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Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil

versão impressa ISSN 1519-3829versão On-line ISSN 1806-9304

Rev. Bras. Saude Mater. Infant. v.7 n.3 Recife jul./set. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1519-38292007000300010 

ARTIGOS ORIGINAIS ORIGINAL ARTICLES

 

Adequação da assistência pré-natal em gestantes atendidas em dois hospitais de referência para gravidez de alto risco do Sistema Único de Saúde, na cidade de Recife, Estado de Pernambuco

 

Adequacy of the antenatal care for pregnant women seen at the two references services for women with high risk pregnancies at maternity hospitals of the Brazilian Public Health System in the city of Recife, in the State of Pernambuco

 

 

Valéria Conceição Passos de CarvalhoI; Thália Velho Barreto de AraújoII

IDepartamento de Fisioterapia. Faculdade Integrada do Recife. Universidade Católica de Pernambuco. Rua do Príncipe, 526. Recife, PE, Brasil. CEP: 50.050-900. E-mail: valeriapassos@gmail.com
IIPrograma Integrado de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Departamento de Medicina Social. Universidade Federal de Pernambuco. Recife, PE, Brasil

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: investigar a adequação da assistência pré-natal realizada por gestantes usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) da cidade do Recife, Pernambuco.
MÉTODOS: estudo de corte transversal de 612 mulheres atendidas por ocasião do parto em duas unidades do SUS, referências para gravidez de alto risco no Recife, no período de junho a outubro de 2004. A avaliação do Pré-Natal foi baseada nos critérios do Programa de Humanização do Pré-Natal e Nascimento do Ministério da Saúde.
RESULTADOS: a cobertura de pré-natal foi de 96,1%, sendo a média de consultas de 5,3. Apenas 38,0% das mulheres iniciaram o pré-natal até o quarto mês de gestação e realizaram seis ou mais consultas. Dentre as entrevistadas, 31% tiveram peso, pressão arterial, altura uterina e os batimentos cardiofetais aferidos em todas as consultas. A atenção pré-natal foi considerada adequada em 17,8% e não-adequada em 82,2% dos casos.
CONCLUSÕES: A assistência pré-natal disponível para as gestantes na cidade do Recife, apesar de apresentar elevada cobertura, deve ser revista do ponto de vista qualitativo.

Palavras-chave: Gestantes, Qualidade da assistência à saúde, Cuidado pré-natal


ABSTRACT

OBJECTIVES: to asses antenatal care adequacy offered to pregnant women in the Brazilian Public Health System (BPHS), in the city of Recife, in the State of Pernambuco.
METHODS: a cross-sectional study of 612 women seen assisted during delivery in two BPHS units, with high risk pregnancies referrals in Recife, from June to October 2004. Antenatal care assessment was based on the criteria of the Humane Antenatal and Delivery Program of the Ministry of Health.
RESULTS: antenatal coverage averaged 96.1% and the median of medical visits was of 5.3. Only 38.0% of the women initiated antenatal care by the fourth month of pregnancy and made six or more medical consults. Among the respondents, 31% had weight, arterial pressure, uterine fundus height and cardiofetal heartbeats measured in all medical visits. Antenatal care was considered adequate in 17.8% of the cases and inadequate in 82.2% of the cases.
CONCLUSIONS: available antenatal care for pregnant women in Recife city has ample coverage, but it should be reviewed from a quality standpoint.

Key words: Pregnancy women, Quality of health care, Pre-natal care


 

 

Introdução

No Brasil a saúde da criança e da mulher tem sido reconhecida como prioridade há algumas décadas; entretanto, persiste a constatação de que ainda ocorre um número elevado de mortes de mulheres e crianças por complicações da gravidez e do parto.1,2

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera como aceitável uma Razão de Mortalidade Materna (RMM) entre 6 e 20 óbitos por 100 mil nascidos vivos.2 Em 2001, ocorreram nas capitais brasileiras 74,5 mortes por causas maternas para cada 100 mil nascidos vivos, segundo dados oficiais, estimando-se que cerca de 98% das mortes de mulheres por causas maternas são evitáveis.3 Essa cifra provavelmente é ainda uma estimativa conservadora dada à reconhecida subnotificação dos óbitos por causas maternas no país.3

No Recife, no período de 1994 a 2000, ocorreram 144 óbitos de mulheres por causas maternas, o que resultou em uma Razão de Mortalidade Materna (RMM) de 75,5 óbitos por 100 mil nascidos vivos.2 Dentre as causas de mortes, predominaram as causas obstétricas diretas (complicações obstétricas relacionadas à gravidez, parto e puerpério), perfazendo 70% dos óbitos. Neste grupo, destacaram-se a doença hipertensiva da gravidez (DHEG) (19%), as síndromes hemorrágicas (16%) e infecção puerperal (11%). As causas obstétricas indiretas (óbito de mulheres em decorrência de doença previamente existente, agravada pela gravidez) foram responsáveis por 31% dos óbitos maternos.2

Apesar do declínio da mortalidade infantil nas últimas décadas no país, observam-se grandes disparidades entre as regiões, sendo os níveis mais elevados no Nordeste e no Norte do país.4 Há ainda o registro de que a redução nos níveis da mortalidade infantil se fez acompanhar de uma maior participação do componente neonatal.5 Para o Recife, os coeficientes de mortalidade infantil, neonatal e pós-neonatal foram, respectivamente, 27, 53, 18,84 em 8,69 por mil nascidos vivos em 1995.6

Há evidências de que os níveis de mortalidade materna e perinatal são influenciados pelas condições de vida e pela qualidade da assistência obstétrica e pré-natal.7-9 Ainda que exista controvérsia, pesquisas sugerem que a assistência pré-natal pode contribuir para a redução da ocorrência de prematuridade e do baixo peso ao nascer.8,9

A assistência pré-natal tem ocupado historicamente um espaço relevante na atenção à saúde da população. O pré-natal compreende um conjunto de atividades que visa à promoção da saúde das mulheres grávidas e dos recém-nascidos e o estabelecimento de ações adequadas à prevenção, ao diagnóstico e ao manuseio clínico de problemas obstétricos que venham a ocorrer, ou de enfermidades previamente existentes.10

A garantia da qualidade da atenção pré-natal pressupõe a acessibilidade ao cuidado, incluído aqui o aumento na oferta de serviços de saúde, o acesso a exames laboratoriais, e a existência de mecanismos formais de referência e contra-referência entre os níveis de atenção.11-14

Em 2000, o Ministério da Saúde iniciou a implantação do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (PHPN),15 com os objetivos de promover ações direcionadas à redução da morbi-mortalidade materna, melhora dos resultados perinatais, tendo como pano de fundo a humanização do atendimento.14 Em suas diretrizes, fica enfatizada a importância de avaliar a qualidade do cuidado prestado.

O objetivo do presente estudo foi avaliar a assistência pré-natal prestada às gestantes usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) em Recife e, assim, fornecer subsídios para a implementação de medidas que visem à melhoria da qualidade da assistência pré-natal.

 

Métodos

Trata-se de um estudo de corte transversal, conduzido no período de junho a outubro de 2004, em duas maternidades de referência para gestantes de alto risco, inseridas em unidades hospitalares de grande porte, pertencentes à rede de serviços próprios do Sistema Único de Saúde em Recife, Pernambuco, Brasil.

Foram elegíveis todas as mulheres, residentes no Recife, atendidas por ocasião do parto em uma das duas maternidades, no período estudado e excluídas aquelas que não haviam realizado o pré-natal em serviço pertencente ao SUS. As puérperas foram identificadas através dos registros das salas de parto e de admissão ao internamento na maternidade. Foram entrevistadas 612 puérperas no pós-parto imediato, o que correspondeu a 97,6% do total de mulheres elegíveis para o estudo. Houve onze perdas e quatro recusas à participação.

A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista face a face, para aplicação de questionário estruturado e pré-codificado, previamente testado. As entrevistas foram realizadas por quatro acadêmicas dos cursos de medicina e de fisioterapia, devidamente treinadas para esta função. Paralelamente, foram revisados os cartões da gestante e prontuários médicos, sendo os dados transcritos para instrumento próprio da pesquisa.

As variáveis estudadas abrangeram as características socioeconômicas das mulheres, a história reprodutiva e da gravidez atual, fatores referentes à assistência pré-natal e a satisfação da mulher com a atenção recebida. A informação transcrita a partir dos registros do cartão da gestante e dos prontuários diz respeito às características do pré-natal.

A classificação do risco gestacional, descrita em outro local,16 foi baseada no índice criados por Chamberliam et al.,17 adaptado e aplicado em estudo realizado no Brasil por Barros et al.,18 citados por Halpern et al,19 e no escore desenvolvido por Hobel et al.20 O índice proposto permitiu a classificação do risco gestacional das entrevistadas em: baixo, médio e alto risco.

Para a adequação da assistência pré-natal foi utilizado o índice proposto por Silveira e Santos8 e as recomendações do Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento do Ministério da Saúde.15 Para a categorização do pré-natal, foi considerado como adequado: quando realizadas seis ou mais consultas ou número de consultas compatível com a idade gestacional ao término de gestação; início antes da 20ª semana; com no mínimo um registro de: dosagem de hemoglobina (Hb), exame comum de urina (ECU), exame para sífilis (VDRL), glicemia de jejum, tipagem sanguínea e fator Rh, vacinação antitetânica (VAT) - (doses ou reforço); três ou mais registros dos batimentos cardiofetais (BCF), de altura uterina, pressão arterial e peso da gestante. O pré-natal não-adequado foi definido como: realização de duas a cinco consultas, início após 20ª semana de gestação; ausência de registro dos seguintes exames: hemoglobina (Hb), exame comum de urina (ECU), exame para sífilis (VDRL), glicemia de jejum, fator Rh, tipagem sanguínea e de vacinação antitetânica (VAT); dois ou menos registros da altura uterina, pressão arterial, BCF e peso da gestante. Foram consideradas como não tendo feito o pré-natal as mulheres que não realizaram nenhuma consulta ou realizaram apenas uma.

Todos os questionários e as informações transcritas do cartão da gestante e dos prontuários médicos foram submetidos à crítica e os dados obtidos checados em sua consistência. Após a codificação, os dados foram submetidos a dois processos independentes de entrada, através do programa Epi-Info, versão 6.8. O processamento para a análise estatística foi efetuado utilizando-se os programas Epi-Info e Spss-PC versão 12.

Na descrição dos resultados apresentados, foram obtidas freqüências, médias e desvios-padrão. Empregou-se o teste c2 na comparação das proporções de mulheres com pré-natal adequado ou inadequado, admitindo-se para testar a significância estatística das diferenças erro alfa de 5%.

Esta pesquisa foi aprovada pela Comissão de Ética em Pesquisa com seres humanos da Universidade Federal de Pernambuco (processo: 074/2004). A participação das puérperas foi solicitada mediante termo de consentimento livre e esclarecido, o qual explicitava os objetivos da pesquisa e informava sobre o direito de recusa à participação.

 

Resultados

Em relação às características sócio-demográficas, a média de idade das mulheres estudadas foi de 24,3 anos (DP=6,33), variando de 12 a 44 anos. Aproximadamente 162 (26,2%) das puérperas eram adolescentes e 42 (6,9%) tinham idade igual ou superior a 35 anos. A maioria (80,4%) tinha um companheiro e 82,3% viviam em famílias com renda familiar mensal per capita inferior ao salário mínimo vigente na época da pesquisa (R$130,00). Em relação à escolaridade, sete mulheres eram analfabetas, 8,3% não havia completado o ensino básico e apenas 26,5% possuíam nível de escolaridade igual ou superior ao ensino médio. Do total, 203 (33,2%) das mulheres nunca trabalharam e 188 (30,7%) não estavam trabalhando nos últimos 12 meses. Entre aquelas que trabalhavam, 176 (79,6%) não possuíam carteira de trabalho assinada. Cerca de 146 (33,0%) eram servidoras domésticas e 123 (30,1%) comerciárias.

Quanto à história reprodutiva e da gravidez atual, 244 (39,9%) eram primíparas e 72 (11,8%) tinham tido quatro ou mais partos; 74 (12,1%) relataram um ou mais filho nascido vivo com baixo peso e 26 (4,2%) história anterior de filho nascido morto. De acordo com o prontuário médico, 368 (60,2%) das entrevistadas apresentaram algum tipo de morbidade na gravidez por ocasião do internamento, sendo as mais freqüentes: a doença hipertensiva específica da gravidez 135 (36,7%) e a pré-eclâmpsia 107 (29,1%).

Do total de 612 puérperas estudadas, 588 (96,1%) realizaram alguma consulta pré-natal, contudo, 10 (1,7%) fizeram apenas uma consulta. Pelo critério adotado na pesquisa, ter realizado uma ou nenhuma consulta, foi considerado como "não realizou pré-natal": 24 (5,6%) das pacientes se enquadraram nesse caso. O número médio de consultas no pré-natal foi de 5,3 (DP= 2,31).

A análise simultânea da época de início do pré-natal e do número de consultas realizadas mostra que apenas 233 (38,0%) iniciaram o pré-natal ainda no primeiro trimestre e realizaram seis ou mais consultas ou número de consultas adequado à idade gestacional quando do término da gravidez. (Tabela 1)

Do total de entrevistadas que realizaram o pré-natal, 249 (43,1%) escolheram os serviços das maternidades ou hospitais públicos para a realização do pré-natal e 167 (28,9%) unidades do Programa de Saúde da Família (PSF). Uma proporção elevada (61,2%) referiu a proximidade de casa ou do trabalho como o principal motivo para a escolha do serviço de saúde onde realizou o pré-natal. Em 71,6% dos casos a primeira consulta foi agendada previamente, seja através de contato telefônico, do agente comunitário de saúde ou por conhecimento no serviço, e para 77,5% das mulheres as consultas subseqüentes foram agendadas em consulta anterior.

Das mulheres estudadas, 90,6% estavam de posse do cartão no momento da entrevista. Apenas 151 (31,0%) das mulheres tinham registrado no cartão da gestante os procedimentos clínico-obstétricos recomendados no pré-natal: aferição do peso, pressão arterial, altura uterina e batimentos cardiofetais em todas as consultas efetuadas, e 89 (18,3%) em até metade das consultas, como observado na Tabela 2.

Em relação aos demais procedimentos preconizados pelo PHPN, apenas 80 (16,4%) das mulheres tinham pelo menos um registro da pesquisa de edema, 205 (42,1%) dois ou mais registros de apresentação fetal, 86 (17,7%) realizaram exame de mama e 103 (21,1%) o exame preventivo para o câncer cérvico-uterino no pré-natal. Com relação ao esquema de vacinação antitetânica (VAT), 570 (98,6%), realizaram o esquema recomendado (duas doses de VAT) ou dose de reforço, quando já previamente vacinada. Entre as mulheres que fizeram o pré-natal 339 (69,6%) realizaram pelo menos um exame de sífilis (VDRL), 352 (72,3%) pelo menos um exame comum de urina (ECU), 361 (74,1%) pelo menos uma dosagem de hemoglobina, 362 (74,4%) uma ou mais dosagens de glicemia, 431 (88,5%) a pesquisa do fator Rh, 176 (36,1%) o exame de anti-HIV, e 357 (73,3%) realizaram o exame de ultra-sonografia. Esses dados estão apresentados na Tabela 3.

Apenas 36,9% das entrevistadas referiram ter participado de alguma atividade educativa e 44,8% disseram ter recebido algum tipo de orientação individual. O aleitamento materno foi o tema mais freqüentemente abordado em ambas as situações.

A maioria das mulheres que realizou o pré-natal classificou como "boa" a atenção recebida (65,9%) e afirmou ter ficado satisfeita com o atendimento prestado pelo médico (85,6%). Receber orientação e informações do médico, ou de outro profissional de saúde, durante o pré-natal foi o principal aspecto positivo apontado pelas mulheres (51,6%), e demora na entrega dos resultados dos exames laboratoriais o aspecto negativo mais destacado (13,5%).

Do total de mulheres entrevistadas, 160 (27,9%) foram classificadas como de alto risco gestacional, 211 (36,5%) como de médio risco e 207 (35,8%) como de baixo risco.

Aplicando-se os critérios adotados neste estudo, 103 (17,8%) das mulheres receberam assistência pré-natal adequada e 475 (82,2%), não-adequada. A proporção de mulheres que realizaram um pré-natal adequado foi de 25 (15,6%) para as mulheres classificadas como de alto risco gestacional, de 31 (14,7%) entre as de médio risco e de 47 (22,7%) entre aquelas com baixo risco (Tabela 4), no entanto, as diferenças entre os grupos, ainda que limítrofe, não foram estatisticamente significantes ao nível de 5% (p = 0,07).

 

 

Discussão

As puérperas aqui estudadas representam 2,7 % do total de mulheres residentes em Recife que pariram em unidades do SUS no ano estudado.21 Portanto, os resultados encontrados não podem ser generalizados para a população de gestantes da cidade do Recife. No entanto, a amostra foi suficiente para representar as mulheres atendidas nas duas maternidades no ano de 2004.

Dentre as limitações metodológicas deste estudo, pode ser citado o uso do cartão da gestante para obter informações sobre a atenção recebida durante o pré-natal, apesar da elevada proporção de mulheres que estavam de posse do cartão no momento da entrevista. Por outro lado, a qualidade da informação depende dos seus registros, pois se trata de um instrumento cujo preenchimento é feito por diferentes profissionais na prática da atenção pré-natal. Para algumas variáveis houve uma proporção importante de falta de registro, o que dificultou o entendimento quanto a não realização do procedimento normalizado ou a ausência de registro do mesmo.

Neste estudo, o perfil socioeconômico da população mostrou-se similar ao observado por outros autores3,22,23 em estudos conduzidos no setor público no Brasil, ou seja, houve o predomínio de mulheres com idade entre 20 e 29 anos, vivendo em união conjugal, com menor escolaridade formal e renda familiar per capita. Esses dois últimos fatores, atuando em conjunto ou isoladamente, têm sido associados a menor utilização da assistência pré-natal.24

No Brasil, a rápida queda da fecundidade em outros grupos etários, observada nas últimas décadas,13 tem contribuído para ampliar a participação das adolescentes entre as mulheres grávidas. Em nosso estudo pôde-se observar um elevado percentual de puérperas adolescentes, à semelhança de pesquisas realizadas em outras regiões do país, como no Maranhão, por Silva et al.,25 em Caxias do Sul, por Trevisan et al.22 e, em Minas Gerais, por Coutinho et al.10

Há ainda elevada proporção de primíparas, possivelmente em razão da alta porcentagem de mulheres jovens e adolescentes na população estudada. Alguns estudos24-26 têm mostrado que as grávidas adolescentes iniciam mais tardiamente o pré-natal e realizam um menor número de consultas, quando comparada às mulheres adultas.

A reduzida proporção de mulheres de alto risco encontrada na pesquisa, ainda que realizada em hospitais de referência para gravidez de alto risco, deve-se ao fato de a classificação de risco ter sido realizada baseada na situação das mulheres durante a gravidez. O encaminhamento da maioria dessas mulheres para as unidades que sediaram a pesquisa foi realizado pela central de parto. Ainda que algumas mulheres não fossem de risco, cerca de 60% apresentavam alguma morbidade quando da admissão nas unidades estudadas; destas, 36,7% apresentavam doença hipertensiva específica da gravidez e 29,1% pré-eclâmpsia.

A cobertura do pré-natal é considerada como um dos principais indicadores da qualidade da atenção básica em saúde. Os resultados desta pesquisa mostram uma elevada cobertura do pré-natal, ratificando os achados de Serruya et al.,14 que avaliaram os dois primeiros anos, 2001 e 2002 de implantação do PHPN no país, entre os municípios cadastrados no SISPRENATAL, revelando uma elevação na cobertura do programa.

Porém, a despeito dessa cobertura, observou-se uma pequena proporção de mulheres com pré-natal adequado (17,8%). Esse resultado pode estar refletindo dificuldades na implementação do programa nos serviços de saúde. Entre as mulheres que realizaram o pré-natal de acordo com os critérios da pesquisa, a média de consultas realizadas foi de 5,3 e apenas pouco mais de um terço das mulheres iniciaram o pré-natal no primeiro trimestre e realizaram o número preconizado de consultas. Todavia, esses resultados são mais favoráveis do que os encontrados por Serruya et al.,14 cuja média de consultas foi de 4,4 em 2002 e o percentual de mulheres que realizou seis ou mais consultas foi de 20%.

O início tardio do pré-natal sugere o despreparo dos serviços de saúde para captar precocemente essas gestantes, o que pressupõe a sensibilização e conscientização da população quanto à importância do início precoce do pré-natal ou, ainda, a dificuldade de acesso das mulheres aos serviços de saúde. Sabe-se que o início tardio e a realização de menor número de consultas podem dificultar o diagnóstico e o tratamento precoce de certas condições, além de comprometer um dos principais trabalhos desenvolvidos durante o pré-natal que é a promoção da saúde.

Ainda mais preocupante é o fato de não terem sido realizados, para a maioria das mulheres, todos os procedimentos clínico-obstétricos básicos no pré-natal. Apenas 31% das mulheres tiveram todos esses procedimentos realizados em todas as suas consultas, proporção menor do que à encontrada no estudo de Silveira et al.,8 em Pelotas, Rio Grande do Sul, no qual a freqüência de realização da aferição da idade gestacional, pressão arterial e peso da gestante foi próxima a 50%.

Torna-se, também, evidente que um dos principais pontos críticos para assegurar a qualidade da assistência pré-natal é a realização dos exames complementares, para os quais foi observado um elevado percentual de ausência de registro no momento do parto. Isto pode estar refletindo a não solicitação desses exames, a dificuldade na realização ou na obtenção dos resultados ou, ainda, o não registro dos resultados no cartão da gestante pelos profissionais de saúde. A demora na entrega dos resultados dos exames laboratoriais foi citada por 13% das mulheres como um dos aspectos negativos no pré-natal realizado.

Ainda que tenha ocorrido, para algumas mulheres, o sub-registro dos procedimentos realizados, chama a atenção o fato de que procedimentos que dependem exclusivamente do profissional de saúde tenham sido realizados, ou registrados, com menor freqüência do que os exames complementares. Esses resultados são ainda mais expressivos no que diz respeito à reduzida freqüência na realização do exame preventivo do câncer cérvico-uterino e da mama, alertando para a fragmentação da atenção à saúde da mulher, dado ao fato de que o pré-natal pode ser um momento propício para a consolidação de orientações e práticas preventivas. Outro paradoxo observado consiste na maior proporção de mulheres que realizaram a ultra-sonografia obstétrica em comparação com exames complementares básicos. Achados semelhantes foram relatados por Trevisan et al.,22 em Caxias do Sul, e por Coutinho et al.,10 em Minas Gerais.

Quanto à aplicação do critério de adequação do pré-natal adotado na presente pesquisa, foi observada uma proporção reduzida de mulheres com pré-natal adequado, sem grande variação com o nível do risco gestacional. Esses resultados evidenciam a desigualdade social no campo da saúde, mostrando que a disponibilidade da assistência com freqüência não responde às necessidades da população assistida.

Uma das principais finalidades da assistência pré-natal é a realização de atividades educativas visando à promoção da saúde, as quais envolvem baixo custo tecnológico. Apenas uma reduzida proporção de mulheres referiu ter participado de palestras educativas ou ter recebido alguma orientação individual. Este resultado é inferior ao encontrado em dois outros estudos realizados na cidade do Recife, o de Feliciano e Kovacs23 e o de Rosenthal.9

À semelhança das duas outras pesquisas realizadas em Recife,8,23 o tema mais abordado foi o aleitamento materno, mostrando que as atividades educativas realizadas na assistência pré-natal permanecem com uma postura tradicionalista. Assim, outros assuntos também importantes foram abordados com menor freqüência, a exemplo do direito à licença-maternidade, contracepção, orientações sobre o parto e os cuidados com o corpo.

A acessibilidade constitui um dos requisitos para a qualidade da atenção à saúde. De acordo com a Norma Operacional da Assistência à Saúde,27 são incentivadas a ampliação do acesso e a regionalização da oferta de serviços de atenção básica de saúde, tendo o PSF papel fundamental na reorientação da assistência. No entanto, na presente pesquisa, ainda que a proximidade da residência ou do local de trabalho tenha sido, para uma proporção elevada das mulheres, o elemento mais importante na escolha da unidade de saúde para realização do pré-natal, pôde-se observar que apenas 28,9% realizaram o pré-natal em unidades do PSF. Santos et al.,28 em estudo realizado em Pelotas, Rio Grande do Sul, encontraram que metade das mulheres havia realizado o pré-natal em unidade do PSF. A diferença encontrada entre os dois estudos pode decorrer de diferenças entre as características das populações estudadas ou do delineamento dos estudos ou, ainda, do nível de consolidação do pré-natal no PSF das duas cidades.

Os resultados também sugerem que a implantação do PHPN/2000, na cidade do Recife, trouxe como conseqüência positiva o aumento do percentual de mulheres que tiveram a marcação da sua primeira consulta agendada previamente, quando comparadas ao estudo de Feliciano e Kovacs.23 Essa evolução também pode ser observada na marcação da consulta subseqüente, estratégia importante para garantir a continuidade da atenção e favorecer a adesão das mulheres ao pré-natal.

Embora a maioria das mulheres tenha avaliado positivamente o atendimento recebido, pouco mais de um terço mostrou-se insatisfeita, o que pode ter influenciado na adesão ao pré-natal. Fato semelhante foi relatado por Moraes et al.,29 em estudo realizado em São José do Rio Preto, São Paulo.

A avaliação do pré-natal realizada com critérios de adequação semelhantes aos adotados na presente pesquisa, como os estudos realizados por Silveira et al.30 e Puccini et al.,31 apresentou resultados similares. Por outro lado, os resultados encontrados foram menos favoráveis em comparação com os estudos que realizaram a avaliação da adequação do pré-natal empregando indicadores baseados unicamente no número de consultas e/ou época do início do pré-natal, a exemplo do índice de Kotelchuck, utilizado em estudo feito por Leal et al.32 no Rio de Janeiro, ou no índice de APNCU, empregado por Silva et al.,25 em São Luís do Maranhão. Isto ratifica a importância de considerar outros parâmetros além do número de consultas e da época do início do pré-natal na avaliação da adequação da assistência pré-natal.

Como conclusão, a assistência pré-natal prestada às gestantes usuárias do SUS em Recife, a despeito da alta cobertura, apresentou baixa adequação, considerando os critérios mínimos exigidos no PHPN, indicando a necessidade da adoção de medidas que venham a melhorar a qualidade desta atenção. Os resultados confirmam ainda a necessidade de avaliações periódicas do pré-natal.

 

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (FACEPE), Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). (PCT Saúde II, Edital 03/2004).

 

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Recebido em 6 de janeiro de 2007
Verso final apresentada em 16 de maio de 2007
Aprovado em 7 de junho de 2007

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