SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.5 issue1Espécie invasora em reservas naturais: caracterização da população de Achatina fulica Bowdich, 1822 (Mollusca - Achatinidae) na Ilha Rasa, Guaraqueçaba, Paraná, BrasilRépteis do campus da Universidade Federal de Santa Maria, RS, Brasil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Biota Neotropica

On-line version ISSN 1676-0603

Biota Neotrop. vol.5 no.1 Campinas  2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1676-06032005000100015 

INVENTÁRIOS

 

Levantamento florístico de Floresta Atlântica no sul do Estado de São Paulo, Parque Estadual Intervales, Base Saibadela

 

 

Valesca Bononi ZipparroI,1; Frederico Augusto G. GuilhermeI, Renata J. Almeida-ScabbiaII; L. Patrícia C. MorellatoI

IUniversidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências, Departamento de Botânica, Grupo de Fenologia e Dispersão de Sementes, Caixa Postal 199, 13506-900 Rio Claro, SP, Brasil
IIEndereço atual: Fundação Instituto de Ensino para Osasco — FIEO, Av. Franz Voegeli, 300, 06020-190, Osasco, SP

 

 


RESUMO

Foi realizado um levantamento florístico no Parque Estadual Intervales, Base Saibadela (24º14'08"S, 48º04'42"W), que faz parte da maior área contínua de Floresta Atlântica brasileira remanescente, situada no sul do Estado de São Paulo. Durante os anos de 1993-1997 e 1999-2002 foram feitas coletas mensais de material botânico, principalmente ao longo de trilhas e parcelas no interior da floresta. Foi registrado um total de 436 espécies vegetais, 74 monocotiledôneas (incluindo os grupos parafiléticos), sendo descobertas cinco espécies novas. A riqueza florística na Base Saibadela foi compatível com a riqueza florística encontrada em outras localidades de Floresta Atlântica. O hábito arbóreo representou 57,1% das espécies, seguido de epífitas (12,6%), lianas (10,3%), herbáceas (9,4%) e arbustos (9,2%). As famílias Myrtaceae (55), Rubiaceae (32), Fabaceae (25), Melastomataceae (23), Araceae (20), Lauraceae, Orchidaceae e Solanaceae (14 espécies cada) apresentaram a maior riqueza florística. O gênero Eugenia apresentou 25 espécies, destacando-se dos demais gêneros encontrados. A dispersão por animais foi expressivamente maior do que os demais modos, representando 80,7% das 419 espécies cuja síndrome foi determinada, confirmando o padrão encontrado para outras florestas tropicais úmidas e ressaltando a importância da fauna na Floresta Atlântica.

Palavras-chave: Biodiversidade, floresta tropical, floresta atlântica, inventário florístico, modos de dispersão


ABSTRACT

A floristic survey was carried out in the Parque Estadual Intervales (PEI), Base Saibadela (24º14'08"S, 48º04'42"W), São Paulo State, southeastern Brazil. The PEI reserve, along with other conservation unities, compose the largest preserved area of Atlantic rain forest remained today. Monthly collections of botanical material were conducted from 1993 to 1997 and 1999 to 2002, mainly along trails and plots inside the forest. A total of 436 plant species, 74 monocots and 362 eudicotiledons (here including the parafiletic groups) were sampled, including five new species. The richness of the flora at Base Saibadela was similar to that observed for other Atlantic forest sites. The trees represented 57.1% of the species, followed by epiphytes (12.6%), lianas (10.3%), herbs (9.4%) and shrubs (9.2%). The families Myrtaceae (55), Rubiaceae (32), Fabaceae (25), Melastomataceae (23), Araceae (20), Lauraceae Orchidaceae and Solanaceae (14 species each one) showed the highest number of species. The genus Eugenia with 25 species was richest genera surveyed. Seed dispersal by animals was expressively higher than other modes, which comprises 80.7% of the 419 species where seed dispersal mode was determined, confirming the pattern found for other tropical wet forests, and highlighting the importance of plant-animal interactions to the Atlantic forest.

Key words: Biodiversity, tropical rainforest, Atlantic forest, floristic inventory, dispersion syndromes.


 

 

1. Introdução

A variedade de clima e relevo do Domínio atlântico (sensu Ab' Saber 1977), num sentido amplo, proporciona uma grande diversidade de ambientes e ecossistemas complexos a ele associados, englobando a floresta pluvial atlântica, a floresta estacional semidecidual, mangues, restingas e campos de altitude (Mantovani 1990, Leitão-Filho 1994, Mantovani 1998, Ivanauskas et al. 2000, Oliveira-Filho & Fontes 2000, Scudeller et al. 2001, Scarano 2002). No Estado de São Paulo, essa variação ambiental é abrupta, pois a vegetação da Serra do Mar, sob influência mais direta do oceano, recebe em torno de 3.600 mm/ano de chuva, enquanto a maiores distâncias do oceano o clima se torna sazonal, com chuvas entre 1.300 e 1.600 mm/ano (Oliveira-Filho & Fontes 2000). Ao longo dessas zonas climáticas observa-se uma diferenciação das formações florestais, com a floresta estacional semidecidual no interior do Estado e a floresta pluvial atlântica ou floresta atlântica propriamente dita ao longo da costa, recobrindo a Serra do Mar (Oliveira-Filho & Fontes 2000).

Devido ao acelerado processo de devastação, graças à intensa atividade agropastoril, industrial e urbana, a floresta atlântica foi praticamente dizimada ao longo dos séculos após o descobrimento, restando hoje entre 5-8% da cobertura original (Mori 1988, Dean 1995, Morellato & Haddad 2000). Considerada como um dos maiores centros de biodiversidade, com altos níveis de endemismo, a floresta atlântica está entre as oito áreas prioritárias ('hotspots') do planeta, em termos de estratégias de conservação (Myers et al. 2000). Contudo, os remanescentes estão sujeitos a intervenções e ameaças constantes, pois se encontram próximos dos grandes centros urbanos brasileiros ou estão envolvidos por vastas plantações de café, cana-de-açúcar e eucalipto (Dean 1995, Morellato & Haddad 2000).

Boa parte dos remanescentes de Floresta Atlântica mais expressivos e extensos estão situados no estado de São Paulo, graças ao relevo acidentado da Serra do Mar e da Serra de Paranapiacaba (Leitão Filho 1994), com 40% concentrados na região do Vale do Rio Ribeira do Iguape, sul do estado (Silva Matos & Bovi 2002). Em razão de algumas localidades apresentarem relevo e solos propícios para agricultura, essa região tem expandido sua fronteira agrícola e causado sérios problemas para a flora local (Ivanauskas et al. 2001). Essa região e seus arredores é a mais pobre do estado e tem como principais fontes de renda agrícola o cultivo de chá e banana. A exploração do palmito-juçara (Euterpe edulis) também é uma importante fonte de renda e ocorre, principalmente, de forma clandestina, embora ainda existam algumas das poucas populações intactas de palmito ao longo de toda a Floresta Atlântica brasileira (Galetti & Chivers 1995). Nesta região insere-se a Base Saibadela, pertencente ao Parque Estadual Intervales, uma Unidade de Conservação de elevada importância ecológica que, juntamente com outras Unidades de Conservação, formam a maior área contínua de floresta atlântica brasileira, abrigando uma biodiversidade ainda pouco conhecida (Fundação Florestal 2001).

Este estudo tem como objetivos incrementar as informações sobre a diversidade e distribuição de espécies vegetais na Floresta Atlântica, apresentando um levantamento florístico no Parque Estadual Intervales e a classificação das espécies quanto às formas de vida e modos de dispersão.

 

2. Material e Métodos

2.1 Área de estudo

O estudo foi realizado no Parque Estadual Intervales (PEI), Base Saibadela (24º14'S e 48º04'W), localizado na Serra de Paranapiacaba, município de Sete Barras, sul do Estado de São Paulo (Figura 1). O PEI possui uma área de aproximadamente 48.000 ha e é circundado por outras três Unidades de Conservação (Parque Estadual Carlos Botelho, Estação Ecológica do Xitué e Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira), totalizando cerca de 200.000 ha (Fundação Florestal 2001). A área é coberta, principalmente, por floresta atlântica primária com pouca intervenção antrópica (Figura 2A) e situa-se nos domínios da Floresta Ombrófila Densa Submontana (IBGE 1991).

 

 

O PEI tem relevo bastante acidentado e encontra-se em altitudes que variam de 60 a 1.100 m; na Base Saibadela, a altitude varia em torno de 70 a 250 m (Fundação Florestal 2001). Em termos geomorfológicos, a Base Saibadela localiza-se na Serrania Costeira da Serra de Paranapiacaba, a qual possui amplas feições erosivas de aspecto montanhoso, formadas por escarpas íngremes e vales profundos, que representam o rebordo do Planalto Cristalino Atlântico, constituídos principalmente por rochas graníticas e gnáissicas de elevada complexidade estrutural (Almeida 1974). Predominam no local solos distróficos com poucos nutrientes e acidez elevada, alta saturação por Al trocável e baixa saturação por bases, proporcionadas pelos baixos teores de Ca, Mg e K trocáveis (Guilherme et al. 2004).

Os dados climáticos registrados na própria área de estudo (1994 a 1996; 2000) apontam para um clima tropical superúmido, sem períodos de déficit hídrico e com chuvas o ano todo, com precipitação média anual de 4.000 mm (Morellato et al. 2000). Há uma estação mais fria e menos chuvosa de abril a agosto, com temperatura média do mês mais frio (julho) de 18 ºC e precipitação acima de 100 mm e a outra estação, mais quente e chuvosa, de setembro a março, com temperatura média do mês mais quente (janeiro) de 28,1 ºC e precipitação acima de 250 mm (Morellato et al. 2000). Segundo Setzer (1966), a região apresenta clima do tipo Cfa no sistema de Köeppen, quente sem estação seca.

2.2 Levantamento florístico

As coletas foram feitas mensalmente entre os anos de 1993 e 2002, com exceção de 1997 e 1998, quando a direção do parque decidiu interromper as pesquisas na Base Saibadela, e limitaram-se às angiospermas. O esforço de coleta concentrou-se nos blocos amostrais - cerca de 2 ha. - pertencentes a um estudo fitossociológico (Guilherme et al. 2004) e ao longo de trilhas no interior da floresta (Almeida-Scabbia 1996, Zipparro 2004), sendo ainda realizadas coletas em locais menos acessíveis da floresta. O material botânico em estado fértil foi coletado e herborizado, anotando-se a forma de vida das espécies, classificadas em sete hábitos descritos a seguir: 1. árvore: plantas com fuste lenhoso e, em geral, com diâmetro a altura do meio> 5 cm e mais de 3 m de altura; 2. arbusto: plantas com base do caule lenhoso e, em geral, com diâmetro a altura do meio< 5 cm e com menos de 3 m de altura; 3. liana: plantas lenhosas ou não, com hábito escandente ou trepador; 4. estranguladora: plantas lenhosas com hábito estrangulador; 5: hebácea: ervas terrestres e sem caule lenhoso; 6: epífita: plantas que utilizam outras plantas, em geral lenhosas, como suporte, sem causar injúrias ao hospedeiro; 7: parasita: plantas que vivem sobre outras, recorrendo ao sistema vascular do hospedeiro para suprir suas necessidades nutricionais. Embora não apresentem caule lenhoso (estipe), as espécies da família Arecaceae foram consideradas como árvores ou arbustos, dependendo das características apresentadas para cada espécie. As identificações foram feitas com o auxílio da literatura específica, consultas à especialistas, além de comparações com material dos Herbários SP, UEC e ESA, além do HRCB, onde o material encontra-se depositado. Boa parte dessa coleção botânica também está incorporada no Herbário SP, visando contribuir para o Projeto Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo. As espécies foram agrupadas nas famílias reconhecidas pelo Angiosperm Phylogeny Group (APG 2003).

As informações sobre modos de dispersão foram baseadas em observações de campo e outros estudos dessa natureza realizados no local (Vieira & Izar 1999, Galetti et al. 2000, Morellato et al. 2000, Pizo & Oliveira 2000, Pizo 2002, Pizo & Morellato 2002), e foram agrupadas em quatro modos de dispersão: zoocoria — diásporos adaptados à dispersão por animais; anemocoria — diásporos adaptados à dispersão pelo vento; hidrocoria — diásporos adaptados à dispersão pela água; autocoria — agrupados em espécies barocóricas (dispersão por gravidade) e com dispersão explosiva.

É importante salientar que o componente arbóreo foi melhor amostrado do que outras formas de vida, devido aos estudos fitossociológicos (Almeida-Scabbia 1996, Guilherme et al. 2004) e fenológicos (Morellato et al. 2000, Zipparro 2004) realizados no local.

 

3. Resultados e Discussão

No total, registradas 436 espécies, 74 monocotiledôneas e 362 eudicotiledôneas (incluindo os grupos parafiléticos, conforme APG 2003), pertencentes a 233 gêneros e 90 famílias, 16 de monocotiledôneas e 74 de eudicotiledôneas; 17 espécies permaneceram identificadas apenas em nível de família (Tabela 1). Oito famílias mais ricas em espécies, Myrtaceae (55), Rubiaceae (32), Fabaceae (25), Melastomataceae (23), Araceae (20), Lauraceae, Orchidaceae e Solanaceae (14 espécies cada), compreenderam 45,2% do total de espécies levantadas, comprovando sua grande importância na flora da floresta atlântica do estado de São Paulo (Ivanauskas et al. 2001, Mamede et al. 2004). O gênero Eugenia (25) apresentou número expressivamente maior de espécies, seguido por Anthurium, Maytenus, Miconia e Psychotria, com nove espécies cada (Figura 2B-F). A constatação dessa maior riqueza para Myrtaceae e para o gênero Eugenia corrobora o padrão que tem sido encontrado para floresta atlântica do estado de São Paulo (Sanches et al. 1999, Ivanauskas et al. 2001, Scudeller et al. 2001) e do Brasil (Oliveira Filho & Fontes 2000). Segundo Mori et al. (1983) e Peixoto & Gentry (1990), a família Myrtaceae tem grande importância florística em toda costa brasileira, devido à elevada riqueza de suas espécies lenhosas.

Baseado em informações recentes sobre fitogeografia (Mamede et al. 2004), o Parque Estadual Intervales possui espécies endêmicas e com distribuição restrita à costa leste do Brasil, tais como Guatteria australis (SP, PR) (Annonaceae) (Figura 2G), Calycorectes acutatus (MG, SP), Eugenia bocainensis (SP, PR) (Myrtaceae) e Pouteria psammophila (RJ, SP) (Sapotaceae). Outras espécies são registradas pela segunda vez para o estado de São Paulo, tais como Myrceugenia kleinii (Myrtaceae) e Psychotria birotula (Rubiaceae). Plinia complanata (Figura 2H) e P. pauciflora (Myrtaceae) (Kawasaki & Holst 2002) e uma espécie do gênero Cryptocarya (Lauraceae) (P. L. R. Moraes, com. pess.) são táxons arbóreos novos, além de Neomarica sp. — Iridaceae (L. Capellari Jr., com. pess.) e uma espécie do gênero Calathea — Marantaceae (V. L. R. Uliana, com. pess.), ambas plantas herbáceas ainda não descritas pela ciência, totalizando cinco espécies inéditas descobertas na Base Saibadela.

O hábito arbóreo foi o mais comum entre as formas de vida coletadas (Tabela 2), como constatado por Lima & Guedes-Bruni (1994) e Ivanauskas et al. (2001). Destacaram-se no dossel florestal árvores de grande porte, tais como Alchornea triplinervia, Hyeronima alchorneoides, Pseudopiptadenia warmingii, Pterocarpus rohrii, Sloanea guianensis e Virola bicuhyba. Árvores de pequeno e médio porte estão bem representadas pelas espécies Eugenia mosenii, E. cuprea (Figura 2B), Euterpe edulis (Figura 2I), Garcinia gardneriana, Guapira opposita, Ixora burchelliana, Marlierea tomentosa, Mollinedia schottiana e Psychotria suterella (Figura 2F), como constatado por Guilherme et al. (2004).

As famílias Melastomataceae, Rubiaceae e Solanaceae foram as mais ricas em espécies do componente arbustivo. Estas famílias estão entre as citadas por Tabarelli & Mantovani (1999) e por Ivanauskas et al. (2001), em áreas de Floresta Atlântica de encosta no Estado de São Paulo, como as de maior riqueza entre as arvoretas e arbustos. Entre as herbáceas podemos destacar a família Cyperaceae, típica das regiões de topo de morros, onde o estrato arbóreo é mais baixo e a incidência luminosa maior. Nos sopés das encostas e nas planícies menos drenadas, devido à proximidade com cursos d'água, predominam agrupamentos de Aphelandra liboniana (Acanthaceae) e, principalmente, touceiras de Calathea spp. (Marantaceae), plantas herbáceas que se reproduzem vegetativamente, por meio de rizomas, ocupando expressivamente vários trechos do sub-bosque florestal.

Na Base Saibadela, as famílias com maior riqueza entre as lianas foram Fabaceae e Bignoniaceae, que aparecem também como as famílias mais ricas em espécies de lianas na floresta atlântica do estado de São Paulo (Kim 1996, Ivanauskas et al. 2001). Outra característica marcante na floresta atlântica da Base Saibadela é a grande ocorrência de epífitas, com destaque para as espécies da família Araceae, tanto pelo porte de seus indivíduos, como pela sua abundância. As famílias Araceae (19), Orchidaceae (10), Bromeliaceae (9) e Piperaceae (6) apresentaram o maior número de espécies, totalizando 80% dos epífitos encontrados. A família Araceae foi bem levantada devido a estudo específico sobre hábito alimentar de mamíferos arbóreos (Vieira & Izar 1999). Orchidaceae provavelmente não teve a maior riqueza florística porque não foi amostrada de forma tão intensa quanto as aráceas. Como é amplamente conhecido em levantamentos de epífitos vasculares, as orquídeas superam todos os outros grupos de plantas em número de espécies epifíticas nos trópicos e subtrópicos (Gentry & Dodson 1987, Dittrich et al. 1999, Borgo & Silva 2003). É importante salientar que as pteridófitas, principalmente epifíticas, também são abundantes na Base Saibadela, com cerca de 120 espécies, e serão objeto de estudo específico (A. Salino & V.A.O. Dittrich, dados não publicados).

A dispersão por animais foi expressivamente maior do que os demais modos, presente em 80,7% das 419 espécies cujo modo de dispersão foi determinado (Tabela 3). Esse tipo de dispersão englobou 89,2% das espécies arbustivo-arbóreas no levantamento e este valor é similar ao observado para espécies arbóreas em outras localidades de Floresta Atlântica (Morellato et al. 2000, Talora & Morellato 2000). Esses valores mostram a importância da fauna para as espécies vegetais e o alto número de interações interespecíficas (conectância), abordando apenas a dispersão de sementes, existentes na Floresta Atlântica. A dispersão por animais também foi predominante entre as 55 espécies epifíticas levantadas (63,6%), embora a dispersão pelo vento também seja marcante neste grupo (36,4%). Madison (1977) afirma que a anemocoria é vantajosa para plantas que habitam o dossel, assim a dispersão pelo vento entre as epífitas é muito mais freqüente do que nas plantas terrícolas de florestas tropicais chuvosas. Lianas também ocupam, predominantemente, a copa das árvores, posição que favorece a dispersão pelo vento, observada em 34,1% das espécies desse grupo na Base Saibadela. Entretanto, a maioria das lianas apresentou dispersão por animais (58,5%), diferindo do observado para lianas de florestas estacionais semideciduais do interior do estado de São Paulo (Morellato & Leitão Filho 1996). Nestas florestas a proporção de anemocoria é superior a 70% e apenas 18,7% das espécies de lianas são dispersas por animais, sendo geralmente trepadeiras herbáceas, do sub-bosque (Morellato & Leitão Filho 1996). Esta elevada proporção de dispersão por animais em floresta atlântica parece relacionada à elevada pluviosidade do local (4.000 mm), já que em florestas úmidas pouco sazonais a proporção de espécies dispersa por animais, em qualquer hábito, supera a daquelas dispersas pelo vento (L. P. C. Morellato, dados não publicados).

Embora reduzida, a cobertura vegetal da floresta atlântica no sul do estado de São Paulo ainda é expressiva em relação ao restante do país e possui uma biodiversidade marcante. A dificuldade de se obter uma medição direta do grau de resiliência em ecossistemas de grande biodiversidade, como a floresta atlântica, onde conectância e força de interações são praticamente impossíveis de serem estimadas para o ecossistema como um todo (Scarano 2004), torna urgente a preservação e o manejo das áreas remanescentes para a conservação das espécies e a conseqüente manutenção da diversidade genética e biológica, até que um conhecimento adequado seja adquirido.

 

Agradecimentos

Somos gratos aos taxonomistas inseridos no Projeto Flora do Estado de São Paulo, em especial à Maria Lúcia Kawasaki (Myrtaceae), Ana Paula Prata (Cyperaceae) e Renata G. Uduluscht (Orchidaceae e lianas) e Fábio de Barros (Orchidaceae) pelo auxílio na identificação do material botânico; ao Marco Antonio de Assis pela leitura crítica do manuscrito; ao Marcos P. M. Aidar e a um assessor anônimo pelas sugestões ao manuscrito, ao Instituto Florestal e Fundação Florestal, pela permissão para estudo e apoio logístico e à FAPESP (proc. nº 95/9626-0) pelo suporte financeiro. LPCM é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. FAGG foi bolsista de doutorado da CAPES. VBZ e RJAS receberam bolsa de doutorado e mestrado do CNPq, respectivamente.

 

4. Referências bibliográficas

AB' SABER, A.N. Os domínios morfoclimáticos na América do Sul. Primeira aproximação. Geomorfologia (Inst. Geogr. Univ. S. Paulo) 52: 1-21.         [ Links ]

ALMEIDA, F.F.M. 1974. Fundamentos geológicos do relevo paulista. Série Teses e Monografias - 14, USP, São Paulo.         [ Links ]

ALMEIDA-SCABBIA, R.J. 1996. Fitossociologia de um trecho de floresta Atlântica no Parque Estadual Intervales, SP. Dissertação de mestrado, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro.         [ Links ]

APG (Angiosperm Phylogeny Group). 2003. An update of the angiosperm phylogeny group classification for the orders and families of flowering plants: APG II. Bot. J. Linn. Soc. Lond. 141:399-436.         [ Links ]

BORGO, M. & SILVA, S.M. 2003. Epífitos vasculares em fragmentos de Floresta Ombrófila Mista, Curitiba, Paraná, Brasil. Rev. Bras. Bot. 26: 391-401.         [ Links ]

DEAN, W. 1995. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. Companhia das Letras, São Paulo.         [ Links ]

DITTRICH, V.A.O., KOZERA, C. & SILVA, S.M. 1999. Levantamento florístico dos epífitos vasculares do Parque Barigüi, Curitiba, Paraná, Brasil. Iheringia 52: 11-21.         [ Links ]

FUNDAÇÃO FLORESTAL. 2001. Intervales: fundação para a conservação e a produção florestal do estado de São Paulo. Secretaria do Meio Ambiente, São Paulo.         [ Links ]

GALETTI, M. & CHIVERS, D.J. 1995. Palm harvest threatens Brazil's best protected area of Atlantic Forest. Oryx 29: 225-226.         [ Links ]

GALETTI, M., LAPS, R. & PIZO, M.A. 2000. Frugivory by toucans (Ramphastidae) at two altitudes in the Atlantic Forest of Brazil. Biotropica 32: 842-850.         [ Links ]

GENTRY, A.H. & DODSON, C.H. 1987. Diversity and biogeography of neotropical vascular epiphytes. Ann. Missouri Bot. Gard. 74: 205-233.         [ Links ]

GUILHERME, F.A.G, MORELLATO, L.P.C. & ASSIS, M.A. 2004. Horizontal and vertical tree community structure in a section of lowland Atlantic Rain Forest in the Intervales State Park, southeastern Brazil. Rev. Bras. Bot. 27(4): 725-737.         [ Links ]

IBGE. 1991. Manual técnico da vegetação brasileira. Série manuais técnicos em geociências. DEDIT/CDDI, Rio de Janeiro.         [ Links ]

IVANAUSKAS, N.M., MONTEIRO, R. & RODRIGUES, R.R. 2000. Similaridade florística entre áreas de floresta Atlântica no estado de São Paulo. Braz. J. Ecol. 1/2: 71-81.         [ Links ]

IVANAUSKAS, N.M., MONTEIRO, R. & RODRIGUES, R.R. 2001. Levantamento florístico de trecho de floresta Atlântica em Pariquera-Açu, São Paulo, Brasil. Naturalia 26: 97-129.         [ Links ]

KAWASAKI, M.L. & HOLST, B.K. 2002. Two new species of Plinia (Myrtaceae) from coastal forests of Brazil. Brittonia 54: 94-98.         [ Links ]

KIM, A.C. 1996. Lianas da Mata Atlântica do Estado de São Paulo. Dissertação de mestrado. Universidade Estadual de Campinas, Campinas.         [ Links ]

LEITÃO FILHO, H.F. 1994. Diversity of arboreal species in Atlantic rain forest. An. Acad. Bras. Cienc. 66: 91-96.         [ Links ]

LIMA, M.P.M. & GUEDES-BRUNI, R.R. 1994. (Org.) Reserva Ecológica de Macaé de Cima, Nova Friburgo RJ: aspectos florísticos das espécies vasculares. Rio de Janeiro, Jardim Botânico, v.1.         [ Links ]

MADISON, M. 1977. Vascular epithytes: their systematic occurrence and salient features. Selbyana 2:1-13.         [ Links ]

MAMEDE, M.C.H., CORDEIRO, I. ROSSI, L. MELO, M.M.R.F. & OLIVEIRA, R.J. 2004. Mata Atlântica. In Estação Ecológica Juréia-Itatins: ambiente físico, flora e fauna. (O.A.V. Marques & W. Duleba, eds.). Holos Editora, Ribeirão Preto, p.115-132.         [ Links ]

MANTOVANI, W. 1990. A dinâmica das florestas de encosta Atlântica. In Anais do II Simpósio de Ecossistemas da Costa Sul e Sudeste Brasileira, São Paulo, p.304-313.         [ Links ]

MANTOVANI, W. 1998. Dinâmica da Floresta Pluvial Atlântica. In Anais do IV Simpósio de Ecossistemas Brasileiros. ACIESP Águas de Lindóia, p.1-20.         [ Links ]

MORELLATO, L.P.C. & HADDAD, C.F.B. 2000. Introduction: The Brazilian Atlantic Forest. Biotropica 32: 786-792.         [ Links ]

MORELLATO, L.P.C. & LEITÃO-FILHO, H.F. 1996. Reproductive phenology of climbers in a Southeasthern Brazilian forest. Biotropica 28:180-191.         [ Links ]

MORELLATO, L.P.C., TALORA, D.C., TAKAHASI, A., BENCKE, C.C., ROMERA, E.C. & ZIPPARRO, V.B. 2000. Phenology of Atlantic Rain Forest trees: a comparative study. Biotropica 32: 811-823.         [ Links ]

MORI, S.A., BOOM, B.M., CARVALHO, A.M. & SANTOS, T.S. 1983. Ecological importance of Myrtaceae in an Eastern Brazilian wet forest. Biotropica 15:68-70.         [ Links ]

MORI, S.A. 1988. Eastern, extra-amazonian Brazil. In Floristic inventory of tropical countries. (D.G. Campbell & H.D. Hammond, eds.). New York Botanical Garden, New York. p.428-454.         [ Links ]

MYERS, N., MITTERMEIER, R.A., MITTERMEIER, C.G., FONSECA, G.A.B. & KENT, J. 2000. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature 403: 853-858.         [ Links ]

OLIVEIRA FILHO, A.T. & FONTES, M.A.L. 2000. Patterns of floristic differentiation among Atlantic Forests in Southeastern Brazil, and the influence of climate. Biotropica 32: 793-810.         [ Links ]

PEIXOTO, A.L. & GENTRY, A.H. 1990. Diversidade e composição florística da mata de tabuleiro na Reserva Florestal de Linhares (Espírito Santo, Brasil). Rev. Bras. Bot. 13:19-25.         [ Links ]

PIZO, M.A. 2002. The seed-dispersers and fruit syndromes of Myrtaceae in the brazilian Atlantic Forest. In Seed dispersal and frugivory: ecology, evolution and conservation. (D.J. Levey, W.R. Silva & M. Galetti, eds.). CAB Publishing, New York. p.129-143.         [ Links ]

PIZO, M.A. & MORELLATO, L.P.C. 2002. A new rain-operated seed dispersal mechanism in Bertolonia mosenii (Melastomataceae), a Neotropical rainforest herb. Am. J. Bot. 89: 169-171.         [ Links ]

PIZO, M.A. & OLIVEIRA, P.S. 2000. The use of fruits and seeds by ants in the Atlantic Forest of southeast Brazil. Biotropica 32: 851-861.         [ Links ]

SANCHES, M., PEDRONI, F., LEITÃO FILHO, H.F. & CÉSAR, O. 1999. Composição florística de um trecho de floresta ripária na Mata Atlântica em Picinguaba, Ubatuba, SP. Rev. Bras. Bot. 22:31-42.         [ Links ]

SCARANO, F.R. 2002. Structure, function and floristic relationships of plant communities in stressful habitats marginal to the Brazilian atlantic rainforest. Ann. of Bot. 90: 517-524.         [ Links ]

SCARANO, F.R. 2004. O papel da biodiversidade no funcionamento de ecossistemas. In Pesquisa da biodiversidade: princípios, desafios e avanços: a experiência do Programa Biota/Fapesp (T. Lewinsohn, A.C. Joly, M.S. Buckeridge & L.A. Martinelli, eds.) (no prelo).         [ Links ]

SCUDELLER, V.V., MARTINS, F.R. & SHEPHERD, G.J. 2001. Distribution and abundance of arboreal species in the atlantic ombrophilous dense forest in Southeastern Brazil. Plant Ecol. 152:185-199.         [ Links ]

SETZER, J. 1966. Atlas Climático e Ecológico do Estado de São Paulo. Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, São Paulo.         [ Links ]

SILVA MATOS, D.M. & BOVI, M.L.A. 2002. Understanding the threats to biological diversity in southeastern Brazil. Biodiversity and Conservation 11:1747-1758.         [ Links ]

TABARELLI, M. & MANTOVANI, W. 1999. A riqueza de espécies arbóreas na floresta atlântica de encosta no estado de São Paulo (Brasil). Rev. Bras. Bot. 22:217-223.         [ Links ]

TALORA, D.C. & MORELLATO, L.P.C. 2000. Fenologia de espécies arbóreas em floresta de planície litorânea do sudeste do Brasil. Rev. Bras. Bot. 23: 13-26.         [ Links ]

VIEIRA, E.M. & IZAR, P. 1999. Interactions between aroids and arboreal mammals in the Brazilian Atlantic rainforest. Plant Ecol. 145: 75-82.         [ Links ]

ZIPPARRO, V.B. 2004. Fenologia reprodutiva de espécies arbóreas em área de Floresta Atlântica no Parque Estadual Intervales - Base Saibadela, Sete Barras, SP. Tese de doutorado, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro.         [ Links ]

 

 

Recebido: 01/10/2004
Revisado: 13/12/2004
Publicado: 01/01/2005

 

 

ISSN 1676-0603
1 Autor para correspondência: zipparro@rc.unesp.br