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Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.18 no.2 Porto Alegre maio/ago. 2018

https://doi.org/10.15448/1984-7289.2018.2.29605 

Artigo

Crianças na economia familiar do Baixo-Tapajós (Pará): Ajudar, aprender, “se acostumar”

Children in the household economy on the lower Tapajós region (Brazilian Amazon): To help, to learn, “to get used to”

Niños en la economía familiar del Bajo-Tapajós (Pará, Brasil): Ayudar, aprender, “acostumbrarse”

Chantal Medaets1 

Chantal Medaets <chantal@uol.com.br>

Doutora em Antropologia pela Université Paris Descartes (Paris, França), pós-doutoranda Capes-Cofecub no Institut des Hautes Études de l'Amérique latine (Iheal), Université Sorbonne Nouvelle, Paris, França.


http://orcid.org/0000-0002-7834-3834

1Institut des Hautes Etudes de l'Amérique Latine (Iheal), Université Sorbonne Nouvelle, Paris, França


Resumo:

Dialogando com um conjunto de trabalhos que se interessam pela contribuição de crianças em atividades produtivas em contextos de agricultura familiar (ou camponesa), sobretudo no Brasil, este artigo descreve essa contribuição de meninos e meninas da região do Baixo Tapajós (Pará) aos afazeres da roça e do trabalho doméstico, assim como suas experiências na caça e na pesca. Através dessa participação, as crianças no Tapajós, que frequentam a escola por um período do dia, aprendem saberes considerados importantes localmente. Meus interlocutores associam esse processo de aprendizagem à ideia de se acostumar, e mostro, em consonância com o resultado de outras pesquisas, que ele implica um tempo longo de convivência e observação e uma participação progressiva nas atividades praticadas por adultos. Em conclusão, insisto sobre o fato de que passar por esse processo é o que permite, caso a pessoa queira, ficar nas comunidades e se apropriar dos modos de vida ali vigentes.

Palavras-chave: Infância; Trabalho; Aprendizagem; Amazônia; Agricultura familiar

Abstract:

This article joins the literature examining children's contribution to small farmers’ economy in Brazil by describing how children from the lower Tapajós region contribute to their parents’ work in crop fields, domestic chores, hunting and fishing. Tapajós children, who also attend part-time school, acquire traditional knowledge and locally valued skills through their participation in these activities. My interlocutors associate this learning process with the idea of “getting used to” (se acostumar) and I show, in accordance with other studies, that this process implies long-time observation and progressive participation in adult's activities. In the conclusion, I insist that going through this process allows the persons to appropriate the local way of life and stay in these communities, if they want to.

Keywords: Children, Work; Learning practices; Amazonia; Household economy

Resumen:

Este artículo dialoga con un conjunto de trabajos que se interesan en la participación de niños en las actividades productivas dentro de agricultura familiar (o campesina), sobre todo en Brasil. El texto describe la contribución de niños y niñas de la región del bajo Tapajós (Pará) en los quehaceres de la roza y del trabajo doméstico, así como analiza las experiencias de estos niños en el ejercicio de la caza y la pesca. A través del trabajo, los niños en el Tapajós, que frecuentan la escuela durante el día, aprenden saberes que son considerados importantes por la comunidad. Mis interlocutores han asociado este proceso de aprendizaje con la idea de “acostumbrarse”. En mi investigación demuestro, en consonancia con el resultado de otras investigaciones, que la interacción entre el mundo del trabajo y la comunidad implica un largo periodo de convivencia y observación, así como una participación progresiva en las actividades practicadas por los adultos. En conclusión, subrayo que el hecho de pasar por este proceso es lo que permite, si la persona lo desea, integrarse a las comunidades y apropiarse de los modos de vida que están allí vigentes.

Palabras clave: Infancia; Trabajo; El aprendizaje; Amazonas; Agricultura familiar

Introdução

A participação de crianças em atividades produtivas no contexto da agricultura familiar ou camponesa é absolutamente comum. Desde estudos já clássicos como o do sociólogo francês Henri Mendras (1976) e dos antropólogos brasileiros Margarida Moura (1978), Beatriz Herédia (1979) ou Klaas e Ellen Woortman (1997), até trabalhos mais recentes1 fazem referência a essa contribuição infantil, muitas vezes indispensável para tornar viável a atividade econômica das famílias, e assim, o modo de vida camponês. Dentre estes, os estudos que se interessaram mais de perto pelas práticas infantis insistem na indissociabilidade das atividades produtivas das crianças de processos mais amplos de socialização e aprendizagem.

As crianças do Baixo Tapajós com quem convivi também trabalham ou ajudam, como se diz com mais frequência, nas roças (sobretudo de mandioca), nas tarefas de casa e, dependendo da idade, pescam e caçam na companhia de adultos ou sozinhas.2 A observação (dos gestos, corpos, olhares e falas) mostra que a maior parte do tempo elas participam com prazer das atividades produtivas dos pais, sobretudo nas tarefas ao ar livre que lhe são atribuídas. Intercalam a ajuda com brincadeiras (um pulo no igarapé, juntar uma semente diferente, pegar frutas) ou tornam a própria realização da tarefa lúdica (fazem pequenas competições entre si, gozações, contam histórias). É claro também que às vezes não querem fazer o que ordenam ou pedem seus pais ou outros adultos: as estratégias de esquiva (mais que de negociação) coexistem com as práticas disciplinares utilizadas pelos adultos para impor suas injunções.

Este artigo trata dessa ajuda-trabalho que as crianças de comunidades na região do baixo curso do rio Tapajós, nas proximidades da cidade de Santarém (Pará), realizam. Aqui, como em tantas outras áreas rurais onde o trabalho e a vida familiar andam juntos, esse processo implica obedecer, aprender, compreender e se apropriar (combinando imitação e transformação3) de valores e maneiras de ser próprios dali; vivê-lo permite assim desenvolver competências fundamentais para que a permanência nessas comunidades seja uma alternativa possível quando a criança se tornar um jovem adulto.

Começo por uma breve apresentação da área de estudo para, em seguida, descrever a organização das atividades produtivas de seus moradores e a participação das crianças nas diferentes atividades: roça, trabalhos da casa, pesca e caça. Sempre que possível, trago a percepção das crianças, ou o que a observação num tempo longo4 mostra de seus ânimos, desejos e contrariedades. Nessa região, não é costume que as crianças deem suas opiniões, e abordá-las com perguntas diretas não se mostrou a estratégia de pesquisa mais adequada (as falas que apresento são espontâneas).5 Por fim, antes de concluir, abordo tanto casos que fogem das “normas” locais, ou seja, do que é considerado aceitável localmente, quanto estratégias de contorno e microrresistências operadas pelas crianças.

A Resex e suas comunidades

As comunidades de Pinhel e Parauá, onde realizo trabalho de campo desde 2010, ficam na região do Baixo Tapajós, dentro dos limites da reserva extrativista Tapajós-Arapiuns (nomes dos rios que delimitam suas fronteiras). Reservas extrativistas (Resex), são unidades federais de conservação ambiental que admitem em sua área a permanência de antigos moradores, considerados então pelos órgãos gestores como “populações tradicionais”.6 Na Resex Tapajós-Arapiuns, no entanto, pouco depois de sua criação em 1998, parte dos moradores, não se contentando mais com essa denominação (e com o enquadramento legal-territorial a ela associado), passa a reivindicar uma identidade indígena.7 Já outros moradores, muitas vezes membros das mesmas famílias, recusam categoricamente aderir ao movimento indígena.8 O modo de vida de ambos os grupos (indígenas e “populações tradicionais”) permanece semelhante, sobretudo no que se refere ao trabalho, e indígenas e não-indígenas continuam a conviver, trabalhar juntos, casar-se (indígenas casam-se com não-indígenas e vice-versa), ser compadres e comadres uns dos outros, etc. Entre meus interlocutores, há tanto pessoas que se identificam como indígenas como outras que não se identificam.

A maioria dos habitantes da Resex tem roças de mandioca (cultivam também jerimum, milho e arroz, em menor escala) e criam pequenos animais (galinhas, patos, porcos).9 Alguns possuem cabeças de gado, raramente mais de quinze, ou têm uma vendinha em sua própria casa. As terras, como em todas as Resex, pertencem ao Estado, mas cada família tem direito de uso sobre uma parcela (no caso da Resex Tapajós-Arapiuns, as parcelas variam de 0,5 a 2 hectares) que é - e já era desde antes da criação da Resex - considerada pelos moradores como sua (ou de um ascendente).10 A maioria dos homens caça e pesca e algumas mulheres pescam também. Há, entre os moradores, os que ocupam as disputadas vagas de trabalho assalariado em escolas e em postos de saúde das comunidades: são professores (as), merendeiras, agentes de limpeza, agentes de saúde, enfermeiras.11 E há também os que são empregados temporariamente nos projetos de construção civil (de escolas e casas).12 A maioria dos moradores recebe, como complemento de renda, auxílios governamentais (Bolsa Família e Bolsa Verde).13

As crianças frequentam a escola e, no turno inverso, fazem de tudo um pouco, ajudando progressivamente, desde os 5/6 anos, nas diferentes ocupações de seus pais. A seguir descrevo as principais atividades em que as crianças participam ou das quais são responsáveis, indicando a distribuição das tarefas em função da idade e do gênero das crianças, assim como da configuração familiar e da natureza da atividade em questão.

As roças e a produção de farinha de mandioca

Produtos da terra, tarefas e motivações de adultos e crianças

Na região do Tapajós, como em quase toda a região norte do país, não existe refeição que não seja acompanhada pela farinha de mandioca. Equivalente ao arroz e feijão de outras regiões brasileiras, a farinha é servida com caldo de peixe ou peixe frito, com todo tipo de carne, serve de “engana-fome” quando misturada só com água e sal (chibé), e pode acompanhar também o açaí. Além da farinha, são ainda extraídos da mandioca a tapioca e o tucupi (líquido fermentado, com o qual se faz um molho, adicionando pimenta), e fabricados o carimã (massa fermentada que serve para fazer biscoitos) e o tarubá (bebida alcoólica fermentada, servida em festas). É difícil, para não dizer impossível, imaginar a vida nessas comunidades sem o consumo desses diferentes derivados da mandioca. Eles estão presentes no dia a dia e em datas festivas, são mencionados em músicas, em histórias orais, dão nome a programas de rádio.14 De um ponto de vista simbólico, esses produtos podem ser considerados como marcadores identitários, tanto para os grupos que se reivindicam indígenas, como para aqueles que permanecem como “populações tradicionais” ou populações ribeirinhas.

O plantio, a manutenção das roças e a fabricação dos derivados dessa raiz de origem indígena envolve todo o grupo doméstico.15 Os homens e os meninos a partir de 16/17 anos ficam encarregados das atividades consideradas mais exigentes fisicamente (“abrir” as roças16 e preparar a terra para receber os brotos) e é comum que se organize um dia de puxirum (mutirão), contando com a participação de vizinhos e parentes.17 Esse trabalho acontece, em geral, uma vez por ano ou ano e meio e pode ocupar o grupo doméstico por uma semana inteira (as mulheres ficando responsáveis pelo preparo das refeições). O restante dos trabalhos (plantio, manutenção das roças, colheita das raízes e a produção de farinha e outros derivados) mobiliza, preferencialmente, apenas membros do grupo doméstico. O conjunto dessas atividades ocupa, em função do tamanho das roças e do número, idade e capacidade de trabalho dos membros do grupo doméstico, um a três dias por semana, as crianças e adolescentes participando dos trabalhos no contraturno escolar.

As fases em que as crianças participam mais ativamente são o plantio (elas ajudam a recobrir de terra as covas onde as mudas foram plantadas, arrancam ervas daninhas, levam e trazem água e ferramentas de trabalho aos adultos), a manutenção da roça (meninos ajudam na capina das roças que acontece a cada mês ou dois meses, e meninos e meninas ajudam no replante gradual de mudas após a colheita) e a produção dos derivados da mandioca (meninos e meninas ajudam a descascar a mandioca, ralar, peneirar, espremer, buscar lenha para fazer o fogo e torrar a farinha). As crianças ajudam também no transporte da mandioca, da farinha e de ferramentas de trabalho.

Essas atividades são realizadas, portanto, em família, na terra que pertence aos pais ou aos avós. São eles que determinarão as tarefas das crianças e é a eles também que caberá a decisão de como partilhar os produtos finais do trabalho (farinha, tapioca etc). Nesse ponto, a situação aqui é diferente, por exemplo, daquela descrita por Herédia (1979), em zonas rurais de Alagoas nos anos 1970. Ali, as crianças ajudavam os pais nas roças familiares, mas com 10/11 anos recebiam um pequeno lote de terra, chamado rocinha, considerado como sendo delas. Depois da ajuda dada aos pais, elas podiam cultivar então suas próprias rocinhas e o valor obtido com a venda desses produtos lhes pertencia. Mézié (neste volume) observou recentemente um arranjo similar no Sudoeste Haiti. No Tapajós, não encontrei esse tipo de situação.

Fotografia da autora.

Foto 1 Adultos e crianças descascando mandioca 

Fotografia de Lucie Robieux.

Foto 2 Num puxirum, crianças tirando ervas daninhas 

Fotografia de Lucie Robieux.

Foto 3 Avó e dois netos voltando da roça 

Meus interlocutores consideram o conjunto de tarefas envolvidas no cultivo da mandioca e na produção de seus derivados como bastante trabalhoso e aqueles que têm acesso a outras fontes de renda tendem a reduzir o tempo dedicado a essa produção.18 De fato, todos afirmam que antigamente a produção da farinha era significativamente mais importante e é comum ouvir que hoje, o pessoal quase não faz mais farinha. No entanto, raros são os que de fato abandonaram essa produção.19 Atualmente, a maioria dos grupos domésticos combina a produção de farinha em menor escala do que era o costume uma geração atrás e a compra de um complemento deste produto, daqueles que mantêm uma maior produção. Seja nos grupos domésticos que continuam com uma produção mais intensa, seja naqueles que a reduziram, as crianças, meninos e meninas, participam do trabalho e são, na verdade, indispensáveis para tornar a produção viável. Como explica Dona Arlinda, mãe de seis filhos:

Eles vêm porque nós precisando pra buscar uma água, eles vão. Pra tirar uma mandioca, um vai arrancando, um vai descascando, outro coloca n’água. Aí quando for tempo pra nós torrarmos, um vai pra fogueira cuidar da mandioca, um vai tirar lenha… É assim.

Se para os adultos a presença das crianças é útil, para as crianças, ir para a roça é, em geral, motivo de alegria e excitação. Wendel (6 anos), pensando no dia seguinte em que iria torrar farinha com seus pais, irmãos, um tio e seus primos, comenta sem esconder sua animação:

É amanhã que a gente vai. É amanhã […]. E vai a Natália, a Janaína, vai o Pirulito, o Davi, e o tio Danilson vai também. E vai… vai, o Bethoven também [cachorro da casa]. Eu vou me acordar bem cedo, eu. Antes da mamãe eu vou me acordar…

O comentário de Antônio (42 anos), referindo-se a seus quatro filhos (um menino e três meninas), vem confirmar o que a observação em diferentes grupos domésticos deixa evidente: Ah, quando a gente fala de ir pra roça, ninguém quer ficar, tudo quer vir! (risos). Para que os filhos não percam aulas, o fim de semana é bastante usado para atividades agrícolas. Também é comum que o grupo se divida em dois: alguns adultos vão cedo com os filhos que estudam à tarde (estes voltam para a comunidade na hora do almoço) e outros esperam os filhos saírem do turno da manhã para partir.

Além da reunião familiar que a ida à roça implica, as crianças têm outros motivos para gostar dessa atividade. As roças ficam em parcelas de terra chamadas centros, que podem ficar de meia hora a uma hora e meia de caminhada das casas. As crianças só têm autorização para percorrer esses caminhos nessa ocasião (ou quando são enviadas para levar almoço a familiares que trabalham no centro). E caminhando, elas brincam, correm na frente dos adultos ou ficam para trás em grupinhos de conversas e cochichos, buscam árvores frutíferas, colhem frutas, escutam animais, exploram. Além disso, nos centros, é comum que haja um igarapé (riacho), para onde elas se precipitam assim que os pais permitem.

Para os pais que vivem nessas comunidades de beira rio no Tapajós, a ajuda dos filhos é fundamental. E parece superar o trabalho que a criação de uma criança pode dar. Como Dona Aracy (51 anos) me explicou:

Eu, olha, eu tive nove filhos, né? Mas eu não me arrependo não, porque eles me ajudam muito sabe? Nós, a riqueza nossa são os filhos. Porque a gente não tem salário, mas a gente trabalha, Deus dá a saúde e a gente vai vivendo com a ajuda dos filhos da gente, né?

Fazer, “se acostumar”, aprender

Chegando no centro, aos meninos são atribuídas tarefas em que se faz uso de enxada e foice (capina de terreno, manutenção das roças). As meninas ajudam na preparação da refeição, e meninos e meninas participam, com contribuições similares, do plantio ou replantio das mudas de maniva (parte aérea da planta da mandioca) e de todas as etapas da produção de farinha. A partir de seus 9/10 anos, os pais exigirão uma contribuição crescente de seus filhos nessas tarefas, o tempo que passam nelas varia em função do número de irmãos ou, às vezes, primos em idade de partilhá-las. O que é certo é que todos ficam à disposição dos pais, e intercalam, na medida do possível, brincadeiras com a realização de tarefas que lhes são conferidas. As crianças mais novas contribuem também, mas de maneira mais pontual: vão buscar lenha, são mandadas lavar um utensílio no igarapé, adoram participar da descasca da mandioca. Muitas vezes vi crianças de dois, dois anos e meio irem sozinhas (e sem que ninguém tenha sugerido) atrás de uma faca para poderem integrar o grupo de descascadores. Além dessas pequenas ajudas, elas são também trazidas para que não fiquem sozinhas em casa. Algumas vezes também acontece, claro, de uma criança não querer realizar uma determinada atividade (por cansaço, falta de vontade, interesse em outra coisa…). Se sua ajuda não é imprescindível, ela poderá deixar de participar; senão, com um olhar ou poucas palavras, os adultos a farão saber que ela não tem escolha senão contribuir.

Esses momentos são ricos de aprendizagem, pois ali as crianças observam as escolhas, os gestos e os comentários dos adultos sobre detalhes de fundamental importância para o bom manejo das roças. No que se refere ao cultivo, ouvem considerações sobre a qualidade do solo, sobre os efeitos do clima naquele ano, sobre o comportamento e evolução das diferentes variedades de mandioca,20 sobre a distância adequada que deve haver entre um pé e outro (se diz que um pé tem que poder balançar sem encostar no vizinho), sobre as diferentes técnicas de plantio das mudas (muda deitada, quando esta é enterrada ou muda enfiada, quando uma parte fica exposta). Quanto à confecção da farinha de mandioca, veem todo o processo, o cuidado dos pais para atingir e manter a boa temperatura do forno, os comentários sobre a qualidade da massa e da farinha em função da variedade de mandioca (bem amarelinha, enxuta ou aguada etc.), sobre os rendimentos esperados e os obtidos. No trajeto, nas trilhas percorridas até a roça, veem adultos ou outras crianças indicando um caminho de caça (um ramal), comentando sobre os hábitos de tal ou tal animal (a cutia gosta da fruta da muúba,21 a paca se caça ficando em baixo de um abacatirana22), identificando diferentes árvores, plantas, sementes, cipós e frutas que podem ter diferentes utilidades. Por fim, em seus corpos, experimentam também, aos poucos, os gestos e as sensações próprios a esses trabalhos: os calos na mão decorrentes do uso da foice, o calor do forno, o cheiro tão apreciado da farinha torrando, os músculos da canela puxando por causa das longas caminhadas.

O desenvolvimento dessas competências que são, a um só tempo, intelectuais e corporais, é fundamental para que uma pessoa possa, caso deseje, viver desse cultivo no futuro.23 Assim, além de espaço de socialização e de convivência, a participação no trabalho é um momento privilegiado para aprender os saberes importantes para a vida nesse contexto. Os adultos que não puderam enquanto crianças ajudar seus pais na roça e na vida de sítio, como dizem, não têm, hoje, a opção de permanecer nas comunidades e viver de roça. Cleonice, por exemplo, tem 42 anos e mora em Manaus. Nem se eu quisesse não dava pra eu ficar aqui, ela diz. Eu sai, então eu não acostumei a mexer com as coisas de plantação… É, porque é toda uma ciência! Como na época a escola primária na comunidade funcionava dia sim, dia não, com oito anos sua mãe a mandou para uma tia na cidade, para que Cleonice pudesse estudar. Em troca, a menina fazia os serviços domésticos para a tia, numa trajetória que era bastante comum até meados da década de 1990.

Cleonice não pode então se acostumar, como ela diz. O verbo se acostumar, da maneira em que é usado na região, remete ao processo de aprendizagem (para uma discussão mais detalhada sobre esse ponto, ver Medaets, 2015, p. 16-22). De acordo com meus interlocutores, para que haja aprendizagem é preciso a conjunção de três fatores: o interesse do aprendiz (vai do interesse da pessoa), seu talento (o dom ou jeito) e a possibilidade que ele se acostume. E para que esse terceiro ponto possa ocorrer, é preciso tempo, possibilidade de convivência e de observação de pessoas mais experientes, assim como prática individual (repetição) e desenvolvimento corporal. Pesquisadores que têm se dedicado ao estudo de processos de aprendizagem que acontecem através da participação direta nas atividades aprendidas mostram que esses aspectos fazem parte de um núcleo comum de elementos característicos desses processos, em diferentes contextos culturais.24 A participação no trabalho dos pais oferece todos esses ingredientes.

O trabalho nas coisas de casa

Se as atividades ligadas à roça e à produção da farinha suscitam ânimo nas crianças, o mesmo não se pode dizer das tarefas ligadas à gestão cotidiana da casa. E elas são aqui, como em tantos outros lugares, prioritariamente atribuídas às meninas e mulheres. No Tapajós, no entanto, meninos e, mais raramente homens, podem também realizá-las, sem que isso seja malvisto ou percebido como uma afronta a sua virilidade. Vejamos como isso acontece.

Meninas de 9/10 anos em diante, sobretudo se são as mais velhas da casa, dividem com as mães a maior parte do trabalho doméstico: varrer, arrumar, cozinhar, lavar roupas, cuidar dos irmãos mais novos. Isso pode tomar até três horas do seu dia. As mais novas, entre 4/5 e 8/9 anos, recebem tarefas mais leves (lavar, estender e dobrar suas próprias roupas, varrer um quarto, ir dar recados e buscar coisas), o que pode ocupar uma, raramente duas horas de seu dia. As mães esperam, com essas tarefas de crescente importância, que haja uma aprendizagem do que consideram o mínimo que as meninas deverão saber fazer quando tiverem a casa delas, [… e/ou] quando andarem pela casa dos outros (Lidiana, 43 anos, mãe de 9 filhos). Uma menina assim de uns dez anos que não sabe arrumar ou ao menos fazer um café… Ave Maria, deus o livre! me diz dona Arlinda (48 anos, mãe de quatro meninos e duas meninas), mostrando que essa situação seria considerada praticamente uma aberração.

Com relação a menção de Lidiana ao trabalho feito na casa dos outros é preciso lembrar que, nessas localidades, o fato de enviar alguns filhos - e sobretudo filhas - para a casa de parentes ou de famílias com mais recursos, geralmente na cidade, era muito comum. Hoje essa prática diminuiu significativamente (havia apenas dois casos entre 2010 e 201525) mas permanece tanto como memória recente, quanto como possibilidade eventualmente evocada. É muito provável que o aumento significativo dos valores de repasse de programas sociais de redistribuição de renda que ocorreu a partir dos anos 2000, assim como a expansão da oferta educacional nas comunidades, tenha contribuído para a diminuição da ocorrência desse tipo de situação. No Tapajós, também é comum observar crianças que são enviadas morar temporariamente com seus avós ou tios e tias, quando estes ou estas ficam viúvos ou moram sozinhos, com intuito de ajudá-los nos trabalhos domésticos ou ligados ao roçado (Medaets, 2017).

O que me parece significativo na dinâmica que rege esses “envios” de crianças para fora do grupo doméstico, é que ela vem explicitar o que já era possível entrever na participação de crianças em atividades no interior desse grupo. Nessas comunidades, as crianças e, de maneira mais ampla, os membros de gerações mais novas, assumem o papel de ajudantes, reforçando a clara hierarquia que existe entre as gerações. Suas contribuições nas diferentes atividades que devem ser realizas pelo grupo doméstico será determinada pelos pais (ou pelos adultos com quem moram) e, na grande maioria das vezes, sua opinião ou vontade não será consultada. Assim, essa contribuição será definida pelos donos da terra (para tarefas do roçado) ou pelos donos da casa (para tarefas domésticas), em função da composição do grupo doméstico, seus vínculos e alianças. Nessa organização, os filhos mais velhos são os que recebem maiores responsabilidades. E os meninos são também chamados a colaborar com as coisas de casa, mesmo se sua contribuição é menos sistemática.

Fotografia de Lucie Robieux.

Foto 4 Dois irmãos tratando peixe 

Fotografia da autora.

Foto 5 As mulheres da casa lavando roupa 

Fotografia da autora.

Foto 6 A irmã mais nova faz uma pausa; a mais velha não tem essa opção 

Adultos que exageram, crianças que se esquivam

Nas descrições feitas até aqui, relatei o que acontece na maior parte das vezes, o que não significa que não haja exceções, discordâncias e resistências. Assim, as crianças e mesmo os adolescentes, são, em geral, poupados da contribuição em atividades consideradas como trabalho pesado: derrubada de árvores e queimada para abertura de roças; transporte de peso acima de 20/25kg; escaldar a farinha (mexer durante os primeiros minutos da torrefação), atividade que exige gestos experientes para não queimar a farinha, deixar formar grumos e que expõe quem a realiza ao calor do forno. No entanto, há pais que, segundo a percepção dos próprios moradores, exageram e dão aos seus filhos tarefas que a maioria na comunidade considera inadequada para crianças:

Tem pai que é assim, exagera né? Dá todo tipo de trabalho pesado, vai pra roçado grande cortar pau… credo aí tá escravizando a criança. Olha, a Josefa, ela botava a filha dela da colônia com um saco de macaxeira - sabe, um saco é um saco, né?26- dali pro rumo da beira [do rio]. Aí já é exagero (dona Neide, 53 anos, mãe de dois meninos e quatro meninas).

As crianças também não subscrevem passivas às ordens e injunções dos adultos. Como em qualquer outro lugar, no Tapajós elas testam os limites dos mais velhos. Quando lhes são dadas tarefas que não gostam ou não querem fazer naquele momento, tentam se esquivar. Se raramente negociam, me parece, é porque os adultos não dão espaço para isso. Pouco toleram objeções, discussões a respeito do que pedem. Vão com frequência ralhar (dar broncas), quando confrontados a aprontamentos das crianças e, em última instância, é uma punição corporal que aguarda o desobediente.27

As “escapadinhas” são, no entanto, frequentes. Rosiane (11 anos), vendo a irmã mais velha varrer a casa e provavelmente pensando que não tardará a ser chamada a ajudar, diz a sua mãe que vai só de repente ajudar a avó na casa dela;28 passa de fato poucos minutos na casa da avó e segue para casa de uma prima, onde passa quase duas horas. Jennifer (10 anos) dá um beliscão no irmão de oito meses que segura no colo e, quando ele chora, diz para a mãe que tem que levá-lo para fora de casa, para passear. Quantas vezes vi meninos e meninas saírem discretamente de casa para evitar incumbências indesejadas. O que fazem também com frequência, é tentar transferir as tarefas entre irmãos.

Pegar peixe, matar uma caça

Se as crianças podem querer escapar de tarefas ligadas ao cuidado da casa e, eventualmente, de alguma que outra atividade agrícola ou do processo de produção de farinha de mandioca, jamais o farão quando se trata de caçar ou pescar. A pesca e, acima de tudo, a caça são atividades extremamente valorizadas nessa região (como em muitos outros lugares), elas têm um status muito diferente das outras; não se usa, por exemplo, a palavra trabalho para se referir a elas. Fala-se do trabalho na roça e com a farinha (ambos considerados cansativos), do trabalho na construção de casas, dos diferentes trabalhos assalariados e fala-se, sem ânimo, das tantas coisas de casa a fazer. O tom é outro quando o assunto é caçar ou pescar.

O fruto dessas atividades garante, no entanto, o principal aporte de proteína na alimentação dos moradores. Em quase toda casa há um homem e às vezes também um adolescente que saem para caçar sozinhos ou a dois (em média uma vez por semana) e que pescam também sozinhos ou a dois (com a mesma ou com maior frequência). Algumas poucas mulheres vão também pescar com ajuda de um filho ou filha. Durante meu trabalho de campo, somente uma mulher, viúva, caçava de maneira esporádica. As técnicas de caça mais usadas, ambas com uso de arma de fogo, são a caça de espera (o caçador escolhe um lugar que sabe ser frequentado por determinadas espécies - uma árvore frutífera, uma fonte de água - e aguarda-as aparecer) ou a caça com ajuda de cachorros (os cães encontram e acoam à caça, o caçador os persegue). Quanto à pesca, pratica-se a pesca com vara, com rede e a pesca de arpão (pesca de mergulho). A pesca do pirarucu com lança, muito presente na região até os anos 1970, não estava mais sendo praticada nas comunidades durante meu trabalho de campo.

Quando não estão na escola ou realizando tarefas para seus pais, meninos, a partir dos 5/6 anos, gostam de andar nas proximidades das comunidades, em grupos de três ou quatro, para caçar pássaros e lagartos com estilingue. Eles montam também armadilhas para capturar esses animais. Meninas e meninos, também a partir dos 5/6 anos, sempre que podem, saem em pequenos grupos mistos para pescar ou para juntar aviú (camarão que vive na vegetação das margens dos rios). Para reunir o material necessário (canoa, remos, tela ou varas), mobilizam todos os recursos que estão ao seu alcance (e o fato de seus pais emprestarem mais facilmente a mim que a eles um remo, por exemplo, me tornava especialmente útil nesses momentos). O entusiasmo e energia que as crianças põem nessas atividades permitem pensar que elas as vivam como brincadeiras.

E ao realizá-las, as crianças testam alguns conhecimentos que adquiriram ouvindo conversas ou histórias de adultos, de jovens ou de outras crianças (por exemplo, como comentei acima, no caminho da roça ouvem sobre o comportamento e gostos de diferentes animais). Assim, os irmãos Wesley (7 anos) e Waddinton (8 anos), por exemplo, que saíram com seus estilingues atrás de passarinho, discutem se as marcas que veem no caminho são ou não de uma cotia:

Waddinton: Mas o quê, Wesley, que isso aqui é caminho de cotia! Wesley: Mas é sim! Olha o Besteira [cachorro] sentindo o rastro dela, E tem bem um pé de muúba mais ali na frente…

Waddinton: Mas não dá de ver nem um pelo dela, nem nada, olha… não é, não,

Os meninos experimentam também as percepções sensoriais de estar em busca de um animal, atentos aos mínimos sinais, fazendo pouco barulho e gestos contidos. As crianças podem também, mais raramente, acompanhar os adultos na caça e pesca. Dependendo de sua agilidade e destreza, os meninos, a partir de 9/10 anos, podem ser convidados a pescar com seus pais, assim como algumas poucas meninas. E, mais frequentemente a partir dos 14/15 anos, também dependendo do quanto seu pai (ou tio, ou avô) o considera competente, pode ser convidado a acompanhá-lo numa caçada. O verbo utilizado é, de fato, convidar. Tanto quando um adulto chama outro adulto para acompanhá-lo na pesca e na caça, quanto quando chama uma criança. Essa escolha de vocabulário não me parece sem significado. Poucas crianças têm o privilégio de receber esse convite.

Aliene (10, anos) era uma dessas privilegiadas. Filha única, seu pai convidava a acompanhá-lo em suas saídas de pesca. Talvez pelo fato de já haver uma menina na canoa, aceitava também mais facilmente que outros que eu fosse com eles.29 Pude assim observar como esses momentos eram ricos em aprendizagem para Aliene. Mesmo se ela pouco podia diretamente experimentar a pesca (praticada por vezes com vara, por vezes com rede) - ao mínimo engano ou gesto inábil, seu pai a impedia de continuar30 - ela podia ver de perto cada gesto do pai e, eventualmente, de algum amigo ou parente que os acompanhava naquele dia. Podia observar também a escolha de onde parar para pescar, em lugares do rio que se sabe mais ricos em peixes (lugares que mudam ao longo do ano). É o Mentai ali na frente [na outra margem do rio], pai? É na frente do Mentai que o senhor para? perguntou ela, tentando localizar-se e, possivelmente, memorizar a escolha do pai. Em saídas para pescar entre crianças (sem outros adultos que eu), a competência de Aliene era reconhecida. Era em geral ela que liderava o grupo e decidia o caminho a seguir - não sem algumas discussões com outras crianças.

Considerações finais

As crianças do Tapajós crescem inseridas numa rede de relações na qual se afirmam premissas morais e circulam saberes valorizados na região. Participar das atividades produtivas dos pais, com prazer ou por obrigação, é uma atitude que respeita essas premissas, e nesses momentos, saberes considerados importantes são veiculados. Portanto as crianças que, por algum motivo, não integram os trabalhos de seu grupo doméstico deixam assim, ao mesmo tempo, de viver processos de aprendizagem que preparam para a vida e para as atividades próprias dessas comunidades.

Revisando a literatura sobre a participação de crianças no trabalho em contextos de agricultura familiar, vemos que essa participação é frequente e que ela é indissociável de um processo mais amplo de socialização. Gostaria de chamar a atenção sobre as consequências da não-participação, partindo dos exemplos do Tapajós, tanto de crianças que puderam viver esse processo, quanto de adultos, como Cleonice, que não puderam. Em campanhas de ONGs e organismos multilaterais (como OIT, Unicef), amplamente disseminadas na mídia, vemos todo tipo de trabalho infantil ser condenado por tudo que ele faria a criança perder: perder a possibilidade de brincar, de estudar, de se desenvolver “normalmente”, de não ter responsabilidades… (Rosemberg e Andrade, 2007; Prado e Medaets, no prelo). E se nos perguntássemos o que o fato de não trabalhar - nesse contexto específico e com as características que tem o trabalho das crianças na região do Tapajós - pode fazer as crianças perderem?

No Tapajós, a frequência à escola confere mais chances para que a opção de sair da comunidade e encontrar um trabalho na cidade seja bem-sucedida; já a participação no trabalho dos pais abre a opção de ficar. Ficar e continuar desenvolvendo as atividades que são consideradas, nas palavras de Vaz (2014, s/p.), antropólogo e nativo de Pinhel, “aquilo que é nosso”, “aquilo que nós somos”. De fato, tanto para os moradores que reivindicam a identidade indígena, quanto para aqueles que se dizem ribeirinhos ou comunitários e se enquadram legalmente na categoria de “populações tradicionais”, estas práticas são propriamente identitárias. Abandoná-las assim, significa abandonar o que os caracteriza enquanto grupo socialmente distinto. E não ajudar os pais nestas atividades desde criança implicará, in fine, de acordo com meus interlocutores, em abandoná-las.

1Ver, por exemplo, Lancy (2016), para uma revisão de literatura e, para o contexto brasileiro, Marin et al. (2012), Pires (2012), Sousa (2014), Stropasolas (2012), Tassinari (2014).

2A distinção entre ajuda e trabalho, o primeiro termo sendo reservado ao trabalho realizado por crianças e, às vezes, por mulheres, aparece em muitos lugares (Marin et al., 2012; Sousa, 2014; Stropasolas, 2012; Tassinari, 2014). Além deles, Lima e Almeida (2010) fazem uma discussão interessante sobre as mudanças naquilo que se considera ajuda ou trabalho, em diferentes gerações de pessoas originárias do Nordeste.

3Sobre essa perspectiva, que compreende toda continuidade social como também transformadora, e toda imitação como um ato ao mesmo tempo criativo, ver, por exemplo, os trabalhos de Ingold (2000 entre outros), Toren (2007) ou de Gebauer e Wulf (2004).

4Realizei, para minha tese de doutorado, um trabalho de campo de 13 meses na região, entre 2010 e 2012. No âmbito de atividades de pós-doutorado, voltei a campo em junho e julho de 2016.

5Sobre os limites de metodologias de coleta da “voz das crianças”, ver Lewis (2010) ou Little e Lancy (2016).

6Antes sob responsabilidade do Ibama, desde 2007 essas unidades estão sob responsabilidade do ICMBio. Para a definição legal de “populações tradicionais” ver o decreto presidencial no. 6.040, disponível em <planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6040.htm>.

7Etnia Maitapu no caso de Pinhel e para comunidades próximas a Parauá, etnias Cumaruara e Tupinambá. Para uma discussão sobre esse processo na região, ver Vaz (2010), Stoll (2014), Mahalem de Lima (2015), Almeida e Rezende (2013).

8Termo local para se referir aos grupos e associações locais que lutam pelo reconhecimento étnico indígena.

9Em 2012, 27 mil pessoas moravam na Resex, em 72 comunidades, distribuídas nos 677.513,24 hectares de área desta unidade (ICMBio, 2014). De acordo com o mesmo relatório, 98% das famílias tinham uma roça de mandioca em 2012.

10A criação de uma Resex é uma ação de reconhecimento de direitos fundiários: as famílias beneficiadas possuem o direito de continuarem a utilizar as áreas que já utilizavam antes (tanto os lotes familiares, quanto as áreas comuns, como florestas e lagos), de acordo com as normas do grupo e os instrumentos normativos de cada Resex (Plano de Utilização e Plano de Manejo).

11Ocupam esses cargos, na grande maioria dos casos, pessoas originárias das próprias comunidades. Apenas parte dos professores do ensino médio vem de cidades próximas.

12A partir de 2004, cerca de 2500 casas de alvenaria foram construídas na Resex Tapajós Arapiuns, no âmbito do Programa Nacional de Habitação Rural (Incra/MDA) - a partir de 2014, Minha Casa, Minha Vida Rural (ICMBio, 2014).

13Ambos são programas federais de transferência de renda condicionada. No caso do Bolsa Família, para receber o benefício que, em 2018 varia de R$ 38,00 a 195,00 mensais por família (em função do número de filhos e da renda), as crianças devem frequentar a escola (85% de frequência é a exigência) e seguir as diretivas nacionais para a vacinação e idas a um posto de saúde. O Bolsa Verde (R$ de 80,00 a 300,00 por trimestre) é destinado a famílias que recebem o Bolsa Família e moram em áreas de proteção ambiental (como as Resex).

14"A hora do chibé” é um programa animado por Florêncio Vaz, na Rádio Rural de Santarém e seu objetivo é a “valorização da história e da cultura amazónica, defendendo ‘aquilo que é nosso’ e ‘aquilo que nós somos’” (Vaz, 2014, s. p.)

15Seguindo a definição de Jack Goody, por grupo doméstico entendo um grupo de parentes que vivem próximos (mesmo que em casas diferentes) e participam de um sistema único de “produção, distribuição, preparo e consumo” de alimentos (Goody, 1962, p. 56). No Tapajós, trata-se de um grupo de pessoas que partilham a exploração de uma mesma parcela de terra. Esse grupo é composto, em geral, por um casal e seus filhos solteiros (um dos cônjuges sendo o proprietário da terra) e pode incluir um irmão ou irmã da mãe ou do pai, seu cônjuge e seus filhos solteiros.

16O tipo de agricultura praticada é o de “corte e queima”.

17A participação de membros de fora do grupo doméstico pode ser retribuída (paga) com a participação futura de membros do grupo doméstico beneficiado em puxiruns de outros, com diárias (em 2015 a diária era de R$ 25,00) ou in natura, com porções de farinha ou mandioca.

18Outras fontes de renda atuais são: comércio, salários (no caso dos funcionários da escola, do posto de saúde ou empregados temporários na construção civil), realização de pequenos serviços como costura e consertos de bicicleta ou moto, programas de redistribuição de renda (Bolsa Família e Bolsa Verde), aposentadoria rural e, por fim, remessas de dinheiro enviadas por familiares que vivem nas cidades.

19Em 2010, de acordo com a recensão que realizei em campo, apenas 5% das famílias de Pinhel e Parauá não “punham roça” e produziam farinha.

20Na região, são cultivadas mais de 30 variedades diferentes de mandioca. Elas têm tempos de crescimento, rendimentos e resistências diferentes, o que garante que haja colheita em todas as épocas do ano. Algumas variedades são conhecidas pelo alto rendimento, mas exigem um tempo maior antes de poderem ser colhidas, outras são valorizadas para um uso específico (dão uma farinha considerada mais saborosa, um bom tucupi, etc.) (Torres, 2008, p. 180 e Couly, 2007, p. 129 ss.).

21Nome científico Bellucia sp.

22Árvore da família Lauraceae.

23Sobre a importância da “produção dos corpos” na aprendizagem, ver Tassinari (entre outros, 2014 e 2015) e Cohn (2000 entre outros), para uma descrição em comunidades indígenas, e Sautchuk (2015 entre outros), em comunidades ribeirinhas de próximas a Belém. Esta perspectiva, que insiste sobre a imbricação do intelectual e do corporal e dá grande atenção a aprendizagens corporais é também adotada em inúmeros trabalhos fora do Brasil: desde clássicos como Dewey (2007 [1922]) ou Mauss (1993 [1934]), passando por Bourdieu (1980) e Delbos e Jorion (1984), até os mais recentes trabalhos de Ingold (2000), Csordas (1994) e Herzfeld (2004), entre outros.

24Ver, por exemplo, Delbos e Jorion (1984), Lave e Wenger (1991), Paradise e Rogoff (2009), Silva e Gomes (2015), Tassinari (2014). Uma revisão bibliográfica sobre o tema pode ser lida em Medaets (2015, p. 228-256).

25Uma menina de 10 anos confiada a um casal considerado mais rico que mora na mesma comunidade (a menina não tem laços de parentesco com eles); dois irmãos (a menina com 9, o menino com 7 anos) confiados a uma tia que mora em Pinhel, pois os pais moravam perto de suas roças, a duas horas de caminhada da escola.

26Um saco com raízes de mandioca pesa entre 30 e 50 kg. A saca padrão de farinha pesa 60 kg.

27Sobre as práticas disciplinares mobilizadas por adultos na região, ver Medaets (2013).

28A expressão de repente é usada na região como sinônimo de rapidamente, “rapidinho”.

29A pesca e a caça são atividades majoritariamente masculinas e os homens ficam reticentes em deixar uma mulher da qual não são íntimos os acompanhar: acreditam que mulheres menstruadas, grávidas ou que acabaram de ter relação sexual podem deixá-los panema (azarados).

30Para uma descrição mais detalhada dos impedimentos à participação durante o processo de aprendizagem e de como eles forjam a modalidade local de aprendizagem, ver Medaets (2016).

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Recebido: 08 de Janeiro de 2018; Aceito: 30 de Abril de 2018

Autora correspondente: Chantal Medaets 6 rue du Cherche-midi 75006, Paris, França

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