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Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.18 no.2 Porto Alegre maio/ago. 2018

https://doi.org/10.15448/1984-7289.2018.2.29601 

Artigo

Da areia ao gado: Meninos empreendedores rurais no Haiti

Haitian boys in sand quarries: Working and thinking about the future

De la arena al ganado: Niños emprendedores rurales en Haití

Nadège Mézié1 

Nadège Mézié <nadege.mezie@wanadoo.fr>

Doutora em Antropologia pela Université Paris Descartes (Paris, França), professora adjunta da Faculté de Sciences Humaines et Sociales da Université Paris Descates em Paris, França.


http://orcid.org/0000-0003-0850-8020

1Faculté de Sciences Humaines et Sociales da Université Paris Descates (Paris, França).


Resumo:

O artigo descreve o trabalho de meninos (de 7 a 13 anos) em uma pedreira na região da Grand'Anse (Haiti). Os meninos, oriundos de famílias bastante pobres, engajam-se nessa atividade por iniciativa própria e a realizam praticamente sem supervisão de adultos. Eles poupam a maior parte do dinheiro, realizando o que chamei de “ciclo de capitalização” que, ao cabo de 8 a 10 anos, lhes permitirá, através da compra, criação e revenda de animais (galinhas, cabras, um boi), aceder a um lote de terra. Assim, aos olhos dos camponeses locais, poderão mostrar-se como capazes de entrar na vida adulta.

Palavras-chave: Crianças; Haiti; Atividades produtivas; Pedreiras; Antropologia econômica

Abstract:

This article describes the work of boys, aged 7 to 13, in a quarry in the Grand'Anse region of Haiti. The boys, whose families are considered very poor, engage in this activity on their own initiative and carry it out with very little adult supervision. Entering what I call a “capitalization cycle”, they save most of the money to buy and breed animals – chickens, goats, an ox – and by proceeding this way, after 8 to 10 years, they can manage to buy a plot of land, which is perceived by the local peasants as the gateway to adulthood.

Keywords: Children; Haiti; Work; Sand quarries; Economical anthropology

Resumen:

El artículo analiza el trabajo que realizan niños (de 7 a 13 años) en una cantera de la región de la Grand'Anse (Haití). Estos niños, oriundos de familias muy pobres, se inician en esa actividad por voluntad propia, realizándola prácticamente sin supervisión de los adultos. Como producto de su actividad, ellos ahorran la mayor parte del dinero ganado, proceso que llamo “ciclo de capitalización”. Al cabo de 8 a 10 años, este ciclo de creación y reventa de animales (gallinas, cabras o un buey) les permitirá acceder a la propiedad de un lote de tierra. De esta forma, a los ojos de los campesinos locales, estos jóvenes podrán mostrarse como sujetos capaces de entrar en la vida adulta.

Palabras clave: Niños; Haití; Actividades productivas; Canteras; Antropología económica

No Haiti, em todas as regiões do país, as pedreiras e pontos de extração de areia e de cascalho a céu aberto contam-se por centenas, seja no leito dos rios ou nos flancos das montanhas.1 Em algumas pedreiras, sobretudo no departamento Oeste, onde fica a capital Porto-Príncipe, a extração é semimecanizada (faz-se uso de escavadeiras e tratores), mas na grande maioria, a mineração é ainda artesanal e a produção é de pequena escala. As ferramentas são, neste caso, picaretas e pás. Poucas destas pedreiras tem licença de exploração ou autorizações para exercer suas atividades. São, via de regra, exploradas não por empresas, mas por pessoas físicas, homens que são os proprietários ou arrendam os lotes de terra onde ficam os pontos de extração.

Num contexto de grande pobreza, de desemprego massivo e diante da incapacidade do Estado em controlar as atividades deste setor, as pedreiras se multiplicaram na última década, oferecendo uma fonte de renda que beneficia desde adolescentes até homens de 50/60 anos (que ainda tenham a força física que exige este tipo de trabalho). Nem todos trabalham o dia inteiro, muitos jovens, por exemplo, o fazem somente pela manhã ou à tarde. A outra parte do dia é dedicada à escola. Além daqueles que trabalham diretamente nas pedreiras, há os homens indiretamente envolvidos nessa atividade: carregadores, motoristas de caminhão (para o transporte da areia), donos e funcionários de pequenas ou grandes fábricas de blocos.

A areia e o cascalho extraídos nas pedreiras do Haiti alimentam principalmente a construção civil, tanto de iniciativa privada (construção de casas, hotéis, prédios), quanto governamental, para uso em obras públicas (estradas, praças, escolas etc.). O intenso esforço de reconstrução que se seguiu ao terremoto de 12 de janeiro de 2010 (durante o qual, centenas de milhares de edifícios em Porto-Príncipe, Léogane e suas periferias foram total ou parcialmente destruídos2), tem conferido dinamismo ao setor de construção civil no Haiti e, por consequência, à atividade das pedreiras.

É comum ver notícias na mídia haitiana, ou informes em relatórios de ONGs e organismos internacionais, sobre os danos ambientais causados pelas pedreiras, sobre a sua dimensão clandestina ou ainda, sobre a sua importância no cenário econômico nacional. Minha atenção, no entanto, não se voltará para esses aspectos. Neste artigo, analiso esse fenômeno apresentando a perspectiva e o cotidiano de uma pequeníssima parcela de trabalhadores das pedreiras: meninos de 7 a 13 anos3 que moram nas montanhas (mòn, em crioulo haitiano) do sudoeste do Haiti, departamento da Grand'Anse.

Num primeiro momento, apresentarei brevemente a poliatividade econômica dessas montanhas, onde realizo pesquisa de campo desde 2005, concentrando-me nas atividades produtivas das quais as crianças (ti moun4) e, em particular, os meninos participam. Num segundo momento, descreverei o trabalho de um grupo de meninos que são parceiros na exploração de uma pequena pedreira, mostrando sua organização e sua rotina. Por fim, analisarei a lógica econômica que está em jogo nesse trabalho. Veremos que a maior parte do dinheiro que ganham será poupado, com o objetivo de comprar animais de valor cada vez maior, o que lhes permitirá, ao fim de um ciclo de 8 a 10 anos, e se tudo correr como o esperado, aceder a uma parcela de terra.

Jaden, bèt, karyè de sab (roças, animais, pedreiras): as atividades produtivas nas mòn

Durante os meses de fevereiro e março de 2017 estive nas món do departamento da Grand'Anse (não muito longe da cidade cafeeira de Beaumont), lugar que conheço bem, já que ali realizei a pesquisa de campo para minha tese de doutorado, de fevereiro de 2005 a fevereiro de 2007 (Mézié, 2011). Durante esta última estadia, pesquisei, de maneira exploratória, as atividades produtivas das crianças e, em particular, de meninos.

Nesta região interiorana, a população é majoritariamente camponesa. As pessoas possuem pequenas parcelas de terra (jaden) onde cultivam batata doce, inhame, mandioca, taro, feijão, banana, milho e amendoim. Uma parte da produção é destinada ao consumo familiar e a outra será vendida nas feiras locais e, para os produtos de valor mais alto, nas feiras de grandes cidades (Les Cayes e Porto-Príncipe). O café era o produto agrícola mais rentável e sua comercialização garantia a entrada de dinheiro nos vilarejos. No entanto, desde os anos 1960, os cafezais da região sofrem com pragas sucessivas que ocasionaram uma forte queda da produção.

O trabalho da terra é realizado pelos membros da família ou sob a forma de trabalho coletivo (konbit, eskwad, avanjou…),5 envolvendo vizinhos e parentes. A maioria dos moradores da região possui também animais (ovelhas, cabras, galinhas, uma vaca e/ou um boi)6 e os mais ricos possuem algumas cabeças de gado. A criação de animais é complementar ao trabalho agrícola, que é a ocupação principal das famílias. Outras atividades econômicas complementares são hoje praticadas, como, para os homens, a fabricação de carvão e de cal, trabalhos de carpintaria e alvenaria; e para as mulheres, o comércio de produtos, em geral importados (arroz, açúcar, sal, leite, bebidas etc.), e serviços de costura.

A essa poliatividade econômica, veio adicionar-se, há cerca de quarenta anos, a extração de areia em pedreiras. A atividade é designada, em crioulo haitiano, pela expressão fouye sab (literalmente procurar, cavar areia) e as pedreiras são designadas pelo termo karye de sab (literalmente carreira de areia). Se trabalhar em uma pedreira tornou-se a atividade principal de alguns homens, para a maioria é uma fonte de renda secundária. É comum que jovens (entre, aproximadamente,15 a 25 anos) a considerem como uma ocupação provisória e a ela dediquem poucas horas por dia.

O volume de areia e de cascalho extraído nessas localidades sempre foi sujeito a oscilação em função da demanda. Quando cheguei, em fevereiro de 2017, a demanda por areia estava em alta. Em outubro de 2016 a região tinha sido duramente atingida pelo furacão Matthew, que destruiu boa parte das plantações e das construções locais.7 Após a catástrofe, igrejas, órgãos do Estado, ONGs e particulares precisavam, e precisam até hoje, de areia para a reconstrução e a renovação de casas, igrejas, escolas. Com este aumento conjuntural da demanda, novas pedreiras foram abertas e outras passaram a ocupar trabalhadores em tempo integral. Além dos adultos, meninos, a partir dos 7 anos, também se engajaram nesse trabalho.

Os meninos partnè (parceiros)

Num final de tarde de fevereiro, encontrei, chegando de uma trilha, quatro meninos, com idades entre 8 e 13 anos, carregando baldes, picaretas e pás. Nesse momento, eu ainda não sabia que havia crianças trabalhando nas pedreiras, perguntei o que faziam e eles me disseram que vinham de uma pedreira a poucos minutos dali, onde trabalhavam regularmente. Quiseram me levar até lá e fomos imediatamente. A pedreira era pequena, aproximadamente 40 m2, cercados por arbustos. Também não era muito profunda, tratava-se na verdade de uma pedreira que havia sido abandonada no início de sua exploração e os meninos puderam então começar diretamente o trabalho de extração das pedras calcárias.

Em todo o entorno, havia vários outros pontos de extração de areia. A cinquenta metros dali, uma pequena pedreira subterrânea tinha sido aberta e era explorada por um adolescente de 14 anos (Gelby).8 Ele mesmo havia cavado um túnel (de aproximadamente 4 m2) e ali entrava para tirar cascalho, sozinho ou com a ajuda de alguma outra criança. Não muito longe, a 150 metros, encontramos uma terceira pedreira, maior e sobretudo bem mais profunda (aproximadamente 7 metros de profundidade), onde trabalhavam jovens adultos (15-25 anos). Numa área de 200 m2 encontramos então três pedreiras com níveis de dificuldade de trabalho e de perigo diferentes: cada uma sendo explorada por meninos ou homens cuja faixa etária condizia com o grau de complexidade exigido pelo trabalho.

No dia seguinte, um sábado, fui encontrar os meninos e começar a observar o trabalho. O grupo estava, então, completo: eram seis parceiros (partnè) que exploravam em associação essa pedreira. Mas os seis se dividiam ainda em dois trios de trabalho: o trio menos experiente, composto por Moy (7 anos), Calo (11 anos) e Drogson (9 anos), que haviam integrado o trabalho na pedreira há aproximadamente um ano, e o trio de meninos mais velhos que a explora há um ano e meio. Cada trio produz, transporta e vende seus próprios montes de areia. O trio de meninos mais experientes é composto por dois primos (DJ John, 13 anos e Mix Désir, 12 anos) e um amigo deles (Mix Fednel, 8 anos). Dos seis meninos, vemos então que apenas entre dois deles há algum laço de parentesco (os primos John et Désir), todos os outros são apenas amigos. Nesse grupo de trabalho como em outros na região, a amizade precede a parceria de trabalho. Antes de serem partnè, esses meninos já gostavam de andar juntos pelas ruas e trilhas dos vilarejos, assistir aos jogos de futebol e, sobretudo, ouvir e tocar música juntos. O trio mais experiente tem inclusive uma banda e seus apelidos, todos começando com Mix (para mixagem) ou DJ, atestam essa paixão. Todos os meninos, dos dois trios, adoram cantar e tocar enquanto trabalham, como veremos adiante.

Os seis partnè que observei pertencem a famílias consideradas como as mais pobres da localidade. Quatro são órfãos, três de pai ou de mãe e um de ambos. Eles vivem com um avô, uma avó ou com os tios e têm pouco apoio familiar: são incentivados a “se virar” para obter uma roupa a mais, algo diferente para comer ou pagar a mensalidade escolar.

Nas zonais rurais da Grand'Anse, e de boa parte do Haiti, são raríssimas as escolas públicas. Nos dois vilarejos em que trabalhei não havia nenhuma. A maioria das escolas existentes nessas regiões rurais são ligadas a alguma igreja. Elas cobram mensalidades, ainda que o valor não seja considerado alto pelos moradores, em geral menos de 50 gourdes (R$ 2,50) por mês.9 A este montante seria preciso adicionar o preço de um uniforme, de cadernos, canetas e livros didáticos. Mas na realidade, muitos meninos e meninas passam o ano letivo sem qualquer desses materiais. Com ou sem uniforme e livros, todos os meninos que encontrei trabalhando nas pedreiras, frequentavam uma dessas escolas confessionais pela manhã.10 Parte da renda obtida com o trabalho na pedreira servia, assim, para arcar com esses gastos ligados à escolaridade ou então com despesas de vestuário e alimentação.

Para ganhar algum dinheiro de maneira independente de seus pais ou dos adultos com quem moram, os meninos e meninas da Grand'Anse podem trabalhar em suas pequenas roças (como veremos abaixo) ou vendendo sua força de trabalho para a realização de tarefas nas roças de outros. Além disso, para os meninos, abre-se a oportunidade do trabalho nas pedreiras.11 Essas atividades são realizadas no tempo livre das crianças, após terem ajudado seus pais. Há poucos estudos que descrevem a participação das crianças na agricultura no Haiti,12 mas minhas observações, iniciais sobre esse tema, indicam que os adultos solicitam pouco a ajuda das crianças, quando comparamos com outros contextos de agricultura familiar (por exemplo, Herédia, 1979; Kramer, 2005; Polack, 2012 ou Medaets, neste volume). Essa situação se deve sem dúvida a múltiplos fatores, tanto econômicos,13 quanto sociais e culturais. O fato é que, atualmente, na região da Grand'Anse, sobretudo os meninos, mesmo de famílias pobres, não somente têm tempo disponível, mas são incentivados pelos pais ou adultos com quem moram, a trabalhar fora do círculo familiar para obter algum dinheiro.

Esse tipo de encorajamento já foi observado por Bastien (1985), em seu estudo clássico sobre o campesinato haitiano, realizado em 1948 no vale do Marbial (sudeste do Haiti). O autor descreve como os pais incentivavam seus filhos a buscarem os meios para “se manter” (Bastien, 1985, p. 56): tais maneiras de agir, conclui o autor, “revelam bem o desejo de fazer com que os jovens compreendam que eles não devem contar eternamente com a assistência dos pais” (Bastien, 1985, p. 56-57). Bulamah (2013), pesquisando a constituição das relações de parentesco na região de Milot (norte do Haiti), também assinala um esforço dos pais “em ensinar aos filhos a gestão dos próprios recursos” (Bulamah, 2013, p. 42).

Na região onde trabalhei, como parte desse estímulo, é comum que as crianças, meninos e meninas14 entre 8 e 12 anos, recebam uma pequenina parcela de terra (de 2 a 5 m2).15 Esta parcela, situada perto da casa ou no jaden dos pais, se torna a roça da criança. Ele ou ela pode então decidir cultivar a terra em parceria com outras crianças, parentes ou não. O que elas colherem, será delas e as crianças podem escolher dar o feijão colhido (ou outro produto) aos pais ou aos adultos com quem moram para que eles o preparem para comer, mas podem também decidir pedir aos adultos que vendam a sua pequena colheita na feira. O dinheiro da venda, nesse caso, pertencerá às crianças.

Quando trabalham em parceria, as crianças, como os adultos, gostam de se chamar de partnè (parceiros). Neste caso, como acontece também com os adultos, um grupo de crianças trabalha em mutirão para um dos membros do grupo, depois para outro e assim por diante. Alguns destes grupos de crianças parceiras, podem também oferecer seus serviços (capinar e outras tarefas ligadas a manutenções do solo) a adultos não parentes em troca de uma refeição ou de algumas moedas.

Dois dentre os seis partnè que nos ocupam aqui (os primos DJ John e Mix Désir) possuem cada um seu próprio pequeno jaden, onde cada um cultiva (sozinho) inhame, banana, mandioca e feijão. Para esses dois meninos, o trabalho na pedreira vem então se adicionar ao trabalho em sua pequena roça. Para os outros quatro meninos que observei, ele é a única atividade produtiva. Vale lembrar que o trabalho de extração de areia e de cascalho oferece algumas vantagens em relação ao trabalho na roça: não implica a posse de capital prévio (nem terra, nem dinheiro – no caso dos iniciantes, as ferramentas são emprestadas por parentes), não necessita apoio ou tutela de um adulto, permite uma organização flexível do tempo, o que o torna compatível com a realização de outras atividades (frequência à escola, trabalho nas roças, ajuda aos pais ou responsáveis em casa e nas roças). Além disso, o trabalho em grupos de partnè, permite o desenvolvimento e o fortalecimento de vínculos de solidariedade, que podem desembocar em parcerias no futuro. Esses vínculos se inserem e virão compor as relações de vizinhança e sociabilidade mais amplas que o deste núcleo de meninos.16

Organização do trabalho, aprendizagem e transmissão

O trio de meninos mais novos e menos experientes (Moy, Calo e Drogson) formou-se e começou a trabalhar na pedreira como auxiliares dos mais velhos. Como pagamento por estes serviços, eles recebiam um pão, um suco de laranja, ou, mais raramente, uma pequena moeda. Mesmo após a criação do grupo de trabalho (quando começaram a fazer e a vender seus próprios montes de areia), eles continuam, ocasionalmente, a auxiliar o trio mais velho ou também Gelby, que trabalha na pedreira subterrânea. Este trabalho de auxílio, quase sem retribuição, permite aos mais jovens aprender e desenvolver competências importantes, como saber manejar bem as ferramentas (ou seja, manipulá-las sem se machucar ou machucar os outros; saber golpear com a picareta de modo que as pedras se quebrem em pequenos pedaços, de preferência já no primeiro golpe), saber fazer a triagem do cascalho (decidir o que é vendável e o que não é), adquirir uma musculatura adaptada e, por fim, lidar com os adultos na publicidade e venda da areia (negociação dos preços, conseguir fidelizar um comprador, etc.). Uma série de aprendizagens que continuam acontecendo ao longo do trabalho na pedreira.

Foto 1 Ao fundo, Moy com a picareta e na frente, Calo fazendo a triagem do cascalho (no balde, as pedras grandes demais para serem vendidas)17  

Foto 2 A volta para casa depois de uma tarde de trabalho 

A transmissão dos saberes opera-se dos mais aos menos experientes: de menino a menino, de jovens e adultos aos meninos, de adultos conhecedores do mundo das pedreiras aos jovens. A relação de transmissão entre parceiros (partnè) é, sem dúvida, a mais importante para aquisição dos saberes necessários à quebra, à triagem, ao transporte e à venda da areia.

Numa tarde chegamos na pedreira, o trio mais experiente e eu, e encontramos os outros três meninos já em pleno trabalho. Dj John, então para, os observa trabalhando e demonstra desaprovação e irritação com a maneira como Calo manuseia a picareta. De fato, Calo dá golpes mais leves e curtos do que aqueles que costumam realizar os mais experientes. John então aproximase e, depois de um momento, pega a picareta das mãos de Calo e o corrige: Assim, olha, assim!, diz ao mesmo tempo em que mostra gestos secos e fortes e um movimento mais amplo, que leva a picareta até o alto, o corpo mantido bem mais ereto do que o de Calo. Depois de devolver a ferramenta a Calo, Dj John observa-o ainda um momento antes de afastar-se para juntar-se aos membros do seu trio, que explora o outro lado da pedreira. Entre os meninos dos dois trios, a relação não é totalmente pacífica e bem-intencionada. Tirar sarro, confrontar-se e brigar é muito comum. A preguiça e a não participação, as reclamações e os pedidos de retribuição para tarefas de auxílio, o mau uso e o mau condicionamento das ferramentas constituem os principais motivos de confronto. Os mais experientes às vezes mostram-se atenciosos e dispostos a dar orientações, e outras vezes, podem ser agressivos e insolentes.

Além desse dia a dia entre parceiros, outras relações mais pontuais influem no processo de aprendizagem. Os jovens que trabalham na pedreira vizinha têm o costume de vir olhar o trabalho dos meninos e dar algumas dicas que tem a ver, sobretudo, com o fato de saber usar bem as ferramentas e de não se machucar. Um deles mora perto das pedreiras e vem com frequência observar o trabalho dos meninos. Eu o conhecia do meu precedente trabalho de campo, e o encontrei ao lado da pedreira das crianças, como ele se referiu a ela. Há uns vinte anos atrás, ele foi um desses meninos e, hoje, me disse ter a preocupação de orientar (oryante) as crianças sobre os modos mais seguros de quebrar as pedras. Outra pessoa que visita os meninos é o proprietário do terreno onde se situa a pedreira, Jean Loisy, que também trabalhou em pedreiras na juventude. Ele gosta de observar as crianças trabalhar, por vezes dar alguns conselhos, aproveitando para averiguar se as crianças não ultrapassam o pedaço alugado. Além disso, os meninos o informam do que está acontecendo nas suas terras. Em um dia em que eu estava lá, os meninos avisaram ter visto alguns homens com ferramentas na mão, que eles suspeitavam estar roubando areia.

Essa transmissão e essa relação de cuidado se estabelecem entre pessoas, na sua maioria, sem vínculo de parentesco biológico: o trabalho nas pedreiras não se transmite de pai para filho, ou de tio para sobrinho. A entrada na pedreira, sobretudo na infância, se realiza na companhia de amigos, eventualmente primos ou irmãos. Isto distingue claramente esta situação daquela de meninos que trabalhavam nas minas de carvão no Canadá, no final do século 19 e início do século 20 (McIntosh, 2000). Segundo McIntosh, no caso canadense, muitos pais mineiros começavam a pedir que seus filhos, a partir de 8 anos, os acompanhassem nas minas enquanto auxiliares. Durante a infância na mina, o menino tornava-se, ao longo dos anos, um operário qualificado e era comum que passasse sua vida inteira nos túneis subterrâneos extraindo o carvão que se tornaria símbolo da industrialização.

No Haiti, são as crianças que tomam a iniciativa de trabalhar na pedreira. Essa iniciativa se dá, no entanto, claro, no âmbito de um contexto de extrema pobreza. E nesse contexto, é preciso também considerar que os adultos, como comentamos acima, costumam estimular e valorizar que crianças produzam alimentos ou busquem maneiras de conseguir um pouco de dinheiro de maneira autônoma, ou seja, sem a ajuda dos pais ou adultos com quem moram. Além disso, os meninos que observei trabalham acompanhados de amigos, o que pode também representar um estímulo (como veremos, os meninos cantam e tocam durante o trabalho, brincam e fazem piadas). Entrar na pedreira não significa, então, seguir os passos do pai ou herdar sua profissão. Implica, ao contrário, integrar um espaço de trabalho baseado em relações e parcerias entre meninos de idades próximas, entre pares portanto, com o objetivo de conseguir algum dinheiro.

São os meninos que decidem quando, quanto e como eles trabalham, baseando-se no que veem do trabalho de colegas mais velhos. Não há controle direto ou constrangimento que venha dos adultos (a não ser o dono do terreno, que cuida para que os meninos explorem só a área que alugam). Uma das principais características desta atividade, como de outras atividades produtivas realizadas entre crianças no Haiti, é, portanto, a de ser realizada de maneira relativamente autônoma em relação aos adultos e, em particular, aos pais ou adultos com quem moram. Os meninos se aplicam, no entanto, com seriedade a esta atividade, uma seriedade que está ligada, a meu ver, tanto ao objetivo econômico que se fixam como à presença e companhia dos partnè e ao fato de serem eles mesmos os responsáveis pela regulação do ritmo da atividade. Os meninos fazem diversas pausas, entremeiam a atividade de quebrar pedras com brincadeiras e com muita cantoria.

O ritmo do trabalho: música para as tarefas e os intervalos

Uma das formas principais de imbricação do lúdico no trabalho é a música que os meninos produzem durante a atividade. Como os adultos dessa região, os meninos que observei trabalham cantando. A música ritma os golpes de picareta e as jogadas de pá de areia e cascalho. As canções cantadas no trabalho, tanto por adultos quanto pelos meninos da Grand'Anse, não são de lamento ou melancolia como tantas work songs dos afro-americanos. Ao contrário, são bem ritmadas e animadas e, muitas vezes, gargalhadas vêm se intercalar à música. Quando um menino faz um intervalo, ele se instala nas partes altas do terreno, pega um balde que servirá de tambor e começa a entoar uma melodia. Outros podem vir tocar e cantar com ele. A composição e dimensão do grupo de cantores e tocadores varia: uns chegam, alguns continuam, outros voltam ao trabalho. O intervalo se transforma, assim, numa sessão musical, feita de canto, som, risos, improvisações e brincadeiras durante a interpretação de hits do repertório local. As canções se ligam umas às outras por sequências instrumentais. Nesses momentos, um ou outro menino, geralmente dos mais velhos, pode partilhar com todos um pouco de suco ou de pão que trouxe consigo.

Foto 3 Dj John, Mix Désir, Drogson cantando e tocando 

A música, vocal e instrumental, acompanha uma grande parte das atividades sociais e culturais dos adultos camponeses em todo o Haiti (Smith, 2001; Averill, 1997). Ela dinamiza e regula o trabalho agrícola, a exemplo de outras work songs em diferentes lugares do mundo (Green, 1993; Gioia, 2006). Num trabalho de equipe, como é o da capina da terra por exemplo, o ritmo ajuda os trabalhadores a sincronizar os seus movimentos.18 Nas mòn, as letras das músicas de trabalho, assim como as de canções cantadas por bann rara19 e as de canções de carnaval, todas em crioulo haitiano, evocam pequenas e grandes misérias da vida camponesa, as relações entre homens e mulheres, eventos locais que acabam de acontecer (o roubo de um animal, a morte de uma pessoa conhecida). Podem também criticar, de forma indireta, os poderosos ou pessoas próximas (o que se chama em crioulo haitiano chan pwen ou chante pwen). Em todos esses casos (rara, carnaval e música de trabalho), a improvisação é muito importante.

Os meninos que observei se inspiram visivelmente das práticas musicais dos adultos com quem convivem. Na pedreira, usando somente a voz, baldes e peças de madeira, eles interpretam canções desse repertório que partilham com os mais velhos e também retomam canções de konpa (ritmo haitiano) que ouvem na rádio. São todas canções em crioulo haitiano. Ao cantar, os meninos sempre reinterpretam as músicas, trocando palavras e muitas vezes frases inteiras. As músicas da sua banda são também reinterpretações de músicas locais. Nesse caso, quase a totalidade da letra é trocada por criações dos meninos.

Panse a lavni:20 a racionalidade econômica dos meninos nas mòn da Grand'Anse

Gastos e receitas

Existem dois tamanhos relativamente padronizados de montes de areia e de cascalho que se vendem nas beiras das estradas: um grande, cujo preço é de 800 gourdes (aproximadamente R$ 42,00) e que enche a caçamba de um pequeno caminhão, e um monte pequeno, que vale 350 gourdes (aproximadamente R$ 18,00) e enche menos da metade do mesmo tipo de caçamba.21 As crianças vendem montes pequenos, de 350 gourdes. Aos 15-17 anos, eles passam a vender os montes grandes. Para constituir um monte de areia de 350 gourdes, os meninos precisam trabalhar cerca de dois meses. Mas este tempo varia, claro, com o ritmo de trabalho e o nível de investimento dos meninos.

Foto 4 Os meninos e seu monte de areia e cascalho na beira da estrada 

Do valor obtido com a venda, eles têm que deduzir o aluguel das terras (50 gourdes por monte vendido). Restam então 300 gourdes que os meninos partilham entre si, 100 gourdes para cada um. No caso do trio mais experiente, destas 300 gourdes, eles costumam tirar umas moedas para dar aos mais jovens que os ajudaram. Quanto às ferramentas, os meninos, em geral, conseguem emprestadas de parentes; elas são em seguida partilhadas entre partnè. O dinheiro ganho pertence a cada menino e são eles que decidem como e quando gastá-lo. Se quiserem poupar parte de seu dinheiro, o confiarão a um adulto com quem moram que o devolverá quando o menino quiser fazer uso. Como veremos, uma parte importante do dinheiro ganho será, efetivamente, poupado.

Um ciclo de capitalização: da galinha ao boi

Como vimos, os meninos que trabalham nas pedreiras são, na maioria das vezes, órfãos ou filhos de pais muito pobres. Os adultos com quem vivem têm dificuldade de arcar com todas as despesas ligadas à sua alimentação, escolaridade, compra de algumas peças de roupa. Uma parte do dinheiro obtido no trabalho na pedreira será então, usado no pagamento de mensalidades escolares, como já mencionei, na compra de livros didáticos, uniforme escolar, chinelos, uma calça jeans. No entanto, a maior parte do dinheiro que os meninos ganham não é gasto em bens de consumo, mas poupado. Os meninos confiam o dinheiro pouco a pouco a um adulto com quem moram. O ato de poupar (fè ekonomi, “fazer economia”) é motivado, durante o tempo da espera, pela perspectiva de um gasto futuro. Quando o montante poupado atinge o valor necessário, o menino pede o dinheiro de volta ou pede para que o adulto compre o que ele quer. E o que os meninos querem são animais.

Há, nas montanhas, uma prática econômica partilhada por todos os meninos, tanto os que trabalham somente nas próprias roças quanto aqueles que, como os que observei, trabalham nas pedreiras. Os estudos de Bastien (1985) e de Sylvain (1951), como veremos em mais detalhe abaixo, mostram que essa prática é antiga e presente em outras regiões. Durante os 8 a 10 anos que precedem a entrada na vida adulta, sancionada pelo casamento (maryaj) ou pelo estabelecimento da vida a dois (plasaj), todos os meninos querem, e tentam na medida de suas possibilidades, comprar e vender animais com objetivo de multiplicar seu capital (miltiplie kob la, “multiplicar o dinheiro”). Para os adultos, diante da ausência de serviços de seguro, de bancos e outros estabelecimentos potencialmente prestadores de crédito, os animais, como em outros contextos rurais, são considerados como uma poupança, um capital de primeira importância.22 No caso dos meninos das mòn da Grand'Anse, capitalizar-se equivale a comprar progressivamente diferentes espécies de animais de valor crescente.

O primeiro animal adquirido é uma galinha. Ela dará pintinhos e com a venda de galinhas nascidas da primeira matriz, o menino poderá, passado um certo tempo, comprar uma cabra ou uma ovelha. É comum que os meninos comprem a ovelha ou cabra em associação, cada associado terá direito então a uma cria. Com o acúmulo das crias e o valor obtido em suas vendas, o menino, já um jovem, pode então comprar um boi. Com a venda do boi que cresceu, chega o momento em que o jovem (que tem agora entre 18 e 20 anos) poderá comprar uma parcela de terra. Nessa terra, ele pode construir sua casa, na qual receberá sua futura mulher. Do cultivo dessa parcela de terra, é esperado que ele tire o sustento para a sua futura família. Guibson (22 anos), que recebeu do seu pai uma parcela de terra para cultivar quando tinha 10 anos, sintetizou assim o ciclo de crescimento de capital que acontece entre os 10 e 20 anos do moço, a partir da combinação de compra e venda de animais:

Você pode comprar um animal, dependendo do dinheiro que você tem. Eu posso comprar uma galinha, essa galinha pode se reproduzir, ela pode se tornar então 4, 5, 6 galinhas, 10 galinhas também. Eu vendo essas 10 galinhas, eu compro uma cabra. A cabra pode se reproduzir também, ela se torna… [vários cabritos]. Quando eu vendo eles, isso pode me dar um dinheiro, e eu compro um boi. Esse boi, eu posso vender, ele me dá dinheiro. E eu compro um terreno, eu compro uma terra, eu decido não trabalhar mais nas terras do meu pai, eu compro um terreno que vai ser meu! Você tá vendo como vou fazendo… […] A partir de 12 anos, você imagina, se desde 12 anos você está trabalhando, quando você tem 18 anos, se é como eu falei, então: a galinha depois de 2 ou 3 anos, ela se multiplicou. Assim você pode comprar uma cabra, da cabra você passa pro boi. Você vê, quando você chega aos 18 anos, quando você vai virar “maior” (laj majè, a idade da maioridade), você já está começando, você está começando uma vida econômica… (Guibson, 8 mar. 2017).

Essa prática parece ser antiga, Bastien (1985 [1951]) relata uma história que lhe foi contada por uma mãe, na região de Marbial, que mostra uma situação semelhante. A mãe conta que logo após o nascimento do filho, enterrou o cordão umbilical e que, neste local, plantou um pé de banana – que se tornou propriedade do recém-nascido. Com a venda do cacho, comprou uma galinha e seis ovos, deixou os pintinhos crescer e os vendeu para comprar uma cabra. “A história continua e aos 12 anos Duméus [filho da narradora] possuía 10 dólares [americanos]: seu pai utilizou essa soma para lhe comprar um quarto de um hectare de terra” (Bastien, 1985 p. 56). Quando Bastien conheceu Duméus, este tinha 22 anos e explorava esse mesmo quarto de hectare. Sylvain (1951), trabalhando em conjunto com Bastien e Métraux na região de Marbial, observou uma prática similar:

Para fortalecer o vínculo com a terra, os pais ou padrinhos e madrinhas, dão à criança animais (galinha, cabra, porco, ou ainda uma vaca). A criança, assim que tenha a capacidade, deverá cuidar do animal. O dinheiro da venda desses animais e de seus filhotes, servirá à comprar-lhe roupas ou outros animais (Sylvain, 1951, p.97).

Schwartz (2008) nota ainda essa mesma prática, nos anos 2000, na outra extremidade do país, no município de Jean-Rabel, região nordeste. Atualmente, uma galinha custa 100 gourdes (mais ou menos R$ 5,00). A cabra e a ovelha, custam, respectivamente, 1.500 gourdes (R$ 77,00) e 3.000 gourdes (R$ 154,00). O menino precisa, então, poupar e, eventualmente, multiplicar diferentes fontes de renda: trabalho nas roças (dele e de outros) e um outro trabalho, como o da pedreira. Parte do dinheiro pode também ser concedido, como apoio, pelos pais ou parentes. A compra de um boi implica em poupar por um tempo longo e administrar, com cuidado e vigilância, seu dinheiro guardado e seus animais. Um garrote custa aproximadamente 20.000 gourdes (R$ 1.025,00), um touro no auge da sua força reprodutiva pode custar até 50.000 gourdes (R$ 2.550,00). Para os camponeses, poupar significa ter pelo menos um boi, e, quando possível, dois ou três. São poucos os que tem várias cabras, ovelhas ou bois. Ter várias cabeças de animais é um sinal de riqueza, tanto quanto ser proprietário de uma parcela de mais de um karo (1,3 hectares). Mas, ter pelo menos um boi, pode ser indispensável para arcar com gastos importantes previstos e imprevistos, como um nascimento, doença, funeral, construção de casa, casamento etc.23

No caso do trio partnè composto por DJ John, Mix Désir e Mix Fednel, os três, quando os encontrei, já tinham comprado e vendido galinhas. A continuação lógica era então a compra de uma cabra ou de uma ovelha. Pouco antes da minha observação, eles tinham efetuado essa compra, juntos (em associação). O preço da ovelha foi então dividido entre os três e a propriedade e os cuidados eram também partilhados pelos três. Se não houver acidente, cada um receberá um filhote, seguindo uma ordem que eles definiram juntos. Caso a ovelha não dê três filhotes, me explicaram, o menino que não receber um, se tornará o proprietário da matriz inicial.

Foto 5 A ovelha do trio Dj John, Mix Fednel e Mix Désir 

Os meninos não compram diretamente os animais, eles enviam um adulto, o pai ou uma outra pessoa que eles sabem que poderá escolher o melhor animal e negociar o melhor preço. Os três me falaram de seu objetivo final: comprar um boi. Com a venda do boi, eles lembram que poderão comprar uma terra, construir uma casa, e assim preparar-se para o estabelecimento da vida a dois. Em suas falas, fica claro como a projeção no futuro guia a conduta atual. Nesta ótica, podemos dizer que os meninos operam seguindo uma “racionalidade formal” na medida que eles sacrificam voluntariamente uma gratificação presente buscando atingir uma gratificação futura (Elster, 1986, p. 189). Eles mencionam, em tom de forte desaprovação, os casos, no entanto frequentes, de jovens (não eles, claro!), que abdicam desse objetivo futuro para gozar de prazeres presentes: Eles compram um lindo jeans, eles se mostram todos lindos na rua, eles compram um presente para a namorada […]. Eles têm o dinheiro, mas eles desperdiçam…

O que é interessante aqui, me parece, não é saber se os meninos com quem estive se deixarão ou não levar por esses prazeres imediatos, mas notar a desaprovação que este tipo de comportamento suscita: é um “desperdício” (gaspyaj), dizem. A lógica compartilhada, socialmente aprovada e constantemente estimulada por adultos e por outras crianças, é, ao contrário, a que permite o acúmulo de capital (materializado em animais) até a entrada na vida adulta. Há aqui uma evidente tensão entre uma moralidade econômica promulgada e, em certa medida, praticada, e a saída dela, que permite prazeres imediatos.

Diagrama 1 Ciclo de capitalização, de menino (10/12 anos) a jovem (17/19 anos) 

Conclusão

A imagem de pequenos empreendedores pareceu-me pertinente para tratar da atividade dos meninos nas pedreiras pois ela remete à busca de um objetivo econômico (ganhar dinheiro) que segue uma “racionalidade formal” (no sentido mencionado acima, de abrir mão de um prazer imediato em função de um objetivo futuro) e evoca também a iniciativa e responsabilidade dos “empreendedores” nas diferentes fases da atividade. Como mencionei, os meninos que observei iniciam o trabalho na pedreira por iniciativa própria, mesmo se, como toda ação, de qualquer um de nós, essa iniciativa seja condicionada pelo contexto no qual se inserem. No caso, um contexto de grande pobreza e de adultos que incentivam as crianças a encontrarem soluções para ganhar algum dinheiro. Se a entrada das crianças no trabalho agrícola parece ser bem mais acompanhada e apoiada pelos pais (crianças trabalham desde os 5/6 anos com os pais, enquanto ajudantes; entre 8 e 12 anos se veem atribuída uma pequena parcela de terra; recebem constantemente conselhos), o trabalho desses meninos, em sua maioria órfãos de pai ou de mãe, nas pedreiras, acontece de maneira mais autônoma. Depois de integrar ou formar um grupo de partnè, eles gerenciam também sozinhos a cadeia de ações que a atividade implica: nenhum adulto ou jovem os ajuda na relação com os compradores de areia ou com o dono da pedreira. Eles pedirão, no entanto, ajuda aos adultos com quem moram para usar o dinheiro obtido com a venda de areia na compra de animais. Se a análise do material mostra que o objetivo econômico não é o único da atividade, ele é importante e é explicitamente afirmado pelos meninos.

De fato, o trabalho na pedreira permite-lhes aceder a um esquema de práticas econômicas valorizado dentro do mundo camponês local: o ciclo de aumento do capital baseado na combinação de compra e venda de animais. Esse esquema parece ser bastante antigo e presente em outras regiões do país (Bastien, 1985 [1951]; Métraux, 1957; Schwartz, 2008; Sylvain, 1951). Para os meninos das mòn da Grand'Anse, as habilidades necessárias para pô-lo em ação podem ser adquiridas na convivência com adultos e jovens que os meninos conhecem e aos quais têm facilmente acesso. Para além dessa possibilidade, a perspectiva alternativa que se apresenta aos meninos, é a de deixar a região, partindo para Porto-Príncipe ou outra grande cidade, inclusive em outros países (Handerson, 2015; Audebert, 2012). Muitos jovens das mòn escolhem, de fato, esta última opção.

Para os que não partem, é toda essa cadeia de ações – trabalhar, comprar animais, vendê-los, comprar novamente e assim sucessivamente, – executadas no período do final da infância, que assegurará a entrada na vida adulta. O objetivo último dos meninos é, portanto, conseguir fundar o seu próprio lar e poder assumir as responsabilidades sociais que isso implica. Em diferentes regiões rurais do Haiti é, de fato, esperado de todos os jovens em idade de se casar (entre 18 e 25 anos) que eles possuam ao menos uma pequena parcela de terra e que possam construir nela a sua casa (Métraux, 1949-1951; Moral, 1978 [1961]; Sylvain, 1951). Com o cultivo da terra de seu jaden, é esperado que ele garanta o sustento da sua família. Não atingir esse objetivo deixa qualquer jovem envergonhado, numa situação que pode ser vivida como humilhante.24

Imersos nessa lógica econômica e social, as ações dos meninos das mòn respondem assim a um duplo regime temporal: o do tempo presente, com suas necessidades e desejos imediatos (escola, jogos, brigas, namoros, trabalho) e o tempo do futuro desejado (perspectiva da possessão de terras, da fundação de um lar etc.). O que é notável no caso estudado, é a intensidade com que esse tempo futuro, virtual, marca e guia as ações presentes desses meninos, alguns com menos de 10 anos de idade.

Foto 6 Cena de filme sobre trabalho de meninos em pedreira no HaitiFilme “Fouye sab: meninos trabalhando numa pedreira (Haiti)”. <https://vimeo.com/266011615>. 

1Gostaria de agradecer aos dois pareceristas do artigo, que fizeram uma leitura cuidadosa do texto e comentários extremamente pertinentes. O meu grande agradecimento aos meninos com quem trabalhei se deu durante nosso convívio.

2Ver, por exemplo <metropolitiques.eu/Haiti-apres-la-catastrophe-camps.html> (22 abr. 2018).

3Esse recorte de idade não foi escolhido a priori, ele corresponde à idade dos meninos que realizavam o trabalho na pedreira que observei.

4Ti moun, literalmente pequena pessoa, é a palavra usada em crioulo haitiano para designar crianças, ou seja pessoas que não são mais bebes (ti bebe) e ainda não são jovens (jen moun); os moradores raramente indicam sua idade, ou de outros, em anos. Para uma discussão a respeito das categorias etárias em zonas rurais do Haiti ver Fiod (2015, p. 23-24).

5As associações de trabalho impuseram-se no mundo camponês após a independência (1804). Elas baseiam-se na reciprocidade e na troca de serviços e qualquer retribuição monetária é muito rara. Sobre estes coletivos de trabalho ver, por exemplo, D'Ans (1987, p. 265-266), Barthélémy (1989, p. 37-42) e Smith (2001, p. 69-92).

6Até o final dos anos 1970, havia também muitos porcos. Mas o número destes animais caiu drasticamente desde a peste suína no Haiti e a subsequente exterminação da maior parte dos animais (1980-1983), uma imposição de autoridades sanitárias norte-americanas.

7Um dos piores furacões que afetou o sudoeste do Haiti nos últimos 50 anos, Matthew causou muitos danos materiais. As famílias que viviam em casas de madeira e pedras ou de folhas de palmeira, perderam tudo. Muitas delas tentam atualmente construir uma casa de blocos com um teto de zinco ou, para os que tem mais dinheiro, uma laje de cimento. Estas construções podem demorar meses para serem finalizadas.

8Todos os nomes próprios apresentados no artigo foram mudados.

9O gourde é a moeda oficial do Haiti. No período em que estive em pesquisa de campo, o câmbio era 50 gourdes para 1 dólar americano.

10A regularidade de funcionamento dessas escolas é, no entanto, bastante instável. Depende das atividades econômicas do professor, da meteorologia e dos eventos sociais e religiosos da região.

11A partir dos 15/16 anos, outras possibilidades surgem: trabalhar numa fábrica de blocos, fabricar carvão, trabalhar como carregadores no transporte de areia e outras matérias e mercadorias, ser ajudante de um marceneiro…

12Estudando relações familiares e buscando explicações para as altas taxas de natalidade em zonas rurais do Haiti, Schwartz (2008) descreve o trabalho das crianças na economia camponesa (de um ponto de vista sobretudo quantitativo); para o autor, o trabalho infantil está diretamente ligado a uma cultura pró-natalidade. Além dessa pesquisa, encontram-se menções sobre o tema em Herskovits (2012 [1937], p. 101), Bastien (1985 [1951], p. 82-86), Sylvain (1951, p. 96-99) e Lundahl (2011, p. 142). Outros trabalhos recentes, embora não abordem diretamente a participação de crianças no trabalho agrícola, descrevem a vida de crianças em diferentes lugares do Haiti: Dalmaso (2014) e Hoffman (2012) tratam do trabalho doméstico de meninas, respetivamente em Jacmel e no sudoeste do país; Fiod (2015) estuda a feitiçaria e as crianças vítimas de ataques de lougawou num vilarejo no sul do Haiti.

13Me parece interessante nos perguntarmos, por exemplo, se a reduzida dimensão dos lotes de terra no Haiti (raros são os lotes que têm mais de um karo, ou seja 1,3 hectare; para uma discussão a respeito ver D'Ans, 1986 e Lundahl, 2011) não implica em uma necessidade proporcionalmente menor de mão de obra, quando comparado a lugares em que os lotes são maiores. Lundahl (2011), por exemplo, trabalhando com dados unicamente do Haiti, mas de diferentes épocas, observou uma diminuição da “necessidade de mão de obra filial” (Lundahl, 2011, p. 142) que corresponde à diminuição do tamanho dos lotes.

14Nas localidades onde pesquiso, a maioria das crianças e adolescentes que possuem uma parcela de terra são meninos.

15Tanto o já citado estudo de Bastien (1985), quanto o trabalho de Herskovits (2012), realizado nos anos 1930, na região do vale do Mirebalais, descrevem jovens que receberiam lotes de terra(cujas dimensões não são precisadas pelos autores) quando têm aproximadamente 18 anos. É possível que a prática de atribuir os pequenos lotes a crianças de 8 a 12 anos lhes tenha passado desapercebida, visto o tamanho diminuto desses lotes e sabendo que a participação das crianças não era sua preocupação central. Pode ser também que a prática seja particular à região da Grand'Anse ou tenha emergido após seus trabalhos de campo.

16Para uma análise sobre as dinâmicas dessas relações, ver Dalmaso (2014) ou ainda Comerford (2003) para uma descrição de situações similares no Nordeste brasileiro.

17Todas as fotos são da autora e foram tiradas entre fevereiro e abril de 2017. Os meninos foram avisados e autorizaram o uso de suas imagens em fotografias e suporte audiovisual no âmbito de trabalhos científicos da autora.

18Alan Lomax, durante sua viagem ao Haiti (1936-1937), gravou músicas de trabalho, sobretudo coletivo, de homens e mulheres. Pode-se ouvir algumas dessas canções no volume 9 do box “Alan Lomax in Haiti” produzida por Harte Recordings e compilada pelo etnomusicólogo Gage Averill.

19Bann rara são grupos musicais itinerantes que tocam da quarta-feira de Cinzas à semana Santa de Páscoa. Sobres as bann rara ver, em particular, McAlister (2002) e Averill (1997).

20“Pensar no futuro”. Esta expressão foi usada por Lafayette (35 anos), durante uma conversa sobre as atividades produtivas das crianças (1º abr. 2017). Lafayette insistiu sobre este horizonte de futuro para explicar o jeito e a organização do trabalho das crianças.

21Não há uma medida precisa do monte de areia. O tamanho médio dos montes pequeno e grande é conhecido de todos. Nunca ouvi falar de um conflito sobre o tamanho do monte de areia. Mintz (2011) descreve batatas doces, inhames e outros produtos também vendidos em pilhas (que são, no entanto, constituídas a partir de uma medida em latas de conserva de diferentes tamanhos).

22A palavra francesa cheptel (rebanho) vem do latim caput que significa cabeça, mas também capital. Alguns autores sugerem que os plantéis de animais representaram, ao longo da história, a primeira forma de capitalização (ver, entre outros, Faye e Duteurtre, 2009). No Haiti, Métraux (1957) já chamava a atenção para o fato de que os animais seriam considerados pelos camponeses como uma forma poupança, “donde o nome de ‘l'intérêt’ (juros) que eles podem dar ao seu gado” (p. 39).

23A única outra maneira que observei de obter o dinheiro necessário para essas ocasiões é o empréstimo feito junto a parentes da diáspora ou que de vivem nas cidades.

24Em outro trabalho (Mézié, 2013), analiso o caso do casamento, contrariado, dos evangélicos Marie-Louise e Lafayette. Marie-Louise engravidou antes do casamento e, diante do “pecado”, o pastor e a família da Marie-Louise exigiram que o casamento fosse realizado com urgência. Mas o casal não tinha casa para estabelecer-se e Lafayette foi então obrigado a alugar uma casa, situação que ele viveu como uma grande humilhação.

Referências

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Referência musical:

“Alan Lomax in Haiti”, 10 CD's, Harte Recordings, compilação e apresentação por Gage Averill, 2009. [ Links ]

Recebido: 05 de Janeiro de 2018; Aceito: 30 de Abril de 2018

Autora correspondente: Nadège Mézié 2 rue Maréchal de Brissac Port-Louis, França

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