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Biota Neotropica

On-line version ISSN 1676-0611

Biota Neotrop. vol.7 no.2 Campinas  2007

https://doi.org/10.1590/S1676-06032007000200004 

ARTIGOS

 

Composição florística dos afloramentos rochosos do Morro do Forno, Altinópolis, São Paulo

 

Floristic composition of the rock outcrops of the Morro do Forno, Altinópolis-SP

 

 

Rejane Barbosa de OliveiraI; Silvana Aparecida Pires de GodoyII, 1

IDepartamento de Biologia, Laboratório de Sistemática Vegetal, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo – USP, Av. Bandeirantes, 3900, CEP 14040-901, Monte Alegre, Ribeirão Preto, SP, Brasil, http://www.ffclrp.usp.br
IIEscola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo – USP, Av. Arlindo Bettio, 1000, CEP 03828-000, Ermelindo Matarazzo, São Paulo, SP, Brasil

 

 


RESUMO

Áreas de afloramentos rochosos em topos de morros abrigam uma vegetação bastante peculiar. Muitas das espécies que ocorrem nessas áreas apresentam uma série de características que permitem sua sobrevivência num ambiente com solo pobre e arenoso, com alta insolação e grande oscilação de temperatura entre o dia e a noite. Essas características particulares despertaram o interesse no estudo da flora das áreas de afloramentos rochosos do Morro do Forno (Altinópolis-SP). A flora apresenta um total de 157 espécies distribuídas em 48 famílias. Fabaceae (14 spp.), Asteraceae (12 spp.), Poaceae (12 spp.), Rubiaceae (11 spp.), Malpighiaceae (9 spp.) e Melastomataceae (8 spp.) são as famílias com o maior número de espécies. O estrato herbáceo-arbustivo caracteriza a área (61%), seguido pelo arbóreo (19%), sendo de menor representatividade as lianas (11%) e os subarbustos (9%). Muitas das espécies que ocorrem na área estão presentes em outros afloramentos rochosos brasileiros como, por exemplo, nos campos rupestres da Serra do Cipó e Serra da Canastra em Minas Gerais e nos cerrados rupestres da Chapada dos Guimarães no Mato Grosso.

Palavras-chave: flora, afloramentos rochosos, Morro do Forno, São Paulo.


ABSTRACT

Rock outcrops on the plateaus of hills have peculiar vegetation. The major part of the species occurring on these areas have various features that allow their survival under adverse environmental conditions as poor and sandy soil with intense solar radiation and great temperature ranging from day and night. These particular characteristics aroused the interest in the study of the flora on rock outcrops of Morro do Forno (Altinópolis-SP). A list of 157 species of 48 families was recorded. Fabaceae (14 spp.), Asteraceae (12 spp.), Poaceae (12 spp.), Rubiaceae (11 spp.), Malpighiaceae (9 spp.) and Melastomataceae (8 spp.) are the families with more number of species. The herbaceous-shruby stratum characterizes the area (61%), followed by arboreous (19%); lianas (11%) and subshruby (9%) are less representative. Many of the species occurring on the area are present another Brazilian rocky outcrops as, for example, the "campos rupestres" of the Minas Gerais state (Serra do Cipó and Serra da Canastra) and the "cerrados rupestres" of the Mato Grosso state (Chapada dos Guimarães).

Keywords: flora, rock outcrops, Morro do Forno, São Paulo.


 

 

Introdução

O Morro do Forno, situado no município de Altinópolis–SP, chama a atenção por apresentar três grandes áreas de afloramentos rochosos cobertas por uma vegetação que difere da vegetação típica de cerrado que ocorre na região. Áreas de afloramentos rochosos semelhantes a essas são relativamente freqüentes em várias partes do mundo (Mares 1997). O estudo dessas áreas em diferentes localidades da região tropical tem revelado uma gama de similaridades ambientais, em especial aquelas relacionadas às condições edáficas e microclimáticas, decorrentes das diferenças no estágio de decomposição das rochas (Porembski et al. 1998). Esses afloramentos têm origem geológica bastante antiga, em geral Pré-cambriana, e apresentam como características: a ausência quase completa de cobertura de solo, alto grau de insolação e evaporação e grande heterogeneidade topográfica (Ibisch et al. 1995, Giulietti et al. 1997, Porembski et al. 1998, Parmentier 2003). Essas características peculiares levam ao estabelecimento de uma cobertura vegetal distinta da área adjacente (Gröger & Barthlott 1996, Porembski & Barthlott 2000), formando o que muitos autores chamam de "ilhas xéricas" (Gröger & Barthlott 1996, Porembski et al. 1998, Parmentier 2003). As plantas que se estabelecem sobre os afloramentos crescem diretamente sobre a rocha exposta ou em ilhas de vegetação que apresentam tamanhos variados, gerando um mosaico de acordo com a declividade da rocha e a profundidade do substrato (Meirelles et al. 1999).

Vários estudos sobre a vegetação associada a afloramentos rochosos têm sido realizados na África (Porembski et al. 1996, Parmentier 2003) e na América do Sul (Ibisch et al. 1995, Gröger & Barthlott 1996). No Brasil, a maioria dos trabalhos concentra-se nos campos de altitude (Porembski et al. 1998, Meireles et al. 1999, Scarano 2002), nos cerrados rupestres (Oliveira-Filho & Martins 1986) e, em especial, nos campos rupestres (Andrade et al. 1986, Harley & Simmons 1986, Giulietti et al. 1987, Giulietti & Pirani 1988, Harley 1995, Mello-Silva 1995, Stannard 1995, Giulietti et al. 1997, Munhoz & Proença 1998, Conceição & Giulietti 2002, Guedes & Orge 1998, Romero & Nakajima 1999, Giulietti et al. 2000, Romero 2002). Esses estudos vêm contribuindo com informações valiosas sobre a flora desses ambientes, suas características ecológicas e biogeográficas, revelando que apresentam uma biodiversidade elevada, grande número de endemismos e uma série de espécies dotadas de adaptações à sobrevivência em ambientes com condições ambientais hostis.

O presente estudo teve como objetivo incrementar as informações sobre a diversidade e distribuição das espécies vegetais que crescem sobre áreas de afloramentos rochosos, apresentando um levantamento florístico de três áreas de afloramentos rochosos no Morro do Forno, Altinópolis-SP.

 

Material e Métodos

1. Área de estudo

O Morro do Forno (Figura 1) encontra-se dentro dos limites do município de Altinópolis, situado a nordeste do estado de São Paulo (21° 02’ 16" S e 47° 19’ 18" W) (Figura 2). O acesso à área é feito pela rodovia Joaquim Ferreira (km 133) que liga os municípios de Altinópolis e Cajuru.

 

 

 

 

A região se encaixa entre os domínios dos climas Cwa e Aw (Köppen 1948), numa zona de transição entre um clima tropical influenciado pelo fator altitude e um clima tropical quente, com verões úmidos e invernos secos, apresentando tendências para um quadro semi-úmido (Nimer 1977). A temperatura varia de acordo com a latitude e com a elevação, sendo que a média anual fica em torno dos 22 °C. A pluviosidade está concentrada nos meses mais quentes (dezembro a fevereiro), quando ocorre 50% da precipitação, enquanto nos meses mais frios (junho e julho) raramente chove.

Sob o ponto de vista estrutural, o município de Altinópolis está inserido na Formação Botucatu. Esta formação compreende um conjunto de arenitos predominantemente vermelhos, cujo acúmulo contribuiu para a formação do Morro do Forno. Rochas basálticas resultantes da ação eruptiva da Formação Geral cobrem esse pacote arenítico, formando as extensas áreas de afloramentos rochosos que cobrem os platôs que ocorrem nas regiões mais altas do morro (Troppmair & Tavares 1985, Petri & Fúlfaro 1988). Sob o ponto de vista geomorfológico, a área está localizada na Província Geomorfológica das Cuestas Basálticas. Na região de Altinópolis, as cuestas apresentam frontes suavizadas que se desfazem em blocos, formando morros testemunhos isolados que marcam a continuidade dessa configuração topográfica (Troppmair & Tavares 1985, Petri & Fúlfaro 1988).

O Morro do Forno é um dos exemplos de maior destaque desse tipo de relevo residual que ocorre na região (Troppmair & Tavares 1985). O basalto que cobre o Morro do Forno está bastante erodido. Em muitas áreas o solo encontra-se extremamente trabalhado e o basalto permanece apenas na forma de grandes blocos rochosos que podem ser encontrados em várias partes do morro. Nas áreas onde o solo está relativamente trabalhado, cresce uma densa vegetação de cerrado, onde predominam espécies típicas do cerradão, com destaque para Caryocar brasiliense Cambess., Copaifera langsdorffii Desf. e Pterodon emarginatus Vogel. Os blocos rochosos, por sua vez, estão cobertos por espécies rupícolas, predominando as de Bromeliaceae e Cactaceae. À medida que o morro vai ganhando altitude, o solo torna-se menos trabalhado, dando lugar a um cerrado de porte mais baixo e mais aberto, predominando espécies arbustivas de Melastomataceae e Myrtaceae. Em altitudes maiores, formam-se platôs delimitados por escarpas abruptas, onde aparecem áreas de afloramentos rochosos cobertos por espécies de Melastomataceae, Poaceae e Velloziaceae, típicas dos campos rupestres.

Neste trabalho foram utilizadas as três áreas de maior extensão de afloramentos rochosos. Essas áreas apresentam cerca de 16 ha, sendo marcadas por escarpas abruptas que delimitam os platôs onde estão localizados os afloramentos rochosos. Duas dessas áreas localizam-se na face leste, sendo que a primeira apresenta uma altitude que varia de 796 a 798 m, enquanto a segunda está a uma altitude entre 822 e 825 m. A terceira área está localizada na face sul e apresenta uma altitude de cerca de 900 m.

2. Levantamento florístico

As coletas quinzenais tiveram início em fevereiro de 2003 e término em junho de 2004 com duração de um dia e foram restritas às faces leste e sul, onde há maior concentração de afloramentos rochosos. Os espécimes botânicos em estado fértil foram coletados, anotando-se o hábito de cada espécie, e posteriormente herborizados. O hábito foi definido considerando-se a associação dos dados observados como altura, ramificação, indícios de crescimento secundário, ocupação do substrato, formas de crescimento, além do descrito na literatura para a espécie.

As identificações foram feitas com o auxílio da literatura específica, consultas a especialistas e comparações com material dos herbários HUFU, SPF e SPFR. Os materiais testemunhos foram depositados no herbário SPFR e algumas duplicatas foram enviadas aos herbários HUFU e SPF. A listagem das espécies foi organizada em ordem alfabética de família e o sistema de classificação adotado foi o recomendado por APGII (2003). Atualizações desse sistema, bem como a grafia correta dos nomes científicos e de autores seguem o indicado no site http://www.mobot.org. As "pteridófitas" são citadas após as Angiospermas, no final da lista e segue o sistema recomendado por Judd et al. (1999).

Devido à declividade e ao estado de erosão das rochas, há a formação de uma série de microhabitats nas áreas de afloramentos, onde se observa um certo padrão de ocupação das espécies de acordo com sua afinidade ao substrato. Esses microhabitats são descritos a seguir: 1. frestas: espaços estreitos entre as rochas onde há acúmulo de sedimentos provenientes da decomposição das rochas. Nesses espaços forma-se uma camada de solo capaz de reter água e sedimentos, sendo que a vegetação observada é predominantemente arbustivo-arbórea (Figura 3a); 2. ilhas de solo: áreas mais ou menos arredondadas e delimitadas pelas rochas, onde há a presença de camadas de solo arenoso com uma profundidade média de 15 cm. Há uma retenção significativa de água e presença constante de cascalho; crescem nesse microhabitat principalmente espécies herbáceas (Figura 3b); 3. rocha: ambiente formado pela camada de basalto que cobre os afloramentos. Nesses locais a rocha está praticamente intacta, não havendo sobre ela deposição de solo e nem retenção de água; ocorrem nesse ambiente principalmente bromélias, velózias e cactos (Figura 3c); 4. paredão: regiões bastante inclinadas, onde a cobertura de basalto encontra-se em avançado estado de erosão, deixando à mostra o arenito avermelhado; esse ambiente é ocupado por poucas espécies, ocorrendo principalmente representantes das famílias Bromeliaceae, Gesneriaceae e Velloziaceae (Figura 3d).

 


 

3. Análise do solo

As amostras foram retiradas das ilhas de solo que se formam a partir da meteriorização das rochas. Foram retiradas 15 amostras simples de uma profundidade de 0-10 cm cada, em cada uma das três áreas estudadas. As 15 amostras simples de cada área foram misturadas para montar três amostras compostas, uma de cada área, as quais foram enviadas ao Laboratório do Programa de Avaliação da Fertilidade do Solo do Departamento de Recursos Naturais e Proteção Ambiental da Universidade Federal de São Carlos para análises químicas. As análises físicas foram realizadas no Laboratório de Análises Ambientais da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Ribeirão Preto, através do método de peneiração em malhas.

 

Resultados e Discussão

No total, foram coletadas 157 espécies pertencentes a 118 gêneros e 48 famílias (Tabela 1). As sete famílias mais ricas em espécies, Fabaceae (14 spp.), Asteraceae e Poaceae (12 spp. cada), Rubiaceae (11 spp.), Malpighiaceae (9 spp.), Melastomataceae (8 spp.) e Apocynaceae (7 spp.), compreendem 46,2% do total de espécies levantadas. Além das espécies coletadas durante a execução deste trabalho, há o registro no Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (disponível online: http://www.jbrj.gov.br/colecoes/herbario/jabot/jabot5.htm) de duas outras espécies para a área. Estas espécies são: Rhabdadenia sp. (Apocynaceae) – Material testemunho: Mello-Silva, R., 2186 e Alibertia myrciifolia K.Schum. (Rubiaceae) – Material testemunho: Forzza, R.C., 2454. Estes registros sugerem que a área de estudo pode apresentar uma riqueza de espécies ainda maior do que a relatada durante a realização deste trabalho.

 




 

A composição florística da área mostrou-se predominantemente herbáceo-arbustiva (61%), embora com cobertura arbórea bastante destacada (19%). Esse tipo de estratificação é semelhante a de áreas de cerrado rupestre onde, embora haja o predomínio do estrato herbáceo-arbustivo, a presença de árvores é bastante significativa (Ribeiro & Walter 1998).

A grande maioria das espécies (78,3%) cresce nas frestas que se abrem entre as rochas. Essas espécies pertencem principalmente às famílias Fabaceae, Melastomataceae, Myrtaceae e Rubiaceae. Em geral, são arbustos e árvores comuns na área de cerrado adjacente. Cerca de 11,5% das espécies coletadas ocupam as ilhas de solo. Nestas, são encontradas plantas de porte herbáceo pertencentes principalmente às famílias Eriocaulaceae, Poaceae e Xyridaceae. As rochas abrigam 4,5% das espécies, sendo ocupadas principalmente por Vellozia tubiflora (A.Rich.) Kunth e Pilosocereus machrisii (E.Y.Dawson) Backeb. Os paredões comportam 2% das espécies coletadas, sendo colonizados quase que exclusivamente por Sinningia araneosa Chautems e Pitcairnia flammea Lindl.

Vellozia tubiflora se destaca na paisagem por formar um extenso tapete de vegetação, sendo a espécie com o maior número de indivíduos na área estudada (Figura 4). Essa espécie coloniza as rochas sem nenhum vestígio de solo. Esse padrão é semelhante ao que ocorre em muitas áreas de afloramentos rochosos, como citam Meirelles et al. (1999). Do mesmo modo como ocorre em outras áreas, essa espécie está confinada aos afloramentos rochosos e não se estabelece nas áreas vizinhas. Porembski & Barthlott (2000) citam que a família Velloziaceae tem representantes característicos em afloramentos rochosos que ocorrem na África, na Bolívia, na Venezuela e no Brasil, representando uma ligação biogeográfica entre essas regiões.

 

 

Representantes das famílias Bromeliaceae, Cactaceae e Orchidaceae também mostram grande habilidade em colonizar superfícies nuas de rochas, sendo, muitos deles, importantes espécies pioneiras nos afloramentos rochosos (Meirelles et al. 1999). Outras espécies visivelmente abundantes são: Ditassa acerosa Mart., Pitcairnia flammea Lindl., Pilosocereus machrisii (E.Y.Dawson) Backeb., Cyperus congestus Vahl, Sinningia araneosa Chautems, Loudetiopsis chrysothrix (Nees) Conert, Xyris seubertii Nilsson e algumas melastomatáceas como Leandra lacunosa Cogn., Marcetia taxifolia (A.St.-Hil.) DC. e Miconia albicans (Sw.) Triana. Juntas, essas espécies somam 6% das espécies coletadas.

A área de estudo apresentou várias características edáficas similares a outras áreas de afloramentos rochosos. O solo coletado apresentou-se visivelmente arenoso e de coloração cinza. A cor acinzentada do solo dá indícios de matéria orgânica mal decomposta sobre um ambiente de oxirredução (Reatto et al. 1998). Tais indícios são comprovados pela baixa quantidade de matéria orgânica (26,67 g.dm-3) e pela grande quantidade de ferro (145 mg.dm-3) encontrada no solo da área de estudo. O resultado da análise física revelou um solo rico em areia (composto de 61% de areia fina) e pobre em silte e argila (21%). As análises químicas revelaram valores baixos para a maioria dos macros e micronutrientes (B 0,2 mg.dm-3, Cu 0,3 mg.dm-3, K 0,37 mg.dm-3, Mg 1,0 mg.dm-3 e Zn 0,6 mg.dm-3). O solo apresentou acidez muito alta (pH 4,3), moderada toxidez por alumínio (9,5 mg.dm-3) e baixa saturação por bases (10%), caracterizando um solo distrófico, conforme discutem Reatto et al. (1998).

A distribuição das espécies em microhabitats parece estar condicionada pelo grau de decomposição do substrato e pela declividade, a exemplo de outras áreas de afloramentos rochosos conforme descrevem Ibisch et al. (1995), Giulietti et al. (1997), Porembiski et al. (1998) e Parmentier (2003). Neste estudo, o microhabitat rocha pode ser comparado a "monocotyledonous mats" descrito por Porembiski et al. (1996), enquanto os microhabitats fresta e ilha de solo podem ser comparados aos microhabitats de mesmo nome descritos por Conceição & Pirani (2005).

Vários dos táxons citados por Giulietti et al. (1997) como característicos dos campos rupestres ocorrem nos afloramentos rochosos do Morro do Forno. São eles: Paepalanthus e Syngonanthus (Eriocaulaceae), Cambessedesia e Marcetia (Melastomataceae), Barbacenia e Vellozia (Velloziaceae) e Xyris (Xyridaceae). Ocorre também, a "pteridófita" Dicranopteris linearis (Burm. f.) Underw., citada por Mendonça et al. (1998) como espécie de ocorrência nos campos rupestres. Algumas espécies são citadas na literatura como espécies de ocorrência comum, embora não exclusiva, nos campos rupestres e cerrados rupestres. Dentre essas podem ser citadas: Gomphrena prostrata Desf., Schefflera vinosa (Cham. & Schltdl.) Frodin & Fiaschi, Ditassa acerosa Mart., Ditassa retusa Mart., Hemipogon luteus E. Fourn., Distictella elongata (Vahl) Urb., Davilla rugosa Poir., Paepalanthus polyanthus (Bong.) Kunth, Paepalanthus tortilis (Bong.) Koern., Syngonanthus gracilis (Bong.) Ruhland, Syngonanthus nivius (Bong.) Ruhland, Periandra mediterranea (Vell.) Taub., Stryphnodendron rotundifolium Mart., Banisteriopsis stellaris (Griseb.) B. Gates, Cambessedesia hilariana (Kunth) DC., Leandra lacunosa Cogn., Marcetia taxifolia (A.St.-Hil.) DC., Loudetiopsis chrysothrix (Nees) Conert, Xyris asperula Mart., Xyris savanensis Miq. e Xyris sebertii Nilsson.

Muitas das espécies coletadas apresentam ampla distribuição geográfica, ocupando vários tipos de ambientes de mata e cerrado. Dentro dessa abordagem, merecem destaque: Tapirira guianensis Aubl., Epiphyllum phyllanthus (L.) Haw., Hirtella gracilipes (Hook f.) Prance, Pera glabrata (Schott) Poepp. ex Baill., Siparuna guianensis Aubl., Eragrostis maypurensis Kunth Steud, Sporobolus indicus (L.) R. Br., muitas delas com ocorrência desde a América Central até vários países da América do Sul (Pirani 1987, Cordeiro 1992, Boechat et al. 2001, Longhi-Wagner 2001, Peixoto 2002, Assis 2003, Zappi & Taylor 2003). Em contrapartida, Sinnigia araneosa Chautems é de distribuição restrita aos afloramentos de arenito do estado de São Paulo (Chautems & Matusoka 2003). A família Melastomataceae pode ser tomada como um exemplo para ilustrar a distribuição geográfica das espécies que ocorrem sobre os afloramentos rochosos do Morro do Forno. Romero & Martins (2002) relatam que a flora de Melastomataceae pode ser dividida em dois grupos, sendo o primeiro formado pelos gêneros Cambessedesia, Chaetostoma, Lavoisiera, Marcetia, Microlicia, Trembleya e Svitramia, que concentra o maior número de espécies com distribuição restrita e muitas como componente das floras dos campos rupestres e o segundo formado por Leandra, Miconia, Ossaea e Tibouchina, cujas espécies apresentam ampla distribuição, sendo mais comuns em áreas de cerrado e florestas. No Morro do Forno foram encontrados representantes dos dois grupos, espécies de Cambessedesia e Marcetia (primeiro grupo), e de Leandra, Miconia e Tibouchina (segundo grupo), demonstrando que no Morro do Forno há tanto elementos típicos de afloramentos rochosos (distribuição restrita), quanto de ocorrência em várias fisionomias vegetacionais (distribuição ampla).

Algumas espécies coletadas constam na Lista Oficial das Espécies da Flora do Estado de São Paulo Ameaçadas de Extinção (Resolução SMA 48-2004). Andira vermifuga Mart. ex Benth., Portulaca striata Poelln. e Sinningia araneosa Chautems são consideradas espécies vulneráveis, enquanto Pilosocereus machrisii (E.Y.Dawson) Backeb. é considerada em perigo de extinção.

Troppmair & Tavares (1985) consideram o Morro do Forno como testemunho do paleoclima mais frio e seco que ocorreu no passado. A flora que ocupa os afloramentos rochosos do Morro do Forno seria, na verdade, o resultado de sucessivas expansões e retrações da vegetação xérica da América do Sul causadas por ciclos paleoclimáticos durante os últimos 36.000 anos, reforçando a importância de estudos na área.

Devido as suas peculiaridades ecológicas, distribuição disjunta formando ilhas continentais, alta diversidade e endemismos, os afloramentos rochosos constituem excelentes fontes de estudos ecológicos, evolutivos, biogeográficos e, em especial, estudos comparativos de diversidade florística. Soma-se, ainda, o fato de que, devido à baixa utilidade dessas áreas para a agricultura e urbanização, os afloramentos rochosos formam o último refúgio de floras altamente ameaçadas, tais como o Cerrado e a Mata Atlântica. Sendo assim, estudos da vegetação dos afloramentos rochosos em áreas como o Morro do Forno são de grande relevância científica e importantes na manutenção e na preservação de muitas espécies vegetais.

 

Agradecimentos

Agradecemos à CAPES pela bolsa concedida à primeira autora e aos especialistas que contribuíram na identificação das espécies de Asteraceae, Prof. Dr. Jimi Naoki Nakajima; Melastomataceae, Profa. Dra. Rosana Romero, Bromeliaceae e Xyridaceae, Profa. Dra. Maria das Graças Lapa Wanderley; Malpighiaceae, Profa. Dra. Maria Candida Henrique Mamede e Rubiaceae, Profa. Dra. Sigrid Luiza Jung Mendaçolli.

 

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Recebido em 17/08/06
Versão reformulada recebida em 08/02/07
Publicado em 01/05/07

 

 

ISSN 1676-0603.
1 Autor para correspondência: Silvana Aparecida Pires de Godoy, e-mail: sapgodoy@usp.br, http://www.uspleste.usp.br

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