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Linguagem em (Dis)curso

On-line version ISSN 1982-4017

Ling. (dis)curso vol.18 no.3 Tubarão Sept./Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-4017-180301-00-00 

Editorial

O PAPEL DA REVISÃO DA LITERATURA NA ARGUMENTAÇÃO DO TEXTO ACADÊMICO

1Universidade do Sul de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem. Tubarão, SC, Brasil

1 ARGUMENTAÇÃO DO TEXTO ACADÊMICO

Defendemos neste ensaio de apresentação do terceiro fascículo do volume 18 de Linguagem em (Dis)curso que a estrutura retórica intrínseca de um texto acadêmico comporta minimamente dois argumentos condicionais in tandem. Com o primeiro argumento A 1, denominado argumento do objetivo, assumimos que se houver pelo menos um problema epistêmica e metodologicamente relevante ou justificável como premissa P 1, então é legítimo eleger pelo menos um objetivo como conclusão Q 1. Com o segundo argumento A 2, denominado argumento das conclusões, assumimos que, no contexto do primeiro argumento, se houver pelo menos uma evidência epistêmica e metodologicamente relevante ou justificável como premissa P 2, então é legítimo elaborar pelo menos uma conclusão Q 2.1

Os dois argumentos funcionam in tandem justamente porque o primeiro argumento configura-se como premissa do segundo, de modo que se há pelo menos um objetivo Q 1, que decorre de pelo menos um problema epistêmica e metodologicamente relevante ou justificável P 1, então é legítimo elaborar pelo menos uma conclusão Q 2, que decorre de pelo menos uma evidência epistêmica e metodologicamente relevante ou justificável P 2.

Consequentemente, a estrutura da argumentação intrínseca de um texto acadêmico pode ser modelada com a seguinte formulação lógica:

A1(P1Q1)A2(P2Q2)

Se isso estiver correto, ao admitir que a validade lógica deve transitar do primeiro argumento para o segundo A 1A 2, segue-se que a correção de um estudo transita da emergência epistêmica e metodologicamente relevante ou justificável de pelo menos um problema em direção à elaboração epistêmica e metodologicamente relevante ou justificável de pelo menos uma conclusão P 1Q 2.

Posto isso, podemos modelar a transitividade dessa cadeia argumentativa no seguinte conjunto S1-5 de suposições, a saber:

  • S1 - Se A 1 (se houver pelo menos um problema epistêmica e metodologicamente relevante ou justificável como premissa P 1, então é legítimo eleger pelo menos um objetivo como conclusão Q 1), então A 2 (se houver pelo menos uma evidência metodológica e teoricamente relevante ou justificável como premissa P 2, então é legítimo elaborar pelo menos uma conclusão Q 2).

  • S2 - Há pelo menos um problema P 1 epistêmica e metodologicamente relevante ou justificável.

  • S3 - É legítimo eleger pelo menos um objetivo Q 1.

  • S4 - Há pelo menos uma evidência P 2 epistêmica e metodologicamente relevante ou justificável.

  • S5 - É legítimo elaborar pelo menos uma conclusão Q 2.

Observe-se que a eleição do objetivo Q 1 no argumento A 1 decorre da atribuição de relevância ou justificação epistêmica e metodológica a pelo menos um problema P 1; e a elaboração da conclusão Q 2 no argumento A 2 decorre da atribuição de relevância ou justificação epistêmica e metodológica a pelo menos uma evidência P 2. Dado que a qualidade de objetivos Q 1 e conclusões Q 2 decorre da qualidade de problemas P 1 e evidências Q 2, segue-se que o papel da revisão epistêmica e metodológica do estado de arte exerce papel fulcral nesta cadeia de inferências.

2 DOIS ESQUEMAS PROTOTÍPICOS DE ORGANIZAÇÃO TEXTUAL

Quando observamos a configuração de trabalhos de conclusão de curso e de artigos científicos nacionais, ainda que a partir de uma prospecção superficial, é possível encontrar dois esquemas prototípicos de organização textual em competição: o modelo convencional e o modelo IMRAD. Admitindo que esses esquemas prototípicos impõem condições de elaboração da escrita, assumimos que eles afetam a forma como os dois argumentos são textualizados e devem ser levados em conta por todos os atores envolvidos não apenas na cadeia de elaboração de textos acadêmicos - autores, editores, consultores e revisores, entre outros -, mas também na cadeia de formação qualificada de novos quadros - estudantes, orientadores e avaliadores, entre outros.

O primeiro modelo, que vimos chamando de convencional ou tradicional entre outros motivos porque é reforçado pela cultura escolar (RAUEN, 2015; 2018), é prevalente em ciências humanas e sociais, e organiza o texto acadêmico nas consagradas categorias de introdução, desenvolvimento e conclusão. Conforme as características epistêmicas e metodológicas de cada estudo e levando em consideração os padrões estabelecidos pelas comunidades discursivas de cada área do conhecimento, o desenvolvimento pode ser organizado em diferentes seções ou capítulos, abrigando desde configurações nocionais e argumentativas típicas de ensaios bibliográficos, até relatos de pesquisas sofisticadas que demandam em geral por revisões teóricas, exposição de metodologia, e descrição e interpretação de evidências produzidas pela investigação.

O segundo modelo, denominado IMRAD2, prevalente em ciências exatas e biológicas, em especial aquelas com forte competição internacional, organiza o texto acadêmico em quatro categorias, reservadas à introdução, aos materiais e métodos, aos resultados e às discussões.

Entre outras, duas diferenças relevantes no que se refere ao papel da literatura saltam aos olhos quando cotejamos os dois modelos e podem explicar características culturais de formação e de elaboração textual bastante singulares: a forma como os modelos lidam com a exposição da literatura e com a interpretação das evidências.

A primeira diferença diz respeito à presença de uma categoria específica para revisões bibliográficas no modelo tradicional, ausente no modelo IMRAD. Não sem motivo, textos formatados no primeiro modelo, especialmente aqueles que decorrem de trabalhos de iniciação científica ou de conclusão de cursos, tendem a valorizar revisões bibliográficas, em geral temáticas, a ponto de produzirem equívocos frequentes como os de revisar em excesso tópicos da literatura ou revisar tópicos que não são usados para descrever e interpretar as evidências3. No modelo IMRAD, a demanda pela literatura pervade o texto desde a emergência do problema, passando pela eleição de materiais e métodos e prospecção dos resultados, até - e principalmente - a discussão dos resultados.

A segunda diferença diz respeito à presença de um capítulo ou seção de conclusões no modelo tradicional, ausente no modelo IMRAD4. Conclusões no modelo tradicional não deveriam acrescentar elementos ao que foi descrito e interpretado no desenvolvimento do trabalho, funcionando, ao modo de um resumo, como um texto remissivo que enfeixa os elementos essenciais do texto integral. Contudo, é recorrente encontrar nos manuais de redação acadêmica, metodologia científica ou metodologia da pesquisa orientações que propõem acrescentar condições e limitações da pesquisa, sugestões para novas pesquisas ou recomendações de uso dos resultados, razão pela qual é também recorrente intitular essa categoria como considerações finais. Ora, se é o caso de o trabalho ter desenvolvido adequadamente um ensaio bibliográfico ou de ter descrito e interpretado as evidências à luz da literatura, caberia questionar por que questões como condições, limitações, sugestões e recomendações deveriam emergir somente nas chamadas considerações finais.

No modelo IMRAD, por sua vez, seções ou capítulos de discussão dos resultados destinam-se justamente a cotejar as evidências com a literatura, dispensando a emergência de uma seção específica para conclusões ou considerações finais. Em outras palavras, não há necessidade de redigir uma seção específica de conclusões nesse modelo, uma vez que elas constituem os resultados da pesquisa, são destacadas na discussão e fazem parte do resumo dos respectivos textos. Entretanto, a cultura redacional parece impor ao trabalho formatado nesse segundo modelo a emergência de conclusões. Não sem razão, se podemos encontrar estudos formatados no modelo convencional que contêm seções ou capítulos de análise com descrição e interpretação das evidências que são seguidas de seções ou capítulos de considerações finais com condições, limitações, sugestões e recomendações; encontramos igualmente estudos formatados no segundo modelo com seções ou capítulos de resultados, discussão e conclusões ou mesmo considerações finais, estas duas últimas contendo condições, limitações, sugestões e recomendações.

Apresentadas essas questões, podemos retomar a questão dos dois argumentos do texto acadêmico, refletindo como eles podem ser modelados nos dois esquemas prototípicos de textualização e enfatizando nessa reflexão a exposição da bibliografia e a interpretação das evidências.

3 TEXTUALIZAÇÃO DOS ARGUMENTOS NO MODELO TRADICIONAL

Considerando o modelo convencional, o argumento do objetivo P 1Q 1 é textualizado na seção ou capítulo de introdução, e o argumento das conclusões P 2Q 2, em suas versões mais complexas, tende a ser textualizado em seções ou capítulos reservados, respectivamente, à revisão da literatura, à metodologia e à descrição e interpretação das evidências - premissas do argumento - seguidas de seção ou capítulo reservado às conclusões ou considerações finais - conclusão do argumento.

Em síntese, trata-se de algo que pode ser textualizado como:

Se para atingir o objetivo, é necessário revisar determinada literatura - revisão da literatura; conforme essa determinada literatura, é necessário usar determinado método - metodologia; e conforme esse determinado método, é necessário analisar essas determinadas evidências - descrição e interpretação P 2; então é justificável ou relevante elaborar determinadas conclusões ou considerações finais Q 2.

Segue-se dessa textualização, à luz da transitividade dos argumentos que expusemos anteriormente, o que vimos chamando para fins didáticos de regra de ouro para a elaboração e para a avaliação de textos acadêmicos no modelo convencional (RAUEN, 2015; 2018). Conforme essa regra de ouro, um texto acadêmico somente deve apresentar conclusões a partir de evidências; somente elaborar evidências fundamentadas em um método; somente utilizar um método a partir da prospecção da literatura relevante; somente revisar a literatura orientado por um objetivo esclarecido; somente estabelecer um objetivo que seja justificável; e, por fim, somente prospectar justificativas que decorram de um problema relevante.

A regra de ouro produz uma versão backward de nossos argumentos. Algo como:

  • A2 - Orientado por pelo menos um objetivo Q 1, somente elabore uma conclusão Q 2 a partir de pelo menos uma evidência P 2 epistêmica e metodologicamente relevante ou justificada;

  • A1 - Somente eleja um objetivo Q 1 a partir de pelo menos um problema P 1 epistêmica e metodologicamente relevante ou justificado.

Esse encadeamento pode ser transformado em sugestões práticas para a redação de textos acadêmicos. Magnusson (1996, p. 88), por exemplo, sugere cinco regras simples para a redação a posteriori de artigos, para evitar o que ele denomina de hopeless tangle of observation and inferences (emaranhado insolúvel de observação e inferências), que reinterpretamos neste ensaio à luz de nossos dois argumentos A 1A 2 in tandem.

Assumindo que a melhor forma de organizar o texto é proceder da conclusão para a introdução, sua primeira regra sugere que o pesquisador deve primeiro escrever as conclusões do estudo para indicar a direção que o texto vai tomar. A ideia fundamental desta primeira estratégia é a de que o ponto central de interesse de um texto científico é a conclusão Q 2 a que ele chega.

As três regras seguintes de Magnusson dão conta das premissas P 2 do argumento da conclusão A 2. Segundo o autor, o pesquisador deve apresentar somente os resultados necessários e indispensáveis para se chegar às conclusões, apresentar somente os métodos necessários e indispensáveis para se chegar aos resultados que fundamentam as conclusões e discutir somente as informações que se referem às conclusões (por exemplo, a revisão de literatura que modifica, amplia, contradiz ou confirma as conclusões).

Depois de o argumento da conclusão A 2 ter sido organizado, a quinta e última regra de sua proposta de redação acadêmica sugere que o pesquisador deve escrever uma introdução que contenha somente as informações mínimas necessárias para apresentar o argumento do objetivo A 1.

Segundo Magnusson, ao escrever de trás para frente, os pesquisadores geram textos enxutos e limpos, porque se concentram nos pontos essenciais do estudo, iniciando pelas conclusões que são apoiadas pelos resultados pertinentes, passando pelos resultados que são apoiados pelos métodos pertinentes, para, mais à frente, discutir estas conclusões e elaborar uma introdução coerente.

Dado que nem sempre é possível terminar o estudo para depois redigir o texto, especialmente em situações de formação acadêmica - iniciação científica e trabalhos de conclusão - caracterizados por sucessões de avaliações de texto em progresso, essa linha de argumentação pode ser traduzida em sete passos prospectivos, segundo os quais cabe ao pesquisador determinar o problema que dá origem à pesquisa; as justificativas que autorizam responder ao problema; o objetivo que responde ao problema; as teorias que atingem o objetivo; as metodologias que são fundamentadas nas teorias; as evidências que são fundamentadas nas metodologias; e as conclusões a que o trabalho chega.

O esquema da figura 1 a seguir resume o que estamos argumentando:

Fonte: elaboração própria

Figura 1 Abordagens forward e backward da organização argumentativa e textual de textos acadêmicos no modelo convencional 

Segue dessas observações que o papel da literatura deve pervadir o texto acadêmico mesmo que no modelo tradicional se reserve uma seção ou capítulo específico para explicitá-la. Como dissemos, se a eleição de objetivos Q 1, de um lado, deve decorrer de ou ser justificada por aportes teóricos, uma vez que a qualidade dessas premissas P 1 transita em direção à qualidade dessa eleição5; a elaboração de conclusões Q 2, por outro, deve decorrer de ou ser justificada pela revisão criteriosa do estado de arte dos aspectos epistêmicos e metodológicos que estão a serviço da descrição e interpretação adequada das evidências produzidas, uma vez que a qualidade dessas premissas P 2 transita em direção à qualidade dessa elaboração.

No que se refere ao escopo da discussão dos resultados, têm sido recorrentes nos textos duas alternativas. Numa perspectiva mais radical, o capítulo ou seção de análise consiste da dissecação crítica das evidências conforme o método descritivo e explanatório escolhido, seja relatando todas as evidências primeiro para depois interpretá-las, seja sucessivamente apresentando e interpretando cada evidência. Isso implica dizer que condições, limitações, sugestões e recomendações das evidências são intrínsecas ao processo de interpretação, o cotejo dos resultados com a literatura é constitutivo da análise das evidências, e o capítulo ou seção de conclusões tem, efetivamente, caráter remissivo. Numa perspectiva menos que radical, condições, limitações, sugestões e recomendações podem compor considerações finais. Todavia, em geral, essa estratégia tende a esvaziar a qualidade da interpretação das evidências no capítulo ou seção anterior.

A propósito, lidar com o estado de arte tem sido uma fragilidade recorrente, especialmente em trabalhos de iniciação e de conclusão de curso que são formatados no modelo convencional. A revisão do estado de arte deve subordinar-se aos dois argumentos que orientam o estudo e formatam o texto, de modo que é a partir dela que se elegem objetivos e aparato epistêmico-metodológico e, principalmente, que se interpretam as evidências produzidas pelo estudo. Contudo, não é incomum encontrarmos trabalhos formatados no modelo tradicional que, apesar de revisão substantiva do tema em estudo, apresentam fragilidades teóricas na eleição de objetivos, na consecução de métodos e na interpretação das evidências que não são ou não são adequadamente cotejadas com o quadro epistêmico e metodológico mais amplo do qual procedem os estudos.

4 TEXTUALIZAÇÃO DOS ARGUMENTOS NO MODELO IMRAD

Considerando o modelo IMRAD, observamos que se o argumento do objetivo pode ser textualizado na seção ou capítulo de introdução de forma semelhante ao modelo convencional, o argumento das conclusões tem de ser textualizado nas seções ou capítulos reservados, respectivamente, aos materiais e métodos, aos resultados e à discussão6.

A figura 2, a seguir, resume essas características, considerando abordagens textuais forward e backward da organização argumentativa e textual do modelo IMRAD:

Fonte: elaboração própria

Figura 2 Abordagens forward e backward da organização argumentativa e textual de textos acadêmicos no modelo IMRAD 

Conforme Day (2001, p. 7), quatro perguntas definem a lógica do modelo IMRAD: a introdução responde à pergunta ‘Que problema foi estudado?’; os materiais e métodos respondem à pergunta ‘Como o problema foi estudado?’; os resultados respondem à pergunta ‘Quais foram as descobertas?’; e a discussão responde à pergunta ‘O que estas descobertas significam?’. Noutras palavras, cabe saber nesse modelo se o problema é legítimo, os materiais e métodos são precisos, os resultados são adequados e a discussão dos resultados é relevante para o progresso da ciência.

Segundo Motta-Roth e Hendges (2010, p. 68ss), a elaboração do texto no modelo IMRAD é simultaneamente delimitadora e ampliadora e pode ser descrita com dois triângulos espelhados. O primeiro desses triângulos é textualizado pela seção ou capítulo de introdução e representa a transição da amplitude do campo ou da disciplina em direção a um nicho no conhecimento onde está o problema específico ainda não resolvido. O segundo desses triângulos é textualizado pela seção ou capítulo de discussão e representa a transição dos resultados gerados pela pesquisa para as implicações mais amplas no campo ou na disciplina a que o estudo pertence. Entre os dois triângulos, as autoras argumentam, estão os materiais e métodos como uma instância particular do primeiro triângulo e os resultados como suporte necessário do segundo triângulo.

A figura 3, a seguir, representa o caráter simultaneamente delimitador e ampliador da elaboração de um texto acadêmico formatado no modelo IMRAD:

Fonte: elaboração própria

Figura 3 Papel delimitador e ampliador da literatura no modelo IMRAD 

Assumindo a correção dessa descrição, de fato, a revisão do estado de arte não apenas pervade, mas é constitutiva do modelo IMRAD, uma vez que o estudo parte da literatura mais ampla do campo ou da disciplina a que o estudo pertence na introdução e retorna a essa literatura na discussão dos resultados. Se no modelo convencional esse movimento de procedência e retorno à literatura acaba por ficar implícito e corre o risco de ser negligenciado, no modelo IMRAD ele é sobremaneira ressaltado, especialmente no movimento de retorno, uma vez que os dados devem ser primeiramente dissecados para depois serem interpretados.

No modelo IMRAD, a seção ou capítulo de resultados visa a expor as evidências obtidas no estudo. Em geral, sugere-se que as evidências devem ser apresentadas nessa seção ou capítulo com o mínimo indispensável de discussão ou interpretação; e, sempre que pertinentes, que as evidências devem ser ilustradas por tabelas, quadros ou gráficos e respectivas estatísticas, respeitando o nível de tolerância a ambiguidades de cada área do conhecimento. A seção ou capítulo de discussão, por sua vez, visa a estabelecer uma análise crítica dos resultados confrontando-os com outros estudos.

Conforme Day (2001, p. 44), é na discussão que o autor resume e interpreta os resultados da pesquisa, coteja resultados e interpretação com pesquisas prévias, pondera implicações teóricas e/ou aplicações práticas, apresenta evidências para a conclusão e recomenda aprofundamentos futuros das questões discutidas no trabalho, abrindo espaço para novas pesquisas.

Para Motta-Roth e Hendges (2006, p. 78), a discussão é mais do que um sumário dos resultados. Mais do que mera apresentação dos dados, ela deve ser mais teórica, abstrata, geral, e estar integrada ao campo do conhecimento, conectada ao mundo exterior, focalizada nas implicações e aplicações dos resultados.

Conforme Rey (2003, p. 212), sempre restrito ao exame das evidências, na discussão, cabe ligar os resultados aos conhecimentos anteriores; destacar como os resultados concordam com ou divergem de outros resultados já publicados, chamando a atenção para fatos novos ou excepcionais, para a ausência de correlação ou para a falta de determinadas informações; apresentar claramente as conclusões; discutir as implicações teóricas ou práticas dos resultados; e analisar a significação da pesquisa.

Para Day (2001, p. 46), por sua vez, uma discussão de resultados deve apresentar princípios, relações e generalizações indicadas nos resultados, discutindo-os e não apenas recapitulando-os; indicar qualquer exceção ou falta de correlação e definição de pontos não estabelecidos; demonstrar como resultados e interpretação concordam ou contrastam com trabalhos publicados anteriormente; discutir implicações teóricas e aplicações práticas possíveis; estabelecer conclusões tão claramente quanto possível; e resumir as evidências para cada conclusão.

5 FUNÇÃO DELIMITADORA E AMPLIADORA DA LITERATURA

Admitindo a hipótese de que os textos acadêmicos podem ser descritos e explicados em termos de dois argumentos condicionais in tandem e reconhecendo as constrições que os modelos convencional e IMRAD impõem à redação acadêmica, estamos em condições de oferecer um esquema didático que leve em conta a função delimitadora e ampliadora da literatura em ambos os modelos.

Na introdução, cabe à literatura fornecer as garantias epistêmicas e metodológicas com as quais o pesquisador pode prospectar pelo menos um problema que funciona como premissa P 1 para a eleição de pelo menos um objetivo Q 1. Nesse procedimento que configura o argumento do objetivo A 1, a função da literatura é delimitadora. Não sem razão, costuma-se chamar de delimitação de um tema a prospecção analítica de um nicho dentro de um conjunto mais amplo de questões.

Nas demais categorias que constituem, stricto sensu, o argumento da conclusão A 2, a função da literatura em ambos os modelos é delimitadora. No modelo convencional, quando pertinentes, aspectos epistêmicos do problema delimitado são desenvolvidos em seção ou capítulo de revisão teórica, aspectos metodológicos do problema delimitado são desenvolvidos em seção ou capítulo de metodologia e todo os resultados são apresentados para depois serem interpretados ou cada resultado é sucessivamente apresentado e interpretado em seção ou capítulo de análise. No modelo IMRAD, aspectos epistêmicos, quando relevantes, estão diluídos no texto, aspectos metodológicos configuram capítulo ou seção de materiais e métodos, e resultados são apresentados em seção ou capítulo de resultados.

Contudo, é na análise crítica do salto inferencial indutivo que procede das evidências P 2 em direção às conclusões Q 2 que a função da literatura é fundamentalmente ampliativa em ambos os modelos. No modelo IMRAD, cabe à seção ou capítulo de discussão exercer esse papel. No modelo convencional a textualização é mais complexa. Numa versão mais radical em que as conclusões são meramente remissivas, são as seções ou subseções de interpretação das evidências que compõem a seção ou capítulo análise, ou sequências textuais que sucedem as apresentações de resultados nesta seção ou capítulo de análise que cumprem exclusivamente esse papel. Em casos que contemplam considerações finais, parte desse processo ampliativo migra para essa última seção ou capítulo.

O quadro que compõe a figura 4, a seguir, resume esse movimento de procedência e retorno à literatura cotejando-o com a cadeia de argumentos A 1A 2 e com os modelos de textualização convencional e IMRAD.

Fonte: Elaboração Própria

Figura 4 Função da Literatura na argumentação e textualização de estudos acadêmicos 

O esquema que compõe a figura 5 a seguir, por fim, visa a interpretar o conteúdo do quadro anterior. Neste esquema, a cadeia de argumentação A 1A 2 está representada à esquerda, as funções de procedência e de retorno à literatura do campo ou área do conhecimento a que o estudo pertence estão representadas à direita, e as categorias dos modelos de textualização convencional7 e IMRAD estão representados nas figuras centrais que levam em conta os dois triângulos da figura 3.

Fonte: elaboração própria

Figura 5 Formas de textualização da procedência e retorno à literatura e da cadeia de argumentação nos modelos convencional e IMRAD 

6 CONCLUSÃO

Analisamos neste ensaio o papel delimitador e ampliador da revisão da literatura em dois modelos recorrentes de formatação de artigos científicos, convencional e IMRAD, assumindo a hipótese de que são mobilizados in tandem na elaboração de textos acadêmicos dois argumentos condicionais que organizam, respectivamente, a eleição de objetivos e a elaboração de conclusões. Como argumentamos, o cotejo com a literatura pervade o texto acadêmico. A literatura justifica ou torna relevante epistêmica e metodologicamente a prospecção de pelo menos um problema e a eleição de pelo menos um objetivo, de modo que seu papel delimitador é essencial para a elaboração do argumento do objetivo P 1Q 1. A literatura justifica ou torna relevante epistêmica e metodologicamente a elaboração de evidências com as quais é possível inferir certa conclusão, de modo que seu papel delimitador é essencial para a validade e a correção do argumento da conclusão P 2Q 2. Ela, por fim, habilita interpretar as conclusões considerando o campo ou área do conhecimento a que o estudo pertence, de modo que seu papel ampliador é essencial para a justificar ou tornar relevante o argumento maior do estudo A 1A 2 que engloba sinergicamente tanto o argumento do objetivo como o argumento da conclusão.

REFERÊNCIAS

DAY, R. A. Como escrever e publicar um artigo científico. 5. ed. São Paulo: Santos, 2001. [ Links ]

MAGNUSSON, W. E. How to write backwards. Bulletin of the Ecological Society of America, v. 77, n. 2, p. 88, 1996. [ Links ]

MOTTA-ROTH, D.; HENDGES, G. H. Produção textual na universidade. São Paulo: Parábola Editorial, 2010. [ Links ]

______; ______ (Orgs.). Redação acadêmica: princípios básicos. 5. ed. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, 2006. [ Links ]

RAUEN, F. J. Roteiros de iniciação à pesquisa. Tubarão, Ed. da Unisul, 2015. [ Links ]

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SWALES, J. M. Genre analysis: English in academic and research settings. New York: Cambridge U. P., 1990. [ Links ]

VOLPATO, G. L. Curso de redação científica. Botucatu: UNESP, [2011]. Disponível em: <http://propgdb.unesp.br/redacao_cientifica/>. Acesso em: 20 out. 2011. [ Links ]

1Sobre a pertinência desses argumentos, ver Volpato (2011).

2Este modelo foi elaborado pelo International Comitee of Medical Journals Editors - ICMJE (Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas) e é denominado IMRAD justamente por ser um acrônimo destas categorias em inglês, introduction, material and methods, results and discussion.

3Muitos desses equívocos decorrem de uma necessidade instalada no ensino superior brasileiro de “provar” aos avaliadores que o autor leu a bibliografia pertinente. Nossa hipótese é a de que essa necessidade tende a ser considerada na cultura de elaboração e de avaliação de artigos científicos.

4É possível encontrar na literatura, contudo, casos onde a categoria discussão é intitulada como conclusão.

5Swales (1990, p. 41), ao expor seu modelo CARS (Creating a Research Space) de descrição e explicação retórica da elaboração de introdução de artigos científicos, assevera que a introdução de artigos científicos se configura em três movimentos retóricos com os quais os articulistas estabelecem e ocupam um nicho para a pesquisa no interior de um campo de conhecimento. Segundo o autor, os pesquisadores estabelecem primeiro um território, destacando a importância da pesquisa e/ou fazendo generalizações sobre o tema e/ou revisando a literatura. Em seguida, eles estabelecem um nicho, argumentando contra, indicando lacunas, questionando o estado de arte ou mesmo continuando a tradição. É só em seguida que eles ocupam esse nicho, prevalentemente delineando objetivos ou apresentando a pesquisa. Todos esses movimentos e passos retóricos envolvem fundamentalmente a prospecção da literatura.

6Não é sem motivo que o modelo IMRAD prevalece em pesquisas de viés quantitativo das ciências exatas e biológicas, que demandam por descrição adequada de materiais e métodos, que geram resultados prevalentemente descritos em tabelas e gráficos e que exigem densa interpretação e discussão mediante o cotejo com o estado de arte em vertiginosa atualização. Essas características, ressalve-se, fazem iluminar justamente as quatro categorias destacadas no modelo. Segue-se disso que pesquisas em ciências humanas e sociais, especialmente aquelas que impõem reflexões qualitativas sofisticadas tendem a não se ajustar bem ao modelo.

7Para fins de simplificação, os termos ‘descrição’ e ‘interpretação’ representam as complexidades de textualização das funções descritiva e interpretativa das evidências no modelo convencional.

*

Doutor em Letras/Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem da Universidade do Sul de Santa Catarina, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1096-7253. E-mail: fabio.rauen@unisul.br.

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