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Neotropical Entomology

versão impressa ISSN 1519-566X

Neotrop. entomol. vol.39 no.4 Londrina jul./ago. 2010

https://doi.org/10.1590/S1519-566X2010000400029 

PUBLIC HEALTH

 

Disseminação de bactérias patogênicas por formigas (Hymenoptera: Formicidae) em dois hospitais do nordeste do Brasil

 

Pathogenic bacteria dissemination by ants (Hymenoptera: Formicidae) in two hospitals in northeast Brazil

 

 

Renato FontanaI; Rita M da C WetlerI; Renata S S AquinoI; João L AndrioliI; Guilherme R G QueirozI; Sônia L FerreiraII; Ivan C do NascimentoIII, IV; Jacques H C DelabieIII, V

IDepto de Ciências Biológicas. Univ Estadual de Santa Cruz (UESC), 45662-000 Ilhéus, BA, Brasil; rfontana@uesc.br
IIDepto de Ciências da Saúde. Univ Estadual de Santa Cruz (UESC), 45662-000 Ilhéus, BA, Brasil; soniamift@yahoo.com.br
IIILab de Mirmecologia, Convênio CEPLAC/UESC, Centro de Pesquisas do Cacau (CEPEC), CEPLAC, 45600-000 Itabuna, BA, Brasil
IVDepto de Ciências Biológicas, Univ Estadual do Sudoeste da Bahia, Avenida José Moreira Sobrinho, Jequiezinho, 45200-000 Jequié, BA, Brasil; icardoso@hotmail.com
VDepto de Ciências Agrárias e Ambientais, Univ Estadual de Santa Cruz, 45650-000 Ilhéus, BA, Brasil; delabie@cepec.gov.br, jacques.delabie@gmail.com

 

 


ABSTRACT

Nosocomial infections bring a high risk to the health of hospital patients and employees. Ants are common organisms in Brazilian hospitals, where they can act as dispersers of opportunistic microorganisms in places they forage. The occurrence of multi-resistant bacteria carried by ants was analyzed in two public hospitals (HA and HB) in southeastern Bahia, Brazil. In these two hospitals 132 workers belonging to three ant species were collected. The bacteria associated to these ants were identified and their susceptibility to antibiotics was evaluated. More than half (57.3%) of ants collected in HA were associated with some kind of bacteria, with 26.7% of them being opportunist bacteria, while 84,2% of the ants from HB presented associated bacteria growth, with 61.4% of them being opportunist bacteria. Twenty four species of bacteria were isolated. The Gram-positive bacilli of the genus Bacillus were the most frequent, followed by the Gram-positive cocci, Gram-negative bacilli (family Enterobacteriaceae) and Gram-negative non-fermenters bacilli. The profile of sensitivity of the bacterial isolates to drugs pointed out the existence of multi-resistant isolates carried by ants. For the first time, are reported cases of the same bacterial resistant isolates taken form homospecific ant workers that point out the importance of ants to bacteria dissemination and proliferation in a hospital. Our results suggest that the risk of contamination presented by these ants is similar to the one of any other mechanical vector of bacterial dissemination.

Key words: Nosocomial infection, public health, urban ant


 

 

O êxodo contínuo da população mundial rural e o consequente crescimento acelerado dos conglomerados urbanos provocacom frequência, a redução da qualidade sanitária das cidades, acompanhada da proliferação de vetores de inúmeras doenças. O papel de alguns desses vetores já é bem conhecido, como o dos ratos na propagação de zoonoses como a leptospirose e hantavirose, piolhos de Rickettsia spp., pulgas na transmissão de doenças como a peste bubônica e o tifo murino, e mosquitos na transmissão de inúmeras doenças de importância à saúde pública no Brasil, como a malária e a dengue.

A qualidade no atendimento nos hospitais dos centros urbanos sofre também com o problema do aumento de vetores. Diferentes autores vêm alertando sobre o papel específico de insetos no transporte de microrganismos associados a ambientes hospitalares e infecções nosocomiais (Fotedar et al 1991, Daniel et al 1994, Peçanha 2000, Fontana et al 2001). Entre os insetos, o papel das formigas nos hospitais vem sendo cada vez mais discutido (Fowler et al 1993, Bueno & Fowler 1994, Delabie et al 2002, Moreira et al 2005). Estima-se que existem 21.000 espécies de formigas no planeta, sendo que aproximadamente 12.500 já foram descritas, 3.000 no Brasil. Das espécies brasileiras, menos de duas dezenas podem ser consideradas pragas urbanas (Bueno & Campos-Farinha 1999). Na Bahia, há uma mirmecofauna especializada que vive nas habitações, da qual a maior parte das espécies é exótica (Delabie 1993, Delabie et al 1995). Apesar de causar incômodos, a ocorrência de formigas em residências é raramente considerada perigosa à saúde. Contudo, esses insetos podem se tornar perigosos para a saúde pública, atuando como vetores de agentes patogênicos, quando a infestação ocorre em hospitais (Beatson 1972, Eicheler 1978, Ipinza-Regala et al 1981, Fowler et al 1993).

Nos hospitais, as formigas podem estar associadas a vários tipos de incômodos como rejeição psicológica, irritações e lesões na pele, podendo, ainda, falsear resultados laboratoriais por passarem de uma placa de Petri a outra, resultando em diagnósticos equivocados. No entanto, um dos principais problemas de riscos à saúde é a possibilidade de as formigas veicularem microrganismos patogênicos (Eicheler 1990). Os resultados das pesquisas brasileiras sobre bactérias associadas às formigas, publicados até o momento, foram obtidos de coletas em estabelecimentos localizados em estados do Sudeste do país, ou seja, em São Paulo (Fowler et al 1993, Peçanha 2000, Cintra et al 2004, Pereira & Ueno 2008), Rio de Janeiro (Moreira et al 2005) e Minas Gerais (Rodovalho et al 2007).

O objetivo do presente estudo foi o de identificar as espécies de bactérias associadas às formigas encontradas em dois hospitais públicos do Sudeste da Bahia, assim como identificar a susceptibilidade das mesmas a diversos antibióticos, e estudar outros aspectos da ecologia da associação entre bactérias, formigas e o homem, uma vez que não existem dados sobre esses assuntos no Nordeste do Brasil.

 

Material e Métodos

Foram realizadas nove séries de coletas de formigas em um hospital público da cidade de Itabuna (HA) e seis séries de coletas em um hospital público da cidade de Ilhéus (HB), ambas localizados no Sudeste da Bahia, entre os anos de 2002 e 2003. Os setores coletados no HA foram: Pronto Socorro, Ambulatório da Quimioterapia, Laboratório de Análises Clínicas, Refeitório do Pronto Socorro, Setor de Hemodiálise (Sala de Enfermagem), Sala de Endoscopia, Apartamentos, Setor dos Leitos (Leitos 102 e 201) e no Almoxarifado. No HB os locais foram: Enfermaria de Oncologia, Leito hospitalar, Ambulatório, Posto de Enfermagem (Mesa de Distribuição de Medicamentos), UTI, Enfermaria Masculina e no Ambulatório de Quimioterapia.

As coletas foram realizadas durante o dia, e os locais de coleta foram escolhidos aleatoriamente. Deu-se preferência aos locais onde era possível observar formigas em atividade no ambiente. Quando não era possível achá-las, as coletas eram feitas com o auxílio de isca (recipiente com mel esterilizado), visando atrair as formigas. Nesse procedimento, foram coletadas apenas operárias que estavam indo de encontro à isca, e não as que estavam voltando do local onde a isca foi colocada.

As formigas foram retiradas do local onde se encontravam com o auxílio de uma folha de papel esterilizada e logo em seguida coletadas com o auxílio de uma pinça de ponta fina esterilizada. As operárias coletadas foram imediatamente individualizadas em tubos de ensaio contendo caldo Müeller-Hinton (MH) (HiMedia Laboratories®). A seguir, foi feita coleta com o auxílio de um swab (zaragatoa) estéril, no mesmo local onde as formigas foram coletadas. As zaragatoas foram colocadas individualmente em tubo com caldo MH. Os tubos foram devidamente identificados e levados ao Laboratório de Microbiologia da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

Os tubos contendo as formigas e as zaragatoas foram incubados a 35ºC por 24h e 48h. Após a incubação, uma alíquota de cada tubo contendo a formiga foi retirada e submetida ao plaqueamento por esgotamento nos meios de cultura de ágar-sangue 5%, agar-manitol e agar MacConkey (HiMedia Laboratories®); as placas foram incubadas a 35ºC durante 24h ou 48h. As colônias isoladas de microrganismos foram pré-caracterizadas pela observação de sua morfologia e, microscopicamente, pelo estudo da forma, arranjo e reação tintorial das células bacterianas à coloração de Gram. As formigas contidas nos tubos foram transferidas para recipientes de vidro com álcool etílico 70%, rotulados com os dados referentes à coleta, e enviadas ao Laboratório de Mirmecologia CEPEC/CEPLAC, onde foram identificadas e posteriormente depositadas.

As bactérias isoladas foram submetidas às seguintes provas visando sua identificação: cocos Gram-positivos foram submetidos à prova de catalase; entre eles, os que obtiveram resultado positivo e se apresentaram em cachos no exame microscópico foram submetidos à prova de coagulase em tubo (Silva 1999) e em lâmina (Staph Test da PROBAC®). Considerou-se Staphylococcus aureus as cepas de cocos Gram positivos, catalase e coagulase positivas. As cepas coagulase negativas ou duvidosas foram consideradas todas em um mesmo grupo: os Staphylococcus coagulase negativo (ECoN). Foi observado o tipo de hemólise em agar-sangue para os cocos Gram-positivos catalase negativo, que foram submetidos à prova da optoquina, bacitracina (Newprov®) e NaCl a 6,5%, para a identificação presuntiva das espécies de estreptococos.

Os bacilos Gram-negativos foram semeados em tubos com agar TSI (HiMedia Laboratories®). As bactérias fermentadoras de açúcares (enterobactérias) foram submetidas às seguintes provas bioquímicas: produção de gás a partir da fermentação da glicose; fermentação de glicose, sacarose e lactose; produção de H2S; capacidade de crescer em agar Citrato de Simmons (HiMedia Laboratories®); capacidade de desaminação da fenilalanina; produção de indol; motilidade em meio SIM (HiMedia Laboratories®); desaminação do triptofano; teste da urease; descarboxilação da lisina, ornitina e arginina; capacidade de utilizar o malonato como única fonte de carbono, e ao teste de Voges Proskauer e Vermelho de Metila (Koneman et al 2001).

As bactérias não fermentadoras de açúcares foram identificadas pelos seguintes testes: crescimento em agar MacConkey (HiMedia Laboratories®); prova da oxidase e pelo sistema Bactray I, II e III (DIFCO®).

O preparo dos meios e reagentes, bem como a interpretação dos resultados, seguem Koneman et al (2001). A determinação dos gêneros e espécies dos bacilos Gram-negativos não-fermentadores foi realizada segundo as normas previstas no sistema Bactray (DIFCO®).

Cepas de bactérias oportunistas isoladas, tanto de formigas, como do ambiente, foram submetidas ao antibiograma para verificação do perfil de susceptibilidade aos antibacterianos testados. O teste de sensibilidade às drogas (antibiograma) foi realizado pela técnica de difusão em placa, de acordo com Bauer et al (1966) e National Committee for Clinical Laboratory Standards (2000), utilizando-se agar Müeller-Hinton (HiMedia Laboratories®) e discos de antibióticos (Newprov®) para cocos Gram-positivos e bacilos Gram-negativos. Realizou-se a ressuspensão das bactérias em caldo Müeller-Hinton, o qual foi incubado durante 30 min a 120 min a 35ºC até a obtenção de turvação equivalente a 0,5 da escala MacFarland. A semeadura em placa de Müeller-Hinton foi realizada com o auxílio de uma zaragatoa umedecida no caldo contendo a bactéria em suspensão, espalhando-a por toda a extensão da placa. Os discos de antibióticos foram colocados sobre a superfície do agar MH utilizando-se pinça estéril. Para as cepas de S. aureus e ECoN, os discos dos antibióticos clindamicina e eritromicina foram colocados a 1,5 cm um do outro, para identificar o fenômeno de resistência induzida (Schreckenberger et al 2004). As placas foram incubadas a 35ºC por 24h. Os halos foram medidos com régua milimetrada e a interpretação dos resultados foi feita de acordo com as indicações do fabricante, definindo para a cepa a categoria resistente, intermediária ou sensível, como estabelecido pelo National Committee for Clinical Laboratory Standards (2000).

A análise de similaridade foi realizada comparando os microrganismos isolados das formigas e os isolados do ambiente do HA e HB, utilizando-se o programa Paleonthological Statistical (Past), versão 1.43 (Copyright Hammer and Harper 1999-2006, disponível em http://folk.uio.no/ohammer/past. Acesso em 02.06.2008).

A fim de estimar a diversidade bacteriana em ambos os hospitais, foram elaboradas as curvas de riqueza acumulada do número de espécies de bactérias e de cepas bacterianas identificadas em função do esforço de amostragem (número de indivíduos de formigas coletadas). Os dados de coleta, organizados sob a forma de matrizes, foram analisados com auxílio do programa EstimateS (Colwell 1997). Com o auxílio desse programa, utilizando uma randomização de 500 vezes, também foram obtidos os valores estimados da diversidade de bactérias e cepas para cada hospital, usando o estimador de diversidade Jackknife2.

 

Resultados

Foram coletadas 132 formigas nos dois hospitais estudados: 75 formigas do HA e 57 do HB, sendo identificadas Tapinoma melanocephalum (Fabricius) (n = 64), Paratrechina longicornis (Latreille) (37), Pheidole megacephala (Fabricius) (21) e Solenopsis globularia (Smith) (10) (Tabela 1). Entre as formigas coletadas no HA, 57,3% dos indivíduos apresentaram algum tipo de crescimento bacteriano e 26,7% apresentaram o crescimento de bactérias oportunistas patogênicas. No HB, 84,2% das formigas coletadas apresentaram algum tipo de crescimento bacteriano e 61,4% apresentaram crescimento de bactérias oportunistas patogênicas (Tabelas 1 e 2). Pheidole megacephala foi a espécie que apresentou a maior contaminação por bactérias (100%) no HA e a segunda maior no HB. Foi também a formiga que apresentou a maior contaminação por bactérias patogênicas nos dois hospitais (Tabelas 1 e 2). Paratrechina longicornis apresentou o maior índice de contaminação por bactérias e o segundo maior por bactérias oportunistas patogênicas do HB e, em 16 exemplares dessa formiga, foram encontradas duas espécies diferentes de bactérias (Tabelas 2 e 3). Em quatro operárias de T. melanocephalum foram encontradas duas espécies de bactérias; dos 21 indivíduos de Ph. megacephala, sete estavam contaminados com duas espécies de bactérias, enquanto 16 das 37 operárias de P. longicornis apresentavam-se infectados por duas espécies de bactérias (Tabelas 1 e 3).

Das cepas de estafilococos resistentes a clindamicina e a eritromicina isoladas das formigas, uma cepa de ECoN, isolada do HA, e duas cepas de S. aureus, isoladas do HB, apresentaram, em placa, o fenômeno de resistência induzida a clindamicina (forma D+). No HB, duas cepas de P. putida isoladas de dois indivíduos da espécie P. longicornis, ambas coletadas na Enfermaria Masculina, apresentaram o mesmo perfil de resistência aos antibióticos testados (Tabela 2). O mesmo foi observado para duas cepas de P. stutzieri isoladas de duas operárias de P. longicornis, uma coletada na Enfermaria Masculina e outra coletada no Posto de Enfermagem (mesa de distribuição de medicamentos) (Tabela 2).

A análise de similaridade comparou os microrganismos isolados das formigas e os isolados do ambiente do HA e HB (Tabela 4). O índice de similaridade entre todas as bactérias isoladas nos hospitais foi maior no Refeitório do Pronto Socorro, seguido pelo Ambulatório da Quimioterapia e pela UTI. Nesses casos, os índices de similaridade encontrados entre as espécies de bactérias isoladas das formigas e do ambiente foram superiores a 0,50 (Tabela 4). Quando analisado o índice de similaridade entre as bactérias patogênicas oportunistas isoladas das formigas e do ambiente, os maiores valores foram observados no Ambulatório de Quimioterapia, no Setor de Hemodiálise (Sala de enfermagem) e na UTI (Tabela 4).

A variação no número de espécies de bactérias e no número de cepas bacterianas encontradas em função do esforço de amostragem estão respectivamente ilustradas nas Figs 1 e 2. No Hospital A, a amostragem da diversidade de bactérias está próxima da exaustividade (oito espécies amostradas para 12 calculadas através do estimador Jackknife 2), enquanto o Hospital B é muito mais heterogêneo do ponto vista dessa diversidade, sendo os ambientes desse hospital muito mais contaminados (Fig 1) (21 espécies amostradas para uma estimativa de 40,6 espécies através de Jackknife 2). Os valores de bactérias patogênicas identificadas e estimadas ocorrendo nos dois hospitais se aproximam desses valores (respectivamente, sete e 10,9 para o Hospital A, e 20 e 30,9 para o Hospital B) enquanto o número de cepas bacterianas identificadas e estimadas fica sensivelmente acima desses valores (respectivamente, 21 e 62,2 para o Hospital A, e 36 e 100,3 para o Hospital B).

 

 

 

 

Discussão

A diversidade de formigas nos hospitais brasileiros é sempre alta, podendo variar de quatro (Moreira et al 2005) a 23 espécies (Delabie et al 2002). As espécies coletadas no presente estudo foram as mesmas relatadas como predominantes em hospitais de Ilhéus e Itabuna (Delabie et al 2002); porém, a mirmecofauna ativa durante a noite não foi amostrada.

O problema da ocorrência de formigas em ambientes hospitalares parece não ter atraído a atenção das autoridades sanitárias brasileiras até o momento. As evidências disponíveis (Bueno & Campos-Farinha 1999, Peçanha 2000, Cintra et al 2004) e as razões dessa afirmação são que: 1) há uma diversidade impressionante de formigas nos hospitais brasileiros; 2) algumas dessas espécies são extremamente abundantes nesse tipo de ambiente; 3) algumas espécies teriam certa "afinidade" por instrumentos cirúrgicos e material estéril (Eicheler 1990); e 4) as mesmas são vetores potenciais de uma grande quantidade de microrganismos oportunistas e/ou patogênicos ao ser humano, assim como apontado neste trabalho. O mesmo tem sido observado em outras localidades, chegando a 98,4% de formigas contaminadas (Peçanha 2000, Pereira & Ueno 2008). A probabilidade de um único indivíduo de formiga ser portador de microrganismo oportunista e/ou patogênico é provavelmente bastante baixa; no entanto, os índices encontrados no presente estudo (Tabelas 1, 2 e 3) mostram que a frequência de ocorrência de formigas nos hospitais multiplica essa probabilidade, corroborando os resultados apresentados por outros autores (Fowler et al 1993, 1995, Peçanha 2000, Moreira et al 2005, Pereira & Ueno 2008). O tipo de atividade desenvolvida por esses insetos e a frequência com que são encontrados dentro dos hospitais, fazem das formigas excelentes candidatos a vetores patogênicos intra-hospitalares, uma vez que até 30% da população adulta de uma colônia pode simultaneamente exercer atividades externas ao ninho, percorrendo longas distâncias, indo e voltando à colônia. É a primeira vez que estão sendo relatadas ocorrências de dois isolados da mesma cepa bacteriana amostrados de operárias da mesma espécie (sendo uma vez em locais diferentes do mesmo hospital). Apesar de merecer estudos mais aprofundados, esse resultado corrobora a suspeita que determinadas bactérias colonizam e se multiplicam no corpo de formigas vetor ou dos congêneres no próprio formigueiro, promovendo sua dispersão.

Traços anatômicos peculiares do exoesqueleto das formigas, como por exemplo: a ocorrência ou não de pelos no corpo, seu comprimento, a escultura da cutícula, o número, a qualidade e a distribuição das glândulas exócrinas, entre outros, poderiam explicar a adesão e a sobrevivência dos microrganismos em seu corpo. Outro fator a ser considerado seria a duração média da vida de uma operária, principalmente quando está forrageando, isto é, quando está em atividade fora da colônia. Fica difícil concluir no momento, mas é importante esclarecer que, para uma bactéria iniciar um ciclo de contaminação, ela necessita de dois elementos fundamentais: 1) aderir à superfície (pelos e esculturas contribuem, por exemplo, para aumentar a superfície do corpo); 2) encontrar condições adequadas para se multiplicar e colonizar, ou seja: nutrientes, umidade, temperatura, etc. A não ser a literatura relacionando a atividade antibiótica dos produtos da glândula metapleural nos Formicidae (Hölldobler & Wilson 1990), não existem estudos relacionando a complexidade da morfologia externa das formigas com o índice de contaminação apresentado por elas, e não há estudos que permitem inferir sobre a localização da parte do exoesqueleto desses insetos onde as bactérias ou as colônias de bactérias encontram condições de aderirem ou se desenvolverem. Assim, inexistem resultados conclusivos que permitam explicar a maior diversidade de bactérias associadas a Pheidole megacephala e Paratrechina longicornis encontrada neste estudo.

Entre as 24 espécies de bactérias isoladas das formigas coletadas nos hospitais, os principais grupos de bactérias patogênicas foram os cocos Gram-positivos e os bacilos Gram-negativos. Por exemplo, os ECoN são bactérias que colonizam a pele, fossas nasais e orofaringe dos humanos, sendo consideradas bactérias oportunistas de grande importância dentro de hospitais, principalmente pela sua capacidade de colonizar cateteres e sondas (Deighton & Beverley 1990, Stratton 2000, Arciola et al 2001). Staphylococcus aureus pode ser encontrado como parte da flora normal ou transitória do homem, sendo considerado um dos principais patógenos relacionados com infecções nosocomiais (Jensen et al 1999, Almeida et al 2007).

Os bacilos Gram-negativos (família Enterobacteriaceae) são também conhecidos como bacilos entéricos. Fazem parte da flora humana normal, assim como da de diversos animais, e são patógenos oportunistas de importância dentro e fora de hospitais, responsáveis por inúmeras doenças (Rodrigues 1997, Wiener et al 1999). Septicemias nosocomiais provocadas por esses microrganismos ocorrem frequentemente em pacientes entubados e submetidos a aspiração (Branger et al 1998). Entre os bacilos Gram-negativos não fermentadores isolados, P. aeruginosa é, de longe, o patógeno mais comum desse grupo de microrganismos (Debois et al 1975), comumente encontrado no ambiente, principalmente em lugares úmidos, assim como as outras espécies descritas anteriormente. As demais espécies desse grupo vêm recebendo especial atenção dos microbiologistas clínicos devido ao grande número de infecções hospitalares e alto grau de resistência aos antibióticos, atribuído às mesmas (Debois et al 1975, Bouvet & Grimont 1987, Rossello et al 1991, Melamed et al 2003).

Não se tem conhecimento de estudos detalhados sobre a flora microbiana de formigas. Contudo, acredita-se que a flora microbiana coloniza normalmente a superfície de seu corpo, assim como de muitos animais. Em seres humanos, os microrganismos que fazem parte da flora normal podem ser transitórios, mudando conforme o ambiente em que vivem. Nos insetos, é provável que haja uma flora característica normal, assim como uma flora transitória, que se modificam em função do ambiente onde o organismo vive. Como as formigas urbanas estão compartilhando o mesmo ambiente que os seres humanos, sua microbiota natural pode ter sido alterada por pressão seletiva, ocasionada pelos microrganismos associados aos humanos (por exemplo: S. aureus, ECoN, Streptococcus spp., Bacillus spp., bacilos entéricos), assim como, pelos microrganismos presentes no ambiente (ex.: Bacillus ssp. e bacilos não-fermentadores).

Qualquer que seja o hospital considerado, a diversidade de cepas bacterianas foi tão grande que sua quantificação (tanto a observada quanto a estimada) surgiu praticamente como uma simples correlação linear do esforço amostral. As estimativas apresentadas foram bem aquém da realidade, e os valores apresentados, no caso das cepas bacterianas, devem ser entendidos como uma estimativa muito baixa do potencial de contaminação real. Esses resultados apontam também para a grande diferença que existe na biota de microrganismos dos hospitais A e B.

É difícil dizer se parte dos microrganismos isolados é passível de prejudicar formigas ou seres humanos sadios. Contudo, uma vez que uma flora microbiana, rica em microrganismos oportunistas e/ou patogênicos, está ocorrendo junto a esses insetos dentro de hospitais, é certo que as formigas podem disseminar rapidamente essa microbiota por todo o ambiente hospitalar (Fowler et al 1995, Delabie et al 2002, Moreira et al 2005). Essas bactérias, a priori inofensivas para a pessoa sadia, podem causar infecções graves em pacientes internados, uma vez que os mesmos possuem o sistema imunológico frequentemente debilitado. O problema se agrava quando os microrganismos são multi-resistentes aos antibióticos, como foi o caso de muitas das cepas bacterianas identificadas neste estudo. Cepas de estafilococos resistentes a clindamicina e eritromicina isoladas das formigas apresentaram, em placa, o fenômeno de resistência induzida a clindamicina (forma D+).

A observação da contaminação bacteriana por formigas nos dois hospitais mostrou ser possível a comparação entre ambientes hospitalares distintos, de regiões diferentes, com trajetória ou finalidade não obrigatoriamente similar. As diferenças apontadas entre hospitais devem motivar maior empenho por parte dos responsáveis institucionais na busca de soluções para diminuir o problema de organismos disseminadores exógenos (como é o caso das formigas), assim como da biota multiresistente nas instituições que dirigem. O interesse maior das instituições de saúde pública é o de procurar o bem-estar de pacientes, o qual pode ser alcançado, parcialmente, pela diminuição das doenças nosocomais.

Além do problema das bactérias multiresistentes já evocado, o controle de formigas no ambiente hospitalar no Brasil é também uma tarefa difícil. No entanto, esforços estão sendo feitos (Bueno & Fowler 1994, Bueno & Bueno 2007). Apesar de muitos avanços terem sido alcançados nos últimos anos para o controle de formigas urbanas em geral, o conhecimento de sua biologia em ambientes não naturais ainda é insuficiente, principalmente quando são focalizadas as interações entre a espécie humana, a microbiota e a mirmecofauna. Novos estudos terão que ser realizados visando melhorar o conhecimento sobre a flora microbiana das formigas, assim sobre o comportamento dos microrganismos dentro dos ambientes colonizados e seus vetores.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem a: UESC/PROPP (002201100228), projetos CNPq e PRONEX-CNPq/FAPESB (158-03). JHCD é bolsista de produtividade do CNPq.

 

Referências

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Received 12/IX/08.
Accepted 14/IV/10.

 

 

Edited by Álvaro Eiras UFMG

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