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Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.19 no.3 Porto Alegre set./dez. 2019  Epub 27-Jan-2020

https://doi.org/10.15448/1984-7289.2019.3.32742 

Resenha

Documentos para uma história intelectual: A imaginação política brasileira de Wanderley Guilherme dos Santos

Documents for an intellectual history: The brazilian political imagination of Wanderley Guilherme dos Santos

Documentos para una historia intelectual: La imaginación política brasileña de Wanderley Guilherme dos Santos

Helio Cannone1 

Helio Cannone <helio.cannone@gmail.com>

Doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj, Rio de Janeiro, RJ, Brasil).


http://orcid.org/0000-0002-8774-4197

1Instituto de Estudos Sociais e Políticos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj, Rio de Janeiro, RJ, Brasil)

SANTOS, Wanderley Guilherme. A imaginação política brasileira:, cinco ensaios de história intelectual. Organização de Christian Edward Cyril Lynch., Rio de Janeiro: Revan, 2017.


Wanderley Guilherme dos Santos é reconhecido nos meios acadêmicos como um dos founding fathers da Ciência Política no Brasil. Graduado em Filosofia em 1958 e professor assistente de Álvaro Vieira Pinto na cadeira de Filosofia no antigo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb) até 1964, o autor doutorou-se em Ciência Política pela Universidade de Stanford em 1969. De volta ao Brasil, foi professor da disciplina na Universidade Federal do Rio de Janeiro e no antigo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuper), atual Iesp-Uerj, onde atuava como professor e pesquisador até seu falecimento em 25 de outubro de 2019.

Nos últimos anos o autor dedicou-se a temas diversos relacionados às instituições brasileiras e ao seu funcionamento, tais como os partidos políticos, o comportamento eleitoral e a formação de coalizões. A imaginação política brasileira (Santos, 2017), brochura publicada em 2017 sob organização de Christian Lynch, revela outra parte, igualmente expressiva da produção do cientista político. Como observa Christian Lynch em introdução que acompanha a edição: “A pesquisa de Wanderley Guilherme dos Santos foi o primeiro grande marco dos estudos do pensamento político brasileiro no âmbito das ciências sociais” (Santos, 2017, p. 36). O subtítulo do livro indica tratar-se de “cinco ensaios de história intelectual”. No entanto, os textos reunidos na obra são também constituidores de “uma” história intelectual, a do próprio Wanderley Guilherme dos Santos.

O primeiro artigo, de título “Preliminares de uma controvérsia metodológica” de 1965, tem como mote a crítica a Antônio Otávio Cintra por perceber as Ciências Sociais de forma dogmática e por apresentar métodos quantitativos de pesquisa desenvolvidos por autores norte-americanos como a forma mais evoluída de fazer pesquisa sociológica. Nosso autor considerava que aprender técnicas de pesquisa “modernas” não levaria por si só as Ciências Sociais no Brasil à maturidade. Esforços anteriores de compreender a realidade social no Brasil precisariam ser levados em conta sem partir do princípio de que eles seriam inferiores enquanto “pré-científicos”. No entanto, poucos trabalhos exploraram a evolução do pensamento social brasileiro e a lógica de formação das Ciências Sociais no país. Wanderley Guilherme dos Santos se incumbiu desta tarefa.

O segundo capítulo do livro é o artigo “A imaginação político-social brasileira”, originalmente publicado em 1967. Nele, Wanderley Guilherme dos Santos parte do questionamento acerca de quais critérios partiram os organizadores do “cânone” do pensamento político e social brasileiro. Para responder essa pergunta, ele inventariou e analisou os textos que se debruçaram sobre tal objeto.

Um dos critérios de organização da história da imaginação política e social no Brasil foi o de Florestan Fernandes, Djacir Menezes e Fernando Azevedo. Esses intelectuais usaram a institucionalização das Ciências Sociais como marco inicial, separando, então, as produções entre pré-científicas e científicas. Para Wanderley Guilherme dos Santos, esse método seria arbitrário e, partindo dele, se desprezaria a totalidade da produção intelectual anterior à institucionalização universitária. O autor parece concordar mais com os critérios adotados por Guerreiro Ramos, que teria buscado ver a adequação do pensamento dos autores com a dinâmica histórica na qual estavam inseridos. O próprio autor parece se filiar a essa vertente nos textos seguintes.

“Raízes da imaginação política brasileira”, terceiro capítulo do livro, foi publicado originalmente em 1970 na revista Dados. O autor utiliza a categoria “imaginação” para compreender o passado brasileiro a fim de entender o que no artigo anterior ele nomeou de “solo ideológico de que, consciente ou inconscientemente partimos todos” (Santos, 2017, p. 78). Ao analisar autores da história intelectual brasileira, Wanderley Guilherme dos Santos levanta a hipótese da existência de uma dicotomia entre um Brasil agrário e um Brasil industrial, que dataria da primeira república e se intensificaria nos anos 1930. Wanderley Guilherme dos Santos percebe uma tônica de longa duração que persistiria em toda a história nacional no século 20, ao qual ele chama de paradigma e analisa novamente em “Paradigma e história: a ordem burguesa na imaginação social brasileira”, de 1978. O quarto capítulo da coletânea é, em parte, um levantamento crítico e analítico do pensamento social e político brasileiro e, em parte, uma interpretação do Brasil e de sua “imaginação” em uma longa duração. Nela, a busca da ordem burguesa é percebida como uma espécie de tônica nacional.

Segundo a narrativa do autor, o Brasil Colônia se inseriu na história universal no século 16, a partir de Portugal, onde o processo de desenvolvimento teria sido diferente do processo clássico europeu A burguesia lusitana não teria criado as condições de competição econômica que estariam na raiz do desenvolvimento tecnológico. Enquanto o restante da Europa teria como pensamento dominante o humanismo renascentista, em Portugal prevaleceria a escolástica da contrarreforma. A conclusão tirada disso é que a nação ibérica não foi liberal, negando o primado do indivíduo sobre o coletivo e os demais direitos liberais daí consequentes. Aqui o autor parece cair na tentação por ele mesmo criticada: ao ver o processo português como espécie de desvio do caminho percorrido pela Inglaterra ou França, ele o caracteriza como menos moderno. Estudos historiográficos posteriores (Guerra, 2000) preferiram tratar do processo de modernização de Portugal e Espanha como diferentes, embora sem ser qualitativamente inferiores. A consequência negativa na obra de Wanderley Guilherme dos Santos é que sendo o Brasil fruto de um processo de colonização desajustado, o próprio país o seria. Este ponto contradiz tanto as análises produzidas posteriormente pelo autor quanto a historiografia mais recente, que tentar ver os processos do Brasil e da América Latina pela sua especificidade histórica e não pela comparação negativa com outros.

Todavia, nosso autor merece o elogio de não deixar, em momento algum, de reconhecer dignidade intelectual ao pensamento brasileiro. Ao afirmar que somente nos anos 1930 as Ciências Sociais começam a se institucionalizar e a ter tratamento especializado, ele continuou afirmando em “Paradigma e História: a ordem burguesa na imaginação social brasileira” que a produção prévia não poderia ser descartada a partir desse marco. Wanderley Guilherme dos Santos passa então a inventariar novamente os critérios usados para investigar a História e o desenvolvimento das Ciências Sociais no Brasil. Neste artigo Wanderley Guilherme dos Santos passa a sustentar a hipótese de que o problema fundamental das elites políticas e intelectuais desde a independência teria sido o de como implantar e manter funcionando a ordem liberal burguesa. As divergências seriam na maneira de como fazer isso. Ascendida a razão dicotômica, isso passou a ser expresso em uma compreensão da política no país pela divisão entre um lado defensor da potencialidade industrializada e economicamente independente e outro defensor da monocultura e da dependência.

O quinto e último artigo presente no exemplar, também de 1978, refere-se “A práxis liberal no Brasil: propostas para reflexão e pesquisa”. O texto é sobre a história do conceito de liberalismo no Brasil, tendo como variável explicativa de suas mudanças as contingências históricas. Wanderley Guilherme dos Santos esclarece que, ao tratar de práxis, está preocupado com a ação política. O tema agora não é apenas a produção intelectual brasileira, mas o modo como ela foi operada e modificada frente aos desafios que os atores e os teóricos políticos tiverem que resolver em sua conjuntura. Esse artigo não é só o último dos ensaios de “História intelectual” presente na obra, é também um documento histórico da inflexão do seu autor para outros temas, já completamente ligados à análise das instituições políticas brasileiras. Ao mesmo tempo, o texto é um esforço louvável de unir temas ligados aos estudos institucionais com a análise das ideias e dos intelectuais. Esse esforço não parece, ainda hoje, ter tido reprodução na Ciência Política.

Dessa empreitada sai a análise do autor de que o liberalismo político e o econômico se encontraram por acidente histórico. A práxis liberal no Brasil corresponderia às tentativas de implantar no país um modelo de sociedade centrado no mercado e nas dificuldades enfrentadas por estes atores. O resultado seria o desenvolvimento na cultura política brasileira das tradições do liberalismo doutrinário e do autoritarismo instrumental. O primeiro grupo se caracterizaria pela ênfase nas medidas legais como forma de realizar as reformas propostas, sendo composto por Tavares Bastos, Assis Brasil, Rui Barbosa e pelos liberais de 1945 reunidos na UDN. Já o segundo, percebia o autoritarismo como melhor forma para edificar uma sociedade liberal, a ser abolido após atingido este fim, seu principal representante era Oliveira Viana, seguido por Virgínio Santa Rosa e Martins de Almeida. Esses teriam melhor entendido as medidas que uma agenda liberalizante deveria tomar, tais como reforma agrária, industrialismo e estímulo das relações de mercado para promover uma estrutura institucional que fosse propícia para a formação de um mercado político. Segundo Wanderley Guilherme dos Santos, o movimento militar de 1964 assumiu agenda dos autoritários instrumentais dos anos 1930, de uma ideologia econômica liberal com um sistema político fechado (supostamente transitório).

No final do artigo, seu autor se debruça sobre as características institucionais que se verificaram historicamente no estado liberal, a partir de sua formação no ocidente. Ele teria surgido como consequência não antecipada do conflito político entre os poderes tradicionais e um novo ator social, a burguesia. No modelo clássico, o estado liberal pressupunha a burguesia como ator forte o suficiente para disputar sua hegemonia na arena política. Mas, no Brasil, o objetivo burguês de domínio das relações de mercado não se deu dentro do Estado, mas na inserção na economia mundial.

Caracterizamos aqui a coletânea como “documentos para uma história intelectual”. Entendemos essa classificação por uma dupla chave de leitura que nos permite pensar o sentido de nos debruçarmos na segunda década do século 21, em textos escritos na segunda metade do século passado. De um lado, o livro é um documento de história intelectual porque pode servir como material a um analista preocupado com a produção de Wanderley Guilherme dos Santos. Muitas das preocupações que vão marcar a obra empírica do cientista político já estão presentes nessa primeira leva de textos. Alguns exemplos que poderíamos mobilizar são o papel do Estado e sua formação na realidade nacional, a democracia e suas diversas modalidades e a relação entre instituições políticas e sociedade civil.

Entretanto, para além de sua validade enquanto material para historiadores interessados em reconstituir a agenda intelectual do autor, a reunião destes artigos em um livro é uma contribuição para as Ciências Sociais e para os estudos de pensamento social e político brasileiro. Nos agradecimentos da publicação observa-se que a preocupação de Wanderley Guilherme dos Santos de inventariar a produção intelectual brasileira começou a partir de pesquisa sobre história da Filosofia no Brasil realizada por instrução de Álvaro Vieira Pinto. Já nesta primeira pesquisa, nosso autor percebeu a riqueza das análises feitas por brasileiros antes da institucionalização das Ciências Sociais. Como resultado posterior desta inserção pioneira, como a de outros pesquisadores, atualmente o “Pensamento Político Brasileiro” constitui linha de pesquisa no programa de pós-graduação em Ciência Política do Iesp-Uerj, onde Wanderley Guilherme dos Santos leciona. Além disso, esta subárea da Ciência Política continua em progressiva expansão nas diversas universidades brasileiras, tal como diagnosticado por Christian Lynch (2016) na sua “Cartografia do pensamento político brasileiro”.

Como é natural em qualquer ciência - social, natural ou exata - as pesquisas desenvolveram-se consideravelmente desde os estudos de Wanderley Guilherme dos Santos. Novas interpretações historiográficas, assim como a recepção da Escola de Cambridge de Quentin Skinner e John Pocock e da História dos Conceitos de Reinhart Koselleck, no Brasil, refinaram as análises da fortuna crítica da política brasileira e lhe aperfeiçoaram os métodos. Usando critérios atualmente estabelecidos novas percepções e maneiras de lidar com o objeto podem corrigir as análises de Wanderley Guilherme dos Santos, tal como se tentou ocasionalmente demonstrar no decorrer do texto. Porém, a produção do cientista político, como todo clássico, permanece atual por ainda ter o que dizer e suscitar problemas que os pesquisadores que o sucederam ainda tentam responder. Voltar a esses textos é voltar para problemáticas fundantes da análise do pensamento político brasileiro, muitas delas ainda em aberto.

Referências

GUERRA, François-Xavier. Modernidad e independencias: ensayos sobre las revoluciones hispánicas. México: FCE, Mapfre, 2000. [ Links ]

LYNCH, Christian Edward Cyril. Cartografia do pensamento político brasileiro: conceito, história, abordagens. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 19, p. 75-119, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0103-335220161904. Acesso em: 22 out. 2019. [ Links ]

LYNCH, Christian Edward Cyril. Entre a “velha” e a “nova” ciência política: continuidade e renovação acadêmica na primeira década da revista Dados (1966-1976). Dados, Rio de Janeiro, v. 60, n. 3, p. 663-702, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1590/001152582017132. Acesso em: 22 out. 2019. [ Links ]

Recebido: 12 de Fevereiro de 2018; Aceito: 25 de Junho de 2019; Publicado: 15 de Dezembro de 2019

Endereço postal: Helio Cannone, Rua da Matriz 82 - Botafogo 22260-100, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

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