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Civitas - Revista de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 1519-6089versão On-line ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.19 no.3 Porto Alegre set./dez. 2019  Epub 27-Jan-2020

http://dx.doi.org/10.15448/1984-7289.2019.3.28647 

Artigo

Disjunções e ambivalências: Famílias migrantes nordestinas no ABC paulista

Disjunctions and ambivalences: Northeastern migrant families at São Paulo's ABC

Disyunciones y ambivalencias: Familias migrantes del noreste en el ABC de São Paulo

Jaime Santos Junior1 

Jaime Santos Junior <jaimesjr.22@gmail.com>

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP, São Paulo, SP, Brasil). Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR, Curitiba, PR, Brasil).


http://orcid.org/0000-0002-7809-6976

Mariana Zanata Thibes2 

Mariana Zanata Thibes <mthibesster@gmail.com>

Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP, São Paulo, SP, Brasil). Pós-doutoranda na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP, São Paulo, SP, Brasil).


http://orcid.org/0000-0002-6050-1160

Marilda Aparecida de Menezes3 

Marilda Aparecida de Menezes <menezesmarilda@gmail.com>

Doutora pela University of Manchester (Manchester, Reino Unido). Professora visitante nacional sênior (Capes/PVNS) na Universidade Federal do ABC (Santo André, SP, Brasil). Professora aposentada da Universidade Federal de Campina Grande (Campina Grande, PB, Brasil).


http://orcid.org/0000-0001-5815-975X

1Universidade Federal do Paraná (UFPR, Curitiba, PR, Brasil).

2Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP, São Paulo, SP, Brasil).

3Universidade Federal do ABC (UFABC, Santo André, SP, Brasil).


Resumo:

Este artigo mira em dois alvos. O primeiro, de caráter mais teórico, referese à tentativa de extrair consequências analíticas da junção de três variáveis: famílias, trabalho e migrações. Conquanto não se reivindique a sua prioridade frente a outras variáveis, a suposição é a de que os elementos de intersecção que emergem quando trabalhamos com essas três frentes constituem um “lugar” analítico fecundo para a análise de trajetórias de vida. Em um segundo momento, discutimos os processos de transmissão geracional no afã de compreender os modos como os projetos e as estratégias de vida são elaborados, vivenciados e transmitidos de uma geração a outra. Para tal, tomamos dois casos de trajetórias de famílias de migrantes nordestinos instalados na região do ABC Paulista observando o recorte geracional. A pesquisa ocorreu entre os anos de 2014 e 2016, com entrevistas biográficas com os membros das famílias que tinham como traço comum, além da trajetória de migração, a inserção de algum de seus membros nas indústrias da região. Os resultados sugerem a centralidade da “família” enquanto projeto coletivo para “melhorar de vida”.

Palavras-chave: Famílias; Migrações; Trabalho; Geração; Trajetórias

Abstract:

This article focuses on two targets. At first, in a more theoretical dimension, it aims to extract analytical consequences from the junction of three variables: families, work and migrations. Although its priority over other variables is not claimed here, the assumption is that the intersecting zone that emerge when we work with these three variables constitute a fruitful analytical “place” for the analysis of life course. In a second moment, we discuss the processes of generational transmission in order to understand the ways in which life strategies are elaborated, lived and transmitted from one generation to another. For this purpose, we took two cases of migrant's families trajectories from the northeastern of Brazil who live in ABC Paulista observing the generational cut. The research took place between the years 2014-2016 and carried out biographical interviews with members of families that has in common, besides the migration trajectory, the insertion of some of its members in industries of the region. The results suggest the centrality of the “family” as a collective project to “improve life”.

Keywords: Families; Migration; Work; Generation; Life course

Resumen:

Este artículo mira en dos objetivos. El primero, de carácter más teórico, se refiere al intento de extraer consecuencias analíticas de la unión de tres variables: familias, trabajo y migraciones. A pesar de no estar reivindicando prioridad frente a las demás variables, la suposición es que los elementos de intersección que emergen cuando trabajamos con esas tres variables constituyen un “lugar” analítico fecundo para análisis de trayectorias de vida. Para ello, tomamos dos casos de trayectorias de familias de migrantes nordestinos instalados en la región del ABC Paulista observando el recorte generacional. La investigación ocurrió entre los años 2014 y 2016, con entrevistas biográficas con los miembros de las familias que tenían como rasgo común, además de la trayectoria de migración, la inserción de alguno de sus miembros en las industrias de la región. Los resultados sugieren la centralidad de la “familia” como proyecto colectivo para “mejorar de vida”.

Palabras clave: Familias; Migraciones; Trabajo; Generación; Trayectorias

Introdução

Nesse artigo,1 apresentaremos as trajetórias2 de duas famílias de classe popular paulista com o objetivo de tecer uma análise que articule os eixos das famílias, do trabalho e das migrações. Ao fazê-lo, pretendemos reivindicar o argumento de que as trajetórias de famílias, em que pesem todas as transformações que essa instituição passou nas últimas décadas, constituem um lugar heurístico fundamental para compreender os modos como projetos e estratégias de vida são elaborados, vivenciados pelos seus membros e transmitidos de uma geração a outra. Trata-se, portanto, de compreender de que modo as trajetórias das famílias e a transmissão do legado do projeto migratório se efetua nas escolhas dos agentes: em suas trajetórias ocupacionais (trabalho), educacionais, nos meandros das relações afetivas intrafamiliares e nas estratégias definidas para “melhorar de vida”. Em um sentido mais amplo, essa abordagem nos informa sobre como os agentes manipulam reflexivamente o estoque de repertórios e disposições herdadas das gerações passadas, de modo a adaptá-lo para o contexto histórico presente.

No recorte empírico da pesquisa e na seleção das famílias entrevistadas priorizamos aquelas que apresentassem o traço distintivo da migração Nordeste-Sudeste e que residissem em bairros populares da região metropolitana de São Paulo. Os casos, em sua maioria, descenderam de pesquisa anterior realizada com famílias nordestinas que migraram para a região do ABC Paulista entre as décadas de 1970-80. Nesse primeiro momento, o intuito foi o de recuperar, por meio das memórias, as trajetórias de trabalho desses migrantes, em sua maioria homens que tinham trabalhado na indústria metalúrgica e automotiva. No segundo momento da pesquisa, aqui relatado, procuramos retomar o contato com algumas famílias, sendo necessário um ajuste do foco analítico incitado pelos achados do campo, uma vez que os relatos deixavam transparecer tanto a centralidade da noção de família, para além das trajetórias individuais, bem como a importância da noção de geração3 para entender as transformações e as transmissões intergeracionais de repertórios de ação, valores e experiências.

Ao definirmos o lugar heurístico que as famílias ocupam no interior dessa análise, foram ficando cada vez mais evidente as importantes transformações no modo como os agentes equacionam suas decisões e projetos diante das mudanças no contexto econômico e social, que se alteram, inevitavelmente, de uma geração a outra. Essas mudanças se refletem na adoção e/ou rejeição dos projetos definidos pelas famílias como um todo (chefiada por homens ou mulheres). A perspectiva geracional é fundamental para compreender um aspecto caro a essa abordagem, já que o intervalo que existe entre a definição de um projeto familiar de melhorar de vida, muitas vezes projetado para se estender por gerações, e sua execução por parte dos filhos e netos, pode colocar em cena mudanças estruturais que exigirão desses agentes novas soluções, aproximações, ou mesmo a rejeição completa do projeto familiar. Em todo caso, é importante ressaltar que a linha norteadora de todos os projetos familiares observados é a tão chamada “melhoria de vida” que, em sua acepção nativa, deixa entrever significados diversos. Os mais recorrentes estão sempre associados à conquista de ocupações em que a demanda de qualificação, e, portanto, de retribuição financeira, seja maior, notadamente como projeção para os filhos(as).

É importante ressaltar ainda que estamos perseguindo pistas deixadas por outros estudos que, ao seu modo, deixaram importantes contribuições. Na literatura brasileira, as famílias estiveram no centro de um rico debate realizado entre as décadas de 1970 e 1990, em que diversos pesquisadores se dedicaram a compreender o modo de vida das chamadas classes populares, como os trabalhos de Durham (1978), Zaluar (1985), Caldeira (1984), Telles (1992) e Sarti (1996). Já se pronunciava nesse momento o que também viria a ser caro em nossa perspectiva, a saber, a reunião de diferentes dimensões de análise, as quais, se vistas separadamente, podem eludir variáveis importantes para compreender o modo de vida dessas classes em toda sua complexidade.

Igualmente há que se matizar o suposto da família nuclear como modelo a partir do qual outros formatos são pensados. Sobre isso, Fonseca (1987) já havia alertado sobre um problema muito comum em estudos com famílias de baixa renda que confundem sistema familiar e unidade doméstica, supondo que uma parte da população realiza o modelo nuclear. Por sistema familiar, ela entende a necessária extensão da noção de família que se mostra sensível aos diferentes arranjos muito comuns a esse estrato da população, que vai além do modelo nuclear (lido aqui como unidade doméstica) e incorpora avós, tios, sobrinhos e aqueles feitos “parentes”. Esse recurso, a seu ver, deixa escapar o que parece peculiar a essas famílias, a saber, a sua fluidez.

Sobre o tema da migração, Durham (1978) foi pioneira ao mostrar os sentidos adicionais da noção de família. Ela nos apresenta a migração como um fenômeno viabilizado pelo padrão tradicional de relações - a família como suporte fundamental do migrante que se estabelece em terras novas - mas que inclui também sua adaptação a um novo código de valores imposto pela cidade grande e pelo sistema urbano-industrial. Desse modo, os migrantes conseguem se deslocar com o suporte da rede de pares, e são movidos pelo desejo de “melhorar de vida” no moderno mundo urbano, o que exige a aquisição de novos códigos de conduta que convivem ou entram em tensão com os antigos.4 A emergência de valores individualistas da mobilidade social (Sarti, 1994), convive, e por vezes colide, com a visão relacional e hierárquica do mundo, que vê os indivíduos mais como “pessoas relacionais”. Não por acaso a importância que o parentesco assume nas famílias pobres. De qualquer modo, o que importa ressaltar é justamente a convivência e a tensão entre esses dois universos valorativos - o tradicional e o individualista - que serão observados nas trajetórias das famílias analisadas. Além disso, será possível notar como essa transição de valores, que ora se revela com traços de tensão, ora com tonalidades harmônicas, ocorre sem prejuízo da importância simbólica e material da própria família enquanto instituição. Em outras palavras, ainda que as gerações mais jovens de entrevistados se deparem com novas possibilidades, não disponíveis para os pais, a família não deixa de operar como uma espécie de microestrutura que norteia os projetos e as escolhas de seus membros.

Doralice e Patrícia

Doralice é uma mulher de 50 anos, migrante do Ceará e moradora do bairro Vila Liviero, localizado na divisa entre as cidades de São Bernardo do Campo e São Paulo. Nessa família, além da própria Doralice, entrevistamos sua filha Patrícia, seu sobrinho Wagner, a mãe e o pai de Wagner. A primeira geração é toda constituída por migrantes de uma cidade chamada Várzea Alegre, no estado do Ceará, enquanto os filhos são nascidos na capital paulista. Os homens da primeira geração conseguiram se empregar nas indústrias da região, tornando-se operários. O marido de Doralice, Josué, trabalha na indústria de produtos de limpeza Bombril, assim como o seu cunhado Alexandre, pai de Maurício, Ricardo e Wagner. Estes dois últimos, mais velhos, tentaram seguir o caminho do pai como trabalhador da Bombril, mas nenhum dos dois foi bem- sucedido nessa empreitada. Já as mulheres da primeira geração dessa família, composta por Doralice e a irmã mais nova Jussara, nunca exerceram atividade remunerada, nunca trabalharam fora de casa.

A Vila Liviero concentra grande quantidade de migrantes vindos do Ceará e está situada nas proximidades de várias indústrias, tais como Bombril, Ford, Metalfrio, Multibras, Soldas Best, Whirpool, entre outras, o que favoreceu a atração da primeira geração de migrantes. A origem do bairro remonta à existência de uma chácara pertencente a uma família cujo sobrenome era Liviero. Com a construção da rodovia Anchieta, em fins da década de 1940, chegaram as primeiras fábricas e, com elas, os operários. As ruelas, hoje pavimentadas, expõem a contiguidade das casas e, com isso, a tênue separação entre o espaço privado e o público. O piso inferior dos sobrados, no caso das duas famílias que entrevistamos, é usado como fonte de renda, obtida com o aluguel e está sempre à disposição de algum filho que precise (e deseje) ficar perto dos pais.

Doralice nos conta que, embora tenha permanecido como dona de casa desde que chegou a São Paulo, trabalhou como professora de crianças em uma escola rural de Várzea Alegre, por um curto período, durante a juventude. Segundo ela, sua permanência como dona de casa contrariou seu desejo de continuar os estudos e a ocupação como professora, tendo ocorrido por vontade do marido.

Eu queria trabalhar, mas ele não deixava. Porque eu tinha que cuidar da minha filha, porque não sei o quê. Aí eu acabei não indo trabalhar, fiz a vontade dele e me arrependi (informação verbal).5

À primeira vista, e isso virá à tona em outros momentos, somos levados a crer que se trata de total submissão da mulher em um modelo de família assentada na figura do homem-provedor. Isso estava muito presente nas famílias que visitamos. No entanto, os elementos simbólicos dessa troca não são tão evidentes quanto parecem, já que, em vários momentos foi possível notar tentativas de resistência por parte de Doralice. Além disso, é preciso lembrar que, como já demonstrado por outros estudos, para as famílias operárias da geração aqui tratada, o modelo tradicional de família assentado na figura do homem-provedor e da mulher responsável pelo cuidado da casa e dos filhos representou a dignidade e a respeitabilidade da condição de família estruturada e que goza de boa saúde financeira. Esse sentido é reforçado pelo fato de que, para essas mulheres, pouco instruídas, não estariam à disposição empregos bem remunerados e qualificados como para as mulheres de classe média. Além disso, ao trabalho desqualificado e exaustivo fora de casa, se somaria, inevitavelmente, o trabalho dentro de casa. Levando esses elementos em conta, torna-se mais fácil compreender que a divisão sexual do trabalho tenha permanecido por mais tempo nessas famílias do que naquelas de origem mais abastada.

Voltando à história de Doralice, a própria migração para São Paulo, acompanhando o marido, já ocorreu dentro de um contexto de ruptura com a rigidez da criação dos pais de Doralice. O namoro com o atual marido ocorria às escondidas, porque a mãe de Doralice não aceitava a relação, por questões raciais: o então namorado possuía a pele mais escura do que os padrões aceitos pela futura sogra. A rejeição perdurou e fez com que a mãe não aceitasse o casamento deles, tampouco viesse a estabelecer uma relação mais próxima com o genro ao longo do tempo. Devido ao conflito, o casal não quis morar nas casas pertencentes ao pai de Doralice, fato que acabou incentivando a migração deles para São Paulo, ocorrida no ano de 1988. O marido de Doralice, Josué, veio primeiro. Um mês e meio depois, chegou a esposa, grávida da primeira e única filha do casal, Patrícia.

Doralice relata esse primeiro momento em São Paulo como difícil e doloroso. Não conhecendo ninguém na cidade nova, ela se sentia solitária, já que Josué trabalhava à noite e dormia durante o dia. Sua solidão apenas foi abrandada quando conheceu uma vizinha, com quem desenvolveu uma forte relação afetiva e que lhe prestou grande ajuda nos cuidados com a filha recém-nascida.

Atentos à pista deixada por Fonseca (1991; 2000), quando observamos o sistema familiar percebemos a importância das relações horizontais que se estabelecem com o entorno das famílias, ou seja, com irmãos, vizinhos(as), filhos(as). O laço de amizade com a vizinha é fundamental para que Doralice recomponha sua vida em terras paulistas. Isso voltará a acontecer na relação que ela estabelece com a filha, como veremos mais à frente. Os laços com as mulheres operam como pontos de apoio que lhe fortalecem para fazer frente ao marido. Assim, quando a filha já estava crescida, Doralice realizou alguns serviços ocasionais que, curiosamente, não são considerados como trabalho, tais como produção de colares femininos e acabamento de peças para motos, sempre com a oposição do marido. Tentou, ainda, arrumar emprego em uma loja, mas teve que se haver novamente com a proibição:

Aí Patrícia cresceu, depois eu falei que queria arrumar um emprego na loja. Porque na época tinha uma menina aqui que o marido é cunhado do meu irmão, que ele tinha uma loja ali no Sacomã. Aí eu fui lá, conversei com ela, se ela me queria. Aí ele [o marido] falou que não (informação verbal).6

A trajetória da família é marcada por essa persistência intermitente de Doralice em conseguir alguma fonte de renda. A pretensão de autonomia financeira, que não se realiza em Doralice, converte-se na projeção de uma orientação diferente para a filha quando a incentiva a manter a autonomia financeira trabalhando fora de casa:

Pesquisador/a: E o que mais você conversa com ela? Por exemplo, se o namorado dela disser para ela ficar em casa, não trabalhar.

Doralice: Ela não vai ficar. Eu vou dar apoio. É tão ruim você depender das pessoas, eu digo isso por experiência própria. Tudo bem que ele não me deixou faltar nada, tudo o que eu queria ele me dava. Mas, é bom você ter as suas coisinhas, sabe? (informação verbal).7

A despeito de todas as tentativas de conseguir um trabalho remunerado fora de casa, Doralice não conseguiu realizar o seu desejo individual de trabalhar fora de casa. Em sua trajetória, é possível observar claramente como a tensão sempre presente entre os valores individualistas de realização pessoal e autonomia e a visão relacional e hierárquica do mundo, que coloca o projeto familiar acima das vontades individuais. É importante ressaltar que esse é um arranjo com um forte componente geracional, dado que a filha de Doralice não repetirá sua trajetória, tendo sido sempre incentivada pela família a trabalhar fora de casa.

Única filha de Doralice, Patrícia, que na época da entrevista estava com 25 anos, residia com a mãe. Não aparece em seus relatos sinais claros de ruptura com as expectativas dos pais e, por extensão, da família em sentido mais amplo. O bairro e os parentes que residem próximos não são vistos como antagônicos aos seus interesses, ao contrário, ela cultiva intensamente esses laços.

Ela nos conta que arrumou seu primeiro emprego aos 16 anos, em uma das lanchonetes McDonald's próximas a sua casa. Um ano depois, ao terminar o ensino médio, Patrícia arruma outro emprego em uma empresa de produção de aparelhos médicos, situada muito próxima de sua casa, primeiro na linha de montagem do setor de produção e, depois, no setor de vendas, onde permanece até o presente (em 2015). Dois anos depois, matriculou-se em uma faculdade privada, seguindo as recomendações do pai:

Ele [o pai] não determinava o que eu devia fazer, “você deve fazer isso”, ele só falava assim: “estuda, independente do que você queira fazer, mas você tem que estudar”. E na época, pra ser bem sincera, assim, eu não estava nem um pouco a fim de fazer. Porque eu passei, assim, uns 10, 15 anos da minha vida estudando ao todo, então, eu queria descansar, queria dar um tempo! […] Assim que eu terminei a escola eu fui trabalhar, arrumei um emprego aqui do lado de casa, que é onde eu estou até hoje, e depois que eu terminei os estudos, uns 2 ou 3 anos depois é que fui fazer faculdade (informação verbal).8

O registro dessa trajetória escola-trabalho-faculdade vai ao encontro de pesquisas feitas a partir de dados do Inep e do IBGE que mostram que, nas classes populares, e mesmo na classe média baixa, não opera o modelo europeu de transição ensino médio-faculdade-trabalho. No Brasil, nesses setores, após o término do ensino médio, os indivíduos ingressam no mercado de trabalho como forma de poder investir em um curso superior (Comin e Barbosa, 2011). Trabalha-se para poder estudar. Para todos os nossos casos, esse foi o modelo.

Ademais, os primeiros empregos são demarcadores de maturidade etária por parte da família e uma parcela da renda auferida servirá para a manutenção da casa. Ainda que os pais reconheçam a importância do investimento educacional, à luz da sua própria trajetória ocupacional, é preciso trabalhar para poder estudar.

Pesquisador/a: E escola? Alguém te cobrava em relação à escola? Patrícia: Minha mãe. Mais pra frente, meu pai começou a pegar no meu pé dizendo: “vamos fazer uma faculdade. Se hoje você ganha 500 reais, você tem que estudar pra ganhar o dobro o triplo do que você ganha”.

Pesquisador/a: Você acha que era isso que seu pai esperava de você? Sim, porque uma coisa que ele sempre falou pra mim: eu quero dar a oportunidade pra você que eu não tive (informação verbal).9

A insistência maior do pai era para que a filha obtivesse um diploma de nível superior, independente do curso escolhido. Assim, Patrícia opta por um curso conforme a conveniência das opções disponíveis no momento da matrícula (Gestão em Recursos Humanos), o qual não possui relação nem com seu desejo (que era fazer Fisioterapia) nem com o seu trabalho na área comercial. Entretanto, o diploma serviu para que Patrícia pudesse deixar o setor de produção da empresa, que a desagradava por ser demasiadamente repetitivo, e permitiu que ela se adequasse ao projeto, tão reiterado pelo pai, de conseguir um diploma de nível superior, o que, segundo ele, lhe garantiria salários melhores no mercado de trabalho.

Salta à vista, também, como a gestão das decisões opera no âmbito da família. Isso, como já dissemos, perpassa outros aspectos de cada unidade doméstica. O que sugere certa desconfiança quanto ao argumento de que a vida urbana moderna, com a ascensão do individualismo, promove a fragmentação das famílias. Duarte (1986) já havia ressaltado as características holistas e relacionais, portanto, pouco individualistas, das classes trabalhadoras urbanas no Brasil. Argumento que converge com o que afirmara Sarti (1996) sobre a “moral dos pobres”. Variações como as que também encontramos, não devem ser lidas como casos excepcionais, fruto de uma suposta “cultura migrante”. Possivelmente, como vemos nos trabalhos de Velho (1985, 1999), alguns setores da sociedade podem ser menos refratários ao individualismo. Parece-nos instigante o modelo sugerido por Machado (2001), ao propor que trabalhemos com a coexistência dos dois códigos, o relacional e o individualista.

Outra advertência também se faz necessária. Não se trata de reivindicar o modelo relacional da família como sendo “melhor” e “protetor”. Vimos como o ambiente da família também esconde mandonismos e relações desiguais entre os sexos. As expectativas dos pais para as futuras gerações também podem cercear vontades individuais. Portanto, não cabe estabelecer aprioristicamente se a família constrange ou facilita as ações dos indivíduos, mas compreender, em cada caso, o que possui efeito de constrangimento ou, pelo contrário, atua como agente facilitador (na ausência de outro termo que traduza melhor a ideia de enablement). Querendo dizer com isso que não é possível uma discussão sobre como estruturas condicionam a agência sem alguma referência à subjetividade agenciadora (Archer, 2003).

Esse recurso metodológico de uma concepção estratificada da realidade social, que reconhece a autonomia relativa entre estrutura e agência, permite que possamos analisar as inter-relações e sondar quando uma apresenta-se como mais saliente que a outra em cada contexto. Aqui radica um ponto fulcral do argumento que estamos reivindicando na análise das famílias em questão.

Wagner

Wagner é um rapaz de 20 anos, filho do meio de Jussara (irmã mais nova de Doralice) e Alexandre, que possuem mais dois filhos. A família mora na mesma rua que Doralice, a poucos metros de distância. No período da entrevista, Wagner estava prestes a assumir o seu segundo emprego, em uma firma de manutenção de equipamentos eletrônicos. O primeiro emprego havia sido na fábrica Bombril, onde trabalha seu pai Alexandre e seu tio Josué. Wagner trabalhou lá por seis meses, como auxiliar de manutenção, na condição de estagiário. Após concluir o ensino médio, ele ingressou em curso da Escola Técnica Estadual (Etec) na área de eletroeletrônica, motivado pelo aconselhamento do pai, supondo que isso lhe facilitaria o ingresso na Bombril. A ideia era que o estágio pudesse ser a porta de entrada para a carreira de operário qualificado na empresa. Entretanto, após seis meses, o rapaz não foi efetivado. Esse momento foi descrito, tanto por Wagner quanto por seus pais, como de frustração. Quando fizemos a entrevista, Wagner já havia conseguido outro emprego na área de manutenção de informática de um hospital, e iria começar no dia seguinte. Ainda assim, era bastante claro o desapontamento presente nas falas da família diante do malogro dos planos de inserção profissional do rapaz na fábrica em que trabalham o pai e o tio. A integração dos planos de Wagner aos de sua família é bastante clara, sobretudo em trechos como esse, em que o desejo individual de Wagner não aparece manifesto na tentativa de obter o emprego, que é comandada pelo pai:

Pesquisador/a: Mas quando você pensou em fazer Etec, você esperava arrumar emprego na Bombril?

Wagner: Na verdade, não. Eu não esperava muita coisa. Tipo assim, eu achava que era mais fácil para arrumar emprego, porque eu não conhecia nada. Até porque meu pai, quando levou o meu currículo pra lá, não me falou nada (informação verbal)10.

Em outro momento ele menciona que seu desejo, na verdade, era fazer uma faculdade de engenharia civil, mas, como já tinha 19 anos, a necessidade de arrumar um emprego foi colocada à frente de seu desejo individual, que acabou sendo postergado como um plano futuro. Nos dois núcleos familiares é patente que o trabalho não pode ser adiado até a conclusão da faculdade. Tanto Wagner quanto Patrícia começaram a trabalhar com a mesma idade, 19 anos, isto é, logo após atingir a maioridade e antes de iniciarem estudos em nível superior. O tempo de espera que a família concede aos filhos antes de começarem a vida profissional é a conclusão do ensino médio.

Se considerarmos que os pais começaram sua vida profissional muito mais cedo que seus filhos, muitos ainda no período da infância, esse tempo de espera é considerado longo para essas famílias, visto como um privilégio que não desfrutaram, mas podem conceder a sua prole. Contudo, a cobrança em relação ao início da vida profissional é menos incisiva do que a insistência em relação aos estudos.

Dessa forma, Wagner aderiu ao projeto familiar de seguir a trajetória delineada pelo pai e tornar-se operário, mas, diferente desse, que possui baixa escolaridade, o rapaz foi incentivado a estudar para poder exercer um trabalho qualificado. Daí, então, a passagem pela Etec, que é considerada uma porta de entrada para o trabalho qualificado na indústria. Todavia, os caminhos percorridos até o momento da nossa entrevista11 não o levaram a realização desse projeto. Atualmente ele trabalha em uma função que, embora mais leve que o trabalho industrial, paga consideravelmente menos e desfruta, no âmbito de sua família, de status inferior quando comparado ao emprego na Bombril.

Quando conversamos com a sua mãe, em situação informal, o assunto da não efetivação do filho na indústria da Bombril veio à tona. A fala em tom baixo para que o filho não ouvisse dava a entender que se tratava de um assunto delicado para a família. A mãe não escondia a frustração com o ocorrido e procurava justificá-lo nos mostrando que, apesar de não ser o trabalho sonhado, o emprego atual era “limpo” e permitia que seu filho pudesse sair de casa com trajes sociais e não chegar em casa “todo sujo de graxa ao fim do dia”. Isto era visto como uma vantagem em relação ao trabalho na indústria, além de deixar patente o valor da distinção entre trabalho manual e intelectual, ou trabalho leve e pesado, cuja principal referência é o trabalho operário, em que os homens voltam para casa sujos de graxa.

Do ponto de vista da herança geracional, importa ressaltar como os projetos de vida da geração mais jovem dialogam com as expectativas dos pais. Por vezes, o mapa do background familiar é acessado pelos(as) filhos(as) como dispositivo válido de orientação de conduta. Em outros casos, e ante as mudanças conjunturais, esse mapa é rejeitado em detrimento do que provém de outros grupos de sociabilidades (a exemplo dos amigos da escola, do bairro, da sua geração). Essas variações, disruptivas se pensarmos à luz do esquema conceitual do habitus (Bourdieu, 1997; 2007), representam a necessidade de levarmos em consideração as múltiplas socializações a que esses sujeitos estão expostos, como propõe Lahire (2002; 2006). O trânsito entre saberes incorporados e experiências do eu, abstruso na perspectiva de uma sociologia que concede maior peso ao que fora herdado, não nos parece refém de um imperativo intransponível e que atuaria sob a sombra da consciência. Advertimos, não se trata de escamotear o efeito do que fora herdado na conduta dos indivíduos, mas de igualmente colocar em relevo a atuação da subjetividade como mediação necessária.

Essas ambiguidades no processo de transmissão geracional deixam entrever o seu caráter processual, portanto, sujeito a reinterpretações. No caso de Patrícia, o desejo do pai, segundo ela, não foi de que ela se tornasse operária na Bombril, mas sim, que concluísse a faculdade e conseguisse um emprego que lhe pagasse um bom salário. Não sabemos, todavia, se seu salário é superior ao de seu pai.

E hoje, acontece essa comparação de dizer: “olha, minha empresa é melhor que a sua, vou te levar pra lá”. Mas, a única preocupação dele é que eu não fique desempregada, ele não quer que eu saia por livre e espontânea vontade, só se acontecer. Mas, eu acredito que, se acontecer, ele vai tentar de alguma forma, conversar com alguém, me levar pra lá [Bombril], alguma coisa assim (informação verbal).12

De qualquer modo, a vida profissional de Patrícia parece ter seguido a contento para seus pais. Uma das fontes de conflito que pudemos notar diz respeito ao casamento dela e a possibilidade de vir a residir em outra cidade (o noivo mudou-se para Curitiba). Isso contrariaria o desejo de Doralice de que a filha morasse na casa situada embaixo da sua e vivesse próxima a ela, mesmo depois do casamento, o que Patrícia afirma não desejar.

Notem que esse conflito ecoa o drama anteriormente vivido por Doralice quando se casou com Josué e migrou para São Paulo para melhorarem de vida e criarem um novo sistema familiar. A construção deste novo sistema no bairro paulistano, que envolve a família nuclear, os parentes próximos e uma rede de conhecidos e vizinhos, foi realizada ao longo de décadas e supõe a permanência dos filhos para dar continuidade ao legado. Desse modo, a migração da filha parece ser vista como uma ameaça a esse projeto. A tensão entre “melhorar de vida” ali no local ou migrar para fazê-lo expõe também o limite do código relacional da família em face da pretensão de autonomia das suas partes constituintes.

Já no caso de Wagner, sua inserção na indústria foi esperada e planejada pela família, mas não havia sido efetivada até o momento da entrevista, em 2015. De todo modo, em ambos os casos, os filhos não se empregaram na indústria como os pais, mas sim, no setor de serviços, o que pode estar relacionado tanto às modificações das condições de organização e gestão do trabalho industrial e da crise do segmento quanto às mudanças nas expectativas e possibilidades ofertadas aos filhos. Entretanto, isso não permite concluir que o projeto familiar de melhorar de vida tenha sido malsucedido ou que os pais não vislumbrem nos filhos o sucesso de seus esforços. Ao contrário, está presente em seu discurso o sentimento de “missão cumprida”. Esse sentimento, ao que tudo indica, parece estar calcado na possibilidade de ter ofertado aos filhos a oportunidade para estudar. Ainda que a educação não se reverta automaticamente em melhores salários em comparação com os da primeira geração, ela parece ter grande valor simbólico para essas famílias.

O dilema enfrentado por Wagner e Patrícia, que decidiram levar adiante o plano elaborado por seus pais e depararam-se com um contexto muito diferente daquele que delimitou a concepção do projeto, está no cerne do problema da transmissão intergeracional. Portanto, embora nosso ponto de vista seja guiado pelas trajetórias de famílias, ele não deixa de remeter ao nível das transformações sociais, que precisam ser mobilizadas a todo instante se quisermos compreender as variações nesse registro tão complexo que é o da relação entre indivíduo e sociedade.

Assim, uma das principais questões a nos chamar a atenção foi como a mudança de conjuntura opera mudanças nas escolhas de vida e nas estratégias familiares no espaço temporal de duas gerações. Se o arranjo da primeira consistia, mormente, no trabalho industrial para os homens e na vida exclusivamente doméstica para as mulheres; na segunda geração essas opções passaram a ser revistas e exigiram novas negociações identitárias, entremeadas com diferentes expectativas individuais, como demonstram as trajetórias de Patrícia e Wagner e sua diferença em relação a trajetória dos pais e das mães.

Considerações finais

Os significados contidos no que procuramos realçar a partir das narrativas que analisamos, reivindicando a atenção para que as trajetórias de migração e trabalho sejam analisadas levando-se em conta o eixo das famílias, sugerem, mais diretamente, dois caminhos. O primeiro refere-se às questões de ordem metodológica sobre o recurso às narrativas e análise de trajetórias que não são tomadas apenas em sua dimensão individual, mas no confronto com as trajetórias de famílias e com o contexto histórico em que estão inseridas. Nessa dimensão, foi importante perceber como diferentes configurações discursivas no interior das famílias recolocam as tensões entre projetos individuais e expectativas do grupo.

Um segundo aspecto que fizemos tensionar nesse texto é o argumento de que o projeto de “vencer na vida”, fraseado também de outras formas em sua acepção nativa, é, em algum grau, tributário de expectativas que transcendem as ações dos indivíduos. É esperado que houvesse fricções no ajuste entre as expectativas individuais e as mudanças de conjuntura impostas pela passagem do tempo. O que vale ressaltar aqui é que essas fricções e o aparente desajuste nos permitem conectar a experiência de uma família às experiências coletivas que dão contorno a um recorte temporal, que nesse caso, é o de uma geração.

Assim, as diferentes temporalidades vividas pelos membros de uma geração criam disjunções e ambivalências nas trajetórias familiares. As trajetórias de migração e trabalho deixam entrever determinadas experiências e repertórios de valores que são transmitidos aos filhos com a esperança de que lhes sejam úteis no enfrentamento das dificuldades que hão de vir. No caso das famílias analisadas, parece claro que a carta náutica das orientações dos pais alimenta a interpretação que os filhos, membros da segunda geração, fazem a respeito das suas próprias expectativas. Nesse sentido, e como sugere Archer (2003), o trânsito entre disposições herdadas e expectativa dos indivíduos opera no que ela define como contextual continuity, para dizer que há mais contentamento e conforto, do que rupturas. Ainda assim, a despeito do peso das disposições herdadas, não se pode concluir que elas estejam inscritas como em um mármore, sendo elas mesmas sujeitas a ressignificações que abrem novas possibilidades aos sujeitos, como demonstram as diferenças notáveis entre as trajetórias de pais e filhos.

1Agradecemos as críticas e sugestões dos pareceristas que foram, em sua maioria, incorporadas ao texto.

2Empregamos a noção de trajetórias como uma construção analítica válida para compreender formas de mobilidade social, de inserção ocupacional em diferentes mercados de trabalho, de transmissão de valores entre diferentes gerações de uma mesma família. O reconhecimento de diferentes trajetórias e, portanto, de diferentes posições ocupadas pelos agentes - ocupacional, de migração, individual - ainda que guiadas pela trajetória familiar, evita transformar as narrativas em um todo coerente, permitindo flagrar possíveis variações e tensões que surgem na intersecção dessas diferentes posições, de modo a evitar as armadilhas do que Bourdieu (2006) chamou de “ilusão biográfica”.

3Somos inspirados pela formulação clássica feita por Mannheim (1952) que se afasta do suposto da linearidade do fluxo temporal da história para incorporar o vínculo geracional como resultado das experiências vividas. Isso faz com que diferentes grupos etários, conquanto vivendo em um mesmo período cronológico, vivenciem temporalidades diversas e a percebam como tal. Para desdobramentos mais recentes em torno desse conceito, ver, por exemplo, Attias-Donfut (2000) e Domingues (2002).

4O termo nativo “melhorar de vida” opera em um registro muito próximo do que entende Durham (1978) e Maciel (2013).

5Trecho de entrevista de Doralice, concedida aos pesquisadores Mariana Thibes e Jaime Santos Jr. no dia 20 de setembro de 2015, em São Bernardo do Campo, SP, Brasil.

6Trecho de entrevista de Doralice, concedida aos pesquisadores Mariana Thibes e Jaime Santos Jr. no dia 20 de setembro de 2015, em São Bernardo do Campo, SP, Brasil.

7Trecho de entrevista de Doralice, concedida aos pesquisadores Mariana Thibes e Jaime Santos Jr. no dia 20 de setembro de 2015, em São Bernardo do Campo, SP, Brasil.

8Trecho de entrevista de Patrícia, concedida aos pesquisadores Mariana Thibes e Jaime Santos Jr. no dia 4 de julho de 2015, em São Bernardo do Campo, SP, Brasil.

9Trecho de entrevista de Patrícia, concedida aos pesquisadores Mariana Thibes e Jaime Santos Jr. no dia 4 de julho de 2015, em São Bernardo do Campo, SP, Brasil.

10Trecho de entrevista de Wagner, concedida aos pesquisadores Mariana Thibes e Jaime Santos Jr. no dia 4 de julho de 2015, em São Bernardo do Campo, SP, Brasil.

11Em 2016.

12Trecho de entrevista de Patrícia, concedida aos pesquisadores Mariana Thibes e Jaime Santos Jr. no dia 4 de julho de 2015, em São Bernardo do Campo, SP, Brasil.

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Recebido: 25 de Setembro de 2017; Aceito: 10 de Junho de 2018; Publicado: 15 de Dezembro de 2019

Autor correspondente: Jaime Santos Junior, Universidade Federal do Paraná, Rua General Carneiro, 460, 9º andar, Ed. Dom Pedro I 80060-150, Curitiba, PR, Brasil

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