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Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil

versão impressa ISSN 1519-3829versão On-line ISSN 1806-9304

Rev. Bras. Saude Mater. Infant. vol.19 no.2 Recife abr./jun. 2019  Epub 22-Jul-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1806-93042019000200013 

ARTIGOS ORIGINAIS

Hospitalizações por condições sensíveis à atenção primária em crianças do Nordeste Brasileiro

Márcia Gabriela Costa Ribeiro1 
http://orcid.org/0000-0003-4641-1959

Augusto Cezar Antunes de Araujo Filho2 
http://orcid.org/0000-0002-3998-2334

Silvana Santiago da Rocha3 
http://orcid.org/0000-0002-1325-9631

1-3Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Departamento de Enfermagem. Universidade Federal do Piauí. Campus Ministro Petrônio Portella. Bloco 12. Teresina, PI, Brasil. CEP: 64.049-550. E-mail: marciagcribeiro@hotmail.com

Resumo

Objetivos:

analisar a evolução temporal das internações por condições sensíveis à atenção primária entre crianças menores de cinco anos na região Nordeste brasileira.

Métodos:

estudo descritivo ecológico, com dados sobre as internações retirados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde. As taxas de internações por condições sensíveis à atenção primária, entre 2004 e 2013, foram calculadas em duas faixas etárias: crianças menores de um ano e entre um e cinco anos.

Resultados:

houve uma redução da taxa de internações no Nordeste, apesar da existência de flutuações no período analisado. Bahia e Sergipe apresentaram, respectivamente, as maiores e menores taxas de internações (465,14 e 220,19 por 10 mil habitantes). Evidenciou-se que as crianças menores de um ano são mais acometidas por doenças sensíveis à atenção primária, apresentando uma taxa total de 709,08 por 10 mil habitantes. As principais causas de hospitalizações relacionaram-se ao grupo das gastroenterites infecciosas e suas complicações, com uma taxa de 218,76 por 10 mil habitantes.

Conclusões:

apesar da diminuição das hospitalizações por condições sensíveis à atenção primária, o Nordeste ainda apresenta taxas elevadas, comparado a outros estados, evidenciando-se, portanto, a necessidade de qualificar os serviços ofertados, mediante a capacitação dos profissionais e a inclusão de ações de saúde voltadas às reais necessidades da comunidade.

Palavras-chave Atenção primária à saúde; Hospitalização; Morbidade; Saúde da criança

Introdução

A Atenção Primária à Saúde (APS), porta de entrada das redes de atenção à saúde, refere-se a um conjunto de ações de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação, que tem impacto no bem-estar e desenvolvimento da população.1 Um dos pilares da APS no Brasil é a Estratégia Saúde da Família (ESF) que vai além da assistência médica e práticas curativas, pois suas ações centram-se na família, a qual é percebida a partir do seu ambiente físico e social, mediante o estabelecimento de um vínculo entre o usuário e o profissional, promovendo uma assistência integral, contínua e qualificada.1-2

O acesso a essas ações de saúde, além de melhorar a qualidade de vida da população, também diminui as desigualdades socioeconômicas e contribui para a redução de taxas de internação, bem como para a melhoria de indicadores de saúde. Apesar da sua importância, em 2013 apenas 53,4% dos domicílios brasileiros estavam cadastrados em uma unidade de saúde da família. O estudo comparou os resultados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE em 2008.3

Alguns dos indicadores apresentados se referiam à porcentagem de domicílios e moradores cadastrados em unidade de saúde da família. Os dados foram analisados mediante pesos amostrais para as unidades primárias de amostragem, domicílios e moradores. Ao avaliar as regiões do país, o Nordeste apresentava o maior número de domicílios cadastrados, com 64,7%, e o Sudeste o menor, com apenas 46,0%.3 Outro estudo demonstrou que em 2013 a região nordestina tinha 73,8% de cobertura de ESF, enquanto o Sudeste, 44,5%.4

No entanto, para que a APS possa ter impactos positivos nos indicadores de saúde da população, é preciso que, além da cobertura dos serviços, haja qualidade no cuidado e atendimento. Uma das formas de avaliar o seu desempenho é através da análise do indicador de internações por condições sensíveis à atenção primária (ICSAP).5 A Lista Nacional teve como marco conceitual o modelo proposto por Caminal-Homar & Casanova-Matutano, ademais foram utilizadas como referencias listas de secretarias municipais e estaduais de saúde do país, além de estudos internacionais.6

Essa lista é dividida por grupos de causas de hospitalizações e de acordo com a Portaria n° 221, de 17 de abril de 2008, pode ser utilizada como instrumento de avaliação da APS e do desempenho do sistema de saúde (SUS) nos âmbitos nacional, estadual e municipal.3,7

A não resolução dessas condições sensíveis por parte da APS gera uma maior demanda de custos, pois casos que poderiam ser resolvidos neste nível de atenção de menor densidade tecnológica são transferidos para os de maior densidade, incluindo as internações. Tal fato eleva os gastos, onerando desnecessariamente o SUS8 além do que, essas condições sensíveis influenciam nas taxas de mortalidade e morbidade dos diferentes grupos etários.

A população infantil é um dos grupos mais vulneráveis às doenças e suas complicações, o que foi observado em estudos realizados no Piauí,9 no Rio Grande do Norte10 e em São Paulo,11 em que a maioria dos óbitos infantis em menores de um ano poderia ser evitada se ações de saúde mais eficazes, qualificadas e em tempo oportuno fossem realizadas durante o período gravídico-puerperal.7,10,11

Compreendendo o impacto que a APS tem na qualidade de vida da população e reconhecendo a importância de um desenvolvimento e crescimento saudável para a vida das crianças, este estudo teve como objetivo analisar a evolução temporal das ICSAP entre crianças menores de cinco anos na Região Nordeste.

Métodos

Trata-se de um estudo descritivo ecológico, em que foram analisadas as causas das ICSAP em crianças menores de cinco anos residentes na região Nordeste, ocorridas entre 2004 e 2013.

Com relação às doenças sensíveis à APS, utilizou-se como base a lista divulgada pela Portaria n° 221, de 17 de abril de 2008, que contempla as categorias da Classificação Internacional de Doenças. A lista é formada por 19 categorias, como, gastroenterites infecciosas e complicações, anemia por deficiência de ferro, deficiências nutricionais, hipertensão, entre outras.7

Os dados deste estudo foram extraídos da Rede Interagencial de Informações para a Saúde (Ripsa) em outubro de 2017, a qual tem como finalidade disponibilizar dados básicos, indicadores e análises sobre as condições de saúde e suas tendências.

Para compor este estudo, foram utilizados os números absolutos e as taxas de internação, por condições sensíveis à atenção primária, estratificados por estado, grupo de causa sensível e por faixa etária. As internações foram analisadas em dois grupos etários: crianças menores de um ano de idade (nascimento até 11 meses e 29 dias) e crianças entre um a menores de cinco anos de idade (12 meses a 59 meses e 29 dias). Após a coleta, os dados foram inseridos em uma planilha eletrônica do programa Microsoft Excel 7.0

Os censos utilizados foram os correspondentes aos anos de 2000 e 2010, uma vez que se trabalhou com décadas distintas. As taxas usadas foram coletadas diretamente na Ripsa, a qual utiliza como base exponencial, 10.000.12

Este estudo foi realizado com dados secundários de uma plataforma de domínio público e on-line, sendo desnecessária a submissão a um Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde, n° 510, de 07 de abril de 2016.

Resultados

Observa-se, na Tabela 1, que o estado do Nordeste do Brasil com maior taxa de ICSAP de menores de cinco anos ao longo do período analisado foi a Bahia (465,14 por 10 mil habitantes). Apesar da tendência de decréscimo nas taxas baianas entre 2004 e 2009, em 2010 observou-se um crescimento em relação ao ano anterior. Sergipe, por sua vez, obteve a menor taxa (220,19 por10 mil habitantes) pelas mesmas condições de internação.

Tabela 1 Taxa de internação por Condições Sensíveis à Atenção Primária por 10 mil habitantes de crianças menores de cinco anos nos estados do Nordeste do Brasil, entre os anos de 2004 e 2013, segundo o ano da internação. Teresina, Piauí, Brasil, 2017. 

UF 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Taxa média anual
Alagoas 598,23 555,37 447,72 389,00 330,12 309,42 381,43 285,51 248,92 244,21 378,99
Bahia 545,47 540,15 493,90 464,31 430,60 426,71 546,47 439,74 400,23 363,81 465,14
Ceará 462,10 455,11 419,20 366,36 326,16 334,08 341,91 341,55 280,40 319,46 364,63
Maranhão 340,50 374,70 390,12 338,53 291,02 339,98 423,64 373,41 333,88 368,17 357,40
Paraíba 606,08 630,12 522,86 426,17 382,00 395,92 376,11 280,04 227,50 229,58 407,64
Pernambuco 484,03 476,38 420,29 375,80 329,17 320,39 315,85 294,89 281,26 277,43 357,55
Piauí 579,42 531,90 466,25 377,42 392,35 386,19 507,94 427,50 355,41 342,21 436,66
Rio Grande do Norte 411,49 413,19 344,07 309,16 221,47 239,49 275,01 223,65 195,21 204,72 283,75
Sergipe 386,93 334,88 262,06 215,55 164,98 151,58 195,23 149,12 176,14 165,47 220,19
Total 489,65 484,23 436,29 386,79 346,00 350,91 406,25 346,34 308,28 308,90 386,36

Fonte: Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde.

UF= Unidades da Federação.

A Tabela 2 apresenta o número e as taxas de internação por estado do Nordeste brasileiro, no período estudado, de acordo com a faixa etária analisada. Evidenciou-se que as crianças menores de um ano são mais acometidas por ICSAP, apresentando uma taxa de 709,08 por 10 mil habitantes.

Tabela 2 Distribuição do número e das taxas de internação por Condições Sensíveis à Atenção Primária por 10 mil habitantes de crianças menores de cinco anos nos estados do Nordeste do Brasil, segundo faixa etária. Teresina, Piauí, Brasil, 2017. 

UF < 1 ano 1 a 4 anos < 5 anos
n taxa n taxa n taxa
Alagoas 48942 837,82 75121 318,58 124063 421,67
Bahia 166896 745,17 407206 452,25 574102 510,6
Ceará 95494 728,03 175990 325,38 271484 403,96
Maranhão 71619 606,85 167309 343,89 238928 395,23
Paraíba 39124 703,87 88242 392,15 127366 453,9
Pernambuco 106648 808,92 158955 296,64 265603 397,8
Piauí 34902 694,45 88686 426,36 123588 478,53
Rio Grande do Norte 24713 521,3 50355 263,78 75068 315,01
Sergipe 15406 442,87 27411 195,81 42817 244,98
Total 603744 709,08 1239275 357,83 1843019 427,14

Fonte: Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde.

UF= Unidades da Federação.

Na Figura 1, verifica-se uma redução da taxa de internações, apesar da existência de flutuações no período de análise. Em menores de um ano, observase uma redução de 18,6% de 2004 (872,03) para 2013 (709,08). Para as crianças de um a quatro anos de idade, essa redução foi de 8,9% de 2004 (392,82) para 2013 (357,83).

Fonte: Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde.

Figura 1 Taxa de internação por condições sensíveis à atenção primária por 10 mil habitantes de crianças menores de cinco anos entre os anos de 2004 e 2013, segundo faixa etária. Teresina, Piauí, Brasil, 2017. 

As hospitalizações por condições sensíveis à atenção primária aconteceram principalmente por doenças relacionadas ao grupo das gastroenterites infecciosas e suas complicações, com uma taxa de 218,76 por 10 mil habitantes. Logo em seguida, aparecem as doenças do sistema respiratório (pneumonias bacterianas, asma e doenças pulmonares) que totalizaram 163,75 por 10 mil habitantes (Tabela 3).

Tabela 3 Número e taxas de internação por condições sensíveis à atenção primária por 10 mil habitantes de crianças menores de cinco anos nos estados do Nordeste do Brasil por grupo segundo faixa etária. Teresina, Piauí, Brasil, 2017. 

Grupo < 1 ano 1 a 4 anos < 5 anos
n taxa n taxa n taxa
Doenças preveníveis por imunização e condições sensíveis 4396 5,16 2999 0,87 7395 1,71
Gastroenterites infecciosas e complicações 297273 349,14 646649 186,71 943922 218,76
Anemia 2592 3,04 3170 0,92 5762 1,34
Deficiências nutricionais 13288 15,61 15526 4,48 28814 6,68
Infecções do ouvido, nariz e garganta 4590 5,39 13649 3,94 18239 4,23
Pneumonias bacterianas 91159 107,06 159668 46,1 250827 58,13
Asma 76483 89,83 293684 84,8 370167 85,79
Doenças pulmonares 57268 67,26 28288 8,17 85556 19,83
Hipertensão 546 0,64 449 0,13 995 0,23
Angina 94 0,11 37 0,01 131 0,03
Insuficiência cardíaca 3060 3,59 2665 0,77 5725 1,33
Doenças cerebrovasculares 139 0,16 248 0,07 387 0,09
Diabetes Mellitus 695 0,82 1818 0,52 2513 0,58
Epilepsias 6700 7,87 16377 4,73 23077 5,35
Infecção do rim e trato urinário 16180 19,0 26080 7,53 42260 9,79
Infecção da pele e tecido subcutâneo 9346 10,98 26609 7,68 35955 8,33
Doença inflamatória de órgãos pélvicos femininos 156 0,18 201 0,06 357 0,08
Úlcera gastrointestinal 913 1,07 858 0,25 1771 0,41
Doenças relacionadas ao pré-natal e parto 18866 22,16 300 0,09 19166 4,44

Fonte: Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde.

Observa-se ainda que o Norte e o Nordeste são as regiões brasileiras que apresentam as maiores taxas de ICSAP em crianças menores de cinco anos, respectivamente, verificando-se, que estas regiões e o Centro-Oeste apresentam taxas de internação maiores que a do Brasil (Tabela 4).

Tabela 4 Taxa de internação por condições sensíveis à atenção primária por 10 mil habitantes de crianças menores de cinco anos por faixa etária, segundo região geográfica brasileira. Teresina, Piauí, Brasil, 2017. 

Região < 1 ano 1 a 4 anos < 5 anos
Norte 836,52 385,54 473,31
Nordeste 709,08 357,83 427,14
Centro-Oeste 735,28 308,90 392,59
Sul 734,00 246,41 339,94
Sudeste 605,27 189,99 270,56
Total 688,20 278,71 358,56

Fonte: Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde.

Cabe destacar que, ao analisar a ocorrência das taxas de ICSAP por sexo, o masculino foi mais acometido por esses agravos nas duas faixas etárias observadas, apresentando uma taxa global de 456,19/10000, enquanto as crianças do sexo feminino apresentaram 397,08/10000 internações. Essa diferença foi mais acentuada entre os menores de um ano, com 787,88/10000 para eles e 627,31/10000 para elas. Entre as crianças de um a quatro anos, o público masculino apresentou uma taxa de 374,5/1000 e o feminino de 340,59/10000. (Dados não tabulados).

Discussão

O total de internações por ICSAP foi de 1.843.019, considerando o período e as faixas etárias analisadas, observando-se uma redução de 26,7% nas taxas de internação entre 2004 e 2013, o que corrobora outras pesquisas realizadas no Brasil, as quais demonstraram reduções nas taxas de internações em crianças.13-15 Sabe-se que essas hospitalizações acarretam prejuízos tanto para os cofres públicos como para os indivíduos e para a sociedade.16 Nessa perspectiva, essa redução é benéfica, tendo em vista que evita despesas não necessárias bem como a carga social da morbidade.17 Isso pode estar relacionado à realização de procedimentos anteriormente executados em serviços de maior complexidade no nível ambulatorial18 e, também, ao fato da melhoria nas condições de acesso, na efetividade da assistência prestada pela APS, no aumento da cobertura da ESF e pela melhoria das condições sociais observadas nos últimos anos.17-20

O Estado da Bahia, por sua vez, apresentou a maior taxa de ICSAP durante o período analisado o que pode ser justificado pelo fato de o estado ter uma maior densidade populacional e maior extensão territorial entre estados nordestinos, o que pode dificultar a cobertura de serviços de APS.21 No ano de 2013, apenas 58,5% dos domicílios baianos eram cadastrados em unidades de saúde da família.3

Vale ressaltar que a cobertura dos serviços de APS não é o único fator que justifica a manutenção de taxas elevadas de ICSAP na Bahia, visto que o estado do Piauí, apesar de apresentar mais de 80% dos moradores cadastrados em equipes de ESF, também possui uma elevada taxa de ICSAP se comparado aos outros estados de sua região. Desse modo, outras dimensões também devem ser consideradas, como o suporte financeiro insuficiente para garantir a universalidade e a integralidade da atenção, capacitação de profissionais, disponibilidade e localização dos serviços.22

Apesar das melhorias relatadas anteriormente, a Região Nordeste, se comparada a outras regiões do país, apresenta os menores valores médios de consulta, as maiores dificuldades de acesso aos serviços de saúde, e outros elementos importantes, como: altas taxas de analfabetismo e menores coberturas de esgotamento sanitário.23 Além disso, o contexto no qual os indivíduos vivem também interfere no processo de adoecimento, uma vez que determinantes sociais, como, educação, emprego, renda, saneamento básico, afetam a saúde da população.24 Portanto, tal realidade revela que mais investimentos devem ser realizados na APS, no intuito de reduzir as ICSAP, assim como nas condições de vida da população, uma vez que elas têm impacto na saúde do individuo.20

Cabe reafirmar que a redução da morbidade de crianças e da gravidade dos problemas que comprometem a saúde infantil encontra-se intimamente relacionada à qualidade dos serviços oferecidos pela ESF.20 No entanto, apesar da redução das ICSAP, ainda ocorrem casos de doenças que poderiam ser evitadas se houvesse uma atuação mais efetiva da APS. É o caso das gastroenterites e das doenças respiratórias, as quais estão fortemente associadas, também, às circunstâncias socioeconômicas e ambientais.17

Neste estudo, as gastroenterites foram as condições que mais impactaram nas internações de menores de cinco anos durante a década relatada, corroborando resultados de outras regiões do país, como a Sul e Sudeste.5,25 Sabe-se que as condições de moradia, tais como acesso a saneamento básico e água potável, são fatores que influenciam na ocorrência dessas doenças. No entanto, a atuação dos serviços primários de saúde tem impacto na sua prevenção, uma vez que parte das gastroenterites é de intensidade leve. Desse modo, tecnologias de baixa complexidade adotadas pela APS são efetivas para prevenir essas infecções, como a terapia de reidratação oral, vacina oral contra o rotavírus humano, uso de antiparasitários, além de ações de educação em saúde voltadas para a família.26 Portanto, impõe-se uma maior resolutividade das equipes, o que inclui, não somente a cura de doenças, mas a minimização de suas complicações.27

As doenças do aparelho respiratório também foram importantes causas de hospitalização de menores de cinco anos na região Nordeste, o que está de acordo com a realidade do país.5,13,15,25 Destaca-se que entre esse grupo de doenças, a asma foi a mais frequente entre os menores de cinco anos. Por ser uma doença que combina fatores genéticos, ambientais e outros, os profissionais da APS devem atuar, sobretudo nos fatores modificáveis, mediante ações de promoção e prevenção para o controle da afecção.28 Apesar desse grupo apresentar uma maior susceptibilidade biológica, as hospitalizações poderiam ser evitadas, no próprio contexto na APS, mediante a identificação precoce de sinais e sintomas. Ademais, as equipes dispõem de recursos para prevenir e tratar outros agravos respiratórios por meio da utilização de medidas de baixa tecnologia, como imunizações e antibióticos.26

Foi observada uma diferença, ainda que discreta, entre as taxas de ICSAP entre o sexo masculino e feminino. Resultados semelhantes foram encontrados em outra pesquisa que investigou as hospitalizações relacionadas à APS em Cuiabá-MT, no qual, as crianças do sexo masculino responderam por 55,1% das internações,13 corroborando, ainda, estudo realizado em Montes Claros-MG, o qual afirma que crianças do sexo masculino são as que mais adoecem e utilizam os serviços de saúde.29 Por outro lado, estudo realizado na cidade de Salvador, que investigou o óbito e as internações por asma ao longo de mais de uma década, mostrou que as crianças do sexo masculino foram as mais hospitalizadas, embora as do sexo feminino tenham tido uma maior taxa de óbitos.30

Desse modo, para reduzir a morbidade infantil por causas evitáveis, mais significativamente, é necessário reorganizar o modelo de atenção à saúde, promovendo mudanças e fortalecimento nos cuidados primários, a fim de tornar a APS mais efetiva e qualificada no que diz respeito à redução das ICSAP.8,19

Como limitação deste estudo deve-se mencionar o uso de dados secundários que podem apresentar problemas referentes à qualidade das fontes de informações devido à subnotificações e erros de classificação.

Ressalta-se, por fim, que apesar da importância do aumento da cobertura de serviços de APS, este não é o único fator que influencia na qualidade desses serviços, tendo em vista que a região Nordeste ainda mantém taxas elevadas de ICSAP, se comparadas a outras regiões do país. Destaca-se que crianças menores de um ano ainda são mais afetadas por esse grupo de doenças, apesar dos programas de imunização e de um maior número de consultas no primeiro ano de vida. Evidencia-se, portanto, a necessidade de qualificar o serviço ofertado, a partir da capacitação e sensibilização dos profissionais, focando não apenas na quantidade de atendimentos, mas na qualidade da atenção prestada ao indivíduo. Isto inclui ações de saúde voltadas para as reais necessidades da comunidade, assim como o estreitamento do vínculo entre o profissional e o sujeito, visando a participação ativa deste no seu processo de saúde-doença.

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Recebido: 20 de Junho de 2018; Revisado: 24 de Abril de 2019; Aceito: 30 de Abril de 2019

Contribuições dos autores

Ribeiro MG e Araujo Filho ACA - coleta e análise dos dados e concepção do artigo bem como no design do artigo. Rocha SS - preparação do artigo desde a seleção da temática até a revisão final. Todos os autores aprovaram a versão final do manuscrito.

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