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Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial

Print version ISSN 1676-2444

J. Bras. Patol. Med. Lab. vol.44 no.3 Rio de Janeiro June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1676-24442008000300006 

RELATO DE CASO CASE REPORT

 

Relato de dois casos de condiloma imaturo: descrição dos achados colposcópicos, cervicográficos, cito-histológicos e moleculares

 

Report of two cases of immature cervical condyloma: description of colposcopic, cervicographic, cytohistological and molecular findings

 

 

Álvaro Piazzetta PintoI; Patrícia KrunnII; Ricardo Rossi CardosoIII

IProfessor adjunto do Departamento de Patologia Médica do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná (UFPR); diretor e citopatologista do Laboratório de Anatomia Patológica e Citopatologia ANNALAB
IIGraduanda do curso de Medicina da UFPR
IIIGinecologista e obstetra. Este trabalho foi realizado no Instituto de Pesquisa em Patologia do Laboratório de Anatomia Patológica e Citopatologia ANNALAB, em Curitiba-PR

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Por meio da descrição de dois casos, os autores visam chamar a atenção para a forma de apresentação do condiloma imaturo ou metaplasia papilar imatura atípica (MPIA), assim como para as dificuldades de detecção citológica, classificação histológica e interpretação adequada. As características do condiloma imaturo ao colposcópio e na cervicografia foram relacionadas com seu aspecto histopatológico e com o padrão colposcópico do condiloma acuminado típico cervical. Exames citopatológicos resultaram negativos ou com células escamosas atípicas de significado indeterminado (ASCUS). Em um dos casos foi realizada captura híbrida para papilomavírus humano (HPV), que identificou tipos virais de alto e baixo graus. A partir do estudo dos casos concluiu-se que: a) o condiloma imaturo pode ser identificado por exame colposcópico ou cervicográfico, podendo ser precedido ou acompanhado do diagnóstico citológico de ASCUS ou detecção de HPV por teste molecular; b) a caracterização histopatológica dessas lesões como de baixo grau evita o tratamento cirúrgico desnecessário.

Unitermos: Metaplasia imatura; Condiloma; Papilomavírus humano


ABSTRACT

Based on the report of two cases, we aim to highlight the presentation of immature condyloma or atypical papillary immature metaplasia (AIM) as well as the difficulties in its cytological detection, histopathological classification and accurate interpretation of results. The colposcopic and cervicographic characteristics of the immature condyloma were related to its histopathological features and the colposcopic standard of acuminated condyloma. Cytopathological exam results were negative or presented atypical squamous cells of undetermined significance (ASCUS). In one case, a hybrid capture test for human papillomavirus (HPV) was carried out, what identified viral types of high and low grades. The study concluded that: 1) immature condylomas may be identified by means of colposcopic or cervicographic exam, and may be preceded or followed by a cytological diagnosis for ASCUS or HPV detection using molecular test; 2. histopathological characterization of these lesions as low grade avoids unnecessary surgical treatment.

Key words: Immature metaplasia; Condyloma; Human papillomaviruses


 

 

Introdução

O diagnóstico de lesão intra-epitelial escamosa de baixo grau (LIEBG) traz consigo grande responsabilidade. Quando um patologista emite esse diagnóstico e a lesão é destruída, a paciente pode voltar a ser vista em intervalo anual. Os diagnósticos citológico e histológico devem ser concordantes, e, se houver suspeita de lesão de maior grau, é indicada a repetição da colposcopia(8).

A metaplasia papilar imatura atípica (MPIA) é uma variante pouco comum de LIEBG. Descrita inicialmente por Crum et al.(4) em produtos de conização, essa entidade é uma exceção ao conceito de que as lesões intra-epiteliais escamosas imaturas devem ser interpretadas histologicamente como de alto grau (LIEAG). O mesmo autor que descreveu inicialmente a MPIA, em 1983, recomenda, em sua última revisão, que o termo condiloma imaturo é preferível por refletir melhor a sua patogênese, resultando em resposta clínica apropriada(1, 4).

O condiloma imaturo está freqüentemente associado ao papilomavírus humano (HPV) de baixo potencial oncogênico(3, 14), identificado por meio de teste molecular. Em uma minoria de casos pode ser detectado também HPV de alto potencial oncogênico, como, por exemplo, o tipo 16)(12).

Histologicamente, o condiloma imaturo caracteriza-se por áreas de proliferação celular escamosa imatura de aspecto papilífero, com atipia citológica variável e tendência a estender-se pelo canal endocervical(3, 7, 12, 14). Difere do condiloma típico (maduro) por não apresentar coilocitose e outros sinais histológicos de infecção viral. Todavia, quando amostrada extensamente, a lesão revela áreas de condiloma típico. Em alguns casos é demonstrada ainda a presença concomitante de LIEAG. O diagnóstico citológico é difícil, e os esfregaços são freqüentemente interpretados como anormais por células escamosas atípicas de significado indeterminado (ASCUS)(7, 10) ou considerados dentro dos padrões de normalidade(10).

O presente estudo visa, a partir da experiência dos autores na avaliação de dois casos de condiloma imaturo, chamar a atenção para a forma de apresentação inicial da lesão e para as dificuldades na detecção citológica e na classificação histológica dessa entidade.

 

Relato dos casos

Por meio de métodos de visualização da cérvix, colposcopia e cervicografia, foram identificadas lesões nos dois casos alvos do presente estudo. Em seguida, os tecidos anormais foram biopsiados e caracterizados histologicamente. Os exames citopatológicos anteriores e concomitantes à biópsia foram revistos. Em um dos casos foi realizada captura híbrida para HPV.

Caso 1

Mulher de 29 anos, ao ser submetida a exame colposcópico e posterior cervicografia, revelou lesão de aspecto micropapilomatoso, com epitélio esbranquiçado e zona de transformação imatura (Figura 1). Procedeu-se então à biópsia, e na histopatologia foram identificadas áreas de arquitetura papilífera, com proliferação de células escamosas imaturas exibindo aumento da relação núcleo-citoplasma, contornos nucleares pouco nítidos e cromatina uniformemente distribuída (Figura 2). A lesão foi então caracterizada histologicamente como MPIA (condiloma imaturo). O exame citopatológico havia sido interpretado originalmente como negativo para malignidade, satisfatório para a análise, porém limitado pela ausência de células metaplásicas e/ou endocervicais. Após a revisão observaram-se três a quatro células escamosas com coilocitose. Foi realizado exame de captura híbrida para HPV, que constatou a presença de HPVs de baixo e alto potenciais oncogênicos.

 

 

 

 

Caso 2

Adolescente de 17 anos mostrou, ao exame colposcópico, lesão de aspecto vegetante, com epitélio branco acentuado, zona de transformação imatura, compatível com condilomatose de colo uterino (Figura 3). O exame citopatológico foi interpretado como ASCUS e revelou múltiplas células escamosas metaplásicas imaturas e em maturação, com atipias nucleares discretas, eventual orangeofilia citoplasmática e binucleação ou multinucleação (Figura 4). Realizada biópsia, o diagnóstico histológico foi de MPIA (condiloma imaturo).

 

 

 

 

Comentário: Devido à imaturidade das células atípicas identificadas, o diagnóstico de atipias escamosas de significado indeterminado - não se pode excluir lesão de alto grau (ASC-H) - seria uma possibilidade. Entretanto, devido ao grau discreto de atipia, à orangiofilia e ao maior volume do citoplasma de algumas células, optou-se na ocasião pelo diagnóstico de ASCUS .

 

Discussão

O condiloma imaturo (MPIA) representa uma LIEBG que envolve parte da zona de transformação e a endocérvix(5, 12, 14), estando associado ao HPV de baixo potencial oncogênico. Pelo seu aspecto morfológico papilífero, presença de células exibindo certo grau de atipia e padrão de crescimento metaplásico pode, em alguns casos, ser mal interpretada como LIEAG, ou diagnosticada erroneamente como carcinoma papilífero de colo uterino. A identificação histológica do condiloma imaturo é fundamental para que se proceda à conduta terapêutica mais apropriada.

Nos casos relatados, a visualização da cérvix por meio dos exames colposcópico e cervicográfico orientou a investigação complementar diagnóstica do condiloma imaturo. As lesões costumam apresentar-se de forma semelhante à condilomatose de colo uterino, exibindo áreas com epitélio esbranquiçado e morfologia vegetante ou papilífera (Figura 5).

 

 

À citopatologia, freqüentemente é possível identificar alguns aspectos do condiloma imaturo, como células metaplásicas imaturas com graus variáveis de atipia, e presença de binucleação. Contudo, o diagnóstico de condiloma imaturo não pode ser realizado apenas com base nos achados citopatológicos(3, 12). Um estudo(10) recente de nosso grupo demonstrou que essa dificuldade diagnóstica estende-se também aos condilomas acuminados maduros ou LIEBGs acuminadas do colo uterino. Nesse estudo, esfregaços citológicos de seis condilomas imaturos, 13 condilomas maduros e quatro condilomas mistos (com áreas maduras e imaturas) foram revistos por três citopatologistas. Desses 23 condilomas cervicais histologicamente diagnosticados, apenas seis (26%) foram caracterizados citologicamente como LIEBG, sendo os restantes classificados como negativos (30,4%) ou ASCUS (43,4%).

Caracteristicamente, o condiloma imaturo não apresenta áreas de coilocitose, porém é freqüente a sua relação com áreas de condiloma acuminado maduro do colo uterino(3, 10, 12, 14), o que pode explicar a presença de células exibindo efeito coilocitótico na revisão citológica do caso 1. Esse mesmo fato foi verificado por Mosher et al.(7).

A histopatologia parece ser o método diagnóstico que melhor caracteriza a lesão. A presença de células com graus variados de atipia, epitélio com padrão de crescimento metaplásico e ausência de efeito coilocitótico define o diagnóstico histopatológico de condiloma imaturo(3, 7, 12, 14). Em alguns casos, a biópsia pode revelar associação entre condiloma imaturo, LIEAG(7, 12) e condilomatose típica de colo uterino(7, 12, 14).

As técnicas de captura híbrida para HPV permitem identificar o(s) tipo(s) de vírus envolvido(s) com o aparecimento das lesões(1, 2, 13). Geralmente são observados HPVs de baixo potencial oncogênico, principalmente dos tipos 6 e 11(3, 7, 14). Em alguns casos são evidenciados concomitantemente HPVs de alto e baixo potenciais oncogênicos(7), similarmente ao observado no caso 1.

O diagnóstico diferencial com metaplasia escamosa regenerativa, LIEBG acuminada (condiloma exofítico maduro de colo uterino) e carcinoma papilífero deve ser sempre considerado. Na metaplasia escamosa imatura com atipias, uma entidade mal definida(9), diferente do que ocorre no condiloma imaturo, a atipia nuclear com cromocentros proeminentes e as proliferações papilares normalmente não são encontradas(6). Estudos recentes recomendam que a caracterização definitiva dessa alteração deva ser feita por imuno-histoquímica para o p16 e/ou o CK17, e não somente com base nos achados cito e histopatológicos(11), uma vez que também pode haver confusão diagnóstica com as lesões intra-epiteliais de alto grau (neoplasia intra-epitelial cervical (NIC) III). Já no condiloma exofítico, o efeito citopático viral (coilocitose) costuma ser visualizado com maior freqüência que no condiloma imaturo. Entretanto, a literatura demonstra que, quando se obtém uma amostra extensa de um condiloma imaturo, freqüentemente há áreas de condiloma típico (maduro) associadas(7, 12). A relação com lesões de alto grau é menos comum, sendo relatada em pouco mais de 20% dos casos. No carcinoma papilífero, a presença de maior grau de atipia, sobreposição nuclear e mitoses geralmente é suficiente para que se faça o diagnóstico diferencial com o condiloma imaturo. Em casos em que haja dificuldade para se reconhecer esses elementos, um marcador de proliferação celular como o Ki67 pode ser utilizado(12).

A partir da observação desses casos é possível concluir que o condiloma imaturo se associa às lesões identificadas ao exame colposcópico ou cervicográfico e pode ser precedido do diagnóstico de ASCUS (ou ASC-H) ou da detecção de HPV por teste molecular. A precisa caracterização histológica dessas lesões como de baixo grau evita o tratamento desnecessário por conização ou cirurgia de alta freqüência. Por isso seu reconhecimento correto é necessário para que se proceda à conduta mais adequada.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem ao professor Edson Luis Tissot por ter cedido gentilmente a imagem referente à Figura 1 deste manuscrito.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Álvaro Piazzetta Pinto
Laboratório de Citopatologia e Anatomia Patológica ANNALAB; Instituto de Pesquisa em Patologia
Av. Marechal Deodoro, 235
CEP 80020-907 - Curitiba-PR
Telefax: (41) 3029-5002
e-mail: alvaropi1@gmail.com

Primeira submissão em 09/11/07
Última submissão em 07/06/08
Aceito para publicação em 09/07/08
Publicado em 20/06/08