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Linguagem em (Dis)curso

versión On-line ISSN 1982-4017

Ling. (dis)curso vol.18 no.1 Tubarão enero/abr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-4017-180103-5017 

Artigos de Pesquisa

O AUTORREPARO COMO ESTRATÉGIA ADAPTATIVA NA FALA EM INTERAÇÃO DE UM AFÁSICO

Self-repair as an adaptive strategy in talk to interaction of an aphasic man

El auto-reparación como estrategia adaptativa en la habla en interacción de un afásico

Lívia Miranda de Oliveira1  *

Julia Gonçalves Dias2  **

1 Universidade Federal de Sergipe. Centro de Ciências da Saúde. Departamento de Fonoaudiologia. São Cristóvão, SE, Brasil.

2 Universidade Federal de Sergipe. Centro de Ciências da Saúde. Departamento de Fonoaudiologia. São Cristóvão, SE, Brasil.

Resumo

Este artigo, fruto de uma pesquisa em desenvolvimento em uma universidade pública, utiliza o arcabouço teórico-metodológico da Análise da Conversa etnometodológica em análises da fala em interação no contexto da saúde, com o objetivo de investigar as ocorrências de autorreparo realizadas por um homem afásico. Os dados gravados em áudio e vídeo foram transcritos para análise de acordo com convenções propostas pelos analistas da conversa. Os resultados apresentam diferentes organizações do autorreparo como estratégia adaptativa, sugerindo competência pragmática do sujeito afásico no engajamento na interação em curso e na resolução de problemas interacionais decorrentes de seu comprometimento linguístico.

Palavras-chave: Reparo conversacional; Autorreparo; Afasia

Abstract

This article, which results of a research under development in a public university, uses the theoretical and methodological framework of the Ethnomethodological Conversation Analysis to analyze talk to interaction in the health context with the purpose of investigating the occurrences of self-repair performed by an aphasic man. Recorded data were transcribed according to conventions proposed by conversation analysts. The results show different organizations of self-repair as an adaptive strategy, suggesting pragmatic expertise of the aphasic in the engagement in the ongoing interaction and in the resolution of interactional problems arising from his linguistic deficits.

Keywords: Conversational repair; Self-repair; Aphasia

Resumen

Este artículo, fruto de una investigación en desarrollo en una universidad pública, utiliza la estructura teórica y metodológica del Análisis de la Conversación etno-metodológica en análisis de la habla en interacción en el contexto de la salud, con el objetivo de investigar las ocurrencias de auto-reparación realizadas por un hombre afásico. Los datos registrados en audio y video tuvieron su transcripción para análisis de acuerdo con convenciones propuestas por los analistas de la conversación. Los resultados presentan diferentes organizaciones de auto-reparación como estrategia de adaptación, sugiriendo competencia pragmática del sujeto afásico en el compromiso en la interacción en marcha y en la resolución de problemas de interacción decurrentes de su comprometimiento lingüístico.

Palabras clave: Reparación de conversación; Auto-reparación; Afasia

1 INTRODUÇÃO

No início dos estudos afasiológicos, Jackson (1931) e Goldstein (1939) advogavam que o comportamento linguístico dos afásicos era uma manifestação de adaptações aos efeitos da lesão neurológica em vez de reflexão direta dessa lesão. Adotando esta visão, diversos estudiosos que se inserem no território da interface entre estudos afasiológicos e estudos da linguagem desenvolveram pesquisas que corroboram essa tese inicial bem como a atualizam com novos achados (cf. PENN, 1987; HEESCHEN; SCHEGLOFF, 2003; WILKINSON et al., 2007; BEEK; WILKINSON; MAXIM, 2009; OLIVEIRA, 2015), tratando tais adaptações como estratégias adaptativas ou estratégias compensatórias.

Seguindo essa mesma perspectiva, este artigo elege interações em grupo entre pessoas com e sem afasia como um lugar privilegiado para se estudar o comportamento linguístico dos afásicos, ou melhor, as estratégias adaptativas das quais eles fazem uso para alcançar uma comunicação bem-sucedida. Para tanto, busca-se suporte em uma abordagem do campo da Análise do Discurso que tem o compromisso direto em subsidiar teórica e metodologicamente estudos interacionais em Linguística - a Análise da Conversa Etnometodológica (ACe) (cf. SCHIFFRIN, 1994), cujos precursores advêm do campo da sociologia. O arcabouço da ACe vem sendo utilizado cada vez mais em estudos no Brasil e no exterior que analisam interações na área da saúde (cf. SILVA; ANDRADE; OSTERMAN, 2009).

Neste estudo, o olhar para as interações em um grupo de afásicos teve o objetivo de analisar a fala em interação de um dos integrantes, que apresenta um tipo de afasia que se manifesta em uma dificuldade para encontrar a palavra que deseja falar, sendo tradicionalmente classificada como afasia anômica, a fim de a) elucidar a organização (iniciação e finalização) do autorreparo utilizado por ele como uma estratégia adaptativa para lidar com a dificuldade de encontrar palavras para se expressar e b) investigar os benefícios interacionais advindos do uso dessa estratégia.

Inicialmente, será apresentada uma fundamentação teórica que refaz brevemente a trajetória do surgimento da ACe, iniciando nos estudos sociológicos e culminando nos estudos dos analistas da conversa sobre reparo conversacional, o fenômeno de investigação deste artigo. Em seguida, serão abordados aspectos metodológicos do estudo aqui desenvolvido para, posteriormente, serem analisados trechos de fala em interação em que o autorreparo se revela como uma estratégia adaptativa. Por fim, serão tecidas algumas considerações finais sobre as singularidades e as contribuições deste estudo.

2 DA MACRO À MICROSSOCIOLOGIA

Talcot Parsons, figura dominante da sociologia americana do século XX, propôs a “teoria da ação” segundo a qual as motivações dos atores sociais se encontrariam integradas em modelos normativos que regulariam suas condutas, o que garantiria a estabilidade da ordem social e sua reprodução em cada encontro. O autor encontrou apoio para sua tese no argumento freudiano de que as regras da vida em sociedade seriam interiorizadas pelo indivíduo e constituiriam o que Freud denomina de “super-ego”, isto é, uma espécie de tribunal interior que governaria nossos comportamentos e até mesmo nossos pensamentos. A partir dessa concepção, a realidade seria preexistente e normativa, e os atores sociais seriam replicadores/reprodutores de regras, privados de reflexividade e, por esta razão, incapazes de analisar sua relação de dependência a esse conjunto de normas. Assim sendo, a comunicação seria estabelecida a partir de símbolos que preexistem aos encontros sociais, como sistema de referência e como recurso externo, inexaurível e estável (COULON, 1995).

Alfred Schutz, outro estudioso de grande reconhecimento no cenário dos estudos sociológicos daquela época, que cursou direito na Áustria, também considerava a realidade social preexistente e a concebia como realidade cotidiana. Para o autor, o mundo social seria o mundo da vida cotidiana, um mundo, para ele, intersubjetivo. Essa concepção do mundo social como sendo intersubjetivo é o ponto central da obra de Schutz. Nesse mundo/realidade, os atores sociais compartilhariam experiências por meio da comunicação. Acerca desse processo, o autor considera que, embora cada ator social perceba a realidade de uma maneira singular, existe a possibilidade de os atores sociais trocarem percepções através da comunicação.

Os estudos de Parsons e de Schutz se situam no território da macrossociologia, que, por sua vez, vale-se de métodos quantitativos em suas pesquisas de campo. Entretanto, há uma outra vertente da sociologia, a microssociologia, que se utiliza de métodos qualitativos em suas pesquisas por considerá-los mais adequados para o estudo da realidade social. Nessa vertente, insere-se o interacionismo simbólico, cuja origem se deu na “Escola de Chicago”, que advoga que a objetividade da macrossociologia afasta o pesquisador do mundo social que deseja estudar, e sustenta que se deve, em primeiro lugar, “levar em conta o ponto de vista dos atores sociais, seja qual for o objeto de estudo, pois é através do sentido que eles atribuem aos objetos, às situações, aos símbolos que os cercam, que os atores constroem seu mundo” (COULON, 1995, p. 15).

De acordo com o interacionismo simbólico, os atores sociais desempenhariam um papel criativo na construção de sua vida cotidiana e o significado social dos objetos seria construído pelos atores sociais no curso das interações. Se alguns desses significados gozassem de estabilidade no tempo, deveriam ser renegociados a cada nova interação, que, por sua vez, exibiria uma ordem negociada, temporária, frágil, instável e que deveria ser permanentemente reconstruída a fim de interpretar o mundo (COULON, 1995). Trata-se de uma visão de mundo/realidade social não preexistente, mas construída no “aqui e agora” da interação.

Alinhando-se ao interacionismo simbólico e contrapondo-se às teorias macrossociológicas, Harold Garfinkel desconsidera a existência de uma passividade reflexiva, afirmando que o indivíduo não é um “idiota social”, regido apenas por coerções externas; visão esta que o afasta das ideias de Parson. Ademais, influenciado por Schutz, Garfinkel também diverge de Parsons por não conceber que as ações dos agentes se confundem com a lógica científica e por considerar que as ações idealmente racionais não devem ser buscadas no mundo do senso comum (HERITAGE, 1999).

O autor propôs o que seria o alicerce de sua teoria etnometodológica - a concepção de que a realidade social seria uma realização contínua dos atores sociais no seio de suas atividades cotidianas. Interessavam à etnometodologia, então, investigações sociológicas que residissem em uma ordem de grandeza de nível micro, os microfenômenos, o que romperia radicalmente com os modos de pensamento da sociologia tradicional. A partir desse ponto de vista, os símbolos utilizados para a comunicação não se encontram estabelecidos em conjuntos de regras e normas de comunicação preexistentes, mas são construídos por processos de interpretação. Tal visão se configuraria como uma mudança do paradigma normativo (parsoniano) para o paradigma interpretativo (etnometodológico), priorizando a abordagem qualitativa do social em contraposição a uma abordagem quantitativa (COULON, 1995).

Em suma, do ponto de vista da etnometodologia, a relação entre ator social e realidade não estaria atrelada à reprodução (por aquele) de regras (desta), mas sim seria produzida por processos de interpretação, de modo que os atores sociais seriam ativos na construção da realidade. Para os etnometodólogos, a etnometodologia é o estudo das atividades cotidianas e de um mundo/realidade social que não preexiste. Os atores sociais, portanto, não reproduziriam regras, mas atualizariam regras sociais reveladas nas práticas cotidianas.

A partir dos anos 70, a etnometodologia começou a cindir-se em dois grupos: o grupo dos analistas da conversa, que tentavam descobrir em nossas conversas as reconstruções contextuais que lhes permitem dar sentido e continuidade às mesmas; e o grupo dos sociólogos, para os quais as fronteiras reconhecidas de sua disciplina se achavam circunscritas aos objetos mais tradicionais que a sociologia estuda, como a educação, a justiça, as organizações, as administrações, a ciência (COULON, 1995). Instaurava-se aí a oposição entre duas vertentes: a microssociologia e a macrossociologia.

Nesse cenário, a emergência da Análise da Conversa de base Etnometodológica (doravante ACe) veio enriquecer os estudos linguísticos por trazer para esse campo um rico instrumental teórico-metodológico que fundamenta análises linguístico-interacionais com a proposta de desviar o foco do texto/da estrutura/da forma e direcioná-lo para categorias interacionais/para a fala-em-interação.

3 A ANÁLISE DA CONVERSA ETNOMETODOLÓGICA

A Análise da Conversa Etnometodológica (ACe) surgiu nos Estados Unidos em meados dos anos 60, como vimos, dentro da sociologia, através do trabalho de Harvey Sacks e colaboradores (Emanuel Schegloff, David Sudnow, Gail Jefferson e outros), como uma abordagem direcionada ao estudo da organização social da conduta diária (POMERANTZ; FEHR, 1997).

A ressonância das ideias de Sacks e Garfinkel - fundador da etnometodologia - no que dize respeito às bases da ordem social marca o interesse da ACe (análogo ao interesse da etonmetodologia) em descrever os processos que usamos para construir a ordem social. Durante os trinta anos seguintes, a ACe produziu um corpo substancial de análises rigorosas e informativas das ações e interações humanas cotidianas (POMERANTZ; FEHR,1997), isto é, análises de interações “em contextos do mundo real, entre pessoas que têm relacionamentos reais, cujas falas têm consequências e justificativas reais” (HERITAGE, 1988, p. 23), que sofrem o mínimo possível de interferência do analista.

Norteada, então, pelos princípios de uma Microssociologia, a ACe estuda a forma mais básica dos sistemas de trocas de fala - a conversa - voltando-se para as práticas cotidianas a fim de compreender a organização sistemática refletida por essas práticas. A partir dessa visão, as conversas são organizadas por regras indispensáveis para sua intelegibilidade que fazem parte da competência pragmático-interacional de cunho social dos indivíduos, sendo o objetivo da ACe “explicar os métodos compartilhados pelos participantes de uma interação que os possibilitam construir sentidos e reconhecer suas próprias condutas bem como a conduta do outro” (POMERANTZ; FEHR, 1997, p. 69).

Duranti (1997) argumenta que o modo com que os analistas da conversa abordaram o estudo da linguagem como uma forma de ação social foi inovador e introduziu métodos e conceitos que mudaram para sempre o modo de pensar de muitos pesquisadores. O estudo da conversa foi negligenciado por muito tempo por pesquisadores de diversas vertentes, dentre eles os linguistas, que achavam que a conversa era desorganizada, titubeante e agramatical, não oferecendo um conjunto coerente de dados para analisar a gramática de modo sistemático.

Ousando demonstrar que havia sistematicidade na conversa e descrever a organização dos padrões de ação nas diversas atividades da vida humana, Sacks eleva a conversa a objeto de investigação sociológica e recorre ao método de transcrição da fala-em-interação para desenvolver seus estudos, o que diferencia sua metodologia daquela utilizada no campo da etonometodologia, os métodos experimentais de quebra de expectativa.

Fazendo uso dessa ferramenta metodológica, Sacks e seus colaboradores (inicialmente Emanuel Schegloff e Gail Jefferson) apresentaram os modelos de organização da fala, que eram regidos por sistemas de regras (métodos realizados pelos interactantes para realizar ações), descrevendo-os minuciosa e fidedignamente. Dentre esses modelos, destaca-se a primeira proposta dos autores - o modelo de tomada de turnos na conversa.

De acordo com Sacks, Schegloff e Jefferson (1974), os sistemas de tomada de turnos são construídos de diversas formas, visto que são usados para organizar tipos de atividades bastante diferentes uns dos outros. Os sistemas de tomadas de turno são regidos por regras, cuja premissa principal é “falar um de cada vez”, e são dispostos linearmente, sendo que, em um polo (que abriga, por exemplo, a conversa), operam-se técnicas de alocação de um turno de cada vez de acordo com meios locais de alocação; no outro polo extremo (que abriga, por exemplo, o debate), operam-se técnicas de pré-alocação de todos os turnos; e, em tipos médios (que abrigam, por exemplo, as reuniões), operam tanto técnicas de pré-alocação quanto técnicas de alocação local.

Esse estudo inaugural dos autores mostrou que, em qualquer conversa,

(1) a troca de falante se repete, ou pelo menos ocorre; (2) na grande maioria dos casos, fala um de cada vez; (3) ocorrências de mais de um falante por vez são comuns, mas breves; (4) transições (de um turno para o próximo) sem intervalos e sem sobreposições são comuns ...; (5) a ordem dos turnos não é fixa, mas variável; (6) o tamanho dos turnos não é fixo, mas variável; (7) a extensão da conversa não é previamente especificada; (8) o que cada um diz não é previamente especificado; (9) a distribuição relativa dos turnos não é previamente especificada; (10) o número de participantes pode variar; (11) a fala pode ser contínua ou descontínua; (12) técnicas de alocação de turno são obviamente usadas ...; (13) várias ‘unidades de construção de turnos’ são empregadas ...; (14) mecanismos de reparo existem para lidar com erros e violações da tomada de turnos ... (SACKS; SCHEGLOFF; JEFFERSON, 1974, p. 14-15).

Portanto, ao estudar conversas cotidianas, os autores observaram, entre outros aspectos, a necessidade de propor um outro modelo voltado, agora, para o sistema de reparo conversacional, que será aqui apresentado e elucidado no contexto das afasias.

4 ESTUDOS SOBRE O REPARO CONVERSACIONAL EM CASOS DE AFASIAS DE EXPRESSÃO

A afasia é classicamente definida como “alterações de processos linguísticos de significação de origem articulatória e discursiva (nesta incluídos aspectos gramaticais) produzidas por lesão focal adquirida no sistema nervoso central, em zonas responsáveis pela linguagem” (COUDRY, 2001, p. 5). Assim concebendo tal patologia da linguagem, podemos assumir que a construção de sentidos (a significação, nas palavras de Coudry) na interação pode se encontrar prejudicada em decorrência das limitações linguísticas do afásico, afetando, por conseguinte, a intersubjetividade dos interactantes. Os reparos, nesse caso, operariam no resgate da intersubjetividade, abrindo espaço para o sucesso da comunicação, da construção de sentidos.

Em um estudo intitulado The Preference for Self-Correction in the Organization of Repair in Conversation, publicado em 1977, Schegloff, Jefferson e Sacks introduzem seu texto destacando que o reparo opera em conversas para lidar com problemas de produção, escuta e entendimento, e que existe um predomínio (por ocorrer mais comumente) do autorreparo em relação ao reparo pelo outro, que eles consideram ser uma preferência por autorreparo (que não se trata de uma motivação individual); preferência esta que Heeschen e Schegloff (2003) observaram estar preservada em pessoas com afasia de expressão, como é o caso deste estudo.

De acordo com Schegloff, Jefferson e Sacks (1977), embora o termo correção seja comumente associado à substituição de algo errado por algo correto, o reparo não configura uma contingência de um erro e nem mesmo se limita à substituição. Para exemplificar, os autores se referem à “busca por palavras”, em que a palavra não está disponível ao falante, e alegam que, diante dessa ocorrência, o reparo não se configura como uma correção e nem promove uma substituição de termos. É exatamente esse tipo de ocorrência - reparos diante de busca por palavras - que é aqui analisada.

Na descrição da organização do reparo, eles apresentam a iniciação e a finalização do reparo como etapas distintas do mesmo fenômeno, chamando a atenção para o fato de que quem executa o reparo não é necessariamente quem o iniciou. Diante disso, o reparo é considerado um fenômeno sequencial que abarca segmentos de reparos na fala em curso, sendo a iniciação e a finalização partes dos segmentos.

Ademais, os autores alegam ser possível ocorrer autoiniciação do reparo (pelo falante da fonte do problema) ou iniciação do reparo pelo outro (por outra parte qualquer que não seja o falante da fonte do problema). A autoiniciação do reparo ocorre em três posições: a) no mesmo turno da fonte do problema; b) no espaço de transição de turno; c) no terceiro turno, ou seja, no turno que segue o turno subsequente à fonte do problema. Já para o reparo iniciado pelo outro, existe uma posição principal para a sua ocorrência: o turno exatamente subsequente ao turno da fonte do problema.

Os autores também elucidam técnicas iniciadoras de reparo, a) como as perturbações de fala não lexicais, incluindo os cut-offs e sound stretches, que sinalizam a possibilidade de iniciação de reparo logo a seguir e que são utilizadas em autoiniciações de reparo; e b) como dispositivos, utilizados nas iniciações de reparo pelo outro, que consistem em perguntas como Â?, O quê?, Quem?, Onde? e Quando?, repetição parcial do turno da fonte do problema seguida de pronomes interrogativos, repetição parcial do turno da fonte de problema, a construção “Y quer dizer + o entendimento do turno anterior”.

Quanto aos cursos e às trajetórias dos reparos, Schegloff, Jefferson e Sacks (1977) defendem que a maioria dos reparos autoiniciados são iniciados no mesmo turno da fonte do problema e são levados a cabo (de modo bem-sucedido) nesse mesmo turno, assim como os reparos cujas autoiniciações ocorrem no espaço de transição de turno ou no terceiro turno, que também são realizados no mesmo turno da iniciação. De modo distinto, a maioria dos reparos iniciados pelo outro no próximo turno ocupam múltiplos turnos em sua resolução.

Em seu estudo sobre trajetórias de reparo em uma interação que envolvia pessoas com afasia com comprometimento da expressão verbal, Oliveira (2009) buscou investigar se a organização da trajetória do reparo se apresentaria conforme as descrições de Schegloff, Jefferson e Sacks (1977) a respeito desse fenômeno e as descobertas de Garcez e Loder (2005). Neste estudo, observaram-se as seguintes ocorrências:

  1. reparo iniciado e levado a cabo no mesmo turno da fonte do problema pela própria falante (afásica) da fonte do problema diante de manifestações linguísticas que a literatura afasiológica chama de parafasia semântica e anomia;

  2. reparo iniciado pela falante (afásica) da fonte do problema e levado a cabo pela outra interactante (afásica) diante de um momento de anomia;

  3. reparo iniciado pela interactante não afásica e levado a cabo pela falante (afásica) da fonte do problema diante de uma dificuldade de estruturação do enunciado;

  4. uma ocorrência até então não retratada na literatura que consiste em um reparo encaixado em outro reparo, onde um mesmo componente de finalização leva a cabo dois reparos diferentes, iniciados consecutivamente por diferentes falantes (um deles é o falante afásico da fonte do problema);

  5. reparo iniciado e levado a cabo pela interactante não afásica diante da ocorrência de uma parafasia verbal, diante do uso de um recurso alternativo de significação, neste caso, o gesto, pela falante afásica e diante de enunciados com problemas de estruturação morfossintática.

Schegloff (1979) destaca a relevância do reparo para o que ele trata como syntax-for-conversation (uma sintaxe própria da conversa, que se diferenciaria da sintaxe de outros gêneros discursivos) sobretudo diante de problemas de produção, em que o reparo realiza um rearranjo dos componentes da sentença. Conforme apresentado pelo autor e revelado no estudo de Oliveira (2009), o reparo afeta a forma dos enunciados e a ordenação dos elementos sem necessariamente alterar o que ele considera ser a “identidade da sentença”. Segundo Schegloff, existem demandas estruturais derivadas dos tipos de organização discursiva da tomada de turnos (por exemplo, o tipo de construção sintática que se espera que ocorra em uma UCT (Unidade de Construção de Turnos) para considerar que ela foi finalizada e que, por conseguinte, o turno pode ser tomado) e de organização sequencial que tendem a concentrar o reparo no mesmo turno da fonte do problema em favor da syntax-for-conversation.

Embora o estudo de Oliveira (2009) tenha corroborado o de Schegloff, Jefferson e Sacks (1977) bem como o de Garcez e Loder (2005), ele revelou ocorrências não esperadas, que, segundo a autora, devem-se ao fato da interação sob investigação envolver pessoas com afasia. O reparo iniciado e levado a cabo pelo outro (RILCO), por exemplo, que é considerado uma construção despreferida e de rara ocorrência, ocorreu cinco vezes na interação, apresentando, além disso, marcas de uma construção preferida. Em suma, diante das limitações linguísticas da interactante afásica, o reparo pelo outro se configurou como uma ação de caráter cooperativo, além de possibilitar a manutenção da intersubjetividade na interação.

Também no campo dos estudos contemporâneos sobre afasia de expressão e reparo na perspectiva da Análise da Conversa, Beeke, Wilkinson e Maxim (2009) investigaram três afásicos que apresentam o que a literatura afasiológica define como agramatismo (relacionado a problemas de estruturação morfossintática do enunciado, em uma visão tradicional) em interação com seus familiares e amigos, e observaram a presença tanto de autorreparos realizados por afásicos como de reparos iniciados por não-afásicos e levados a cabo por afásicos. A singularidade desse estudo foi mostrada na correlação dos reparos conversacionais com o uso da prosódia como uma estratégia compensatória.

Outro estudo desenvolvido com o aparato teórico-metodológico da AC, cuja autoria se deve a Barnes e Ferguson (2014), analisou interações entre três afásicos e nove não afásicos. Os autores identificaram noventa e sete respostas dos interlocutores à fala problemática dos afásicos e investigaram a iniciação, a finalização e a busca pelo reparo nessas respostas. Como resultado da investigação, eles elencaram características negativas dessas ações realizadas pelos interlocutores não afásicos, como a redução da agência do afásico; o fato de as respostas dos interlocutores não afásicos não explicitarem o problema para que os afásicos possam inferir o porquê de terem falhado e se auto corrigirem de forma bem-sucedida; e o fato de as respostas acabarem por tornar relevante a incompetência linguísticas (nas palavras dos autores) dos afásicos.

Barnes (2016), todavia, em um estudo posterior, analisou interações entre quatro afásicos e seus interlocutores não afásicos na perspectiva da AC e investigou trinta e duas ocorrências de reparo iniciado pelo outro, chamando atenção para o modo como o reparo iniciado pelo outro é formatado, advogando que, a depender do formato do reparo iniciado pelo outro, o afásico pode obter sucesso em levar a cabo o reparo e, por conseguinte, em manter a intersubjetividade da interação em curso. Destaca-se neste artigo, então, um olhar positivo para a prática de reparo em interações que envolvem pessoas com afasia.

5 METODOLOGIA

Este artigo foi construído durante o desenvolvimento de uma pesquisa intitulada Narrativa como instrumento de investigação clínica das afasias (aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Sergipe sob o parecer de número 483.781), coordenada pela primeira autora, tendo a participação da segunda autora, e desenvolvida em uma instituição federal de ensino superior.

A pesquisa se desenvolve no âmbito da clínica escola do curso de Fonoaudiologia dessa instituição e possui como integrantes pessoas com afasia, discentes do curso e a docente pesquisadora e coordenadora da pesquisa. Os integrantes se reúnem em grupo semanalmente durante noventa minutos para a realização de atividades diversificadas, propostas pelas discentes e pela docente, que possibilitam o engajamento dos afásicos em práticas discursivas que oportunizam a reconstrução da linguagem. As reuniões semanais são gravadas em áudio ou vídeo, e o material gerado é transcrito de acordo com convenções propostas por estudiosos da ACe.

Cada afásico que ingressa no grupo assina um TCLE (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido) e tem garantido, entre outros, a manutenção da sua identidade em sigilo, o que é assegurado, no caso de publicações, pela substituição de seus nomes por pseudônimos. Assim sendo, João Cláudio se trata de um pseudônimo de um dos integrantes afásicos do grupo, que tem 54 anos e que atuava como agricultor até o AVE isquêmico que o acometeu em junho de 2016 e deixou, como sequela motora, uma hemiparesia (perda parcial da força) do lado direito do corpo, tornando-o dependente de sua esposa para a realização das atividades da vida diária (AVDs). Em relação à sequela linguística do AVE, João Cláudio adquiriu um tipo de afasia que a literatura afasiológica define por afasia anômica, que é caracterizada por uma dificuldade em encontrar a palavra que pretende enunciar (nos termos cognitivistas, dificuldade de acesso ao léxico). Quando não encontra a palavra que quer enunciar, João Cláudio faz uso de gestos e perífrases, além de se apoiar no discurso do interlocutor (ou seja, reitera a fala do interlocutor para em seguida construir seu enunciado) e interrompe sua própria fala, reiniciando seu turno na tentativa de se fazer entender pelos interlocutores. Esses movimentos de reiniciação da UCT pelo falante se configuraram como autorreparos e, por ser utilizado com grande frequência por João Cláudio, tornou-se relevante na interação em curso de modo que o elegemos como fenômeno de investigação neste artigo.

Portanto, com base no instrumental teórico da ACe e seguindo suas orientações metodológicas (cf. POMERANTZ; FEHR,1997), investigaremos a categoria analítica reparo conversacional, mais especificamente, autorreparo a fim de a) elucidar sua organização (iniciação e finalização) enquanto estratégia adaptativa para lidar com a dificuldade de encontrar palavras para se expressar e b) investigar os benefícios interacionais advindos do seu uso.

6 ANÁLISE

Nossa proposta neste estudo consiste em analisar as ocorrências de autorreparo na fala de um dos participantes das interações em grupo entre interlocutores afásicos e não afásicos, norteadas pelas seguintes questões de investigação: O que desencadeou o autorreparo? O que o autorreparo promoveu na interação em curso? Com isso, analisando a organização do reparo, sua trajetória (iniciação e finalização) e os benefícios interacionais de seu uso, pretendemos investigar se, neste contexto interacional, o autorreparo se configura como uma estratégia adaptativa produtiva.

Conforme mencionamos anteriormente, as gravações sob análise decorrem de reuniões semanais de um grupo de afásicos e não afásicos. Esse grupo faz parte de um projeto de extensão, que, por um lado, aproxima a sociedade da universidade ao abrir um espaço semanal para realização de atividades envolvendo pessoas com afasia e, por outro, cria um espaço para a geração de dados que servirão à pesquisa científica na área.

Nas reuniões grupais das quais os dados sob análise foram extraídos, as atividades tinham o objetivo de propor enquadres interacionais que proporcionassem o engajamento dos afásicos em práticas discursivas. No caso dos dados aqui analisados, temos, em um primeiro momento, um enquadre de relato de procedimento, e, em um segundo momento, um enquadre de narração de histórias de AVE.

6.1 AUTORREPAROS EM UM RELATO DE PROCEDIMENTO

Nos excertos que analisaremos a seguir, Lúcia (pseudônimo), fonoaudióloga, aproveita uma conversa sobre galinhas na qual João Cláudio, um dos participantes afásicos do grupo, estava explicando a ela a diferença entre galinha caipira e galinha de capoeira, expressão que lhe era desconhecida, para propor um relato de procedimento para aquela interação em curso.

01 Lúcia: entã::o, (.) é por que eu não sei cozinhar. eu
02 (.) então, não sei cozinhar direito.=
03 João Cláudio: =é↓=
04 Lúcia: =então, seu joão cláudio, conta pra gente↓
05 como é que o senhor faz galinha de capoeira↑
06 João Cláudio: rapa::z é:: tendo tempero, eu faço >todo tipo
07 de comida↓< agora (. ) se se: tiver tempero,
08 bota o tempero. se num tiver,vai faltando os
09 tempero.
10 Lúcia: e como faz↑
11 João Cláudio: é: e como faz↑ é:: bo:: bota o- se faltar um,
12 no: no: no:- (.) >se faltar um, a gente bota
13 o que tem↓ só o que tem↓<

Nos turnos das linhas 04-05, Lúcia solicita a João Cláudio um relato de procedimento (preparação de pratos, mais especificamente, galinha de capoeira). No entanto, no turno de resposta, em que, enquanto ação preferida (cf. POMERANTZ, 1984; OLIVEIRA, 2009), ele deveria relatar o procedimento, ele apenas apontou sua expertise como cozinheiro (“tendo tempero, eu faço >todo tipo de comida↓< agora (. ) se se: tiver tempero, bota o tempero. se num tiver, vai faltando os tempero.”) - linhas 06-09.

Mediante a resposta de João Cláudio, que, naquele contexto sequencial, configura-se como despreferida, Lúcia, no turno seguinte (linha 10), refaz sua solicitação de relato no formato de pergunta (“e como faz↑”). João Cláudio, então, responde à pergunta de Lúcia, iniciando o relato nas linhas 11-13: “é:: bo:: bota o- se faltar um, no: no: no: (.)- >se faltar um, a gente bota o que tem↓ só o que tem↓<”. Logo no início desse turno, ele inicia um autorreparo por meio de uma interrupção abrupta (ou cut-offs), sinalizada pelo traço e considerada uma técnica iniciadora de reparo, após enunciar o verbo “botar” seguido do artigo definido “o” que anuncia um almejado substantivo na linha 11.

Levando em conta que João Cláudio apresenta um comprometimento linguístico que se manifesta no que a literatura afasiológica trata como anomia (dificuldade de encontrar palavras), o autorreparo iniciado por meio da interrupção abrupta, nesse contexto, configura-se como uma estratégia adaptativa utilizada por ele quando não consegue encontrar a palavra que quer enunciar, neste caso, um substantivo que ocuparia a posição de objeto direto. João Cláudio, então, interrompeu seu enunciado e se engajou na construção de um novo enunciado; todavia, novamente, diante de sua limitação linguística, ele volta a se interromper e a se autorreparar nas linhas 11-13 (“se faltar um, no: no: no:- (.) >se faltar um, a gente bota o que tem↓ só o que tem↓<”). Nesse momento, ele utiliza um outro tipo de técnica iniciadora de reparo - alongamento de som, ou sounds stretches - associada à técnica de autointerrupção. Os autorreparos, então, são levados a cabo nesse turno, no primeiro momento, pela construção de um novo enunciado, e, no segundo momento, através de uma reformulação do enunciado anterior (prévio). Podemos considerar ser uma reformulação por apresentar preservação de parte do enunciado, apagamento de termos (neste caso, o “no”) e transformação do enunciado através do acréscimo de novos termos, sendo a preservação, o apagamento e a transformação propriedades indispensáveis da reformulação (cf. OLIVEIRA; ANDRADE, 2016).

Até esse momento do relato de procedimento, João Cláudio ainda não tinha apresentado as etapas da preparação da galinha de capoeira, isto é, o “modo de fazer”, o que foi solicitado por Lúcia no início do trecho a seguir.

14 Lúcia: mas como que faz?=
15 Elisa: = como é que faz para matara galinha↑
16 João Cláudio: o:::pu: pu: pu:xa o pescoço, despena, despena,
17 e abre. e abre. e: e: e: de-pe-la ela
18 >direitinho< [e: e: e:
19 Iara: [você pela com quê ela?
20 João Cláudio: hein↑
21 Iara: você pela com quê ela?
22 João Cláudio: com a mão↓
23 Iara: com a mão mesmo↑
24 João Cláudio: é.
25 Iara: não joga água quente não↓ é↑
26 João Cláudio: não, é:: ca: ca:- joga água quente↓ > joga na
27 panela, tira ela da panela,< e: e: tira ela com
28 a mão↓

Novamente, no excerto acima, podemos observar, na linha 26, o autorreparo iniciado por alongamento de vogal seguido de autointerrupção abrupta diante de uma busca por palavra em que João Cláudio não obteve sucesso (“ca: ca:-”), o que sustenta a tese de que, diante de sua limitação linguística que se manifesta em uma dificuldade de encontrar a palavra que quer enunciar, João Cláudio utiliza o autorreparo como uma estratégia adaptativa. Para levar tal autorreparo a cabo neste trecho do relato, ele apresenta uma segunda resposta à pergunta da interlocutora do turno anterior (Iara) na linha 26 (“joga água quente↓”) e, em seguida, nas linhas 26-28, constrói um novo enunciado em referência às etapas da preparação da galinha (“> joga na panela, tira ela da panela,< e: e: tira ela com a mão↓”), respondendo à pergunta que Lúcia realizou na linha 14 (“mas como que faz?”).

É interessante observar que, no turno das linhas 26-28, João Cláudio inicia a sua resposta à pergunta de Iara de se ele não joga água quente para retirar a pena da galinha negando jogar água quente; todavia, ao levar o reparo a cabo, ele altera sua resposta, afirmando jogar água quente. Em seguida, a apresentação das etapas parece ser uma explicação do enunciado anterior (“joga água quente↓”), uma vez que a partir da sequência apresentada (“> joga na panela, tira ela da panela,< e: e: tira ela com a mão↓”), podemos inferir que ele coloca a galinha na panela com água quente para depois retirar a pena.

Cabe destacar que pessoas com afasia que apresentam dificuldades expressivas costumam usar o enunciado do outro (falante anterior) como apoio para a construção do seu enunciado, o que pode ter ocorrido quando João Cláudio repete o enunciado de Iara (joga água quente) e logo em seguida acrescenta o que se configura como uma explicação (ou até mesmo expansão) desse enunciado.

Em suma, com uma segunda resposta que contradiz a sua primeira (e que é uma repetição do enunciado de Iara na linha anterior) e com a apresentação das etapas iniciais da preparação da galinha, João Cláudio leva seu autorreparo a cabo. As etapas seguintes desse procedimento serão apresentadas no excerto abaixo.

29 Lúcia: e depois↑
30 João Cláudio: depois? depois o quê↑
31 Lúcia: de tirar a tal da pena.
32 João Cláudio: a:::i:: você limpa ela, limpa ela, a::bre e:
33 e: tira o:: o:: o:: o::: a:- ... > limpa
34 ela<↓ tira o que não presta, e::: deixa só o
35 que presta. e bota no fogo na::- pela, limpa,
36 e::: bota no fogo↓

No trecho acima, João Cláudio prossegue com a apresentação das etapas do procedimento de preparar galinha após Lúcia, na linha 29, ter apresentado um nexo que assume, nesse contexto sequencial, um formato de solicitação de continuidade do relato (“e depois↑”). Inicialmente, ele não entendeu tal solicitação, o que pode ser verificado na pergunta que ele proferiu na linha seguinte (“depois o quê↑”). Após Lúcia acrescentar elementos à sua solicitação na linha 31 (“de tirar a tal da pena”), fazendo referência à última etapa apresentada por João Cláudio até aquele momento, ele atende à solicitação, dando continuidade ao relato. Podemos observar que ele não utilizou o mesmo nexo que Lúcia, fazendo sua própria escolha de uma conjunção para prosseguir com a apresentação das próximas etapas nas linhas 32-36 (“a:::i:: você limpa ela, limpa ela, a::bre e: e: tira o:: o:: o:: o::: a:- ... > limpa ela<↓ tira o que não presta, e::: deixa só o que presta. e bota no fogo na::- pela, limpa, e::: bota no fogo↓”). No curso dessa apresentação, temos duas novas ocorrências de autorreparos sendo iniciadas por alongamento de vogal seguido de autointerrupção. Nas linhas 32-35 (“a::bre e: e: tira o:: o:: o:: o::: a:- ... > limpa ela<↓ tira o que não presta, e::: deixa só o que presta.”), diante da dificuldade de encontrar palavras, sinalizadas desde o início da linha 33 pelas hesitações, João Cláudio se interrompe e se repara por meio de uma reformulação em que ele preserva parte do enunciado, apaga alguns termos e acrescenta elementos, transformando o enunciado. É interessante observar que sua dificuldade linguística também se manifesta nesse turno no uso de perífrase (“o que não presta”) para se referir às vísceras da galinha, que, geralmente, são descartadas na preparação de pratos.

Na linha 35, dando continuidade à apresentação das etapas, João Cláudio se interrompe, iniciando um novo autorreparo (“e bota no fogo na::- pela, limpa, e::: bota no fogo↓”), que é finalizado pela construção de um novo enunciado que sumariza as etapas. Tal enunciado, de modo distinto à ocorrência anterior de finalização do reparo, não se trata de uma reformulação, pois embora haja preservação e transformação do enunciado anterior, não há apagamento.

Através desse sumário, João Cláudio sinaliza um possível término do relato de procedimento; porém, conforme veremos no próximo excerto, Lúcia solicita informações adicionais, o que, por um lado, demonstra interesse no relato, e, por outro, sugere que o relato carece de informações para o entendimento de como se prepara uma galinha de capoeira.

37 Lúcia: inteira↑ o senhor faz ela inteira↑=
38 João Cláudio: = inteira? não. corta, corta, e bota no fogo.
39 Lúcia: no fogo↑ na panela com ENT#091;água?
40 João Cláudio: ENT#091;panela. na panela com
41 água.
42 Lúcia: e o tempero↑ que horas põe o tempero?
43 João Cláudio: o tempero↑ bo bota o tempero pa::- (( pigarreia
44 ))>bota o tempero<, pra ferver, (.) pra depois
45 bu: butar a galinha a::í depois que o te:
46 tempero tiver fervendo, bota a galinha.

No trecho final do relato apresentado no excerto acima, Lúcia solicita a elucidação de algumas informações acerca da preparação da galinha nas linhas 37 (“o senhor faz ela inteira↑”) e 39 (“o fogo↑ na panela com ENT#091;água?”), sinalizando a necessidade dessas informações para o relato ser considerado finalizado, não obstante João Cláudio já ter apresentado anteriormente sua proposta de finalização. Trata-se de uma prática comum, no contexto de terapia fonoaudiológica, a intervenção colaborativa do terapeuta nas construções do paciente afásico por meio de ações que, por exemplo, solicitam esclarecimentos com o objetivo de alcance/manutenção da intersubjetitividade na interação (cf. OLIVEIRA; CARMO, 2015). A solicitação de Lívia, neste caso, foi atendida por João Cláudio, que, no turno das linhas 43-46, em meio à prestação de esclarecimento, realiza um novo autorreparo iniciado por alongamento de vogal seguido de autointerrupção e finalizado por uma reformulação (“bo bota o tempero pa::- >bota o tempero<, pra ferver, (.) pra depois bu: butar a galinha a::í depois que o te: tempero tiver fervendo, bota a galinha.”).

Torna-se relevante destacar que tanto o uso do alongamento de vogal como da autointerrupção como técnicas iniciadoras de reparo como o uso de reformulação como um modo de se finalizar o autorreparo foram bastante recorrentes no relato de procedimento.

6.2 AUTORREPAROS EM UMA HISTÓRIA DE AVE

Na interação cujos dados transcritos serão apresentados e analisados abaixo, Lúcia, inicialmente, apresentou a todos os participantes do grupo a proposta de narração de histórias de AVE, que foi por eles aceita. Para iniciar essa atividade, Lúcia, que já conhecia a história de AVE de João Cláudio desde o dia da entrevista inicial, solicitou que ele desse início à atividade, narrando sua história para os demais pacientes.

01 Lúcia: conta pra gente então↓- pra eles, né, senhor
02 joão claúdio↓ o quê que aconteceu com o
03 senhor↓
04 João cláudio: o: meu é: é:- essa doença minha pegou (.) na
05 >quinta-feira.< (.)pegou na quinta-feira. (.)
06 pegou na quinta-feira, de noite. três horas
07 da manhã, aí, eu me acordei(.) me acordei (.)
08 atordoado. aí, já não consegui mais falar.
09 entrei pro quarto, e: não consegui mais
10 falar↓ (.)aí, fui pra cape- >minha menina
11 levou pra capela< de capela veio pra aqui pra
12 aracaju,(.) passei (...) três dias internado,
13 aí voltei, (.) pra casa,(.) aí: começou rezar
14 uma reza, e: e: eu consegui falar↓ porque
15 reza, disse que é bom pra falar.

No excerto acima, em aceitação à solicitação de Lúcia, João Cláudio inicia sua narrativa com apresentação de uma orientação (cf. LABOV, 1972) aos interlocutores acerca do dia da semana em que ele foi acometido pelo AVE. Logo no início dessa orientação, na linha 04, podemos observar a presença de um autorreparo iniciado por alongamento de vogal seguido de autointerrupção abrupta, sugestivo de que ele não estava encontrando a palavra que queria enunciar (“o: meu é: é:- essa doença minha pegou (.) na >quinta-feira.< (.)pegou na quinta-feira. (.)pegou na quinta-feira, de noite. três horas da manhã,”). Por meio desse recurso, que aqui está se configurando como uma estratégia adaptativa, João Cláudio cria uma oportunidade de não romper a linearidade da narrativa (cf. OCHS; CAPPS, 2001), dando continuidade à narração através da construção de um novo enunciado (“essa doença minha pegou (.) na>quinta-feira.<”) que repara o anterior (“o: meu é: é:”). Podemos interpretar esse novo enunciado como uma perífrase da palavra que ele não conseguiu encontrar, que, por inferência e com base no contexto sequencial, podemos considerar ser AVE, já que Lúcia, no turno anterior, havia solicitado que ele contasse o que aconteceu com ele, e ele, em seguida, iniciou a construção do seu turno com artigo e pronome masculinos (em referência ao AVE).

É interessante destacar que, assim como acontece na fala de pessoas que não têm afasia, na fala de afásicos, o autorreparo também é uma ocorrência ordinária; todavia, há momentos em que ele assume uma configuração de estratégia adaptativa, conforme os dados até aqui analisados vêm nos revelando. Em outros momentos, o autorreparo não é índice de nenhum sintoma afásico, como na linha 10 (“aí, fui pra cape- >minha menina levou pra capela<”), em que a autointerrupção ocorreu para abrir espaço para uma reformulação em que João Cláudio inseriu um novo personagem (a filha) na complicação (cf. LABOV, 1972) da sua narrativa, tornando-a mais explicativa/detalhada. Ainda no curso da narração da história de AVE, novas ocorrências de reparo emergem da fala em interação de João Cláudio, conforme análise do excerto a seguir.

16 Lúcia: mas, na casa do senhor, o quê que o senhor
17 sentiu, queENT#091;aconteceu↑
18 João Claúdio: ENT#091;rapaz::
19 Lúcia: com o senhor depois do derrame↑ como que foi?
20 como começou?
21 João Claúdio: olhe, olhe, eu eu me acordei, me deu vontade
22 deu ir no banheiro↓ eu fui. mas eu já ma:-
23 num num num, (.)num sabia responder, o que
24 era que que >tava me doendo a minha mulher<↓
25 e e: eu soube eu só só soube- só só (.)
26 apertava no braço dela e dizia que tava todo
27 esquecido. e uma porção de de coisa (0,2)
28 °o que mais meu deus↑°=
29 Lúcia: =e o senhor sentia o quê?
30 João Claúdio: senti senti sei lá,=
31 Lúcia: = o braço do senhor ficou como? como que
32 ficava=
33 João Claúdio: =dormente. dormente. sem sentir, o braço e a
34 perna↓ o braço direito e a perna direita sem
35 sentir nada nada.
36 Lúcia: não sentia nada?
37 João Claúdio: não.=
38 Lúcia: = nem conseguia mais andar↑=
39 João Claúdio: = não. não. nem ... nem conseguia mais andar↓
40 Lúcia: e a fala↑
41 João Claúdio: a fala ficou- eu não falava de jeito nenhum.
42 (.) eu não falava nada. nada. me dava (.)
43 da: dava:- pra mim, pra mim, eu tava ... pra
44 mim eu tava >falando<↓ mas tava falando não.
45 eu eu falava, ma: mas ninguém escutava. ai eu
46 fiquei sem falar.

Nas linhas 16 e 17, Lúcia, no papel de interlocutora e, portanto, coconstrutora da narrativa, solicita informações adicionais (“mas, na casa do senhor, o quê que o senhor sentiu, queENT#091;aconteceu↑”), o que, por um lado, é considerado uma ação de caráter colaborativo em interações que envolvem pessoas com afasia (cf. OLIVEIRA; CARMO, 2015), e, por outro, sinaliza sua recusa quanto ao encerramento do enquadre de narração. Atendendo à solicitação de Lúcia, João Cláudio, no turno das linhas 21-28 (“olhe, olhe, eu eu me acordei, me deu vontade deu ir no banheiro↓ eu fui. mas eu já ma:- num num num, (.)num sabia responder, o que era que que >tava me doendo a minha mulher<↓ e e: eu soube eu só só soube- só só (.)apertava no braço dela e dizia que tava todo esquecido. e uma porção de de coisa (0,2) °o que mais meu deus↑°”), inicia dois reparos. Na primeira ocorrência de reparo (“fui. mas eu já ma:-”), foram utilizadas as mesmas técnicas das demais ocorrências aqui analisadas, isto é, alongamento de vogal e interrupção abrupta. Tal reparo é finalizado pela construção de um novo enunciado (“num num num, (.)num sabia responder, o que era que que >tava me doendo a minha mulher<↓”), que podemos inferir, com base em uma análise sequencial, ter alguma relação com a perda da fala, visto que no excerto anterior, ele havia dito que quando acordou, não conseguia mais falar.

Ademais, podemos verificar neste excerto que Lúcia tinha perguntado como ocorreu o AVE, e, no início do turno da resposta, ele disse que já havia acontecido algo no banheiro (que ele não conseguiu enunciar). Logo em seguida, ele disse que não conseguia dizer à sua mulher o que estava acontecendo, sendo que a única coisa que ele conseguia fazer era apertar o braço dela. Podemos interpretar todo esse turno como um relato do momento da perda da fala; perda esta que, em decorrência da sua dificuldade de expressão, não foi referida explicitamente, embora o modo como ele escolheu construir seu turno (suas escolhas lexicais bem como a estruturação do enunciado) tenha fomentado a construção dessa inferência.

Na segunda ocorrência de reparo desse turno (“eu soube eu só só soube-”), a única perturbação de fala utilizada é autointerrupção abrupta, que é seguida de hesitações e micropausa (“só só (.)”). Após a pausa, João Cláudio realiza uma correção (substituição de uma palavra - soube - por outra - apertava), um componente específico de certas trajetórias de reparo (cf. GARCEZ; LODER, 2005), que é seguida pela finalização do enunciado (“no braço dela e dizia que tava todo esquecido”). Diante disso, verifica-se que o reparo foi finalizado através da correção. Isso sugere que, em um primeiro momento, ele havia feito uma escolha lexical não adequada; talvez, por influência do contexto sequencial, já que o verbo “saber” havia sido utilizado em um enunciado anterior na linha 23. Por outro lado, a escolha inadequada pode ser índice de sua dificuldade de encontrar palavras, evidenciando, novamente, que o autorreparo é utilizado por ele, de modo eficiente, para contornar a dificuldade imposta pela limitação linguística. A micropausa também pode ser índice de uma dificuldade de encontrar a palavra desejada. É interessante observar que, neste caso, a autointerrupção ocorreu após a finalização de um enunciado, ao passo que nas demais ocorrências aqui analisadas a autointerrupção antecedeu a finalização dos enunciados.

Nas últimas ações complicadoras da narrativa, turno das linhas 41-46, vemos reveladas duas outras ocorrências de reparo. Na linha 41, João Cláudio inicia um enunciado (“a fala ficou”), mas antes de finalizá-lo, ele se interrompe, iniciando em seguida um novo enunciado (“eu não falava de jeito nenhum.”) e levando o reparo a cabo. Podemos verificar que, para construir seu turno, ele apoiou-se inicialmente no discurso da interlocutora da linha 31 (“o braço do senhor ficou como?”) e na pressuposição que pode ser construída a partir do enunciado da linha 40 (Lúcia quer saber como ficou a fala), que toma como ponto de partida a pergunta da linha 31. Embora a única expressão proferida pela interlocutora Lúcia tenha sido “e a fala↑” na linha 40, é possível inferir que se trata de uma construção econômica, operando de acordo com a máxima de quantidade (cf. GRICE, 1982) e contando com a competência pragmática do interlocutor endereçado. Isso garante sua cooperação no entendimento de que, naquele contexto sequencial, o que ela estava perguntando era “Como ficou a fala?”.

Na resolução da narrativa, que traz a última ação complicadora, João Cláudio realiza mais um autorreparo na linha 43 ao interromper a UCT em curso após um alongamento de vogal (“me dava (.)da: dava:-”) e prosseguir com a construção de um novo enunciado sem nem mesmo finalizar o anterior (“pra mim, pra mim, eu tava ... pra mim eu tava >falando<↓ mas tava falando não.”). Essa estratégia sugere que ele não conseguiu encontrar a palavra adequada para completar o enunciado anterior.

Enfim, pudemos observar diversas ocorrências de autorreparo na narrativa de AVE de João Cláudio que apontam para sua dificuldade linguística de encontrar palavras e corroboram a tese aqui levantada de que o autorreparo pode ser considerado uma estratégia compensatória (e também adaptativa).

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo mostrou diferentes organizações do autorreparo enquanto estratégia adaptativa em toda sua trajetória. No que concerne às iniciações do autorreparo, foram utilizadas como técnicas perturbações de fala não lexicais como os alongamento de vogais e as autointerrupções, que sinalizam a possibilidade de iniciação de reparo logo a seguir (SCHEGLOFF, JEFFERSON; SACKS, 1979). Já em suas finalizações, os reparos foram construídos ora através de um novo enunciado e ora por meio de reformulações, sendo que em uma ocorrência o reparo foi levado a cabo por uma correção.

Os autorreparos aqui analisados possibilitaram a manutenção da posse da palavra com o interlocutor afásico, seja no papel de narrador ou em qualquer outro papel, além de demonstrar sua expertise pragmática no engajamento na interação em curso. O uso dessa estratégia garantiu importantes benefícios interacionais como manutenção da intersubjetividade e construção de uma narrativa que contemplasse uma razão de ser (um ponto, nos termos de Labov), afinal, reparos se dedicam a resolver problemas interacionais (cf. GARCEZ; LODER, 2005). Desse modo, o afásico não deixou de falar em momentos de anomia, e suas terapeutas puderam conhecer melhor suas possibilidades comunicativas e suas potencialidades linguísticas.

Embora não se trate de um estudo quantitativo, é interessante observar (sem a pretensão de mensurar) a frequência de reparos em poucos turnos de fala quando comparada com pessoas que não apresentam afasia. Não obstante sua menor frequência, o autorreparo é um fenômeno de interesse nos dados de fala em interação que não envolve pessoas com afasia, embora o fator desencadeante difira do fator que desencadeia autorreparos na fala de afásicos (cf. GAGO, 2003).

Destaque-se que o autorreparo é apenas uma das possíveis estratégias adaptativas utilizadas por afásicos para garantir sucesso na comunicação, e que a escolha por usar uma ou outra estratégia não está relacionada ao tipo de afasia e nem mesmo ao tipo comprometimento linguístico, tratando-se de uma escolha individual do afásico. Tais estratégias são consideradas produtivas pelos fonoaudiólogos quando possibilitam a comunicação do afásico de modo efetivo.

Por fim, cabe considerar a singularidade deste estudo. Embora tenham sido encontrados estudos sobre reparos em geral que trazem uma ou outra análise de autorreparos, não foram encontrados estudos que tenham elegido e focado exclusivamente os autorreparos realizados por afásicos ou não-afásicos como objeto de investigação nas literaturas nacional e internacional.

REFERÊNCIAS

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CONVENÇÕES DE TRANSCRIÇÃO

[colchetes] fala sobreposta
(.) micropausa
= contiguidade entre a fala de um mesmo falante ou de dois falantes distintos
. descida de entonação
? subida de entonação
, entonação contínua
: alongamento de som
- auto-interrupcão
Sublinhado acento ou ênfase de volume
MAIÚSCULA ↑ ↓ >palavras< <palavras> ênfase acentuada subida acentuada na entonação descida acentuada na entonação fala comprimida ou acelerada desaceleração da fala
(( )) comentários do analista
(palavras) transcrição duvidosa
( ) transcrição impossível
... pausa não medida
“palavra” fala reportada, reconstrução de um diálogo

Recibido: 24 de Abril de 2017; Aprobado: 30 de Noviembre de 2017

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Doutora em Estudos da Linguagem (PUC-Rio). Professora do curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Sergipe. E-mail: liviamirandaoliveira@yahoo.com.br.

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Graduanda de Fonoaudiologia. Bolsista PROEX-UFS. Aluna do curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Sergipe. E-mail: julinhadiaz@gmail.com.

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