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Biota Neotropica

Print version ISSN 1806-129XOn-line version ISSN 1676-0611

Biota Neotrop. vol.7 no.3 Campinas  2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1676-06032007000300036 

SHORT COMMUNICATIONS

 

Notas sobre a ocorrência de Tityus serrulatus Lutz & Mello, 1922 (Scorpiones, Buthidae) no oeste do Rio Grande do Sul, Brasil

 

Notes on the occurrence of Tityus serrulatus Lutz & Mello, 1922 (Scorpiones, Buthidae) in the Western areas of Rio Grande do Sul, Brazil

 

 

Luis Roberval BortoluzziI, 1; Marcus Vinícius Morini QuerolII; Enrique QuerolI

IMuseu de Ciências Naturais, Curso de Ciências Biológicas, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, Campus Uruguaiana, Rodovia BR 472, Km 7, CEP 97500-970, Uruguaiana, RS, Brasil
IIUniversidade Federal Do Pampa – UNIPAMPA ITAQUI, Rua Euclides Aranha, nº 1288, Bairro Centro, CEP 97650-000, Itaqui, RS, Brasil

 

 

 


RESUMO

O escorpião amarelo Tityus serrulatus é registrado pela primeira vez para oeste do Rio Grande do Sul. Foram coletados dois espécimes no município de Uruguaiana (29° 45' 23'' S e 57° 05' 37'' W) em junho de 2006. A ocorrência dos espécimes de T. serrulatus no Rio Grande Sul representa um aumento de 2.127 km em sua área de distribuição conhecida.

Palavras-chave: Tityus serrulatus, escorpião amarelo, distribuição, Rio Grande do Sul.


ABSTRACT

The yellow scorpion Tityus serrulatus is recorded for the first time for the western Rio Grande do Sul State, Brazil. Two specimens were collected in the municipality of Uruguaiana (29° 45' 23'' S and 57° 05' 37'' W) in june 2006. The occurrence of specimens of T. serrulatus in Rio Grande do Sul represents an increase of 2127km in relation to his known distribution area.

Keywords: Tityus serrulatus, yellow scorpion, distribution, Rio Grande do Sul.


 

 

Introdução

Os escorpiões existem comprovadamente há mais de 400 milhões de anos (fósseis do Carbonífero), sendo, portanto, considerados os aracnídeos mais antigos que se conhece (Cruz, 1994). Embora represente um grupo bastante homogêneo quanto às suas características morfológicas, a ordem Scorpiones pode ser considerada razoavelmente diversa, apresentando 1500 espécies conhecidas, distribuídas em 14 famílias e 163 gêneros (Fet et al. 1998, Soleglad & Fet 2003).

Conforme Soleglad & Fet (2003) a ordem Scorpiones apresenta ampla distribuição geográfica, estando representada em todos os continentes, com exceção da Antártida. No Brasil, a escorpiofauna é representada por cinco famílias, Liochelidae, Euscorpiidae, Chactidae, Bothriuridae e Buthidae, abrangendo 17 gêneros e 86 espécies consideradas atualmente válidas (Lourenço & Eickstedt 2003).

O gênero Tityus Koch, 1836, inclui o maior número de espécies descritas da ordem Scorpiones (Fet et al. 2000); apresenta uma ampla distribuição geográfica na América do Sul e, também no Brasil, é o gênero mais especioso, estando representado por 35 espécies (Lourenço 2002).

No Rio Grande do Sul a escorpiofauna é representada por um reduzido número de espécies.

Do gênero Tityus estão registradas três espécies, o escorpião marrom T. bahiensis (Funasa 2001, Cupo et al. 1994a); o escorpião manchado T. costatus, (Lourenço & Eickstedt 1988) e T. serrulatus com um registro para a região metropolitana de Porto Alegre.

O escorpião amarelo, T. serrulatus é considerado a espécie mais perigosa da América do Sul (Bucaretchi et al. 1994; Cupo et al. 1994b; Eickstedt et al. 1994; Freire-Maia et al. 1994). Esta espécie é endêmica do Brasil com uma área de distribuição conhecida para os estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Distrito Federal e Goiás, (Fundacentro 2001).

Este trabalho tem por objetivo registrar a ocorrência de T. serrulatus para a região oeste do Rio Grande do Sul.

 

Material e Métodos

Dois exemplares de T. serrulatus (Figura 1) foram coletados em junho de 2006, no município Uruguaiana localizado a 29° 45' 23''S e 57° 05' 37''W, no oeste do Estado do Rio Grande do Sul (Figura 2), área de fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai.

 

 

 

 

Este município é caracterizado por apresentar uma vegetação do tipo estepe (planalto da campanha), ocorrendo áreas com solos pedrosos; relevo de morfologia plana, sub-horizontalizada; altitude média de 74 m acima do nível do mar, (Brasil 1986). A região apresenta um clima temperado úmido, com temperaturas médias mensais que variam de 23 a 27 °C, no período de calor, e de 14 a 15 °C, no período frio (Brasil 1973).

Os espécimes foram capturados nas instalações de uma empresa transportadora, localizada próximo à periferia da cidade.

Os animais foram fixados com formol a 10% e conservados em álcool 70%, medidos com um paquímetro e observados em lupa, para a identificação taxonômica. Os exemplares foram tombados na coleção científica do Museu de Ciências Naturais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Campus Uruguaiana sob número de registro: MCN-PUC 77-22-14.

 

Resultados e Discussão

Um dos espécimes mediu 68,0 mm e o outro 72,0 mm, ambos apresentam colorido amarelo-claro nas pernas, pedipalpos (com dedo fino e granulações no dedo móvel) e cauda. O tronco, dedos e parte final do último segmento da cauda são escuros, serrilha de com 5 dentes no quarto segmento da cauda e presença de espinho subaculear no telson. Conforme Lourenço (2002) as medidas são características de indivíduos adultos.

De acordo com Lourenço & Cuellar (1995); Soerensen (1996), T. serrulatus está distribuído para as regiões nordeste, centro-oeste e sudeste do Brasil. O registro de T. serrulatus para Uruguaiana, região da campanha (RS), corrobora com dados da Funasa (2001), que reporta o grande aumento da dispersão da espécie em relação aos registros anteriores no Brasil.

Conforme Lourenço & Cloudsley-Thompson, (1999) a espécie é típica de ambientes de mata de transição, florestas secas, cerrados e caatinga. Atualmente, tem sido encontrada em diversos tipos de ambientes incluindo áreas urbanizadas (Soares et al. 2002); T. serrulatus quando encontra condições adequadas possui grande adaptação devido ao fato de apresentar características oportunísticas e ser a única espécie do gênero que se reproduz por partenogênese (Matthiensen 1971, Candido 1999).

A introdução da espécie nos estados de Rondônia e Paraná é relatada por Lourenço & Eickstead (2003).

Para o Rio Grande do Sul, Torrez et al. (2002), relata um acidente em Porto Alegre ocorrido em um supermercado pela manipulação de produtos hortifrutigranjeiros provenientes de outros estados do Brasil.

O registro da espécie para o oeste do Rio Grande do Sul pode ter ocorrido devido à ação da própria transportadora, uma vez que a mesma atua em vários estados do país. Neste contexto, a dispersão de espécies sinantrópicas vem sendo facilitada pelas atividades antrópicas com o aumento da malha viária do país e o grande fluxo por esta via, o que contribui com ampliação da distribuição original da espécie.

 

Agradecimentos

Agradecemos á Dra. Twiggy Cristina Alves Batista da Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins, Vigilância Epidemiológica – Programa Contra Acidentes com Animais Peçonhentos, pelo apoio prestado a fins de identificação taxonômica. E ao Laboratório de Biologia da Pucrs Uruguaiana pela disponibilidade do equipamento para registro fotográfico.

 

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Recebido em 16/01/07
Versão reformulada recebida em 05/07/07
Publicado em 01/09/07

 

 

ISSN 1676-0603.
1 Autor para correspondência:/Luis Roberval Bortoluzzi, e-mail: lbortoluzzi@gmail.com

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