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Neotropical Entomology

Print version ISSN 1519-566XOn-line version ISSN 1678-8052

Neotrop. entomol. vol.37 no.3 Londrina May/June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1519-566X2008000300015 

SCIENTIFIC NOTE

 

Primeiro registro de simuliidae (Diptera) com polinários de asclepiadoideae (Apocynaceae)

 

First record of simuliidae (Diptera) with pollinaria of asclepiadoideae (Apocynaceae) attached

 

 

Jansen F. MedeirosI; Alessandro RapiniII; Ulysses C. BarbosaI; Victor Py-DanielI; Pedro I.S. BragaIII

ILab. Etnoepidemiologia, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, C. postal 478, 69011-970, Manaus, AM jmedeiro@inpa.gov.br; ulysses@inpa.gov.br; pydaniel@inpa.gov.br
IIDepto. Ciências Biológicas, Univ. Estadual de Feira de Santana, BR 116, Av. Universitária s.n., 44031-460 Feira de Santana, BA; rapinibot@yahoo.com.br
IIILab. Genética, Univ. Federal do Amazonas, Av. Gen. Rodrigo Octávio Jordão Ramos, 3000, Coroado I 69077-000, Manaus, AM; pisbraga@ufam.edu.br

 

 


RESUMO

Polinários de duas espécies de Asclepiadoideae (Apocynaceae), possivelmente de Tassadia cf. martiana Decne. e T. cf. obovata Decne., foram observados pela primeira vez presos ao aparelho bucal de simulídeos [Cerqueirellum amazonicum (Goeldi), C. argentiscutum (Shelley & Luna Dias), C. oyapockense (Floch & Abonnenc) e Cerqueirellum sp.]. A frequência e distribuição dos insetos observados com polinários sugerem que esse tipo de evento não é casual. Os simulídeos devem buscar néctar nas flores de Asclepiadoideae, sendo capazes de remover seus polinários. Essa descoberta demonstra que os simulídeos não carregam apenas parasitas patogênicos, mas também polinários, e assim podem representar um grupo de polinizadores de espécies de Asclepiadoideae com flores pequenas.

Palavras-chave: Polinização, simulídeo, Tassadia, Amazônia


ABSTRACT

The presence of pollinaria of two species of Asclepiadoideae (Apocynaceae), possibly Tassadia cf. martiana Decne. and T. cf. obovata Decne., attached to the mouth parts of simulid black flies [Cerqueirellum amazonicum (Goeldi), C. argentiscutum (Shelley & Luna Dias), C. oyapockense (Floch & Abonnenc), and Cerqueirellum sp.] are reported for the first time. The frequency and distribution of simulids recorded with pollinaria suggest that removal of pollinaria by these flies is not casual. Simulids probably use nectar in flowers of Asclepiadoideae as source of sugar, being able to remove their pollinaria. This finding demonstrates that simulids are not only vector of pathogenic parasites, but also carry pollinaria, and thus may represent a group of pollinators for species of Asclepiadoideae with small flowers.

Key words: Pollination, black fly, Tassadia, Amazonia


 

 

Os simulídeos, conhecidos no Brasil como piuns e/ou borrachudos, além de incomodarem pelas picadas doloridas que podem causar sérias reações alérgicas, são insetos de importância médico-veterinária, principalmente relacionados à transmissão de filárias humanas: Onchocerca volvulus (Leuckart) e Mansonella ozzardi (Manson). Possuem ampla distribuição geográfica e mais de 1.750 espécies conhecidas (Crosskey & Howard 1997). Além disso, causam prejuízos econômicos em áreas rurais e turísticas de várias partes do mundo e por isso são freqüentemente alvo de controle (Araújo-Coutinho 1995, Petry et al. 2004).

Fêmeas de simulídeos adultos foram coletadas com capturadores manuais em áreas endêmicas de oncocercose e mansonelose, e estocadas em álcool 70%. No laboratório, foram identificadas e coradas com hematoxilina ácida. Posteriormente, foram divididas em três partes (cabeça, tórax e abdome) sobre três gotas de glicerina em uma lâmina para a retirada dos músculos utilizando microscópio estereoscópico. As lâminas foram observadas em microscópio óptico para estimar a taxa de infecção natural por filárias.

Durante as análises observamos a presença de polinários da subfamília Asclepiadoideae (família Apocynaceae) aderidos ao aparelho bucal de alguns exemplares de simulídeos coletados na região amazônica (Fig. 1). Os polínios são pendentes, característicos da tribo Asclepiadeae, e, a julgar pelo tamanho, forma e ocorrência, devem pertencer ao gênero Tassadia Decne., possivelmente T. cf. martiana Decne. e T. cf. obovata Decne. (Fontella-Pereira 1977). Os polinários foram encontrados em: Cerqueirellum argentiscutum (Shelley & Luna Dias), C. amazonicum (Goeldi), C. oyapockense (Floch & Abonnenc) e Cerqueirellum sp. em diferentes regiões da Amazônia (Tabela 1), sugerindo que a remoção de polinários de Tassadia por indivíduos de Cerqueirellum não é casual. As lâminas estão depositadas no Herbário do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

 


 

 

 

As Asclepiadoideae incluem cerca de 3.000 espécies (Meve 2002) e ocorrem em todos os continentes, com exceção da Antártica (Struwe et al. 1994). A subfamília destaca-se pela enorme diversidade morfológica e complexidade floral singular. Suas flores possuem o androceu e o gineceu pós-genitalmente fundidos, formando o ginostégio. O pólen fica reunido em polínios, que são transferidos através de polinários. Nas espécies do Novo Mundo, os polinários são compostos por dois polínios (cada qual proveniente de um estame) ligados entre si através de um translador composto por um retináculo e dois caudículos (Fig. 1C; Rapini 2001, 2004; Rapini et al. 2001). O translador é secretado entre as anteras, na porção apical do ginostégio. Sua formação é iniciada pelo retináculo, a partir do qual partem dois braços (os caudículos) em direção aos polínios (Kunze 1994). Quando seco, o retináculo assume consistência cartilaginosa, geralmente com um fenda longitudinal no centro.

A polinização é realizada principalmente por insetos, em especial Diptera, Hymenoptera, Lepidoptera, mas também por Coleoptera, Hemiptera, Heteroptera e Neuroptera (Meve & Liede 1994, Ollerton & Liede 1997, Ollerton et al. 2003), e até mesmo por aves (Pauw 1998). Ao visitarem as flores em busca de néctar, os insetos têm sua probóscide (ou pernas) guiada por tricomas ou pela corona até um trilho formado entre as anteras e de lá até a fenda formada no retináculo, onde se enroscam. Eles removem o polinário ao retraírem a probóscide ou deixarem as flores. A polinização ocorre quando, durante uma nova visita, esses insetos deixam um polínio ou mesmo o polinário inteiro no interior ou próximo a uma das cinco câmaras estigmáticas localizadas atrás das anteras (Kunze 1991).

Apesar do curioso mecanismo de polinização das Asclepiadoideae, pouco se sabe sobre seus polinizadores. Os trabalhos estão restritos basicamente à tribo paleotropical Stapelieae (ex. Meve & Liede 1994) e à subtribo Asclepiadinae (Asclepiadeae), principalmente às espécies norte-americanas do gênero Asclepias L. (Wyatt & Broyles 1994) ou, mais recentemente, algumas espécies africanas da subtribo (Ollerton et al. 2003). No Brasil, o único estudo com objetivo de determinar visitantes e polinizadores de Asclepiadoideae foi realizado em sete espécies de Oxypetalum R.Br. (Oxypetalinae, Asclepiadeae) de Minas Gerais (Vieira & Shepherd 1999), sendo observada a polinização por vespas e abelhas. Até o presente, 21 famílias de Diptera tinham sido registradas como visitantes florais de Asclepiadoideae: Anthomyiidae, Bibionidae, Bombyliidae, Calliphoridae, Chloropidae, Ceratopogonidae, Conopidae, Diopsidae, Drosophilidae, Empidae, Midasidae, Milichidae, Muscidae, Phoridae, Sarchophagidae, Sciaridae, Sepsidae, Stratiomyidae, Syrphidae, Tachinidae e Tephritidae (Meve & Liede 1994, Ollerton & Liede 1997, Ollerton et al. 2003). Este é o primeiro registro de polinários de Asclepiadoideae em Simuliidae, e um dos poucos com identificação dos visitantes até o nível de espécie.

Tassadia inclui 24 espécies, no norte da America do Sul, a maioria distribuída na Amazônia, mas algumas encontradas também no Planalto Central e na Mata Atlântica (Fontella-Pereira 1977). Apesar de morfologicamente semelhantes às subtribos Metastelmatinae e Orthosinae (Rapini 2002), parecem estar filogeneticamente mais relacionadas a Gonolobinae ou Oxypetalinae (Liede-Schumann et al. 2005), subtribos polinizadas predominantemente por Diptera (Ollerton & Liede 1997) e Hymenoptera (Vieira & Shepherd 1999), respectivamente. São trepadeiras com flores diminutas (1-4 mm comprimento), geralmente ocorrendo na beira de rios, locais que possivelmente servem de criadouros para simulídeos.

Essa descoberta mostra que as fêmeas de simulídeos não são apenas vetores de parasitas patogênicos, mas também transportam polinários de Asclepiadoideae. Os simulídeos devem encontrar no néctar dessas flores recursos complementares, diversificando sua dieta. Eles são capazes de carregar polinários e percorrer quilômetros de distância durante suas poucas semanas de vida (Coscarón 1991), podendo assim representar um importante vetor na polinização dessas plantas. A comprovação de que os simulídeos visitam flores de Asclepiadoideae amplia o conhecimento sobre a biologia desses insetos. Além disso, a confirmação de micromiofilia em Tassadia e grupos relacionados pode preencher uma lacuna importante no conhecimento da polinização das Asclepiadoideae do Novo Mundo, auxiliando futuros estudos sobre ecologia e evolução do sistema de polinização na subfamília.

 

Agradecimentos

Ao Dr. Felipe A.C. Pessoa e a MSc. Cláudia M. Ríos Velásquez CpqL&MD-FIOCRUZ/AMAZÔNIA, pela obtenção das imagens e montagem da prancha e ao Dr. José Eduardo L.S. Ribeiro Botânica/ INPA, pelas sugestões no manuscrito. AR é bolsista do CNPq (PQ2).

 

Referências

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Received 13/XII/06. Accepted 28/II/08.

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