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Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.15 no.3 Porto Alegre jul./set. 2015

https://doi.org/10.15448/1984-7289.2015.3.22878 

Apresentação

América Latina como lugar de enunciação: Vozes dissidentes, modernidades dissonantes

Latin America as place of enunciation: Dissenting voices, dissonant modernities

Adelia Miglievich-Ribeiro

Luis Fernando Beneduzi


Trazer à comunidade científica o dossiê América Latina como lugar de enunciação: vozes dissidentes, modernidades dissonantes é satisfação plena de sentido. A parceria entre os organizadores aqui traduzida empresta maior visibilidade, também, ao atual e efetivo convênio entre a Universidade Federal do Espírito Santo e a Universidade Cà Foscari de Veneza que tem propiciado a experiência da internacionalização a discentes e docentes nos editais em curso de mobilidade acadêmica. Também, é fruto de tais diálogos o Núcleo de Estudos em Transculturação, Identidade e Reconhecimento – Netir (DGP-CNPq) que ampliou a rede original de interlocutores. O convite da Civitas para a organização do presente dossiê deu-nos a inestimável oportunidade de ler e valorizar novos estudos que a nós chegaram de modo que pudemos aqui reunir um elenco interdisciplinar de estudiosos a pensar conosco os desafios postos pela e à América Latina ontem e hoje.

O subcontinente tornado, desde o século 16, colônia de poderosos impérios viu aqui nascer “povos novos” que levariam séculos para descobrir como poderiam se adaptar ou recusar um dado projeto de modernidade então instalado nas novas possessões como destino inelutável. Mas enquanto esta era a representação hegemônica, um olhar mais discreto revelava as resistências históricas aos velhos e neocolonialismos em sua ressignificação na modernidade, propriamente mediante a emergência de sujeitos e discursos que explicitam trânsitos, deslocamentos, hibridismos. Tencionamos, no exercício de construção desde dossiê, apresentar a América Latina como local de enunciação. Nossos autores têm, portanto, a ousada e delicada tarefa de expandir o público a ouvir sua voz, aproximando-o das narrativas latino-americanas que, não menos que as de outros loci, falam do mundo e para o mundo.

Júlio Pinto e Walter Mignolo inauguram este número da Civitas ao discorrer sobre uma equivocada representação da América Latina importada e temerariamente convincente, aquela a situar seus povos, modos de vida, cosmovisões como diametralmente opostos aos conceitos “civilidade”, “desenvolvimento”, “democracia” e “cidadania”. Perturbador saber quando a academia mesma não superou tal discurso, explicitamente de poder. Entretanto, parece-nos salutar dizer que este já não se mantém tão intacto quanto talvez nalgum dia possa ter sido, haja vista que, entre brechas e fissuras, outros discursos e projetos políticos ganharam vigor no tempo ao se opor a uma hoje “cambaleante modernidade” que não mais consegue omitir seus limites. Os autores falam da “reexistência”, das emergências e da decolonialidade do pensamento (e da ciência) para que possamos percebê-las. Atentemos ao duplo sentido do “emergir” e do “emergencial” para que saibamos que as provocações dos estudiosos não são retórica.

Adelia Miglievich-Ribeiro e Edison Romera Jr. dialogam com Mignolo em seu estudo, enfatizando o declarado débito do semiólogo para com o “antropologiano” Darcy Ribeiro em sua clara intenção de formular um pensamento autônomo e responsável a partir do subcontinente. Vão além na reescrita de uma linhagem crítica a adensar o atual “giro decolonial”. Por isso, os autores revolvem o período pós-independentista latino-americano, marcado nas lutas pelo sonho de Simon Bolívar em torno de uma Pátria Grande – que na prática, esclarecem, veio a se metamorfosear nas disputas entre os interesses particularistas de alguns poucos novos detentores do poder político regional. No entanto, a ideia primeira alimentou a utopia martiniana acerca de Nuestra América, desta vez a incluir o Brasil. Reelaborar, nos dias atuais, o discurso latino-americano na contundência das vozes dissidentes de José Martí e Darcy Ribeiro é postular a crítica à subalternidade do Sul e pode ser, também, uma contribuição na revisão do pensamento social brasileiro que, nalgum momento, se permitiu seduzir por uma modernidade alheia que desacreditou sua própria gente.

Chiara Vangelista coloca em discussão alguns silêncios eloquentes quando falamos em América Latina ao se referir às as populações indígenas. Em uma leitura que atravessa o período colonial brasileiro, as dinâmicas de construção do estado nacional e as reelaborações identitárias dos séculos 20 e 21, busca analisar o lugar dos índios enquanto sujeitos históricos no centro-oeste brasileiro, partindo de leituras dos discursos produzidos acerca destes grupos tribais que habitam a região. A autora contesta uma elaboração preconceituosa que se consolidou, com relação às sociedades tribais, ou seja, a condenação a uma incapacidade de produzir projetos próprios, sendo sempre um reflexo das ações dos diferentes conquistadores, em suas reações, resistências ou submissões. A transformação vivida no presente, com mecanismos que desde 1988 promoveram uma nova participação indígena na sociedade e no estado brasileiros, permite reler o passado, observando não somente o enquadramento da sociedade tribal naquela colonial e sucessivamente nacional, mas, também, o contrário, o enquadramento das sociedades “civilizadas” no contexto de relações interétnicas nos grupos autóctones.

Luís Fernando Beneduzi também observa esta relação entre a experiência presente e a leitura do passado e do outro, tanto em modo diacrônico quanto sincrônico. A catástrofe e a barbárie que caracterizaram a Primeira Guerra Mundial trazem consigo, em um contexto de transformação sociopolítica da realidade latino-americana, entre os anos 1920 e 1930, novas representações acerca do velho mundo. A partir das interações entre o norte e sul do continente americano, também a sociedade europeia vai ser dividida entre um norte e um sul, onde o primeiro – não latino – será mais fortemente associado aos elementos negativos do individualismo e do capitalismo. Em um processo de ressignificação do mestiço, o conceito de um Mediterrâneo híbrido produtor de civilização e superioridade moral, presente já na obra de Gabriela Mistral, conduz a um novo olhar com relação ao subcontinente, lugar de encontro de um hibridismo que aglutina Oriente e Ocidente.

Adriana Cristina Crolla traz à luz as dinâmicas complexas que envolvem os processos migratórios entre a Europa e a América Latina, em uma estrada de mão dupla que coloca em confronto, a partir das análises dos textos de Beck Bernard e Laura Pariani, passado e presente dos deslocamentos humanos através do Atlântico. O conceito de nomadismo do imaginário utilizado pela autora permite identificar uma realidade sempre mais candente de construção identitária que acontece nas (e através das) fronteiras, lugares cada vez mais porosos fisicamente mas mais demarcados simbolicamente. Entre ontem e hoje, estes passageiros da terceira classe acabam silenciados em suas experiências de perdas, desenraizamentos, dores e ausências, e vivem, embora em realidades temporal e socialmente diferentes, vivem o isolamento, seja na “pampa gringa” de Santa Fé seja nos conglomerados urbanos como em Milão: a solidão pode ser vivida na floresta ou em maio as grandes árvores de concreto da urbe.

Vívian Dan retoma o debate acerca da questão indígena na experiência do “neoconstitucionalismo latino-americano” praticado no assim chamado Estado Plurinacional Boliviano, em seus limites e possibilidades, desde sua implementação em 2009. A homogeneização do controle político-jurídico e, também, do sistema educacional, em diferentes regiões no país (e na América Latina) é mostrada pela investigadora como produto do colonialismo e dos neocolonialismos no processo de modernização das sociedades. Identifica a tarefa descolonizadora contida no novo constitucionalismo, entretanto, indica suas contradições e riscos ao ter sua execução assumida por uma burocracia estatal que não se emancipou do desenho institucional dos estados democráticos de direito contemporâneos, dotado de poucos instrumentos sensíveis para alargar a percepção das modernidades dissonantes. Descreve de modo peculiar a organização chiquitana e suas demandas enquanto povo indígena, não por acaso vozes dissidentes que pleiteiam ser ouvidas.

Maria da Gloria Gohn revisita a trajetória recente do associativismo latino-americano, nota que alguns movimentos sociais retomaram a visibilidade e centralidade, também, se transformaram bastante e alteraram seus projetos políticos. Marcados pela heterogeneidade, é possível verificar desde o movimento antiglobalização e suas redes transnacionais até as manifestações no urbano, outras de raízes étnico-culturais e campesinas assim como as lutas no campo da educação, o movimento contra corrupção e ética na política e os processos de luta por direitos e construção de identidades tais quais os movimentos das mulheres e dos gays, em diferentes formatos e combinações. Destaca ainda em sua análise as manifestações de junho de 2013 no Brasil, levando-nos, por fim, a pensar que é provável que a América Latina esteja, a partir de suas experiências num só tempo próprias e entrelaçadas a diferentes modernidades, contribuindo efetivamente na produção de teorias críticas em um novo eixo paradigmático, que não negligencia os neocolonialismos, de modo a fomentar diálogos mais simétricos e frutíferos entre pesquisadores de vários países, do Sul e do Norte.

Sara Beatriz Guardia, por fim, convida-nos a uma reflexão que, simultaneamente, desconstrói uma história eurocêntrica – aquela que negou o estatuto de civilização à diferença colonial – e expõe a dominação de gênero na interseção com outras espoliações de caráter étnico e “racial” a subjugar, na América Latina e, mais especificamente no Peru, de onde a autora fala, as experiências e vozes femininas quase absolutamente silenciadas. A revelação de Micaela Bastidas, heroína da história peruana em fins do século 18, tendo sua origem na sociedade incaica onde as mulheres ocuparam importantes posições, é uma exceção que confirma a regra. A escritora explicita ainda que a independência política não trouxe a libertação prometida para as populações minorizadas e destituídas de cidadania, a exemplo dos indígenas, afrodescendentes e mulheres. Acerca destas últimas, ressalta os esforços da historiografia recente e de seus núcleos de pesquisa, divulgação científica e artística existentes em diversos países latino-americanos. Fala-nos de avanços feministas, em que pesem os muitos e persistentes desafios, desde a luta pelo direito à terra até a ocupação de cargos públicos.

Trazemos, também, em nosso dossiê, duas entrevistas especialmente caras. Uma delas concedida a Adelia Miglievich-Ribeiro por ocasião de seu estágio pós-doutoral. Em Lima, a pesquisadora conversou com César Germaná Cavero, sociólogo peruano, catedrático da Universidad Nacional Mayor de San Marcos, pesquisador e formador de gerações a mais de 30 anos. O mote da entrevista é Darcy Ribeiro que, em seu exílio latino-americano, trabalhou no Peru de fins de 1960 e 1970 quando durante oito anos apostou na transformação social então conduzida pelo ainda não completamente desvendado Governo do General Velasco Alvarado. Germaná recorda ainda, de outra feita, o socialismo indo-americano de Mariátegui, título de seu livro mais célebre. A questão das interculturalidades e das descolonialidades é pujante em sua reflexão. Como não poderia deixar de ser, o entrevistado recorda e atualiza o pensamento sobre a “universidade necessária” de Darcy Ribeiro.

A segunda entrevista foi concedida a Cláudia Battestin e Hildegard Susana Jung por Eduardo Devés Valdés, historiador chileno, coordenador do Programa de Estudos Pós-doutorais do Instituto de Estudos Avançados da Universidad de Santiago de Chile. Desafiado a “pensar Nuestra América a partir e para si”, teceu uma reflexão especial acerca das instituições de educação e dos currículos que, no conjunto latino-americano, majoritariamente, ainda subestimam a produção intelectual neste acumulada – certamente no rico diálogo com fontes teóricas espalhadas pelo mundo – em prol quase exclusivamente das escolas fundadas na Europa Ocidental e na América do Norte. Entende que a valorização de tal produção potencializa uma guinada epistemológica que põe em xeque também a organização disciplinar inventada pela modernidade eurocêntrica em favor da inter e transdisciplinaridade capazes de absorver outras sensibilidades e cosmovisões além daquelas classificadas num dia e nalgum lugar como saberes superiores.

O dossiê encerra-se coerentemente com a resenha crítica escrita por Sandro Silva do livro Crítica pós-colonial: panorama de leituras contem-porâneas, organizado pelas pesquisadoras Julia Almeida, Adelia Miglievich-Ribeiro e Heloísa Toller. Segundo o resenhista, os dezenove autores que participam da coletânea dão a dimensão do quão vastos são os campos de investigação, reflexão e mediação intitulados pós-coloniais. Em suas distintas recepções do pós-colonial, os pesquisadores assumem a radicalidade de um projeto crítico que redimensiona sentidos para a emancipação humana a incluir a ótica da arte, da estética, dos direitos humanos e das formas de sociabilidade. Ainda, chamam atenção para o pós-colonial que desafia a naturalização das condições sociais responsáveis pela elaboração dos discursos acadêmicos.

Esperamos que o dossiê some na percepção da riqueza contida no empenho em torno da internacionalização acadêmica quando esta enseja estímulos recíprocos às pesquisas do Sul e do Norte e as colocam em desejável diálogo simétrico. Afirmar a América Latina como local de enunciação é parte deste movimento e ousa pretender chegar ainda ao ponto em que a produção intelectual acumulada possa abranger um concerto bem maior de vozes, sabemos, ainda emudecidas. Por isso, é importante lembrar o quanto ainda nos falta caminhar. Contudo, aqui registramos nossas pegadas.

Boa leitura!

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