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Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil

versão impressa ISSN 1519-3829versão On-line ISSN 1806-9304

Rev. Bras. Saude Mater. Infant. v.8 n.3 Recife jul./set. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1519-38292008000300008 

ARTIGOS ORIGINAIS ORIGINAL ARTICLES

 

Aleitamento materno exclusivo em lactentes atendidos na rede pública do município de Joinville, Santa Catarina, Brasil

 

Exclusive breastfeeding in infants attending public health care units in the municipality of Joinville, State of Santa Catarina, Brazil

 

 

Selma Cristina FrancoI; Maria Beatriz Reinert do NascimentoI; Marco Antonio Moura ReisI; Hugo IsslerII; Sandra Josefina Ferraz Ellero GrisiII

IDepartamento de Medicina. Universidade da Região de Joinville. Campus Universitário, s. n. Joinville, SC, Brasil. CEP: 89.201-972. E-mail: scfranco@terra.com.br
IIDepartamento de Pediatria. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

 

 


ABSTRACT

OBJECTIVES: to identify the prevalence of exclusive breastfeeding in children attending the public health system and its association with variables relating to the mother and the child.
METHODS: cross-sectional study conducted in the course of the 2005 National Immunization Campaign, in the city o Joinville, State of Santa Catarina, Brazil. Carers for 889 children answered a questionnaire including questions about the mother and the child at the vaccination sites. Descriptive statistics and chi-square test were used to analyze data, with a level of significance of 5%.
RESULTS: the observed prevalence for breastfeeding was 90.7%, 84.2% and 73.5%, in children under four, six and twelve months of age, respectively. Exclusive breastfeeding rates were 53.9% among children under four and 43.6% among those under six months. Use of pacifiers was significantly associated with the absence of exclusive breastfeeding both in children under four and in those under six months of age (p<0.001). Mother work outside home was associated with the absence of exclusive breastfeeding in children aged under six months (p=0.001).
CONCLUSIONS: exclusive breastfeeding rates among infants under 12 months of age attending public health system were lower than those recommended by the World Health Organization. The use of pacifiers and the mother work may negatively influence exclusive breastfeeding.

Key words: Infant nutrition, Breastfeeding, Exclusive breastfeeding


RESUMO

OBJETIVOS: identificar a prevalência do aleitamento materno exclusivo entre lactentes atendidos na rede pública municipal e sua associação com variáveis maternas e do lactente.
MÉTODOS: estudo transversal realizado durante a Campanha Nacional de Vacinação em 2005, em Joinville, Santa Catarina, Brasil. Foi aplicado um questionário aos acompanhantes de 889 lactentes menores de um ano de idade nos postos de vacinação incluindo aspectos maternos e do lactente. Para a análise, utilizou-se estatística descritiva e o teste do qui-quadrado, com nível de significância de 5%.
RESULTADOS as prevalências de amamentação foram 90,7%, 84,2% e 73,5%, nos lactentes com idade inferior a quatro, seis e doze meses, respectivamente. O índice de aleitamento materno exclusivo foi de 53,9% em menores de quatro e de 43,6% em menores de seis meses. O uso de chupeta esteve significativamente associado à amamentação não-exclusiva nas crianças com menos de quatro ou seis meses de idade (p<0,001) e o trabalho materno, entre aquelas com até seis meses (p=0,001).
CONCLUSÕES: as taxas de amamentação exclusiva entre menores de um ano de idade atendidos na rede pública estão aquém do preconizado pela Organização Mundial da Saúde. O uso de chupeta e o trabalho materno podem interferir negativamente com o aleitamento materno exclusivo.

Palavras-chave: Nutrição do lactente, Aleitamento materno, Aleitamento materno Exclusivo


 

 

Introdução

Nas últimas décadas, as evidências científicas favoráveis à prática do aleitamento materno exclusivo (AME) aumentaram consideravelmente. Como política global de saúde pública, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a amamentação seja exclusiva até o sexto mês de vida, quando os alimentos complementares são iniciados, devendo o aleitamento materno (AM) ser mantido beneficamente para mãe e filho até dois anos ou mais.1

Apesar dos comprovados benefícios do AM e da criação de programas de incentivo a essa prática, as taxas mundiais de amamentação ainda permanecem abaixo dos níveis desejados. Apenas 35% dos lactentes menores de quatro meses são exclusivamente amamentados e o desmame precoce ainda está associado a altos índices de mortalidade infantil por desnutrição e diarréia.1

No que diz respeito à definição de políticas públicas de saúde, é essencial tomar conhecimento das condições de saúde, de assistência e de vida de uma determinada população, inclusive àquelas relativas à nutrição infantil. O diagnóstico rápido dos índices de AM constitui uma importante estratégia.2 Para o acompanhamento da situação do AM recomenda-se utilizar indicadores-chave e metodologias específicas, que permitam comparações dos índices entre regiões de um determinado país, ou entre vários países.3

Por sua praticidade, baixo custo e confiabilidade, mais recentemente a realização do inquérito epidemiológico sobre AM em campanhas de vacinação tem-se mostrado exeqüível e de mais fácil realização, mormente se a cobertura vacinal for alta e houver anuência das equipes de imunização dos municípios.2,4,5

O Projeto "Amamentação e Municípios", desenvolvido pelo Instituto de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, foi implementado em 1998 para avaliar as práticas alimentares em menores de um ano em dias nacionais de vacinação no Estado e passou a ser estendido, desde então, a outros municípios brasileiros.6

Considerando os benefícios da amamentação e a sua importância como estratégia para diminuição da morbimortalidade infantil, procurou-se determinar nesse estudo a situação do aleitamento materno exclusivo em menores de um ano atendidos na rede pública do município de Joinville, Santa Catarina, caracterizando fatores maternos e aqueles relacionados aos lactentes, que poderiam interferir com essa prática.

 

Métodos

O estudo foi desenvolvido no município de Joinville, maior cidade do Estado de Santa Catarina, Brasil, atualmente com uma população de 504 mil habitantes. Localizado em uma região de grande desenvolvimento econômico, o município possui um conjunto de indicadores sociais que mostram um dos melhores padrões de qualidade de vida do Brasil, sendo o 13º colocado no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e apresentando alguns indicadores de saúde semelhantes aos de países desenvolvidos, como coeficiente de mortalidade infantil de 8,6/1000 e esperança de vida de 76 anos.7

O Sistema Único de Saúde (SUS) do município é composto por uma rede de estabelecimentos organizados em diferentes níveis de complexidade, segundo os preceitos da política nacional de saúde. Das 57 unidades básicas, 37 funcionam segundo a estratégia da Saúde da Família e 20 segundo o modelo convencional, 16 delas agregando os agentes comunitários de saúde à equipe. Entre três unidades hospitalares públicas, a cidade dispõe de uma maternidade que é "Hospital Amigo da Criança" e que possui um banco de leite humano. Existem, também, três hospitais particulares, sendo um deles conveniado ao SUS.

Baseando-se nos dados do Sistema de Informação de Nascidos Vivos (SINASC) de Joinville, em 2003, e nas projeções populacionais realizadas no município, estima-se que a população infantil menor de um ano de idade seja cerca de 7000 crianças. A cobertura vacinal esperada para a faixa etária em estudo, com base na série histórica dos registros da Secretaria Municipal de Saúde, é elevada (acima de 93%).

As definições de aleitamento materno utilizadas foram aquelas recomendadas pela OMS: a) aleitamento materno: a criança recebe leite materno associado ou não a outros leites, líquidos, alimentos sólidos ou semi-sólidos; b) aleitamento materno exclusivo: o lactente é alimentado exclusivamente com leite humano, diretamente do peito ou ordenhado, e não recebe nenhum outro líquido ou sólido, com exceção de vitaminas, suplementos minerais ou medicamentos; c) uso de bico ou chupeta: diz respeito aos lactentes que os utilizam.3

Trata-se de um estudo transversal (inquérito populacional) cuja coleta de dados foi realizada durante a Campanha Nacional de Vacinação, de agosto de 2005, entre os acompanhantes de crianças menores de um ano de idade, que compareceram aos postos de vacinação, e faz parte de uma pesquisa mais ampla do Projeto "Amamentação e Municípios", realizada em parceria com o Instituto da Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

Para o porte desse município, propõe-se uma amostra por conglomerados, com cerca de 1000 a 1500 crianças, visando obter um número mínimo de 300 crianças menores de quatro meses.6 Baseando-se na cobertura vacinal observada na primeira fase do Dia Nacional de Vacinação do ano 2005, e considerando o número heterogêneo de crianças nos diversos postos de vacinação, foi realizado sorteio em duas etapas, com probabilidade proporcional ao tamanho dos conglomerados. Na primeira etapa, foram sorteados os postos de vacinação e na segunda, uma seleção sistemática foi realizada na própria fila de vacinação de cada posto escolhido.6 Da amostra completa coletada (1470 crianças), foram eleitas como objeto desse estudo apenas 889 crianças cujo atendimento regular de saúde tivesse sido realizado na rede pública.

Para fins de coleta de dados, duas pesquisadoras, previamente treinadas no Instituto de Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, ofereceram treinamento a 74 voluntários - alunos de cursos superior e técnico da área da saúde, bem como a 133 profissionais de saúde dos postos de vacinação para atuarem como entrevistadores. Três alunos do curso de medicina, bolsistas de iniciação científica, foram qualificados para atuarem como supervisores da pesquisa.

O instrumento de coleta de dados consistiu de um questionário com perguntas fechadas, contendo questões sobre a alimentação da criança nas 24 horas precedentes à entrevista, seguindo a recomendação da OMS para levantamentos sobre amamentação.3 Além disso, foram incluídos dados sobre características sócio-demográficas maternas e dos lactentes, com algumas questões sendo aplicadas somente se o acompanhante fosse a mãe da criança.

Os dados foram armazenados no programa AMAMUNIC 2.0 6 e analisados com o uso do software Epi-Info, versão 6.04. Os indicadores de aleitamento, bem como a associação com as variáveis independentes, foram analisados considerando dois estratos, um de crianças com idade inferior a quatro meses e outro com todas aquelas com menos de seis meses de idade, inclusive as do estrato anterior.

Para testar a hipótese de significância, as comparações estatísticas foram feitas em análise univariada com o teste qui-quadrado. Para o nível de significância, foi adotado um α=0,05.

A pesquisa foi autorizada pelo Instituto de Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e pela Secretaria Municipal de Saúde de Joinville, tendo sido aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE) e Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa (CAPPesq) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Todos os sujeitos assinaram consentimento livre e esclarecido.

 

Resultados

A população de estudo constituiu-se de 889 lactentes com idade inferior a um ano, atendidos no serviço público, entre os quais a freqüência de AM foi de 73,5%. As freqüências de AM e de AME foram, respectivamente, 90,7% e 53,9% nos lactentes com idade abaixo de quatro meses, e 84,2% e 43,6% nos lactentes com idade abaixo de seis meses. Na Tabela 1, estão dispostas as características gerais maternas e dos lactentes. Foram estudados 435 lactentes masculinos (48,9%) e 454 femininos (51,1%). A média de peso de nascimento foi de 3221 g (DP= +518,4 g), sendo que 6,6 % dos lactentes apresentaram baixo peso ao nascer. O nascimento ocorreu em "Hospital Amigo da Criança" em 88,9% dos casos. Cerca de 49,3% dos lactentes usavam chupeta. A idade materna variou de 14 a 47 anos (média=25,8 anos+ 6,7 anos) e 54,9% delas tinham mais de um filho. No que diz respeito à escolaridade, 68,8% das mães haviam completado, no mínimo, o ensino fundamental. Ao momento da entrevista, apenas 18,9% das mulheres estavam trabalhando fora de casa. Ocorreram 65,6% de partos vaginais.

 

 

A Tabela 2 sumariza a influência das variáveis relacionadas aos lactentes e suas mães. Considerada a amamentação não-exclusiva como sendo o uso de leite materno associado a outros líquidos ou alimentos, a utilização de chupeta foi fator significativamente associado ao aleitamento não-exclusivo entre os lactentes com idade inferior a quatro e seis meses (p<0,001 e p<0,001). Já o trabalho materno não se mostrou significativamente relacionado à amamentação não-exclusiva até os quatro meses (p=0,11), mas o foi para as crianças com idade de até seis meses de vida (p=0,001). Não houve diferenças estatisticamente significantes entre as outras variáveis estudadas (sexo, peso de nascimento, tipo de parto, nascimento em "Hospital Amigo da Criança", paridade, idade e escolaridade maternas) e o AME aos quatro e seis meses.

 

 

Discussão

No Brasil, tem-se observado uma tendência de aumento da prática da amamentação. Entre 1989 e 1996, a prevalência do AM entre menores de quatro meses aumentou de 73,5% para 85,4%, e entre menores de doze meses passou de 27,5% para 37,1%.8 Entre 1996 e 1999, a duração mediana do AM subiu de sete para dez meses.9

A freqüência de amamentação de 73,5% até os 12 meses de idade, encontrada em Joinville, é similar à de 74% descrita em Cuiabá, Mato Grosso,10 e pode ser considerada alta, se comparada com estudos realizados em Florianópolis, Santa Catarina,2 João Pessoa, Paraíba,2 Londrina, Paraná,11 onde são observadas prevalências de 62,4%, 59,4%, 50,7%, respectivamente. Em Botucatu, São Paulo,5 Rio Branco, Acre,12 e apenas 38,0% e 26,7% das crianças estão sendo amamentadas ao completar o primeiro ano de vida.

Quando se busca a literatura referente à amamentação exclusiva, verifica-se que o índice de AME de 53,9%, encontrado em crianças joinvilenses menores de quatro meses, foi pouco superior ao de Florianópolis2 e Cuiabá,10 que apresentam 46,3% e 41%. O achado também superou os indicadores dos municípios de João Pessoa,2 e Londrina11 que são 29,3% e 23,9%, respectivamente. Estudo realizado em 84 municípios paulistas revela que somente em um terço deles a prevalência do AME em lactentes com menos de quatro meses é maior que 20%.4 No Estado da Paraíba, onde foram avaliadas 11.076 crianças de até um ano de idade, apenas 22,4% das menores de quatro meses recebiam leite materno de forma exclusiva.13

Com relação à freqüência do AME em menores de seis meses, que em Joinville foi de 43,6%, o resultado mostrou-se melhor que os 34,5% encontrados em Cuiabá,10 e bastante superior aos 21,0% e 16,6% descritos na cidade de Londrina11 e no Estado da Paraíba, respectivamente.13

Apesar desses indicadores apontarem uma melhor situação de AM e AME em Joinville quando comparada a outros municípios brasileiros, o que se supõe poder estar associado às características sócio-demográficas e estrutura de assistência à saúde ali observadas, eles ainda permanecem aquém das recomendações do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e da World Health Organization (WHO). 1

Pesquisas têm tentado identificar fatores relacionados à prática da amamentação exclusiva, tais como sexo e peso de nascimento da criança, tipo de parto, local de nascimento e de seguimento ambulatorial, uso de chupetas, idade e escolaridade materna, experiência prévia com AM, situação socio-econômica materna, paridade, trabalho materno, entre outros.4,6,14

Diferentemente do descrito na literatura, nesse estudo, apenas o uso chupeta e o trabalho materno foram fatores significativamente associados ao AM não-exclusivo, o que merece reflexão adicional.

A exposição de recém-nascidos amamentados a chupetas e bicos artificiais, com possíveis efeitos adversos à saúde em geral, também não é recomendada pelo risco dos prejuízos ao AM.15 A chance de desmame é sabidamente maior entre os usuários de bicos artificiais,16 pois nestes casos há diminuição da freqüência e duração das mamadas, além da "confusão de bicos", especialmente nas mulheres com dificuldades no AM.17 Entretanto, este constitui importante hábito cultural entre os lactentes brasileiros,18 e que foi confirmado entre 49,5% dos menores de um ano aqui estudados.

No Nordeste do país foram estudados lactentes nascidos com peso menor que 3000 g, e observou-se que aproximadamente 60% deles utilizam chupetas e têm um risco 1,9 vezes maior de desmame precoce que os não-usuários de bicos. A duração média da amamentação exclusiva, também, é significativamente menor naquela população.19 No Sul do Brasil, quando estudada população egressa de "Hospital Amigo da Criança", verificou-se que 61,6% usava chupeta desde a primeira semana de vida. Cerca de 2/3 dos lactentes em uso de bico artificial deixa de ser amamentado exclusivamente ao final do segundo mês de vida.20

O hábito do uso de chupetas deve ser considerado um marcador de dificuldades no AM, colocando a necessidade de que o profissional de saúde se conscientize dos efeitos prejudiciais desse costume sobre a amamentação e a saúde da criança.18 Entretanto, vale ressalvar que tanto o AM como a utilização de bicos têm sido associados a uma diminuição na incidência de morte súbita,21 indicando que a orientação sobre o uso das chupetas deve incluir seus potenciais riscos e benefícios.

A observação de que o trabalho materno esteve associado à interrupção do AME entre as crianças com idade inferior a seis meses, e não entre menores de quatro meses, sugere um possível impacto protetor da licença-maternidade até os quatro meses, segundo a legislação vigente. No Brasil, desde 1988, a licença maternidade tem duração de 120 dias, mas ainda assim as mulheres que desejam combinar amamentação e trabalho encontram muitos obstáculos.22,23 Para continuar amamentando exclusivamente, as mães que têm emprego fixo necessitam de creches no local de trabalho, pausas para amamentar ou pelo menos um local para expressão e armazenamento do leite humano ordenhado.24

Na cidade de São Paulo, um estudo exploratório em 13 indústrias demonstra que 97% das mulheres trabalhadoras iniciam a amamentação, e que a maioria delas utiliza o período de licença-maternidade para amamentar.22 Entre mães paraibanas que têm vínculo empregatício formal e filho com idade inferior a quatro meses, ter direito à licença-maternidade aumenta significativamente a freqüência de amamentar exclusivamente (29,6% vs. 8,9%).13

É sabido que o tempo decorrido entre o parto e o retorno ao trabalho é o mais importante preditor da duração do AM, pois quanto mais cedo a volta ao emprego mais precoce é a introdução de outros alimentos e, principalmente, o desmame.25

Quando avaliada a saúde de 716 puérperas americanas após cinco semanas do parto, observou-se que elas apresentavam muitas queixas ainda decorrentes da gravidez e da parturição, indicando que há necessidade de maior tempo de repouso e recuperação do que o tradicional período de puerpério.26 É descrita a necessidade da permanência da mãe junto de seu filho nos primeiros meses de vida, o que além de aumentar a prevalência do AME, causa impacto a longo prazo na saúde física e mental da díade.25

Assim, deve-se ver com otimismo a possibilidade de ampliação da licença-maternidade de quatro para seis meses, considerando-a um investimento vantajoso ao empregador no futuro, com diminuição do absenteísmo e dos custos para o sistema de saúde, maior produtividade e bem-estar das funcionárias durante o trabalho.25

Embora a implantação da "Iniciativa Hospital Amigo da Criança" tenha sido relacionada com o aumento da freqüência de AME entre a população assistida por essas instituições,27 diferenciando-as daquelas que não implantaram tal iniciativa, em Joinville não foi observada diferença significativa entre as taxas dos nascidos no "Hospital Amigo da Criança" e aquelas dos nascidos em outros hospitais da cidade. Apesar de duas maternidades privadas do município não serem detentoras do título, essas também promovem e apoiam a amamentação de modo regular, bem como referenciam nutrizes com problemas na lactação para o banco de leite humano localizado na maternidade pública. É sabido que nos municípios com hospitais com programas oficiais de estímulo ao AM, esses funcionam como facilitadores da disseminação de informações consistentes sobre a importância do leite humano na alimentação infantil.4

De maneira geral, os resultados encontrados no presente estudo foram bastante animadores, justificando e valorizando os investimentos e esforços pró-amamentação desenvolvidos regularmente há mais de dez anos no município de Joinville, tais como a promoção da Semana Mundial de Aleitamento Materno, manutenção de um "Hospital Amigo da Criança" e Banco de Leite, ativos, oferta de treinamento segundo a metodologia do curso de 18 horas do UNICEF para profissionais de saúde e realização de pesquisas sobre AM. Venancio6 considera que as cidades que promovem pelo menos quatro ações em favor do AM aumentam a chance de suas crianças serem amamentadas exclusivamente nos primeiros seis meses de vida.

A questão da amamentação exclusiva deve ser uma prioridade da agenda, não apenas dos governos, mas da sociedade civil organizada. Com o intuito de melhorar ainda mais os indicadores de saúde, há necessidade de incrementar os programas de proteção, promoção e apoio ao aleitamento materno exclusivo, bem como estender o período de licença-maternidade.

 

Agradecimentos

Às alunas de iniciação científica Fabíola Müller de Oliveira, Milena Furlin Rizzon e Gabrielli Socha, que participaram como supervisoras da pesquisa; à Secretaria Municipal de Saúde de Joinville, pelo apoio durante a coleta de dados, e à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE).

 

Referências

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Recebido em 29 de maio de 2006
Versão final apresentada em 4 de março de 2008
Aprovado em 15 de maio de 2008

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