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Biota Neotropica

On-line version ISSN 1676-0611

Biota Neotrop. vol.7 no.3 Campinas  2007

https://doi.org/10.1590/S1676-06032007000300033 

INVENTÁRIOS

 

Arctiidae (Insecta: Lepidoptera) da Estação Biológica de Boracéia (Salesópolis, São Paulo, Brasil)

 

Arctiidae (Insecta: Lepidoptera) of the Boracéia Biological Station (Salesópolis, São Paulo, Brazil)

 

 

Viviane Gianluppi FerroI, 1; Ivone Rezende DinizII

IPrograma de Pós-Graduação em Ecologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade de Brasília – UnB, CP 04457, CEP 70919-970, Brasília, DF, Brasil
IIDepartamento de Zoologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade de Brasília – UnB, CEP 70910-900, Brasília, DF, Brasil, e-mail: irdiniz@unb.br

 

 


RESUMO

Uma lista das espécies de mariposas Arctiidae com registro de ocorrência para a Estação Biológica de Boracéia (EBB) é apresentada. Esta listagem foi obtida através da observação de material depositado em quatro coleções científicas brasileiras. Um total de 237 espécies foi registrado. A EBB está entre as localidades mais ricas em espécies de Arctiidae do Brasil.

Palavras-chave: Estação Biológica de Boracéia, lista de espécies, mariposas, riqueza de espécies.


ABSTRACT

A checklist of the Arctiidae moth species with occurrence in the Boracéia Biological Station (EBB) is presented. The list was obtained from specimens deposited in four Brazilian scientific collections. A total of 237 arctiid species were recorded. The EBB is among the species-richest locations recorded in Brazil.

Keywords: Boracéia Biological Station, checklist, moths, species richness.


 

 

Introdução

A Estação Biológica de Boracéia (EBB), com área de aproximadamente 96 ha, está localizada a 110 km da cidade de São Paulo, no município de Salesópolis (23° 37' 59'' S e 45° 31' 59" W). A EBB encontra-se inserida em uma reserva de 16.450 ha (Adutora do Rio Claro, SABESP), criada para proteger as bacias dos rios Claro e Guaratuba. Localiza-se em uma área de Mata Atlântica, bioma brasileiro considerado um "hotspot" mundial por apresentar mais de 70% da sua cobertura vegetal original destruída e com altas porcentagens de espécies endêmicas (Myers et al. 2000).

A EBB sempre atraiu, mesmo antes de sua implementação, a atenção de inúmeros pesquisadores, tanto da área zoológica quanto da botânica. Um histórico das atividades ali realizadas, até o ano de 1957, pode ser encontrado em Travassos-Filho & Camargo (1958). Os autores enfocam as coletas noturnas de insetos, especialmente de Diptera e Lepidoptera. Dentre os Lepidoptera, as mariposas Arctiidae foram intensamente coletadas por um dos principais pesquisadores do grupo no Brasil, Lauro Travassos Filho, pesquisador do Museu de Zoologia da USP.

A família Arctiidae compreende cerca de 11 mil espécies de mariposas de tamanho pequeno a médio, sendo distribuída por todo o mundo (Scoble 1995). Ocorrem cerca de seis mil espécies na Região Neotropical (Heppner 1991) e há uma estimativa de duas mil espécies para o Brasil (Brown Jr & Freitas 1999). Segundo Jacobson & Weller (2002), essas mariposas estão divididas em três subfamílias: Arctiinae, Lithosiinae e Syntominae, sendo que a última não ocorre nas Américas. Este trabalho tem como objetivo apresentar uma lista das espécies de mariposas Arctiidae com registro de ocorrência para a EBB, gerada a partir da compilação de aproximadamente 4.800 indivíduos depositados em coleções científicas do Brasil e coletados por vários pesquisadores desde a década de 1930.

 

Material e Métodos

A lista das espécies de Arctiidae da EBB foi obtida através da observação de todos os exemplares da família depositados em quatro coleções científicas brasileiras: Coleção Entomológica Padre Jesus Santiago Moure da Universidade Federal do Paraná (UFPC), Fundação Instituto Oswaldo Cruz (FIOC), Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MNRJ) e Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP). A identificação das espécies foi feita através da comparação dos espécimes com registros fotográficos dos exemplares da Coleção Becker (cujos exemplares foram comparados com os tipos).

 

Resultados e Discussão

Nas quatro coleções visitadas, foi registrado um total de 4.465 indivíduos de Arctiidae identificados, pertencentes a 117 gêneros e a 237 espécies. A lista das espécies identificadas encontra-se na Tabela 1. Outros 324 indivíduos de 19 morfoespécies que apresentaram registro de ocorrência para a EBB não foram identificados. A riqueza de espécies encontrada na EBB representa 17,1% da fauna de Arctiidae registrada para o país (V.G. Ferro, dados não publicados), 24,7% da fauna registrada para a Mata Atlântica (V.G. Ferro, dados não publicados) e 4% das espécies dos neotrópicos (Heppner 1991). Além disso, a riqueza de Arctiidae da EBB está entre as maiores já encontradas em um único sítio de coleta brasileiro. Apenas as localidades de Itatiaia (RJ) (Zikán & Zikán, 1968), Petrópolis (RJ), Angra dos Reis (RJ) e Joinville (SC) (V.G. Ferro, dados não publicados) apresentaram riquezas de Arctiidae superiores à registrada na EBB (306, 305, 304, e 262, respectivamente). Riqueza semelhante de Arctiidae (287 espécies) foi obtida por Hilt & Fiedler (2006), em uma mata úmida do Equador. Uma única espécie, Phaegoptera fusca Travassos, 1955, apresentou registro de ocorrência apenas para a EBB, sendo considerada endêmica desta unidade de conservação. Cerca de 50% (n = 118) das espécies que ocorreram na EBB também estiveram presentes em Itatiaia, sítio geograficamente próximo e também intensamente coletado (durante 36 anos) (Zikán & Zikán, 1968).

Praticamente todas as espécies (99,6%) coletadas na EBB pertenceram à subfamília Arctiinae (Tabela 1). Seis tribos de Arctiinae (Arctiini, Callimorphini, Ctenuchini, Euchromiini, Pericopini e Phaegopterini) e uma de Lithosiinae (Lithosiini) ocorreram na EBB. Uma das explicações para esse resultado é que três dos principais pesquisadores que coletaram Arctiidae na EBB (Lauro Travassos, Lauro Travassos Filho e Alfredo R. do Rego Barros), tinham como objeto de estudo as espécies de Arctiinae. Cerca de 80% dos gêneros foram representados por menos de três espécies. Os gêneros com maior número de espécies foram Cosmosoma Hübner, 1827 (com 13 espécies), Phaegoptera Herrich-Schäffer, 1855 (com 12) e Eucereon Hübner, 1826 (com 11) (Tabela 1).

O esforço amostral total dos coletores na EBB foi de 410 noites e as coletas abrangeram todos os meses do ano. O primeiro registro de coleta na EBB, de acordo com os exemplares examinados nas coleções, ocorreu em setembro de 1930 e o último em julho de 2002. As coletas foram mais intensas nas décadas de 1940 e 1960, totalizando 188 e 114 noites de coleta, respectivamente. Apenas uma coleta foi realizada depois de 1984, em 2002. Vários pesquisadores coletaram mariposas Arctiidae na EBB: Lauro Travassos, Lauro Travassos Filho, Ernesto Rabello, Henry Pearson, Paulo Vanzolini, Augusto Santos, Mário Ventel, Romualdo D'Almeida, Mauro Barreto, Benedito Soares, Arnaldo Macedo, Carlos Gaeta, Clemente Pereira, Messias Carrera, José Oiticica, John Lane, Donias Braz, Eduardo Navajas, Werner Bockermann, Hélio Camargo, Emílio Dente, Moysés Kuhlmann, Milton Peña, Lindolfo Guimarães, John Hood, Ludwig Buckup, entre outros (ordem de citação em função da contribuição de coletas), contribuindo com o conhecimento dos arctiídeos da EBB e com o aumento da coleção de Lepidoptera do Museu de Zoologia da USP. Várias espécies novas de Arctiidae foram descritas a partir de exemplares coletados na EBB (Travassos 1949, 1950, 1955; Rego Barros, 1974). Ademais, existe ainda a possibilidade de algumas das 19 morfoespécies não identificadas nas coleções serem espécies ainda não descritas. A alta biodiversidade, os endemismos e o grande número de espécies novas de Arctiidae reforçam a importância de se preservar a EBB e a área do seu entorno. Futuramente, seria interessante investigar, por exemplo, se as outras famílias de lepidópteros noturnos também apresentam alta riqueza na EBB, quando comparada a outros locais de área preservada.

 

Agradecimentos

Ao Dr. Vitor O. Becker pelo empréstimo de bibliografia, pelo acesso à sua coleção, pela permissão do registro fotográfico e pelo auxílio nas identificações das espécies de Arctiidae. Aos responsáveis pelas coleções visitadas, Dr. Olaf Mielke (UFPC), Dr. Marcelo Duarte (MZUSP), Dra. Jane Costa (FIOC) e Alexandre Soares (MNRJ) por permitir o acesso às coleções, pelo apoio logístico e pela atenção dispensada. A dois revisores anônimos pela leitura crítica do manuscrito. À CAPES e ao CNPq (141715/2005-7; 303992/2004-2; 472211/2003-0) pelo financiamento deste trabalho.

 

Referências Bibliográficas

BROWN JR, K.S. & FREITAS, A.V.L. 1999. Lepidoptera. In Biodiversidade do Estado de São Paulo: síntese do conhecimento ao final do século XX. Volume 5. Invertebrados terrestres (C.R.F. Brandão & Cancello E.M., eds.). Fapesp, São Paulo, p. 225-243.        [ Links ]

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Recebido em 20/06/07
Versão reformulada recebida em 13/09/07
Publicado em 16/10/07

 

 

ISSN 1676-0603.
1 Autor para correspondência: Viviane Gianluppi Ferro, e-mail: vgferro@yahoo.com

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