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Espécies de Trichogramma (Hymenoptera: Trichogrammatidae) coletadas em armadilha de sucção em reserva florestal

Trichogramma species (Hymenoptera: Trichogrammatidae) collected in suction trap in forest reserve

Resumos

Pela primeira vez é usada uma armadilha elétrica de sucção (estacionária) para coleta de espécies de Trichogramma. Foram coletados 551 espécimes pertencentes a nove espécies: T. acuminatum Querino & Zucchi, T. alloeovirilia Querino & Zucchi, T. bruni Nagaraja, T. parrai Querino & Zucchi, T. pretiosum Riley, T. pusillus Querino & Zucchi, T. tupiense Querino & Zucchi, T. zucchii Querino e Trichogramma sp. aff. pintoi. A espécie mais abundante e freqüente foi T. bruni. As demais espécies tiveram freqüências relativas inferiores a 2%. A armadilha de sucção elétrica mostrou-se útil para a coleta de Trichogramma em áreas onde é difícil localizar os ovos do inseto hospedeiro.

Hymenoptera; parasitóide de ovos; método de coleta


For the first time an electrical suction trap was used to collect specimens of Trichogramma. The total of 551 Trichogramma specimens were collected belonging to nine species namely T. acuminatum Querino & Zucchi, T. alloeovirilia Querino & Zucchi, T. bruni Nagaraja, T. parrai Querino & Zucchi, T. pretiosum Riley, T. pusillus Querino & Zucchi, T. tupiense Querino & Zucchi, T. zucchii Querino and Trichogramma sp. aff. pintoi. T. bruni was the most abundant and frequent species. The relative frequency was less than 2% for the remaining species. The electrical suction trap was shown useful to collected Trichogramma specimens in areas where host insect eggs are difficult to find.

Hymenoptera; egg parasitoid; collecting method


CONTROLE BIOLÓGICO

Espécies de Trichogramma (Hymenoptera: Trichogrammatidae) coletadas em armadilha de sucção em reserva florestal

Trichogramma species (Hymenoptera: Trichogrammatidae) collected in suction trap in forest reserve

Ranyse B. QuerinoI; Roberto A. ZucchiII

IInstituto Nacional de Pesquisas da Amazônia/Coordenação de Pesquisas em Entomologia, Av. André Araújo 2936, Aleixo, 69011-970, Manaus, AM, e-mail: ranyse@inpa.gov.br

IIDepto. Entomol., Fitopatol. e Zool. Agrícola ESALQ/USP - C. postal 9, Av. Pádua Dias 11, 13418-900 Piracicaba, SP, e-mail: razucchi@esalq.usp.br

RESUMO

Pela primeira vez é usada uma armadilha elétrica de sucção (estacionária) para coleta de espécies de Trichogramma. Foram coletados 551 espécimes pertencentes a nove espécies: T. acuminatum Querino & Zucchi, T. alloeovirilia Querino & Zucchi, T. bruni Nagaraja, T. parrai Querino & Zucchi, T. pretiosum Riley, T. pusillus Querino & Zucchi, T. tupiense Querino & Zucchi, T. zucchii Querino e Trichogramma sp. aff. pintoi. A espécie mais abundante e freqüente foi T. bruni. As demais espécies tiveram freqüências relativas inferiores a 2%. A armadilha de sucção elétrica mostrou-se útil para a coleta de Trichogramma em áreas onde é difícil localizar os ovos do inseto hospedeiro.

Palavras-chave: Hymenoptera, parasitóide de ovos, método de coleta

ABSTRACT

For the first time an electrical suction trap was used to collect specimens of Trichogramma. The total of 551 Trichogramma specimens were collected belonging to nine species namely T. acuminatum Querino & Zucchi, T. alloeovirilia Querino & Zucchi, T. bruni Nagaraja, T. parrai Querino & Zucchi, T. pretiosum Riley, T. pusillus Querino & Zucchi, T. tupiense Querino & Zucchi, T. zucchii Querino and Trichogramma sp. aff. pintoi. T. bruni was the most abundant and frequent species. The relative frequency was less than 2% for the remaining species. The electrical suction trap was shown useful to collected Trichogramma specimens in areas where host insect eggs are difficult to find.

Key words: Hymenoptera, egg parasitoid, collecting method

O conhecimento sobre Trichogramma na região Neotropical está altamente correlacionado ao controle biológico de pragas, o que tem direcionado as coletas e estudos aos agroecosistemas. Por outro lado, as reservas florestais foram pouco investigadas com relação à fauna de Trichogrammatidae, especialmente de Trichogramma. Praticamente nada se conhece sobre as espécies que ocorrem nesse ambiente. Desse modo, para preservar e conhecer a diversidade local de espécies de Trichogramma é importante estudar ambientes não-agrícolas.

A coleta de tricogramatídeos em hábitats florestais ou nativos é difícil, pois nem sempre é possível localizar os ovos dos insetos hospedeiros. Por esse motivo, métodos indiretos de coleta têm sido empregados, como rede de varredura, bandejas amarelas de água, armadilha de Malaise e aspiradores (Pinto 1999).

As espécies nativas podem ser potencialmente importantes no controle biológico e, em alguns casos, com altos índices de parasitismo (e.g. Monje 1995). Conhecer e conservar os reservatórios naturais de parasitóides nativos é de fundamental importância, independentemente dos grupos taxonômicos ou biológicos desses locais, pois não se pode prever quais as espécies de insetos que podem tornar pragas no futuro (LaSalle 1993).

A armadilha elétrica de sucção (estacionária) é um método de coleta usado paa captura de pequenos insetos em vôo (Silveira Neto et al. 1976). Assim, neste trabalho foi utilizada para conhecer a composição de espécies de Trichogramma em uma reserva florestal.

Material e Métodos

O levantamento foi realizado no Horto Florestal de Tupi (Instituto Florestal do Estado de São Paulo) em Piracicaba, SP. A vegetação é formada principalmente por áreas de reflorestamento com espécies nativas e introduzidas (Eucalyptus sp. e Pinus sp.) e pequenos fragmentos de vegetação nativa (Floresta Mesófila Semidecídua).

Foi utilizada uma armadilha elétrica de sucção (estacionária), modelo da Seção de Virologia do Instituto Agronômico de Campinas (Fig. 1), constituída basicamente de exaustor, cone de tela, recipiente de coleta e suporte (Silveira Neto et al. 1976). A armadilha foi instalada em setembro/1999 e mantida até setembro/2000, em uma área com vegetação diversificada distante aproximadamente 300 m do setor administrativo e 30 m da trilha de acesso. A armadilha de sucção permaneceu em funcionamento, diariamente, das 7:00h às 16:00h. O recipiente de coleta continha uma solução de álcool 70% + glicerina (3:1), sendo as amostras retiradas semanalmente, ocasião em que a solução era substituída e os insetos coletados eram armazenados em frascos e levados ao laboratório para serem contados e identificados.


Na triagem, o material coletado era diluído em água e examinado em estereomicroscópio, para separação dos espécimes de Trichogramma. As fêmeas foram conservadas em álcool 70% e os machos foram montados em lâminas microscópicas em meio de Hoyer's para a identificação específica. O material coletado foi depositado na Coleção da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) (Entomologia) (dados das espécies em www.ciagri.usp.br/~let.taxon.htm).

Foram estimados os seguintes parâmetros baseando-se em Silveira Neto et al. (1976) e Ludwig & Reynolds (1988): a) Freqüência: é a proporção de indivíduos de uma espécie em relação ao total de indivíduos de uma amostra; b) Riqueza de Margalef (R): é um índice que relaciona o número total de espécies na comunidade e o número total de indivíduos observados; c) o Índice de Shannon (H'): é uma medida do grau de incerteza em prever a que espécie pertencerá um indivíduo escolhido, ao acaso, de uma amostra com S espécies e N indivíduos. O grau de incerteza aumenta com o aumento do número de espécies e quando a distribuição dos indivíduos entre as espécies é a mesma. A diversidade tende a ser mais alta quanto maior o valor do índice. Assim H' tem duas importantes propriedades: (1) H' = 0 se e somente se existe uma espécie na amostra, e (2) H' é máxima somente quando todas espécies são representadas pelo mesmo número de indivíduos, isto é, uma perfeita distribuição das abundâncias; d) Índice de Simpson (l ): o índice varia de 0 a 1, indica a probabilidade de que dois indivíduos escolhidos ao acaso na comunidade pertençam à mesma espécie. Assim, se a probabilidade de ambos indivíduos serem da mesma espécie é alta, então a diversidade da comunidade amostrada é baixa; e) Equitabilidade (E): é um índice de eqüitatividade ou uniformidade, indica como a abundância está distribuída entre as espécies de uma comunidade. Quando todas as espécies em uma amostra são igualmente abundantes, esse índice deve assumir valor máximo e decresce tendendo a zero à medida que as abundâncias relativas das espécies divergirem desta igualdade.

Para avaliar a influência dos parâmetros climáticos sobre a população de Trichogramma, foram usados os dados climáticos (precipitação, umidade e temperatura) do posto meteorológico do Departamento de Ciências Exatas da ESALQ, Piracicaba, SP, situado a 13 km do Horto Florestal de Tupi.

Resultados e Discussão

Foram coletados 551 espécimes de Trichogramma pertencentes a nove espécies (Tabela 1). Desse total, 318 espécimes não foram identificados, pois 279 eram fêmeas, 4 não se enquadraram nas descrições de nenhuma espécie, entretanto, são necessários mais exemplares para a identificação, e 35 foram danificados na coleta ou na montagem, não permitindo a identificação específica.

Considerando-se que no Brasil estão registradas 14 espécies de Trichogramma (Zucchi & Monteiro 1997), verifica-se que o Horto de Tupi possui uma diversidade alta de espécies, pois das 10 espécies coletadas, seis foram descritas recentemente (Querino & Zucchi 2003): T. acuminatum, T. alloeovirilia, T. parrai, T. pusillus, T. tupiense e T. zucchii. Foi coletado também um espécime semelhante a T. pintoi Voegelé, ainda não registrada no Brasil. Entretanto, não foi possível esclarecer a identidade específica com base no exemplar único.

T. bruni Nagaraja foi a espécie mais abundante e freqüente (Tabela 1), demonstrando preferência pelos insetos hospedeiros desse hábitat. Portanto, a alta freqüência dessa espécie pode ser atribuída à existência de um grande número de hospedeiros potenciais, pois no Horto de Tupi, ocorrem várias espécies de lagartas desfolhadoras de importância florestal, que são potenciais hospedeiros de Trichogramma, tais como, Glena sp., Oxydia vesuliata (Geometridae), Sarsina violascens (Lymantridae), Automeris amphirene, Dirphia sp., Eacles imperialis e Hylesia sp. (Saturniidae) (M.A.L. Bittencourt et al. não publicado). Essa diversidade de hospedeiros poderia explicar a variação morfológica observada em T. bruni (e. g. Querino & Zucchi 2002). Em razão dessas variações, a identificação de T. bruni foi confirmada por comparação com os exemplares da coleção da ESALQ e do estudo do holótipo (Universidade Federal de Minas Gerais).

Foram coletados também espécimes de T. pretiosum, espécie amplamente distribuída no Novo Mundo e freqüentemente coletada em ambientes agrícolas (Pinto 1999). No Brasil, está associada a 26 espécies de hospedeiros (Zucchi & Monteiro 1997). A ocorrência de T. pretiosum no Horto Florestal de Tupi (Tabela 1) pode ser explicada pelos extensos canaviais nas proximidades da reserva, além de outros plantios agrícolas, onde ocorrem hospedeiros dessa espécie. As demais espécies tiveram freqüências relativas inferiores a 2%, sugerindo que foram mais específicas em relação aos seus hospedeiros. As fêmeas são mais abundantes, freqüentes e constantes em todo o período de coleta em relação ao total de macho (Tabelas 1e 2). Contudo, não é possível a identificação específica de Trichogramma com base nos caracteres das fêmeas.

T. bruni e T. tupiense ocorreram em quase todos os meses (Tabela 2) e T. zucchii foi coletado somente nos meses de agosto e setembro. As demais espécies (T. acuminatum, T. alloeovirilia, T. pretiosum, T. parrai e T. pusillus) ocorreram esporadicamente. As espécies de Trichogramma ocorreram praticamente em todos os meses (Fig. 2) e o número de indivíduos coletados variou expressivamente, sendo os maiores índices registrados em outubro/1999, junho/2000, agosto/2000 e setembro/2000.


Houve maior diversidade de espécies e menor número de indivíduos por espécie, característica de ambientes estáveis, exceção a T. bruni. A comunidade estudada apresentou índice de Riqueza de Margalef (R = 1.65), índices de Diversidade de Shannon (H' = 0.89), de Simpson (l = 0.65) e a Equitabilidade (E1 = 0,39), portanto, o local amostrado do Horto Florestal de Tupi é um ambiente equilibrado em relação aos parasitóides coletados. Conseqüentemente, os ecossistemas florestais nativos apresentariam maior diversidade de espécies de Trichogramma, provavelmente em razão da maior diversidade de hospedeiros, com diferentes flutuações sazonais, que favorecem algumas espécies do parasitóide.

Dentre os fatores climáticos analisados (precipitação pluvial, temperatura e umidade), houve baixa correlação negativa entre o número de espécimes de Trichogramma coletados e a precipitação (r = -0,25 e P = 0,3942) e uma correlação positiva com a temperatura (P = 0.00001 e r = 0.9629). As demais correlações não foram estatisticamente significativas.

Embora a precipitação pluvial não tenha sido significativa, observou-se que quanto maior a precipitação, menor o número de espécimes de Trichogramma coletados (Fig. 3), provavelmente, em razão da menor ocorrência de hospedeiros e da própria eliminação dos parasitóides pela chuva. Em dezembro/1999, ocorreu a mais alta precipitação registrada para o período e conseqüentemente o menor número de espécimes coletados (apenas fêmeas).


Com armadilha de sucção foi possível coletar espécies de Trichogramma e conhecer sua época de ocorrência na reserva do Horto Floretal de Tupi. Esse método indireto de coleta permitiu, ainda, a captura de um número considerável de espécimes. Portanto, a armadilha de sucção elétrica (estacionária) pode ser utilizado na coleta de Trichogramma em áreas onde é difícil localizar ovos de hospedeiros.

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (FAPESP) pelo apoio financeiro. À CAPES, pela bolsa do programa PRODOC concedidas ao primeiro autor. À Direção do Horto Florestal de Tupi pelo apoio na execução do trabalho.

Literatura Citada

Received 30/04/03. Accepted 28/12/03.

  • LaSalle, J.1993. Parasitic Hymenoptera, biological control and biodiversity. In J. Lasalle & I.D. Gauld (eds.), Hymenoptera and biodiversity. Wallingford, CAB International, IOBC, 348p.
  • Luduwig, J.A. & J.F.Reynolds. 1988. Statistical ecology a primer on methods and computing. New York, John Wiley & Sons, 337p.
  • Monje, J.C.1995. Present significance of Trichogramma spp. (Hymenoptera: Trichogrammatidae) for the control of sugarcane borers in Americas. Mitt. Deuts. Gesells. Allgem. Angew. Entomol. 27: 287-290.
  • Pinto, J.D. 1999. Systematics of the North American species of Trichogramma Westwood (Hymenoptera: Trichogrammatidae). Washington, Entomological Society of Washington, 287p. (Memoirs, 22).
  • Querino, R.B. & R.A.Zucchi. 2002. Intraspecific variation in Trichogramma bruni Nagaraja, 1983 (Hymenoptera: Trichogrammatidae) associated with different hosts. Braz. J. Biol. 62: 665-679.
  • Querino, R.B. & R.A. Zucchi. 2003. Six new species of Trichogramma Westwood (Hymenoptera: Trichogrammatidae) from a Brazilian forest reserve. Zootaxa 134: 1-11.
  • Silveira Neto, S., O. Nakano & D. Barbin. 1976. Manual de ecologia dos insetos. São Paulo, Agronômica Ceres, 419p.
  • Zucchi, R.A. & R.C.Monteiro. 1997. O gênero Trichogramma na América do Sul. In J.R.P. Parra & R.A. Zucchi (eds.), Trichogramma e o controle biológico aplicado. Piracicaba, FEALQ, 324p.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Set 2004
  • Data do Fascículo
    Ago 2004

Histórico

  • Aceito
    28 Dez 2003
  • Recebido
    30 Abr 2003
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