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Biota Neotropica

Print version ISSN 1806-129XOn-line version ISSN 1676-0611

Biota Neotrop. vol.8 no.1 Campinas Jan./Mar. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1676-06032008000100028 

SHORT COMMUNICATIONS

 

Nota sobre a ocorrência de pétalas reduzidas em espécies de Polygala L. subgênero Hebeclada (Chodat) Blake (Polygalaceae) da Região Sul do Brasil

 

A note about the occurrence of reduced petals in species of Polygala L. subgenus Hebeclada (Chodat) Blake (Polygalaceae) from southern Brazil

 

 

Raquel LüdtkeI, 1; Ana Cristina Andrade de AguiarII

IPrograma de Pós-Graduação em Botânica, Campus do Vale, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Av. Bento Gonçalves, 9500, Bloco IV, Prédio 43433, Bairro Agronomia, CEP 91501-970, Porto Alegre, RS, Brasil
IIPrograma de Pós-Graduação em Biologia Vegetal, Departamento de Botânica, Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, CP 6109, CEP 13083-970, Campinas, SP, Brasil, www.unicamp.br

 

 


RESUMO

O número de pétalas é um dos caracteres taxonômicos utilizados na circunscrição dos subgêneros de Polygala. Até o momento, a corola das espécies do subgênero Hebeclada era descrita apresentando apenas três pétalas, uma inferior e central, denominada carena e duas laterais superiores aderidas à bainha estaminal. Dentre os 12 subgêneros de Polygala, a ocorrência de corola trímera era registrada apenas nos subgêneros Polygala e Hebeclada. O presente trabalho trata da ocorrência inédita de corola pentâmera em espécies de Polygala do subgênero Hebeclada, apresentando fotografias e comentários adicionais sobre estas pétalas reduzidas, não referidas para o subgênero até o momento.

Palavras-chave: corola, Polygala, subgênero Hebeclada, Polygalaceae, região sul.


ABSTRACT

The number of petals in the flowers is a taxonomic character used in the circumscription of the subgenera of Polygala. Until now, the corolla of the species of subgenus Hebeclada was described having tree petals, one inferior and central called carina and two lateral adnated to the staminal sheath. Among the 12 subgenera of Polygala, the occurrence of trimerous corolla was only known in subgenera Polygala and Hebeclada. This paper presents the discovery of pentamerous corolla in species of Polygala subgenus Hebeclada, presenting photos and additional comments about this reduced petals unknown for the subgenus until this moment.

Keywords: corolla, Polygala, subgenus Hebeclada, Polygalaceae, southern Brazil.


 

 

Introdução

A família Polygalaceae Hoffmanns. & Link compreende 19 gêneros com aproximadamente 1300 espécies amplamente distribuídas no globo, sendo encontradas preferencialmente em regiões tropicais e temperadas, com exceção da Nova Zelândia e das zonas ártica e antártica (Paiva 1998, Eriksen et al. 2000, Persson 2001, Eriksen & Persson 2007, Marques & Peixoto 2007).

Polygala L. é um gênero cosmopolita e compreende o maior número de espécies da família, cerca de 725, das quais 400 são neotropicais, 211 africanas, 22 européias, 70 asiáticas, 12 australianas e 1-2 introduzidas na Polinésia e na Groelândia (Paiva 1998).

Dos 12 subgêneros de Polygala reconhecidos por Paiva (l.c.), cinco ocorrem no Brasil: Acanthocladus (Klotzsch ex Hassk.) Paiva, Gymnospora (Chodat) Paiva, Hebeclada (Chodat) Blake, Ligustrina (Chodat) Paiva e Polygala (Marques & Peixoto 2007).

O gênero Polygala bem como os subgêneros que ocorrem no território brasileiro já foram alvo de muitos estudos taxonômicos (Marques 1979, 1984, 1988, Lüdtke & Miotto 2004, Aguiar 2005, dados não publicados, Marques & Peixoto 2007) salientando a importância do conhecimento taxonômico do grupo como base para os diversos trabalhos que vem sendo realizados com biologia floral, fitoquímica, palinotaxonomia, sistemática molecular e citogenética dentro da família Polygalaceae nas últimas décadas.

A morfologia floral é de suma importância na taxonomia de Polygalaceae, em especial os caracteres florais que são utilizados na delimitação dos subgêneros de Polygala tradicionalmente adotada pelos especialistas na família (Chodat 1891, Blake 1916, Paiva 1998, Marques & Peixoto 2007). São vários os caracteres florais utilizados para delimitar os 12 subgêneros, tanto de presença e ausência, quanto forma, número e tamanho das peças florais. Além disso, o tipo e forma dos apêndices da semente são relevantes para a classificação infragenérica de Polygala (Paiva 1998).

O número de peças da corola é um dos caracteres levados em consideração para a delimitação dos subgêneros de Polygala. Até o momento os especialistas em Polygalaceae sempre concordaram que, dos 12 subgêneros de Polygala sensu Paiva (1998), apenas Hebeclada e Polygala apresentavam corola trímera, constituída por uma pétala central e inferior denominada carena e duas pétalas superiores lateralmente aderidas à bainha estaminal, ao contrário dos demais subgêneros que além destas três peças apresentam duas pétalas laterais rudimentares aderidas à bainha estaminal. Entretanto, observações realizadas ao longo da revisão taxonômica da família Polygalaceae para a Região Sul do Brasil, trouxeram novos dados sobre a morfologia floral de Polygala subgênero Hebeclada.

 

Materiais e Métodos

Foram analisadas as flores de dez exemplares, quando possível, das seis espécies de Polygala subgênero Hebeclada ocorrentes na Região Sul do Brasil, P. extraaxillaris Chod., P. fimbriata A. W. Benn., P. hebeclada DC., P. hirsuta A. St.-Hil. & Moq., P. rhodoptera Mart. e P. violacea Aubl. emend. Marques.

As fotografias foram feitas com auxílio de câmera digital acoplada ao microscópio estereoscópico Meiji Techno RZ.

 

Resultados e Discussão

No gênero Polygala as flores são perfeitas, zigomorfas e, basicamente, pentâmeras. Cálice persistente no fruto constituído por cinco sépalas dispostas em duas séries, uma externa, formada por três sépalas e uma série interna com duas sépalas petalóides (alas). Corola dialipétala, com uma pétala central e inferior denominada carena (quilha), aderida pelo seu ungüículo ao dorso da bainha estaminal, duas pétalas laterais superiores desenvolvidas, aderidas unilateralmente à bainha estaminal e, às vezes, duas pétalas laterais rudimentares, quase imperceptíveis, também aderidas ao dorso da bainha estaminal.

Segundo os especialistas em Polygalaceae (Paiva 1998, Aguiar 2005, dados não publicados; Marques & Peixoto 2007) dos cinco subgêneros de Polygala que ocorrem na flora brasileira, flores com corola pentâmera são encontradas em Acanthocladus, Gymnospora e Ligustrina. Os subgêneros Hebeclada e Polygala, até o momento, eram descritos como tendo corola trímera, onde as pétalas laterais rudimentares estavam ausentes. Para Paiva (1998), a presença de corola trímera dentro do gênero Polygala é uma característica de grupos mais derivados.

Contudo, todos os exemplares da Região Sul do Brasil de Polygala extraaxillaris, P. fimbriata, P. hebeclada, P. hirsuta, P. rhodoptera e P. violacea analisados, apresentam flores com corola pentâmera. Estas pétalas laterais rudimentares são lineares, 1-2 mm de comprimento, membranáceas, glabras, aderidas à porção inferior do dorso da bainha estaminal, localizadas entre a carena e as pétalas laterais superiores (Figura 1a).

 

 

No material analisado de P. violacea, as pétalas laterais rudimentares são praticamente imperceptíveis e transparentes, apresentando cerca de 0,8 mm de comprimento, o que impossibilitou o registro fotográfico destas estruturas.

Em Polygala extraaxillaris (Figura 1b) as pétalas laterais rudimentares são muito estreitas (0,2 mm largura), com mais da metade do seu comprimento aderido à bainha estaminal.

As pétalas mais conspícuas foram encontradas em P. fimbriata (Figura 1d), P. hebeclada (Figura 1c) e P. rhodoptera (Figura 1e), com cerca de 1-2 mm x 0,3-0,5 mm.

A descoberta destas pétalas laterais rudimentares não invalida a classificação infragenérica existente de Polygala, uma vez que outros caracteres florais relevantes são considerados nesta divisão, como o tamanho das peças florais, persistência do cálice na frutificação, união das sépalas externas, presença ou ausência de tricomas glandulares nas estruturas florais, carena cristada ou não, consistência da cápsula, presença ou ausência de carúncula na semente, presença ou ausência de disco na base do ovário. Por outro lado, não se descarta a necessidade de estudos morfológicos mais acurados com o propósito de testar e confirmar a circunscrição infragenérica do gênero Polygala.

Diante destes dados, dos subgêneros ocorrentes no território brasileiro, apenas o subgênero Polygala permanece caracterizado como tendo corola trímera.

 

Material Examinado

Polygala extraaxillaris Chod. BRASIL. PARANÁ: Capão Bonito, 27 mar. 1915, P. Dusén 16879 (GH). Guarapuava, PR 460, 25° 14’ 59.9" S e 51° 32’ 19.1" W, 20 dez. 2006, R. Lüdtke 689 (ICN). Ponta Grossa, próximo ao Parque Estadual de Vila Velha, 07 out. 1976, L. T. Dombrowski 6411 (MBM). RIO GRANDE DO SUL: Coronel Bicaco, BR 468, Km 28, 04 nov. 2003, R. Lüdtke 201 (ICN). Rosário do Sul, BR 290, Km 502, 29 dez. 2004, R. Lüdtke 382 (ICN). Viamão, Parque Estadual de Itapuã, na trilha para o Morro da Grota, 30° 21’ 53.0" S e 51° 01’ 22.4" W, 20 nov. 2006, R. Lüdtke 654 (ICN). SANTA CATARINA: Abelardo Luz, 26° 31’ 35.8" S e 52° 16’ 31.4" W, 18 dez. 2006, R. Lüdtke 679 (ICN). Capão Alto, BR 116, Km 291, 28° 06’ 34.0" S e 50° 37’ 13.4" W, 21 dez. 2006, R. Lüdtke 690 (ICN). Curitibanos, BR 470, Km 258, para Campos Novos, 27°18’ 29.9" S e 50° 38’ 41.5" W, 14 dez. 2004, R. Lüdtke 328 (ICN). São Joaquim, Km 45,5 da rodovia Lages - São Joaquim, 20 out. 2004, R. Lüdtke 265 (ICN).

Polygala fimbriata A. W. Benn. BRASIL. PARANÁ: Arapoti, Fazenda Barra Mansa, 23 jan. 1990, J. Mattos 1799 (MBM). Cianorte, na estrada de Araruna para Cianorte, 23° 50’ 08.9" S e 52° 36’ 39.7" W, 19 dez. 2006, R. Lüdtke 684 (ICN). Jaguariaíva, 05 nov. 1910, P. Dusén 10363 (BM, S), 10 maio 1914, G. Jönsson 296a (S), 24 nov. 1914, P. Dusén 15926 (F, GH, NY, S), Rio Jaguariaíva, 19 dez. 1974, R. Kummrow 781 (MBM). Ibaiti, BR 159, Pico Laranjinha, 12 jan. 2000, G. Hatschbach et al. 69909 (MBM). Ortigueira, Estação da Copel-Basílio, 15 nov. 1998, J. A. Ferreira & O. C. Pavão s.n. (FUEL 30088, UEC 131531). Telêmaco Borba, Reserva Biológica S. Klabin, 07 out. 1986, G. Hatschbach 50613 (MBM). Terra Boa, Rio Ligeiro, 18 maio 1969, G. Hatschbach 21515 (MBM, RB).

Polygala hebeclada DC. BRASIL. PARANÁ: Campo Mourão, próximo do aeroporto, 17 jun. 1992, G. Hatschbach & L. Noblick 57063 (MBM). Capão Bonito, 27 mar. 1915, P. Dusén 16879 (F, S). Carambeí, PR 151, Km 298, 24° 52’ 40.1" S e 50° 02’ 37.7" W, 23 fev. 2006, R. Lüdtke 539 (ICN). Itaperussú, 18 nov. 1908, P. Dusén 7119 (S). Lapa, BR 427, 25° 47’ 48.1" S e 49° 43’ 43.3" W, 22 fev. 2006, R. Lüdtke 528 (ICN). Mangueirinha, PR 449, 26° 20’ 06.3" S e 52° 07’ 01.6" W, 18 dez. 2006, R. Lüdtke 681 (ICN). Ponta Grossa, entrada do Parque de Vila Velha, 25° 14’ 45.0" S e 50° 01’17.5" W, 11 jan. 2007, R. Lüdtke 746 (ICN). Ventania, Morro do Chapéu, 08 jun. 2005, D. A. Estevan et al. 739 (FUEL, ICN). SANTA CATARINA: Lages, Morro do Pinheiro Seco, 17 dez. 1962, R. Reitz & R. Klein 13975 (HBR), junto à cidade, 18 fev. 1958, J. Mattos 5905 (HAS).

Polygala hirsuta A. St.-Hil. & Moq. BRASIL. PARANÁ: Arapoti, Fazenda do Tigre, 28 nov. 1959, G. Hatschbach 6557 (MBM). Jaguariaíva, 09 out. 1911, P. Dusén 13137 (S), 27 nov. 1914, P. Dusen 15917 (S), Rio Cilada, 17 nov. 1970, G. Hatschbach & O. Guimarães 25441(MBM). Tibagi, Fazenda Ingrata, 31 jan. 1959, G. Hatschbach 5469 (MBM).

Polygala rhodoptera Mart. BRASIL. PARANÁ: Guaíra, Parque Nacional das Sete Quedas, 09 jul. 1950, L. Camargo s.n. (MBM 244875), 06 set. 1961, G. Hatschbach 7506 (MBM), 22 abr. 1968, G. Hatschbach & O. Guimarães 19093(MBM), 24 mar. 1977, G. Hatschbach 39834 (MBM).

Polygala violacea Aubl. emend. Marques. BRASIL. PARANÁ: Jundiaí do Sul, Mata do Cruzeiro, 03 jan. 2003, J. Carneiro 1399 (MBM), Fazenda Monte Verde, 05 jan. 2006, J Carneiro 1606 (MBM).

 

Agradecimentos

As autoras agradecem aos curadores dos herbários pelo empréstimo do material botânico. Ao Rafael Trevisan pelo auxílio na confecção da prancha. A Silvia Miotto e Angelo Schneider pela leitura crítica do artigo. A primeira e segunda autoras agradecem respectivamente, a CAPES e à FAPESP (04/09728-8) pelas bolsas concedidas.

 

Referências Bibliográficas

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Recebido em 06/09/07
Versão Reformulada recebida em 09/02/08
Publicado em 16/03/08

 

 

1 Autor para correspondência: Raquel Lüdtke, raquelludtke@yahoo.com.br, www.ufrgs.br

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