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Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil

versão impressa ISSN 1519-3829versão On-line ISSN 1806-9304

Rev. Bras. Saude Mater. Infant. vol.19 no.2 Recife abr./jun. 2019  Epub 22-Jul-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1806-93042019000200005 

ARTIGOS ORIGINAIS

Sinais de alerta e de trabalho de parto: conhecimento entre gestantes

Hevyllin Cipriano Rodrigues Félix1 
http://orcid.org/0000-0002-8186-9116

Carolina Camargos Corrêa2 
http://orcid.org/0000-0002-3983-7655

Thais Gabriela da Cruz Matias3 
http://orcid.org/0000-0003-4084-2459

Bibiane Dias Miranda Parreira4 
http://orcid.org/0000-0001-7369-5745

Marina Carvalho Paschoini5 
http://orcid.org/0000-0003-2218-4747

Mariana Torreglosa Ruiz6 
http://orcid.org/0000-0002-5199-7328

1-6Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Praça Manoel Terra, 330, Abadia. Uberaba, MG, Brasil. CEP: 38.025-200. E-mail: marianatorreglosa@hotmail.com

Resumo

Objetivos:

identificar escores de conhecimento de gestantes sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto e correlacionar escores de acerto com a idade materna, o número de filhos e o recebimento de orientações durante a gestação.

Métodos:

trata-se de um estudo de abordagem quantitativa, transversal, sobre o conhecimento prévio acerca dos sinais de alerta e de trabalho de parto realizado com 100 gestantes, a partir da 30ª semana gestacional, no Hospital de Clínicas da UFTM. A coleta de dados foi realizada no período de abril a junho de 2016 por meio de instrumento semiestruturado, testado mediante estudo piloto.

Resultados:

apenas 21% das gestantes relataram a participação em grupo de gestantes e 61% referiram não ter recebido nenhum tipo de informação sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto. Verificou-se uma associação estatisticamente significante entre o número de acertos e as orientações recebidas durante o pré-natal. Entretanto, não houve correlação entre escores de acerto e a idade materna e o número de filhos.

Conclusões:

gestantes que não receberam orientações tiveram escores de acertos mais baixos o que demonstra a importância da Educação em Saúde durante o pré-natal.

Palavras-chave Cuidado pré-natal; Parto obstétrico; Trabalho de parto; Educação em saúde

Introdução

A educação em saúde é uma importante ferramenta na assistência ao ciclo gravídico-puerperal uma vez que a gravidez se trata de um período delicado e gerador de potenciais dúvidas e ansiedade para os genitores e seus familiares.1

Como se sabe, a prática da educação em saúde na assistência pré-natal pode ser desenvolvida de várias formas, tais como palestras, grupos e ações educativas tanto coletivas, como individuais (durante as consultas)1 e, dentre os temas a serem abordados, destaca-se o reconhecimento dos sinais de alerta e de trabalho de parto. Essas orientações objetivam reduzir o tempo de internação das parturientes, diminuir o risco de erros na identificação de distocias, intervenções desnecessárias e partos operatórios.2

Ressalta-se que, apesar da difusão de informações atuais, as mulheres ainda desconhecem os sinais de alerta e os sinais e sintomas de trabalho de parto confundindo o momento exato que devem procurar a maternidade. Dessa maneira, cabe ao profissional de saúde informá-las quanto aos sinais de alerta, como o sangramento vaginal, a cefaleia, transtornos visuais, dor abdominal, febre, perdas vaginais, dificuldade respiratória, entre outros.2

Deve-se também diferenciar o verdadeiro do falso trabalho de parto. O reconhecimento do primeiro consiste na presença de contrações uterinas que ocorrem uma a cada três a cinco minutos, com duração de 20 a 60 segundos, em intervalos regulares que aumentam gradativamente no que se refere à frequência e intensidade. Há que se destacar que, uma vez iniciado o trabalho de parto, as contrações uterinas não cessam e, consequentemente o colo uterino dilata.3

No falso trabalho de parto, também denominado como contrações de Braxton-Hicks, há o aparecimento de contrações irregulares e a dilatação da cérvice uterina não ocorre concomitantemente. Por volta da trigésima semana de gestação, as falsas contrações aparecem com mais frequência podendo causar um possível equívoco e gerar dúvidas, principalmente, em nulíparas.3

Nessa perspectiva, torna-se imprescindível a atuação dos profissionais por meio da educação em saúde. Esses devem acolher a gestante e seus familiares, aumentar a qualidade da assistência e torná-la mais humanizada por meio da promoção do bem-estar e, principalmente, da autonomia e, consequentemente, reduzir a ansiedade, os medos e as dúvidas em relação à gravidez, ao parto e ao puerpério.2

Tendo como premissa que o profissional da área da saúde deve ser o responsável por informar as gestantes acerca dos sinais e sintomas de trabalho de parto, espera-se que tal conhecimento seja disseminado durante a assistência pré-natal. A redução de internações de parturientes em falso trabalho de parto tende a reduzir as admissões prematuras, a diminuir o tempo de internação, a evitar risco de infecções relacionadas à assistência de saúde (IRAS), assim como o uso de intervenções desnecessárias.1

Devido à relevância, além dos impactos negativos das admissões prematuras das parturientes, ao potencial de gerar intervenções desnecessárias, ao aumento do risco de infecção pela falta de informação sobre sinais de alerta e de trabalho de parto e à escassez de estudos sobre a temática, justificou-se a realização deste estudo.

Esse estudo teve como questões norteadoras: As gestantes são orientadas durante a assistência pré-natal sobre sinais de alerta e de trabalho de parto? Uma vez que receberam estas orientações, as mesmas sabem reconhecer esses sinais? Há correlação entre os escores de conhecimento sobre o tema e a idade materna, e/ou o número de filhos e/ou o fato de terem recebido informações durante a gestação?

Dessa forma, o objetivo do estudo foi identificar escores de conhecimento de gestantes sobre sinais de alerta e de trabalho de parto e correlacionar os escores de acerto com a idade materna, o número de filhos e o recebimento de orientações durante a gestação.

Métodos

Trata-se de um estudo descritivo e transversal, de abordagem quantitativa, sobre o conhecimento prévio de gestantes acerca dos sinais de alerta e de trabalho de parto e os fatores correlacionados. O estudo foi realizado em um hospital de ensino, que é referência para o pré-natal de alto risco do município de Uberaba (MG) e região, composta por 27 municípios, e para gestação de risco habitual das residentes do Distrito I do município (população estimada em 150 mil habitantes).

Participaram do estudo, gestantes a partir da 30ª semana gestacional, independentemente da idade, sendo que as com idade inferior a 18 anos foram autorizadas pelos responsáveis legais a assentirem o seu consentimento. Foram excluídas do estudo as gestantes com fetos com malformações incompatíveis com a vida e/ou que tiveram como desfecho o aborto, o óbito fetal ou o natimorto.

Foram incluídas no estudo 100 gestantes. Para a determinação do tamanho amostral, utilizou-se o aplicativo PASS (Power Analysis and Sample Size), versão de 2002, introduzindo-se nele os seguintes valores e informações: considerou-se um coeficiente de determinação apriorístico R2= 0,13 em um modelo de regressão linear com três preditores. Este coeficiente foi introduzido conforme a classificação de Cohen (Sample Size in Behavioural Sciences), esperando encontrar forte relação entre o conhecimento e os preditores de interesse (idade materna, número de filhos e conhecimento prévio - ter recebido informações no pré-natal), tendo como nível de significância, α ≤ 0,05. Obteve-se, um tamanho de amostra com, no mínimo, 99 sujeitos. A variável dependente foi o escore de conhecimento das gestantes a respeito dos sinais de alerta e de trabalho de parto e as independentes consideradas na análise foram a idade materna, o número de filhos e ter recebido orientações durante a gestação.

As gestantes foram abordadas pelos pesquisadores na sala de espera, antes ou após a consulta de pré-natal, orientadas sobre os objetivos do estudo e convidadas a participar segundo os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos. A coleta de dados ocorreu em consultório disponibilizado pela instituição respeitando-se os princípios de sigilo e privacidade.

Foram coletados os dados sociodemográficos, as condições de saúde, a história obstétrica pregressa e atual por meio de entrevista ou a partir dos registros em prontuários.

Em relação ao conhecimento sobre sinais de alerta e de trabalho de parto, as gestantes responderam a um instrumento específico, composto por dez questões, sendo que cada questão possuía quatro alternativas de respostas sendo apenas uma correta. O conhecimento das participantes foi medido pelo total de acertos.

No que diz respeito ao objetivo que corresponde ao conhecimento/orientações prévias, este foi considerado quando a gestante informou que participou de grupo de gestantes, recebeu orientação individual durante as consultas, participou de palestras ou salas de espera durante a gestação em que foi abordada a temática do estudo. As gestantes poderiam responder aos pesquisadores ou de próprio punho.

Os instrumentos de coleta de dados foram construídos pelos próprios autores baseados em revisão da literatura sobre o tema e submetidos à avaliação por juízes. Foram convidados para atuar como juízes três profissionais da área, que não fizeram parte da equipe do estudo e que atenderam aos seguintes critérios: 1- ser especialista na área de Obstetrícia; 2- ter experiência profissional de, pelo menos, cinco anos; 3- atuar na assistência e/ou ensino. Os juízes avaliaram a clareza e pertinência do conteúdo do instrumento sendo que cada uma das variáveis/questões continha duas alternativas de resposta (sim e não) para pertinência e clareza dos enunciados. O questionário foi acompanhado de um termo esclarecendo os objetivos do estudo e as atividades solicitadas aos juízes pelos pesquisadores. Foram consideradas validadas questões/variáveis que obtiveram índice de concordância igual ou superior a 70% nas respostas dos juízes para a pertinência e a clareza. Após a validação pelos juízes, o formulário de coleta foi testado mediante estudo piloto com dez gestantes, sendo os instrumentos coletados nesse estudo excluídos da análise. Não houve inclusão ou exclusão de variáveis após a aplicação do teste piloto, pois todas as variáveis do instrumento estavam adequadas para responder aos objetivos do estudo.

As questões referentes aos sinais de alerta e de trabalho de parto abordaram os seguintes tópicos: 1- sinais que antecedem o trabalho de parto; 2 - perda e características do tampão mucoso; 3- como identificar a ruptura das membranas amnióticas; 4- características do líquido amniótico; 5 - como proceder após a ruptura da bolsa (membranas amnióticas); 6 - como proceder diante de sangramento vaginal; 7 - procedimento para reconhecer dinâmica uterina; 8 - fatores que não influenciam/interferem na contratilidade uterina; 9 - o que fazer diante da redução da movimentação fetal e 10 - quais os sinais de complicações da gravidez.

Os dados coletados foram armazenados em um banco de dados no formato Excel® e posteriormente importados para o programa Statistical Package for the Social Sciences, versão 23.0 para processamento e análise. As variáveis foram analisadas a partir da estatística descritiva. Para determinar a correlação entre os escores de conhecimento sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto e as variáveis orientações/informações prévias durante o pré-natal, idade materna e número de filhos, foi utilizado o teste qui-quadrado de Pearson e, para determinar a real associação das variáveis com o conhecimento sobre o tema, os dados foram analisados por de regressão linear.

A pesquisa foi aprovada sob o parecer n° 1.282.397 do Comitê de Ética em Pesquisa, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em 15 de outubro de 2015. Todo o seu desenvolvimento foi guiado e pautado pelas Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas envolvendo seres humanos, contidas na Resolução 466/12/CNS/MS.

Resultados

A idade média das gestantes entrevistadas foi de 28,2± 7,0 anos, variando de 14 a 45 anos. Destas, 5% eram adolescentes e 18% tinham idade igual ou superior a 35 anos. A maioria afirmou ter relação estável (85%), não exercer atividades remuneradas (60%) e não possuir renda própria (61%). Em relação à cor autorreferida, 40% declararam-se pardas, 28% brancas e 26% pretas e, quanto à escolaridade, as respostas foram heterogêneas, sendo mais citados o ensino fundamental incompleto (27%) e o ensino médio completo (27%).

Quanto a hábitos e condições de vida, 10% declararam fazer uso de bebidas alcoólicas e 12% eram tabagistas. Em relação a problemas de saúde, 22% possuíam alguma doença anterior à gestação, sendo citadas, com maior frequência as síndromes hipertensivas (18,2%) e o diabetes (13,6%); 28% tiveram algum tipo de complicação durante a gestação, sendo mais frequentemente citados o trabalho de parto prematuro (21,4%), o sangramento (17,9%) e o diabetes gestacional (14,3%).

Os dados obstétricos revelaram que a idade gestacional média no momento da entrevista foi de 34,7±3,1 variando de 30 a 40 semanas de gestação; o número médio de gestações foi de 2,9±1,8, variando de uma a dez gestações, com predomínio de secundigestas (28%); o número médio de consultas pré-natal realizadas foi de 7,4±2,7 consultas, variando de uma até 16 consultas. A média de filhos vivos foi de 1,5±1,6, variando de zero a sete filhos por gestante. Quando questionadas se participaram de grupo de gestantes em suas comunidades, apenas 21% relataram participação e, quando interrogadas sobre as orientações profissionais sobre sinais de alerta e de trabalho de parto durante o pré-natal, 61% relataram não ter recebido nenhum tipo de informação.

O número de acertos em relação às dez questões referentes ao conhecimento sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto variou de um a nove, com média de 4,9± 2,0 acertos, sendo que apenas 39% das gestantes acertaram, pelo menos, 50% das questões.

As respostas apontaram que: 68% não conseguiam identificar os sinais que antecedem o trabalho de parto; 63% tinham informação a respeito da perda do tampão mucoso enquanto sinal premonitório e não de trabalho de parto; 63% das gestantes não sabiam reconhecer os sinais de ruptura da bolsa (membranas amniocoriônicas); 72% desconheciam as características do líquido amniótico e 68% não sabiam o que deve ser feito caso a bolsa rompa; 90% reconheceram que o sangramento é um sinal de alerta e deve ser prontamente avaliado pela equipe de saúde; 58% foram orientadas a reconhecer a dinâmica uterina e os sinais de trabalho de parto, porém, 65% não identificaram fatores que interferem na contração gerando um falso trabalho de parto; 68% não souberam informar sobre a normalidade ou alteração da movimentação fetal e 87% conseguiam distinguir sintomas de complicações que precisam ser avaliados durante a gravidez (Tabela 1).

Tabela 1 Frequência das variáveis sobre o conhecimento dos sinais de alerta e de trabalho e parto das 100 gestantes entrevistadas, Uberaba, MG, 2016. 

Acertos (n) Erros (n)
1. Sinais que antecedem o trabalho de parto 32 68
2. Tampão mucoso 63 37
3. Bolsa rota 37 63
4. Característica do líquido amniótico 23 72
5. O que fazer quando a bolsa rompe 31 68
6. Sangramento 90 9
7. Reconhecer a dinâmica uterina 58 41
8. Fatores que não interferem na contração 34 65
9. Movimentação fetal 31 68
10. Sinais de complicações 87 12

Fonte: Dados da pesquisa, 2016.

A fim de determinar a associação entre as orientações/conhecimento prévio, a idade materna, o número de filhos e o conhecimento atual sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto, utilizou-se teste qui-quadrado de Pearson. Considerou-se, como ponto de corte, o número de acertos, superior ou inferior a 50%. Pôde-se verificar que houve significância estatística (p=0,015) apenas entre número de acertos (índice de acerto superior a 50%) e as orientações recebidas durante a assistência pré-natal, ou seja: mulheres que não receberam orientações tiveram escores mais baixos de acertos e as outras variáveis não apresentaram significância estatística, como pode ser observado na Tabela 2.

Tabela 2 Associação entre percentual de acertos e a idade materna, o número de filhos e as orientações no pré-natal, Uberaba, MG, 2016*

Variáveis Acertos >50% (n) % Acertos <50% (n) % p
Idade acima de 35 anos 6 6 14 14 0,361
Idade inferior a 35 anos 33 33 47 47
Um filho 12 12 21 21 0,708
Mais de um filho 27 27 40 40
Recebeu orientações no pré-natal 21 22 18 19 0,015
Não recebeu orientações 17 18 41 42

Fonte: Dados da pesquisa, 2016.

*Teste de qui-quadrado de Pearson, p<0,05

Para determinar a real associação entre as variáveis, independentemente da significância estatística, utilizou-se o modelo de regressão linear. Apenas a variável ter recebido orientações no pré-natal permaneceu associada a maiores escores de conhecimento sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto (Tabela 3) indicando que a educação em saúde durante a gestação influencia no conhecimento independentemente da idade e do número de filhos.

Tabela 3 Análise de regressão linear para conhecimento sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto por gestantes, associado à idade materna, ao número de filhos e ter recebido orientações durante o pré-natal, Uberaba, MG, 2016. 

Variáveis β p
Idade materna 0,004 0,968
Número de filhos 0,152 0,170
Receber orientações durante o pré natal (sim / não) 0,274 0,009

Fonte: Dados da pesquisa, 2016.

*Modelo de regressão linear

Discussão

Em relação à assistência pré-natal, destaca-se que a maioria das gestantes realizou o número adequado de consultas pré-natal. São indicadas, pelo menos, seis consultas para uma assistência ideal, segundo o Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento, sendo realizadas, ao menos, uma no primeiro; duas, no segundo e três, no terceiro trimestre gestacional.2

Em um estudo que avaliou a assistência pré-natal em um município brasileiro, constatou-se que 90% realizaram pré-natal adequadamente (mais de seis consultas); 40% com o início no primeiro trimestre gestacional e, dessas gestantes, todas realizaram todos os exames laboratoriais básicos e tiveram cobertura antitetânica. Contudo, ao se analisar a frequência às atividades educativas, observou-se que apenas 11% das gestantes participaram de alguma ação educativa durante a gestação, recebendo o menor escore de frequência entre todos os itens avaliados,4 apontando necessidade de melhoria na qualidade assistencial, independentemente do número de consultas, tal como os dados deste estudo.

A maioria das gestantes entrevistadas relatou não ter recebido orientações sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto durante a assistência pré-natal. Semelhantemente, ao abordar gestantes sobre as consultas de pré-natal, um estudo demonstrou que as mesmas se restringiam à assistência pré-natal como a realização do exame físico e pedido de exames laboratoriais, não dando destaque para os aspectos educativos, principalmente relacionados aos sinais de alerta e de trabalho de parto.5

Ao contrapor os dados apresentados, um estudo cuja abordagem foi a educação em saúde na gestação apontou que 56,4% afirmaram ter recebido orientações sobre os sinais de trabalho de parto por profissionais da saúde, sendo o enfermeiro o profissional mais citado6 enquanto educador.

A literatura também destaca que, nesse processo de Educação em Saúde, os parceiros são de fundamental importância, pois, quando orientados, eles conseguem identificar os sinais de trabalho de parto e o momento de conduzir as gestantes para a maternidade, assim como reconhecem, com clareza, os sinais de alerta. Em um estudo realizado com os acompanhantes, quando questionados sobre o conhecimento do tema, relataram a necessidade da contagem de contrações em dez minutos verificando sua frequência e apontando que devem estar presentes, pelo menos, três contrações e necessidade de avaliação em caso de sangramento. Nas falas dos parceiros, fica clara a importância de reconhecer esses sinais e sintomas a fim de se evitarem deslocamentos desnecessários para a maternidade.7

Embora não tenha objeto alvo do estudo, salienta-se a importância do acompanhante e do suporte social da gestante no conhecimento sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto. No sentido de aumentar o conhecimento dos acompanhantes não apenas sobre o momento do parto, mas também sobre quais as suas ações, quais os sinais que antecedem o trabalho de parto e quando ir para a maternidade, desenvolveu-se um material educativo intitulado "Preparando-se para acompanhar o parto normal: o que é importante saber?". Tanto o conteúdo, quanto a aparência do material foi validado pelos pares e pelos usuários.8 Iniciativas como essa facilitam a compreensão e aumentam o conhecimento das gestantes e familiares, já que o material com linguagem clara pode ser compartilhado por todo o círculo social da gestante e acredita-se que, quanto maior o número de pessoas orientadas, menores as chances de internação precoce ou desnecessária por falha de informação.

Um estudo demonstrou que cerca de dois terços das gestantes afirmaram que o sangramento vaginal, as dores abdominais intensas ou as fortes contrações servem de alerta na busca imediata de pronto atendimento; 46% relataram que a ruptura da bolsa indicava situação de gravidade, independente da característica do líquido; 21 a 26% indicaram que a perda de líquido amniótico ou do tampão mucoso, assim como o aumento pressórico indicava a necessidade imediata de atendimento. Apenas uma em cada dez gestantes sinalizou que a ausência de movimentos fetais indicaria gravidade no período gestacional mostrando grande desconhecimento em relação ao tema.9 Os dados são semelhantes aos encontrados no estudo que apontou defasagem em reconhecer sinais que antecedem o trabalho de parto; identificar e proceder em relação à bolsa rota; identificar alterações na movimentação fetal e contrações uterinas. No entanto, da mesma forma, as gestantes reconheciam a necessidade de avaliação quando ocorria o sangramento e sabiam identificar potenciais complicações.

Pesquisa qualitativa apontou que algumas gestantes chegaram à maternidade sem terem recebido qualquer informação no pré-natal a respeito do trabalho de parto e isso ocorreu, mais frequentemente, entre multíparas. Os autores consideraram que muitos profissionais de saúde acreditam que multíparas já teriam recebido informações em gestações anteriores ignorando a necessidade de rever o conhecimento e complementá-lo.10 Contudo, na amostra estudada, o reconhecimento dos sinais de alerta e de trabalho de parto não apresentou associação estatística com o número de filhos.

Destaca-se que o período de acompanhamento pré-natal é o momento propício para o profissional de saúde exercer importante influência sobre a mulher com papel relevante de educador em saúde. Nesse período, o profissional deve oferecer apoio orientando a gestante em relação a todo o processo gestacional e ao seu desfecho, objetivando aumentar a segurança e reduzir a ansiedade.11 Além disso, a satisfação com a assistência pré-natal apresenta relação direta com as orientações recebidas durante as consultas.12 Essa informação pode ser ressaltada pelo fato de que, quando entrevistadas, gestantes adolescentes consideraram satisfatória a assistência pré-natal devido à forma atenciosa da equipe de saúde durante os atendimentos realizados e às orientações prestadas a elas.13

As limitações do estudo foram quanto ao método utilizado, por se tratar de estudo com desenho descritivo e transversal, e no que tange a validade externa, uma vez que os dados não podem ser generalizados para outras realidades. Salienta-se que, a partir dos resultados encontrados poderão ser realizados novos estudos sobre a temática, que sejam comprovados através de testes de hipóteses ou que utilizem delineamentos diferentes. Além disso, destaca-se a escassez de estudos na literatura sobre a temática, o que dificulta a discussão e comparação dos dados encontrados.

Os dados apresentados no presente estudo possibilitaram delinear um perfil das gestantes que são atendidas no hospital de ensino, assim como detectar a necessidade de educação em saúde e a importância da orientação sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto para esta população. A partir dos resultados, poderão ser instituídas orientações sobre o tema tanto na instituição que foi realizado o estudo, quanto em outras instituições, dado que, em comparação com outros estudos, se identifica essa necessidade em diferentes contextos e instituições.

A maioria das gestantes não recebeu orientações sobre os sinais de alerta e de trabalho de parto durante a assistência pré-natal com reflexo nas respostas referentes ao tema. Houve maior defasagem em reconhecer sinais preliminares; identificar e proceder em relação à bolsa rota, identificar alterações na movimentação fetal e nas contrações uterinas. No entanto, as mesmas reconhecem a necessidade de avaliação diante da ocorrência de sangramento e sabem identificar potenciais complicações.

O reconhecimento dos sinais de alerta e de trabalho de parto não foi associado à idade da gestante e número de filhos. Gestantes que não receberam orientações tiveram escores de acertos mais baixos, e verificou-se associação estatisticamente significante entre ter recebido orientações durante o pré-natal sobre o tema e o percentual de acertos, confirmados pela regressão linear, demonstrando a importância da Educação em Saúde durante o pré-natal.

Agradecimentos

Apoio Financeiro - Bolsa de Iniciação Científica - FAPEMIG - Fundação de Apoio à Pesquisa em Minas Gerais.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 03 de Fevereiro de 2018; Revisado: 21 de Novembro de 2018; Aceito: 28 de Março de 2019

Contribuição dos autores

Os autores Corrêa CC, Félix HCR, Matias TGC, Parreira BDM, Paschoini MC e Ruiz MT participaram das etapas: 1. Contribuições substanciais para concepção e delineamento, coleta de dados ou análise e interpretação dos dados; 2. Redação do artigo ou revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e 3. Aprovação final da versão a ser publicada.

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