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Linguagem em (Dis)curso

versión On-line ISSN 1982-4017

Ling. (dis)curso vol.18 no.2 Tubarão mayo/agosto 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-4017-180202-7917 

Artigos de Pesquisa

POR UMA ANÁLISE SISTEMÁTICA DA METAFORICIDADE NO DISCURSO

For a systematic analysis way of metaphoricity in discourse

Por un análisis sistemático de la metaforicidad en el discurso

Dalby Dienstbach* 

* Doutor em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal Fluminense. Pesquisador na Diretoria de Análise de Políticas Públicas, da Fundação Getúlio Vargas. E-mail: dalbydienstbach@gmail.com. Fundação Getúlio Vargas. Diretoria de Análise de Políticas Públicas. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Resumo

Inserido no campo dos estudos da metáfora no discurso (DEIGNAN, 2005; STEEN, 2007; MÜLLER, 2008), este trabalho introduz um instrumento sistemático e consistente para a avaliação da metaforicidade da linguagem metafórica identificada no discurso. Definindo metaforicidade como a possibilidade de reconhecimento de uma expressão metafórica como tal, esse instrumento assume, de um lado, a noção de recurso de ativação (MÜLLER, 2008) como um dispositivo crucial na determinação dessa propriedade e, de outro, a noção de gênero como sua principal base de análise (DIENSTBACH, 2017). Este trabalho apresenta parâmetros que compõem esse instrumento, acompanhados, a título de exemplificação, de excertos de textos autênticos identificados com diferentes gêneros. Por fim, discute algumas questões em aberto relativas à elaboração desse método e os tipos de análise que poderiam fazer algum uso dele.

Palavras-chave: Discurso; Metaforicidade; Gênero; Análise

Abstract

From the perspective of metaphor in discourse (DEIGNAN, 2005; STEEN, 2007; MÜLLER, 2008), this study introduces a tool for systematic and sound analyses of metaphoricity in discourse. Based on the notion of metaphoricity as the possibility of metaphor recognition, it adopts the concept of activation device (MÜLLER, 2008) as a key element for determining this property, and discourse genre, on the other hand, as its main analytical basis (DIENSTBACH, 2017). This study puts forward the devices of its analytical tool next to examples drawn from texts identified with different genres. Finally, it addresses issues related to this method that remain inconclusive, as well as studies and tasks that could somehow benefit from it.

Keywords: Discourse; Metaphoricity; Genre; Analysis

Resumen

Insertado en un campo de estudios de la metáfora en el discurso (DEIGNAN, 2005; STEEN, 2007; MÜLLER, 2008), este trabajo introduce un instrumento sistemático y consistente para evaluación de la metaforicidad del lenguaje metafórico identificado en el discurso. Definiendo metaforicidad como la posibilidad de reconocimiento de una expresión metafórica como ello, ese instrumento asume, de una parte, la noción de recurso de activación (MÜLLER, 2008) como un dispositivo crucial en la determinación de esa propiedad, y de otra parte la noción de género como su principal base de análisis (DIENSTBACH, 2017). Este trabajo presenta parámetros que componen ese instrumento, acompañados, como ejemplo, de extractos de textos auténticos identificados con diferentes géneros. Al fin, discute algunas cuestiones en abierto relativas con la elaboración de ese método y los tipos de análisis que podrían hacer algún uso de ello.

Palabras clave: Discurso; Metaforicidad; Género; Análisis

1 INTRODUÇÃO

A proposta inaugural de uma abordagem conceptual da metáfora (originalmente, LAKOFF; JOHNSON, 2002 [1980]) representa uma revolução no campo dos estudos, sobretudo, linguísticos desse fenômeno. Vista tradicionalmente como uma figura de linguagem (VEREZA, 2007a), a metáfora, a partir dessa nova perspectiva (LAKOFF; JOHNSON, 2002 [1980]; LAKOFF, 1993), passa a ser entendida, essencialmente, como um fenômeno do pensamento. E isso tem implicações sérias sobre aquilo que sabemos a respeito da natureza e do funcionamento da linguagem metafórica ‒ inclusive, sobre o que podemos considerar (ou não) como sendo uma metáfora. Por exemplo, um esforço nosso para identificarmos, enquanto especialistas, metáforas no discurso pode se tornar, muitas vezes, uma tarefa pouco tranquila (PRAGGLEJAZ, 2009 [2007]). A principal dificuldade, nesse caso, “é que a intuição dos pesquisadores é frequentemente divergente quanto ao que, de fato, constitui uma palavra ou expressão metafórica” (PRAGGLEJAZ, 2009 [2007], p. 78).

Na tentativa de mitigar essa dificuldade ‒ fruto da subjetividade que atravessa a percepção particular e, em grande parte, intuitiva do analista (ou analistas) ‒, diversas ferramentas de análise voltadas à identificação de metáforas (no discurso) já foram propostas. Podemos destacar, dentre outras, o método de “identificação de metáforas por veículo” [metaphor identification through vehicle terms] (METNET, 2006); o software “identificador de candidatos a metáfora”1 [metaphor candidate identifier] (BERBER SARDINHA, 2011, p. 352); o “procedimento de identificação de metáforas” (ou PIM) (PRAGGLEJAZ, 2009 [2007], p. 79) e a sua versão aprimorada, o “MIPVU”2 (STEEN et al., 2010, p. 25). Embora possam ser realmente eficientes nos seus respectivos propósitos, essas ferramentas resolvem a questão da identificação de metáforas exclusivamente para o especialista, deixando de fora algo que diz respeito ao processamento espontâneo desse fenômeno ‒ ou seja, algo relativo ao reconhecimento da linguagem metafórica por parte de um falante comum. Afinal de contas, falantes comuns, por via de regra, não enxergam (ou, ainda, não conseguem identificar) metáforas da mesma forma que especialistas somos treinados para fazê-lo (por exemplo, STEEN, 1994; PRAGGLEJAZ, 2009 [2007]; KÖVECSES, 2010).

Uma maneira insuspeita de verificar o reconhecimento espontâneo de metáforas, por parte de um falante comum, seria questionando formalmente esse mesmo falante a respeito desse reconhecimento ‒ por meio, por exemplo, de sondagens específicas ou testes experimentais (STEEN, 2004; GIBBS, 2006; MÜLLER, 2008). Em investigações dessa natureza, em geral, observa-se o comportamento ou juízos linguísticos de determinados sujeitos ou grupos de sujeitos, abordados (e, às vezes, monitorados) sob condições relativamente controladas, através de tarefas dirigidas e/ou com o balizamento de fatores intervenientes. Outra maneira ‒ nesse caso, mais dedutiva ‒ de averiguar o reconhecimento de metáforas envolve análises quantitativas e qualitativas da ocorrência de metáforas no discurso que sejam capazes de demonstrar (indiretamente), através de métodos de linguística de corpus, a possibilidade desse reconhecimento (por exemplo, STIBBE, 1995; KYRATZIS, 2003; MÜLLER, 2008; DUNN, 2011). O instrumento de análise de metaforicidade que este trabalho propõe faz parte do segundo tipo.

Especificamente, o objetivo deste trabalho é apresentar um instrumento de avaliação da possibilidade de reconhecimento ‒ isto é, da metaforicidade ‒ da eventual linguagem metafórica identificada no discurso. Para tanto, ele oferece, antes de tudo, uma breve explicação para o conceito de metaforicidade, que assume, de um lado, a noção de recurso de ativação (MÜLLER, 2008) como fator determinante dessa propriedade e, de outro, a noção de gênero (PALTRIDGE, 1997; STEEN, 2011) como a sua principal base de análise (DIENSTBACH, 2017). A partir disso, são apresentados os parâmetros que compõem o instrumento proposto aqui, acompanhados de exemplos recolhidos de textos identificados com gêneros diferentes. Ao final, são discutidas algumas questões inconclusas relacionadas à elaboração e à aplicação desse instrumento, bem como tipos de análise e tarefas que podem tirar algum proveito dele.

2 METAFORICIDADE NO USO

Uma explicação, em princípio, descomplicada de metaforicidade é a que a define como “o fato ou qualidade de [algo] ser metafórico”3 (OXFORD DICTIONARIES, 2016). Essa definição soa muito procedente quando a comparamos com o sentido de outras palavras morfologicamente semelhantes, tais como “utilidade” (a qualidade de ser útil), “dificuldade” (a qualidade de ser difícil), “humildade” (a qualidade de ser humilde) etc. No entanto, da forma como está enunciada, essa explicação não parece poder dar conta de quaisquer aspectos relacionados ao reconhecimento da linguagem metafórica, simplesmente, porque não leva em consideração para quem esse algo é metafórico ‒ se, por exemplo, para o falante comum ou para o analista de metáforas - apesar de o dicionário, em algum outro lugar, certamente oferecer uma definição do que seria uma metáfora. De fato, quando se assume uma visão de metáfora baseada em ambas as suas dimensões conceptual e, mais recentemente, discursiva ‒ como é o caso das abordagens contemporâneas desse fenômeno (por exemplo, DEIGNAN, 2005; STEEN, 2007; SEMINO, 2008; VEREZA, 2010a) ‒, as explicações para a sua natureza e para o seu funcionamento precisam atentar para todos os aspectos (cognitivos, individuais, sociais etc.) relativos ao seu processamento real, e não somente relativos à linguagem metafórica per se.

Por essa razão, este trabalho opta por se alinhar a uma visão mais discursiva de metaforicidade, que a define como uma propriedade que, além de estar, em grande medida, ancorada na dimensão conceptual das metáforas, é essencialmente dependente do contexto em que se faz uso delas (principalmente GOATLY, 1997; MÜLLER, 2008). Em um sentido mais estrito, essa definição argumenta que “a metaforicidade de uma metáfora que se fala ou se escreve depende não somente de processos cognitivos; […] ela está inserida, também, no curso da fala, da escrita e da consciência”4 (MÜLLER, 2008, p. 36). A possibilidade de reconhecimento da linguagem metafórica como tal constitui, portanto, uma propriedade dinâmica, variável e gradual (DIENSTBACH, 2017), uma vez que o espectro de particularidades que podem marcar os diversos contextos em que ela pode ocorrer é sempre dinâmico, variável e gradual. A título de exemplificação, analisemos uma declaração pessoal (GARAMBONE, 20135), reproduzida em (1).

(1) Já está na hora de criarmos a escola Cuca de futebol. Atlético MG voando em campo, literalmente. Leve, rápido e cheio de alternativas.

Atlético MG é um clube brasileiro de futebol, e a opinião de que ele (ou, metonimicamente, os seus jogadores) estaria voando em campo significa, nas palavras do próprio autor (GARAMBONE, 2013), que, na partida em questão, o time estaria “leve, rápido e cheio de alternativas” (grifo nosso). O uso de “voando”, nesse caso, representa uma forma bastante convencionalizada de se atualizar a metáfora conceptual TEMPO É [UM] ESPAÇO sobre o qual pessoas e objetos se movem (LAKOFF; JOHNSON, 2002 [1980]). Porque os jogadores daquele clube faziam jogadas rápidas, por exemplo, pode se dizer que eles estariam (metaforicamente) voando em campo. Além disso, sabendo que esse uso (metafórico) é altamente convencionalizado (por exemplo, FERREIRA, 2004; HOUAISS et al., 2009), alguém poderia argumentar que ele dificilmente seria reconhecido como metafórico (ou, ainda, que ela já teria deixado de ser, de fato, uma metáfora (BLACK, 1993 [1979])).

Entretanto, quando observamos todo o contexto (sintático) que contorna a expressão “voando em campo” na declaração de Garambone (2013), em (1), a sua metaforicidade não pode ser definida de modo tão imediato. A ocorrência (supostamente equivocada6) do advérbio “literalmente”, ao longo da sentença, parece trazer à luz da nossa percepção a condição da expressão “voando em campo” como sendo uma metáfora, pois evidencia a sua incongruência semântica. Afinal de contas, jogadores de futebol, assim como quaisquer pessoas, não são capazes de voar (literalmente).

Outro exemplo de como determinados elementos ‒ nesse caso, não verbais ‒ podem afetar a possibilidade de reconhecimento de uma expressão metafórica (como tal) pode ser observado na capa de uma edição da revista Época (09/05/2015), reproduzida na Figura 1.

Fonte: Acervo digital de capas da revista Época

Figura 1 Capa da edição 0883 de Época (09/05/2015) 

A expressão “encarar o bicho”, na manchete dessa capa de Época (09/05/2015), pode ser interpretada como uma atualização do nosso entendimento (metafórico) de um PROBLEMA ou uma DIFICULDADE como sendo uma PESSOA. Segundo essa metáfora, a nossa tentativa de resolver esse problema ‒ que, na manchete da Figura 1, se refere à proliferação de um mosquito vetor de doenças ‒ é conceptualizada em termos de se abordar uma pessoa de frente e, de fato, olhá-la nos olhos. Na verdade, esse uso metafórico do verbo “encarar” está muito convencionalizado em língua portuguesa (por exemplo, FERREIRA, 2004; HOUAISS et al., 2009) e, em princípio, não deveria despertar qualquer desconfiança sobre a suposta “literalidade” do seu sentido. Contudo, nesse contexto em particular, esse sentido talvez não possa ser processado de maneira tão óbvia, a ponto de não poder ser reconhecido como metafórico. A imagem da cabeça e dos olhos de um mosquito, com proporções muito maiores do que as reais - que, na verdade, seria uma referência metonímica à doença da qual é vetor -, põe em franca evidência a noção de OLHAR NOS OLHOS pertinente ao domínio-fonte da sua metáfora. Dessa forma, a metaforicidade de “encarar o bicho”, na capa da Figura 1, parece estar sendo levada para outra direção, que não a sua mais comum.

Como podemos perceber, existem elementos discursivos (verbais e não verbais, textuais e cotextuais) capazes de interferir, de maneira muito positiva, na possibilidade de reconhecimento da eventual linguagem metafórica presente em certos tipos de discurso. A esses elementos ‒ tais como o advérbio “literalmente”, em (1), e a imagem de um mosquito, na Figura 1 ‒, Müller (2008) dá o nome de “recursos de ativação de metaforicidade” [activation devices of metaphoricity] (p. 198). Por recursos de ativação, nesse caso, são entendidas as estratégias (de diversas naturezas) que, ao trazerem à luz da nossa percepção os domínios conceptuais que compõem o seu mapeamento, acabam desautomatizando7 o processamento da expressão metafórica. É através desses recursos, aliás, que é possível avaliarmos (indiretamente) a metaforicidade da linguagem metafórica presente em um texto. Um comentário importante que Müller (2008, p. 202, grifo no original) faz, a esse respeito, é o de que

quanto mais “material” for usado para indicar a sua metaforicidade, mais saliente uma metáfora será para o seu ouvinte ou leitor, e, portanto, mais ativa ela será para o seu falante ou autor. Expressões metafóricas que implicam elaborações, especificações e componentes multimodais são mais salientes - e, portanto, devem ser mais ativas para quem as produz - do que expressões sem esse alcance semântico.8

De acordo com Müller (2008), então, um meio de cumprirmos a avaliação da metaforicidade da linguagem metafórica (em um texto qualquer) seria pelo levantamento - em princípio, quantitativo - de elementos textuais e cotextuais (quer sejam verbais, quer gestuais ou pictóricos etc.) que se prestassem a sua ativação (naquele contexto). Até onde podemos presumir, portanto, os parâmetros para esse tipo de análise estariam alicerçados, em grande medida, em julgamentos estimativo-dedutivos sobre tais elementos. Apesar disso, não é absurdo tentarmos prescrever (e descrever) um elenco de estratégias, formalmente observáveis, capazes de interferir, de forma relativamente sistemática, na possibilidade de reconhecimento das expressões metafóricas que identificamos em um texto. Este trabalho representa uma iniciativa nesse sentido.

3 UM INSTRUMENTO PARA A ANÁLISE DA METAFORICIDADE9

Antes de procedermos à avaliação da metaforicidade da linguagem metafórica em um dado texto, é necessário, em primeiro lugar, identificarmos as eventuais expressões metafóricas - tal como são entendidas no âmbito da teoria conceptual10 (LAKOFF; JOHNSON, 2002 [1980]); LAKOFF, 1993) - presentes nesse texto. Este trabalho não se ocupa pontualmente de um procedimento específico de identificação de metáforas, senão que apenas indica, na sua introdução, alguns métodos já propostos na literatura a esse respeito. Seja como for, tendo sido feita a identificação das expressões metafóricas no texto, devemos seguir, então, à identificação de elementos - verbais e não verbais, textuais e cotextuais - que acompanham essas expressões e podem, de algum modo e em alguma medida, operar como recursos de ativação da sua metaforicidade.

Na verdade, até onde podemos verificar, não existe um modelo único e realmente completo que dê conta, sozinho, da identificação e da análise de recursos de ativação de metaforicidade no discurso. Contudo, com base na leitura crítica de diversos estudos que, em algum momento e com algum interesse, se ocuparam dessa questão (por exemplo, STIBE, 1995; STEEN, 2004; MÜLLER, 2008; KRENNMAYR, 2011), este trabalho propõe um elenco bastante abrangente desses recursos. Sendo assim, cada recurso apresentado aqui é descrito por meio, além de uma explicação simples e de um exemplo real, da referência aos estudos que o inspiraram. E, conforme será sugerido mais adiante, este trabalho recomenda não apenas o levantamento quantitativo desses elementos (MÜLLER, 2008), como, também, a avaliação qualitativa deles.

É importante comentarmos ainda, a respeito desse instrumento de análise de metaforicidade, que ele se ocupa fundamentalmente da natureza e do funcionamento das metáforas na sua dimensão linguística, e não da determinação das respectivas metáforas conceptuais11. Além do mais, ele não serve para explicar de que maneira os falantes de uma dada língua julgam se uma palavra está sendo usada metaforicamente (ou não). Com efeito, os parâmetros que fazem parte desse instrumento se pretendem como um meio simples e objetivo de análise em corpora, com vistas a se compararem as propriedades e o comportamento da linguagem metafórica em e entre textos e/ou gêneros (escritos ou orais). Esses parâmetros serão apresentados a partir de agora.

3.1 NÃO CONVENCIONALIDADE

Por via de regra, expressões metafóricas não convencionalizadas (ou vivas, cf. RICOEUR, 2000 [1975]) - isto é, não lexicalizadas ou não institucionalizadas12 - teriam mais chances de serem reconhecidas como tais (em comparação com expressões convencionalizadas) (principalmente, BLACK, 1993 [1979]; HANDL, 2011). Esse é o caso de metáforas inéditas ou muito criativas que normalmente ocorrem em produções literárias e anúncios publicitários. Comparemos, por exemplo, as expressões sublinhadas no último terceto do poema Oficina irritada (ANDRADE, 1995, p. 42) e um excerto das normas técnicas brasileiras de apresentação de trabalhos acadêmicos (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2011, p. 2-4), em (2) e (3), respectivamente.

(2) Ninguém o [soneto] lembrará: tiro no muro, / cão mijando no caos, enquanto Arcturo, / claro enigma, se deixa surpreender.

(3) Elemento textual: parte em que é exposto o conteúdo do documento. […] Estrutura: a estrutura de um relatório compreende: parte externa e parte interna.

Ambos esses trechos recorrem a alguma metáfora para conceptualizar um tipo de texto: em (1), um soneto é conceptualizado em termos de um “tiro no muro” e um “cão mijando no caos”; em (2), um trabalho acadêmico é conceptualizado em termos de um RECIPIENTE, que “compreende” uma “parte externa” e uma “parte interna” e que “expõe” o seu “conteúdo”. Algo que os diferencia, no entanto, são as expressões que recrutam para atualizarem as suas metáforas. Enquanto que as expressões metafóricas em (2) já estão muito convencionalizadas em língua portuguesa (FERREIRA, 2004; HOUAISS et al., 2009), as expressões metafóricas em (1) têm a sua origem no próprio soneto de Andrade (1995, p. 42), ou seja, podem ser consideradas inéditas. Argumenta-se, portanto, que as expressões sublinhadas do primeiro trecho seriam mais facilmente reconhecidas como metafóricas - ou, ainda, teriam um grau maior de metaforicidade - do que as do segundo.

3.2 REPETIÇÃO

Conforme, sobretudo, Stibbe (1995) e Goatly (1997), a repetição de uma expressão metafórica dentro de um mesmo enunciado aumentaria as chances de ela ser reconhecida como tal. Esse recurso parece ser particularmente eficiente em tipos muito específicos de discurso, que também permitem a ocorrência de expressões metafóricas pouco convencionalizadas, tais como textos publicitários ou com algum caráter pedagógico. Um exemplo do funcionamento dessa estratégia seria a repetição do termo “aninhamento” em partes do resumo de um artigo científico pertinente ao campo dos estudos da ecologia (MENEZES; FERNANDEZ, 2013, p. 465), em (4).

(4) Aninhamento, o padrão no qual espécies de comunidades mais pobres são subconjuntos de comunidades mais ricas, pode fornecer informações sobre a ordem de extinção de espécies. […] Nossos resultados forneceram evidência de que a área foi o principal determinante do aninhamento de comunidades de mamíferos. Nós também concluímos que aninhamento não é afetado por esforço amostral.

Segundo explicações dadas no próprio resumo (MENEZES; FERNANDEZ, 2013, p. 465), o que dá sentido ao uso de “aninhamento”, em (4), é o entendimento de um tipo de COMUNIDADE de espécies - isto é, comunidades ricas - em termos de um NINHO. Tais comunidades acolhem outras COMUNIDADES (pobres), entendidas, por sua vez, em termos de um ANIMAL que se abriga nesse ninho. Além de o termo “aninhamento”, nesse contexto, ser supostamente inédito e relativamente situado - a ponto de mobilizar um esclarecimento -, a sua repetição parece, de alguma forma, colocar à luz da nossa percepção elementos do mapeamento que compõe a sua metáfora.

Entretanto, deve se reconhecer que, em muitas circunstâncias, a repetição de uma expressão metafórica pode se tornar um recurso pouco eficiente de ativação da sua metaforicidade. Na verdade, em tipos muito especializados de discurso, essa estratégia parece constituir o resultado orgânico de convenções já fortemente estabelecidas dentro do domínio discursivo a que pertencem. Analisemos, por exemplo, o trecho da bula de um medicamento (ASPIRINA®, 2016), em (5).

(5) Sinais e sintomas podem incluir: […] aumento da quantidade de ar nos pulmões, desequilíbrio ácido-base pelo aumento da quantidade de ar nos pulmões.

Algo que se argumenta, a esse respeito, é que a repetição de “aumento”, em (5) - que constitui uma atualização da metáfora primária QUANTIDADE É TAMANHO -, não parece ser muito capaz de alterar as chances do seu reconhecimento como metáfora (ou seja, de interferir positivamente na sua metaforicidade). Ao atender às convenções do discurso técnico-científico a que pertence, essa estratégia, na bula (ASPIRINA®, 2016), acaba concorrendo para tornar o sentido desse substantivo estável, a ponto de poder assegurar o seu entendimento sem quaisquer equívocos.

3.3 SATURAÇÃO

Saturação se refere à ocorrência, dentro de um mesmo enunciado, de expressões metafóricas, ainda que diferentes, licenciadas pelo mesmo mapeamento (principalmente STEEN, 2002, 2004; DUNN, 2011). Tal estratégia aumentaria as chances de reconhecimento das expressões metafóricas como tais. Contudo, assim como no caso da repetição, ela é mais eficiente quando acontece em tipos de discurso mais tolerantes à ocorrência de outros recursos de ativação de metaforicidade, tais como a não convencionalidade ou mídias visuais. Um exemplo de saturação pode ser verificado no trecho de um artigo de opinião (GUEDES, 2017), reproduzido em (6).

(6) A erupção vulcânica da Lava Jato continua emitindo magma abundante a altíssimas temperaturas. As lavas derramadas pelas delações premiadas descem as encostas partidárias, ameaçando carbonizar biografias por práticas degeneradas da Velha Política.

Todas as expressões sublinhadas no excerto em (6) (GUEDES, 2017) são atualizações de uma mesma metáfora, que conceptualiza uma operação policial, a Lava Jato13 (NETTO, 2016) - mais especificamente, as suas consequências sobre os seus investigados -, em termos da lava de um vulcão em erupção. Há quem defenda (sobretudo, STEEN, 2004; DUNN, 2011) que, porque promovem a saturação dos domínios conceptuais envolvidos na metáfora situada operação Lava Jato é vulcão, essas expressões teriam grandes chances de serem reconhecidas como metafóricas.

Na verdade, a saturação parece ser capaz de compor um recurso favorável de metaforicidade somente sob condições muito particulares. Algo que faz com que a saturação possa interferir, de uma forma positiva, na possibilidade de reconhecimento das respectivas expressões metafóricas é, por exemplo, o fato de elas se estruturarem em termos do que Vereza (2007b) chama de “nicho metafórico” (p. 498). Segundo essa autora, nichos metafóricos se dão quando “proposições metafóricas cognitivamente inter-relacionadas se ajustam no todo [de um dado texto]” no sentido de se “criar uma rede argumentativa para construir e reforçar a tese central [desse texto]” (VEREZA, 2007b, p. 498). É o caso das expressões sublinhadas no excerto em (6). Porque ele integra um artigo de opinião (GUEDES, 2017), é muito oportuno que a saturação da metáfora por trás do seu argumento principal forme um nicho metafórico, para poder ser facilmente reconhecida e assimilada pelo seu leitor.

3.4 EXPLICITAÇÃO

Por explicitação, compreende-se a ocorrência, dentro do mesmo enunciado, de palavras ou expressões claramente relacionadas ao domínio-fonte do mapeamento por trás uma expressão metafórica (principalmente STEEN, 2002, 2004). Essa estratégia é bastante frequente em tipos de discurso que supõem algum teor humorístico - tais como anedotas e aforismos - e também pode aumentar as chances de reconhecimento da linguagem metafórica como tal. Analisemos, por exemplo, um adágio popular (autor desconhecido), reproduzido em (7).

(7) Por maior que seja o buraco em que você se encontra, pense que, pelo menos, não há terra em cima.

Uma interpretação possível da sentença em (7) está licenciada pela metáfora conceptual BOM É PARA CIMA (e RUIM É PARA BAIXO) (LAKOFF; JOHNSON, 2002 [1980], p. 63), visto que o uso da palavra “buraco”, aqui, expressa metaforicamente uma situação difícil ou um problema. Essa metáfora constitui um uso bastante comum em língua portuguesa (FERREIRA, 2004; HOUAISS et al., 2009); logo, poderia se esperar que, talvez, ela não fosse imediatamente reconhecida como tal. No entanto, considerando que o seu contexto sintático, em algum momento, acessa explicitamente o domínio-fonte PARA BAIXO da sua metáfora - através do sintagma “terra em cima” -, o substantivo “buraco” passa a denotar, também, um sentido básico seu, ou seja, o sentido de cova ou de sepultura e, metonimicamente, o de morte. Conclui-se, portanto, que a escolha, em (7), de explicitar aspectos relativos ao domínio-fonte da sua metáfora parece ser realmente capaz de promover o reconhecimento do seu uso de “buraco” como sendo metafórico.

3.5 MARCAÇÃO GRÁFICA

Bergström e Reis (2011) observam que, sobretudo, as aspas duplas podem ser usadas para, dentre outras coisas, destacar palavras empregadas com qualquer conotação ou valor especial (por exemplo, afetivo ou irônico). A partir dessa observação, arrisca-se o postulado de que, a depender do gênero, o uso de marcadores gráficos (tais como aspas, itálico, sublinhado etc.) poderia colateralmente sinalizar a ocorrência de uma eventual expressão metafórica no texto. Isso o é porque tais marcadores aumentariam a possibilidade de reconhecimento de uma condição particular sua - nesse caso, a sua metaforicidade - no respectivo contexto. Esse parece ser o caso, por exemplo, das aspas que figuram no texto de chamada (RODRIGUES, 2016) reproduzido em (8).

(8) O Campeonato Brasileiro foi “invadido” por argentinos. […] As equipes nacionais contam agora com vinte e três hermanos em seus elencos.

O uso de “invadido”, nesse trecho (RODRIGUES, 2016), deriva de um entendimento situado dos clubes brasileiros de futebol em termos de um ESPAÇO ou, mais especificamente, de um TERRITÓRIO, que pode ser metaforicamente ocupado à força (por jogadores argentinos) - tal como geralmente acontece em uma guerra. De fato, metáforas que conceptualizam FUTEBOL em termos de GUERRA - bem como as respectivas expressões - são muito comuns em português (por exemplo, ESPÍNDOLA, 2013; FERREIRA, 2015). Podemos esperar, portanto, que o uso dessas expressões seja, em princípio, muito automático. Porém, o emprego das aspas - por quaisquer razões que forem - nos limites da expressão “invadido”, em (7), parecem colocar em evidência o fato de ela estar sendo usada com um significado diferente do seu significado (supostamente) mais comum. Ou seja, essas aspas estariam funcionando, aqui, como um recurso de ativação da sua metaforicidade.

3.6 ACOMPANHAMENTO ADVERBIAL

De acordo com Stibbe (1995) e Kyratzis (apud MÜLLER, 2008), expressões metafóricas acompanhadas de determinados advérbios - tais como “realmente”, “verdadeiramente”, “literalmente” etc. - teriam maiores chances de serem reconhecidas como tais. A declaração de Garambone (2013), em (1), mais acima, é um exemplo claro de como um advérbio pode intervir positivamente no grau de metaforicidade de uma expressão metafórica. Outro exemplo disso é o comentário de um jornalista (KRAME, 2012) a respeito dos participantes de um reality show brasileiro, reproduzido em (9).

(9) Os brothers estão literalmente segurando na mão de Deus para enfrentar os desafios do jogo.

A expressão “segurando na mão de Deus”, em (9) (KRAME, 2012) constitui uma metáfora popularmente recrutada para conceptualizarmos uma fé veemente em Deus para se obter uma graça ou alcançar um objetivo. Ainda que ela não seja tão opaca, a ponto de nunca poder ser reconhecida como metafórica, a ocorrência do advérbio “literalmente”, ao lado dela, descarta qualquer hesitação a respeito da sua incongruência semântica. Ao forçar um sentido literal (impossível) para a expressão em questão, a ocorrência daquele advérbio acaba denunciando a implausibilidade da sua realização (em termos práticos) e, como consequência disso, aumentando a sua metaforicidade.,

3.7 DIRETIVIDADE

A diretividade caracteriza expressões metafóricas que são construídas diretamente (STEEN et al., 2010), através de conjunções de equivalência ou certos verbos de ligação - tais como “como”, “que nem”, “parecer”, “semelhar” etc. Expressões dessa natureza, que são bastante comuns em tipos espontâneos ou supostamente criativos de discurso - como, por exemplo, conversas cotidianas e textos literários -, teriam maiores chances de serem reconhecidas como tal. É isso que acontece, por exemplo, em um verso da canção Homem é que nem lata (VALIM, 2011), reproduzido em (10).

(10) Homem é que nem lata: uma chuta, a outra cata.

A comparação (formalmente enunciada) entre “homem” e “lata”, no verso em (10) (VALIM, 2011), se ancora na correspondência entre certas ações que podemos fazer, digamos, com uma lata de refrigerante - ou seja, chutá-la e juntá-la do chão - e as escolhas de uma mulher em uma relação a um companheiro - nesse caso, abandoná-lo ou aceitá-lo. Até onde podemos perceber, a diretividade que marca essa comparação, de fato, elege a símile como sendo um recurso de ativação de metaforicidade. A explicação que Steen et al. (2010) dão para essa escolha é a de que as comparações e analogias decorrentes desse tipo de combinação - tais como “homem é que nem lata”, em (10) - também se ancoram em uma projeção metafórica (marcada linguisticamente) entre dois domínios. E, em termos analíticos, as partículas que estabelecem a símile operariam, pois, como sinalizadores dessa projeção. É por isso que, no final das contas, Steen et al. (2010) incluem a símile - ou, nesse caso, a diretividade - como sendo um recurso de metaforicidade.

3.8 IMAGENS E GESTOS

De acordo, por exemplo, com Cienki (2008) e Müller (2008), a ocorrência, dentro do mesmo contexto, de imagens e gestos imediatamente relacionados ao domínio-fonte do mapeamento por trás de uma expressão metafórica aumentaria as chances do seu reconhecimento como tal. Capas de jornal e de revista, anúncios publicitários e conversas cotidianas são alguns tipos de discurso que geralmente dão espaço à ocorrência desse tipo de recurso de ativação de metaforicidade. Um exemplo de como mídias visuais podem intervir na possibilidade de reconhecimento da linguagem metafórica está na capa de uma edição do jornal Meia Hora (26/10/2014), reproduzida na Figura 2.

Fonte: Acervo digital de capas do jornal Meia Hora

Figura 2 Capa da edição 3206 do Meia Hora (26/10/2014) 

O sintagma “batalha final”, na manchete principal dessa capa (Meia Hora, 26/10/2014), pode ser interpretado como sendo uma atualização bastante convencionalizada da metáfora conceptual DISCUSSÃO É GUERRA (LAKOFF; JOHNSON, 2002 [1980], p. 46) ou, mais especificamente, DEBATE POLÍTICO É EMBATE FÍSICO. O que abona essa interpretação é a coocorrência de outras expressões (pouco cerimoniosas) licenciadas pelo mesmo mapeamento: “fofinha × [verus] playboy”, “pancadaria na campanha” e “duelam pelo seu voto”. Essa manchete conta, ainda, com as caricaturas dos dois candidatos à presidência do Brasil no segundo turno das eleições de 2014, Aécio Neves (1960-) e Dilma Rousseff (1947-), dentro de um ringue, em posição de luta e usando luvas de boxe. Ou seja, a imagem com que a capa ilustra a sua manchete faz uma alusão franca ao domínio-fonte COMBATE FÍSICO da sua metáfora, aumentando as chances do seu reconhecimento como tal.

3.9 CLASSE GRAMATICAL

Alguns estudos argumentam (por exemplo, STEEN, 2002, 2004) que expressões metafóricas pertinentes a classes gramaticais variáveis (isto é, substantivos, adjetivos, verbos e advérbios) teriam maiores chances de serem reconhecidas como tais do que expressões metafóricas pertinentes a classes gramaticais invariáveis (numerais, preposições, conjunções etc.). A título de ilustração, comparemos as expressões sublinhadas nos excertos da bula do medicamento Neosaldina® (2017), em (11).

(11) Antes de usar, observe o aspecto do medicamento. […] Em caso de dúvidas sobre este medicamento, procure orientação do farmacêutico.

Ambas as expressões “antes de usar” e “orientação do farmacêutico”, em (11), constituem atualizações da metáfora primária PROCESSO É TRAJETÓRIA (GRADY, 1997, p. 286) - ou, mais exatamente, TRATAMENTO DE UMA DOENÇA É TRAJETÓRIA. No entanto, por conta do seu grau de gramaticalização14, poderíamos argumentar que elas não possuem as mesmas chances de serem reconhecidas como sendo metáforas. Apesar de ambas serem muito convencionalizadas em português (FERREIRA, 2004; HOUAISS et al., 2009), o uso metafórico da primeira expressão parece estar mais fortemente gramaticalizada - e, portanto, possuir um grau menor de metaforicidade - do que o da segunda, cujo sentido literal, aliás, continua igualmente frequente (por exemplo, nas fraseologias “orientação espacial”, “orientação solar”, “mapa de orientação” etc.).

3.10 POSIÇÃO

Com base nos resultados de uma tarefa de identificação de metáforas em canções, realizado com falantes de língua inglesa, Steen (2002, 2004) observa que expressões metafóricas que ocorrem no final de um verso teriam maiores chances de serem reconhecidas como tais (em comparação com expressões metafóricas que ocorressem no início ou no meio do verso). E essas chances aumentariam, se essas expressões estivessem em posição pós-verbal. Um exemplo disso são as palavras sublinhadas nos últimos dois tercetos do soneto Ao parque (MATTOSO, 2013), reproduzido em (12).

(12) Trianon, Aclimação, a Cantareira / Transpira uma metrópole traída / Em tudo tem que ser sempre a primeira // Na pura poluição, vive hoje a vida / que um dia viveria a Terra inteira / Não há pioneirismo sem saída

As expressões “metrópole traída” e “vive hoje a vida”, no segundo e no quarto versos, são atualizações da personificação da cidade de São Paulo. A expressão “tem que ser sempre a primeira”, por sua vez, é uma atualização da metáfora conceptual TEMPO É ESPAÇO (LAKOFF; JOHNSON, 2002 [1980], p. 231). E a expressão “sem saída”, por fim, é licenciada pela metáfora conceptual EVENTO É RECIPIENTE (LAKOFF; JOHNSON, 2002 [1980], p. 83). Algo que podemos alegar, com base no que afirma Steen (2002; 2004), em função da posição dessas expressões nas estrofes, é que elas teriam um grau de metaforicidade maior do que as suas outras eventuais metáforas. Além do mais, o fato de comporem um texto que imediatamente identificamos como sendo um poema parece ser ainda mais favorável ao seu reconhecimento como metafóricas.

3.11 MARCAÇÃO PROSÓDICA

A partir da análise acústica de corpora de produções orais de falantes de inglês e de francês, Cloiseau (2007) constata que padrões específicos de intensidade e de frequência fundamental15 de uma expressão metafórica - necessariamente, em um segmento de fala - também poderiam aumentar as chances do seu reconhecimento como tal. Uma maneira de verificarmos o funcionamento desse recurso poderia ser, por exemplo, através da análise acústica da oralização de poemas - tal como acontece com a canção brasileira Monte Castelo (RUSSO, 1989), cuja letra inclui estrofes do soneto clássico Amor é um fogo que arde sem se ver (CAMÕES, 1953 [1595], p. 135). Em função das limitações práticas que incidem sobre a elaboração e apresentação deste instrumento, não encontramos uma maneira de exemplificar esse recurso.

É preciso reconhecer, em tempo, que os parâmetros que compõem o instrumento proposto aqui - não convencionalidade, repetição, saturação, explicitação, marcação gráfica, acompanhamento adverbial, diretividade, classe gramatical, imagens e gestos, posição e marcação prosódica - não esgotam todos os elementos que podem vir a atuar como recursos de ativação de metaforicidade no discurso. Ainda que tentemos antecipar tantas estratégias (verbais e não verbais) quantas poderiam afetar a possibilidade de reconhecimento da linguagem metafórica como tal, é somente pela abordagem dessa linguagem em discursos reais - ou, ainda, pela sua análise em corpora - que poderemos resolver (e, portanto, contabilizar) quais elementos estariam realmente intervindo na sua metaforicidade. Apesar disso, confiamos que investigações voltadas a essa questão podem recrutar, como um ponto prudente de partida, o elenco de recursos apresentado acima.

A partir disso, a avaliação da metaforicidade no discurso pode ser realizada de, pelo menos, duas maneiras diferentes (e eventualmente complementares). Uma delas supõe comparar a ocorrência de recursos de ativação de metaforicidade entre textos identificados com o mesmo gênero ou com gêneros diferentes. De fato, somente é possível determinarmos se a possibilidade de reconhecimento das metáforas em um dado texto ou gênero é alta ou baixa, por exemplo, por meio da comparação da quantidade e, sobretudo, dos tipos de recursos que as escoltam em cada texto ou gênero. Já a outra maneira implica examinar a ocorrência de recursos de ativação de metaforicidade em um texto em face dos aspectos que prototipicamente caracterizam seu gênero - tais como os seus propósitos comunicativos mais prototípicos, o grau de especialidade das práticas sociais em que se realizam, os conhecimentos específicos e o grau de deliberalidade dos participantes que normalmente os evocam etc. Isso permite descobrirmos de que forma esses aspectos podem regular (ou, ainda, permitir, exigir, moderar, impedir etc.) a quantidade e a qualidade desses recursos naquele texto.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A principal finalidade de um instrumento de análise de metaforicidade é auxiliar investigações que, em algum momento, se ocupam da natureza e do funcionamento da metáfora no discurso. Um tipo de investigação que poderia se beneficiar, em grande medida, desse instrumento são justamente as tarefas de identificação de metáforas no discurso (por exemplo, METNET, 2006; BERBER SARDINHA, 2011; PRAGGLEJAZ, 2009 [2007]; STEEN et al., 2010). Steen et al. (2010) defendem, por exemplo, que tarefas dessa natureza devem sempre levar em consideração, além das propriedades linguísticas das metáforas, aspectos relativos ao seu contexto de uso - tais como a suposta deliberalidade ou os conhecimentos específicos que motivariam a sua ocorrência. Nesse caso, uma maneira de darmos conta, de um modo mais ou menos rigoroso, da abundância e da diversidade desses aspectos seria traduzindo-os em termos de recursos de ativação de metaforicidade.

Um instrumento de avaliação de metaforicidade pode ser muito conveniente, ainda, no âmbito de estudos psicolinguísticos para a elaboração de sondagens específicas e testes experimentais de identificação ou de reconhecimento de metáforas. Algo que deve estar claro aqui, por exemplo, é que recursos de ativação de metaforicidade constituem fatores intervenientes na possibilidade do seu reconhecimento e, portanto, poderiam (ou deveriam) ser controlados (ou, talvez, manipulados) nessas circunstâncias. Com efeito, muito do que podemos afirmar a respeito da natureza e do funcionamento da linguagem metafórica no discurso tem a ver com a forma como os falantes fazem uso dela - se de maneira consciente ou não, deliberada ou não etc. E a avaliação antecipada da metaforicidade dessa linguagem se torna um expediente fundamental nesse sentido.

Outro tipo de investigação que pode tirar algum proveito do instrumento proposto aqui é aquele que se debruça especificamente sobre as relações internas (e determinantes) entre a metáfora e os gêneros discursivos (por exemplo, STEEN et al., 2010; BERBER SARDINHA, 2011; SEMINO, 2011). Poderíamos avançar os nossos conhecimentos a respeito da natureza dessas relações à medida que levássemos em consideração o fato de que os elementos (verbais e não verbais, textuais e contextuais) que atuam como recursos de ativação de metaforicidade em uma dada classe de textos muitas vezes constituem, antes de tudo, aspectos fundamentais do seu gênero.

Podemos mencionar, por fim, a importância de um instrumento de análise de metaforicidade para áreas de caráter mais aplicado. Por exemplo, as funções expressiva, ideacional, argumentativa, persuasiva etc. das metáforas têm sido atestadas, por diversos estudos, em várias esferas de atividade humana - como, por exemplo, na literatura (por exemplo, STEEN, 1994; FLUDERNIK; 2000), na educação (por exemplo, CAMERON, 2003; GIL, 2012), na tradução (MANDELBLIT, 1995; SCHMALTZ, 2015), no jornalismo (VEREZA, 2010b; MALTA, 2016) e na publicidade (FORCEVILLE, 2009; BURGERS et al., 2015). Algo que esses estudos alegam, de um modo geral, é que um emprego cuidadoso (e deliberado) de metáforas teria um papel crucial no cumprimento de propósitos comunicativos dos gêneros pertinentes a essas esferas. Este trabalho argumenta, além disso, que a realização desses propósitos dependeria, também, da maneira como o falante acessa essas metáforas - nas suas produção e recepção. Nesse sentido, um conhecimento específico acerca de recursos de ativação da sua metaforicidade (e, sobretudo, de como manipulá-los) concorreria para o reconhecimento da linguagem metafórica presente nos respectivos textos e, consequentemente, para a assimilação daquilo a que essa linguagem se propõe.

Seja como for, ainda que o instrumento proposto aqui se preste ao estabelecimento de um domínio específico de análise (e teorização), admite-se que ele representa um ponto muito incipiente dentro do campo dos estudos da metáfora no discurso. Apesar de o termo metaforicidade ser muito recorrente em discussões acerca das metáforas desde, pelo menos, o surgimento da abordagem conceptual (originalmente, LAKOFF; JOHNSON, 2002 [1980]), são poucos os trabalhos que têm se empenhado em defini-lo e explicá-lo de maneira realmente rigorosa (por exemplo, BLACK, 1993 [1979]; PAUWELS, 1995; GOATLY, 1997; DUNN, 2011; MÜLLER, 2008, DIENSTBACH, 2017). Além disso, os esforços para caracterizar esse conceito, bem como para compreender o que estaria por trás da propriedade que ele representa, têm frequentemente se mantido distantes entre si e, às vezes, sequer pretendem alguma articulação. Como consequência disso, diversas perguntas a respeito da natureza e do funcionamento das metáforas - inclusive da possibilidade do seu reconhecimento - ainda continuam sem quaisquer respostas.

Até onde pode se perceber, muito terreno ainda precisa ser explorado e esquadrinhado, no que se refere à metaforicidade, para que possamos corroborar as apostas teóricas e analíticas que já foram feitas a respeito desse fenômeno. Confia-se que apurações empíricas de grande fôlego - tais como análises da possibilidade de reconhecimento da linguagem metafórica em corpora suficientemente representativos, identificados com diferentes gêneros - seriam capazes de, por exemplo, apontar, com mais segurança, quais dos recursos de ativação de metaforicidade deste instrumento são consistentes de modo geral (e de que maneira); quais resultariam supérfluos para a análise que pretendem realizar (e por que razões); ou, ainda, que outras estratégias (verbais ou não verbais, textuais ou cotextuais) poderiam ser incluídas nesse elenco. Em última análise, isso poderia colocar o domínio particular de estudos da metaforicidade a favor do nosso entendimento a respeito da natureza e do funcionamento das metáforas, em particular, e da linguagem, em geral.

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1Disponível em: <http://www2.lael.pucsp.br/corpora/metaphor_tagger/>. Acesso em: 30 nov. 2016.

2Essa é a acrografia do termo original, em língua inglesa, “metaphor identification procedure Vrije Universiteit” (STEEN et al., 2010, p. ix)

3[(Metaphoricity) the fact or quality of being metaphorical.]

4[Not only does the metaphoricity of a spoken or written metaphor depend on the cognitive process [...], but this activity is also embedded in the flow of speech, writing, and in the flow of consciousness.]

5Essa é uma declaração pessoal do jornalista Sidney Garambone, feita em 9 de maio de 2013, na rede social Twittter, na Internet. Disponível em: <https://twitter.com/Garamba/status/332585031346302976>. Acesso em: 30 nov. 2016.

6Em muitos casos, de fato, a palavra “literalmente” tem o seu sentido estendido para expressar intensidade, sendo que esses usos contrariam o sentido básico de “literal” como “ao pé da letra” (VEREZA, 2007a) ‒ como, por exemplo, nas sentenças “Estou literalmente morrendo de fome” e “A casa está literalmente de pernas para o ar”.

7Segundo Kyratzis (apud MÜLLER, 2008), a “desautomatização” [deautomatization] (p. 190) de uma metáfora se refere à possibilidade de certas escolhas - verbais ou não verbais -, em determinados contextos, poderem alterar o processamento, em princípio, inconsciente de uma expressão metafórica.

8[The more “material” is used to express metaphoricity, the more salient this metaphor is for a listener or reader ‒ and hence the more active it is for a speaker/writer. Verbal metaphors that inspire elaborations, specifications, and/or multimodal expressions are more salient ‒ and hence must have been highly activated in the producer ‒ than metaphors without such a semantic uptake.]

9Sou muito obrigado à Profa. Dra. Solange C. Vereza (Universidade Federal Fluminense) e ao Prof. Dr. Gerard J. Steen (Universiteit van Amsterdam) por suas contribuições inestimáveis na elaboração desse instrumento.

10A título de esclarecimento, a teoria conceptual (LAKOFF, 1993) entende expressão metafórica como sendo uma instanciação linguística de uma metáfora conceptual, que consiste, por sua vez, no entendimento de um domínio de experiência mais abstrato (o domínio-alvo; por exemplo, um SENTIMENTO) em termos de um domínio de experiência mais concreto (o domínio-fonte; por exemplo, uma SUBSTÂNCIA dentro do corpo).

11Um método sistemático para se determinar o(s) mapeamento(s) por trás uma expressão metafórica qualquer é proposto por Steen (2011). Este trabalho não se ocupa rigorosamente dessa tarefa.

12Conforme Schmid (2005), lexicalização e institucionalização constituem os dois processos responsáveis pela convencionalização de uma dada expressão linguística. A primeira se refere à fixação dessa expressão em termos dos aspectos estruturais da sua forma; a segunda, em termos dos seus aspectos sociopragmáticos. Pode se apurar a convencionalidade de uma expressão por meio de uma consulta em dicionários ou corpora gerais da língua.

13O conjunto de investigações da Polícia Federal brasileira conhecido como Operação Lava Jato (NETTO, 2016) começou em março de 2014 e visa apurar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de reais em propina e envolveu membros administrativos da empresa estatal petrolífera Petrobras, políticos brasileiros - incluindo presidente da República, deputados e senadores federais, governadores de estados -, além de empresários brasileiros.

14Gramaticalização é processo pelo qual uma palavra, locução ou sintagma perde seu sentido referencial original e adquire um sentido mais gramatical (BROWN; MILLER, 2013).

15Dentre os parâmetros prosódicos, intensidade é o correlato físico de pressão acústica (energia vocal) de um segmento de fala; já frequência fundamental é o correlato físico de melodia (tom e entoação) que marca esse segmento (HIRST; DI CRISTO, 1998).

Recibido: 15 de Junio de 2017; Aprobado: 16 de Febrero de 2018

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