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Journal of Epilepsy and Clinical Neurophysiology

Print version ISSN 1676-2649

J. epilepsy clin. neurophysiol. vol.15 no.4 Porto Alegre Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1676-26492009000400006 

SPECIAL ARTICLE ARTIGO ESPECIAL

 

IV Escola Latino-Americana de Verão em Epilepsia: Chamada Especial aos Epileptologistas Brasileiros

 

IV Latin-American Summer School on Epilepsy: special call to the Brazilian epileptologists

 

 

Fulvio A. ScorzaI; Elza M. YacubianII; Esper A. CavalheiroI

IDisciplina de Neurologia Experimental, Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM). São Paulo, Brasil
IIUnidade de Pesquisa e Tratamento das Epilepsias (UNIPETE). Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM). São Paulo, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Produzir tratamentos novos e efetivos aliados à prevenção adequada das epilepsias, a doença neurológica crônica grave mais comum e que acomete aproximadamente 1% da população mundial, deve ser o principal objetivo dos sistemas de saúde de uma nação.
OBJETIVOS: Nesse sentido, o principal objetivo de nosso artigo é divulgar a IV Escola Latino-Americana de Verão em Epilepsia entre os epileptologistas brasileiros.

Unitermos: Epilepsia, educação, Escola Latino-Americana de Verão em Epilepsia.


ABSTRACT

INTRODUCTION: The development of new treatments and effective means to prevent the epilepsies, the most prevalent neurological disorder and that affects around 1% of worldwide population, must be the main goal of the health systems of a nation.
OBJETIVES: Following these reasoning, the goal of our article is to promote the IV Latin-American Summer School on Epilepsy (LASSE) among Brazilian epileptologists.

Key words: Epilepsy, education, Latin-American Summer School on Epilepsy.


 

 

Produzir tratamentos novos e efetivos aliados à prevenção adequada das doenças deve ser o principal objetivo dos sistemas de saúde de uma nação. Este objetivo é mais facilmente estabelecido com a tradução efetiva dos achados das pesquisas biomédicas na prática clínica e nas tomadas de decisão na área da saúde. A pesquisa translacional tem sido reconhecida como a base deste progresso através de um processo contínuo que pode ser dividido em dois domínios. O primeiro envolve a aplicação das descobertas geradas pelas pesquisas nos laboratórios ao desenvolvimento dos estudos em seres humanos. Estas investigações translacionais pré-clínicas são frequentemente estabelecidas através do uso de modelos animais, culturas de tecidos, amostras de células humanas e animais ou através de sistemas experimentais tais como o estudo de moléculas biológicas, incluindo o DNA, RNA e as proteínas. O segundo domínio translacional reúne os resultados dos estudos básicos e os aplica na prática clínica, na tentativa de melhorar a saúde da população e facilitar a adoção das melhores práticas pela comunidade.

Como reconhecido pelas principais revistas científicas e pelas grandes agências de fomento, a Neurociência é a área das ciências biomédicas que cresce mais rapidamente nos países desenvolvidos. Essa observação também é válida para nosso país. De fato, a Neurociência ocupa posição de destaque nos congressos multidisciplinares, tem presença significativa nos periódicos de maior impacto como Nature e Science, atrai um grande contingente de jovens para a pesquisa científica, e frequenta a mídia e o interesse do público pela discussão das questões mais fundamentais da humanidade. A Neurociência brasileira tem se expandido notavelmente nos últimos 15 anos e hoje ocupa lugar relevante na produção internacional. Esse fato foi claramente demonstrado pelo Professor Ricardo Nitrini, Professor Associado do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, identificando que a produção dos neurocientistas clínicos brasileiros representou 2,37% dos artigos publicados pelos 20 periódicos indexados que regularmente publicam pesquisas em neurociência clínica no âmbito mundial.1 Além disso, aproximadamente 40% dos artigos brasileiros foram publicados em Arquivos de Neuro-Psiquiatria, o jornal oficial da Academia Brasileira de Neurologia e a epilepsia apresentou maior destaque na produção científica nacional.1 Esse destaque da pesquisa científica em epilepsia se justifica por uma série de razões.

A epilepsia é uma das mais prevalentes doenças neurológicas e acomete aproximadamente 1% da população mundial.2 Além disso, a alta incidência e prevalência das epilepsias provocam repercussões nos aspectos socioeconômicos,3 na medida em que aumentam os custos econômicos diretos (provenientes dos gastos médicos, drogas e hospitalizações) e indiretos da doença (perda de produção econômica por desemprego, licença médica ou morte prematura).4 Infelizmente, mais de 80% das pessoas com epilepsia vivem em países em desenvolvimento5 e isso é decorrente de uma deficiente assistência pré-natal e maternal, alto índice de prematuridade, desnutrição, traumas durante o parto, convulsões febris da infância e de infecções, particularmente as decorrentes de parasitismo.6

Por ser uma doença crônica, diversos fatores apresentam impacto negativo na qualidade de vida de pessoas com epilepsia.5 Diversos estudos avaliaram grupos de pessoas com epilepsia e constataram problemas centrais,5 que criteriosamente dividimos em três domínios principais: domínio físico, domínio psicológico e domínio social/vocacional.7 O domínio físico está relacionado com os aspectos que comprometem funções como energia e força e a saúde de um modo geral: cansaço e falta de energia, distúrbios do sono, frequência de crises, gravidade das crises e efeitos colaterais das medicações. O domínio psicológico foca as dificuldades emocionais e cognitivas observadas na maioria dos pacientes com epilepsia: depressão, perda da autoestima, comprometimento da concentração, comprometimento da memória, perda de confiança e dificuldades sexuais. Finalmente, o domínio social/vocacional relaciona-se as restrições no cotidiano e estilo de vida desses pacientes: limitação das atividades sociais, redução na incidência de casamento, limitações nas atividades de lazer, desemprego e subemprego e dificuldades para obtenção de carteira de habilitação e viagens.7 Infelizmente, todos esses aspectos estigmatizantes levam à discriminação e como citado de uma maneira muito elegante pelo Dr Rajendra Kale, editor assistente do British Medical Journal: "A história da epilepsia pode ser sumarizada como 4000 anos de ignorância, superstição e estigma; seguidos de 100 anos de conhecimento, superstição e estigma".8 Por esses aspectos, e principalmente devido à sua heterogeneidade etiológica, se faz extremamente necessária à busca dos mecanismos neurobiológicos responsáveis pelo aparecimento e/ou instalação da epilepsia no sistema nervoso central. Paralelamente, também se faz necessário o desenvolvimento de novos métodos diagnósticos e alternativas terapêuticas.

Seguindo essa linha de raciocínio, a permanente disseminação do conhecimento obtido através dessa interação referida acima é estimulada por organizações internacionais diretamente relacionadas às epilepsias, em especial a International League Against Epilepsy (ILAE). Nesse sentido, a Escola Latino-Americana de Verão em Epiepsia (LASSE), uma atividade vinculada ao programa educacional da ILAE e que tem apoio e suporte da Liga Brasileira de Epilepsia (LBE), desempenha um importante papel nesse contexto. Com início em 2002, as "Escolas de verão em epilepsia", organizadas pela ILAE, e de forma similar a outros cursos em neurociências, têm se tornado uma referência como uma nova experiência didática. Elas têm sido realizadas na International School of Neurological Sciences, em Veneza, Itália, com a participação de pesquisadores das áreas básica e clínica que atuam no campo da epilepsia. Como professores e alunos permanecem em contato bastante próximo por quase duas semanas consecutivas, esse tipo de Escola tem facilitado a integração entre esses dois grupos de pesquisadores e os alunos permitindo uma melhor compreensão das novas descobertas para o beneficio das pessoas com epilepsia. Baseados nessa experiência de sucesso e com a implementação de um Programa Educacional pela ILAE em 2006, nós também estamos expandindo esse tipo de atividade para outras regiões com o objetivo de aprimorar o conhecimento dos neurocientistas básicos e clínicos que atuam nessa área. A IV Escola Latino-Americana de Verão em Epilepsia (IV LASSE) ocorrerá novamente em São Paulo, entre 1 e 10 de fevereiro de 2010, e tem como título: "EPILEPSY AND TIME" (informações: www.lasse.med.br).

Para tanto, estamos convidando eminentes epileptologistas de vários países, mas predominantemente da América Latina, para atuarem como docentes e/ou tutores, ministrando aulas teóricas e discussões práticas para alunos da área da saúde (médicos e paramédicos) que estejam atuando na área da neurociências oriundos das diversas regiões da América Latina. Espera-se poder dar apoio financeiro para, aproximadamente, 50 alunos (metade atuando na área básica e metade atuando na área clínico-cirúrgica). Nos últimos 2 dias, grupos de 5-7 alunos serão estimulados, a partir dos conhecimentos adquiridos, a escrever um projeto de pesquisa que será submetido à avaliação crítica do conjunto de alunos e docentes. Esperamos, baseados nas experiências já realizadas pela ILAE, que ao final do curso os alunos (profissionais da saúde) tenham uma visão completa e atualizada dos conhecimentos necessários para o atendimento adequado das pessoas com epilepsia. Estudos da ILAE e da Organização Mundial da Saúde (OMS) têm colocado em evidência que, entre os grandes problemas relacionados às epilepsias diz respeito ao diagnóstico inadequado das crises e síndromes epilépticas e a demora na instalação do tratamento adequado. Assim, pessoas com epilepsia que poderiam obter uma reversão, muitas vezes, completa do quadro, acabem evoluindo para a cronicidade e desenvolvendo refratariedade aos medicamentos disponíveis para o tratamento. Este quadro tem elevado o custo social das epilepsias e, por este motivo, acreditamos que a disseminação dos conhecimentos atuais para profissionais da saúde, poderá auxiliar o adequado tratamento e/ou encaminhamento das pessoas com epilepsia. Finalmente, estamos certos de que o contato com os progressos da pesquisa científica no campo das epilepsias poderá estimular os jovens profissionais a verificar as relações entre os aspectos sociais, culturais e econômicos das diversas sub-regiões que compõem o país e a incidência e evolução da epilepsia.

 

REFERENCES

1. Nitrini R. The scientific production of Brazilian neurologists: 1995-2004. Arq Neuropsiquiatr 2006;64:538-42.         [ Links ]

2. Sander JW. The epidemiology of epilepsy revisited. Curr Opin Neurol 2003;16:165-70.         [ Links ]

3. Heaney DC, Beran RG, Halpern MT. Economics in epilepsy treatment choices: our certain fate? Epilepsia 2002;43:32-8.         [ Links ]

4. Sander JW, Bell GS. Reducing mortality: an important aim of epilepsy management. J Neurol Neurosurg Psychiatry 2004;75:349-51.         [ Links ]

5. de Boer HM, Mula M, Sander JW. The global burden and stigma of epilepsy. Epilepsy Behav 2008;12:540-6.         [ Links ]

6. Duncan JS, Sander JW, Sisodiya SM et al. Adult epilepsy. Lancet 2006;367:1087-100.         [ Links ]

7. O'Donoghue MF, Sander JW. Qualidade de vida e gravidade das crises como medidas de resultados em epilepsia. Em: Jaderson Costa da Costa, André Palmini, Elza Márcia Targas Yacubian, Esper Abrão Cavalheiro, editores. Fundamentos Neurobiológicos das Epilepsias – Aspectos Clínicos e Cirúrgicos. São Paulo: Editorial Lemos; 1998. p. 1321-47.         [ Links ]

8. Kale R. Bringing epilepsy out of the shadows. BMJ. 1997;315:2-3.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Esper A. Cavalheiro
Disciplina de Neurologia Experimental
Rua Botucatu, 862 – Edifício Leal Prado
CEP: 04023-900, São Paulo, SP, Brasil
Fone: (11)5549-2064 – Fax: (11)5573-9304
E-mail: esper.nexp@epm.br

Received Sept. 10, 2009; accepted Oct. 06, 2009.

 

 

Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM), São Paulo, SP, Brasil

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