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Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.14 no.2 Porto Alegre maio/ago. 2014  Epub 15-Jun-2020

https://doi.org/10.15448/1984-7289.2014.2.17116 

Dossiê: Narrativas - teorias e métodos

História de vida vivenciada e história de vida narrada: A interrelação entre experiência, recordar e narrar

Life history and life story: The interrelation between experience, remembering and narrating

Gabriele Rosenthal* 

*Doutora em Sociologia pela Universität Bielefeld (Alemanha), livre-docente em Sociologia pela Universität Kassel (Alemanha), diretora do Centro de Métodos em Ciências Sociais da Universität Göttingen, Alemanha. Texto publicado originalmente em Birgit Griese (Org.), Subjekt, Identität, Person? Reflexionen zur Biographieforschung (Wiesbaden: VS Verlag, 2010. p. 197-218) <g.rosenthal@gmx.de>.


Resumo:

Como as pessoas se apresentam com sua história de vida no presente da narração ou da escrita e até que ponto sua apresentação é constituída por sua vivência no passado? Gostaria de aprofundar esse questionamento com o auxílio de uma concepção baseada na teoria da Gestalt e na fenomenologia a respeito da relação dialética entre vivenciar, lembrar e narrar. O presente, isto é, tanto a constelação atual da história de vida, os discursos sociais atuantes no presente, quanto a situação da interação atual, constitui o olhar retrospectivo sobre o passado, o processo recordativo, as memórias que se apresentam e a forma em que se expressam na comunicação. Ainda assim, a construção do passado que se realiza no presente se encontra numa relação de dependência do passado vivenciado; ela não é independente das vivências pregressas. Para dar conta da diferença fundamental entre a perspectiva atual do passado e as perspectivas do passado que mudaram constantemente em presentes anteriores, fazem-se necessários uma reflexão metodológica específica e um procedimento metodologicamente controlado. Isso é explicitado, focando-se numa possível reconstrução de vivências passadas que se aproxima do passado vivenciado, com base no exemplo de um caso. Com o procedimento metodológico aqui discutido rejeita-se resolutamente a suposição da existência de uma homologia entre vivência e narração (ver Rosenthal, 1995).

Palavras-chave: Experiência de vida; Narração de vida; Experiência; Lembrar; Narrar

Abstract:

How do people show themselves regarding their life history in the present of the narration or the writing, and to what extent is this presentation constituted by experiences in the past? I would like to further develop these questions based on the Gestalt theory and on phenomenology, regarding the dialectical relation among experiencing, remembering and narrating. The present, that is to say, both the current constellation of the life history, the social discourses operating in the present, and the current interaction situation, constitutes a retrospective look on the past, the recollection process, the way memories are presented and the way they are expressed in the communication process. Still, the construction of the past that takes place in the present is in a dependency relation with the experienced past; it is not independent from the past experiences. In order to understand the fundamental differences between the present and the past perspectives, a specific methodological reflection and a controlled methodological procedure are necessary. This is done by focusing on the reconstruction of past experiences which makes possible to approach the experienced past, based on a single case. The methodological procedure here discussed rejects the assumption of a homology between experience and narration (see Rosenthal, 1995).

Keywords: Experienced life; Narrated life; Experience; Recollect; Narrate

Introdução

Como socióloga comprometida com o paradigma interpretativo e a exigência de uma perspectiva historicamente ampliada para explicar fenômenos sociais, vejo em documentos biográficos, particularmente em registros (eletrônicos ou mecânicos) de histórias de vida e de família narradas que tenham sido cuidadosamente levantadas em entrevistas,1 um material de coleta de dados realmente apropriado, que pode fazer justiça às exigências e aos princípios dessa orientação teórica, pressupondo a inclusão de outras fontes. O enfoque da pesquisa biográfica possibilita a percepção tanto de padrões interpretativos atuais ou perspectivas subjetivas dos agentes no cotidiano quanto de suas histórias de ação entrelaçadas com o universo social. Pretendo mostrar como as construções sociais surgiram, reproduziram-se repetidamente ou mudaram em sua interação com as experiências concretas dos agentes e os discursos sociais atuantes em diferentes momentos.

Ao lidar com textos biográficos, deparamo-nos com o problema de que essas fontes remetem a uma realidade que já passou e, em parte, data de décadas atrás. Os autobiógrafos falam ou escrevem sobre situações que vivenciaram pessoalmente no passado, de que se lembram na situação concreta da fala ou escrita, de que se recordaram anteriormente e traduziram para uma forma escrita, que já comunicaram a outras pessoas ou a respeito das quais lhes foi narrado por outras pessoas que também participaram delas.

Partindo, inicialmente, da percepção de que as vivências narradas se referem a lembranças que se apresentam no processo narrativo, essas lembranças não se referem a um estoque de memórias que contenha lembranças firmemente armazenadas ou fixadas. Pelo contrário: o presente da narração ou escrita biográfica define o olhar retrospectivo sobre o passado e gera um passado recordado específico em cada caso. A recordação se baseia, como Edmund Husserl já discutiu, num processo de reprodução em que aquilo que passou está sujeito, de acordo com as condições e exigências do presente da situação recordada e do futuro antecipado, a uma modificação constante:

A recordação está num fluxo constante porque a vida da consciência está em fluxo constante, e não se encaixa simplesmente elo a elo na corrente. Pelo contrário: cada novo produz uma reação no velho, sua intenção voltada para a frente se cumpre e se define ao fazer isso, e isso dá à reprodução uma determinada coloração. Aí temos, portanto, uma retroação. O novo, por sua vez, remete a algo novo, que se define ao ocorrer e modifica possibilidades reprodutivas para o velho, etc. E, nesse sentido, a força retroativa volta para trás, seguindo a corrente, pois a reprodução de algo passado contém o caráter de passado e uma determinada intenção de uma certa situação temporal para com o agora (Husserl, 1966, p. 303-304).

Essas modificações, que, a rigor, também nos moldes de Husserl, não podem ser vistas meramente como “colorações” do passado, mas levam, em cada caso, a uma “outra” reconstrução do passado, referem-se, assim como as perguntas feitas ao passado, àquilo que passou. A dedicação ao passado ocorre por meio de perguntas concretas ou mesmo pela tentativa concreta de evitar perguntas, e também essas perguntas ou as tentativas de evitá-las não podem ser interpretadas sem se estabelecer uma conexão com o passado. As perguntas dirigidas ao passado não se desenvolvem só no contexto atual do ato de perguntar, mas, por sua vez, também surgiram a partir do passado (Mead, 1932[1969], p. 234). A interdependência entre passado, presente e futuro já foi descrita de maneira convincente por George Herbert Mead em seu texto The philosophy of the present (1932). Nele, Mead elucidou tanto a irrevogabilidade quanto a revogabilidade do passado:

Os passados nos quais estamos envolvidos são tanto irrevogáveis quanto revogáveis. Não faz sentido –ao menos para a experiência– recorrer a um passado “real” dentro do qual pudéssemos fazer descobertas contínuas, pois esse passado tem de ser contraposto a um presente em que aparece o emergente, e o passado, que precisa, então, ser visto do ponto de vista do novo, torna-se um outro passado (Mead, 1932[1969], p. 230).

Uma diferença estrutural decisiva entre o presente do ato da recordação, o da narração e o da vivência no passado se baseia, além das possibilidades da recordação mais caótica, mais ordenada ou mais rápida, principalmente na diferença da temporalidade de nossa percepção em relação à da recordação, como Husserl também deixou claro. É preciso levar em conta, na análise de textos autobiográficos, esse fenômeno da diferença entre a sequência da vivência e a sequência da recordação – e, por conseguinte, também da narração de situações recordadas (Rosenthal, 1995). Assim, tanto a sequência das vivências recordadas, narradas ou fixadas por escrito quanto a sequência das diversas sequências de ação recordadas, narradas ou escritas de uma vivência são diferentes da sequência da vivência no passado. Além disso, deve-se levar em consideração que, no processo da narração de vivências feitas pela própria pessoa, a participação da lembrança pode variar muito. Nem toda narração de uma vivência feita pela própria pessoa se baseia num processo de recordação que ocorre durante a narração. Assim, posso simplesmente contar de novo (de modo quase mecânico) uma história que há muito se tornou uma anedota, que já contei muitas vezes e modifiquei de acordo com as experiências interativas feitas durante ou após a narração, sem sequer chegar perto de me envolver num processo recordativo. Da mesma maneira, posso juntar, no presente da narração, diversas vivências –próprias ou transmitidas por outros– e formar com elas uma história sobre uma situação. Portanto, durante a narração partes de experiências posteriores ou de narrativas de outros podem ser acrescentadas, mas partes essenciais para a vivência passada também podem ser omitidas.2

Quando nos envolvemos com uma narração espontânea e um processo de narração de histórias, via de regra nos envolvemos com um fluxo recordativo, que possibilita uma proximidade muito mais acentuada com o passado vivenciado naquela época –não um passado supostamente real– do que no caso de formas mais controladas de autoapresentação biográfica (como, por exemplo, a narração de anedotas, a narração de vivências alheias, o relato condensado ou até a argumentação sobre componentes do passado). Isso, entretanto, não quer dizer que a narração pudesse, alguma vez, coincidir com a vivência no passado, e sim apenas que a narração possibilita uma maior aproximação à sequência de ações na situação passada do que outras formas de exposição linguística. É possível, sobretudo, que no processo de rememoração exigido ou induzido pela narração se apresentem impressões, sentimentos, imagens, percepções sensoriais e físicas ou componentes até agora recalcados das situações lembradas que não sejam compatíveis com a perspectiva do presente, não correspondam ao interesse da apresentação e às regras dos discursos sociais atuantes no presente, ou então que há muito tempo não são lembrados ou sobre os quais ainda não falou. Na sociologia, fazemos uso, na pesquisa biográfica, desse fenômeno da proximidade crescente do autobiógrafo com o passado vivenciado que é desencadeada pelo processo narrativo e recordativo com a técnica –apresentada por Fritz Schütze (1976) já na década de 1970– da entrevista narrativa biográfica, que já foi testada e aprofundada não só em contextos temáticos muito diferentes, mas também em contextos geográficos muito distintos. Com a técnica da entrevista narrativa solicitamos aos entrevistados sequências narrativas mais longas e procuramos apoiá-los no processo de narração e recordação (Rosenthal, 2005a, cap. 5). Entretanto, também no caso de um fluxo narrativo de vivências feitas pela própria pessoa é preciso atentar para as diferenças fundamentais entre a vivência no passado, a recordação dela e a narração. O ato, realizado no presente, de voltar-se para o passado –que Edmund Husserl chama de noesis– define não só quais as vivências da memória que se apresentam; elas também se oferecem de maneira diferente dependendo da perspectiva do presente. Com isso, surge um noema da recordação diferente, como Husserl chama o que se apresenta ou oferece na recordação.3 Além disso, não só há uma diferença entre noema da vivência e noema da recordação, mas também a tradução de uma lembrança para a forma linguística de uma narração ou outra forma textual acarreta uma diferença considerável entre recordação e narração. Além da moldagem muito considerável de lembranças pela tradução linguística, que também está vinculada principalmente às formas de expressão, conceitos e convenções possíveis na respectiva língua, a narração oral ocorre numa interação concreta com um ou mais ouvintes, e a narração por escrito em interação com um público (ao menos imaginado). O falar sobre lembranças se constitui, em cada caso, pelos enquadramentos interativamente negociados e produzidos na ação prática e pelas modificações desses enquadramentos que ocorrem repetidamente no transcurso da interação (Rosenthal, 2005a, p. 40ss).

Por causa dessas diferenças entre vivenciar, recordar e narrar ou falar ou também escrever, na análise de autoapresentações biográficas precisa-se fazer uma diferenciação analiticamente cuidadosa entre as situações vivenciadas no passado, as modificações desses passados vivenciados nas diversas fases da vida, os processos recordativos no presente da narração, a moldagem linguística e comunicacional bem como os enquadramentos interativamente produzidos da situação narrativa. Formulando-o de maneira simplificada, é preciso distinguir entre o passado vivenciado e o narrado, mesmo que esses níveis não possam ser separados um do outro ou todo passado apresentado no presente seja condicionado pela perspectiva do presente e, inversamente, o presente seja determinado pelo passado. Fazer jus a essa diferença é o sentido de minha proposta metodológica –testada há muitos anos em contextos de pesquisa diversos– de enfocar os dois níveis da história de vida narrada e da vivenciada primeiramente em passos analíticos separados, antes de se contrastar os níveis e formular suposições sobre sua diferença (Rosenthal, 1987; 1995). Assim, por um lado, visa-se reconstruir a configuração (Gestalt) temporal da história de vida vivenciada, isto é, a sequência das vivências biográficas no tempo objetivo, cronológico (diferentemente do tempo vivenciado subjetivamente) e seus possíveis significados no passado. Por outro lado, num passo analítico separado desse, reconstrói-se a configuração (Gestalt) temporal da autoapresentação biográfica, isto é, a sequência de temas na apresentação presente, bem como o significado das vivências no presente do biografado e os enquadramentos interativos da apresentação delas. Na reconstrução da história de vida vivenciada visa-se decifrar sua gênese, enquanto que na reconstrução da história de vida narrada se analisa o surgimento processual da autoapresentação biográfica quando de sua elaboração oral –ou também por escrito– e interativa.

Um exemplo de caso: reescritas bem-sucedidas do passado?

Podem-se, afinal, conhecer vestígios de um passado vivenciado que é consideravelmente reinterpretado no presente com base numa nova perspectiva em relação a esse passado e de um interesse de apresentação a ela correspondente? Para mostrar as possibilidades de reconstrução do passado vivenciado ou de uma aproximação a ele, a seguir vou apresentar um exemplo de caso de um projeto de pesquisa sobre famílias de etnia alemã vindas da União Soviética.4 O biógrafo aqui apresentado é um homem de etnia alemã que emigrou, junto com sua família, da ex-União Soviética, isto é, da Rússia, para a Alemanha no ano 2000. A entrevista com ele é típica da geração genealógica intermediária nas famílias das pessoas que emigraram tardiamente.5 As entrevistas com membros dessa geração6 se caracterizam, via de regra, pelo fato de só conterem poucas narrativas espontâneas e os entrevistados não se envolverem num processo de narração e recordação mais longo. Se histórias são contadas, elas são, na maioria dos casos, narrativas comprobatórias, que visam elucidar uma argumentação e que, provavelmente, foram experimentadas e exercitadas muitas vezes em contextos diversos – principalmente no contexto do processo de saída do país de origem. Nossa investigação empírica desse grupo de migrantes deixou claro que aqueles de etnia alemã emigrados da ex-União Soviética para a Alemanha já reescreveram ou tiveram de reescrever várias vezes –por causa da situação histórica cambiante e os equilíbrios de poder desigual também cambiantes a ela associados– suas histórias de família e de vida em conformidade com os respectivos discursos dominantes na sociedade (ou na situação). Com isso, um envolvimento num processo recordativo não só é dificultado, mas provavelmente também seria sentido como ameaçador.

Com a entrevista apresentada na sequência com Sergej Wolf,7 como o chamamos, escolho um caso de um biógrafo que quase não se envolve em processos recordativos. Gostaria de mostrar que, ainda assim, o texto da entrevista contém vestígios do passado e que nós podemos decifrá-los principalmente reconstruindo sua perspectiva no presente e as regras em que se baseia sua autoapresentação biográfica numa entrevista narrativa com uma pessoa pertencente à cultura majoritária da República Federal da Alemanha. Formulando-o em termos gerais: se no caso de uma autoapresentação biográfica –nesses casos praticamente não se pode dizer que haja uma narração– conseguimos mostrar que interesse expositivo e que perspectiva presente comanda a apresentação, associa-se a isso a oportunidade de formular suposições empiricamente fundamentadas sobre a vivência no passado.

Primeiramente, mencionaremos os dados substanciais da história da família e da história de vida de Sergej Wolf.8 Sergej nasceu em 1967, na Sibéria, numa família de origem étnica alemã. Essa é uma fase em que a situação dos alemães condenados coletivamente em 1941 na União Soviética já era de novo um pouco melhor, eles não precisavam mais viver em locais especiais e tinham sido parcialmente reabilitados.9 A família por parte do pai já tinha emigrado em 1914 do oeste da União Soviética para a Sibéria. O avô por parte do pai foi preso num campo de trabalhos forçados em 1941 e faleceu um ano mais tarde. A família por parte da mãe vivia na Ucrânia em 1941; o avô, condenado a 25 anos de prisão após a reconquista (1943-1944) dessa região ocupada pelo exército alemão, foi posto em liberdade em 1956, mas não voltou para sua família deportada para a Sibéria e faleceu em 1960. Os pais de Sergej nasceram na década de 1930 e vivenciaram, quando crianças, a época difícil nos acampamentos da Sibéria administrados pela Gulag (“Administração Geral dos Campos de Trabalho Correcional”).

O pai e a mãe concluíram uma formação profissional técnica em fins da década de 1950 e trabalharam até sua aposentadoria.

Sergej tinha duas irmãs mais velhas. Entretanto, uma delas morreu num acidente três anos antes de ele nascer. Quando Sergej tinha 3 anos de idade, nasce sua irmã mais nova. Sua irmã mais velha cuida dele e de sua irmã mais nova, enquanto o pai e a mãe trabalham fora. Sergej consegue uma ascensão educacional. A partir de 1984, ele estuda línguas estrangeiras numa faculdade de pedagogia em Leningrado. Durante o tempo de estudo universitário, ele é convocado para prestar serviço militar (no território da Rússia), recebe uma formação técnica nesse período, torna-se membro de uma unidade secreta e é promovido. Depois do período de serviço militar, conhece na faculdade sua futura mulher, que é de etnia russa. A filha deles nasce ainda durante o período de estudo. Em 1991, Sergej começa a trabalhar como docente numa instituição militar de ensino superior. Ele exerce essa atividade até sua saída para a Alemanha. Sua mulher trabalha numa posição mais elevada numa instituição do governo. Em 1996, portanto cinco anos após o fim da União Soviética, Sergej apresenta um requerimento de emigração para a Alemanha para si mesmo, sua mulher e filha, bem como para seus pais. A mãe morre em 2000, pouco tempo antes de a família receber o visto e emigrar para a Alemanha. Na Alemanha, o diploma universitário de Sergej e o de sua mulher não são reconhecidos. Em 2004, na época da primeira entrevista, Sergej, assim como sua mulher, está fazendo um curso superior em ciências sociais.

Até aqui, apenas mencionei dados da história da família e dados biográficos da vida de Sergej em sequência cronológica, sem indicar ainda como ele próprio fala sobre isso e que significado eles têm ou tiveram no passado para ele. Essa listagem aqui abreviada das etapas biográficas serve para dar o primeiro passo analítico, a saber, a análise sequencial dos dados objetivos ou biográficos, que é feita com base num procedimento apresentado pela primeira vez por Ulrich Oevermann (Oevermann et al., 1980). Ao se fazer isso, são analisados inicialmente os dados que praticamente não estão vinculados às interpretações do biógrafo na sequência temporal dos acontecimentos na trajetória de vida dele. Esses dados são tirados da entrevista transcrita bem como de todas as outras fontes disponíveis (material de arquivos, entrevista com outros membros da família, documentos da administração pública, autos judiciais etc.). Dados históricos ou sociopolíticos que poderiam ser relevantes para o caso também são integrados nessa lista de dados, e os dados biográficos são inseridos no respectivo contexto histórico. Com esse procedimento nesse passo da análise, em que o texto da entrevista –abstraindo dos dados dele tirados– é, de início, deixado totalmente de lado, pretende-se evitar uma adoção precipitada das autointerpretações e autoapresentações atuais das pessoas entrevistadas. O que se busca aqui é, antes, justamente a descoberta ou a construção de hipóteses a respeito dos possíveis significados das diversas etapas biográficas para o biógrafo no momento da vivência. Para essa formulação de hipóteses é necessário, em sentido heurístico, incluir, em cada caso, conhecimento teórico referente ao objeto e conhecimento empiricamente fundamentado sobre os prováveis efeitos de determinados acontecimentos numa determinada idade sobre essa fase da vida e sobre as fases seguintes. Visa-se, além disso, à formulação de hipóteses sobre as opções de ação que se abrem e que se cerram com cada dado. No caso de cada dado se pergunta que possibilidades de ação a biógrafa ou o biógrafo tinha numa determinada situação, quais ela ou ele escolheu e que possível transcurso biográfico futuro poderia resultar disso. É decisivo que sempre se reflita também sobre o que poderia acontecer na vida da biógrafa ou do biógrafo que possibilite mudanças para a condução de sua vida e sob quais condições eles fazem uso dessas possibilidades. Portanto, os prognósticos sobre o transcurso futuro não se referem apenas a reproduções das estruturas estáveis que já se delineiam na análise ou são esboçadas hipoteticamente (como, por exemplo, regras de uma reprodução repetidamente semelhante de cursos de ação), mas também as possibilidades para transformações. Cuida-se deliberadamente para não partir de uma determinação precoce e imutável do indivíduo ou de sua história de vida, mas, pelo contrário, de também projetar possíveis mudanças.

No contexto deste artigo, apenas posso abordar brevemente esse passo da análise no caso de Sergej Wolf. Observando-se seus dados biográficos, chama particularmente a atenção o fato de que tanto sua trajetória profissional bem-sucedida quanto sua escolha de uma parceira apontam claramente para uma integração bem-sucedida na sociedade soviética ou russa e suas instituições estatais. Nesse contexto coloca-se a pergunta a respeito dos motivos pelos quais requereu a saída e migrou para a Alemanha. Quanto a isso, podem-se formular diversas hipóteses, por exemplo, de que o fim da União Soviética e os desdobramentos sociais ocorridos nos anos 1990 na Rússia não tenham correspondido às expectativas de Sergej e sua família. Mas isso pode ter tido razões muito distintas. Nesse contexto podemos, entretanto, perfeitamente formular a hipótese de que houve um momento ou uma fase biográfica de transição de uma integração na sociedade soviética ou russa para uma crescente insatisfação, em cujo decurso Sergej começou a projetar um futuro na Alemanha. Nesse sentido, deve-se ponderar que em fins da década de 1980 teve início a emigração em massa de pessoas de origem alemã da União Soviética.10

A esse momento de virada biográfica se associou também um momento interpretativo no sentido de que, a partir desse momento, o futuro foi projetado de maneira nova e o passado foi reinterpretado. Tal momento de interpretação, que é um conceito introduzido por Wolfram Fischer (1978; 1982), pode ser provocado tanto por um desenvolvimento na sociedade e pelos novos discursos sociais que o acompanham quanto por transformações no sistema familiar ou momentos de virada biográfica, como um casamento ou um divórcio, por exemplo. No presente caso, podemos formular, entre outras, a hipótese de que, para Sergej, com as reflexões sobre uma possível emigração para a Alemanha, sua pertença étnica ao grupo de origem alemã adquiriu cada vez mais importância, sobretudo porque foi essa pertença que possibilitou a ele e sua família a emigração para a Alemanha. Com isso, também teria mudado a forma como Sergej olha para seu passado e como se lhe apresentam na lembrança as vivências anteriores. Com a crescente relevância do tema “meu ser-alemão ou minha descendência alemã”, em sua recordação Sergej dará atenção às vivências de maneira bem diferente de como fazia antes. Por meio desse ato recordativo –essa noesis– não só se apresentam outras vivências tiradas da memória, mas elas também se oferecem de maneira diferente à pessoa que se lembra delas. Surge um outro noema recordativo. O ato de direcionar a atenção, a noesis, determina o noema e, por outro lado, também o noema que se apresenta em cada caso determina a noesis. Devemos principalmente aos teóricos da Gestalt a elucidação das regras segundo as quais o noema já predetermina uma estrutura. No processo recordativo, é possível que o noema que se oferece oponha-se diretamente ao que é direcionado pela atenção pretendida. Podem-se apresentar, como já se explicou, componentes da situação vivenciada que, de acordo com a perspectiva do presente e do interesse de apresentação, não eram intencionados ou até que sejam incongruentes com essa perspectiva e interesse. Da mesma forma, contudo, componentes que são buscados podem não se apresentar. Assim, em entrevistas narrativas constatamos repetidamente que uma narrativa é introduzida com uma avaliação (como, por exemplo: “[…] só tenho boas lembranças da minha época de estudante; uma vez fizemos, por exemplo, um passeio legal da turma […]”), mas a história que se segue opõe-se a essa avaliação.

Voltemos ao caso de Sergej. Com base nos dados biográficos, podemos tomar ainda um outro momento interpretativo como ponto de partida. Assim, pode-se supor que, a partir do não reconhecimento de seu diploma universitário na Alemanha, tanto o horizonte de seu futuro profissional quanto seu olhar retrospectivo sobre o próprio passado profissional e o processo de sua decisão pela migração tenham mudado. A forma como Sergej possivelmente lidou com isso poderia implicar tanto uma desvalorização de sua formação e atividade profissional na Rússia quanto uma retrospectiva autocrítica da opção pela emigração.

A apresentação da história de vida. Olhemos agora como Sergej apresenta sua história de vida na entrevista e se é possível encontrar tais momentos de interpretação e processos reinterpretativos. Em consonância com a técnica da entrevista narrativa, no início da entrevista Sergej foi convidado a narrar a história de sua família e sua história de vida. Sua autoapresentação biográfica que se seguiu a esse convite e que foi moldada por ele próprio durou 70 minutos. Como exige essa técnica de entrevistas, nessa primeira fase ele não foi interrompido por perguntas da entrevistadora. Perguntas para obter mais informações só foram feitas após a apresentação inicial da primeira entrevista, bem como nas entrevistas subsequentes. Em sua apresentação inicial, Sergej utiliza preponderantemente o tipo de texto chamado “relato”. Ele inicia sua apresentação da seguinte maneira:11

Bem, então vou começar, meu nome ou então ((rindo)) vou dizer primeiro /, meu nome é Sergej Wolf e eu sou, ahn, alemão vindo da Rússia ou, em outras palavras, sou um dos que saíram mais tarde da Rússia, nasci em 1967 na cidade de Omsk, na Sibéria, no oeste da Sibéria, numa ((suspira)) ahn família de alemães da Rússia, e ahn bem ahn: é, minha trajetória de vida foi, na verdade, assim típica de, ahn, de muita gente, daquela ahn geração, e eu, ahn, fiz o ensino médio (após o) ensino médio fui para a faculdade ahn faculdade de pedagogia e lá estudei dez semestres pedagogia e (2) ((suspira de leve)) língua inglesa, e então, fui ahn convocado para o exército soviético, p- ahn prestei serviço militar por dois anos, aí depois ahn de me formar eu / trabalhei dez ahn nove anos na (2) e- ((rindo)) escola superior militar ahn: como professor na disciplina de línguas estrangeiras, lecionei inglês, bem e ahn, e aí, é, em maio de 2000 ahn em maio de 2000 ahn: vim para a Alemanha junto com minha família.

Nessa primeira sequência da entrevista, Sergej se apresenta com vários dados biográficos que se concentram em sua origem familiar e na pertença étnica por ela transmitida e, sobretudo, nas etapas do transcurso de sua formação e profissão. Com isso, ele emoldura sua trajetória profissional com a menção de sua pertença étnica e familiar e sua emigração para a Alemanha. Por outro lado, não fala de seus pais e de suas irmãs nem de sua esposa e de sua filha.

Sobre esse início específico de uma autoapresentação biográfica se coloca, assim como para qualquer outra entrevista, a pergunta: por que Sergej começa a narrar sua vida dessa maneira, com esses componentes e essa forma de texto? Afinal, no segundo passo da avaliação, na chamada análise dos campos temáticos, visa-se reconstruir os mecanismos que comandam a seleção dos temas, sua sequência e a ligação temática entre os diversos segmentos do texto. Ao fazer isso, perguntamos até que ponto a apresentação concreta em cada caso se deve à situação da entrevista e/ou à situação de vida atual e até que ponto ela chega a remeter a relevâncias biográficas no passado. Assim, sobre o início da entrevista acima podem-se formular diversas hipóteses, independentemente do conhecimento que se tem a respeito da continuação. Trata-se de hipóteses que não excluem necessariamente umas às outras e que podem se referir a níveis muito diversos (interação durante a entrevista, situação de vida atual, constelação familiar, entorno social mais amplo, discursos coletivos dominantes nesse entorno, perspectiva do passado etc.).

As hipóteses seguintes, entre outras, são possíveis para o presente segmento e para toda a entrevista:

  1. O segmento citado, a seleção dos dados biográficos e sua forma sequencial se devem principalmente ao contexto da entrevista, sobretudo ao fato de Sergej dar a entrevista no contexto de um estudo sobre emigrantes tardios. Aqui se poderia, por exemplo, formular, entre outras, a hipótese de que, para ele, sua carreira educacional é da maior relevância, mas que tenta fazer jus aos interesses ou questões que atribui à entrevistadora e, por isso, fala primeiramente sobre sua pertença étnica e origem familiar.

    Em consonância com o procedimento abdutivo (com base em Peirce, 1980; ver Rosenthal, 2005a, p. 58ss), para cada uma das hipóteses são propostas novamente hipóteses subsequentes sobre a possível continuidade que pudesse estabelecer uma conexão com o que precedeu, isto é, neste caso, sobre possíveis versões para uma continuação plausível do texto da entrevista. Uma hipótese subsequente neste caso poderia ser, por exemplo, que a seguir Sergej oscilará constantemente entre suas relevâncias biográficas e as que atribui à entrevistadora e, por conseguinte, voltará sempre a falar de sua biografia educacional e profissional.

  2. Entretanto, essa primeira sequência também pode se dever à sua situação biográfica atual, determinada principalmente pelo não reconhecimento de seu diploma universitário e pela circunstância de que, por isso, até agora ele foi impedido de exercer uma atividade profissional na Alemanha que correspondesse a suas expectativas profissionais manifestadas até o presente. Portanto, em seu relato Sergej se concentra nos dados de sua trajetória educacional e profissional porque essa carreira se tornou duvidosa após a emigração. Neste ponto se pode formular, entre outras, a hipótese de que ele voltará a falar repetidamente sobre esse tema.

  3. O início dessa autoapresentação biográfica se deve principalmente ao discurso público sobre migrantes na Alemanha e Sergej tenta, com sua biografia, distanciar-se de outros migrantes. Por isso ele gostaria de se apresentar com o fato de ser alemão e com sua trajetória educacional. Se essa hipótese estiver correta, ele se esforçará repetidamente, também nos trechos subsequentes, para se distanciar das imagens de estrangeiros que ele supõe sejam atribuídas a ele.

  4. Esse relato é determinado primordialmente por uma perspectiva no passado, em que a trajetória educacional e evolução profissional de Sergej tinham uma relevância biográfica realmente elevada para ele. Deve-se considerar, nesse sentido, que Sergej é o primeiro membro de sua família que obteve um diploma universitário. Se essa hipótese for correta, devem-se esperar na sequência outras passagens de texto sobre esse tema.

  5. Uma outra hipótese a respeito dessa sequência é de que ela se deve primordialmente à necessidade de não deixar que fiquem claros o passado vivenciado e as perspectivas do passado. Ao emoldurar a exposição de sua carreira profissional com o tema da pertença étnica, Sergej procura apresentar sua migração contra esse pano de fundo, isto é, convencer os ouvintes de que a migração foi motivada por sua pertença étnica. Isso poderia ter a função de ocultar outros motivos, que, por exemplo, podem estar relacionados com o tempo que passou numa unidade militar secreta ou como docente numa instituição militar de ensino superior. Uma das hipóteses subsequentes a esse respeito é a seguinte: no caso dos temas “razões da emigração” e “fase da vida no contexto militar” esperamos, na sequência do texto da entrevista, primordialmente a forma textual da argumentação e, por outro lado, quase nada de narração.

Com essas diversas hipóteses, demonstro estruturalmente as diversas variantes de leitura que temos de explorar em cada autoapresentação biográfica para fazer jus às interações entre a perspectiva do presente, o passado vivenciado, as perspectivas em relação ao passado, que se transformam ao longo da vida, e os diversos discursos a elas associados.

Ora, nesse passo da análise também se visa reconstruir os mecanismos que determinam as conexões temporais e temáticas das distintas partes da autoapresentação biográfica. Como análises empíricas mostram repetidamente (ver Rosenthal, 1995), podemos partir da percepção de que a história de vida narrada não consiste de uma coleção desconexa de partes avulsas, mas que as distintas sequências estão inter-relacionadas de algum modo específico. Formulando-o de maneira mais aberta, isso quer dizer que nesse caso, assim como também no caso de todas as outras espécies de passagens textuais mais extensas, moldadas pelo próprio produtor dos textos, precisamos perguntar ao texto se as distintas sequências estão organizadas nos moldes de uma Gestalt, em que se encontram num nexo de relações mútuas, ou se se trata de uma junção aleatória de partes avulsas. Retomando a análise de campos temáticos de Aron Gurwitsch e as propostas de Wolfram Fischer (1982) para sua aplicação à análise de histórias de vida, a questão em pauta é se os distintos componentes de um texto configurado pessoalmente por um autor ou uma autora são elementos de um ou de vários campos temáticos. Em sua abordagem da teoria da Gestalt e seu aprofundamento das análises de Edmund Husserl, Gurwitsch discute a relação dialética entre tema e campo temático. Sob “tema” ele entende aquilo que nos ocupa num instante particular e se encontra no centro de nossa atenção. Os temas estão, em cada caso, inseridos num campo temático. Gurwitsch (1974, p. 4) define “campo temático” como “a totalidade das circunstâncias co-presentes com o tema que são vivenciadas como conectadas materialmente com o tema e que constituem o pano de fundo ou horizonte do qual se destaca o tema como centro”. Por sua vez, as circunstâncias que estão apenas co-presentes temporalmente fazem parte, segundo essa terminologia, da “margem”. O campo temático não é uma acumulação aleatória de conteúdos ou elementos, mas estes estão dados numa determinada organização e se encontram numa relação material com o tema. A conexão dos temas é uma conexão gestáltica, ou seja, o campo determina o tema e o tema, o campo. Com a passagem do tema de um campo para outro, o tema se modifica, assim como, com a inserção de um tema num campo específico, esse campo se modifica. A essas reflexões está associada a percepção de que, em última análise, o significado dos distintos elementos de uma apresentação biográfica só é elucidado em sua Gestalt total, sendo que, neste sentido, também a sequência temporal desempenha um papel importante. Portanto, em cada sequência estão em pauta a descoberta das remissões inerentes a possíveis campos temáticos e o delineamento hipotético das sequências ulteriores passíveis de conexão em cada caso. Na continuação da análise mostra-se, então, quais campos temáticos são ampliados pela biografada ou biografado, quais elementos desses campos que se oferecem potencialmente não são desenvolvidos ou só são tematizados alusivamente, assim como fica igualmente claro quais campos são evitados. Independentemente das autointerpretações dos autobiografados, fica claro o seguinte: a) quais temas não são tematizados, embora estejam co-presentes, e b) como a autobiografada/o autobiografado insere sistematicamente suas vivências apenas em campos específicos e evita outros enquadramentos possíveis, inerentes às vivências.

A vivência do passado selecionada no presente da narração e a vivência selecionada da memória no presente da recordação representam o tema, que está inserido num campo temático, que, entretanto, como já se acentuou, pode-se modificar no transcurso da recordação e da narração. O campo temático de uma narrativa de vida ou também os campos que se transformam no transcurso da narração são definidos pela perspectiva do presente da biografada/do biografado e da forma, daí resultante, como ele/ela se volta para seu passado –portanto, pela noesis–, mas também a partir das lembranças que se lhe oferecem – portanto, dos noemas. Os teóricos da Gestalt apresentaram reflexões importantes e também experimentos empíricos sobre a relação dialética entre a presença da recordação e o passado da vivência. Koffka, Köhler e Wertheimer rejeitam de maneira convincente concepções associativistas da memória. Eles contrapõem à noção de uma ligação associativa de elementos avulsos a noção da conexão gestáltica, e seu ponto de partida é que a memória retoma primordialmente propriedades totais e nexos estruturais, como o formula Max Wertheimer (1922, p. 55-56). Fazendo referência à hipótese associativa de que, quando um conteúdo “a” aparece com frequência junto com um conteúdo “b”, existiria a tendência de lembrar-se de “b” quando “a” aparece, Wertheimer (1922, p. 49) se permite a afirmação jocosa de que seu amigo estaria vinculado de maneira associativa a seu número de telefone. Quanto a isso, observa Köhler (1947, p. 156): “Não existem relações específicas entre o nome e o número; eles não tendem a formar um grupo espontaneamente”. De acordo com uma concepção da teoria da Gestalt, as pessoas não se lembram de distintas vivências com base num elemento que assoma no presente, mas partem de processos ou unidades organizadas, que, em sua propriedade total, lembram as propriedades totais de unidades recordativas (Köhler, 1947). A seleção de uma vivência passada da memória “depende da semelhança de padrão existente entre o estímulo e o vestígio […]” (Koffka, 1935[1963], p. 464).

O que é decisivo na concepção da teoria da Gestalt é que nela se parte da existência de uma interação entre configurações (Gestalten) sedimentadas e atuais. Isso possibilita que se evitem concepções dualistas segundo as quais há, por um lado, um algo que está armazenado na memória e, por outro, um algo que é lembrado no presente. Uma perspectiva da teoria da Gestalt como aquela defendida coerentemente por Gurwitsch em sua concepção da análise de campos temáticos implica a compreensão de uma constituição mútua de figuras “antigas” e “novas”, isto é, de uma reorganização constante dos componentes da recordação. Assim, Koffka (1963, p. 524) afirma que “a reorganização do padrão interfere diretamente na lembrança do padrão antigo, isto é, exerce uma influência direta sobre o vestígio antigo”.

Ora, em que campo(s) temático(s) Sergej apresenta sua história de vida? A análise dos campos temáticos deixou claro que as distintas sequências de sua autoapresentação biográfica estão inseridas num campo cujos conteúdos essenciais são os temas “formação” e “perseguição e discriminação contra russo de origem alemã”. Esse campo pode ser formulado da seguinte maneira: “Já meus avós eram pessoas instruídas, mas eles, assim como meus pais, tiveram, como russos de origem alemã, sua carreira educacional e profissional dificultada.” Ora, sua própria carreira educacional e profissional dificilmente se enquadra nesse campo temático. Também após a primeira sequência mencionada, em sua narrativa principal –que, afinal, tem a duração de 70 minutos–, Sergej não chega mais a falar de sua carreira profissional na Rússia. Ele fala, isto sim, detalhadamente sobre sua história familiar como russo de origem alemã e suas próprias experiências de discriminação como alemão na União Soviética e na Rússia.

Gostaria de mostrar quão fortemente suas exposições, que geralmente representam uma mescla de argumentação e relato, são marcadas por essa perspectiva do presente, mas, ainda assim, contêm traços das vivências no passado, a partir de uma vivência biográfica, por ele relatada, da época que passou no exército em 1985. Após passar seis meses no exército, ele foi transferido para uma outra unidade – segundo seu relato, sem indicação de razões. Sergej aduz isso como atestação da discriminação dos alemães na União Soviética. Quando da análise dos dados biográficos, eu tinha formulado a hipótese de que, na época em que serviu o exército, Sergej estava identificado com o sistema soviético e se empenhava muito por sua integração na sociedade soviética e russa. Se, além disso, incluirmos o resultado da análise dos campos temáticos de que na entrevista ele visava mostrar o quanto os alemães eram discriminados na União Soviética, há necessidade de um olhar sobre sua narrativa a respeito dessa vivência que seja crítico em relação às fontes. Assim, podemos partir da ideia de que atualmente ele não falará –ao menos no nível manifesto da comunicação– sobre sua identificação com o sistema social e governamental soviético de então ou também sobre sua integração nesse sistema. Deve-se, portanto, verificar a partir do texto até que ponto se podem encontrar, além do teor manifesto dos enunciados, indicações de que, na época da vivência, ele não vivenciou a transferência como discriminatória, mas como salto em sua carreira no exército. Nesse terceiro passo da análise, na reconstrução da história de vida vivenciada, perguntamos mais uma vez, em associação com as hipóteses formuladas quando da análise dos dados biográficos, a respeito do significado biográfico de uma vivência na época em que ela ocorreu. Para esse fim, introduzimos as vivências apresentadas no presente em possíveis campos temáticos diferentes daqueles que constituem o presente.

Observemos agora a apresentação que Sergej faz de sua transferência. Como já se mencionou, essa sequência é uma narração comprobatória tirada da apresentação inicial. Ele introduz essa narração com a seguinte explicação:

[…] só depois do exército eu descobri, que até 19…, acho que 1995, ahn, existe ou existia, assim, uma portaria, assim, portaria interna, ou estava em vigor um regulamento de que, por exemplo, membros de determinados grupos étnicos não podiam, ahn, ser aceitos em determinadas unidades ou, como por exemplo eu, ahn, fui primeiro convocado para a, ahn, uma unidade.

As interrupções na última parte do período, “eu, ahn, fui primeiro convocado para a, ahn”, podem, entre outras possibilidades, ser interpretadas no sentido de que Sergej, ao falar, de certo modo pisa no freio, pois não quer ou não deve dizer o nome da unidade. Vejamos como ele prossegue:

servi seis meses lá, mas de repente, assim da noite para o dia, eu fui, ahn, convocado e, ahn, para uma outra unidade numa outra cidade, ah: ((suspira)), fui assim despachado por assim dizer, e eu não conseguia entender isso, pois na verdade eu era assim, ambicioso e esforçado […].

Também neste caso chama a atenção a falta de menção de nomes de lugares. Neste ponto pode-se formular a hipótese de que se trata de uma unidade e locais de serviço que hoje em dia ele procura ocultar. Fica-se sabendo, entretanto, que ele não conseguiu entender a transferência, já que era ambicioso e esforçado. Com o enquadramento da história ele quer deixar claro que esse ser despachado significou para ele um rebaixamento que só entendeu a posteriori. Esperamos que venha a seguir, como ouvintes ou leitores e leitoras, uma referência a esse rebaixamento, isto é, talvez a transferência para uma unidade com menos prestígio. Vejamos a sequência:

e, ahn, até por parte dos oficiais ouvir dizer, é, vocês alemães, (2) ahn: ((suspira)) são tão esforçados, ahn tão, obedientes às ordens e ahn: tão cumpridores dos deveres e assim por diante, por isso ahn havia ahn, tantos suboficiais saídos das fileiras de alemães que serviam no exército.

Diferentemente do interesse da apresentação de expor que os alemães eram prejudicados, Sergej fala das manifestações positivas de um oficial sobre ele nos primeiros meses de seu serviço militar. Esses enunciados fazem com que Sergej, ao falar sobre esses acontecimentos, fundamente –provavelmente sem que o tenha planejado–, com isso, a ascensão de alemães para a carreira de oficiais. Essa informação, entretanto, está em contradição com o tema comprobatório de uma discriminação sofrida pelos alemães – abstraindo da circunstância de que, na sequência, ficamos sabendo que nas forças armadas os alemães não poderiam ascender além das patentes de suboficial. Além disso, aqui se indica a possibilidade de que o próprio Sergej tenha seguido a carreira de oficial. Ele diz na continuação:

e ahn, bem, eu também prestei um bom serviço, mas, mesmo assim, foi ahn despachado para uma outra ahn unidade e lá eu ahn servi até o fim do meu serviço ((suspira)) (3), ahn por assim dizer ((ri de leve))…

Não ficamos sabendo como transcorreu o resto do serviço militar; ele só comunica uma transferência e então, com suspiro e riso, passa para o fim da época que serviu no exército. Será que o “servi … por assim dizer” não representa algo incompatível com um rebaixamento ou uma discriminação? Essa passagem de texto indica, em todo caso, que a discriminação como alemão no exército pode ser uma reinterpretação feita a partir de uma perspectiva adotada mais tarde. Podemos supor que a lembrança dessa situação ou daquela época não ofereça ao narrador um noema recordativo que combine com isso, isto é, não lhe ocorre outro componente dessa situação que pudesse comprovar o interesse da apresentação de mostrar que ele teria sido transferido por causa de sua pertença étnica. A suposição de que Sergej esteja se esforçando, sobretudo a partir da perspectiva do presente, para descobrir situações em seu passado que documentem uma discriminação, mas que na época essas situações dificilmente tenham sido vivenciadas por ele dessa maneira, pôde ser tornada mais plausível ainda pela análise de outras narrativas comprobatórias. Além disso, os comprovantes (de discriminação) aduzidos por Sergej são um tanto fracos. Ele menciona, por exemplo, que uma vizinha perguntou à sua mulher (de etnia russa) por que ela casou com um alemão. Ademais, algumas das narrativas comprobatórias de Sergej contêm repetidamente indicações de sua identificação passada com o sistema soviético e, principalmente, de sua bem-sucedida ascensão profissional nas instituições estatais. Fica claro, ainda, que ele evita dar informações mais exatas sobre suas ações no exército e suas atividades profissionais –provavelmente porque também teve de assumir o compromisso de silenciar sobre suas ações no exército e assuntos semelhantes– e procura ocultar sua identificação passada com a União Soviética. Essa interpretação pôde ainda ser corroborada por mais uma entrevista feita com Sergej. Com base na análise, nessa segunda conversa a entrevistadora se concentrou em conclamá-lo a contar a respeito de seu tempo no exército e sua trajetória profissional. As respostas dele continham indicações claras de que tinha servido numa unidade militar secreta.

Com essa análise, porém, de modo algum se deseja causar a impressão de que meu ponto de partida seja o de que os filhos e filhas dos alemães coletivamente discriminados na União Soviética não foram ou que nunca tenham sido discriminados. O caso deixa claro, contudo, que esse homem, assim como muitos outros de sua geração de alemães na URSS, conseguiu ascender profissionalmente e se integrar na sociedade soviética ou russa (ver Fefler e Radenbach, 2009). O esforço pela ascensão pode, tanto no caso de Sergej quanto no de outros membros de sua geração, ser interpretado, entre outras possibilidades, como uma tentativa de reparação do passado familiar psiquicamente oneroso e também do passado familiar onerado por um estigma social; como mostram nossas análises, em muitos casos esse esforço também foi acompanhado de uma negação ou mesmo rejeição da pertença étnica transmitida pela descendência familiar (Rosenthal e Stephan, 2009). Entretanto, após as consideráveis decepções e a desvalorização de suas realizações educacionais e profissionais após a migração para a Alemanha –que também sua esposa, que na Rússia era realmente bem-sucedida em termos profissionais, teve de vivenciar–, esse biografado está empenhado em interpretar a migração como uma decisão biográfica correta ou necessária e, correspondentemente, a ver seu passado no campo temático da discriminação. Além disso, na entrevista com seu pai ficou claro que este, assim como a mãe de Sergej, era decididamente contrário à emigração. O pai se apresentou com uma atitude de oposição à Alemanha e insistiu numa entrevista feita na língua russa, embora tivesse conhecimentos de alemão. Na até agora última entrevista feita com Sergej em 2007, ficamos sabendo também que sua esposa tinha voltado para a Rússia e seu pai se alterna entre a Rússia e a Alemanha.

Conclusão

Com esse exemplo, procurei mostrar até que ponto a construção, realizada no presente, de uma vivência passada correspondente a um interesse de sua apresentação no presente que só é pouco compatível com o passado vivenciado, ainda assim não é viável de um modo inteiramente independente do que foi vivenciado no passado. O que se oferece, a partir da recordação, no presente da narração, tem seus elementos recordativos – e todo noema recordativo remete a outros noemas possíveis do mesmo sistema noemático. Isso quer dizer que em cada noema recordativo também estão dadas outras apresentações possíveis –como no caso da transferência para outra unidade do exército– com as quais ele constitui, em conjunto, um complexo coeso e mais amplo de associações temáticas possíveis ou plausíveis e mutuamente concatenadas. Nessa relação básica entre noema e sistema noemático, isto é, entre parte e todo, se reproduz o relacionamento existente entre noema recordativo e vivência. Na medida em que o respectivo noema recordativo se refere a uma vivência passada e remete ao sistema noemático em seu conjunto, portanto também ao noema da experiência, o passado repercute no presente. É perfeitamente possível que a experiência, quando se volta de novo para ela na recordação, se apresenta ou ofereça de maneira diferente do que o fez até agora, e possivelmente de forma mais “próxima” do que se vivenciou no passado. O processo da recordação de uma experiência sempre possibilita também que se ofereça algo novo em termos noemáticos e, com isso, tornese possível um novo significado da experiência que se oferece à lembrança. Assim, por exemplo, pode-se imaginar que, num processo recordativo aberto, não suprimido, Sergej se lembrasse de aspectos de discriminações que, nas situações vivenciadas, negou para si mesmo por causa de seu desejo passado de integração ou que não vivenciou como tais, não com esse significado.

A relação dialética entre experiência, recordação e narração significa, portanto, o seguinte: as experiência situadas no passado não podem se apresentar ou oferecer aos biografados, no presente da recordação e narração, da maneira como foram vivenciadas, mas só da maneira como se oferecem, isto é, só na interrelação entre o que se oferece no presente da narração e o que a pessoa quer dizer. Mas não é só a situação narrativa que constitui a experiência que se apresenta no processo de narração e recordação; também o noema recordativo que se apresenta a partir da memória já determina previamente uma estruturação.

As narrativas de experiências feitas pela própria pessoa remetem tanto à vida atual com esse passado quanto à experiência ocorrida no passado. Assim como o passado se constitui a partir do presente e do futuro antecipado, o presente surge a partir do passado e do futuro a que se visa e que se anuncia. E, assim, narrativas biográficas informam tanto sobre o presente do(s) narrador(es) quanto sobre seu passado e sua perspectiva em relação ao futuro. Até mesmo narrativas fictícias, portanto histórias inventadas, que servem para encobrir vivências ou reescrever a própria biografia, têm seu teor de realidade no sentido de que, por um lado, participam da criação da realidade presente e, por outro lado, contêm vestígios da realidade ou do passado negados (ver Rosenthal, 2002). Em sua tentativa de negar a realidade vivenciada, elas remetem, em seu conteúdo e sua estrutura, àquilo que visam negar, “pois também na negação nos orientamos basicamente por aquilo que negamos e somos involuntariamente determinados por ele” (Mannheim, 1928, p. 181).

Tradução do alemão por Luis Marcos Sander, com apoio do CNPq (edital 15/2011) e revisão técnica de Hermílio Santos. Publicado com autorização da autora

1Infelizmente, nos últimos anos se estabeleceu uma utilização realmente inflacionária do termo “entrevista narrativa” – de modo totalmente independente de as entrevistas assim designadas terem sido feitas, ainda que apenas aproximadamente, com uma técnica de entrevista narrativa.

2Uma discussão detalhada dessas diferenças se encontra em Rosenthal (1995, cap. 3).

3O noema se refere àquilo que se apresenta à consciência – seja na percepção direta, na lembrança ou na imaginação (Husserl, 1976, cap. 3). Ao passo que na noesis se trata do “como” da atenção a algo, no noema se trata do “como” da apresentação de algo. O termo “noema” não se refere ao objeto (ou acontecimento) pura e simplesmente, e sim ao “objeto no ‘como’ de seu estar suposto, o objeto assim –exatamente assim, mas somente assim– como ele se apresenta no ato da consciência do qual se está falando, como ele é apreendido e intencionado nesse ato, o objeto exatamente na perspectiva, orientação, claridade e papel em que ele se apresenta” (Gurwitsch, 1959, p. 426).

4O projeto de pesquisa “Biografia e história coletiva” –que foi precedido por um estudo piloto de dois anos de duração (Rosenthal, 2005b)–, por mim dirigido, foi financiado pela DFG do início de 2007 até o fim de 2009. Viola Sephan, Irina Fefler e Niklas Radenbach trabalharam como colaboradores nesse projeto. Agradecemos à DFG por seu apoio, que possibilitou a execução de nosso projeto.

5“Pessoas que emigraram tardiamente” é, diferentemente de “pessoas que emigraram”, uma designação que se refere aos e às migrantes de famílias com pertença étnica alemã dos estados da Comunidade dos Estados Independentes que emigraram a partir de 1993 e –diferentemente dos que emigraram anteriormente– foram atingidos por condições de admissão mais rigorosas. A partir de 1996, essas pessoas também tiveram de se submeter a um teste linguístico realizado pelo órgão federal de administração em diversos locais nas áreas das quais são provenientes para provar sua pertença étnica e receber a cidadania alemã.

6Quanto às particularidades das distintas gerações genealógicas, mas também históricas (nos termos de Karl Mannheim) nesse grupo de migrantes, ver Rosenthal e Stephan (2009).

7No ano de 2004, Anne Blezinger entrevistou (como colaboradora de nosso projeto-piloto) Sergej, seu pai e sua filha. No ano de 2005, ela fez uma segunda entrevista com Sergej e, em 2007, Viola Stephan conversou mais uma vez com ele. Uma exposição mais detalhada dessa família se encontra em Rosenthal (2005b).

8O nome foi modificado e os dados, levemente alterados para preservar o anonimato. Os dados da história de vida só são listados até o momento da primeira entrevista, cuja avaliação apresento aqui.

9A condenação coletiva ocorreu em conexão com a investida do exército alemão contra a União Soviética em agosto de 1941 por causa de uma suspeita geral de colaboração dos alemães étnicos com a Alemanha nazista. As consequências do decreto a ela associado, segundo o qual eles perderam os direitos de cidadania, seriam reassentados na Sibéria e Ásia Central e seriam, em grande parte, presos em campos de trabalhos forçados (do chamado “exército do trabalho”), foram diferentes dependendo da região em que estavam estabelecidos em 1941 ou também de sua respectiva situação biográfica (por exemplo, casados com um russo étnico) (Mukhina, 2007, p. 41ss). Muitos deles vivenciaram o banimento e a prisão nos acampamentos sob condições de vida e de trabalho extremamente difíceis e desumanamente cruéis. O “exército do trabalho” só foi dissolvido em 1948. A partir de 1956, os alemães que viviam em locais especiais puderam deixá-los e, em 1964, ocorreu uma reabilitação parcial. Mas, na sequência, oficialmente eles não podiam retornar para suas áreas de origem, embora também nesse caso tenha havido exceções.

10Depois da Perestroika e do colapso da União Soviética, no período entre 1989 e 2007 cerca de 2,2 milhões de pessoas de origem alemã emigraram da União Soviética ou dos estados que a sucederam para a Alemanha. Ver Bundesverwaltungsamt (ed.). Spätaussiedler und deren Angehörige – Verteilverfahren. Jahresstatistik 2007 – Alter, Berufe, Religion.

11A explicação dos sinais de transcrição se encontra no final.

Códigos de transcrição

,

= pausa curta

(4)

= duração da pausa em segundos

Sim:

= prolongamento de uma vogal

((rindo))

= comentário do transcritor

/

= início do fenômeno comentado

não

= acentuado

NÃO

= alto

muit-

= interrupção de uma palavra ou expressão

‘não’

= baixo

( )

= Conteúdo da manifestação é incompreensível; a extensão dos parên teses corresponde aproximadamente a duração da manifestação

(ele disse)

= transcrição insegura

Sim=sim

= conexão mais rápida

sim assim foi não eu

= fala simultânea a partir de “assim”

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Recebido: 16 de Junho de 2013; Aceito: 14 de Abril de 2014

Autora correspondente: Gabriele Rosenthal, Methodenzentrum Sozialwisseschaften, Platz der Göttinger Sieben 3, 37073 Göttingen - Alemanha.

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