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Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.14 no.2 Porto Alegre maio/ago. 2014  Epub 15-Jun-2020

https://doi.org/10.15448/1984-7289.2014.2.17840 

Dossiê: Narrativas - teorias e métodos

“Isso, sim, é ser sociólogo!”: Uma entrevista narrativa com Fritz Schütze sobre a história de sua obra na sociologia

“This, indeed, is to be a sociologist!”: A narrative interview with Fritz Schütze on the story of his work in sociology

Michaela Köttig* 

Bettina Völter* 

*Michaela Köttig é doutora em Sociologia pela Universität Göttingen (Alemanha), Professora da Fachhochschule Frankfurt am Main, Alemanha, vice-presidente do RC 38 (Biografia e sociedade) da Associação Internacional de Sociologia (ISA) <koettig@fb4.fh-frankfurt.de>.

*Bettina Völter é doutora em Sociologia pela Technische Universität Berlin (Alemanha), professora na Alice Salomon Hochschule Berlin, Alemanha <voelter@ash-berlin.eu>.


Introdução

Fritz Schütze (nascido em 1944) é um dos mais importantes sociólogos da época pós-Segunda Guerra Mundial na Alemanha. Seu grande mérito consiste em ter contribuído decisivamente para desenvolver a sociologia interpretativa (com seus métodos de pesquisa qualitativos, reconstrutivos) naquele país. Ele é tido como a pessoa que introduziu e tornou útil a entrevista narrativa nas ciências sociais. Além disso, ele elaborou, junto com seu colega Gerhard Riemann, a análise de narrações como método de análise de entrevistas narrativas. Schütze pesquisou (em conjunto com o linguista Werner Kallmeyer) as estruturas da linguagem e do mundo da vida de textos e biografias. Descobriu nelas figuras básicas, como a curva do transcurso (inspirado pela descrição de “trajetórias” no cotidiano profissional proposta por Anselm Strauss). Também a descrição de fenômenos gerais como “estruturas processuais” em biografias e a descoberta de palavras típicas para a estruturação de exposições biográficas (“marcações suprassegmentais”) remontam a ele.

Uma inflamação da medula na infância e juventude, que durou muitos anos, fez com que, ao longo de nove anos, Fritz Schütze passasse muitos meses em hospitais. Ele mesmo descreve que seu interesse por questionamentos básicos da sociologia e etnologia está fundamentado nessa vivência.

Visto que a forma de lidar com essa doença da infância ainda não estava suficientemente pesquisada pela medicina, ele teve de vivenciar, como criança, erros médicos e, confuso, perceber dificuldades da ação profissional em tais situações problemáticas. Mas então um dos médicos começou a montar seu programa terapêutico (particularmente operações específicas das partes afetadas dos ossos) com base nas percepções físicas do jovem. Com esse procedimento, Fritz Schütze se sentiu levado a sério e, já como criança, convocado a se tornar um colaborador do médico. Através de sua cooperação com o jovem paciente, o médico conseguiu curar a doença de maneira exitosa. Provavelmente o interesse de Schütze pela ação profissional –sem que isso já tivesse acontecido num marco referencial quase sociológico– surgiu nessa época. Além da pesquisa teórica e metodológica do fenômeno da biografia, a ação profissional no contexto da assistência social e médica é um dos focos claros de sua obra sociológica.

Para Fritz Schütze, o aprendizado de autores literários, como, particularmente, Dostoievski, mas também Gogol, Kafka, Tolstoi e Charles Dickens, é especialmente importante. Ele leu as obras deles e outras obras da literatura mundial durante os longos períodos que passou no hospital. Ele chama os autores mencionados de “protossociólogos”, pois sua exposição acurada de situações do cotidiano, de dilemas e estruturas biográficos bem como, em parte, diálogos literais, reproduzidos como transcrições, elucida para o leitor e para a leitora o cerne de universos sociais.

A partir de 1964, Schütze estudou Sociologia, Linguística Geral (que incluía chinês clássico) e Filosofia na Universidade de Münster e concluiu sua formação, em 1972, com um doutorado em Sociologia sobre sociolinguística. Desde 1970, foi um colaborador próximo de Joachim Matthes, sociólogo do conhecimento e da religião, com o qual aprendeu a interpretação de textos e obteve um acesso particularmente intensivo à sociologia interpretativa estadunidense e também à sociologia europeia oriental. Seu estudo de sinologia aprofundou sua curiosidade de entender coisas estranhas e incompreensíveis e sua capacidade de traduzir conteúdos com sentido simbólico. A leitura detalhada de Alfred Schütz e George Herbert Mead constitui a base fenomenológica e interacionista de sua obra. Como muitos outros jovens sociólogos e sociólogas dos anos 1960 e 1970, Fritz Schütze foi decisivamente marcado pela longa recensão bibliográfica de Jürgen Habermas (1967[1984]) intitulada A lógica das ciências sociais, que continha a recepção, pela ciência alemã, da sociologia norte-americana atual na época. Junto com seus colegas já mais velhos e muito mais estabelecidos Kellner, Ulrich Oevermann e Richard Grathoff, Fritz Schütze convidou cientistas sociais e sociolinguistas estadunidenses como Erving Goffman, Harold Garfinkel, Harvey Sacks, John Gumperz e Anselm Strauss para irem à Alemanha participar de um intercâmbio científico. Uma reunião em Bielefeld foi seguida por uma reunião em Gottlieben, perto de Konstanz, e por outra em Konstanz. Todas as três reuniões de trabalho tiveram um efeito revolucionário para a sociologia interpretativa na Alemanha. Nesse contexto foram publicados, em 1973, os livros intitulados Alltagswissen, Interaktion und gesellschaftliche Wirklichkeit [Conhecimento do cotidiano, interação e realidade social], subdivididos em volume 1, Symbolischer Interaktionismus und Ethnomethodologie [Interacionismo simbólico e etnometodologia], e volume 2, Ethnotheorie [= Ethnoscience, kognitive Anthropologie] und Ethnographie des Sprechens [Etnoteoria (= etnociência, antropologia cognitiva) e etnografia da fala] (Arbeitsgruppe Bielefelder Soziologen, 1973[1981]). Eles contêm numerosas contribuições dos colegas estadunidenses traduzidas para o alemão que, atualmente, são tidas como clássicos da sociologia interpretativa.

Como muitas pessoas da geração dos que nasceram por volta do fim da Segunda Guerra Mundial, Fritz Schütze foi criado inicialmente por sua mãe, e só conheceu o pai quando este voltou da guerra, da qual participara como soldado, e voltou como um estranho para o filho. Schütze conta que essa circunstância acarretou repetidamente mal-entendidos e conflitos violentos entre ele e seu pai, que sofria com isso tanto quanto o próprio filho. Apesar das informações sobre os crimes da Alemanha nazista já então disponíveis na casa paterna e na escola, e de seu horror em relação a eles, seu pressuposto, durante muitos anos, tinha sido de que ele pessoalmente não tinha nada a ver com uma culpa alemã coletiva ou com a “identidade alemã” por ela marcada. Só em função de suas estadias mais longas como jovem cientista nos Estados Unidos da América, no final dos anos 1970 e em meados da década de 1980, em São Francisco e em Princeton, ele fez a experiência de que, como alemão, ele era obrigado a se confrontar, em seu próprio trabalho biográfico, com sua identidade coletiva, isto é, sua própria pertença pessoal a uma nação tão coberta de culpa. Disso também surgiu seu interesse sociológico pela Segunda Guerra Mundial e pelos mecanismos de aliciamento e estruturas de vinculação pessoal da época do nazismo – e pela análise de biografias de modo geral.

O processamento científico de suas experiências pessoais em hospitais por parte de Schütze, sua contribuição para um ensino participativo mediante o estabelecimento de oficinas de pesquisa e sua atuação como sociólogo são marcados pela amizade com Anselm e Fran Strauss. Ele e sua esposa Evi Schütze têm três filhas e, entrementes, vários netos e netas.

A entrevista com Fritz Schütze foi feita por nós, Michaela Köttig e Bettina Völter, no dia 21 de fevereiro de 2013, na residência dele em Söhrewald, no estado de Hessen.

Utilizamos deliberadamente o método da entrevista narrativa para dar tanto espaço quanto possível às recordações e narrativas complexas do sociólogo sobre sua trajetória científica. A conversa, que durou cerca de oito horas, é reproduzida aqui de maneira fortemente abreviada por razões de espaço. Ela foi, além disso, revisada linguisticamente. Mas o texto abaixo se orienta pela palavra falada e segue a sequência do que foi narrado. Fritz Schütze leu a primeira versão da transcrição e inseriu palavras explicativas em algumas passagens.

Nós, autoras, trabalhamos, entre outros, com base nos fundamentos que Fritz Schütze desenvolveu para a sociologia. Estamos familiarizadas com a obra de Schütze e sua veiculação pedagógica porque fomos participantes de suas oficinas de pesquisa na Universidade de Kassel e na Universidade Otto-von-Guericke em Magdeburgo. Ficamos profundamente impressionadas com o diálogo com ele. Agradecemos-lhe por seu tempo e sua confiança. Agradecemos a Jana Kuhnle pela transcrição paciente desta entrevista.

A entrevista

Num dia de inverno coberto de neve, estamos sentadas na sala de jantar da casa de Fritz Schütze, tomando chá à luz de velas, e lhe pedimos que nos conte a respeito da história de sua obra sociológica. Iniciamos a conversa com um estímulo narrativo típico da entrevista narrativa: “Gostaríamos de lhe pedir que você nos contasse um pouco a respeito de você mesmo e de sua história com a sociologia. … Tudo que lhe ocorrer … E mais tarde vamos fazer perguntas sobre o que você disser …” (1/9-14)1.

De modo igualmente bastante típico desse convite à narração tematicamente limitado, Fritz Schütze inicia sua exposição definindo seu ponto de partida e seu enquadramento:

Fritz Schütze: “Bem, nesse caso eu tenho que começar um pouco mais cedo. Eu diria que eu queria estudar sociologia, que me interessei por ela – na década de 1960, afinal, isso era um termo quase desconhecido – … isso certamente tem a ver com o fato de que passei grande parte da minha segunda década de vida no hospital. Aos 10 anos de idade, fiquei doente de uma inflamação da medula. E naquela época nem se sabia exatamente o que era isso. Conhecia-se isso no caso de homens adultos que tinham sido feridos na guerra, por causa das balas alojadas no osso, e então começava a se formar pus. Mas só mais tarde se ficou sabendo que essa também é uma doença que ocorre em crianças normais. A rigor, os médicos também deveriam ter sabido disso naquela época, mas não sabiam. Seja como for, então passei inicialmente uns dois anos no hospital …” (1/19-2/6).

Desenvolvimento do interesse por ações cotidianas e profissionais

Fritz Schütze explica sua trajetória científica com essa experiência em muitos sentidos dolorosa da doença quando criança, jovem e jovem adulto.

Fritz Schütze: “… Percebi relativamente cedo que os médicos cometiam erros. Esse tema, que me fascina ainda hoje, os erros cometidos no trabalho –mistakes at work, para citar Everett Hughes, o importante sociólogo de Chicago–, isso era para mim, na época, uma coisa ameaçadora. … Naquela época, eles fizeram uma operação no osso da coxa, mas operaram de maneira tão violenta que o osso nem ficou mais estável. E também não colocaram o gesso de forma tecnicamente correta. Então eu disse a eles: ‘A perna está quebrada debaixo do gesso’. E aí eles riram. E sempre vinham o médico-superintendente e o médico-chefe e uma comitiva de pessoas, e eles conversavam entre si e usavam termos latinos, que eu naturalmente não entendia. … Afinal, eu tinha acabado de entrar na 5ª série. Eles não acreditaram no que eu disse. Mas quando o gesso foi tirado, deu para ver que o osso estava quebrado e tinha crescido errado. … E aí tiveram que quebrá-lo de novo e arrumá-lo de novo …” (2/21-3/11).

“A situação toda foi difícil, porque fiquei meio ano nesse hospital. Vocês nem conseguem mais imaginar algo assim hoje em dia. Os pais tinham permissão para ver os filhos duas vezes por semana através de uma janelinha, a uma distância de 50 a 100 metros, e também não podiam entrar. … Isso me deixou superaflito, porque eu era muito apegado à minha mãe. Então ela também me escrevia uma carta todo dia e tinha grandes problemas para me conseguir material de leitura. …” (3/21-31).

“Acontece que eu tinha uma infinidade de tempo e então comecei, bem cedo, a ler o que se costuma chamar de literatura de adultos (ri). Nem havia tantos livros infantis assim … Essa foi a época em que Pasternak ganhou o Nobel de literatura. Isso quer dizer que no rádio se lia Doutor Jivago em voz alta. Eu tinha enjambrado um dispositivo que fazia com que, sempre que eu estava em casa e os meus pais entravam à noite, o rádio era desligado automaticamente … Eu fiquei fascinado com a literatura russa, onde … existem esses romances incrivelmente longos. Li tudo de Tolstoi, e Dostoievski sempre foi e também permaneceu especialmente fascinante. O que ele descreve, assim, em seus romances é, no fundo, uma espécie de material que pode fazer da gente um sociólogo. Isso me deixou completamente fascinado, e mais tarde também Gogol, que eu achei muito legal. As almas mortas (ri) e como o cara anda de lá para cá e lida com gente morta (ri). … E esse tipo de coisa eu achei fascinante. … Mais tarde, então, vieram, além disso, Honoré de Balzac e Emile Zola e eles também faziam observações empíricas e chegavam inclusive a fazer pesquisas sistemáticas, e Jane Austen, George Eliot e Charles Dickens faziam exatamente a mesma coisa. Eles eram, por assim dizer, protossociólogos. Durante o longo tempo que passei no hospital, eu nem conhecia o termo ‘sociologia’. Naquela época, naturalmente eu também não sabia que em Chicago William Thomas até tinha desafiado seus alunos a ler esses autores mencionados como protossociólogos ou pré-sociólogos” (6/22-8/20).

A descoberta e apropriação da sociologia

Fritz Schütze: “Quando, em 1963, a gente se inscrevia para o exame de conclusão do ensino médio ou vestibular, era preciso fazer um requerimento solicitando autorização para prestar esse exame. Para isso a gente tinha que redigir um curriculum vitae. Nele também precisava constar o que a gente queria ser. E aí eu escrevi “sociólogo”. Não tenho mais condições de dizer a vocês como topei com esse termo, mas está inteiramente claro que isso vem do contexto da leitura de Dostoievski e então Kafka, naturalmente, onde existem fenômenos semelhantes. … (Mas naquela época) eu sempre tinha que explicar o que, afinal, é isso (a sociologia) …” (9/22-29).

“Então fui para Münster. Afinal, essa era uma das principais instituições de formação na área da Sociologia. … E como disciplinas secundárias eu ainda tinha Filosofia e História. … Acabei desistindo da História e, em lugar dela, optei por Sinologia como disciplina secundária. … E então, mais tarde, fiz o exame em Linguística Geral. … Tive acesso relativamente cedo à pesquisa institucional, porque já no segundo ou terceiro semestre eu estava trabalhando com Joachim Matthes, que se ocupava com a sociologia da religião. E eu, como bolsista dele, também tinha que me ocupar com isso. … O núcleo de pesquisa social da Universidade de Münster em Dortmund … ficava em frente ao famoso estádio de futebol de Dortmund chamado ‘Arena Terra Vermelha’ … e os jovens sentavam todos lá embaixo no porão e tinham que ler para Matthes todos esses textos e documentos sobre sociologia da religião e sociologia da igreja. Já bem cedo (nós tivemos que) lidar com textos bastante difíceis para nós, como As formas elementares da vida religiosa, de Durkheim (2007), com os trabalhos de Max Weber sobre a sociologia da religião e com as estatísticas morais do século 19. … Em última análise, já foi aí, por meio do trabalho com Joachim Matthes, que a coisa começou, que passei a pensar sobre como se podem estudar fenômenos não facilmente apreensíveis referentes ao conhecimento e à convicção (ri). …” (10/1-14/13).

“Bem, e foi aí que começou, que tomamos conhecimento dessas novas abordagens estadunidenses. … Era uma coisa nova, a análise de conversas, que foi fundada por Harvey Sacks, o discípulo de Garfinkel. Naturalmente também os textos de Goffman e de Anselm Strauss, que no início, porém, não teve tanta importância assim para mim. E aí havia esse texto de Habermas, A lógica das ciências sociais, que no fundo era uma espécie de recensão geral, sistematizada e muito bem desenvolvida, de todas essas novas abordagens, especialmente estadunidenses, com um pouco de literatura francesa também, mas não muito. É claro que nós lemos tudo isso atentamente. Gente como Alfred Schütz e Garfinkel, a rigor, eu já conhecia bem a partir dos textos. … Depois havia uma espécie de contexto de comunicação: Hansfried Kellner, Thomas Luckmann mais à margem, … e eu também tinha contato mais frequente com Ulrich Oevermann e Richard Grathoff. Richard Grathoff, um discípulo de Thomas Luckmann que se destacou com importantes trabalhos fenomenológico-sociológicos, tinha a vantagem de ter passado muito tempo nos Estados Unidos e conhecer pessoalmente todos os sociólogos e antropólogos interpretativos importantes, e era particularmente amigo de Anselm Strauss. E aí nós dissemos: ‘Então, agora temos que tentar, nessa linha desenvolvida aí por Habermas, trazer esse pessoal para cá.’ É então que foi fundado, naquela época, o centro de pesquisa interdisciplinar de Bielefeld, que hoje em dia é conhecido no mundo inteiro. Depois que isso foi fundado, essa foi assim a primeira conferência internacional, para a qual todas essas pessoas vieram à Alemanha. … Isso foi mais ou menos no começo … e levou algum tempo até que também os estadunidenses ficassem interessados em vir para cá, para a Europa e talvez também para a Alemanha. E depois houve uma segunda conferência em Gottlieben. Gottlieben é uma maravilhosa pousada medieval no Seerhein, na Suíça, talvez uns 10 quilômetros ao norte de Konstanz. E depois houve mais uma outra conferência em Konstanz mesmo, onde, então, apareceram todos os nomes conhecidos. Em Konstanz, tive a oportunidade de conhecer Anselm Strauss e Fran Strauss, esposa dele. Então tentamos trabalhar de maneira prática com essas abordagens (cf. Arbeitsgruppe Bielefelder Soziologen, 1976).

Eu tinha ainda um outro contato muito importante com o linguista Werner Kallmeyer, e isso se deu, naturalmente –em termos de uma receptividade especial para os interesses, na época dinâmicos, da linguística alemã pela língua falada e por formas de conversação– em função do meu estudo da Linguística. E, naquela época, nós já tínhamos em Bielefeld algo que se poderia chamar de oficina de pesquisa, com um seminário às sextas à tarde. Acho que começava à 2 horas. E durava tanto tempo quanto fosse necessário para analisar um texto concreto ou enfronhar-se numa tendência de análise. Os alunos também participavam dele com grande prazer. Eles realmente ficavam até as 6 da tarde e, às vezes, até mais tarde. E todo o mundo que tinha uma certa fama ia lá. Lá falaram sociolinguistas, fossem eles linguistas ou sociólogos. Convidamos todos eles. E todos foram lá sem cobrar nada.

Werner Kallmeyer e eu dominávamos bastante bem o que hoje em dia se chama de análise de conversação. Aí saiu também um artigo inicial dele e meu sobre a análise de conversação (Kallmeyer e Schütze, 1976), e depois também um outro sobre esquemas de comunicação da exposição de estados de coisas (Kallmeyer e Schütze, 1977), e ainda um pequeno sobre postulados da interação (Kallmeyer e Schütze, 1975), do qual nunca se tomou conhecimento. Mais tarde ainda um texto sobre Dostoievski, um pouco mais tarde sobre Kafka, Dostoievski e Handke e Tolkien (Schütze, 1980). A gente dominava isso. … Na década de 1970, me ocupei muito com processos envolvendo pessoas que se recusavam a prestar serviço militar e também frequentava o tribunal em função disso e fui jogado para fora com frequência, porque os gravadores ainda eram muito grandes e os juízes naturalmente viam isso. Um pouco mais tarde, então, surgiu o primeiro proto-walkman. Aquele Sony TC 55 não era tão leve quanto um walkman, e certamente pesava um quilograma. Eu tinha três desses presos ao meu corpo, e eles eram tão pesados (ri). Então, no fim de uma fita cassete a tampa sempre saltava, fazendo barulho. E as fitas dos gravadores, as mais longas tinham 1 hora de duração, elas se emaranhavam. … Então de alguma forma a gente tinha que deslindar isso mais tarde manualmente. Eu não fui só a processos contra objetores de consciência, mas também a processos judiciais normais. E muitas vezes eu era expulso do recinto de tribunais, o que é um escândalo, porque processos judiciais via de regra são públicos – a rigor. Na década de 1950, os secretários de justiça estaduais tinham introduzido a regra de que, como integrante do público, não se podem fazer gravações eletrônicas na sala de audiências, para excluir a imprensa sensacionalista. Então escrevi a todos os secretários de justiça, e eles sempre recusavam meu pedido de fazer gravações. … Em todo caso, em 1968 escrevi um texto longo sobre os processos que tratavam da recusa de prestação do serviço militar (Schütze, 1978). … Considero esse trabalho ainda hoje convincente no tocante ao tema da comunicação coerciva. … E, nesse sentido, essa importação dos Estados Unidos foi bem-sucedida. Nosso trabalho mostrou que também é possível pesquisar de modo qualitativo-reconstrutivo fenômenos sociais mais complexos e sua cristalização em processos de comunicação. Isso também não foram só conversações pequenas, mas também coisas maiores, como falar no marco de processos judiciais.”

O desenvolvimento da entrevista narrativa e da análise de narrações

Fritz Schütze: “… No fundo, essa ideia da entrevista narrativa já estava pré-formulada na minha tese de doutorado – e também que eu queria observar o desenvolvimento de identidades. Agora eu queria fazer isso de uma maneira atual e pensei em pesquisar as fusões de municípios que naquela época, início dos anos 1970 … estavam acontecendo em toda parte nos estados setentrionais da Alemanha. E então fizemos isso, em três comunidades que tinham se tornado um município. … Mas simplesmente não havia qualquer concepção de como se avaliam essas entrevistas narrativas agora. … Que se devessem fazer algo assim como entrevistas narrativas já está tudo contido na minha tese, mas como a gente realiza essa entrevista de modo prudente e o que se faz com isso concretamente no processo de análise, isso não estava claro para nós. Neste caso agora, especialmente, para Gerhard Riemann, Günther Robert, Thomas Reim e para mim. Eu achava que, bem, eu domino a análise de conversação e com ela, de alguma maneira, a gente deve conseguir fazer isso. E assim nós tentamos, então, fazer isso … Meu grande problema era … que aquilo que eles nos contavam não era simplesmente agora uma história coletiva de transformação, mas aquilo que os atores da política municipal contavam tinha características autobiográficas muito fortes: que o prefeito teve um infarto … e só um podia ser prefeito. Outros não sabiam como se ia lidar agora com as finanças comuns das comunidades que formaram o novo município. Alguns políticos municipais até foram parar na cadeia, porque de repente tudo ficou tão difuso, sem regras, e então não se lidou de forma cuidadosa com as finanças. Havia destinos pessoais, que foram contados autobiograficamente pelos políticos municipais na entrevista, e, como sociólogo verdadeiro, ‘normal’, para o qual elementos biográficos só eram algo individual, portanto nada coletivo sociologicamente relevante, eu simplesmente não estava preparado para esse fenômeno. De início, eu simplesmente não queria ter nada a ver com essas autoapresentações autobiográficas individuais (ri).

Eu também não faço parte daqueles que, algum tempo mais tarde, fundaram esse Research Committee on Biography and Society [Comitê de Pesquisa sobre Biografia e Sociedade] ou também o respectivo grupo de trabalho alemão e, mais tarde, a seção ‘Pesquisa de Biografias’ na Sociedade Alemã de Sociologia, onde Gabriele Rosenthal e Wolfram Fischer atuaram de modo decisivamente produtivo; de início eu não tive nada a ver com isso. Eu tinha ajudado a fundar a seção Sociologia da Linguagem, que agora se chama ‘Sociologia do Conhecimento’ … Mas agora havia nas transcrições dessas entrevistas com políticos municipais fenômenos biográficos desconcertantes, e porque eles estavam entretecidos nas histórias coletivas das fusões, ao que tudo indicava, eram relevantes nelas, a gente também precisava se confrontar analiticamente com eles. … Bem, na análise de conversas entrementes nós tínhamos sido bem-sucedidos. A gente conseguia analisar, assim, coisas, e aí pensamos que, de alguma maneira, a gente também tinha que conseguir analisar textos autobiográficos. Mas não havia uma noção do que são, a rigor, estruturas biográficas em sentido mais restrito. E aí eu pensei, já que obviamente essas entrevistas sobre fusões de municípios contêm componentes autobiográficos importantes, seria preciso ver como é, afinal, um texto narrativo autobiográfico ‘puro’, não direcionado para uma temática coletiva inicial, que seria produzido decididamente como autobiografia de maneira espontânea na entrevista narrativa. Provavelmente isso vai parecer bem estranho a vocês, mas nós não sabíamos se é possível que alguém simplesmente conte sua história de vida assim, ad hoc, num improviso oral. E então Gerhard Riemann, Günther Robert, Thomas Reim e eu tivemos longos debates sobre se isso é possível ou não (ri). Aí eu pensei: ‘Pois bem, temos que experimentar isso’. E perguntei a amigos: ‘Vocês conhecem pessoas que acham interessantes? Gostaria que elas me contassem a sua história de vida.’ Verificou-se que isso funciona às mil maravilhas. … Sempre fizemos tudo em dupla. Hoje em dia eu não considero isso mais tão necessário. Existem situações em que é bom entrevistar junto com mais uma ou duas pessoas, mas, fundamentalmente, isso não é necessário. Naquela época nós ainda não tínhamos certeza nesse sentido. … Então eu consegui esses materiais. E então descobri, de modo geral, as estruturas processuais da trajetória de vida (como esquemas de ação biográfica, curvas do transcurso daquilo que se sofreu ou trajetórias, padrões de expectativa institucional, como carreiras e processos de mudança). Para isso, de início, naturalmente, tive de encontrar empiricamente as estruturas formais das marcações suprassegmentais, que são a expressão formal empiricamente confiável das estruturas processuais da trajetória de vida. Esta é certamente minha verdadeira descoberta no marco da análise de biografias (Schütze, 2008). Isso aconteceu, em grande parte, em São Francisco, onde trabalhei junto com Anselm Strauss em 1978-1979. Em 1959, Anselm tinha publicado o estudo teórico sobre análise de biografias intitulado Mirrors and masks (1997[1959]), e mais tarde se acrescentaram ainda a ele os trabalhos empíricos de análise de profissões sobre os cuidados e ações dos médicos, que se ocupavam com a mitigação das curvas do transcurso do sofrimento dos pacientes. Mais tarde, ele também se ocupou com o trabalho biográfico dos pacientes (Strauss e Glaser, 1970; Strauss et al., 1985; Corbin e Strauss, 1988). Os diálogos com Anselm Strauss me ajudaram muito a aprofundar meu olhar na análise de processos e a estabelecer as relações sistemáticas entre fenômenos linguísticos formais, como os marcadores suprassegmentais, e as estruturas processuais de conteúdo, como os biográficos. Mais tarde, por ocasião de muitas outras visitas a São Francisco, Anselm foi importante para estender o olhar na análise de biografias para fenômenos coletivos (cf. Strauss, 1993, cap. 6, 9, 10). … De resto, também discuti as reflexões básicas sobre análise de narrativas com Harvey Sacks, o grande fundador da análise da conversação. Ele também era um pesquisador muito competente de narrações. Gostava de analisar piadas, mas também outras formas de narrativas, e achou interessantes as reflexões sobre os lances obrigatórios na narração. Mas também as minhas reflexões sobre a análise de narrações foram algo … que nunca foi realmente aceito dentro da análise da conversação ortodoxa, que seja possível fazer algo assim e que isso seja sólido. Isso me chateou bastante” (23/17-28/33).

“Acho que a análise de biografias se desenvolveu fantasticamente junto com o instrumento dessas entrevistas autobiográficas, com estratégias de avaliação de fato parcialmente distintas. Mas, de modo geral, vejo isso como uma grande unidade, onde se alcançou muito progresso. Aqui na Alemanha certamente muito mais do que em muitos outros países, mas de modo semelhante como na Polônia. Ainda acho um pouco difícil o fato de que alguns cientistas sociais estadunidenses atuais –diferentemente dos clássicos da sociologia interpretativa estadunidense– tendem repetidamente a crer que tudo o que não foi escrito originalmente em inglês simplesmente não existe no mundo ou, na verdade, não tem valor de uma descoberta originária. Mas creio que, no tocante à base metodológica e à teoria fundamental da análise de biografias, nós, grosso modo, estamos mais desenvolvidos do que os colegas estadunidenses. … Onde eu ainda vejo atualmente necessidade de um maior esclarecimento é a relação entre, por um lado, a biografia com os métodos que se desenvolveram e, por outro lado, os grandes discursos e os respectivos métodos de análise de discursos” (30/25-31/37).

“… Acho especialmente legal o fato de ter estabelecido uma relação estreita com a ação profissional, de ter tido essas possibilidades na Universidade de Kassel.2 Esse era um departamento muito liberal e estimulante, onde eu pude justamente me ocupar com o Serviço Social. Em minha opinião, o Serviço Social tem a mais diferenciada e refletida posição sobre a profissão e suas dificuldades de ação na prática do trabalho em geral. Talvez isso pareça um pouco estranho. Mas … eu acho fantástico poder conversar com assistentes sociais sobre suas dificuldades persistentes no trabalho e, como sociólogo, poder examinar isso de perto e refletir junto com eles sobre isso. … Entre sociólogos qualitativos como eu existe efetivamente uma vontade muito forte de aplicação concreta. … Em idade avançada eu ainda dei aulas de sociologia em que não parti de enfoques de teorias sociológicas, mas de problemas de aplicação nas mais diversas formas de prática de trabalho, onde cientistas sociais foram incluídos e então desenvolveram algo para dar conta dos problemas do trabalho, começando com Friedrich Engels, A situação da classe trabalhadora. … Outro exemplo clássico é o estudo do filho de Erik Erikson, Kai Erikson (1976), sobre o rompimento do dique no Buffalo Creek, nos Apalaches, onde ele compareceu ao tribunal como perito. Um sociólogo como perito num tribunal, e disso resultou uma fantástica história sobre um desastre. Mas não existe na sociologia um número tão grande assim de estudos de aplicação referentes à prática de trabalho. E é exatamente isso que eu admiro no serviço social, onde essas referências à ação são constantes. Acho que a pesquisa social qualitativa só conseguirá realmente manter o ritmo se puder analisar tudo o que vier em termos de problemas das profissões (Schütze, 2000; 2013). …

De modo geral, é aí que eu veria o arco que percorri. Embora isso tenha começado com muita ingenuidade, mas, voltando a Dostoievski e gente assim, aí também já estavam em pauta, bem concretamente, problemas de casos específicos. E aí eu sempre tinha a sensação de que tinha de chegar lá de novo. Nesse sentido, Kassel foi para mim um grande golpe de sorte, aos meus olhos. Essa foi a primeira docência de pesquisa qualitativa na Alemanha. … É trágico que, a uma certa altura, a sociologia e o serviço social tenham se cindido, que isso tenha acontecido a uma certa altura e os sociólogos, por assim dizer, tenham sido privados de sua profissão” (34/2-35/35).

Neste ponto termina a apresentação inicial autoestruturada. Ou, usando as palavras de Fritz Schütze: termina a narrativa espontânea com um marcador final, que introduz o ato de passar a palavra adiante e, neste caso, também a fase das perguntas subsequentes. No início da fase das perguntas subsequentes, as entrevistadoras voltam deliberadamente ao início da entrevista. Os temas abordados são retomados agora, um após o outro. Pergunta-se narrativamente sobre cada um dos temas. A transição da apresentação inicial para a parte das perguntas subsequentes ocorreu da seguinte maneira na entrevista com Fritz Schütze:

Fritz Schütze: “Bem…”

Michaela Köttig: “Hm, muito obrigada, então.”

Bettina Völter: “Sim, agradeço também. Foi bem legal que você tenha parado agora mais uma vez na sociologia e no serviço social. Mas você iniciou sua narrativa com a sociologia. É por aí que eu gostaria de começar. Afinal, você disse bem no início que na época em que seu espírito despertou ou quando você tendeu a escolher uma profissão ou um curso universitário, a sociologia ainda era inteiramente desconhecida. Será que você poderia falar mais um pouquinho sobre isso?”

Anseio pelo estranho e pelo estrangeiro

Fritz Schütze: “Portanto, eu comecei meu estudo universitário em 1964. Naquela época havia livros, como o de Helmut Schelsky, Die skeptische Generation,3 que eram discutidos na época. E eu devo ter me dado conta de algo assim. Mas não tenho condições de lhe dizer como essa palavra, ‘sociologia’, me ocorreu. Só sei que a maioria das pessoas não conhecia isso e eu tinha de explicá-la o tempo todo. Talvez eu tivesse preferido estudar Etnologia (ri). … Talvez isso também tenha a ver com o fato de eu ter estado sempre no hospital, mais de cinco anos, no total. Eu tinha assim um anseio pelo estrangeiro, por ver algo diferente, para variar. Para mim também havia um certo pesar nisso. Eu teria gostado muito de ser fluente em línguas estrangeiras modernas. … A única matéria da qual eu tinha muito medo na escola era Inglês. Quando eu voltava para a sala de aula e abria a boca, eu não sabia como isso era pronunciado, e então todos riam, não maldosamente, mas ainda assim eu não sabia falar. … Sim, e Latim foi o que me salvou na minha trajetória escolar. Isso a gente também podia fazer quando estava deitado na cama e, quando a gente voltava, ainda podia ser bom nisso” (36/16-39/8).

“Eu só conseguia ler, uma biografia e algo assim. … Também me imaginar como as coisas eram no passado, sair da situação limitada. Sendo que no meu caso essa situação limitada deve ser entendida bem concretamente, porque eu estava na cama a maior parte do tempo. … O que naturalmente foi legal para mim, na idade de 15, 16 anos, quando eu podia me movimentar um pouco mais e fui, junto com um amigo, de carona para a Grã-Bretanha. Em Londres, dormi num banco de praça no Hyde Park, e às 3 da manhã a polícia vem e acorda você. Coisa maluca. E ficar a semana toda zanzando por lá, isso foi uma coisa estupenda para mim, porque, afinal, eu não tive uma juventude inteiramente normal. E uma parte importante disso, naturalmente, era viajar, ir para um lugar diferente. … Eu ainda também posso acrescentar, para mim também era importante, esse, digamos, esse problema especial de ser alemão. … A pergunta, que, se os pais, em sua juventude, ficaram impressionados com o movimento e a ideologia nazista e, durante a guerra, foram soldados para esse estado criminoso ou também exerceram profissões civis (justamente sem fazer parte do Partido Nacional-Socialista ou de suas organizações), se você pessoalmente também tem alguma coisa a ver com isso. Eu só me dei conta disso, de verdade, quando estive pela primeira vez com minha família em São Francisco, com Fran e Anselm Strauss. Naquela ocasião estavam sendo mostrados esses filmes sobre o Holocausto, não me lembro mais do nome da série. Então percebi que, quando eu abria a boca, as pessoas se assustavam… Em Princeton, uma mulher disse isso uma vez: ‘O senhor se sente como um terráqueo, isso não dá.’ Então ficou claro para mim que nós não podemos escapar de nossa identidade nacional coletiva. Então também comecei a me ocupar maciçamente em termos sociológicos com a época do nazismo e a Segunda Guerra Mundial” (42/32-47/26).

A ligação com Dostoievski e os outros protossociólogos

Bettina Völker: “Estou interessada em saber mais sobre essa questão de Dostoievski, porque estive com você na oficina de pesquisa e você sempre introduzia essa literatura russa. Aí certamente existem muitas cenas-chave ou ligações. Você pode estabelecer mais uma vez esse arco de ligação com a sociologia?”

Fritz Schütze: “… A ideia básica de Crime e castigo é, afinal, que Raskolnikov fala constantemente com o comissário judicial (ou o promotor encarregado da investigação) Porfiri Petrovitch, chegando ao ponto de revelar voluntariamente que matou a velha penhorista. Neste sentido, trata-se de um anti-romance policial, já que tudo é conhecido desde o início da narrativa do romance. … E, naturalmente, ocorre que Porfiri Petrovitch sempre dá a entender a Raskolnikov que ele já sabe há muito que Raskolnikov é o criminoso, e que, por isso, Raskolnikov se sente insultado em sua inteligência. Afinal, ele calculou tudo tão bem, e como é que esse funcionário esquisito, que, a rigor, é um cara meio tapado, como ele consegue perceber isso, afinal? Acho que isso é simplesmente feito de uma maneira estupenda, esse elemento de quase-transcrição: que as conversas são reproduzidas de tal forma que se tem a impressão de que nas comunicações entre Porfiri Petrovitch e Raskolnikov o gravador estava funcionando. E … para mim naturalmente isso foi, de modo bem acentuado, uma fonte para meu interesse por análise de conversas: … Como se pode alcançar algo assim como um universo simbólico comum ou um firmamento de sentido, como é que as pessoas conseguem alcançar algo assim em conversas e, naturalmente, também, por outro lado, questionar isso? Essas eram as coisas que me interessavam muito. … O romance O adolescente é designado, na ciência literária, como o mais fraco dos grandes romances de Dostoievski. Não sou dessa opinião. Aí Dostoievski fez essa construção difícil de ligar uma ficção autobiográfica com quase-transcrições – que é uma coisa quase impossível por causa das diversas perspectivas da exposição. O jovem Arkadi Dolgoruki conta sua história de vida e, ainda assim, o livro também contém as quase-transcrições. Quando ele fala com seu pai, isso também ocorre em forma de transcrição. E isso, tecnicamente, é extremamente difícil de fazer, por um lado, assim, um tom narrativo autobiográfico e as quase-transcrições das conversas de Arkadi com outras pessoas, por outro lado. … O adolescente Arkadi … se move sempre num contexto de consciência finito (cf. Glaser; Strauss, 1965, cap. 4-5) e desencadeia, em todas as ocasiões interacionais possíveis, contraestratégias comunicacionais entre os interlocutores que se sentem ameaçados por ele, sem que ele próprio saiba disso. Já que ele próprio é o suposto portador de um segredo de herança importante e perigoso para os outros, mas ele, por sua vez, não tem noção dessa circunstância, … anda por aí como um imbecil. Isso é apresentado de modo fantástico: você está irremediavelmente limitado àquilo que está vivenciando no momento, e sua própria situação interacional pode ficar cada vez mais difícil. Dostoievski mostra … justamente como essas pessoas sempre vivem só em seu próprio universo e o entendimento intersubjetivo é extremamente difícil. Isso pode ser comparado com a entrevista autobiográfico-narrativa, na qual também estão muitas vezes em pauta essas anomias comunicacionais que o informante-narrador sempre não entende ainda no processo da narração. Sim, em princípio eu já percebi tudo isso quando jovem. E eu tinha muita sociologia dessa espécie, embora naturalmente não conhecesse termos como “contexto da consciência” ou “interacionismo” (76/20-81/18).

Habermas e a organização da reunião de trabalho dos sociólogos de Bielefeld

Bettina Völker: “Você mencionou que já conhecia autores como Alfred Schütz e Garfinkel e que esse texto de Habermas, A lógica das ciências sociais, foi um impulso importante.”

Fritz Schütze: “Esse foi um texto extremamente importante. Foi em 1967 que ele foi publicado, na Philosophische Rundschau ou outra revista com um nome parecido. … E ele fez isso de maneira simplesmente fantástica, dar uma visão de conjunto assim. Isso não foi apenas simplesmente exposto assim, mas o texto já continha implicitamente uma linha de pesquisa. O interesse dele na ação comunicacional estava lá, e também biografia, desenvolvimento da identidade, socialização … tudo isso já estava no texto. … O que havia lá para ler e como isso deveria ser encarado e como deveria ser relacionado com a ação comunicacional, para isso Habermas deu uma norma nesse texto de 1967. Certamente minha tese de doutorado está bem fortemente marcada por esse pensamento. Não sei se eu posso ser visto como discípulo de Habermas (mas que nunca estudou com ele pessoalmente), isso eu não tenho condições de avaliar, mas sinto aí uma proximidade considerável. Naturalmente também vejo diferenças, assim como nos autores que também foram importantes para mim já antes: em Alfred Schütz (1962a) se percebe sua fascinação com o pensamento racionalista incipiente na economia, a teoria dos jogos e assim por diante. Isso eu sempre vi assim, que isso se encontra numa forte tensão tanto com sua … teoria do universo do cotidiano quanto com sua teoria das províncias de sentido simbólico ou “âmbitos finitos de sentido” (Schütz, 1962b). Até hoje não sei dizer exatamente se sou mais um interacionista ou mais um fenomenólogo. Isso é difícil para mim, e, dependendo daquilo com que trabalho, às vezes um, às vezes o outro fica mais forte. Agora eu tive de escrever um longo ensaio sobre classificação ou tipificação, e aí naturalmente me lembrei de todas essas coisas de Alfred Schütz. Mas quando faço assim pesquisa de biografias, então me sinto muito mais interacionista” (101/9-104/24).

Michaela Köttig: “Eu gostaria de voltar mais um pouquinho e lhe pedir que fale sobre esse tempo em que vocês três se conheceram: Ulrich Oevermann, Hansfried Kellner e você. Você pode, por favor, contar como vocês tiveram a ideia de organizar essa primeira reunião?”

Fritz Schütze: “Bem, havia essa ideia de que nós – os poucos sociólogos interpretativos da Alemanha, especialmente os mais jovens, que não tinham o prestígio de Luckmann – precisamos nos manter unidos de algum modo. Pois a sociologia interpretativa e a pesquisa social qualitativa, reconstrutiva, isso é uma área de interesse muito pequena dentro da sociologia. Existem naturalmente as pessoas importantes como Habermas e Thomas Luckmann, mas quando eles não estiverem mais aí, a rigor não restará nada, e nós temos que fazer algo agora. Então ficou claro, talvez isso tenha sido pensado de maneira um pouco simplista, precisamos fazer com que isso seja reconhecido pela Sociedade Alemã de Sociologia – e daí esse grupo de trabalho e depois a seção. E está claro que, se fazemos algo assim, então também precisamos mostrar atividades. … Para mim estava claro que a iluminação vem dos Estados Unidos. Temos que trazer para cá os protagonistas da sociologia interpretativa estadunidense. E isso também acabou acontecendo, e eles todos foram supersimpáticos. … Eles andavam por aí de pulôver e conversavam pessoalmente com os estudantes. Conversavam com os jovens, e não ficavam só, de alguma maneira, com as outras pessoas famosas. No caso de todos isso foi muito pessoal. Eles iam até a casa da gente, Goffman esteve em nosso pequeno apartamento em Bielefeld, e Goffman gostava de comer morangos com nata (ri). Bem, digamos que nós os víamos como modelos, como a gente podia ser como professor universitário. A nós interessava como eles viviam isso. … E a gente percebia que eles tinham um interesse genuíno pela pesquisa. Isso nos impressionou muito e foi extremamente importante para mim. Em relação ao estudantes, a cooperação na pesquisa com eles, desenvolvi isso assim em conjunto com o sociolinguista Werner Kallmeyer. Nós já tínhamos aí uma espécie de oficina de pesquisa, mas isso que é importante nós pegamos deles. Eu, é claro, de modo especialmente acentuado de Anselm Strauss (1987, p. XII)” (113/10-115/4).

“Essa era, afinal, a época da dominância absoluta das ‘grandes teorias’ – de um lado, teorias marxistas das mais diversas espécies e, de outro a teoria de Luhmann … e agora fazer algo assim como uma sociologia interpretativa, isso era extremamente difícil” (136/11-136/14).

Werner Kallmeyer e as primeiras análises da sociologia da linguagem

Michaela Köttig: “Ok, passemos à sua história com Werner Kallmeyer. Você pode, por favor, contar como foi seu primeiro encontro com ele e a continuação depois?”

Fritz Schütze: “Sim. Vocês sabem que eu tive uma inclinação por culturas estranhas e suas esferas de sentido que se podem explorar filologicamente, através do latim, do grego e do chinês antigo, e uma grande estima pela língua. Justamente também porque tenho a sensação de não saber falar razoavelmente nenhuma língua moderna. E em Bielefeld havia uma instituição que era bem moderna, mas que, mais tarde, foi reconvencionalizada de novo. Lá havia uma Faculdade de Linguística e Ciências Literárias. … Os alunos não eram formados como linguistas ou romanistas, mas como cientistas linguísticos ou cientistas literários. … E um dos jovens linguistas que lá estavam, um assistente, era Werner Kallmeyer. Ele morava no nosso prédio. Neste sentido, provavelmente por essa razão, entrei em contato com ele. Mas eu também conhecia livros sobre linguística textual que ele tinha feito junto com Elisabeth Gülich e Wolfgang Klein. E então, a uma certa altura, me dei conta de que aquele cara que morava no nosso prédio era o que tinha escrito isso. E eu o abordei. Bem, e aí percebemos que nós nos interessamos pela língua falada. … E então começamos a fazer isso, a conseguir o material, para ter um corpus. Nós colocamos gravadores em todas as situações imagináveis (rindo): em repúblicas de estudantes, em toda parte que se possa imaginar. Algumas vezes também às escondidas, isso eu assumo até hoje ainda. … Mais tarde nunca mais fiz isso, mas naquela época fizemos. Por exemplo, aprendi a dirigir carro bastante tarde. … E tinha um Ford antigo. E eu não entendia absolutamente nada de mecânica de automóveis. E então a embreagem estragou, então mandei consertar, e aí o frentista disse: ‘Isso não foi feito certo, os parafusos ainda estão lá.’ Ele não sabia que nesse carro também se pode tirar a embreagem sem desparafusar o bloco do motor. Aí liguei para o mecânico, e gravei essa conversa às escondidas (ri). Como se produz confiança agora? E como ele vai conseguir me fazer crer de novo que fez o conserto corretamente? E o que vai acontecer com minha desconfiança e minha consciência suja? E como se produz agora aqui a situação interacional (cf. Schütze, 1978)?

Especialmente essas gravações em repúblicas de estudantes mostraram ser particularmente úteis. Existe aí uma história … de uma jovem mulher que estava usando uma frigideira cujo cabo se quebrou e então (de raiva e desespero, porque o fardo do trabalho doméstico tinha ficado com ela, apesar de todas as promessas do marido) abandonou a residência. Ela e o marido já tinham filhos. Os dois estudavam em Bielefeld. … E aí ela ficou desaparecida durante um ou dois dias. A gravação correu o tempo todo, e o marido e os amigos mais jovens do casal não sabiam onde ela estava. Então ela apareceu de novo, e isso também foi gravado (ri). … A história sobre a frigideira, vocês a encontram nesse ensaio, creio eu, sobre esquemas comunicacionais e a exposição de estados de coisas. Em todo caso, uma parte dela está lá. Isso eram interações comunicacionais em situações naturais. Naquela época, eu ainda não tinha a ideia de que mais tarde me ocuparia mais especificamente com esse fenômeno da biografia, que era óbvio no caso da jovem mulher fugitiva” (144/27-147/15).

Após esses breves excertos da parte interna das perguntas subsequentes, que durou muitas horas, reproduzimos ainda as perguntas e respostas que encerraram a conversa. Estas não são mais perguntas que visem produzir narrações. Pois o que nos interessa, como no final de qualquer entrevista, é dar espaço ao entrevistado para rever sua história. Visa-se dar a ele a possibilidade de sair narrativamente do passado e voltar para a comunicação na linguagem do cotidiano no presente.

Experiências difíceis e boas na sociologia

Michaela Köttig: “Quando, hoje em dia, você lança um olhar retrospectivo sobre todo esse desenvolvimento, qual seria, em sua opinião, a experiência mais difícil que você fez nesse tempo todo?”

Fritz Schütze: “Bem, aí certamente existem diversas coisas. Eu constatei repetidamente, provavelmente isso não acontece mais com vocês, que, quando você faz pesquisa qualitativa e aprofunda essas abordagens interpretativas, que isso, aos olhos de outros sociólogos, a rigor não é uma sociologia sensata. …

Em Bielefeld nós editamos esses volumes sobre ‘Saber cotidiano…’. Nós certamente exercemos bastante influência nessa faculdade. Mas de fato sempre estávamos com as costas contra a parede. Existe um grande hall em Bielefeld, que a gente sempre tem que atravessar para chegar até os escritórios e as salas de trabalho. E aí naturalmente a gente sempre acaba se encontrando com as pessoas, também com os adversários. Eu sempre passava por uns corredores de porão quaisquer para ir até minha sala; não é fácil evitar esse hall para chegar a algum lugar. Isso foi uma luta constante pela sobrevivência.”

Bettina Völter: “O que estava por trás disso?”

Fritz Schütze: “Na época das grandes teorias, a sociologia interpretativa era tida como absolutamente irrelevante. Não parecia fazer sentido se ocupar com fenômenos pequenos, como, por exemplo, conversas do cotidiano. Tampouco parecia fazer sentido se ocupar com ‘fenômenos da superestrutura’: os fenômenos maiores, que estão no nível do conhecimento. Na época das grandes teorias, marxistas ou sistêmicas, isso era extremamente difícil. Isso me afetou fortemente. … Os sociólogos imaginam que conseguem entender e explicar tudo racionalmente num instante. A isso se contrapõe o fato de que no universo do cotidiano, para as pessoas que vivem nele, muitas coisas são apenas vagamente visíveis e compreensíveis ou nem sequer isso. Aí existem fenômenos que não podem ser reconstruídos racionalmente de modo tão simples, embora exerçam uma grande influência sobre a vida das pessoas. Além disso, muitos sociólogos não têm a menor ideia de desenvolvimentos históricos, literatura de ficção e, particularmente, de outras culturas. Eles se baseiam sempre nessa autocompreensão racionalista” (160/23-166/21).

Michaela Köttig: “Eu ainda gostaria de perguntar o que satisfaz você a partir de todos esses desdobramentos.”

Fritz Schütze: “Tudo o que tem a ver com Anselm Strauss. … Quando Anselm não vivia mais, estabeleci um contato com o País de Gales, onde fiz muitas entrevistas narrativas autobiográficas. … Fiz a primeira entrevista numa pequena aldeia acima da localidade de Bethesda, perto de Bangor, no norte do País de Gales, lá em cima nos morros. O impactante e prestativo sociólogo John Borland me levou de carro até uma professora idosa. Fiz uma entrevista narrativa com ela, sem qualquer problema. A professora idosa era filha de um dos slate quarry workers. Slate quarries são pedreiras de ardósia. Esses trabalhadores eram incrivelmente instruídos. Eles liam a Bíblia em galês e também livros de ficção e de divulgação científica. Os trabalhadores das pedreiras de ardósia eram uma elite educacional entre os trabalhadores. John Borland atuou durante muito tempo como professor de universidade pública, docente, por isso conhecia as mais importantes personalidades culturais do País de Gales – também as bem silenciosas e modestas. Bem, e então a professora idosa me contou a respeito de seus pais, como era o trabalho pesado nessas pedreiras de ardósia e como era a atmosfera, a cultura, o controle nas comunidades protestantes não conformistas. Ela narrou sua vida de trabalho como professora – por exemplo, sua atuação como professora em Birmingham, onde ela às vezes tinha que ler em voz alta para as esposas dos soldados na Segunda Guerra Mundial as cartas de seus maridos, quando elas não sabiam ler. … E aí ela percebeu que eu não tinha a menor ideia das coisas mais elementares do País de Gales. E então ela começou a me explicar a cozinha galesa e tudo o que faz parte dela, inclusive os bulbos de alho-porró como símbolo central da cozinha galesa, que – fixados ostensivamente em sua roupa– as crianças levavam para a escola para mostrar ao professor inglês a pertença cultural diferente delas. E, depois dessa aula bem especial, terminei a entrevista e voltei a pé, num dia ensolarado de setembro, os 15 km do caminho de cima dos morros até Bangor. Esse foi um dia bem bonito e aí eu pensei: ‘Isso, sim, é ser sociólogo!’” (170/13-172/7).

Bettina Völter: “Se agora você pudesse aconselhar alguma coisa ao público brasileiro que está interessado em narração e no que está por trás dela, se você pudesse aconselhar alguma coisa a esses e essas colegas, o que você diria?”

Fritz Schütze: “Naturalmente eu não conheço nada do Brasil – ao contrário do pouco que sei a respeito do México, aí eu poderia dizer mais. Mas eu tive há pouco na oficina de pesquisa um estudante que fez uma entrevista com um brasileiro. Ele frequentou a formação profissional dual em São Paulo. Lá existe uma escola profissional alemã. E então ele fez uma entrevista com uma jovem mulher do Rio Grande do Sul, de uma colônia alemã muito pobre qualquer, cuja língua materna era um alemão arcaico. Por um lado, naturalmente, justamente por causa disso ela teve a oportunidade de entrar nessa escola. Por outro lado, era tratada pelos gerentes alemães que trabalham nas empresas que participavam dessa formação às vezes de forma bastante irritada e até arrogante, justamente porque ela falava esse alemão diferente. Poder pesquisar algo assim: como, por um lado, a gente, com suas origens culturais especiais, pertence inteiramente a uma sociedade, à sociedade brasileira, e, como, ao mesmo tempo, a gente é constantemente marginalizado por causa da própria origem nas colônias de cultura alemã. E como, ainda por cima, a gente tem que se reorientar num segmento sociocultural especial, em São Paulo, ondem existem muitas firmas alemãs, que têm uma espécie de universo social próprio. E quando, então, aí, nesse segmento sociocultural especial, que, ele próprio, não faz parte do mainstream brasileiro, a gente precisa desempenhar inicialmente de novo esse papel marginalizado. Como se pode sair dessa situação de dupla marginalização? Como se lida aí com suas identidades culturais e étnicas? E como se pode ser autêntico, e ainda assim bem-sucedido? Algo assim, naturalmente, se pode conhecer e pesquisar de maneira fantástica com uma entrevista narrativa autobiográfica. A rigor meu conhecimento sobre o Brasil era quase nulo, exceto o que me contou certa vez minha filha Stefanie, que, como cientista social etnológica, está intensivamente envolvida num intercâmbio universitário entre o Brasil e a Alemanha, e com exceção de uma bela tese de doutorado de Andrea Dahme-Zachos sobre teuto-brasileiros da qual fui orientador há muito tempo. E através dessa entrevista tenho a sensação de que entendo muito. … Portanto: simplesmente começar a fazer entrevistas narrativas autobiográficas com pessoas de outras origens culturais. O Brasil é tão rico em culturas diferentes. O método de análise de biografias pode contribuir para a compreensão da complexa sociedade brasileira multicultural e para o entendimento nela. Vejo exatamente a mesma coisa na Europa (Schütze e Schröder-Wildhagen, 2012; Schütze et al., 2013)” (174/26-176/2).

Traduzido do alemão por Luis Marcos Sander, com apoio do CNPq (edital 15/2011).

1Para facilitar a leitura, foram inseridos sinais de pontuação na transcrição, e em algumas passagens a expressão oral foi levemente modificada. Os conteúdos, porém, evidentemente não foram alterados. A referência à fonte da entrevista entre parênteses após a respectiva passagem textual (12/3, p. ex.) significa número de página/número de linha.

2De 1980 a 1993, Fritz Schütze foi professor de pesquisa social qualitativa no departamento de Ciências Sociais da Universidade de Kassel.

3 Schelsky (1957 [A geração cética]); o estudo investiga os jovens da Alemanha ocidental da primeira década do pós-guerra, de 1945 até aproximadamente 1955.

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Recebido: 27 de Junho de 2013; Aceito: 14 de Abril de 2014

Autora correspondente: Bettina Völter, Alice-Salomon-Platz 5, D-12627 Berlin – Alemanha

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