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Neotropical Entomology

versão impressa ISSN 1519-566Xversão On-line ISSN 1678-8052

Neotrop. Entomol. v.30 n.1 Londrina mar. 2001

https://doi.org/10.1590/S1519-566X2001000100005 

ECOLOGIA, COMPORTAMENTO E BIONOMIA

 

Aspectos biológicos das cigarrinhas Acrogonia gracilis (Osborn), Dilobopterus costalimai Young e Oncometopia facialis (Signoret) (Hemiptera: Cicadellidae) em Citrus sinensis L. Osbeck

 

Biological aspects of the leafhoppers Acrogonia gracilis (Osborn), Dilobopterus costalimai Young and Oncometopia facialis (Signoret) (Hemiptera: Cicadellidae) on Citrus sinensis L. Osbeck

 

 

Paulo E.B. Paiva; Sérgio R. Benvenga; Santin Gravena

GRAVENA - Manejo Ecológico e Controle Biológico de Pragas Agrícolas Ltda., Rua Monteiro Lobato 856, 14870-000, Jaboticabal, SP

 

 


RESUMO

Foram estudados os aspectos biológicos das cigarrinhas Acrogonia gracilis (Osborn), Dilobopterus costalimai Young e Oncometopia facialis (Signoret) em plantas jovens de laranja Citrus sinensis L. Osbeck em condições controladas de 25±2ºC, 60±10% de umidade relativa e 12h de fotofase. Essas cigarrinhas são vetoras de Xylella fastidiosa Wells em citros. Foram observados cinco ínstares em D. costalimai e O. facialis e seis em A. gracilis. O período médio de duração de ovo a adulto e a longevidade foram, respectivamente, 54,5 e 72,4 dias para A. gracilis, 54,7 e 36,4 dias para D. costalimai e 67,1 e 15,5 dias para O. facialis.

Palavras-chave: Insecta, Cicadellinae, Xylella fastidiosa, vetores, desenvolvimento biológico.


ABSTRACT

The biological aspects of the leafhoppers Acrogonia gracilis (Osborn), Dilobopterus costalimai Young and Oncometopia facialis (Signoret) on young plants of Citrus sinensis L. Osbeck was studied at 25±2ºC, relative humidity of 60±10% and photophase of 12h. These species are vectors of Xylella fastidiosa Wells to citrus. Five instars were observed for D. costalimai and O . facialis and six for A. gracilis. The mean duration from egg to adult and longevity were, respectively, 54.5 and 72.4 days for A. gracilis, 54.7 and 36.4 days for D. costalimai and 67.1 and 15.5 days for O. facialis.

Key words: Insecta, Cicadellinae, Xylella fastidiosa, vectors, biological development.


 

 

A clorose variegada dos citros constituiu um dos principais problemas fitossanitários da Citricultura do estado de São Paulo na década de 90. Detectada pela primeira vez em pomares do norte do estado em 1987, rapidamente disseminou-se para as demais regiões produtoras. Por afetar principalmente as plantas novas foi responsável pela redução do plantio de laranjeiras. Em 1996 esta doença afetava seriamente 12 milhões de laranjeiras, cerca de 6% das plantas de todo o estado, o que representou perda econômica de cerca de 150 milhões de dólares para o agronegócio citrícola (Amaro et al. 1997).

O agente causal dessa doença é a bactéria Xylella fastidiosa Wells (Lee et al. 1993), um patógeno limitado ao xilema vegetal que pode ser transmitido por cigarrinhas das famílias Cercopidae e Cicadellidae (sub-família Cicadellinae) (Lopes 1996). Levantamentos populacionais feitos nas principais regiões produtoras de São Paulo mostraram que as espécies de cigarrinhas de xilema predominantes nas plantas cítricas foram Acrogonia gracilis (Osborn), Dilobopterus costalimai Young e Oncometopia facialis (Signoret) (Paiva et al. 1996). Por isso, tais espécies foram as primeiras a serem estudadas quanto à capacidade de transmissão e confirmadas como vetoras de X. fastidiosa em citros (Roberto et al. 1996).

Assim, as cigarrinhas vetoras ganharam status de pragas no cultivo das principais variedades comerciais de laranja e o controle desses insetos passou a ser uma das estratégias recomendadas no manejo da clorose variegada dos citros. Apesar de não serem insetos muito abundantes em citros, elas ocorrem o ano todo em pomares de laranja desde que haja vegetações. Roberto & Yamamoto (1998) observaram que há um aumento do número de cigarrinhas a partir de outubro, com picos populacionais no verão. Em viveiros irrigados onde as brotações são constantes, o aumento do número de cigarrinhas vetoras foi observado em dezembro com picos no final do verão e final do outono (Garcia et al. 1997).

Como pouco se conhece sobre esses insetos, propôs-se estudar os aspectos biológicos das espécies A. gracilis, D. costalimai e O. facialis em citros em condições controladas, visando melhorar o monitoramento através da identificação de ovos e formas jovens, bem como a manutenção e a produção de cigarrinhas para estudos de transmissão e controle.

 

Material e Métodos

O estudo foi conduzido nos laboratórios da Estação Experimental da Gravena-ManEcol Ltda. em Jaboticabal, SP entre setembro de 1997 e junho de 1998. Mudas de laranja Citrus sinensis L. Osbeck variedade pera em porta-enxerto de limão cravo (Citrus limonia Osbeck) foram adquiridas em viveiro comercial em Aguaí, SP. As mudas, com um ano de idade, foram plantadas em vasos (18 litros) com uma mistura de solo, areia, esterco animal e substrato vegetal (5:3:1:1) e mantidas em estufa plástica. Cada vaso recebeu irrigação a cada dois dias (2 L) e fertilização mensal (0,3L) com solução nutritiva [nitrato de cálcio, nitrato de potássio, sulfato de magnésio, fosfato monoamônico e cloreto de potássio (1+0,33+0,33+0,15+0,15g/litro)]. As plantas com brotações novas eram selecionadas para uso no estudo, pois no campo as cigarrinhas são observadas alimentando-se nas brotações.

As cigarrinhas A. gracilis, D. costalimai e O. facialis foram coletadas com rede entomológica em pomares cítricos em Jaboticabal e Taquaritinga, SP e trazidas ao laboratório. Cinco a sete insetos adultos de cada espécie foram confinados em ramos novos, em gaiolas plásticas cilíndricas (25x10,5 cm) com tela tipo voil na base e no topo para obtenção de ovos, e mantidos em sala climatizada com temperatura de25±2ºC , umidade relativa do ar de 60±10% e fotofase de 12h.

Eram feitas duas observações diárias nas plantas com cigarrinhas a procura de ovos. O ramo com folhas contendo ovos era identificado para obtenção do período embrionário e as cigarrinhas adultas eram transferidas para ovipositarem em outro ramo. Os ovos eram acompanhados até a eclosão das ninfas. As ninfas recém-emergidas foram individualizadas em gaiolas em ramos vegetados, e observadas duas vezes ao dia, às 9 e às 15h, quanto à presença de exúvia para determinação da duração do ínstar, para tanto utilizou-se um pendente com lâmpada (40W) para melhor visualizar ninfas e exúvias. As três espécies foram estudadas a partir de 30 ovos e ninfas de primeiro ínstar.

A determinação da longevidade dos adultos de A. gracilis (n=25), D. costalimai (n=24) e O. facialis (n=15) foi feita com insetos não acasalados de ambos os sexos. Mensalmente os insetos eram transferidos para plantas novas pois os ramos amadureciam ou apresentavam desfolha. Com as repetições das observações de cada cigarrinha obteve-se a média aritmética e o erro padrão dos dados para cada fase das três espécies estudadas.

 

Resultados e Discussão

A cigarrinha A. gracilis oviposita na superfície de folhas maduras, preferencialmente na face inferior. Os ovos são alongados e dispostos lado a lado em duas camadas, sendo recobertos por uma substância branca acumulada nas asas da fêmea. O período embrionário médio foi de 9.8 dias (Tabela 1). As ninfas recém-eclodidas apresentam coloração esbranquiçada com faixas escuras ao longo do corpo tornando-se posteriormente esverdeadas. Durante esta mudança de cor, com duração de 3 a 4h, as ninfas permanecem ao redor da postura para em seguida, se dispersarem indo em direção as folhas mais novas. As ninfas são de coloração verde clara com listras laterais escuras e alongadas. O quinto ínstar apresenta primórdios de asas e todos os insetos apresentaram seis estágios ninfais com uma duração média de 44,6 dias. O ciclo total de ovo a adulto foi de 54,5 dias com viabilidade de 84%. As cigarrinhas A. gracilis alimentam-se nas folhas mais tenras dos citros sendo a longevidade média dos adultos de 72,4 dias. Quando perturbadas elas rapidamente se deslocam lateralmente para o lado oposto da folha ou do ramo, um hábito comum nessas cigarrinhas (Nielson et al. 1975). As três espécies estudadas apresentaram este comportamento.

Os ovos de D. costalimai são colocados internamente na folha (postura endofítica) e ao longo das nervuras, principalmente a central. Os ovos são isolados, e em algumas folhas encontrou-se mais de um ovo. O período embrionário médio foi 10,7 dias. As ninfas são de coloração verde clara e permanecem ao redor do ovo até adquirirem coloração mais escura. Após 4 a 5h as cigarrinhas iniciam a dispersão para as folhas novas e ramos tenros onde iniciam a alimentação. A espécie D. costalimai apresentou cinco estádios ninfais, com duração média de 44,2 dias. As ninfas apresentam tórax e abdome esverdeado com manchas escuras e a cabeça amarela com manchas pretas. O ciclo de vida teve duração média de 54,7 dias com viabilidade de 79,8%. Almeida & Lopes (1999) obtiveram um ciclo de ovo a adulto para D. costalimai de 77 dias em casa de vegetação, com temperatura na maior parte do estudo abaixo de 25ºC. Tais autores também constataram alta mortalidade de ninfas de primeiro ínstar, o que não ocorreu no presente estudo já que houve 96% de viabilidade desse estádio ninfal. Após a emergência, os adultos são de coloração amarela, posteriormente as asas tornam-se escuras com a parte terminal marrom, o corpo e as pernas permanecem amarelados e na cabeça as linhas escuras tornam-se mais evidentes. Os adultos alimentam-se principalmente nas folhas novas e ramos tenros. A longevidade média dos adultos foi de 36,4 dias, mas com variação de sete até 112 dias. As cigarrinhas D. costalimai e A. gracilis apresentaram ciclos de ovo-adulto semelhantes, 54,7 e 54,5 dias, apesar da última ter um ínstar a mais.

As oviposições de O. facialis foram realizadas preferencialmente na face inferior de folhas maduras, sendo os ovos depositados lado a lado sob a epiderme da folha em uma única camada, e então recobertos por uma substância branca, à semelhança da postura de A. gracilis. O período embrionário médio foi 9,6 dias. As ninfas recém-eclodidas são arroxeadas e permanecem agregadas por algumas horas, quando então se dispersam para os ramos em fase de maturação onde iniciam a alimentação. A cigarrinha O. facialis apresenta cinco estádios ninfais, com duração média de 58,1 dias e viabilidade de 49,9%, sendo esta a menor entre as três espécies estudadas. O ciclo de ovo-adulto observado foi de 67,1 dias, menor que os 86 dias obtido por Almeida & Lopes (1999) para O. facialis também em C. sinensis, e menor que o período de 73-87 dias verificado para Oncometopia alpha Fowler em feijoeiro por Nielson et al. (1975). Os primeiros autores também constataram alta mortalidade de ninfas de primeiro ínstar, o que pode ser atribuído a variações de temperatura.

A longevidade de adultos de O. facialis foi a menor dentre as três espécies estudadas, 15,5 dias, com 72,4 dias para A.gracilis e 36,4 dias para D. costalimai, sugerindo que a planta hospedeira C. sinensis não oferece boas condições para o desenvolvimento deste inseto. Turner & Pollard (1959) observaram durações de 10,7; 9,0; 10,9; 11,4 e 15,1 dias para ninfas de Oncometopia undata (Fabricius) em diferentes hospedeiros, valores muito próximos aos constatados neste trabalho. No entanto, a longevidade de O. undata foi de 56,1 dias contra 15,5 dias para O. facialis. No campo O . facialis tem sido encontrada em outros hospedeiros, como Lantana camara L., um arbusto muito procurado pelo inseto em determinada época do ano e às vezes, preferido ao citros.

A laranjeira C. sinensis, que é a espécie cítrica afetada pela clorose variegada dos citros, se mostrou um bom hospedeiro para as cigarrinhas vetoras A. gracilis e D. costalimai, pois permitiu que estas completassem seu ciclo com altas viabilidades, sendo também bastante adequado aos adultos dessas espécies. O método empregado neste trabalho permitiu o estudo da biologia das cigarrinhas vetoras de X. fastidiosa em citros, no entanto se mostrou trabalhoso para a manutenção e a produção desses insetos, e para tanto novas técnicas devem ser desenvolvidas.

 

Agradecimentos

Ao Fundo Paulista de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) pelo suporte financeiro, ao Prof. Rodney Cavichiolli (UFPr- Curitiba) pela identificação dos insetos e ao Técnico Agrícola Luis Carlos de Souza Amorim pela ajuda.

 

Literatura Citada

Almeida, R.P.P. & J.R.S. Lopes. 1999. Desenvolvimento de imaturos de Dilobopterus costalimai Young, Oncometopia facialis (Signoret) e Homalisca ignorata Melichar (Hemiptera: Cicadellidae) em citros. An. Soc. Entomol. Brasil 28: 179-182.        [ Links ]

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Recebido em 22/10/99
Aceito em 13/12/2000

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