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Biota Neotropica

On-line version ISSN 1676-0611

Biota Neotrop. vol.11 no.2 Campinas Apr./June 2011

https://doi.org/10.1590/S1676-06032011000200028 

INVENTÁRIOS

 

A ictiofauna do Parque Estadual do Cantão, Estado do Tocantins, Brasil

 

The fish fauna of the Parque Estadual do Cantão, Araguaia River, State of Tocantins, Brazil

 

 

Efrem Ferreira*; Jansen Zuanon; Geraldo dos Santos; Sidinéia Amadio

Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática - CPBA, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, Av. André Araujo, 2936 - CP 478, CEP 69011-970, Manaus - AM, Brasil

 

 


ABSTRACT

The Parque Estadual do Cantão is a protected area in the Araguaia River. In a survey carried out during a complete hydrological cycle, 271 species of fish, belonging to 183 genera, 41 families and 12 orders were captured. Characidae was the most diverse family with 89 species (32.6% of the total), followed by Loricariidae with 23 species (8.4%) and Cichlidae with 21 species (7.7%), ten families were represented by only one species. The results showed that the PE Cantão is an area with high diversity of fish species, and that the assemblies are still well preserved, so the existence and maintenance of this Park is of high interest for the preservation of the Araguaia River fish fauna.

Keywords: biodiversity, amazon, protected area, fisheries, CPUE.


RESUMO

O Parque Estadual do Cantão é uma área protegida no rio Araguaia. Em um inventário realizado durante um ciclo hidrológico completo, foram capturadas 271 espécies de peixes, pertencentes a 183 gêneros, 41 famílias e 12 ordens. Characidae foi a família mais diversa com 89 espécies (32,6% do total), seguida por Loricariidae com 23 espécies (8,4%) e Cichlidae com 21 espécies (7,7%), dez famílias foram representadas por uma única espécie. Os resultados mostraram que o PE Cantão é uma área com alta diversidade de espécies de peixes, e que as assembleias ainda estão bem preservadas, de modo que a existência e manutenção deste Parque é de alto interesse para a preservação da fauna de peixes do rio Araguaia.

Palavras-chave: biodiversidade, amazônia, unidade de conservação, pesca, CPUE.


 

 

INTRODUÇÃO

Este estudo foi realizado para inventariar a fauna de peixes do Parque Estadual do Cantão (PE Cantão), uma área protegida criada pelo governo do Estado do Tocantins no rio Araguaia (Figura 1). O parque tem 72 km de comprimento por 12 de largura, ocupando uma área de aproximadamente 890 km2, no curso médio do rio Araguaia, próximo da fronteira com o estado do Pará, entre as coordenadas 9º 10' S e 50º 10' O. É uma importante zona de transição entre a floresta amazônica e o cerrado.

 

 

O PE Cantão forma uma grande planície aluvial, composta principalmente por areias de quartzo e sedimentos depositados pelos rios Javaés e Araguaia. A planície é formada principalmente por uma floresta pluvial, pertencente ao domínio amazônico, e tem cerca de 840 lagos, 150 km de meandros e canais naturais, assim como também por um tipo de cerrado localmente conhecido como "varjão", que é periodicamente inundado. As águas são claras como no rio Araguaia, com transparência medindo entre 0,4 e 2,0 m. O pH varia entre 5,2 e 7,9 e a condutividade elétrica entre 15,1 e 34,5 µS/cm. Durante o período de seca a maior parte dos canais secam ou são interrompidos por bancos de areia, e os lagos permanecem isolados. A área é relativamente bem preservada, com somente 8% de desmatamento, causado pelas queimadas para plantio agrícola.

Os arredores do parque são constituídos principalmente por cerrado, com predominância de savana aberta e por florestas de galeria. A vegetação, contudo, tem mudado em virtude do intensivo uso do solo, espacialmente para agricultura e pecuária de gado.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Quatro expedições de coleta foram realizadas, cobrindo os 4 períodos hidrológicos. Os peixes foram capturados com o auxílio de redes de emalhar (malhadeiras), rapichés, tarrafas e redes de cerco. Quatro lagos foram escolhidos para as amostragens durante um ano completo (Tabela 1). Além dos quatro lagos, vários outros ambientes, como praias e vegetação aquática flutuante, foram incluídos no programa de coletas.

 

 

Uma bateria de 10 malhadeiras com 10 m de comprimento, e altura ao redor de 2,5 m, com tamanho de malha variando entre 24 e 120 mm, entre nós opostos, foi usada em pescarias de 24 horas em cada um dos quatro lagos. Nas praias e vegetação flutuante foi utilizada uma rede de cerco com 15 m de comprimento, 3 m de altura e malha de 5 mm. Todos os exemplares foram capturados e amostras de cada espécie foram fixadas em formol 10% e preservadas em álcool 70%. Após a identificação estes exemplares foram depositados na Coleção de Peixes do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus, estado do Amazonas, Brasil.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram capturadas 271 espécies de peixes, pertencentes a 183 gêneros, 41 famílias e 12 ordens (Tabela 2). A proporção de espécies é similar àquela proposta por Roberts (1972) com a predominância de Ostariophysi: Characiformes (52,4%), Siluriformes (26,9%) e Gymnotiformes (5,2%), seguido por Perciformes (9,6%). As oito outras ordens foram responsáveis pelos 5,8% restantes (Tabela 3).

 

 

 

 

Characidae foi a família mais diversa com 87 espécies (32,1% do total), seguida por Loricariidae com 23 espécies (8,5%), Cichlidae com 21 espécies (7,7%), Anostomidae e Curimatidae com 14 espécies (5,2%) cada, Doradidae com 12 espécies (4,4%) e Pimelodidae com 11 espécies (4,1%). Dez famílias foram representadas por somente uma espécie.

O número de espécies capturadas nesta pesquisa (271) indica uma diversidade muito alta, comparável a outros rios na Amazônia (Tabela 4), especialmente se considerando que este é apenas um pequeno trecho do rio Araguaia, e provavelmente o número de espécies aumentará à medida que os exemplares coletados sejam objeto de estudos mais detalhados.

 

 

As malhadeiras capturaram 129 espécies pertencentes a 94 gêneros, 24 famílias e oito ordens. O total estimado de espécies pelo Jackknife (Past software 2.03), (Hammer et al. 2001) variou entre 147 e 151, de modo que coletamos de 85 a 88% das espécies de peixes presentes neste trecho de rio (Tabela 5). A tabela 6 mostra as características ecológicas desta assembleias baseadas nas capturas com malhadeiras estimadas pelo programa Past 2.03 (Hammer et al. 2001).

 

 

 

 

Ferreira et al. (1988) e Ferreira (1993) apresentam valores médios para o Índice de Diversidade de Shannon-Wiener para ambientes amazônicos que variam entre 2,18 para o rio Curuá-Uma e 6,18 para o rio Trombetas. Os valores estimados para o PE Cantão situam-se entre estes extremos.

Os valores de Equitabilidade foram considerados elevados, mesmo para padrões amazônicos, e similar àqueles encontrados para o rio Trombetas (Ferreira 1993)

Os resultados das pescarias experimentais com malhadeiras mostraram valores muito elevados de captura por unidade de esforço (CPUE), entre os maiores já registrados para ambientes aquáticos amazônicos (Tabela 7).

A única outra informação disponível para o rio Araguaia é de uma pesquisa realizada em um trecho a montante da ilha do Bananal (Tejerina-Garro et al. 1998), contudo os métodos utilizados foram diferentes do que utilizamos em nosso estudo e os valores encontrados foram metade dos nossos. Também os valores para biomassa encontrados no PE Cantão são maiores que aquele encontrados para maioria de outros locais amostrados na Amazônia, com exceção do Lago do Inácio, um lago de várzea do rio Amazonas próximo a Manaus (Saint-Paul et al. 2000). Assim, o PE Cantão pode ser caracterizado como um local com alta produtividade biológica, especialmente considerando que este é um sistema de águas claras. Levando em consideração esta elevada produtividade e riqueza de espécies podemos também inferir que este ambiente deve estar em bom estado de conservação.

A fauna de peixes encontrada no rio Araguaia revela uma mistura de espécies da planície do rio Amazonas (Psectrogaster amazonica, Serrasalmus maculatus, Pygocentrus nattereri, Prochilodus nigricans, Mylossoma duriventre, Leporinus trifasciatus, Pterodoras granulosus, Hypselecara temporalis), e de alguns tributários do baixo rio Amazonas (Semaprochilodus brama, Retroculus lapidifer, Schizodon vittatus), com outras espécies típicas da bacia do rio Tocantins (Brycon gouldingi, Leporinus affinis, Serrasalmus gibbus, S. geryi, Triportheus trifurcatus, Curimata acutirostris, Steindachnerina gracilis, Cichla kelberi, Cichla piquiti, Cichlasoma araguaiense). Também espécies dos escudos do Brasil Central e das Guianas foram encontradas (Exodon paradoxus, Roeboexodon geryi, Bivibranchia velox, Baryancistrus niveatus, Laemolyta fernandezi, Leporellus vittatus, Leporinus julii, L. desmotes). Assim a ictiofauna do PE Cantão parece ser a soma de uma variedade de espécies de vários rios e sistemas, resultando em uma combinação peculiar com alta abundância e riqueza de espécies.

 

CONCLUSÃO

Nossos resultados mostraram que o PE Cantão é uma área com alta diversidade de espécies de peixes, e que as assembleias ainda estão bem preservadas, como indicado pelos valores de CPUE. A existência e manutenção deste Parque é de alto interesse para a preservação da ictiofauna do rio Araguaia.

 

AGRADECIMENTOS

Nós gostaríamos de agradecer à SEPLAN e a Naturatins órgãos do governo do Estado do Tocantins, e a Sra. Angélica Beatriz Gonçlaves pelo apoio durante as coletas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 22/10/2010
Versão reformulada recebida em 15/02/2011
Publicado em 06/05/2011

 

 

* Autor para correspondência: Efrem Ferreira, e-mail: efrem@inpa.gov.br

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