SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.6 número2La construcción de estrategias corporativas bajo la perspectiva no determinística índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Revista

Articulo

Indicadores

Links relacionados

Compartir


RAE eletrônica

versión On-line ISSN 1676-5648

RAE electron. v.6 n.2 São Paulo jul./dic. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1676-56482007000200001 

raeel

Editorial

 

 

Uma maneira possível de classificar ou entender o ser humano é dizer que ele pensa e age, ou pensa e faz. O ethos aristocrático preza o homem que pensa, que contempla, que é capaz de desfrutar com elegância do ócio e, se possível, até mesmo transformá-lo em oportunidade de criação. Cumulando estas atitudes, adicionem-se a finura, o refinamento e o domínio do gosto. Esta concepção tem origens remotas. Os gregos prezavam acima de tudo o pensar e o contemplar. Um autor grego disse que nos jogos olímpicos havia os que iam para competir, outros para comercializar produtos e aqueles que iam para assistir aos jogos, contemplando as qualidades do certame. Estes últimos são os mais nobres e aqueles que, em uma hierarquia de valores, devem ocupar o cimo.

Quando o cristianismo adquiriu a condição de religião hegemônica, para não dizer exclusiva, no Ocidente, igualmente prosseguia a dicotomia. Havia os que se dedicavam ao seculo, ou seja, aos afazeres mais mundanos, como casar, ter filhos, manter uma família, plantar, colher, produzir objetos artesanalmente com os quais sustentar a vida da espécie. E havia aqueles que se recolhiam em mosteiros, orando e se dedicando ao entendimento da sabedoria derivada das Escrituras e da tradição, almejando, por meio da oração e da penitência, a vida contemplativa. Acredito que na segunda opção há mais santos e santas catalogados do que na primeira. Aparentemente, estas coisas podem ser interessantes, mas pertenceriam a um passado já distante. Será?

Vejamos se assim é. A modernidade trouxe consigo muitas coisas. O aparecimento da burguesia, de uma moral do trabalho, de uma valorização do homem como centro do universo e não mais a divindade e, certamente, o homem ativo. O homem que faz, que age, que é ativo e pró-ativo não é invenção do século XX ou XXI, mas remonta ao início da modernidade. O ideal aristocrático fenece gradativamente e em seu lugar vão se colocando uma moral burguesa e um humanismo burguês. O ser humano é, a partir de então, muito mais definido como o que age, que faz, do que aquele que pensa e contempla.

Enquanto a teoria pela teoria era uma delícia para o cultivo da mente na concepção grega, hoje ela é vista como algo próximo da inutilidade. Teorias só podem ser interessantes se forem úteis, ou seja, se auxiliarem e nortearem a prática, ou seja, a ação. A teoria científica deve levar à aplicação e esta à geração de tecnologia com que possamos intervir e controlar o mundo em que estamos inseridos. Se você é professor de administração saberá que a mais terrível avaliação que pode ser feita de seu curso e de sua aula é que foram teóricos. Isto equivale a uma execração. Se for um curso profissionalizante, pode significar a eliminação do docente da grade curricular.

E como fica esta dicotomia na profissão de administrador? De certa maneira, ela se mantém. Consultores e assessores são fundamentalmente pensadores ou aconselhadores. Não se espera que façam, e os que aceitarem seus conselhos e os colocarem em prática serão tidos como responsáveis pelos resultados. Os assessores estarão dispensados da responsabilidade, mas também das glórias e louros, caso haja sucesso. Estes ficarão com os executores, ou seja, os administradores de linha, os que agem e não apenas pensam.

Mas, mesmo se adentrarmos no âmago da vida administrativa, naquilo que se chama a vida e a mente do executivo, o que vamos lá encontrar? Uma grande dificuldade em fazer acontecer. O bom executivo é aquele que, de fato, executa, ou seja, que gera ação, que transforma idéias em fatos. Os que lidam com planejamento e gestão estratégica não hesitarão em reconhecer que o maior problema não é rever ou formular estratégias, mas executá-las ou implementá-las. Um livro recente, de grande sucesso, é um texto de Ram Charam, Larry Bossidy e Charles Burck, chamado simplesmente Execution – The Discipline of Getting Things Done, literalmente Execução – A disciplina de fazer com que as coisas sejam feitas ou realizadas.

A esta altura é mais fácil entender por que entre administradores a execução é vista como crucial e entre os filósofos o pragmatismo conhece hoje um esplendor que os seus criadores do século XIX não conseguiriam vislumbrar. Mas esta dicotomia do ser humano resiste aos séculos. E, se de um lado temos o louvor da execução, por outro surgem a preocupação com a falta de perspectiva e a necessidade de que, mesmo em meio a um grande sucesso, se dê um tempo, ou se pare para pensar, planejar e talvez redirecionar nosso negócio. Herbert Simon falava em slack resources, que seriam geradores de ineficiência, sem os quais uma organização se estiolaria. Dentre os recursos slack teríamos o tempo e as pessoas que não teriam agendas totalmente ocupadas, nas quais se deixaria espaço para outras coisas, como possivelmente pensar, criticar e inovar.

Enquanto a dicotomia persiste, pois parece inerente à condição humana, caberia não tentar eliminá-la, já que isto tem se mostrado impossível, mas com ela conviver de maneira mais confortável e fecunda. Em lugar de execrar a atividade, que pode conduzir ao agir pelo agir, à compulsão e à perda de sentido e de direcionamento, procurar equilibrá-la com a reflexão. Esta, se distanciada da ação, pode gerar alienação e irrelevância, mas quando vinculada à ação pode restaurar o equilíbrio fundamental entre o pensar e o agir.

 

Carlos Osmar Bertero
Editor e Diretor

Creative Commons License Todo el contenido de esta revista, excepto dónde está identificado, está bajo una Licencia Creative Commons