SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.14 número2Narrar – mostrar – ver: Como analisar um álbum de fotos de família em conexão com uma entrevista narrativaAnálise de narrativas segundo o método documentário: Exemplificação a partir de um estudo com gestoras de instituições públicas índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.14 no.2 Porto Alegre maio/ago. 2014  Epub 15-Jun-2020

http://dx.doi.org/10.15448/1984-7289.2014.2.17151 

Dossiê: Narrativas - teorias e métodos

Jovens migrantes poloneses na Alemanha de 1989 a 1999: Autoalienação e anomia interacional

Young Polish migrants to Germany from 1989 to 1999: Self-alienation and interactional anomy

Katarzyna Waniek* 

*Doutora em sociologia pela Universität Magderburg (Alemanha), professora do Departamento de Sociologia da Cultura na Universidade de Łódź, Polônia <k.m.waniek@googlemai.com>.


Resumo:

Este artigo trata dos poloneses que deixaram seu país voluntariamente e sem problemas no período entre a queda do comunismo na Polônia, em 1989, e alguns anos antes da ampliação da União Europeia para o leste, em maio de 2004. Concentra-se em pessoas que eram jovens no momento de sua chegada na Alemanha (ou seja, não mais que 30 anos de idade) e por isso constitui um grupo de uma geração “nova” ou “jovem” de imigrantes poloneses na Alemanha. Procura-se aqui descrever algumas condições balizadoras que provocam distúrbios no processo e/ou promovem o desenvolvimento de trajetória de sofrimento, ou seja, ilustrar e analisar várias circunstâncias sociais e biográficas que tornam o processo de imigração difícil ou que resultam em uma anomia interativa e aumentam a dinâmica das trajetórias. Essas condições de enquadramento surgem de análises acuradas de entrevistas narrativas autobiográficas com jovens poloneses na Alemanha.

Palavras-chave: Entrevista narrativa autobiográfica; Imigrantes poloneses na Alemanha; Trajetória de sofrimento; Marginalidade

Abstract:

This article is concerned with the Poles who left their homeland voluntarily and trouble-free in the period between the fall of communism in Poland in 1989 and some years before the eastern enlargement of the EU in May 2004. It concentrates on people who were young at the time of their arrival in Germany (i.e., not older than 30 years) and therefore constitute a group of a ‘new’ or ‘young’ generation of the Polish immigrants in Germany. An attempt is made here to describe some framing conditions that disturb the immigration process and/or enhance the development of the trajectory of suffering, i.e., to illustrate and analyse various social and biographical circumstances that make the immigration process difficult or that result in interactional anomy and enhance the trajectory dynamics. Those frame conditions emerged from very scrupulous analysis of autobiographical narrative interviews with young Poles in Germany.

Keywords: Autobiographical narrative interview; Polish immigrants to Germany; Trajectory of suffering; Marginality

O questionamento

O artigo se ocupa dos jovens migrantes poloneses na Alemanha que, por ocasião de sua chegada ao país que os acolheu, não tinham mais de 30 anos e só entraram na Alemanha, pouco depois unificada, após 1989.1 Trata-se, em todos os casos, de uma emigração2 voluntária para a Alemanha – em contraposição à emigração de dissidentes políticos, por exemplo, na época da vigência da lei marcial na Polônia. Nenhum dos migrantes poloneses por mim entrevistados emigrou para a Alemanha pela razão “ideal” do sentimento de pertença à nação alemã; o mesmo se aplica a todos os silésios entrevistados (com isso se contraria uma noção-padrão alemã etnocêntrica e errada). Os motivos para a imigração para a Alemanha foram, como se pode depreender das entrevistas, (a) o desejo de melhoria das condições de vida em termos econômicos, (b) o seguimento de uma carreira profissional – ou então (c) particularmente no caso de mulheres, o acompanhamento do marido na trajetória profissional dele ou dele e dela na Alemanha ou o casamento com um parceiro alemão.

A investigação é de particular relevância sob quatro pontos de vista: em primeiro lugar, já existe um movimento migratório intensivo da Polônia para a Alemanha há cerca de 200 anos. E, em segundo lugar, é interessante especificar o caráter biográfico-cultural da mais recente onda de emigração da Polônia para a Alemanha em contraste com ondas imigratórias anteriores (por exemplo, aquela do final do século 19 e início do século 20, que foi descrita em 1918 na famosa obra de William Thomas e Florian Znaniecki intitulada The Polish peasant in Europe and America (Thomas; Znaniecki, 1918-1920) no tocante à imigração de poloneses na região do Ruhr. Nesse contexto se poderia, naturalmente, também perguntar se, por ocasião da mais recente onda imigratória, uma atratividade cultural particular da Alemanha poderia ter certa importância além da econômica. Em segundo lugar, é de particular relevância o repúdio histórico desastroso da relação entre a Polônia e a Alemanha por causa dos crimes do regime nazista na Polônia e do subsequente reassentamento das pessoas dos antigos territórios orientais da Alemanha para o oeste. A questão que se coloca, portanto, é a seguinte: essa dupla sombra particularmente escura da história aparece nos encontros interacionais dos migrantes poloneses com alemães? Em terceiro lugar, pode-se perguntar se na experiência dos jovens poloneses na Alemanha aparece de alguma forma a orientação por um marco discursivo comum da Europa (o que, para dizê-lo antecipadamente, quase não é o caso) e que papel, em contraposição a isso, desempenha o horizonte de sentido da nação (para indicá-lo logo: um papel muito considerável). E, em quarto lugar, pode-se perguntar, finalmente, o que o exame e a análise teórica generalistas da emigração ou imigração de jovens poloneses para a Alemanha, como qualquer outra migração, produz em termos de novos conhecimentos para as ciências sociais, isto é, o modo de ver a migração (de qualquer país para qualquer país) como incisivo processo de mudança biográfica nos moldes de um processo biográfico de sofrimento e aprendizado de longa duração com dolorosos efeitos lesivos e transformadores sobre a conformação identitária dos respectivos migrantes e com um comprometimento temporário profundo, mas depois também com uma possibilidade produtiva de desenvolvimento ulterior de sua capacidade de orientação, comunicação, interação e ação. Neste tocante, entretanto, pode-se, ao mesmo tempo, colocar, por outro lado, a pergunta se a posição de hibridez e marginalidade –que hoje em dia se tornou bem costumeira, “normalizada”– do imigrante como o essencialmente estranho (Park, 1961; Stonequist, 1961; Schütz, 1990a; 1990b) na atual era de processos de migração geográfica globalizada com suas possibilidades de viagens enormemente facilitadas e aceleradas.

Orientações teórico-fundamentais e metodológicas

Como já se indicou, minha contribuição parte, em termos teórico-fundamentais, da tradição de pensamento da sociologia fenomenológica (particularmente Alfred Schütz, 1990a e 1990b bem como Berger e Luckmann, 1991) e daquela da sociologia de Chicago (Thomas; Thomas, 1928 e Znaniecki, 1973; Mead, 1934; Blumer, 1969; Park e Miller, 1969; Stonequist, 1961) e de seu filho intelectual, o interacionismo simbólico (Goffman, 1972; 1974; 1990a e 1990b; Strauss, 1969; 1991; 1993; Strauss e Glaser, 1967; 1968; Turner, 1968, entre outros).

Da sociologia fenomenológica assumo as concepções centrais, em termos teórico-fundamentais: (a) do universo do cotidiano e de seus padrões de cultura e civilização em forma de conhecimentos do cotidiano, estruturas de relevância prática e roteiros de expectativas naturais; (b) do universo simbólico, isto é, da integração do conhecimento do cotidiano e de suas estruturas de relevância dentro de um cosmo orientacional que garante segurança de legitimação e orientação coletiva, ordem acional e estabilidade identitária e (c) das idealizações da socialidade, isto é, das suposições mútuas referentes a perspectivas recíprocas e respectivas orientações mutuamente relacionadas dos interagentes, no tocante a conhecimentos e significados linguísticos compartilhados em comum e no tocante a relevâncias biográficas ou interesses acionais suficientemente sobrepostos, pontos de vista interpretativos e definições de situações dos processos sociais em andamento no presente, particularmente dos processos interacionais “aqui e agora”, bem como as suposições dos outros a respeito da própria pessoa nos processos interacionais em andamento no presente. Justamente o não funcionamento das idealizações de socialidade, que é típico em situações interacionais do início da vida de imigração, questiona a capacidade de funcionamento dos conhecimentos do cotidiano e dos roteiros de expectativas que o imigrante trouxe junto consigo bem como o universo simbólico que os integra e, por conseguinte, também o desenvolvimento da identidade biográfica da migrante.

Da sociologia de Chicago e do interacionismo simbólico dela proveniente adoto (a) o conceito teórico-fundamental da concepção identitária trimodal de Mead e Blumer do eu, do me ou mim e do si mesmo e da moldagem do mim pelos parceiros interacionais como outros significativos. Esses parceiros interacionais confrontam a migrante, no entorno cultural radicalmente novo do país de acolhida, como essencialmente estranhos, mas que são, ao mesmo tempo e de modo peculiarmente generalizado, biograficamente significativos também para ela e, assim, eles exercem sobre o mim dela ou sobre seu conglomerado de início relativamente desorganizado de imagens diversas de mim no estrangeiro um enorme efeito transformador da identidade. Isso acontece particularmente na forma das experiências feitas nas interações cotidianas com pessoas naturais do país –e, em parte, certamente também na forma de suposições inferidas indiretamente dessas interações– em relação aos persistentes heteroestereótipos dos nacionais do país de acolhida frente às características da migrante “esquisita”, para eles culturalmente estranhas, vistas justamente também por eles como incomensuráveis em termos de caráter. (b) Além disso, assume-se do interacionismo simbólico (de Ralph Turner, 1968) a distinção importante entre o task-directed self e o identity-directed self. O primeiro estado agregativo do si mesmo individual (do migrante) está, em termos de orientação, inteiramente voltado para as urgentes tarefas atuais e práticas da acomodação existencial na situação de vida no estrangeiro, junto com todas as suas tarefas organizacionais direcionadas para determinadas finalidades. Trata-se, neste caso, de um estado identitário em que o indivíduo se esquece de si mesmo e não reflete sobre si mesmo. Só depois que essas tarefas de acomodação pendentes imediatamente após a entrada no país estão resolvidas, o imigrante se dá conta das profundas desorientações e transformações de sua autoidentidade e começa, no estado agregativo do identity-oriented self, a buscar uma redefinição sustentável do si mesmo. (c) Da sociologia de Chicago (particularmente de Thomas, 1928 e Park, 1961) se assume, ainda, a noção das diversas espécies de adaptação à nova situação de vida no país de imigração. A acomodação consiste apenas no ganha-pão acomodatício estrategicamente restrito do imigrante como mera máquina de ganhar a vida. Com tal postura de máquina de ganhar a vida o imigrante não leva, portanto, uma vida que estivesse cultural e relacionalmente inserida no novo entorno social e em que ele precisasse se preocupar e efetivamente se preocupasse em termos “morais” com as imagens de mim com que os naturais do país o confrontam. A isso também se refere a concepção teórico-fundamental do “marginal man” de Park e Stonequist, que significa um estado agregativo de identidade cultural e biográfica “mista” na fronteira ou na interface entre duas comunidades cultural-nacionais e se caracteriza por uma “hibridez” cultural. Nos textos de Park e Stonequist se fazem presentes duas noções dessa hibridez: por um lado, uma noção de dilaceramento entre as duas identidades cultural-nacionais com enormes conflitos de lealdade e inseguranças quanto à identidade pessoal e, por outro lado, uma noção de domínio distanciado e autorreflexivo de ambas as culturas nacionais, de seu emprego adequado à situação e de sua conexão produtiva. A importante socióloga polonesa da cultura Antonina Kłoskowska (1992; 2001) cunhou para isso o feliz conceito de “bivalência cultural”. (d) Da sociologia de Chicago e de seu desenvolvimento ulterior no interacionismo simbólico provêm, além disso, diversas concepções da conexão teórico-fundamental de atribuições de características definidoras de identidade dos interagentes entre si e uns para os outros com processos interacionais em andamento no presente e sua força criadora de realidade. Isso quer dizer que nas interações em andamento no presente definições mútuas de identidade dos interagentes participantes (p. ex. em termos de créditos de confiança, tipificações e estereotipificações) intervêm e transformam a situação interacional e que os processos interacionais, por sua vez, têm um efeito de transformação identitária sobre as definições de identidade e os estados de identidade dos interagentes. Por fim, utilizo (e) concepções provenientes tanto de fontes da sociologia fenomenológica quanto da tradição de Chicago que associam, em termos teórico-fundamentais, conhecimento do marco social com interação e identidade. Assim, as esferas interacionais e identitárias também são caracterizadas, apoiadas e transformadas por produções e agregados de conhecimento referentes à conformação de marcos sociais, como definições da situação (Thomas, 1928) e o universo simbólico (Strauss, 1969; em Mead, 1934, o “outro generalizado”); a diversidade fundamental de tais concepções de conhecimento do marco acarretam crises interacionais e ameaças à identidade entre os interagentes participantes.

Duas outras concepções teórico-fundamentais e metodológicas importantes de minha pesquisa, que foram de particular importância para a obtenção e análise dos dados, são (a) a pesquisa de biografias com base na entrevista autobiográfico-narrativa que se desenvolveu a partir da adaptação europeia da tradição de Chicago da sociologia, incluindo a tendência de Znaniecki e Kłoskowska da sociologia polonesa e incluindo a sociologia linguística alemã e a pesquisa hermenêutica alemã de autobiografias, e as categorias teórico-fundamentais –ligadas a essas adaptações da pesquisa de biografias de Chicago– de avaliação das estruturas processuais do transcurso de vida (Riemann; Schütze, 1991; Schütze, 1996), sendo que a estrutura processual das trajetórias de sofrimento e a estrutura processual da mudança biográfica são de particular relevância para a análise de processos migratórios (Schütze, 1981; 1983; 1984) e (b) a análise da argumentação desenvolvida na Polônia para a pesquisa de passagens de comentários abstraídas de entrevistas narrativas autobiográficas, que, nos textos escolhidos por mim, referem-se sobretudo às experiências críticas de interação de migrantes com os hetero-estereóticos dos alemães e que fornece importantes esclarecimentos por meio de categorizações nacionais concorrentes com uso de referências do conceito de nação (sobretudo Czyżewski, 2005; Czyżewski et al., 1996, Piotrowski, 1999; Piotrowski et al., 1997 e Kaźmierska, 2003, 2012, em parte fazendo referência a Kłoskowska).

Problemas estruturais da migração

Toda migração desencadeia problemas estruturais para as pessoas envolvidas (a menos que se trate da migração de elites econômicas, tecnológicas, científicas e artísticas extremamente privilegiadas), que, em parte, já receberam atenção por parte da literatura-padrão das ciências sociais:

  1. Ocorrem uma desvalorização do capital educacional trazido pelo migrante e uma degradação do status profissional.

  2. Aparecem graves dificuldades comunicacionais, que, em sua maior parte, baseiam-se na barreira linguística, mas em parte também nas compreensões diversas das culturas subjacentes. Isso, por si só, já acarreta automaticamente mecanismos de exclusão social numa figuração de tensão entre os já estabelecidos e os outsiders.

  3. Além disso, a população nacional quase sempre reage com inveja econômica aos primeiros sucessos no estabelecimento de imigrantes e aos recursos estatais (de fato apenas muito escassos) que lhes são concedidos, pois os imigrantes não são vistos como pertencentes à própria comunidade coletiva dos nacionais (“nós”) que tem direito à assistência social. Além disso, os padrões culturais estranhos dos imigrantes são percebidos, mistificados e rejeitados com perplexidade ou irritação pelos nacionais. Isso leva a uma exclusão social adicional dos migrantes na figuração dos já estabelecidos e dos outsiders mencionada acima.

  4. Como habitantes de segunda classe e com menos direitos do país de imigração, os migrantes têm de abrir mão de muitos mecanismos de apoio do estado, do município, da sociedade civil e da vizinhança que estão acessíveis para os nacionais. Isso dificulta mais ainda sua nova situação de vida, que, de qualquer maneira, já está caracterizada e onerada pela perda das estruturas institucionais e organizacionais ordenadoras e possibilitadoras da sociedade de origem da qual partiram e pela perda das rotinas de segurança e evitação estabelecidas por essa sociedade. Portanto, o desfavorecimento institucional, organizacional e material, bem como o “despejo” e a insegurança sistemáticas por ele estabelecidos, são características estruturais constantes da vida dos migrantes.

  5. Nas dificuldades da vida na nova sociedade os migrantes têm de abrir mão, em grande parte, dos outros significativos conhecidos, que ficaram no país de origem e cujo conhecimento dos problemas realista, localmente contextualizado e “aterrado [no sentido de ligado à terra]” representaria um apoio decisivo justamente agora, na nova situação de vida tão incomum. Portanto, características constantes a vida dos migrantes são também um profundo isolamento social e privações de ajuda por parte do entorno social.

Já em face das razões estruturais recém-esboçadas se pode constatar que praticamente todo processo migratório individual é um intensivo e demorado processo com trajetórias de sofrimento que é marcado por condições sistêmicas heterônomas poderosas e muitas vezes não compreendidas da vida no estrangeiro e pela interferência contingente de relevâncias condicionais adversas.

A trajetória de sofrimento da autoalienação

O processo da trajetória da migração não é, porém, apenas uma cascata de acumulação de importantes condições externas que, paulatinamente, dificultam cada vez mais a vida no estrangeiro e reduzem e, em parte, paralisam inteiramente as próprias competências para a ação intencional. Afinal, de tais dificuldades externas seria possível se distanciar, numa atitude teórico-contemplativa voltada para dentro, ao menos emocionalmente; nessa atitude interior, poder-se-ia sobreviver a elas e “aguentá-las” até que passassem, e depois possivelmente ainda se seria a mesma pessoa, com sua personalidade individual incólume. Mas, além dessas adversidades externas, na emigração também ocorre efetivamente uma alienação interior da migrante em relação a si mesma. Esse é um processo biográfico que ameaça a identidade e ainda intensifica consideravelmente a trajetória de sofrimento. Portanto, a trajetória de sofrimento dos emigrantes se torna adicionalmente uma trajetória de autoalienação, em que, além das dificuldades externas, a continuidade, incolumidade, a possibilidade de criação de sentido –bem como a competência biográfica para a moldagem da própria vida– da própria identidade individual se encontram em jogo e em que a incisiva transformação e ampliação pessoal-cultural necessária, no processo migratório, para a preservação da integridade, autenticidade e competência identitária se torna fundamentalmente imprevisível de modo profundamente desconcertante.

Ora, como ocorre essa profunda insegurança identitária? Naturalmente se pode, de início, partir do pressuposto de que processos de sofrimento que interferem na biografia da pessoa transformam, na sistemática de sua trajetória, automaticamente aspectos da identidade do indivíduo afetado por eles. Mas isso não precisaria acarretar necessariamente uma transformação fundamental do cerne da própria identidade, da própria autoconcepção e das próprias atitudes de vida sistemáticas, mas também poderia afetar apenas relevâncias relacionais, competências acionais e orientações situacionais periféricas da identidade, como acontece, em muitos casos, quando da aparição de uma doença crônica. Portanto, um outro mecanismo fundamental entra em jogo ainda: o questionamento da totalidade do universo simbólico trazido pela migrante de sua sociedade de origem face às adversidades da vida na nova sociedade. Isso é assim porque essas adversidades não consistem apenas nas condições externas, isto é, na degradação do status profissional, nos mecanismos de exclusão social no marco de uma figuração entre estabelecidos e outsiders, na desvantagem material e na insegurança material-existencial da situação de vida, bem como no isolamento social e na privação de ajuda por parte de amigos e da família, mas, além disso, ainda na invalidação contínua dos roteiros de expectativas do próprio conhecimento cotidiano trazido pela migrante em concorrência com os roteiros de expectativas do conhecimento cotidiano, em grande parte diferentes, vigentes na sociedade de acolhida. Estes últimos roteiros de expectativas são socialmente compartilhados pelos integrantes nacionais da sociedade de acolhida e estão institucionalizados como universo simbólico (Berger; Luckmann, 1991) específico do âmbito de vida e socialmente normativo da sociedade de acolhida, e, por conseguinte, reivindicam um poder natural de orientação e interação que, na experiência e perspectiva individual da migrante, se volta –particularmente em situações interacionais anômicas (Durkheim, 1951) (isto é, sistematicamente equívocas, malsucedidas ou até desastrosamente fracassadas)– contra o universo simbólico próprio que ela trouxe junto ao imigrar.

Anomia interacional, a cisão no desenvolvimento identitário, a desvalorização do capital educacional e os estágios da trajetória de autoalienação

A experiência incisiva da trajetória da migrante ou do migrante é, como já se acentuou, não só de sofrimento de adversidades estruturais, exclusões, desvantagens e incompetências acionais. Ela é, ao mesmo tempo, também uma experiência de uma considerável autoalienação e ameaça da integridade da identidade biográfica própria. Ocorre uma cisão incisiva no desenvolvimento identitário (juntamente com seu fluxo temporal interno) e da concepção da identidade biográfica em relação ao futuro, como Corbin e Strauss (1991, p. 356) o descreveram no caso de pacientes com doenças crônicas de aparição súbita, de caráter incisivo e ameaçador da vida. Essa cisão no desenvolvimento identitário tem, muitas vezes, um impacto muito maior sobre o desenvolvimento biográfico futuro do migrante do que as adversidades estruturais externas da organização da vida no país estrangeiro. (É ocioso dizer que os dois componentes da trajetória de migração se reforçam mutuamente).

O trabalho vê, com base em sua pesquisa empírica, condensados os seguintes mecanismos de movimentação das trajetórias combinadas de adversidades e autoalienação da migração, que, no que se segue, são enumerados na ordem sequencial aproximada de seu surgimento durante o processo de migração nos termos de uma história com um transcurso natural, embora sejam possíveis sobreposições e concorrências entre estágios diversos, repetições de um estágio ou regressões, aprofundamentos cíclicos de um estágio bem como avanços rápidos para estágios posteriores, portanto diversas mutações da organização sequencial das fases da trajetória:

  1. A migrante vivencia, de modo persistente e repetitivo, anomia interacional incisiva num triplo sentido: caso as relações históricas entre a nação de origem e a nação de acolhida tenham sido muito problemáticas em tempos recentes, a migrante se depara, em comunicações com nacionais, perspectivas do passado histórico do relacionamento de ambas as nações que contradizem diametralmente sua própria perspectiva de fatos históricos e de sua ordem geral, isto é, contradizem sua percepção do que é factualmente correto. Com isso, ela se depara, ao mesmo tempo, com opiniões que desprezam o que está nomicamente ordenado e é moralmente justificado no universo simbólico que trouxe consigo. Ela também precisa se confrontar com os heteroestereótipos negativos das pessoas no país de acolhida também concretamente em relação a si mesma como “exemplar” de uma espécie nacional abstrata e geral sob a qual é subsumida por aqueles nacionais abstraindo de qualidades bem pessoais.

  2. Com base na vivência contínua de anomia interacional incisiva, na qual a pertença nacional causadora de separação passa para o primeiro plano de atenção da migrante, ocorre –do ponto de vista teórico-fundamental– uma equiparação errada, vivenciada no plano pré-teórico, do universo simbólico de origem que ela trouxe consigo, mas que na sociedade de acolhida é vivenciado como objeto de repúdio, com a comunidade nacional coletiva da sociedade de origem e sua cultura. A pertença à sociedade nacional coletiva de origem recebe, na equiparação do universo simbólico trazido junto na imigração, da pátria antiga e da nação de proveniência, uma relevância biográfica que não tivera até então. A acentuação da diferença da nação de origem estabiliza a própria estrutura identitária da migrante, mas dificulta sua adaptação ao novo universo simbólico no país de acolhida e seus padrões culturais.

  3. A migrante ou o migrante vivencia, muitas vezes, a desvalorização total de seu capital educacional profissional e é obrigado a presenciar o colapso de sua carreira profissional pregressa. (Isso se aplica especialmente a mulheres que encontram um parceiro de vida no país de destino).

  4. A migrante está, muitas vezes, exposta a mecanismos que a enganam a respeito das possibilidades de vida e desenvolvimento no país de destino. Isso se aplica particularmente ao desenrolar de imigrações que ocorrem na esteira de uma cadeia migratória, mas também a outros processos migratórios. Além disso, nesse contexto se torna atuante, muitas vezes, a constelação relacional objetivamente irônica da “enganadora enganada” – de tal forma que a pessoa que foi inicialmente iludida, nas notícias que envia sobre a nova vida às pessoas de sua antiga pátria e em suas autoapresentações ao passar as férias nela, torna-se ela própria, por sua vez, uma enganadora de modo (mais ou menos) intencional ou não intencional.

  5. Justamente quando a migração é profissionalmente bem-sucedida, a pessoa se engana a respeito de sua extensão temporal e não leva suficientemente em consideração ou até aceita aprovativamente o fato de deixar o parceiro de vida pregresso ou prospectivo esperando por tempo demais no país de origem. Sem, a rigor, tencionar isso, ela o perde, desenvolve, em relação a isso, fortes sentimentos de culpa, apega-se à figura ideal de um novo parceiro a ser ainda procurado que só se poderia encontrar na nação de proveniência e, por isso, não se abre para novas relações com um parceiro ou uma parceira no país de acolhida. O resultado disso é uma vida solitária no país de acolhida sem outros significativos centrais.

  6. As visitas temporárias à pátria reforçam a vivência de autoalienação sistemática do migrante. Ele percebe, assim, sua situação de marginalidade essencial, pois tem de admitir para si mesmo que, por causa de sua prolongada não participação nas mudanças ocorridas no país de origem e por causa da própria transformação identitária pela qual passou na esteira de sua enculturação secundária na sociedade de acolhida, a partir de agora ele também é sistematicamente estranho na sociedade da qual veio. Mas, por outro lado, ele tampouco tem, ao mesmo tempo, a oportunidade de se assimilar plenamente ao universo simbólico e à cultura do país de acolhida. Nas situações interacionais tipicamente decepcionantes, isto é, crassamente equívocas, demonstrativas de estranheza e/ou dolorosamente malsucedidas, do migrante que volta para casa e se tornou estranho a ela, ele vivencia, portanto, definitivamente, nos moldes de uma ilustração insistente do point of no return, a perda do universo simbólico do país de origem, e, ao mesmo tempo, ele é obrigado a admitir adicionalmente –o mais tardar ao viajar de volta para o país de acolhida– a incapacidade de aquisição completa do universo simbólico do país de acolhida.

  7. A vida na situação de marginalidade essencial da migração, particularmente numa situação flagrantemente esquematizada em termos contranacionais, como a dos migrantes poloneses na Alemanha, torna necessário o balanceamento contínuo das exigências de lealdade vivenciadas, comunicadas, sentidas e imaginadas como estritamente incompatíveis dos dois universos simbólicos diversos e das duas comunidades coletivas nacionais. A confrontação contínua com as exigências de lealdade vivenciadas como inconciliáveis de ambos os coletivos pode levar à cisão identitária sistemática descrita por Stonequist e à autoalienação na situação de marginalidade, que, além disso –após as desastrosas experiências do migrante que retorna a seu país de origem– é vivenciada como armadilha sistemática da trajetória dos migrantes da qual não se consegue mais escapar. Isso é assim porque apresentações identitárias consistentes, que satisfaçam tanto o entorno social quanto a própria pessoa, não parecem mais ser possíveis para a pessoa envolvida, a partir de agora e ao mesmo tempo, em ambos os contextos interacionais nacionais.

  8. Muitas vezes, a migrante enfrenta o conflito de lealdades sentido entre as duas comunidades coletivas nacionais de uma maneira reduzida, não suficientemente processada em termos biográficos. A rigor, para a solução do conflito de lealdades se deveria alcançar um estado de bivalência cultural (Kłoskowska, 2001). Isso, porém, pressuporia por parte da migrante um significativo aprofundamento próprio na cultura da comunidade coletiva nacional do país de acolhida e, então, também a nova confrontação própria e distanciadora com a cultura do país de origem, bem como, finalmente, a elaboração própria de possibilidades de intermediação e conciliação entre os dois universos simbólicos.

  9. O trabalho de curto-circuito biográfico e cultural do imigrante tem custos biográficos enormes. Ele torna duradoura sua autoalienação, pois impede uma confrontação produtiva com as fontes de sentido cultural e possibilidades de desenvolvimento biográfico no país de acolhida. Mas, ao mesmo tempo, também petrifica as atitudes pessoais para com a cultura e o universo simbólico no país do qual provém, de modo que estes últimos, por estarem inflexivelmente “arquivados”, não podem mais se tornar produtivos para o desenvolvimento da própria identidade. Isso pode levar inclusive a autoenganos sistemáticos e à perda de possibilidades do próprio desenvolvimento biográfico. Assim, por exemplo, o objetivo idealizado de fundar uma família mononacional própria pode ser mantido imaginariamente durante anos apesar da forma de vida diária e sistemática do migrante ou da migrante como solteirão ou solteirona incorrigível: a noção de construir uma base de vida comum com uma parceira adequada ou um parceiro adequado do país de origem – um ideal de mulher ou de homem vago, abstrativo. Neste caso se trata, provavelmente, com frequência, de um plano um tanto imaginário, que, por causa da forma de vida como solteirão ou solteirona incorrigível da migrante ou do migrante, possivelmente não será realizado, ou então, por causa da idealização mistificadora de uma imagem de mulher ou homem ideal nele implícito, poderia levar à escolha errada, de uma parceira ou um parceiro pessoalmente não condizente.

  10. Especialmente as férias passadas no país de origem contêm, no desenvolvimento ulterior da trajetória (Riemann; Schütze, 1991; Schütze, 1996) um potencial para autoenganos sistemáticos. Existem diversas possibilidades para isso. Pode se desenvolver, em primeiro lugar, uma retórica autoenganadora e cada vez mais forte do desejo de voltar para o país de origem. Em sua realização contínua e evocadora se desconsidera a estranheza essencial no país de origem e se dissimula comunicacionalmente de ambos os lados a futilidade da promessa de retorno frente às pessoas que ficaram na pátria (e também frente a si mesma). Com isso, a rigor, só se destaca e cultiva, no fundo, a própria solidão essencial na distância para com ambos os contextos sociais nacionais. Pode, em segundo lugar, ocorrer, por causa de impulsos para “voltar para casa” vivenciados durante as férias no país de origem, de fato um retorno mais ou menos não preparado ou até precipitado para a pátria, sem que a problemática –analisada por Alfred Schütz (1990a e 1990b)– da estranheza essencial da pessoa que retorna seja percebida e processada pelo migrante numa preparação interior adequada (o que pode, eventualmente, resultar no fracasso da tentativa de retorno). Em terceiro lugar, percepções de problemáticas secundárias ocorridas durante as férias (passageiras) no país de origem podem ser criticamente potenciadas e utilizadas argumentativamente para justificar de maneira racional para si mesmo e para os que ficaram na pátria a própria existência solidificada de migrante, embora, no nível do trabalho biográfico genuíno, na esteira do respectivo processo argumentativo próprio, isso nem seja possível assim, isto é, face a uma confusão ou mistura defeituosa de níveis e categorias. Trata-se, então, ou apenas da tentativa de uma racionalização inautêntica a posteriori da emigração como resultado de uma decisão supostamente clara, mas que de fato nunca aconteceu dessa maneira (porque nem foi uma decisão consciente ou porque os motivos originais foram outros), ou apenas da tentativa de uma legitimação inautêntica a posteriori que é forçada, porque questões secundárias do cotidiano no país de origem, sem uma agregação específica em forma de crise, não podem alcançar relevância biográfica. As visitas ao país de origem tendem, portanto, desse modo, a se tornar paulatinamente um poderoso mecanismo de intensificação da petrificação da trajetória de autoalienação.

Análise empírica: evidências da contribuição para a trajetória de autoalienação

Existem algumas condições básicas que contribuem para o aprofundamento da fragilidade na situação de vida das migrantes polonesas e que por isso podem aumentar a dinâmica da trajetória:

  • a anomia interacional sistemática com os fenômenos decisivos, por um lado, do encontro doloroso e da confrontação persistente dos migrantes poloneses com estereótipos negativos dos alemães sobre migrantes poloneses e/ou sobre os poloneses de modo geral, mas por outro lado, em parte, também apenas as suposições abstraidoras dos migrantes poloneses sobre tais heteroestereótipos dos alemães referentes a eles, isto é, aos migrantes poloneses ou aos poloneses em geral;

  • o isolamento comunicacional dos migrantes por causa de possibilidades insuficientes de expressão linguística e o efeito estigmatizador do pseudo-pidgin dos parceiros interacionais alemães sobre os migrantes; • por um lado, a extrema irritação dos migrantes por causa do tipo social do “velhaco”/“cafona” (Park; Miller, 1969) do polonês com uma ocupação precária na Alemanha e, por outro lado, o ato de tornar tolerável o estereótipo negativo geral dos alemães para com os poloneses vivenciado ou suposto pelos migrantes por meio da atribuição das características pejorativas desse heteroestereótipo unicamente ao tipo cafona do polonês e pelo simultâneo ato contrastante de mostrar que a gente mesmo não é cafona;

  • a ruptura dos planos profissionais de esposas polonesas de maridos alemães, cujo capital educacional acadêmico (particularmente nas ciências humanas) é sistematicamente desvalorizado na Alemanha, o que acentua e acelera sua trajetória de sofrimento de corrente da migração e o papel (intensificador do círculo vicioso do desprezo) da falta inicial da necessária competência linguística em alemão para poder se defender contra essa desvalorização do próprio capital cultural como parte importante da autoidentidade;

  • a superação (ao menos temporária) dos heteroestereótipos negativos dos alemães para com migrantes poloneses na comprovação concreta da relação de trabalho, por um lado, e a tragicidade à la “Os músicos de Bremen” do migrante polonês domesticado e envelhecido, por outro lado, que fez muito por seu entorno alemão, mas agora não consegue mais apresentar o desempenho físico (ou profissional) que lhe granjearia reconhecimento;

  • o funil de logros da migração polonesa em cadeia para a Alemanha com todos os seus potenciais para engano e autoengano dos futuros migrantes em potencial bem como para a desonestidade não deliberada da autoapresentação e a deliberada autoapresentação errada frente aos parceiros de vida, à família de origem e ao entorno social do país de origem dos migrantes;

  • a função apelativa das visitas do migrante ao país de origem, isto é, a vivência nelas provocada de se sentir conclamado a retornar definitivamente à Polônia e a forma de lidar com isso adiando o retorno; a função de desapontamento das visitas ao país de origem na esteira da percepção de ser essencialmente um estranho na ex-pátria; e a função das visitas à Polônia no sentido de conseguir fundamentações e comprovações empíricas superficiais da racionalidade e legitimidade da emigração para a Alemanha;

  • o efeito autoalienador de situações de marginalidade essencial por causa da separação pessoal e cultural da migrante do universo simbólico trazido da Polônia e por causa da experiência da anomia interacional sistemática na Alemanha, bem como os efeitos dessa experiência de sofrer a autoalienação –também acentuada pela falta de percepções suficientes do universo simbólico alemão– sobre a dotação cognitiva e o sistema de saber da migrante na forma da geração de abstrações estereotípicas em relação ao suposto caráter nacional dos alemães e na forma de suposições genéricas dos migrantes em relação a heteroestereótipos negativos dos alemães para com os poloneses, que incluem a própria desvalorização pessoal;

  • o reforço intensivo do sentimento de pertença à nação polonesa na situação de vida da migração e a importância desse sentimento para o prosseguimento da continuidade biográfica; a vivência de uma comunidade quase familial de nacionais poloneses na Alemanha e o anseio por “atmosfera polonesa” no estrangeiro da migração, bem como

  • a tendência problemática à superinterpretação abstraidora e generalizante em categorias de estereótipos nacionais próprios e heteroestereótipos e na forma de suposições sobre os heteroestereótipos negativos dos alemães para com os poloneses.

Conclusão

Os resultados referentes à anomia comunicacional no processo de migração, à dinâmica de contraposição da figuração de indivíduos estabelecidos e outsiders no processo de migração, aos processos de abstração argumentativa no processamento biográfico das experiências de estigmatização em situações interacionais no contexto da migração, à destruição do capital educacional na migração, aos universos sociais promotores de mudança na migração (particularmente na esfera profissional), às diversas funções biográficas das visitas ao país de origem e, por fim, à função filtradora e mediadora de redes sociais em forma de gueto dos migrantes são elucidativas e, em parte, relevante, até para uma compreensão mais profunda de processos migratórios. A arquitetura teórica da investigação com seus passos argumentativos diferenciados, sistematicamente baseados uns nos outros, e com sua consistente estrutura comprobatória empírica é concisa, convincente, integrada e abrangente.

A investigação deixa claro que ainda há muito por fazer em relação a isso e mostra plasticamente respectivos problemas centrais e estratégias para abordá-los. Neste sentido, ela também é uma contribuição importante para o entendimento entre as sociedades polonesa e alemã. Justamente em sua conexão intelectual com os estudos sobre migração feitos em Chicago, com seu ímpeto reformista e com a combinação, típica desses estudos, de uma perspectiva teórico-fundamental-universalista e histórico-específica, a investigação também revela com precisão os pontos fracos gerais ainda obviamente existentes no potencial de acolhida da sociedade alemã como sociedade de imigração.

Traduzido do inglês por Luis Marcos Sander, com apoio do CNPq (edital 15/2011)

1Foram realizadas ao todo 18 entrevistas narrativas a partir da abordagem proposta por Fritz Schütze.

2Os termos “emigração” e “imigração” são usados aqui como sinônimos de “migração”.

Referências

BERGER, P. L.; LUCKMANN, T. The social construction of reality: a treatise in the sociology of knowledge. London: Penguin Books, 1991. [ Links ]

BLUMER, H. Symbolic interactionism. Berkeley: University of California Press, 1969. [ Links ]

CORBIN, J.; STRAUSS, A. L. Experiencing body failure and a disrupted self image. In: A. L. Strauss (Org.). Creating sociological awareness: collective images and symbolic representation. New Brunswick: Transaction Books, 1991. [ Links ]

CZYŹEWSKI, M. Öffentliche Kommunikation und Rechtsextremismus. Łódź: University of Lodz Publishing House, 2005. [ Links ]

CZYŹEWSKI, M.; PIOTROWSKI, A.; ROKUSZEWSKA-PAWELEK, A. (Orgs.). Biografia a tożsamość narodowa. Łódź: University of Lodz Publishing House, 1996. [ Links ]

DURKHEIM, E. Suicide. New York: The Free Press, 1951. [ Links ]

GOFFMAN, E. On face-work: an analysis of ritual elements in social interaction. In: S. Hutcheson; J. Laver (Orgs.). Communication in face to face interaction. London: Penguin Books, 1972. [ Links ]

GOFFMAN, E. Frame analysis: an essay on the organization of experience. Cambridge: Harvard University Press, 1974. [ Links ]

GOFFMAN, E. Stigma: notes on the management of spoiled identity. London: Penguin Books, 1990a. [ Links ]

GOFFMAN, E. The presentation of self in everyday life. London: Penguin Books, 1990b. [ Links ]

KAŹMIERSKA, K. Migration experiences and changes of identity: the analysis of a narrative. Forum Qualitative Research, v. 4, n. 3, Art. 21, 2003 <www.qualitative-research.net/fqs-texte/3-03/3-03hrsg-e.htm> (4 maio 2004). [ Links ]

KAŹMIERSKA, K. Biography and memory: the generational experience of the Shoah survivors. Boston: Academic Studies Press, 2012. [ Links ]

KŁOSKOWSKA, A. Tożsamość i identyfikacja narodowa w perspektywie historycznej i psychologicznej. Kultura i Społeczeństwo, n. 1, 1992. [ Links ]

KŁOSKOWSKA, A. National cultures at the grass-root level. Budapest: Central European University Press, 2001. [ Links ]

MEAD, G. H. Mind, self and society. Chicago: University of Chicago Press, 1934. [ Links ]

PARK, R. E. Introduction. In: E. V. Stonequist. The marginal man: a study in personality and culture conflict. New York: Russell & Russlell, 1961. [ Links ]

PARK, R. E.; MILLER, H. A. Old world traits transplanted. New York: Arno Press, 1969. [ Links ]

PIOTROWSKI, A. Ład interakcji: studia z socjologii interpretatywnej. Łódź: University of Lodz Publishing House, 1999. [ Links ]

PIOTROWSKI, A.; CZYŹEWSKI, M.; KOWALSKI, S. (Orgs.). Rytualny chaos: studium dyskursu publicznego. Crcow: Aureus, 1997. [ Links ]

RIEMANN, G.; SCHÜTZE, F. “Trajectory” as a basic concept for analyzing suffering and disorderly social processes. In: D. R. Maines (Org.). Social organization and social structure: essays in honour of Anselm Strauss. New York: Aldine de Gruyter, 1991. [ Links ]

SCHÜTZ, A. The stranger: an essay in social psychology. In: A. Schütz. Collected papers II: studies in social theory. The Hague: Martinus Nijhoff, 1990a. p. 91-105. [ Links ]

SCHÜTZ, A. The Homecomer. In: A. Schütz. Collected papers II: studies in social theory. The Hague: Martinus Nijhoff, 1990b. p. 106-119. [ Links ]

SCHÜTZE, F. Prozessstrukturen des Lebensablaufs. In: J. Matthes; A. Pfeifenberger; M. Stosberg (Orgs.). Biographie in handlungswissenschaftlicher Perspektive. Nürnberg: Verlag der Nürnberger Forschungsvereinigung, 1981. [ Links ]

SCHÜTZE, F. Biographieforschung und narratives Interview. Neue Praxis, v. 13, n. 3, p. 283-293, 1983. [ Links ]

SCHÜTZE, F. Kognitiven Figuren des autobiographischen Stegreiferzälens. In: M. Kohli; R. Günther (Orgs.). Biographie und Soziale Wirklichkeit. Stuttgart: Metzler, 1984. [ Links ]

SCHÜTZE, F. Verlaufskurven des Erleidens als Forschungsgegenstand der interpretativen Soziologie. In: H. H. Krüger; W. Marotzki (Orgs.). Erziehungswissenschaftliche Biographieforschung. Opladen: Leske & Budrich, 1996. [ Links ]

STONEQUIST, E. V. The marginal man: a study in personality and culture conflict. New York: Russell & Russlell, 1961. [ Links ]

STRAUSS, A. L.; GLASER, B. G. The discovery of grounded theory. Chicago: Aldine, 1967. [ Links ]

STRAUSS, A. L.; GLASER, B. G. Time for dying. Chicago: Aldine, 1968. [ Links ]

STRAUSS, A. L. Mirrors and masks: the search for identity. Mill Valley: Sociology Press, 1969. [ Links ]

STRAUSS, A. L.; FAGERHAUGH, S.; SUCZEK, B.; WIENER, C. Social organization of medical work. Chicago: University of Chicago Press, 1985. [ Links ]

STRAUSS, A. L. Creating sociological awareness: collective images and symbolic representation. New Brunswick: Transaction Books, 1991. [ Links ]

STRAUSS, A. L. Continual permutations of action. New York: Aldine de Gruyter, 1993. [ Links ]

THOMAS, W. I.; THOMAS, E. The child in America. New York: Knopf, 1928. [ Links ]

THOMAS, W. I; ZNANIECKI, F. The Polish peasant in Europe and America, v. 1-5. Boston: Richard G. Badger (v. 1 e 2 publicados originalmente pela University of Chicago Press, 1918-1920). [ Links ]

TURNER, R. H. The self-conception in social interaction. In: Ch. Gordon; K. J. Gergen (Orgs.). The self in social interaction. London: John Wiley & Sons, 1968. [ Links ]

ZNANIECKI, F. Modern nationalities: a sociological study. Westport: Greenwood Press, 1973. [ Links ]

Recebido: 05 de Setembro de 2013; Aceito: 14 de Abril de 2014

Autora Correspondente: Katarzyna Waniek, University of Łódź, Poland, Department of Sociology of Culture ul Rewolucji 1905 r. nr 41, 90-214 Łódź, Polônia

Creative Commons License Este artigo está licenciado sob forma de uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional, que permite uso irrestrito, distribuição e reprodução em qualquer meio, desde que a publicação original seja corretamente citada.