam as discussões sobre cópias (boas ou más, perfeitas ou imperfeitas, fiéis ou traidoras) e a representação no papel-imprensa. Ser verídico passa por fazer, ou pretender fazer, uma cópia fiel de um ser-objeto-evento. A dar, ou pretender dar, uma representação fiel de um ser-objeto, de uma realidade, de um evento, de um fato. Diz-se que há um compromisso com o objeto. O cronista Nelson Rodrigues referia-se aos jornalistas como os "idiotas da objetividade", aqueles que descreveriam o jogo real.

Ao mesmo tempo, na sofreguidão de dizer do real, no afã de ser o real, as palavras e imagens do papel-imprensa funcionam fortemente como signos do falso, da ficção, da traição ao expor mundos-fatos-situações-pessoas irreais, abstratas, irreconhecíveis. Nas pesquisas no campo da comunicação há muitos estudos que mostram como a objetividade e a veracidade jornalística são inventadas, construídas, fabricadas pelos jornalistas. A objetividade e a verdade, tomadas como inexistentes, seriam meras falácias, mentiras, aparências. Fala-se no Mito da Objetividade e no Mito da Verdade jornalística. Os textos jornalísticos não seriam objetivos, reais e verdadeiros, mas teriam "aparência de objetividade, de realidade e veracidade" (BARROS FILHO, 1995). "Que esconde a mentira dos signos amorosos?" (DELEUZE, 2003, p. 9).

O papel-imprensa se efetua também como um signo do amor. Os signos do amor funcionam como pares, pares amorosos – real e ficção, fiel e traidor, sobrevivência e aniquilamento, vida e morte – e movimentam a busca por explicações, interpretações, significados, implicados, enrolados, escondidos nos seres-objetos amados. Sofrimentos, ciúmes e aprofundamentos da furiosa busca por um Eu que corresponderia aos sentidos do papel. Profundas fendas entre o papel e a realidade são produzidas. A fidelidade é colocada como um valor, garantia de amor, de realidade, de verdade, de continuidade das relações. A traição, por sua vez, é o que leva à separação, ao divórcio. "O seu destino está no lema 'Amar sem ser amado'" (DELEUZE, 2003, p.9). O ciúme, mobilizado pela vontade de encontrar, desenrolar, revelar as verdades e as mentiras do ser amado, em busca da essência do relacionamento, da realidade, aparece como sintoma de uma ficção, traição e aniquilamento inevitáveis no amor.

Esses dois movimentos do pensamento, atrelados aos regimes de signos mundanos e amorosos, geram um julgamento do papel-imprensa: os bons e maus representantes da vida. Movimentos estes que, nos campos nos quais atuo – a divulgação científica e cultural, o jornalismo científico, a comunicação da ciência –, tornam-se ainda mais violentos. Se os meios de comunicação não informam, comandam, ensignam, emitem palavras de ordem, fornecem uma sintaxe que permite ao público navegar em meio às significações dominantes, como afirma o filósofo Gilles Deleuze (2000), parece ser preciso pensar na sentença de morte que atravessa a passagem dos seres-objetos-eventos do mundo ao papel-imprensa. Tornar visíveis as maquinações do papel-imprensa que arrastam um tempo de morte. Expor uma espécie de respiração e pulsação contínua e constante de propósitos, que inflam de significações os seres-coisas do mundo, determinando os mundos das coisas e seres, garantindo a separação entre o papel e o mundo e o julgamento dos bons e maus representantes.

Se o papel-impresa ensigna – efetua-se como uma máquina que emite signos furiosamente, que faz ver e faz falar, que força a pensar no jogo das representações –, opto por um gesto do pensamento que quer desviar: da interpretação e explicação do que se faz visível nos seres-objetos-corpos; da explicitação das experiências subjetivas dos indivíduos e dos conteúdos significantes e significações dos objetos; do esforço de recuperação da memória e estabelecimento de origens, cadeias associativas; da busca de referências, correspondências e equivalentes entre o papel-imprensa e a indústria de papel. Se os signos têm permitido um pensamento que estabelece constantes, estabilizações, fixações dos sentidos do papel-imprensa, e provocado guerras, uma escrita-pesquisa-vida parece passar não por um lamento, mas "um perigoso grito de ave de rapina, irisada e intranquila" (LISPECTOR, 1978, p. 11).

Verter na superfície da terra de papel novos (im)possíveis faz parte das apostas do nosso grupo de pesquisa multiTÃO: prolifer-artes subvertendo ciências e educações (CNPq) – vinculado ao MDCC do Labjor-IEL da Unicamp e à Uefs, do qual fazem parte alunos, artistas e pesquisadores – onde temos explorado, em projetos de pesquisa e extensão4, voltados à divulgação científica, as potencialidades políticas das imagens, palavras e sons. Pensando palavras, imagens e sons não apenas como meios de comunicação, mas como personagens da divulgação científica, que têm potência de não apenas divulgar, mas divagar, fabular.

 

3 Desdobrar os signos

Rapidez, atualidade, veracidade, objetividade... são signos porque são atribuídos aos papéis-mídias, não porque os representam. Os signos não representam os corpos, não expressam conteúdos corpóreos, mas são atribuídos aos corpos. Os corpos têm sua própria forma, sem semelhança com os signos. Os signos não cessam de interferir nos corpos. Os corpos não cessam de interferir nos signos. O que aconteceria se libertássemos, simultaneamente, o papel dos signos, os signos do papel? Fazendo um papel-pesquisa que corra, eternamente, de uma face à outra, do papel aos signos, dos signos ao papel, chegando ao ponto da indiscernibilidade? De maneira a acompanhar o modo como os signos trabalham as coisas, ao mesmo tempo em que as coisas se estendem, se desenrolam através dos signos.  

Somente quando os conteúdos significantes e significações ideais desmoronam dando lugar a uma multiplicidade de fragmentos e de caos, e as formas subjetivas, dando lugar a um impessoal caótico e múltiplo, é que a obra de arte adquire seu sentido pleno (DELEUZE, 2003, p. 147).

Familiarizar-se com os signos passa por se familiarizar com uma matéria, extrair sintomas, fazer uma espécie de sintomatologia do papel. A sintomatologia, entretanto, adverte Deleuze em uma entrevista que concedeu à revista Magazine Littéraire, não é somente um caso de diagnóstico. "Os signos reenviam aos modos de vida, às possibilidades de existência, são sintomas de uma vida em jorro ou vazia" (DELEUZE apud BELLOUR; EWALD, 1991, p.17). Trata-se de desestabilizar os signos, desde dentro de suas lógicas, fazê-los variar, esticá-los até que se tornem irreconhecíveis, feri-los de modo que se esvaiam suas qualidades e propriedades presas aos estados de coisas e/ou ao que está dado nos enunciados.

O conceito de fabulação, do filósofo Gilles Deleuze, parece potente para essa busca de, num movimento metodológico, extrair do papel-imprensa um conjunto de signos – vestígios de intensidades – que percorrem o papel-imprensa (papel-jornal, revista, tela do cinema, TV, multimídia etc.) e propor um desdobrar desses signos pelas superfícies do acontecimento.

A fabulação, para Deleuze, é o caminho para a literatura, escrita, saúde, vida. Um conceito que o autor explora nos estudos com a literatura (Crítica e Clínica e Kafka por uma literatura menor) e o cinema (Imagem-movimento e Imagem-tempo). A literatura e a escrita são considerados os espaços privilegiados para uma experimentação contínua do sujeito, da crítica e da clínica. Um laboratório de vida. "Se na prática da escrita, a literatura se materializa enquanto ficção é entre escrita e ficção que se deverá tentar pensar o sujeito da diferença, os simulacros e a singularidade impessoal", diz Joel Birman no artigo Os signos e seus excessos, ao tratar da obra do filósofo (2000, p. 475).

Na literatura, a crítica à representação, intensamente feita por este filósofo, e a clínica, possível a partir de um diagnóstico dos signos, doenças, problemas, tornam-se meios de experimentar o resistir. Ao mesmo tempo, denunciando as formas de aprisionamento da vida pelo homem, no homem, pelos mecanismos e organismos, que a própria escrita não cessa de produzir, e vertendo possibilidades vulcânicas de criação. A fabulação, diz Birman, "[...] seria, pois, a própria potência em ato, que traduziria a língua instituída como estrangeira. Assim, a escrita supõe não apenas a decomposição da língua materna, mas também a invenção de uma nova língua dentro da língua, pela emoção da sintaxe" (BIRMAN, 2000, p. 476).

A escrita, a literatura – pensada como a vida – não seriam, para esse autor, a imposição de uma forma (expressão) a uma matéria vivida. A escrita também não envolveria um contar as memórias, as viagens, os amores, os lutos, sonhos e fantasmas, as experiências (DELEUZE, 1997). A escrita também não seria um relatar as próprias neuroses, imaginar nem projetar um EU. Escrever também não seria uma questão de representação do outro. Escrever passaria por uma despersonalização, pelas potências do indefinido (um), do impessoal (on) e envolveria a invenção de um povo. As lembranças, as vivências, as experiências, as neuroses, os fantasmas só compõem a escrita, para ele, quando têm uma destinação coletiva, um povo por vir. "[...] não é um povo chamado a dominar o mundo. É um povo menor, eternamente menor, tomado num devir-revolucionário. Talvez ele só exista nos átomos do escritor, povo bastardo, inferior, dominado, sempre em devir, sempre inacabado" (DELEUZE, 1997, p. 14).

No encontro com esses pensamentos, interessa-me pensar que é no papel que a luta acontece. Na escrita (com textos, imagens, sons...), pela escrita, com a escrita, quando se coloca uma palavra em ato, quando se cria um ato de palavra. "Toda obra é uma viagem, um trajeto, mas que só percorre tal ou qual caminho exterior em virtude dos caminhos e trajetórias interiores que a compõem, que constituem sua paisagem ou seu concerto" (DELEUZE, 1997, p. 10).

Uma luta da palavra contra si mesma, uma reviravolta contra a dominação, hierarquização, oposição, um contínuo escavar sulcos contra os poderes psicologizantes instituídos, contra as sintaxes dominantes que circulam nos papéis-mídias e que frequentemente seduzem e reduzem o papel, suas potencialidades, seus riscos, à centralidade dos sujeitos. Pela literatura, Deleuze nos oferece caminhos para se pensar o sujeito como singularidade impessoal, pois a fabulação não é um mito pessoal, mas também não é uma ficção pessoal; antes a função fabuladora se efetua como possibilidade de dar força às zonas de indiscernibilidade entre papéis e humanos, de indecidibilidade entre real-verdade-ficção. Possibilidades de o papel deixar de ficar submetido ao poder da representação e encontrar forças no ato de fabulação.

"A literatura é agenciamento coletivo de enunciação" (DELEUZE, 1997, p. 15). É delírio. É doença e saúde. Ameaça constante. Criação de uma outra língua na língua. Criação sintática, estilo. Não se trata de artifícios da linguagem, metáforas, neologismos, porque não há metáfora, nem neologismo que valha fora dos efeitos de sintaxe nos quais se desenvolvem, não há como cavar na própria língua sem que a linguagem inteira seja arrastada para fora do seu limite, sem que se criem reviravoltas.

O mundo dos signos nos expõe de modo bárbaro como a escrita – as imagens e palavras – joga com as forças da vida e da morte. Há uma sentença de morte que atravessa a escrita. O desafio é criar uma vitória da vida sobre a morte. Uma vida que passa pela morte e dela extrai a potência máxima em expressão. Abrir feridas, que criam fissuras na pele dos sentidos, incisões no interior da marca, vazão de líquidos (WUNDER, 2008). Desmanchar os signos do papel-imprensa, esvaziá-los de suas essências, substâncias, fazer arder os sentidos aderidos a esses signos. Expor a pele-sentido às queimaduras, convocando-nos a um deslocamento da lógica clássica das narrativas de produção de sentidos e expressão de uma verdade.

Modo como o papel-imprensa produziria uma dramaticidade do tempo que não se confina nesses parâmetros, ao se desligar do desejo de representar a vida, mas de nos apresentar o que o papel pode acrescentar à vida, "trazendo à tona a criação de imagens preciosas, que a vida por si mesma não pode realizar" (DELEUZE, 2003, p. 146-147). Não mais as oposições real ou ficção, fiel ou traidor, morte ou vida. A questão parece tornar-se distinta: como fazer desses signos forças criadoras, detonadores de devires? Para explorar essas possibilidades tenho investido na busca por uma sensualidade do pensamento sobre comunicações, educações e ciências que se entretece e estremece no encontro com a arte.

O papel-imprensa nos convida a pensar que o real tem uma forma de expressão, ou melhor, formas. Formas que dão ao real o status de verdade. Que se constituem pela exclusão de outras formas consideradas meras ficções (os mitos). A ficção colocada como construção, voluntária ou involuntária, da imaginação, em oposição ao real. Criação imaginária, fantasiosa, fantástica, quimera. Um relato ou narrativa que teria intenção objetiva, mas que resultaria de uma interpretação subjetiva de um acontecimento, fenômeno, fato etc. A ficção emerge como mentira, falácia, farsa, fraude. Sinônimo de fingimento, antônimo de real. Uma elaboração que afeta o sentido de realidade. A pobreza da ficção, que se coloca como oposição ao real, para Maurice Blanchot, reside na sua capacidade de "tornar presente o que a faz irreal, acessível somente à leitura, inacessível à minha existência" (BLANCHOT, 1997, p. 78). Assim como a forma do real, a forma da ficção é da ordem do tempo cronológico. Essas duas formas terminam por nos afastar das coisas, da realidade, tomando seu lugar, sendo as coisas, sendo a realidade. Preenchendo a casa vazia com o ser-objeto-evento identificado. As formas do verdadeiro se apoiam na autoridade visível dos/nos seres-objetos do mundo. Nas relações de correspondência, identidade, conformidade. Forma-papel-cópia. Desfazer a linguagem como poder passa por desfazer a forma do verdadeiro, por apagar o rosto. Por destituir a linguagem da divindade da representação. Pela afirmação da força de uma lógica do tempo diferente, que nos faz sentir que o tempo está fora dos eixos, enlouquecido (PELBART, 2000).

Os papéis, essas inquietantes produções humanas, não têm sua autoridade dada, mas insistentemente (des)constituída. Que ora se estabiliza, ora foge na impossibilidade de representar o real, que surge no questionamento do valor de documento-registro dos papéis. Por optar pela forma do real, em oposição à forma da ficção, o papel-imprensa confere poder à noção de máquinas-de-copiar. Quase Xerox.

Não se trata de dizer que o papel-imprensa representa a vida, mas de afirmar que dá poder à forma da representação. As narrativas, as palavras, as imagens que se pautam na semelhança, na correspondência, na figuração não são representações do real, mas nos dão a ver a forma da representação, do orgânico, do verdadeiro, do real. Forma garantida pela separação entre sujeito e objeto, pela preexistência do mundo real. Criando efeitos, não aparências, de semelhança, de identidade, objetividade e verdade.

O papel-imprensa força a pensar nos caminhos que seriam (im)possíveis percorrer-criar para libertar a ficção do modelo de verdade que a penetra e corrói. François Zourabichvili detecta no pensamento de Deleuze a fabulosa possibilidade de pensar que "a ficção é uma experimentação ativa, a exploração de pontos sensíveis da vida, ela não é o contrário da realidade, mas a face atual das intensidades percorridas" (PELBART, 2005, p. 1327).

Quando o papel torna-se fecundo, porque não remete a uma vida pré-existente. Mata a vida e simultaneamente produz uma nova vida, além dos limites do vivível. Papel-vida-abertura. Proliferações que escapam aos polos, objetividade ou subjetividade, verdadeiro ou falso, real ou irreal. Optando pela fidelidade ao real, não atingem a vida, e optando pela traição ao real, reforçam o modelo de verdade que julga a vida. Ao verter na terra um fabuloso tempo, o papel transforma-se numa máquina-de-tempo, que dá asas à metamorfose. Capaz de liberar afetos: "estes devires que desbordam o que passa por eles (ele torna-se outro)" (DELEUZE apud BELLOUR & EWALD, 1991, p. 11).

Em Mil Platôs, Gilles Deleuze e Félix Guattari (1997) trazem à tona a potência da vida na iminência da morte, da sentença de morte que as palavras de ordem do papel-imprensa produzem. A reversão do signo da morte que atravessa o papel passa não por uma eliminação das palavras de ordem, mas pela efetuação de suas diferentes potências. Se o veredicto das palavras de ordem anunciam a morte, trazem em si mesmas não apenas a ameaça de morte, mas, simultaneamente, ameaça e fuga. Porque a morte-papel-pensamento não é o final que a divindade da representação mantém com o presente-correspondente-tempo-cronológico. Não é a morte do Eu=Eu, provocada por tornar o outro um igual, idêntico. A traição e a morte acontecem quando se desligam do sujeito que as afeta, das percepções que as determinam, das vivências que as tornam trágicas. Tempo de aniquilamento e sobrevivência, destruição e criação, ruína e canteiro de obras.

Um experimentar que não é da ordem do sensível, não se confunde com o percebido, o vivido, nem por um eu, nem por um outro. Também não se trata de resgatar memórias, antes de lutar com elas, por meio de uma experimentação entre o passado e o futuro, entre a vida e a morte. Emergem singularidades impessoais. Algo que não se tem certeza se pertence a alguém, tamanha expropriação. Uma luta, um combate, contra o que impede o pensamento, contra tudo que aprisiona a vida, contra as máquinas binárias, de universais, de totalizações, hierarquizações, explicações, reflexões, que funcionam em nós, nos papéis, nas escritas, nas imagens, que nos violentam.

Quando o papel-imprensa se torna capaz de uma escrita-vida, liberta um tempo em que os seres-objetos do mundo, a vida, não estão no papel, representados no papel; afirma que o papel não comunica conteúdos, informa códigos, não é uma mera expressão das ciências, do mundo, da vida e torna possível o desaparecimento do "Eu" que correspondia aos sentidos. Desviando do comunicar, informar, mediar para um entrar em comunicação com o mundo, no próprio papel. Não revelando um conteúdo que estaria escondido, antes multiplicando, esfacelando e dispersando mundos. Avizinhando partes dispersas transversalmente. Dissolvendo mundos. Explodindo conteúdos. Comunicações virulentas no próprio papel, que geram canais de passagens, propagação de signos de vida. Tempo de caos e multiplicidade. A comunicação deixa de ser um princípio do papel-imprensa e passa a resultar do jogo das máquinas, das peças, dos fragmentos incomunicáveis. Numa efetuação que não é da ordem das interpretações, explicações, desenvolvimentos e analogias. Trata-se de uma busca distinta: da criação. Uma criação inútil, catastrófica, improdutiva e bizarra. Sem reminiscências, essências e equivalentes espirituais na vida, sem leis gerais e totalizações. Sem exterioridade, órfã, sem ninguém dentro, nem fora.

Uma potência do papel de libertar uma verdade nebulosa, turva, onde a indiscernibilidade entre realidade e ficção, e a indecidibilidade entre verdadeiro e falso, tornam-se potentes. Se há morte, se há um querer morrer, na criação, é de um modo muito distinto do que na descoberta, revelação e interpretação. Talvez se aproxime da sensação de "um beijo no rosto morto" (LISPECTOR, 1978).

Nesse espaço em que os deslizes impedem os preenchimentos, a abertura para um devir qualquer coisa do papel, das imagens, palavras e sons... O devir, pensando com Deleuze, como um povo, um povo-ar, que imagens, palavras e sons – por meio de políticas distintas – poderiam convoc-ar.

 

Referências

BARROS FILHO, C. Ética na comunicação. São Paulo: Moderna, 1995. p. 63-121.         [ Links ]

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Recebido em 02/10/2011. Aprovado em 19/12/11.

 

 

* Este trabalho é um fragmento da minha tese de doutorado Papelar... escrita, tempo e vida por entre imprensas e ciências (2008), defendida na Faculdade de Educação na Unicamp, no grupo OLHO-Laboratório de Estudos Audiovisuais.
1 "La justificación de la denominación 'acontecimento Proust' involucra dos perspectivas: por un lado, la que refiere el cruze que puede estabelecerse entre la obra y la vida del autor para elucidación de la vinculación entre la obra de arte y el tiempo, y, por otro, la que pondera el impacto de em busca del tiempo perdido en el conjunto de la literatura francesa y mundial (como límite que marca un antes y un después, tanto em la estruturación narativa o la consideración artística del tiempo como em la construcción de la novela educativa o de formación). En este trabajo me referiré sólo a la primera perspectiva" (CERLETTI, 2004, p. 10).
2 Alejandro Cerletti se opõe à idéia de que Em busca do tempo perdido seja uma "novela educativa", uma "novela de formação", cujo ponto medular é a constituição de uma subjetividade. "la novela educativa es tributaria del ciclo: extrañeza/aprendizaje/autoconocimiento o autodescubriminto/integración al mundo; por otro, presupone uma 'naturaleza' humana o un conjunto de disposiciones preexistentes em los seres humanos que deberán ir tomando forma, o conformándose de acuerdo com las pautas dominantes de uma cultura" (CERLETTI, 2004, p. 1). O esquema linear e metafísico, da primeira e da segunda característica, respectivamente, seria desbordado pela obra de Proust, reformulando "o sentido educativo da obra".
3 "Segundo Deleuze, a tradição filosófica pensa o ser a partir de categorias que seriam seus predicados últimos. Assim, seriam categorias de uma coisa suas qualidades (cor, sabor, etc.), suas quantidades (número, tamanho, peso etc.) suas relações (liga-se a quê?, Surge do quê?, Interfere em quê?), suas ações e paixões frente a outros corpos (capacidade de afetar e ser afetado). Mas, como pano de fundo elementar de todas essas categorias, o que de mais essencial há nelas, e que define o ser substancialmente, diz respeito ao ser que é. Ou seja, no plano das categorias, o que define o ser substancialmente, diz respeito ao ser que é" (NASCIMENTO, 2007, p.2).
4 <www.labjor.unicamp.br/biotecnologias/calcadao.html>