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Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.14 no.2 Porto Alegre maio/ago. 2014  Epub 15-Jun-2020

http://dx.doi.org/10.15448/1984-7289.2014.2.17152 

Dossiê: Narrativas - teorias e métodos

Narrativas e pesquisa biográfica na sociologia brasileira: Revisão e perspectivas

Narratives and biographical research in Brazilian sociology: Review and perspectives

Hermílio Santos* 

Patricia Oliveira* 

Priscila Susin* 

1Hermílio Santos é doutor pela Freie Universität Berlin (Alemanha), coordenador do Centro de Análises Econômicas e Sociais (Caes-Pucrs), professor do PPG em Ciências Sociais da Pucrs em Porto Alegre, RS, Brasil. O artigo foi finalizado durante período como bolsista de pós-doutorado (Capes) no Centro de Métodos em Ciências Sociais da Universität Göttingen, Alemanha <hermilio@pucrs.br>

2Patricia Oliveira é doutora em Sociologia pela Universität Frankfurt (Alemanha), trabalha atualmente na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República em Brasília, DF, Brasil <tappatira@gmail.com>

*Priscila Susin é doutoranda em Ciências Sociais na Pucrs <pri.qsusin@gmail.com>


Resumo:

Este artigo discute as diferentes formas em que relatos orais biográficos têm sido utilizados na literatura sociológica brasileira. Para isso, é apresentada uma breve revisão das diversas abordagens desde a década de 1950 até os dias atuais, apontando alguns estudos e instituições de destaque para o uso e desenvolvimento do método em investigações empíricas no contexto nacional. Além disso, destacamos o diálogo dos estudos brasileiros com algumas das ramificações de estudos biográficos no cenário internacional, em especial na sociologia alemã.

Palavras-chave: Biografia; História de vida; Narrativa

Abstract:

This paper discusses the different ways in which biographical oral histories have been used in the Brazilian sociological literature. A brief review of the wide variety of approaches are presented, since 1950 to the present days, emphasizing some important studies and prominent institutions for the use and development of the biographical method in empirical investigations in the national context. Furthermore, we highlight the dialogue between Brazilian studies and some of the ramifications of biographical studies in the international scenario, especially in the German sociology.

Keywords: Biography; Life history; Narrative

Nas ciências sociais brasileiras, as variantes da pesquisa qualitativa centradas em relatos orais vêm sendo utilizadas pelo menos desde a década de 1940, ainda que mantenham uma posição relativamente marginal na produção sociológica brasileira. Nesse artigo, será atualizada uma revisão da literatura sobre o uso de relatos de história de vida, sobretudo na literatura sociológica brasileira. Buscaremos esclarecer as diferentes maneiras em que relatos orais biográficos têm sido utilizados na sociologia, abordando, entre outros, a tradição pioneira da história oral e tendências mais recentes associadas ao que se convencionou chamar de virada narrativa, assim como o que podemos chamar de “virada do sujeito”. A revisão que faremos a seguir não pretende ser nem exaustiva, nem irá considerar o uso de material biográfico em outras disciplinas, como história, serviço social, psicologia, educação e antropologia, apenas para mencionar algumas disciplinas que nas últimas décadas vêm fazendo uso de material biográfico em suas pesquisas empíricas. Antes, deverá se restringir, tanto quanto possível, à abordagem de relatos de história de vida na sociologia.

Uso de histórias de vida nas ciências sociais brasileiras: 1950-1980

O primeiro trabalho empírico na sociologia que se valeu extensamente de material biográfico foi produzido na Escola de Chicago, por Isaac Thomas e Florian Znaniecki, em um livro publicado em cinco volumes, entre 1918 e 1920 (Rosenthal, 2004, p. 35). No Brasil, o uso pela sociologia de relatos orais e, mais especificamente, de histórias de vida, pode ser observado em diferentes fases (Pereira, 1991). Em 1945, Florestan Fernandes, com o interesse de investigar a marginalização da população indígena, analisou a biografia de um índio do centro-oeste brasileiro.1 Posteriormente, na década de 1950, outro projeto de pesquisa, apoiado pela Unesco e sob orientação de Roger Bastide, investigou as relações raciais na sociedade brasileira, considerada à época como um exemplo de “democracia racial”. Nesta pesquisa, foi utilizada uma grande variedade de instrumentos, incluindo histórias de vida como forma complementar a outros métodos.

Neste mesmo período, crescia o interesse de pesquisa sobre grupos desfavorecidos, muitas vezes acompanhado pela metodologia de história de vida. Entretanto, este uso de biografias estava muito mais interessado em dar voz a representantes destes grupos, mantendo ainda a análise centrada na reprodução de seus discursos. Essa ênfase temática estaria relacionada com o processo de modernização brasileira e com indagações de cientistas sociais sobre a identidade social e política das camadas subalternas. Segundo Ramiro (2006), ao estudarem favelas e bairros periféricos no início dos anos 1960, muitos sociólogos buscavam compreender por que a população de excluídos não produzia “a revolta esperada”.

A partir de meados da década de 1960, a criação de grupos de pesquisa foi essencial para o desenvolvimento de metodologias de pesquisa social focadas no relato individual. Contudo, estas experiências iniciais de sociólogos brasileiros com histórias de vida como instrumento e abordagem na análise sociológica logo perde importância, cedendo lugar a abordagens quantitativas, que prometiam mais objetividade à atividade da pesquisa sociológica (Pereira, 1991, p. 110). O objetivo principal parecia ser o de “descontaminar” a pesquisa sociológica da subjetividade do ator, substituindo-a pela suposta objetividade dos instrumentos utilizados pelo pesquisador.

Nesse contexto, Maria Isaura Pereira de Queiroz, também anteriormente orientanda de Roger Bastide, ao resistir à completa conversão às abordagens quantitativas, torna-se, desde então, destacada proponente do uso de histórias de vida, que visa “captar o grupo, a sociedade de que ela é parte; busca encontrar a coletividade a partir do indivíduo” (Queiroz, 1988, p. 24). Essa socióloga é figura chave na criação, em 1964, do Centro de Estudos Rurais, posteriormente Centro de Estudos Rurais e Urbanos (Ceru), junto à USP. Esse centro de estudos se mostrou fundamental na difusão do método de história oral, já que iniciativas como essa ofereciam, através do uso de métodos qualitativos como instrumento sociológico, importante contraste em relação ao então crescente uso das abordagens quantitativas (Queiroz, 1991). Nesse contexto, Camargo vê no desenvolvimento da história oral no Brasil um progressivo deslocamento do papel de técnica de pesquisa para o de fonte legítima para a reconstrução de mudanças históricas em sociedades inteiras, para além da perspectiva individual (Camargo, 1987, p. 9).

Outra instituição de extrema relevância para o fortalecimento de metodologias centradas em relatos individuais é o CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da Fundação Getúlio Vargas, criado em 1973. Os primeiros arquivos de seu acervo foram os de Getúlio Vargas e Oswaldo Aranha, concomitante com o interesse de pesquisa centrado em líderes políticos da sociedade brasileira que estavam envolvidos na revolução de 1930 e nos acontecimentos posteriores (ver Camargo, 1987). Neste período, os modelos mais importantes de pesquisa com histórias de vida eram autobiografias (de líderes políticos, intelectuais etc.), e entrevistas biográficas com a participação de um pesquisador. O interesse de pesquisa com o qual o programa de história oral do CPDoc se inicia estava relacionado em coletar o testemunho de figuras-chave dos eventos históricos recentes,2 o que levaria a entender os rumos que a história política brasileira havia tomado. Esse tipo de abordagem, ou seja, que procura investigar características de relações sociais em períodos históricos específicos tendo como ponto de partida a biografia de algumas personalidades –aquelas que “mereciam” ser ouvidas– é, ainda hoje, bastante difundida na produção sociológica brasileira. As entrevistas se davam principalmente com membros da elite política, o que foi alvo de muitas críticas e questionamentos por, aparentemente, privilegiar a visão das classes dominantes, como aponta Ferreira (1998, p. 22).

Esta abordagem da pesquisa, apesar das críticas, tornou-se bastante difundida nos anos 1970 e 1980. Alberti (2004, p. 47) refuta as críticas quanto ao foco em elites políticas e argumenta que a história oral procura trazer a perspectiva do maior número possível de atores sociais, incluindo necessariamente o esforço de entender os detentores de poder. Refere-se, para tal, a possíveis paralelos com pesquisas biográficas na Alemanha em que, também a partir da década de 1970, preocupavam-se em ouvir testemunhas e participantes de processos políticos para entender os rumos tomados pelos eventos históricos no país. No caso citado das pesquisas na Alemanha, Alberti (1996) destaca, entre outros, a pesquisa de Gabriele Rosenthal com ex-integrantes do partido e juventude nacional-socialista, na qual as entrevistas e análises são conduzidas de acordo com o método biográfico. As pesquisas coordenadas ou orientadas por Rosenthal sobre o período nazista incluiriam também, entre os entrevistados, gerações de famílias que não haviam tido envolvimento “institucionalizado” com o regime nazista, ou seja, que não estavam filiados a agremiações que davam suporte ao governo (ver Rosenthal, 1998 e Völter, 2003).

Durante o período inicial de divulgação da história oral no Brasil, o entendimento sobre a função e escopo adequados desse método perante as circunstâncias políticas e sociais, a partir da década de 1970, mostrava-se fragmentado, a julgar por análises mais recentes desses desenvolvimentos. Enquanto alguns associam o foco nas histórias de vida das elites com restrições devido ao regime militar, outros autores consideravam a pesquisa com operários, agricultores e populações reprimidas como terreno privilegiado da história oral (Alberti, 1997, p. 214).3 Nesse contexto se inserem as histórias de vida de exilados políticos brasileiros: narrativas de exilados residentes no exterior foram reunidas na obra Memórias do exílio: muitos caminhos (Cavalcanti et al., 1976), e no registro subsequente Memórias das mulheres no exílio (Costa et al., 1980). Nota-se, no entanto, que, a partir da década de 1980, os estudos de história oral e de vida se tornam cada vez mais multifacetados, tanto em relação aos temas abordados quanto em relação à orientação teórica e metodológica dos pesquisadores.4 Muitos outros estudos, listados por Camargo et al. (1983), enfocaram problemas sociais em que os entrevistados eram “pessoas comuns” e não testemunhas privilegiadas de episódios históricos. Aqui, o pesquisador estava interessado em uma compreensão aprofundada da realidade e em elucidar questões não respondidas satisfatoriamente em entrevistas temáticas.

A pesquisa sobre histórias de vida de homens e mulheres do campo, comunidades de pescadores, operários e migrantes compõe, assim, em uma vertente sociológica reconhecida. Nessa linha de pesquisa, podem-se mencionar os estudos de Eunice Durham (1966; 1973), que desde os anos 1960 utilizava o método de história de vida, tendo iniciado com uma análise do relato oral de um imigrante italiano e posteriormente com estudos sobre migrantes nordestinos em São Paulo. Dentro dessa tradição, segundo comentadores da história oral, pode-se detectar uma mudança de foco em relação aos primeiros estudos das décadas de 1950 e 1960: “Muda-se o foco das condições de vida e das práticas político-institucionais da classe operária para as práticas cotidianas e as representações, resgatando assim, a heterogeneidade social e também histórica da formação das classes sociais brasileiras” (Ramiro, 2006, p. 21).

Um exemplo dessa abordagem pode ser visto na obra de Eunice Durham (1973). Para Durham, fenômenos sociais são de interesse na medida em que se refletem em transformações em nível de comportamentos individuais; ou seja, alterações na ordem estrutural se refletiriam em modificações dos padrões comportamentais e de relacionamentos sociais dos sujeitos. Uma perspectiva semelhante, que parte de relatos individuais para compreender mudanças históricas e sociais, bem como as possíveis mudanças devido a fenômenos sociais, está presente no importante trabalho feito na área de psicologia social por Ecléa Bosi (1979) sobre a memória de idosos. Esse estudo figura, nesse período, como uma obra bastante relevante, sendo reconhecido como influência para diversos estudos subsequentes. Nessa obra, um período da história de São Paulo é retratado a partir da história de vida de idosos.

Entretanto, mesmo que a década de 1970 tenha sido marcada pelo interesse em histórias de vida, não é possível identificar um esforço para clarificar ou para estabelecer um procedimento metodológico que pudesse ser reconhecido pela comunidade sociológica, tendo em vista que as histórias de vida coletadas eram assumidas como relatos e testemunhos relativamente fidedignos do período ou fenômeno analisado. Com isso, não se pode afirmar que os trabalhos produzidos nesse período coincidiam com os esforços que, no mesmo período, estavam sendo realizados na comunidade sociológica da Europa para oferecer uma fundamentação teórica e epistemológica para o procedimento de análise de relatos biográficos, notadamente a partir da sociologia compreensiva ou mesmo fenomenológica, como se verificava, por exemplo, na Alemanha.

Diversificação do campo nos anos 1980 e declínio do uso de histórias orais nas ciências sociais a partir dos anos 1990

As histórias de vida de mulheres também passaram a receber mais atenção no meio acadêmico a partir da década de 1980. Nesse período, Daphne Patai, professora de Língua, Literatura e Cultura na Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, conduziu diversas entrevistas com mulheres de diferentes grupos sociais e culturais no Nordeste brasileiro e no Rio de Janeiro, com declarado intuito de “dar voz” às mulheres (Patai, 1985). Segundo Cubas (2012), essa obra trouxe várias indagações sobre as implicações do engajamento feminista e de questões éticas relacionadas à conotação política da prática da história oral, como proposta por Patai. Meihy (2000) aponta esse estudo como precursor da modalidade de história oral que viria a se tornar mais popular no Brasil: a história de vida.5 Essa seria marcada pela recriação da história de vida a partir do relato oral do entrevistado, mas com alterações feitas pelo pesquisador para adequar tal relato à língua escrita. Continuando nessa tradição, Boschilia (2000) recorre a entrevistas e pesquisa de arquivos para reconstruir as histórias de vida e condições de trabalho de mulheres operárias em Curitiba durante as décadas de 1940 a 1960. Meihy (1994), enfocando em apenas uma história, apresenta a biografia de Carolina de Jesus, nascida em Minas Gerais, e moradora de uma favela de São Paulo desde 1947, que veio a ser uma escritora de sucesso.

Segundo Ferreira (1998, p. 25), na década de 1980, a maioria dos pesquisadores que trabalhavam com história oral no Brasil eram cientistas sociais, o que teria se modificado nos anos 1990. Para Meihy (2000), a crescente popularização do método de história oral na História estaria relacionada com a divulgação desta área como uma alternativa a partir da década de 1990. Assim, houve uma maior formalização da história oral nesse período, diferentemente da ocasião do primeiro encontro de história oral, ocorrido em Salvador em 1983. Uma década depois, o Primeiro Congresso Nacional de História Oral foi realizado na Universidade de São Paulo e, no ano seguinte, por ocasião do Segundo Encontro Nacional, no CPDoc,6 ocorreria a fundação da Associação Brasileira de História Oral, em 1994.7 Nessa ocasião, 51% dos participantes eram historiadores, ficando os cientistas sociais em segundo lugar com 34% (Ferreira, 1994, p. 8).

A partir da década de 1990, novos temas passaram a receber atenção de pesquisadores adeptos da história de vida, ao mesmo tempo em que temas tradicionalmente pesquisados com esses métodos qualitativos mantiveram seu destaque. Autores como Meihy (2000) e Ferreira (1998), ao reverem a literatura dos anos anteriores, apontam como frequentes as pesquisas de história de vida de trabalhadores sem-terra e famílias em assentamentos de reforma agrária (ver Menezes, 1996; Menezes et al., 2011; Silva, 1999; Antuniassi, 1995), algumas delas enfocadas em uma perspectiva de gênero e de meninos de rua. Dentro desse último tema, merece destaque a importante pesquisa de Ataíde (1993). Em sua obra, os relatos de diversos meninos de rua de Salvador são reconstruídos a partir de interações e entrevistas e apresentados como narrativas completas, mesmo que não produzidas de tal maneira pelos sujeitos de pesquisa.

Mesmo que os anos 1970 e 1980 tenham sido marcados por um forte interesse por esse método, nas ciências sociais brasileiras o uso das histórias de vida e biografias como material de análise sociológica diminuiu nas décadas seguintes.8 O debate metodológico sobre a história oral e uso de relatos de vida, assim, passa a ser enfatizado em outras disciplinas, causando um empobrecimento, no Brasil, da discussão sociológica sobre essa tradição de pesquisa que é apenas parcialmente compensado pela emergência de novos métodos qualitativos na pesquisa sociológica. Na década de 1990, por exemplo, foram publicados importantes manuais sobre a prática de pesquisa da história oral (Alberti, 1990).

Cabe ressaltar que, apesar da grande variedade metodológica no uso de história de vida, um procedimento recorrente é a apresentação inalterada de relatos biográficos (Lang, 1996), sem que esses sejam analisados ou desconstruídos enquanto texto, sujeitos apenas a uma “transcriação”9 (Meihy, 1991). Tal procedimento, pode-se argumentar, corresponderia a uma ideologia de dar a voz aos sujeitos oprimidos (Santhiago, 2010). Neste sentido, alguns questionamentos poderiam ser suscitados quanto ao papel do pesquisador, já que ao ofuscar o papel deste –presente na construção do relato oral desde o momento da entrevista– a análise de fenômenos sociais sofreria uma limitação injustificável. Ademais, a não utilização de procedimentos de análise abrangentes e claramente compreensíveis para o leitor teria como possível consequência a dificuldade de se reconstruir, e, portanto, de compreender, o processo de obtenção de resultados e conclusões de pesquisa.

De maneira semelhante, podem-se constatar os mesmos riscos para a análise sociológica no caso em que as possíveis contradições e ambivalências das histórias de vida deixem de ser abordadas a partir de procedimentos analíticos claros e sistemáticos, o que poderia reduzir consideravelmente o escopo da análise sociológica. Finalmente, um último risco metodológico corresponde a que as histórias de vida sejam interpretadas como apenas reflexos de estruturas sociais. Silva (2002) aponta o que denomina aspecto conflituoso de métodos das ciências sociais para análise das histórias de vida, no qual haveria um entendimento de que as biografias individuais podem ser entendidas como uma reconstrução fiel do pesquisador do meio social em que o biografado viveu. Para Silva (2002), isso corresponderia a uma crença de que a sociedade explica o indivíduo, ao invés da alternativa potencialmente mais rica de que o indivíduo seja o fio condutor que levará ao social. Poderíamos dizer que uma perspectiva importante aqui seria aquela em que se admite haver, ao contrário, uma relação dialética entre indivíduo e o patrimônio cultural de uma dada sociedade, com seus constrangimentos morais e conhecimentos socialmente difundidos.

Trajetórias, biografias e narrativas: multiplicidade de orientações no uso de histórias de vida nos anos 2000

No que toca às pesquisas mais recentes na área de história de vida e de biografia, deve-se destacar que essas têm crescentemente adotado um referencial teórico e metodológico que ressalta a construção social na configuração de histórias de vida e biografias. Ao mesmo tempo, no referencial metodológico, o interesse em produzir um entendimento coerente de eventos passados permanece bastante relevante.

A virada narrativa nas ciências humanas nas últimas décadas trouxe uma priorização de visões construtivistas sobre a narrativa como prática social e criadora de sentido. Tais referenciais teóricos sobre a construção social de histórias de vida passam, necessariamente, pela discussão dos mecanismos de construção e reconstrução da memória. Pode-se destacar, aqui, o trabalho recente de Negrão, que escreve sobre as histórias de vida de egressas de um asilo católico para órfãs, fundado em 1890 em Campinas. Nesse estudo, a construção biográfica individual é ressaltada em sua complexidade, como construção sempre mutável do passado: “a memória se transmuda em história de vida com as repercussões em seus destinos” (Negrão, 2009, p. 98). Especial ênfase é dada à relação entre seleção de memórias a serem narradas e o momento presente das entrevistadas, bem como às fronteiras da memória em relação ao que é dito e ao que é silenciado. Na análise dos resultados, são explicitadas as condições institucionais em que as biografias estavam enquadradas; a instituição em questão é vista, também, como parte de contextos socioeconômicos mais amplos. Em relação às biografias individuais, é destacada a conexão de experiências narradas com contextos socioeconômicos, bem como com diferenciações raciais e de gênero mais amplos.

Apesar da produção recente de pesquisas em torno a biografias ter se tornado mais diversificada nas ciências sociais, o método de história oral continua sendo amplamente aplicado nessas disciplinas, principalmente pelos centros de estudos mencionados anteriormente. No Ceru destacam-se, entre outros, projeto sobre famílias em São Paulo, centrado nas especificidades estruturais e conjunturais da mediação indivíduo e sociedade. Esse projeto englobava pesquisa sobre a vida familiar de diferentes grupos étnicos em São Paulo (Demartini, 2004). Também no Ceru, um projeto tratava mais especificamente das trajetórias de famílias migrantes em São Paulo, a partir do pós-guerra até a década de 1980. Nesses projetos, segundo Demartini (2004), o método utilizado era o das histórias de vida resumidas que, apesar de abordar a totalidade das histórias de vidas dos sujeitos de pesquisa, aprofundava a narrativa individual em dimensões diretamente relevantes aos projetos de pesquisa.

No CPDoc foi desenvolvido entre 2003 e 2007 o projeto de pesquisa “História do movimento negro no Brasil”, por Amilcar Araujo Pereira e Verena Alberti. Em considerações metodológicas sobre essa pesquisa, Alberti (2012) discute a situação de entrevista como um momento único, no qual o encadeamento de eventos apresentados na construção biográfica dos entrevistados não deixa de ser influenciado pela interação com os entrevistadores, ao mesmo tempo em que revela a maneira como os sujeitos estruturam suas experiências passadas. Ela argumenta, então, sobre a potencialidade desse método para além de produzir uma mera versão dos fatos que ocorreram ao entrevistado, já que o relato oral seria “uma narrativa de experiências de vida produzida no contexto de uma entrevista de história oral”, trazendo uma construção biográfica coerente e substantiva dos entrevistados (Alberti, 2012, p. 165).

Como se pode apreender das posições crescentemente críticas e diferenciadas sobre a utilização de histórias de vida, recentemente se percebe que os conceitos de história oral, história de vida e biografia têm sido refinados e passam a ser referências em campos de pesquisa empírica cada vez mais segmentados. Nesse contexto, o conceito de trajetória de vida desponta como bastante utilizado em várias linhas de pesquisa nas ciências sociais e outras disciplinas. Bastante vinculado a práticas profissionais, cabe destacar sua vasta utilização nas pesquisas que, através de relatos de vida, buscam reconstruir trajetórias profissionais.10

Não há, contudo, um problema específico na sociologia brasileira que vem sendo objeto da pesquisa com uso de relatos orais de histórias de vida. Um dos temas que vem sendo pesquisado por meio de métodos biográficos é o engajamento de jovens com violência e delinquência (por exemplo, Vieira, 2011; Santos, 2012a; 2012b; Malvasi, 2011; 2012). Outro tema que tem sido investigado por meio da produção de biografias pode ser encontrado no trabalho de Marilda Aparecida de Menezes (2006; 2011) sobre trabalhadores rurais no nordeste brasileiro e sobre membros do movimento negro (veja Goss, 2010).

Na área da pesquisa voltada para as questões de gênero, o conceito de trajetória tem sido amplamente usado para compreender as limitações e possibilidades de mulheres perante estruturas sociais desiguais. De forma semelhante, as trajetórias de vida de mulheres provenientes do campo também têm recebido considerável atenção nas ciências sociais (Bueno e Moraes, 2012).

Nas pesquisas em que gênero ocupa um lugar central, as contribuições de Wivian Weller (2005a; 2005b) merecem destaque, sobretudo por aportar de forma sistemática à pesquisa social brasileira o método documentário tal como desenvolvido pelo sociólogo alemão Ralf Bohnsack, a partir da formulação de Fritz Schütze e da fundamentação teórica de Karl Mannheim. Uma distinção importante, contudo, na abordagem em relação a várias outras que empregam narrativas biográficas é a preferência, fundamentada teoricamente, por realizar discussões em grupo. Mesmo que também adotem entrevistas individuais, prioriza-se a condução de grupos de discussão em que as experiências de vida são expostas na presença daqueles com os quais compartilha um mesmo ambiente social.

Fundamentações teóricas do uso de histórias de vida na sociologia brasileira

Em um levantamento recente dos métodos de história oral (Barros et al., 2007), é destacada a influência de Bertaux entre pesquisadores brasileiros ao utilizarem histórias de vida. Bertaux (por exemplo, 1980) pode ser considerado um dos autores que já anteriormente exercia alguma influência na produção acadêmica com uso de relatos orais (Pereira, 1991, p. 115; ver também Guérios, 2011), cujos interesses estavam voltados sobretudo para as estruturas sociais. Isso significava que a entrevista estava focada em obter elementos do entrevistado que pudessem contribuir com os esforços de delinear um padrão estrutural na configuração de relações em um processo de produção específico. As trajetórias de vida eram, supunha-se, a maneira como esses padrões emergiam.

Aqui, a interpretação subjetiva do entrevistado não exercia um papel relevante, em oposição a outras abordagens que elegeram as estruturas e processos subjetivos como foco de análise, notadamente a partir da abordagem desenvolvida por Fritz Schütze que surge, na Alemanha, no mesmo período em que, na França, Bertaux realizava seus primeiros estudos. Não apenas a dificuldade com a língua (já que parte significativa da produção de pesquisas empíricas conduzidas por Schütze e colegas estavam disponíveis apenas em alemão), mas sobretudo a fundamentação teórica utilizada pelos sociólogos da Universidade de Bielefeld, onde Schütze se encontrava, explica a razão pela qual a abordagem proposta por Schütze recebeu até recentemente uma atenção bastante modesta na sociologia brasileira. Schütze, seus colegas e assistentes mais jovens, nesse período, estavam de alguma maneira dando continuidade à tradição da sociologia compreensiva, combinando-a com a abordagem sociológica da chamada Escola de Chicago. Influenciados sobretudo por sociólogos e intelectuais franceses, combinado com o funcionalismo norte-americano (Villas-Bôas, 1997), os sociólogos brasileiros não estavam muito atraídos pelas tradições teóricas que animavam o “Grupo de Sociólogos de Bielefeld”.

Srubar (1984), ao delinear as distinções no surgimento e posterior desenvolvimento da sociologia na França e na Alemanha, permite-nos entender melhor as preferências epistemológicas dos sociólogos desses dois países, que, mais recentemente, acabaram por informar abordagens distintas de uso de histórias de vida. Os primeiros sociólogos franceses partem da compreensão de sociedade como sendo autônoma e os indivíduos como estando subordinados a ela (Srubar, 1984, p. 164), e, dessa maneira, procuram replicar as abordagens próprias das ciências naturais para o estudo da sociedade. Com isso, o tema da ação individual acaba por não encontrar lugar. Ainda que tenha sido responsável por contribuições largamente reconhecidas para a compreensão das sociedades, a produção sociológica francesa ainda hoje permanece, em alguma medida, herdeira desta tradição intelectual, que se tornou bastante influente entre parcela da elite sociológica brasileira. Na Alemanha, durante o período inicial de constituição da sociologia como disciplina acadêmica, historiadores, psicólogos e economistas encaram com desconfiança as presunções acadêmicas da sociologia da época, considerada por alguns como sendo a “área de lazer da pseudociência”, ou, na melhor das hipóteses, “um tipo superior de jornalismo” (Srubar, 1984, p. 165).

Com isso, os intelectuais interessados em estabelecer a sociologia realmente como disciplina acadêmica na Alemanha tiveram que dar uma nova fundamentação, implicando com isso um novo objeto e novos métodos. Seria inócuo atribuir à nova disciplina a responsabilidade de estudar “toda a realidade humana”, pois desta já se ocupavam a história, a economia e a psicologia. Simmel deu contribuições para uma outra possibilidade de realizar o trabalho sociológico, ao propor a análise das interações sociais como objeto par excellence da sociologia, e, neste caso, a ação social é o que deveria merecer toda a atenção dos sociólogos (Srubar, 1984, p. 166). A formulação de Simmel, assim como aquela de Weber, ensejará o surgimento de abordagens sociológicas que terão –como veremos ao tratarmos da “virada do sujeito”– implicações importantes para o uso de relatos de história de vida, quando estará em foco não somente a trajetória de vida, mas sobretudo a ação de indivíduos vivendo determinados fenômenos ou experiências que são objeto de análise.

Embora seja inapropriado dizer que exista uma “sociologia nacional” em cada país, não é implausível pensar que os sociólogos acabem por ser atraídos por uma ou outra abordagem dominante. No caso do Brasil, razões históricas vinculadas ao estabelecimento da disciplina entre nós, fortemente marcada pela presença de cientistas sociais franceses, dentre outras razões, fez com que ao longo do tempo fosse se consolidando, na sociologia brasileira, forte influência na maneira de se praticar a sociologia, inclusive quanto à possibilidade, e utilidade, de se dedicar aos estudos de histórias de vida, em suas mais variadas vertentes.

Algumas desconfianças difundidas na sociologia francesa podem ter contribuído para desencorajar estudos biográficos entre sociólogos brasileiros. A principal delas é uma crítica bastante breve que Bourdieu dedicou aos estudos biográficos, publicada originalmente em meados da década de 1980 e, no Brasil, em meados da década de 1990. Bourdieu é, muito provavelmente, o principal autor a explicitar uma crítica à incorporação de relatos biográficos na análise sociológica. Em seu curto artigo intitulado “A ilusão biográfica”, Bourdieu argumenta que a incorporação de história de vida na pesquisa sociológica não passaria de uma “concessão da sociologia ao senso comum” (Bourdieu, 1986, p. 69). Trata-se de um artigo problemático em vários aspectos, sobretudo porque não se refere explicitamente a quais autores ou estudos sua crítica estaria direcionada. Com isso, acaba por demonstrar seja um desconhecimento da diversidade de abordagens no interior das pesquisas biográficas já à época em que formulou sua crítica, seja pura e simples má vontade em relação a esse tipo de contribuição para a compreensão da realidade social.

Bourdieu afirma ainda, dentre outras coisas, que lidar com material biográfico implicaria em admitir que vida é história, entendida como uma sucessão de eventos históricos. Buscando reforçar a crítica de Bourdieu, Montagner afirma que se apoiar em material biográfico como objeto de análise sociológica implicaria em procurar “uma causalidade harmônica das histórias de vida individuais”, que poderia ser explicado “pela necessidade, tanto por parte dos indivíduos quanto da ciência social, de atribuir um sentido de coerência às ações humanas” (Montagner, 2007, p. 252). O maior problema aqui não é se a história de vida é harmônica ou não, mas a possibilidade de que exista algo como “biografia”, isto é, a interpretação do ator sobre sua própria vida. Com isso, a “ilusão” de Bourdieu foi tentar refutar uma abordagem sociológica sem refutar simultaneamente sua fundamentação epistemológica e metodológica. Para que fosse exitoso e consistente em seu empreendimento, seria necessário refutar especialmente sua fundamentação epistemológica, o que, definitivamente, Bourdieu não foi capaz de apresentar em seu artigo.

De fato, admitir a existência de biografia como elemento sociologicamente relevante implicaria em atribuir ao ator um status de intérprete, o que Bourdieu e seus seguidores dificilmente estariam dispostos a fazer, uma vez que exigiria, entre outras coisas, uma profunda modificação da interpretação da relação entre sujeito e habitus, por exemplo. A compreensão da relação entre habitus e indivíduo da maneira como sustentada por Bourdieu é coerente com sua posição de ver a abordagem biográfica como uma ilusão. A investigação sociológica baseada em narrativa biográfica seria, de fato, um paradoxo, se tal abordagem estivesse ancorada na teoria de habitus de Bourdieu, uma vez que pressupõe a irrelevância da interpretação empreendida pelo ator (Truc, 2011, p. 162).

A sociologia brasileira vem recebendo recentemente uma nova influência em relação ao uso de histórias de vida a partir dos trabalhos de Bernard Lahire (2004), que prefere se referir a trajetórias e não a biografias. A abordagem proposta por Lahire possui algumas limitações importantes, pois ao estabelecer de antemão sobre quais os temas o entrevistado deve falar, e em que sequência eles devem ser introduzidos, Lahire abdica da possibilidade de obter elementos para a análise da interpretação subjetiva sobre o curso de vida dos próprios entrevistados, seja porque não acredita ser possível alcançar tais elementos seja porque acredita não ser relevante para a pesquisa sociológica.

Procedimentos metodológicos como este proposto por Lahire criam um problema que podemos denominar de “colonização” do sistema de relevância (Schütz, 2004) do entrevistado pelo sistema de relevância do cientista social. Esse problema ocorre quando o ponto de vista do entrevistado se torna significativamente atrelado ao que seriam as expectativas do pesquisador, desconsiderando os temas que possam ser escolhidos e as formas discursivas do entrevistado como elementos-chave para a compreensão das posições assumidas ao longo de sua vida ou em fases específicas de sua biografia. Esse problema pode ser minimizado caso o sociólogo ofereça ao entrevistado a possibilidade de escolher os temas, assim como se o pesquisador, na análise, ficar atento aos tipos textuais durante a narrativa do entrevistado e, evidentemente, procurar analisar as escolhas discursivas. A seguir apontamos uma perspectiva analítica que tem se mostrado promissora, por colocar a perspectiva do sujeito como ponto central, a partir da qual se busca a compreensão de fenômenos sociais contemporâneos.

Sujeito e narrativa biográfica: perspectivas para a pesquisa sociológica brasileira

A pesquisa a partir de material biográfico produzido diretamente a partir de relatos de entrevistados é, hoje, considerado um campo de pesquisa autônomo na sociologia, reconhecido pela Associação Internacional de Sociologia (ISA). Desde 1984 a ISA conta com o Comitê de Pesquisa Biografia e Sociedade, do qual Daniel Bertaux foi seu primeiro presidente e que contou, nesse período, com a socióloga brasileira Aspásia Camargo entre os membros do comitê dirigente. Desde então, a abordagem se expandiu para diversos outros países, tendo sido utilizada em diversas pesquisas empíricas sobre variados temas, além de objeto de reflexões teóricas e metodológicas.

A produção acadêmica alemã tem contribuído de maneira sistemática e com originalidade para o incremento do uso de material biográfico na pesquisa sociológica, explicitando a fundamentação epistemológica às escolhas metodológicas adotadas e desenvolvidas, tanto para a produção dos dados quanto para sua análise. Particularmente profícua tem se mostrado a contribuição de Gabriele Rosenthal, à frente do Centro de Métodos em Ciências Sociais da Universidade Göttingen, sobretudo por permitir que o sujeito entrevistado contribua para a formulação da sua Gestalt biográfica, o que, por sua vez, ao contrário de ser reificada, torna-se ela própria parte importante da análise para a compreensão de fenômenos sociais os mais variados. Gabriele Rosenthal exerceu a presidência do Comitê Biografia e Sociedade da ISA por duas gestões, de 2002 a 2010.

Uma das mais importantes fontes teóricas na elaboração da abordagem de narrativa biográfica proposta por Fritz Schütze (1983) e, posteriormente, desenvolvida por Gabriele Rosenthal é, entre outros, a sociologia de Alfred Schütz, especialmente sua teoria da relevância (veja Rosenthal, 1995; Schütz, 2004). Esta abordagem tem como ponto de partida o pressuposto de que qualquer narrativa é uma interpretação realizada a partir de uma situação biográfica específica (Schütz, 1979, p. 73), uma vez que uma biografia é uma descrição de processos e experiências vivenciadas pelo próprio indivíduo. As bases teóricas que fornecem sustentação à abordagem tal como desenvolvida por Rosenthal são modestamente difundidas na sociologia brasileira, assim como sua proposta metodológica ainda pouco conhecida.11 Sua potencialidade já foi demonstrada em anos de pesquisas empíricas e reflexões metodológicas, assim como por meio de orientação de diversos trabalhos empíricos, pelo menos nas últimas duas décadas sobre temas os mais diversos. Sua abordagem recupera bastante do que já havia sido formulado por Schütze (2010), mas avança alguns passos adiante, incorporando, no processo de análise, contribuições de Aaron Gurwitsch, em especial a análise dos campos temáticos em torno aos quais se desenvolvem narrativas biográficas, assim como a hermenêutica objetiva desenvolvida por Ulrich Oevermann, sobretudo a proposta de sequencialidade no processo de análise dos dados e narrativas produzidas durante a entrevista (ver Rosenthal, 2004).

A abordagem de narrativas biográficas permite a construção de tipologias de interpretações do mundo da vida, considerando, neste processo, como os indivíduos manuseiam seu “estoque de conhecimento” e, sobretudo, como manuseiam o sistema de relevância e tipificação, elementos-chave no processo interpretativo cotidiano do sujeito (Schütz, 2003; Schutz e Luckmann, 1973), tendo em vista sua importância no processo de atribuição de sentido, assim como no processo de tomada de decisão no curso de ação na vida cotidiana.

No procedimento adotado por Rosenthal, as entrevistas a serem analisadas são transcritas em sua totalidade e submetidas à análise reconstrutiva e sequencial. A análise reconstrutiva significa que a entrevista não é abordada com categorias pré-definidas, nem submetida a teste de hipóteses formuladas a priori, com isso, segue-se o procedimento abdutivo, proposto por Charles Pierce e adotado pela Grounded theory. O objetivo da reconstrução é decodificar tanto o significado da experiência biográfica vivida no passado quanto o significado da apresentação realizada no presente. Com isso, o resultado da análise é uma combinação da abordagem diacrônica com uma abordagem sincrônica.

No processo de produção e análise das entrevistas, o procedimento analítico adotado por Rosenthal deixa explícito tanto o papel interpretativo do sociólogo, quanto considera os atributos interpretativos do entrevistado. Passos claramente definidos no processo de análise permitem que ambos os componentes se explicitem. O primeiro passo concentra-se na análise sequencial dos dados biográficos. A ênfase na sequencialidade pode ser percebida não apenas na utilização em ordem cronológica dos eventos vivenciados (mencionados na entrevista ou obtidos de outras fontes), mas também no procedimento de buscar o desenvolvimento gradual de um possível modo de ação do(a) entrevisto(a). Segundo Rosenthal (1993, p. 65), essa etapa, no entanto, dedica-se apenas aos dados que podem ser vistos como razoavelmente independentes da interpretação do entrevistado sobre sua própria vida, excluindo assim relatos baseados em sentimentos e percepções do sujeito, já que estes serão considerados de maneira sistemática em etapas subsequentes da análise.

Para complementar essa primeira aproximação à biografia sob análise, dados do contexto histórico e social em questão são adicionados à cronologia de vida do entrevistado. A partir dos dados biográficos vivenciados pelo entrevistado, procede-se à formulação de hipóteses sobre as possíveis implicações de cada um desses acontecimentos, traçando assim trajetórias plausíveis para os entrevistados. Importante, nesse passo de análise, é vislumbrar quais opções estariam à disposição dos entrevistados, considerando, evidentemente, os constrangimentos e configurações biográficas, além do contexto em que está inserido o/a entrevistado(a). Procedendo desta maneira, evidenciam-se as escolhas possíveis no horizonte do/a entrevistado/a e o percurso vivenciado ao longo da vida, descartando-se o pressuposto de que haveria algum tipo de determinismo na trajetória de vida.

Outros passos de análise são adotados para se chegar à identificação do interesse de apresentação do entrevistado, evidenciados pelos campos temáticos em torno ao qual ou aos quais se desenrola o relato da vida do entrevistado, valendo-se de recursos discursivos variados, como argumentação, descrição, assim como a própria narrativa. Ao final, os pesquisadores procedem à reconstrução biográfica, distinguindo-se e confrontando o interesse de apresentação do entrevistado (vida narrada) com a interpretação do percurso de vida do entrevistado (vida vivenciada), em que se explicita outras opções que estariam disponíveis. Amplia-se, desta maneira, as possibilidades de compreensão de como a percepção social de eventos é constitutiva da interpretação individual da própria biografia.

Atualmente, pelo menos dois projetos de pesquisa no Brasil procuram adotar a abordagem de narrativa biográfica tal como proposto por Gabriele Rosenthal. Um dos projetos, intitulado “Violência e narrativas biográficas: experiências de jovens brasileiros”, vem sendo desenvolvido com o financiamento da Capes, CNPq e Fapergs, pelo Grupo de Pesquisa em Relações Sociais, coordenado por Hermílio Santos, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pucrs. A pesquisa busca compreender como meninas que se envolveram diretamente em ações violentas e atualmente estão cumprindo medidas socioeducativas narram e interpretam suas ações e sua história de vida, assim como meninas que possuem uma experiência apenas indireta de violência (ações cometidas em seu contexto social imediato por parentes, vizinhos e amigos), sem que elas próprias tenham cometido atos de delinquência ou violência. A investigação também conta com uma segunda etapa, onde cada entrevistada é convidada a produzir uma narrativa visual através da gravação de um vídeo fora da instituição socioeducativa (no caso das internas nessas instituições). Pretende-se, com isso, incrementar o processo de análise das interpretações subjetivas, contrastando-a com a narrativa biográfica.

O uso de narrativas biográficas tem trazido questionamentos relevantes sobre a literatura relacionada ao envolvimento de mulheres jovens em atos delituosos e em ações violentas de maneira mais ampla. Um dos pontos que vem chamando a atenção nos resultados preliminares da pesquisa é a necessidade de uma revisão acerca da vinculação entre o envolvimento de mulheres na criminalidade e a relação afetiva com um parceiro criminoso. Os resultados apontam para a ideia de que o livre arbítrio na escolha de suas linhas de ação está disponível de uma maneira não trivial e que as mulheres não são apenas vítimas passivas de condições materiais e de socialização, nem mesmo condicionadas exclusivamente a suas relações afetivas de subordinação à figura masculina (Santos, 2010; 2012a). Isto significa dizer que são capazes de fazer diferentes escolhas a despeito destes fatores, ainda que limitadas por eles.

Outro trabalho de pesquisa, intitulado “Infância e violência: cotidiano de crianças pequenas em favelas do Rio de Janeiro, Recife e São Paulo”, sob a coordenação de Hermílio Santos, busca investigar a violência nas comunidades a partir de diversos prismas. Desenvolvido por uma equipe multidisciplinar (sociologia, economia, psicologia, ciência política e urbanismo) do Centro de Análises Econômicas e Sociais da Pucrs (Caes-Pucrs), com o financiamento da Fundação Bernard van Leer, a pesquisa se iniciou em agosto de 2012, com os resultados sobre as favelas do Rio de Janeiro e Recife já disponíveis para consulta (ver www.pucrs.br/caes). Com a utilização de um vasto arranjo de instrumentos para a coleta de dados quantitativos e qualitativos, inclusive narrativas biográficas, buscou-se percorrer as mais diversas facetas da vida cotidiana de crianças em quinze comunidades, seis do Rio de Janeiro (RJ), três do Recife (PE) e seis de São Paulo (SP), em especial as experiências de violência das crianças no âmbito da família, das ruas da comunidade e da escola.

As narrativas biográficas nesta investigação destacam o âmbito familiar e a questão geracional como construções privilegiadas para a compreensão das generalidades e especificidades do fenômeno da violência nas comunidades. A pesquisa aponta para importantes insights acerca das mistificações em torno das chamadas “famílias desestruturadas” e da pobreza como fontes de violência em si, além de uma contundente reiteração sobre a centralidade do entendimento familiar e geracional para uma busca adequada da gênese da violência nas biografias e na vida cotidiana.

Conclusão

Ainda que a produção sociológica brasileira tenha utilizado, ao longo de várias décadas, relatos de histórias de vida para a compreensão de fenômenos sociais e períodos históricos, pode-se considerar que as diferentes abordagens biográficas permanecem assumindo uma posição marginal na literatura e na produção de pesquisas empíricas. Tem-se dado ainda relativamente pouca atenção a perspectivas analíticas que proponham explorar as interpretações subjetivas de atores sociais. Este tipo de análise concebe os indivíduos como atores que interpretam os objetos com os quais está confrontado (pessoas, ideias etc.) a fim de localizar a si mesmos no mundo e, com isso, estabelecer seu próprio roteiro de ação e interpretação. Este pressuposto é compartilhado por várias escolas da sociologia compreensiva, como o interacionismo simbólico, etnometodologia, além da sociologia influenciada pela fenomenologia.

Comum a todas essas abordagens está a ideia de que o ator social não apenas internaliza normas e significados; ao contrário, o ator é também, como afirma Arthur S. Parsons (1978, p. 111), um agente consciente e responsável pela adoção ativa de códigos normativos na interpretação da realidade social. É precisamente a interpretação subjetiva da realidade ou do contexto social que poderia oferecer boas perspectivas para o desenvolvimento da pesquisa com narrativas biográficas na sociologia brasileira. Com isso, podemos afirmar que as diferentes abordagens que se valem de relatos de histórias de vida possuem diferenças internas importantes, não apenas quanto a seus procedimentos metodológicos, mas sobretudo quanto às possibilidades de acionar a interpretação de indivíduos que compartilham experiências objetivas comuns (por exemplo, desemprego, migração, violência etc.) para a compreensão desses fenômenos sociais.

1Sobre as contribuições de Florestan Fernandes para a pesquisa biográfica, ver Fernandes (2007), Martins (1996) e Alvarez (2007).

2Esse intuito nem sempre era buscado através de histórias de vida, privilegiando, muitas vezes, o formato do diálogo (ver Camargo et al., 1984).

3No que se refere a biografias de pessoas que obtiveram destaque ao longo da história, o autor de um estudo sobre a história de vida de Raul Seixas, Souza discute o “problema da leitura-escrita que se faz do biografado, cujo corpo representado se encontra estilhaçado em fragmentos múltiplos”, impondo uma “eleição e organização de resíduos biográficos capazes de dar corpo a uma forma narrativa que represente, de maneira coerente, o sentido projetado sobre o indivíduo biografado” (Souza, 2011, p. 81). O recurso a materiais escritos deixados pelo biografado era amplamente utilizado nas biografias da elite, o que se contrapunha ao foco maior no relato oral dos grupos desfavorecidos, como ressalta Alberti (2004).

4Demais centros de pesquisa de destaque são o Laboratório de História Oral e Iconografia, da Universidade Federal Fluminense, e o Centro de Documentação Iconográfica, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ambos de 1982. Outro centro de estudo que tem incentivado a pesquisa através de histórias orais, no caso referentes, prioritariamente, a Campinas e região, é Centro de Memória Unicamp, fundado em 1987. Cabe mencionar ainda outros centros que têm se dedicado de alguma maneira à história oral, como a Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Fundação Carlos Chagas (Meihy, 2000), o Centro de Estudos Mineiros, que realizou um esforço de reconstrução da história de Minas com base em biografias de personagens das elites, por exemplo Hugo Antônio Avelar e Sílvia Barata de Paula Brito sobre o projeto “Memória política de Minas Gerais”, Lucília de A. Neves Delgado, da PUC-MG, que foi presidente da Associação Brasileira de História Oral e publicou História oral – memória, tempo e identidades.

5Uma definição corrente diferencia entre história oral, que incluiria todo tipo de relato oral, seja história de alguém, de um grupo, história real ou mítica. A história de vida seria o relato feito pelo sujeito sobre os eventos e maneira como sua vida transcorreu (Queiroz, 1988).

6Os encontros nacionais de história oral têm atraído forte atenção acadêmica desde seu início: nos três primeiros anos, mais de quinhentos trabalhos foram inscritos para apresentação (Alberti, 1997). Várias coletâneas têm sido publicadas com os trabalhos apresentados nos encontros nacionais de história oral, por exemplo Ferreira (1994) com as principais palestras proferidas no II Encontro Nacional, Simson (1997) com textos do III Encontro Nacional, realizado em Campinas, e Montenegro e Fernandes (2001), com trabalhos apresentados no IV Encontro Nacional de História Oral em Recife. Nesse último foram apresentados trabalhos sobre memória de operárias, trabalhadores fabris, seringueiros amazônicos, migração de camponeses, educação de mulheres, histórias de vidas de presidiários, entre muitos outros.

7A ABHO publica, desde 1997, a Revista História Oral, com duas edições ao ano.

8Mesmo que sociólogos brasileiros tenham desempenhado um papel fundamental na criação do Comitê de Pesquisa 38, Biografia e Sociedade, da Associação Internacional de Sociologia, no final dos anos 1970, a participação de brasileiros nesse comitê parece ter sido limitada a partir dos anos 1990.

9Transcriação seria a última fase da recriação da história de vida, depois da transcrição e textualização, no qual se recriaria a atmosfera da entrevista e de situação de interação entre entrevistado e entrevistador: “procura-se trazer ao leitor o mundo de sensações provocadas pelo contato, e como é evidente, isso não ocorreria reproduzindo-se o que foi dito palavra por palavra” (Meihy, 1991, p. 30).

10Na educação, o uso de trajetórias de vida de professores vem se consolidando como método de pesquisa bastante frequente. Uma coletânea bastante representativa para o uso de biografias e histórias de vida nessa área (Abrahão, 2004) é a que resultou do II Congresso Internacional de Pesquisa (Auto) Biográfica. Os métodos de pesquisa biográfica também têm se tornado populares em outras áreas de conhecimento, como na enfermagem (Santos e Santos, 2008).

11Está no prelo pela Edipucrs a sua obra metodológica mais importante, Pesquisa social interpretativa, a ser publicada ainda em 2014.

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Recebido: 20 de Fevereiro de 2014; Aceito: 14 de Abril de 2014

Autor correspondente: Hermílio Santos, PPG em Ciências Sociais, Av. Ipiranga, 6681, p. 5 90619-900 Porto Alegre, RS

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