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Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil

versão impressa ISSN 1519-3829versão On-line ISSN 1806-9304

Rev. Bras. Saude Mater. Infant. vol.19 no.2 Recife abr./jun. 2019  Epub 22-Jul-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1806-93042019000200001 

EDITORIAL

Infecções arbovirais: importância de maior atenção sobre sua grave ameaça à saúde materna e do concepto

Maria Cynthia Braga1 
http://orcid.org/0000-0002-7862-6455

José Eulálio Cabral Filho2 
http://orcid.org/0000-0001-9121-9910

1,2Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira. Rua dos Coelhos, 300. Boa Vista. Recife, PE, Brasil. CEP: 50.070-902.

As infecções arbovirais, principalmente Dengue, Chikungunya e Zika, têm constituído uma grave e crescente ameaça global à saúde das populações.1 A co-circulação dos quatro sorotipos de vírus dengue e a recente introdução dos vírus chikungunya e Zika no Brasil (2015-2016), e em outros países das Américas, tem ocasionado dramático aumento do número de casos, complicações e mortes por essas doenças na região. Recentemente, a introdução do Zika vírus no Brasil acarretou um número sem precedentes de casos de microcefalia atribuídos à infecção congênita pelo vírus, particularmente na Região Nordeste.2

No mundo, estima-se que anualmente 90% das gestações ocorram em áreas endêmicas de arboviroses, das quais cerca de 10% são expostas à infecção.3 A maioria das infecções arbovirais é assintomática ou se manifesta como quadros infecciosos agudos de menor gravidade, cujos sintomas iniciais, usualmente febre, cefaleia, mialgia, artralgia e exantema máculo-papular, são inespecíficos e semelhantes entre si.4,5 Nas gestantes, embora as manifestações sejam usualmente indistinguíveis do restante da população, o risco de evolução para formas graves da doença, como choque e síndromes hemorrágicas é maior, de acordo com estudos.3 Do mesmo modo, a infecção arboviral na mulher grávida aumenta o risco de surgimento de complicações gestacionais, como parto prematuro, descolamento prematuro de placenta, pré-eclâmpsia, sangramento vaginal e morte materna, podendo igualmente afetar a saúde do concepto pela transmissão do vírus por via transplacentária ou durante o parto. Entretanto, apesar do risco potencial das arboviroses à saúde da gestante e de seu concepto, chama a atenção a escassez ou a quase ausência de dados clínicos detalhados, que permitam detectar precocemente as complicações obstétricas e neonatais daí decorrentes no período gestacional. Além disso, medidas preventivas e terapêuticas dirigidas a estes agravos não estão disponíveis até o momento.

Em áreas com intensa circulação de arboviroses, como a maioria dos centros urbanos brasileiros, elevada parcela das mulheres é exposta a tais infecções durante a gestação, principalmente em períodos de pico sazonal, conforme demonstrado em estudos prévios.6,7 Considerando a elevada frequência de infecções agudas assintomáticas, ou que apresentam sinais e sintomas incaracterísticos, e a aparente inespecificidade das complicações obstétricas associadas às infecções arbovirais, a confirmação diagnóstica destes casos se torna um desafio. Assim, torna-se plausível supor que, em áreas com intensa circulação de arbovirus, grande parte das complicações decorrentes desta causa não esteja sendo identificada nos serviços de saúde e que, consequentemente, estejam sendo inadequadamente tratadas e subnotificadas.

Atualmente, em países da América Latina, há uma série de pesquisas em andamento, nacionais e multicêntricas, para estimar o percentual de infecções sintomáticas e assintomáticas e investigar os desfechos obstétricos das arboviroses, particularmente Zika, no período gestacional; e determinar a taxa de malformações e outros desfechos adversos nos fetos infectados.8 Tais estudos certamente trarão importantes aportes a um melhor conhecimento do problema. Todavia, torna-se imprescindível e urgente a condução de mais pesquisas clínicas e epidemiológicas em larga escala para a melhor caracterização clínico-laboratorial dos casos, elaboração de algoritmos diagnósticos visando o diagnóstico precoce, o manejo adequado e a prevenção de mortes. Torna-se igualmente importante o desenvolvimento de estudos que permitam conhecer a magnitude e o impacto de tais complicações maternas e neonatais nos serviços de saúde, visando a organização dos serviços para o atendimento aos casos e a capacitação dos profissionais de saúde na área.

É relevante, ao mesmo tempo, que os periódicos com escopo ligado à saúde da gestante e da criança, tais como a Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil e outros, sejam as fontes para uma ampla divulgação dos conhecimentos na área. A disseminação de tais conhecimentos desde que através de artigos científicos de qualidade, é parte certamente da luta para fazer frente a tais problemas médicos.

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