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Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil

versão impressa ISSN 1519-3829versão On-line ISSN 1806-9304

Rev. Bras. Saude Mater. Infant. vol.18 no.1 Recife jan./mar. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1806-93042018000100008 

ARTIGOS ORIGINAIS

Sintomas depressivos em puérperas atendidas em Unidades de Saúde da Família

Synara Barbosa de Melo1 

Rhayza Rhavênia Rodrigues Jordão2 

Fernanda Jorge Guimarães3 

Jaqueline Galdino Albuquerque Perrelli4 

Amaury Cantilino5 

Everton Botelho Sougey6 

1-4Centro Acadêmico de Vitória. Universidade Federal de Pernambuco (CAV/UFPE). Rua Alto do Reservatório. s.n. Bela Vista. Vitória de Santo Antão, PE, Brasil. CEP: 55.608-680. E-mail: jaquelinealbuquerqueufpe@gmail.com

5,6Universidade Federal de Pernambuco. Recife, PE, Brasil.


Resumo

Objetivos:

identificar a depressão pós-parto (DPP) entre mulheres atendidas em Unidades de Saúde da Família (USF).

Métodos:

trata-se de um estudo transversal, com abordagem quantitativa realizado em USF do município da Vitória de Santo Antão - PE. A amostra foi composta por 58 puérperas. O instrumento utilizado para rastreamento foi a versão em português da Postpartum Depression Screening Scale - PDSS. Os dados foram coletados no período de fevereiro a abril de 2011.

Resultados:

evidenciou-se que 8,6% das participantes apresentaram pontuação acima do ponto de corte da PDSS. Os quadros sugestivos de DPP apresentaram associação estatística com o ensino fundamental incompleto.

Conclusões:

embora o percentual de mulheres com escores sugestivos de DPP esteja abaixo do quantitativo encontrado em outros estudos nacionais, é premente que essas mães sejam identificadas precocemente nas USFs, tendo em vista as repercussões que a depressão pode acarretar para a mulher e para o desenvolvimento físico e psíquico do bebê.

Palavras-chave Depressão pós-parto; Saúde mental; Período pós-parto

Abstract

Objectives:

to identify postpartum depression among women assisted by Family Health Units (FHU).

Methods:

this is a cross-sectional study with a quantitative approach carried out in FHUs at the city of Vitoria de Santo Antão - PE. Fifty eight mothers constituted the sample. We used the Portuguese version of the Postpartum Depression Screening Scale – PDSS for screening. We collected data from February to April 2011.

Results:

we were able to demonstrate that 8.6% of participants had scores above the PDSS cut-off point. We also found an association between postpartum depression and incomplete primary education.

Conclusions:

although the percentage of women with postpartum depression scores is lower than values found in other national studies, the early identification of these mothers in FHU is imperative, given the harmful repercussions that depression can cause in women, as well as in physical and psychic development of the baby.

Key words Postpartum depression; Mental health; Postpartum period

Introdução

A gestação e o pós-parto são processos que geram profundas transformações na vida das mulheres, como mudanças sociais, culturais, fisiológicas e principalmente emocionais, sendo os primeiros dias após o parto carregados de emoções fortes e de novos desafios no processo de tornar-se mãe.1 Tais transformações, sobretudo hormonais, exercem influência na saúde mental da mulher. Além disso, surgem cobranças socioculturais, familiares e pessoais relacionadas ao desenvolvimento adequado das funções maternas. Todos esses fatores são geradores de estresse, desgaste físico e emocional intensos na mulher.2-5

Ademais, a sociedade moderna ocidental construiu ao longo dos anos um estereótipo coletivo sobre a maternagem a partir de uma perspectiva romântica e fantasiosa. Neste ideal, após nascimento de um filho, a mulher sentirá felicidade plena e realização, e deverá cuidar e amar sua cria automaticamente, lançando mão de sacrifícios em favor de sua prole.6,7 No entanto, mais recentemente o comportamento materno tem sido discutido também numa perspectiva de construção social, a partir da concepção de que ser mulher não implica, necessariamente, em possuir instinto materno inerente e programado. Ao contrário, estas mulheres tornam-se mães, após o nascimento de seu filho, a partir de sua experiência individual com o mundo e com seu bebê.5,8

Dessa forma, a relação entre a mãe e o bebê é construída levando em consideração suas experiências anteriores à gestação, resiliência, bem como o comportamento do bebê. A história de vida, os relacionamentos, o apoio do companheiro nos cuidados com o bebê e o planejamento da gestação são fatores que interferem na construção do vínculo com o bebê. Essa relação se fortalece conforme a mãe lida com os conflitos e se adapta às mudanças próprias do período puerperal.9 Quando ocorrem disfunções nessa adaptação, a chance da puérpera desenvolver algum transtorno mental aumenta substancialmente. Dentre os transtornos mentais presentes no puerpério, a Depressão Pós-Parto (DPP) é um quadro psicopatológico de extrema relevância para a saúde pública, pois pode atingir até 25% das mulheres.3,12,13 Trata-se de um transtorno de humor caracterizado por irritabilidade, ansiedade, desmotivação, falta de energia ou agitação psicomotora, tristeza prolongada, baixa autoestima, crises de choro, sentimentos de culpa, falta de interesse pelo bebê, alterações no apetite e no sono, sensação de não dar conta do bebê que pode evoluir para a ideação suicida. Ademais, outras manifestações clínicas, de natureza física, podem ser observadas nessas mulheres, a saber: cefaleia, hemorragias, dificuldades na lactação, com presença de fissuras e infecções, entre outros.3,4,10

Quanto às repercussões para a saúde da criança, outros autores verificaram que os bebês que viveram um contexto de depressão materna apresentam apego inseguro, menos exploração do ambiente, sono irregular, baixa autoestima, ansiedade e maior probabilidade de desenvolverem depressão na idade adulta.14 Portanto, faz-se necessário incluir a DPP nas pautas de discussão sobre a saúde mental materna e infantil, pois é um transtorno prevalente entre as mulheres e que coloca em risco a maternagem e o desenvolvimento infantil.

Nessa perspectiva, faz-se necessário identificar precocemente mulheres que estejam em risco para desenvolver a DPP. Os benefícios do rastreio da depressão entre gestantes e puérperas na atenção primária estão relacionados com a redução dos sintomas depressivos em mulheres com depressão e a identificação daquelas que necessitam de uma avaliação mais detalhada e de tratamento.15 Diante disso, o objetivo deste estudo foi identificar a DPP em mulheres atendidas em Unidades de Saúde da Família (USF).

Métodos

Trata-se de um estudo descritivo, tipo transversal, com abordagem quantitativa. A população foi composta por mulheres devidamente cadastradas em quatro USF do município da Vitória de Santo Antão - PE. Para a estimativa da amostra, utilizou-se uma fórmula para estudos com população finita, a saber:

n=Z2α.P.Q.Ne2

onde:

  • - Z2α = 1,96 (intervalo de confiança de 95%);

  • - Proporção de ocorrência do fenômeno de interesse = 13,3% (0,133)16;

  • - Erro amostral = 8,7%;

Dessa forma, a amostra foi estimada em 58 mulheres que foram selecionadas de forma consecutiva à medida que se encaixavam nos seguintes critérios de inclusão pré-estabelecidos: puérperas com idades entre 18 e 49 anos, alfabetizadas e que estivessem entre duas e vinte seis semanas pós-parto. O óbito do recém-nascido durante o período de coleta foi o único critério de exclusão utilizado.

Os dados foram coletados no período de fevereiro a abril de 2011 durante a consulta de puericultura, em ambiente reservado a fim de garantir a privacidade e sigilo das informações. Para a obtenção dos dados, foram utilizados um questionário socioeconômico e uma escala de rastreamento de DPP denominada Postpartum Depression Screening Scale (PDSS), desenvolvida por Beck e Gable.17

A escala possui 35 itens com respostas do tipo Likert distribuídos em sete dimensões: alterações do sono/apetite, ansiedade/perda da segurança, prejuízo cognitivo, labilidade emocional, perda do eu, sentimento de culpa/vergonha e pensamentos suicidas.17 Cada dimensão da escala possui cinco itens relacionados com os sentimentos de uma mãe após o nascimento do seu filho. As puérperas são convidadas a indicar seu grau de discordância ou concordância em cada item da escala que parte de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente) com o intuito de avaliar as preocupações da mulher no período do pós-parto.16

A PDSS foi escolhida para este estudo em virtude de possuir itens específicos sobre a relação entre mãe e bebê no puerpério e de sua elevada confiabilidade (α=0,95), sensibilidade e especificidade para o rastreio de DPP em mulheres. Além disso, a validação desse instrumento ocorreu em Recife - PE com uma amostra de 120 puérperas e, portanto, se aproxima da realidade das mulheres participantes deste estudo. O melhor ponto de corte para sugestão de DPP encontrado no estudo de validação foi de 102,16 sendo essa pontuação o parâmetro utilizado neste estudo para indicar quadros sugestivos de depressão no puerpério.

As puérperas foram convidadas a participar do estudo e aquelas que aceitaram participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foi garantido o anonimato das participantes e que as informações coletadas seriam utilizadas somente para fins científicos sem identificação das puérperas.

Os dados foram organizados em uma planilha do software Excel versão 2007 e analisados com o auxílio do pacote estatístico SPSS versão 17.0. Foram calculadas estatísticas descritivas (frequências absolutas e relativas; média e desvio-padrão) e verificou-se associação entre os quadros sugestivos de DPP e as seguintes variáveis: idade, estado civil, número de filhos, gravidez desejada, escolaridade, atividade remunerada e renda mensal familiar. Utilizou-se o teste de qui-quadrado nas frequências menores do que 20 e maiores do que cinco, e o teste exato de Fisher nas frequências esperadas menores do que cinco. O nível de significância (a) de 0,05 foi aplicado na análise desses testes.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas (CEP) com seres humanos do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sobre o protocolo 324/2011. Foram respeitados todos os aspectos éticos de acordo com a resolução nº 466/2012.11

Resultados

A média de idade das puérperas foi de 25,55 (± 5,59) com variação de 18 a 38 anos. Um percentual de 46,6% declarou-se em união estável e 43,1% são casadas. Quanto à escolaridade, 41,4% mulheres possuíam ensino médio completo. Sobre a renda familiar, 43,1% referiram renda mensal superior a dois salários mínimos e aproximadamente 56,9% não exercia nenhuma atividade remunerada.

Quanto à história obstétrica, a média de filhos foi de 2,45 (±0,68), 86,2% desejaram a gravidez e 17,2% relataram perda de algum filho. O aborto espontâneo foi a causa mais citada (70,0%).

Sobre os sintomas depressivos, os escores variaram de 38 a 126 com média de 73,42 (±18,61). Um percentual de 8,6% das mulheres apresentou quadro sugestivo de DPP (escores acima do ponto de corte 102). A DPP apresentou associação estatisticamente significante com o nível de escolaridade ensino fundamental incompleto (p=0,032 - Teste Exato de Fisher). O teste t para amostras independentes evidenciou que mulheres com ensino fundamento incompleto apresentaram, em média, maiores escores para a PDSS (p=0,030 -Teste t para igualdade das médias). As demais variáveis não revelaram associação com a depressão. A Tabela 1 mostra os dados descritivos dos itens componentes da PDSS, de acordo com as suas dimensões.

Tabela 1 Descrição dos sintomas depressivos, de acordo com as dimensões da PDSS, presentes nas puérperas de Unidades de Saúde da Família (USF). Vitória de Santo Antão, 2011. 

Sintomas depressivos/Dimensões da PDSS DT D NDNC C CT
n % n % n % n % n %
Dimensão: Alteração do sono/Apetite
Dificuldade para dormir 18 31,0 19 32,8 0 0,0 15 25,9 6 10,3
Perda de apetite 23 39,7 16 27,6 1 1,7 12 20,7 6 10,3
Despertar durante a noite e dificuldade para voltar a dormir 19 32,8 20 34,5 1 1,7 14 24,1 4 6,9
Dificuldade para pegar no sono 24 41,4 19 32,8 2 3,4 11 19,0 2 3,4
Dificuldade para alimentar-se mesmo sabendo que era necessário 26 44,8 15 25,9 1 1,7 11 19,0 5 8,6
Dimensão: Ansiedade/Perda da Segurança
Sentimento de solidão 21 36,2 25 43,1 0 0,0 8 13,8 4 6,9
Sentimento de opressão 26 44,8 20 34,5 1 1,7 10 17,2 1 1,7
Sentimento de medo 19 32,8 22 37,9 1 1,7 14 24,1 2 3,4
Ansiedade com as menores coisas relacionadas com o bebê 13 22,4 9 15,5 1 1,7 29 50,0 6 10,3
Inquietação 15 25,9 29 50,0 1 1,7 10 17,2 3 5,2
Dimensão: Labilidade emocional
Choro sem motivo aparente 24 41,4 15 25,9 1 1,7 12 20,7 5 10,3
Medo de não ser feliz novamente 29 50,0 20 34,5 3 5,2 4 6,9 2 3,4
Oscilação de humor 21 36,2 12 20,7 3 5,2 17 29,3 5 8,6
Irritação 14 24,1 18 31,0 1 1,7 21 36,2 4 6,9
Raiva a ponto de explodir 26 44,8 21 36,2 1 1,7 5 8,6 5 8,6
Dimensão: Prejuízo cognitivo
Falta de concentração 20 34,5 22 37,9 3 5,2 12 20,7 1 1,7
Sentimento de perda de razão 34 58,6 19 32,8 1 1,7 4 6,9 0 0,0
Sentimento de estar enlouquecendo 26 44,8 22 37,9 2 3,4 7 12,1 1 1,7
Dificuldade para tomar decisões simples 25 43,1 24 41,4 1 1,7 7 12,1 1 1,7
Dificuldade para concentrar-se em uma tarefa 19 32,8 21 36,2 2 3,4 10 17,2 6 10,3
Dimensão: Perda do Eu
Autopercepção prejudicada 34 58,6 21 36,2 0 0,0 2 3,4 1 1,7
Sentimento de estranhamento quanto a si própria 29 50,0 23 39,7 1 1,7 4 6,9 1 1,7
Medo de não voltar a ser como antes 14 24,1 23 39,7 3 5,2 13 22,4 5 8,6
Sentimento de anormalidade 30 51,7 20 34,5 2 3,4 5 8,6 1 1,7
Sentimento de niilismo (inexistência) 30 51,7 21 36,2 1 1,7 4 6,9 2 3,4
Dimensão: Sentimento de culpa/ vergonha
Sentimento de fracasso como mãe 33 56,9 17 29,3 1 1,7 6 10,3 1 1,7
Sentimento de que outras mães são melhores do que eu 27 46,6 22 37,9 0 0,0 6 10,3 3 5,2
Sentimento de culpa por não sentir tanto amor pelo bebê quanto eu deveria 29 50,0 21 36,2 1 1,7 3 5,2 4 6,9
Sentimento de vergonha quanto aos pensamentos e sentimentos relacionados com o bebê 24 41,4 20 34,5 3 5,2 7 12,1 4 6,9
Sentimento de desvalia como mãe 29 50,0 22 37,9 1 1,7 4 6,9 2 3,4
Dimensão: Pensamentos suicidas
Pensamento de que a vida seria melhor se estivesse morta 41 70,7 13 22,4 0 0,0 1 1,7 3 5,2
Pensamento de que a morte é a única alternativa para a situação 38 65,5 18 31,0 0 0,0 1 1,7 1 1,7
Desejo de violência autodirigida 40 69,0 16 27,6 0 0,0 1 1,7 1 1,7
Sentimento de que o bebê estaria melhor sem ela 37 63,8 19 32,8 1 1,7 0 0,0 1 1,7
Desejo de sumir 30 51,7 17 29,3 0 0,0 8 13,8 3 5,2

PDSS= Postpartum Depression Screening Scale; DT= Discordo totalmente; D= Discordo; NDNC= Nem discordo e nem concordo; C= Concordo; CT= Concordo totalmente.

Quanto às alterações da dimensão sono/apetite, observou-se que 36,2% apresentaram dificuldades para dormir mesmo quando os seus bebês estavam dormindo, 31,0% afirmaram perda do apetite, esse mesmo percentual relatou acordar espontaneamente no meio da noite e ter dificuldades para voltar a dormir, 22,4% rolavam na cama por muito tempo a noite tentando pegar no sono e 27,6% sabiam que deveriam comer, mas não conseguiam.

Na dimensão ansiedade/perda da segurança, 20,7% das mães relataram solidão, 18,9% sentiram-se oprimidas, 27,5% assustadas, 60,3% ansiosas com as menores coisas que tinham a ver com o seu bebê e 22,4% apresentaram inquietação.

No que tange à dimensão labilidade emocional, 31,0% relataram chorar muito sem nenhum motivo, 37,9% sentiram oscilação de humor e 43,1% apresentaram irritação. Em contrapartida, 84,5% afirmaram estar felizes e 81,0% não sentiram raiva no período puerperal.

Sobre o prejuízo cognitivo, a dificuldade para concentrar-se esteve presente em aproximadamente 38,0% das mulheres. Com relação à dimensão perda do eu, 31,0% referiram medo de nunca mais voltarem a ser como eram antes. Os sentimentos de culpa/vergonha e os pensamentos suicidas não foram frequentes.

Discussão

A amostra foi composta por mulheres jovens, com companheiro, ensino médio completo, renda mensal superior a dois salários mínimos e a maioria não exercia nenhuma atividade remunerada anterior à gestação e ao puerpério.

Uma revisão sistemática sobre escalas de rastreamento de DPP mostrou que a média de idade das participantes dos estudos revisados variou de 15 a 30 anos, 50,0% a 97,0% eram casadas ou possuíam união estável, 35,0% a 44,0% tinham o ensino médio e o percentual de aborto identificado variou de 2,9 a 50%. Esses resultados foram semelhantes aos encontrados neste estudo.18

Os escores sugestivos de DPP foram encontrados em 8,6% das mulheres. Esse percentual encontra-se abaixo dos achados da pesquisa sobre validação da PDSS no Brasil em uma amostra de mulheres pernambucanas, cujos resultados mostraram que 16,7% apresentaram escores acima do ponto de corte de 102.16 Esse mesmo estudo encontrou prevalência de 13,3% de DPP, com a utilização de outra ferramenta diagnóstica. Outra revisão sistemática19 avaliou a magnitude desse transtorno no Brasil e evidenciou que a prevalência desse agravo variou entre 7,2%20 e 39,4%21 a depender dos critérios e instrumentos utilizados para a detecção.

Um estudo americano evidenciou, por meio da PDSS, elevada prevalência de sintomatologia depressiva no pós-parto em 984 mães (63,0%) (n=1.566 mulheres).22 Os percentuais apresentados mostram a magnitude dessa problemática em termos nacionais e mundiais, e sinalizam a necessidade de intervenções precoces, sobretudo no âmbito da atenção básica.

Sobre os fatores de risco para a DPP, autores afirmam que baixas condições socioeconômicas, tais como baixa renda e baixo nível de escolaridade, podem contribuir para o aparecimento dessa patologia.23,24 A amostra deste estudo é composta por mulheres em situação econômica desfavorecida e com baixo nível de escolaridade. Ademais, esta pesquisa evidenciou relação estatisticamente significante entre a DPP e o ensino fundamental incompleto, corroborando, portanto, os achados das investigações citadas.

As demais variáveis socioeconômicas não mostraram associação com a depressão. Estudos recentes não encontraram relação significativa entre o diagnóstico de DPP e variáveis como tempo de escolaridade, renda familiar e estado civil.12,13,25

No que concerne às alterações do sono/apetite decorrentes da DPP, os resultados deste estudo são semelhantes aos de outra pesquisa que mostrou que 29,7% apresentaram dificuldades para dormir, 20,8% referiram perda do apetite, 31,7% acordaram espontaneamente no meio da noite e apresentaram dificuldades para voltar a dormir, 27,7% relataram que rolavam na cama por muito tempo à noite tentando pegar sono e 23,8% sabiam que deveriam comer, mas não conseguiam.26

As alterações ocorridas no período pós-parto, a sobrecarga de atribuições (mãe, esposa, dona de casa), as elevadas expectativas da mulher e de sua família acerca da maternagem, a falta de suporte social e familiar interferem na habilidade da mulher para desempenhar o papel de mãe. Nesse período, elas sentem cansaço, fadiga, tendem a não se cuidar e gastam toda a sua disposição cuidando do bebê, apresentando dentre outros sintomas, alterações de apetite e de sono.20

A interrupção do sono está correlacionada com os sintomas depressivos no pós-parto. Essa fragmentação do sono interfere negativamente no bem-estar da mulher e do bebê, na maternagem e na amamentação, assim como na saúde e desenvolvimento da criança. O sono adequado no pós-parto favorece a saúde da mulher e a sua competência para desenvolver o seu papel como cuidadora da criança.27

Quanto à ansiedade/perda da segurança, a puérpera pode desenvolver uma preocupação excessiva quanto à saúde e ao desenvolvimento do bebê, de modo que a mãe que se preocupa exageradamente e se sente incapaz está mais suscetível à elevação do seu quadro depressivo. A depressão e a ansiedade materna refletem negativamente no desenvolvimento da criança e são capazes de acarretar danos nas relações pessoais que esta possa estabelecer ao longo da sua vida.28

As consequências da DPP para a relação mãe e bebê são preocupantes, pois comprometem a saúde física e mental de ambos em um momento crucial de suas vidas. Sentimentos depressivos são capazes de alterar a autopercepção da mulher e gerar conflitos nos seus relacionamentos familiares. Logo, isto pode dificultar a execução das atribuições inerentes à maternidade e, por conseguinte, interferir no desempenho nos cuidados com o bebê.29

Além disso, queixas como cansaço, choro, irritação são frequentemente relatadas por puérperas.20 Os dados encontrados na presente pesquisa corroboram esses achados, haja vista que, na dimensão labilidade emocional, a irritação, o choro e a instabilidade emocional foram mais citados.

Na dimensão perda do eu, 31,0% das mães relataram medo de não serem mais as mesmas. Esses sentimentos estão relacionados com as elevadas expectativas no contexto da maternidade e podem desencadear sentimentos de fragilidade em relação a si mesma, de fracasso, de decepção, de vergonha, de desgosto.1

Os pensamentos suicidas não foram frequentes neste estudo. Sintomas que estão relacionados com a depressão em puérperas são choro fácil, irritação, mau humor, fadiga, sentimentos de culpa, tristeza e depressão. Entretanto, embora a ideação suicida não seja um sintoma comum, um estudo evidenciou uma prevalência de 11,5% de risco de suicídio no puerpério e afirmou que baixa escolaridade e a presença de transtornos psiquiátricos, dentre eles a depressão, são fatores de risco importantes para o suicídio.30

Diante da problemática abordada neste estudo, observou-se que, embora os sintomas depressivos sugestivos de DPP estejam presentes em um quantitativo reduzido de puérperas, as dimensões mais alteradas, sono/apetite e labilidade emocional, interferem substancialmente na capacidade da mulher de desempenhar de forma satisfatória a maternagem. Isso acarreta sofrimento mental e angústia. Conjuntamente a isso, a mulher vive cercada de cobranças sobre o seu papel de mãe e, por vezes, não dispõe de um adequado suporte social que a auxilie a desempenhar essa atribuição.

Assim, é necessário que a assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal englobe a avaliação dos fatores psicossociais, sobretudo, os sintomas depressivos, em virtude de suas repercussões negativas para a saúde mental da mulher e o vínculo entre mãe e filho.

O estudo revelou que 8,6% das puérperas apresentaram escores sugestivos de DPP e o ensino fundamental incompleto mostrou associação com esse fenômeno. Os resultados dão subsídios para que o profissional de saúde planeje o cuidado baseado no rastreamento precoce desse transtorno, identificação das necessidades da mulher e da criança e a implementação de intervenções, visando a promoção do vínculo entre mãe e filho e a identificação de possíveis situações de risco para a DPP.

Ademais, sugere-se a utilização sistemática de instrumentos robustos de rastreamento no âmbito da atenção básica e a PDSS mostrou-se confiável e viável para identificar precocemente alterações de saúde mental da mulher no período pós-parto. Como limitação do estudo, aponta-se o reduzido tamanho da amostra e a realização do estudo em apenas quatro USF.

ERRATA:

Na Página 172, Onde se lia:

Métodos

Trata-se de um estudo descritivo, tipo transversal, com abordagem quantitativa. A população foi composta por mulheres devidamente cadastradas em quatro USF do município da Vitória de Santo Antão - PE. Para a estimativa da amostra, utilizou-se uma fórmula para estudos com população finita, a saber: n=Zα2·P·Q·Ne2

Lê-se:

Trata-se de um estudo descritivo, tipo transversal, com abordagem quantitativa. A população foi composta por mulheres devidamente cadastradas em quatro USF do município da Vitória de Santo Antão - PE. Para a estimativa da amostra, utilizou-se uma fórmula para estudos com população infinita, a saber: n=Zα2·P·Qe2

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Recebido: 8 de Julho de 2017; Aceito: 6 de Dezembro de 2017

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