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Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.12 no.2 Porto Alegre maio/ago. 2012  Epub 03-Jul-2020

https://doi.org/10.15448/1984-7289.2012.2.11917 

Apresentação

Ideologia e partidos políticos no Brasil

Ideology and political parties in Brazil

Gabriela da Silva Tarouco1 

Rafael Machado Madeira2 

1Ufpe

2PUCRS


Propor um número temático para um periódico acadêmico é sempre uma empreitada de risco: um tema que pode parecer muito inspirador para os organizadores de um dossiê pode eventualmente não encontrar repercussão na comunidade acadêmica. Felizmente não foi este o caso do dossiê Ideologia e partidos políticos no Brasil, que temos a satisfação de oferecer ao leitor da Revista Civitas. Vários colegas atenderam ao nosso chamado e nos permitiram reunir artigos que demonstram que o tema da ideologia dos partidos ainda ocupa agendas de pesquisa no Brasil. Este dossiê tem como principal fio condutor o(s) resultado(s) da costura entre estes que são dois dos principais temas da Ciência Política contemporânea: partidos políticos e ideologia. Os objetivos principais desta coletânea são: 1) apresentar pesquisas que analisam essa interação tomando o caso brasileiro como referência empírica; e 2) instigar o debate acadêmico acerca do impacto dessa relação em distintas esferas de atuação político-partidária e eleitoral – eleições, exercício de mandato em diferentes níveis, formulação de políticas públicas.

Embora sejam temas “consagrados” na disciplina, e sobre os quais existe vastíssima produção acadêmica, este exercício de articulação é plenamente justificável, por uma série de razões. Tanto ideologias, quanto partidos políticos passaram, nas últimas décadas, por transformações significativas nas democracias ocidentais. Tal fato ilustra a necessidade de constante atualização, seja da análise empírica, seja da consequente produção teórica sobre esses fenômenos em âmbito internacional e, particularmente, no caso brasileiro. Seria possível afirmar que o contexto atual – fim da polarização ideológica capital-trabalho, democracia do público, partidos cach-all e partidos cartel – atesta a dissociação entre ideologia e política partidária? Como mapear o enfraquecimento das “grandes ideologias” e o surgimento e inclusão de questões pós-materialistas na agenda político-partidária e eleitoral? Como articular fenômenos que se manifestam em todas as democracias ocidentais com as especificidades da história e trajetória político-partidária e eleitoral brasileira?

A tentativa de encontrar respostas a questões como estas foi elemento fundamental para que a convergência de interesses possibilitasse o início de uma trajetória que conta com quatro anos de trabalho em conjunto entre os organizadores deste número. Mas, o desafio de estudar esquerda e direita no sistema partidário brasileiro surgiu bem antes em nossas trajetórias individuais e se expressam, por exemplo, em nossas teses de doutoramento. Na banca de defesa da tese “Os Partidos e a Constituição” (2007),1 uma das críticas feitas foi a de que a mesma usava uma classificação ideológica dos partidos brasileiros tomada de outros autores, sem discuti-la ou questioná-la.

O reconhecimento da tarefa por fazer gerou uma primeira tentativa de completá-la, em uma análise de conteúdo dos programas dos partidos brasileiros a partir da escala ideológica do MRG – Manifestos Research Group. Os primeiros resultados eram frustrantes: aquela classificação definitivamente não se adequava ao caso do Brasil.2

Em julho de 2008, reunidos no Encontro da ABCP (Associação Brasileira de Ciência Política), na Unicamp, identificamos a afinidade entre as nossas agendas de pesquisa. Ficou evidente que a influência de ex-arenistas e ex-emedebistas no atual multipartidarismo brasileiro, desenvolvida na tese “Vinhos antigos em novas garrafas” (2006)3 era o que faltava para dar sentido a uma escala ideológica aplicável à análise dos partidos brasileiros. A combinação das duas abordagens nos pareceu muito promissora. No mesmo ano submetemos o projeto ao CNPq que aprovou o auxílio que nos permitiu desenvolver a pesquisa desde então durante dois anos e meio. Desde então, os organizadores vêm desenvolvendo o salutar exercício de dividir as preocupações, ansiedades e incertezas que, até então, carregavam individualmente.

A etapa seguinte, de adaptar a escala às especificidades brasileiras, foi relativamente bem sucedida. O primeiro passo foi identificar as conexões entre o atual sistema partidário e a herança do bipartidarismo do período autoritário. A clivagem esquerda e direita no Brasil foi então discutida a partir da análise qualitativa de elementos que indicam, no discurso dos programas partidários, a interpretação dos próprios partidos a respeito das suas relações com o regime militar e o fenômeno da chamada “direita envergonhada”. Este debate foi levado ao 5° Congresso da Alacip (Associação Latino-americana de Ciência Política), em 2010, e será retomado neste ano, no 8° Encontro da ABCP.

Assim, com a remoção de algumas categorias e acréscimo de outras, propusemos uma escala alternativa para as especificidades brasileiras, em que os testes iniciais, com os principais partidos tradicionalmente identificados com esquerda e direita (o PT e o PFL, respectivamente), produziram resultados mais razoáveis. As duas versões desta escala foram apresentadas e discutidas no XIV Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste, em 2009, e no XXVIII Congresso Internacional da Associação Latino-Americana de Sociologia, em 2011.

A validade da escala proposta foi testada através do cotejamento das classificações obtidas com o julgamento de especialistas, coletado através de um survey, aplicado entre participantes do 7° Encontro da ABCP, em 2010. A análise das respostas mostra pouca variação, ou seja, há pouca controvérsia tanto entre os cientistas políticos que atualmente estudam partidos quanto entre estes e a bibliografia em geral. Estas classificações correntes, por sua vez, se aproximam mais dos resultados obtidos com a nossa escala adaptada do que com os da escala original do MRG. Estes resultados serão apresentados no XV Ciso – Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste, em 2012.

A escala proposta para a dimensão esquerda-direita, entretanto, parecia não esgotar todos os aspectos da competição partidária, o que levou à tentativa de organizar algumas das categorias excluídas em uma nova escala, onde os partidos pudessem ser localizados quanto ao seu grau de conservadorismo ou liberalismo. Esta proposta foi discutida no 7° Encontro da ABCP, em 2010, e no XXVIII Congresso Internacional da Associação Latino-Americana de Sociologia, em 2011.

A complexidade da questão das definições ideológicas no Brasil e os debates gerados nos eventos em que os resultados parciais foram apresentados apontavam para a pertinência de ampliar a discussão acadêmica, o que foi oportunizado pela proposta de publicação deste Dossiê, aceita pela Revista Civitas. Esta iniciativa busca aproximar pesquisadores de diferentes instituições e com diversas orientações teóricas e metodológicas e articulá-los em torno de uma agenda de pesquisa de interesse comum.

No momento em que apresentamos este dossiê, comemoramos o que consideramos um resultado bem sucedido: a reunião de trabalhos bem diversificados aponta para a amplitude das aplicações da variável ideologia e indica o quanto é oportuno o esforço que propomos, de estreitar laços entre pesquisadores interessados no tema.

A relevância da ideologia fica evidente pela pluralidade de abordagens que caracteriza os artigos aqui presentes. Seja como tema de reflexão teórica, como no artigo de Guilherme Reis, seja como objeto de análise empírica, como nos demais, esquerda e direita estão no centro dos mais variados tipos de preocupações analíticas.

A diversidade de opções de mensuração indica a complexidade: Márcia Dias, Daiane Menezes e Geison Ferreira apostaram na atuação legislativa dos deputados estaduais como forma de captar a posição ideológica dos partidos. O uso da ideologia como variável explicativa – seja das posições acerca de direitos sociais, como no artigo de Samira Kauchakje, seja do desempenho eleitoral das coligações, como no artigo de Silvana Krause e Pedro Godoi – reforça a sua importância empírica e objetiva. As percepções do eleitorado a respeito da ideologia dos partidos, e especialmente sua variação, como mostra Maurício Rebello, são bons indicadores das movimentações dos partidos ao longo do eixo esquerda-direita.

Seja através da produção de pesquisas originais, seja através da leitura e crítica dos trabalhos já produzidos, quanto maior for o número de pessoas interessadas em somar esforços nesta área, mais gratificante se tornará o trabalho de investigação e maiores serão os seus frutos.

Enfim, o leitor interessado em conhecer perspectivas de estudo da ideologia e suas relações com os partidos encontrarão a seguir exemplos muito ricos.

Boa leitura.

1Autoria de Gabriela da Silva Tarouco.

2Esta primeira tentativa foi depois apresentada no Seminário Nacional de Ciência Política da Ufrgs e no 32° Encontro da Anpocs (Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), ambos em 2008.

3Autoria de Rafael Machado Madeira.

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