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Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. v.4 n.3 Porto Alegre set. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492005000300010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Trombose venosa profunda de membros superiores. Estudo coorte retrospectivo de 52 casos

 

Upper-extremity deep vein thrombosis: a retrospective cohort study of 52 cases

 

 

Ricardo de Alvarenga YoshidaI; Marcone Lima SobreiraII; Mariangela GianniniIII; Regina MouraIII; Hamilton Almeida RolloIII; Winston Bonetti YoshidaIV; Francisco Humberto de Abreu MaffeiV

IMédico residente de Angiologia e Cirurgia Vascular, Departamento de Cirurgia e Ortopedia, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Botucatu, SP
IIMédico(a) contratado(a), Departamento de Cirurgia e Ortopedia, Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP, Botucatu, SP
IIIDoutor. Professor assistente, Departamento de Cirurgia e Ortopedia, Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP, Botucatu, SP
IVLivre-docente. Professor adjunto, Departamento de Cirurgia e Ortopedia, Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP, Botucatu, SP
VProfessor titular, Departamento de Cirurgia e Ortopedia, Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP, Botucatu, SP

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Rever os fatores predisponentes e a evolução em série de casos de trombose venosa profunda dos membros superiores de nossa instituição.
MÉTODOS: Cinqüenta e dois pacientes consecutivos, com trombose venosa profunda dos membros superiores (29 homens e 23 mulheres), idade média de 52,3 anos, documentados por mapeamento dúplex (71,1%), flebografia (11,1%) ou clinicamente (15,6%), foram incluídos no presente estudo.
RESULTADOS: As manifestações clínicas foram: dor no antebraço (24 casos - 46,1%), dor no braço (27 casos - 51,9%), edema do membro superior (45 casos - 86,5%), dor à compressão do membro superior (36 casos - 70,2%) e dor à movimentação do mesmo (32 casos - 61,7%). Os principais fatores de risco foram: punção ou acesso venoso (20 casos - 39,1%) e câncer (16 casos - 32,6%). As veias envolvidas foram: umeral (n = 18), axilar (n = 27), subclávia (n = 15) e jugular (n = 11). A embolia pulmonar estava inicialmente presente em quatro casos (7,6%). O tratamento inicial foi feito com heparina não-fracionada intravenosa (64,3%), subcutânea (16,7%), ou heparina de baixo peso molecular (17,1%), seguido de varfarina. Doze pacientes morreram antes da alta, em função de causas não relacionadas à embolia pulmonar. Foram acompanhados os 40 pacientes restantes por período de 3 meses a 10 anos, sendo que dois morreram de causas não relacionadas à embolia pulmonar, um paciente desenvolveu seqüelas pós-trombóticas, como edema residual e limitações aos movimentos, e seis ficaram com discretos sintomas residuais (edema e dor).
CONCLUSÕES: A trombose venosa profunda dos membros superiores foi mais freqüente em pacientes submetidos a acessos venosos e com neoplasia em atividade. Comparando com dados da literatura, a evolução dos pacientes sob tratamento exclusivo com anticoagulantes foi, no mínimo, similar a outros tratamentos propostos.

Palavras-chave: trombose, trombose venosa, extremidade superior, anticoagulantes.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To review the predisposing factors and the evolution of upper-extremity deep vein thrombosis in a series of cases.
METHODS: Fifty-two consecutive patients (29 men and 23 women, mean age of 52.3 years) with upper-extremity deep vein thrombosis documented by duplex scan (71.1%), phlebography (11.1%) or clinically (15.6%) were included in the study.
RESULTS: Clinical manifestations were: forearm pain (24 cases - 46.1%), arm pain (27 cases - 51.9%), upper limb edema (45 cases - 86.5%), pain to arm compression (36 cases - 70.2%) and to arm movement (32 cases - 61.7%). Main risk factors were: vein puncture (20 cases - 39.1%), and cancer (16 cases - 32.6%). Deep vein thrombosis involved humeral (n = 18), axillary (n = 27), subclavian (n = 15) and jugular (n = 11) veins. Pulmonary embolism was initially present in four cases (7.6%). Initial therapy included unfractionated heparin, intravenous (64.3%), subcutaneous (16.7%) or low molecular weight heparin (17.1%) administration, followed by warfarin. Twelve patients died before discharge from the hospital, due to causes not related to pulmonary embolism. The remaining 40 patients were followed-up for a period of 3 months to 10 years. Two died of causes not related to pulmonary embolism, one developed post-thrombotic sequels, such as residual edema and limitations to upper limb movement, and six had discrete residual symptoms (edema and pain).
CONCLUSIONS: Upper-extremity deep vein thrombosis was more frequent in patients submitted to venous access and with active neoplasia. The outcome of patients exclusively treated with oral anticoagulant was at least similar to other treatments proposed in the literature.

Key words: thrombosis, deep vein thrombosis, upper extremities, anticoagulants.


 

 

Estima-se que as tromboses venosas profundas de membros superiores (TVPMS) sejam responsáveis por 1 a 4 % de todas as tromboses venosas profundas1,2. Embora as TVPMS sejam realmente menos freqüentes que as de membros inferiores, suas complicações embólicas não são menos graves3,4. Em revisão de 998 autópsias consecutivas, realizadas no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP) entre 1969 e 1976, foram encontrados 166 casos de tromboembolismo pulmonar (TEP), dos quais 7,9% tiveram origem em veias dos membros superiores5. A longo prazo, esses pacientes podem também apresentar sintomas residuais graves nos membros acometidos6.

As TVPMS têm se tornado mais comuns nas últimas décadas, devido ao aumento do uso de cateteres para quimioterapia, diálise, nutrição parenteral e marcapassos7. Podem, também, ser provocadas por lesões decorrentes de estreitamentos causados por costela cervical ou bandas fibrosas ou por neoplasias8. Além disso, podem estar relacionadas ao esforço, no qual ocorre aumento temporário da coagulação, lesões intimais microscópicas e estase venosa7,9. Também podem estar associadas a estados trombofílicos, com freqüência variável, de acordo com o estudo7,10.

Esses dados mostram a importância dessa doença, que necessita de diagnóstico e tratamento precoces para evitar as complicações. O presente artigo é fruto de uma revisão dos casos de TVPMS tratados e acompanhados no Serviço de Cirurgia Vascular de nossa instituição.

 

Pacientes e métodos

Foi feito um estudo observacional tipo coorte retrospectivo de série de casos de TVPMS (n = 52), atendidos na Disciplina de Cirurgia Vascular de nossa instituição no período compreendido entre 1992 e 2003. No momento em que os pacientes com suspeita clínica de TVPMS eram atendidos em nosso hospital para diagnóstico e tratamento, eram preenchidos protocolos contendo dados demográficos, fatores de risco, comorbidades, medicações em uso, cirurgias realizadas, punções, cateterismos venosos, sinais e sintomas, método diagnóstico da TVPMS, veias acometidas, tratamento efetuado, complicações, embolia pulmonar (EP) e óbito. Não havendo contra-indicações, os pacientes recebiam medicação anticoagulante e eram acompanhados no ambulatório de anticoagulação, geralmente por 3-6 meses, local onde se registrava sistematicamente, em outro protocolo, as doses de medicação, resultados de testes de coagulação e complicações.

Foi realizado um levantamento retrospectivo desses casos, juntando as informações desses dois registros em um protocolo final, feito no programa de banco de dados Epi-Info versão 3.2, complementando os dados com uma revisão dos prontuários e contato telefônico com os pacientes.

Utilizando os recursos do programa Epi-Info, foram feitas análises estatísticas descritivas dos dados demográficos, fatores de risco, comorbidades, mortalidade, extensão, tratamento e evolução da TVPMS.

 

Resultados

Os dados demográficos, tipos de caso, clínico ou cirúrgico, e comorbidades encontram-se na Tabela 1. Não houve diferença com relação a sexo e lado acometido. A média de idade foi 53,4 ± 15,3 anos (25-81 anos), sendo que 25% tinham menos de 42 anos e 75% mais de 66 anos. A maioria dos pacientes tinha doenças de tratamento clínico (57,6%), em 32,7% doenças cirúrgicas e 9,6% foram TVPMS espontâneas. As comorbidades mais freqüentes foram: fumo, hipertensão arterial sistêmica (HAS), insuficiência cardíaca congestiva (ICC), obesidade, diabetes melito, nefropatia e o fato de os pacientes estarem acamados (Tabela 1). As punções, cateterismos e o câncer foram os principais fatores de risco associados (Tabela 2). No período estudado, não houve nenhum caso de trombose relacionada ao esforço. A presença de EP associada, confirmada por cintilografia de ventilação-perfusão, foi encontrada em 7,6% dos casos.

 

 

 

 

As manifestações clínicas mais relevantes foram: dor espontânea em braço (51,9%) e antebraço (46,1%) e edema do membro superior acometido (86,5%) (Figura 1). No exame clínico, a dor decorrente de compressão ou movimentação do membro superior estava presente em 70,2% e 61,7% dos pacientes, respectivamente.

 

 

O diagnóstico foi confirmado pelo mapeamento dúplex (MD) em 71,1%, e a flebografia foi utilizada em 11,1% dos casos, sendo que, em 15,6% dos mesmos, não foi realizado nenhum exame confirmatório, devido, principalmente, a limitações clínicas para transporte ou de punção venosa apresentadas por alguns pacientes. As veias mais acometidas foram as axilares, seguidas das subclávias, umerais e jugulares, bilateralmente, conforme Figura 2.

 

 

O tratamento inicial instituído para todos os casos foi, exclusivamente, a anticoagulação, em regime de internação hospitalar. Foi ministrada heparina não-fracionada por via intravenosa (HNF-IV) em 64,3% dos casos, HNF por via subcutânea (HNF-SC) em 16,7 %, ambas com doses controladas pelo tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPA alvo entre 1,5 e 2,5), e heparina de baixo peso molecular (HBPM) em 17,1% dos casos (doses de tratamento por peso corporal indicadas pelos fabricantes, sem controle laboratorial), associados à varfarina em doses controladas pela razão normatizada internacional (RNI alvo entre 2,0 e 3,0). Em todos os casos, foi feito controle de plaquetas em dias alternados. As heparinas foram suspensas quando havia, pelo menos, 2 dias consecutivos de concomitância de tratamentos com RNI entre 2,0 e 3,0.

Na alta hospitalar, 65,4% dos pacientes referiram melhora clínica e 7,7% permaneceram inalterados. Durante a internação, 23% faleceram devido às comorbidades anteriormente apresentadas. Nenhum paciente teve recorrência de TEP ou qualquer complicação ligada ao tratamento anticoagulante no período de internação.

A duração do tratamento anticoagulante está na Tabela 3. A heparina foi ministrada, preferencialmente, entre 3-7 dias, e a varfarina entre 3-6 meses.

 

 

Na Tabela 4, encontra-se o resumo da evolução de 40 pacientes que tiveram alta da enfermaria e foram acompanhados no ambulatório de anticoagulantes. Desses 40 casos, sete perderam seguimento e dois faleceram durante o acompanhamento no ambulatório de anticoagulação, por comorbidades provavelmente não relacionadas à EP, segundo descrito nos atestados de óbito. Os 31 pacientes remanescentes foram acompanhados no ambulatório de anticoagulação por 1 a 36 meses (média de 6 meses), sendo que 24 permaneceram assintomáticos, seis com sintomas discretos e um com sintoma limitante. Em 16 desses pacientes, foi possível obter informações sobre os sintomas remanescentes a longo prazo, em período de 1 a 10 anos (média de 5 anos), por meio de contato telefônico, confirmando os seis pacientes com sintomas discretos, um com sintoma limitante e os nove restantes assintomáticos.

 

 

Discussão

A TVPMS é uma doença multifatorial, relacionada principalmente a acessos venosos7 (os quais são preditores independentes dessa afecção)11 e a doenças malignas8,12,13. Nos pacientes do presente estudo, essas também foram as principais alterações associadas encontradas (Tabela 1), principalmente nos pacientes cirúrgicos.

Alguns autores observaram prevalência expressiva de trombofilia nos pacientes com TVPMS, com razão de chances (odds ratio) de 4,09 nos pacientes com TVP idiopática, em relação aos casos de trombose de esforço10. Martinelli et al.14 observaram, em TVPMS primárias, razão de chances de 6,2 (95%, intervalo de confiança 2,5 a 15,7) para o fator V Leiden; de 5 (95%, intervalo de confiança 2 a 12) para protrombina G20210A; e 4,9 (95%, intervalo de confiança 1,1 a 22) para deficiência de proteínas anticoagulantes, sendo que somente nesses casos há um aumento na incidência de TVPMS com o uso dos contraceptivos orais14. Nos casos do presente estudo, essas determinações não foram feitas.

Do mesmo modo que para as TVPMI, o diagnóstico clínico é pouco sensível e específico. Logo, os sintomas, os sinais e os fatores de risco devem ser usados em conjunto para determinar a probabilidade clínica de o indivíduo apresentar a afecção15. Assim, a suspeita clínica de TVPMS deve ser sempre levantada quando há aparecimento de dor e edema súbito dos membros superiores, principalmente nos casos em que as situações de risco já apontadas estão presentes. Outros achados que corroboram a suspeita seriam o desenvolvimento de circulação colateral visível e a dor exacerbando-se pela compressão e movimento muscular16. Na presente série, observou-se a predominância do edema (86,5%) como principal sintoma, sendo a dor observada em cerca de 50% dos casos, acompanhada de circulação colateral, também em 50% deles (Tabela 2). Burihan et al.16 observaram dor e edema em, respectivamente, 98 e 63% dos casos, e circulação colateral proeminente em 71% dos casos. Essas freqüências foram similares às observadas por outros autores17,18 em suas séries de casos. Além dos sintomas locais, sinais de EP podem preceder ou acompanhar o quadro clínico de TVPMS.

Para confirmação diagnóstica, na maioria dos nossos casos (71,1%), foi realizado MD, o qual tem acurácia significativa para o diagnóstico da TVP6, variando de 80-100% de sensibilidade e especificidade12,19 (Figura 3). Trata-se do melhor método não-invasivo, tendo substituído a flebografia na avaliação do paciente com suspeita da doença. Apresenta muitas vantagens, como menor custo e ausência do risco do contraste iodado e da radiação. Sua acurácia melhora na medida em que os examinadores se tornam mais experientes e os aparelhos evoluem com melhor imagem e mais recursos. As limitações do MD, particularmente em TVPMS, são: impossibilidade de compressão e dificuldade de visualização das veias que transitam abaixo de estruturas ósseas, ser examinador dependente e ter sensibilidade variável20, particularmente nos membros superiores. No entanto, o MD é o método preferível de diagnóstico, devendo ser utilizada a flebografia nos casos de dúvida no MD7,12,21.

 

 

A flebografia ainda é considerada o padrão-ouro dentre os exames complementares para o diagnóstico de TVP. A falha de enchimento do vaso pelo contraste determina a localização e a extensão do trombo22. É facilmente realizada nas situações em que há um cateter de flebotomia como causa dessa afecção, tracionando o cateter até que a ponta fique localizada próximo ao ponto de sua entrada na veia e injetando o contraste iodado9. No entanto, trata-se de exame invasivo, que pode trazer desconforto para o paciente e provocar complicações, como reação de hipersensibilidade ao contraste e lesão endotelial com TVP em alguns pacientes23. Por esses motivos e pelo desenvolvimento do MD, a flebografia foi realizada na minoria de nossos dos pacientes (Figura 4).

 

 

Nesta série, os exames de imagem para confirmação diagnóstica não puderam ser realizados em 15% dos casos, por limitações de transporte apresentadas por alguns pacientes, optando-se por tratá-los sem confirmação.

A TVPMS pode causar complicações graves, como EP e insuficiência venosa crônica. Portanto, diante de suspeita clínica de EP, caracterizada por dispnéia, tosse, escarro hemoptóico e dor torácica, deve-se confirmar a hipótese diagnóstica com cintilografia pulmonar de ventilação e perfusão, que é um método simples, pouco invasivo e acurado24-26. Na série de 546 casos revistos por Hingorani et al.27, a mortalidade na TVPMS foi expressiva e devida, principalmente, às moléstias de base, como disfunções múltiplas de órgãos, e menos de complicações diretas da TVPMS, como a EP.

O tratamento da TVPMS deve ser introduzido precocemente, no sentido de evitar a EP e reduzir as complicações tardias de edema e limitações dos movimentos dos membros superiores. Prandoni et al. encontraram EP em 0 a 12% dos casos de TVPMS, podendo chegar a 36%, semelhante ao que ocorre na TVPMI. No presente estudo, encontramos 7,6% de EP sintomática confirmada, semelhante aos dados da literatura. O tipo de tratamento da TVPMS ainda é um assunto não totalmente definido. O tratamento anticoagulante impede o crescimento do trombo no interior da veia e previne EP21,28,29. Recomenda-se a duração do tratamento inicial com HNF ou HBPM por, pelo menos, 5 dias. Embora não haja consenso estabelecido para TVPMS, a duração total do tratamento anticoagulante deve levar em conta os fatores de risco e a presença de EP, semelhante ao tratamento da TVPMI21,30. Nesse sentido, os casos com fator causal transitório devem permanecer em anticoagulação por cerca de 3 meses; os pacientes com TVP espontânea e/ou EP, por 6 meses; e os casos de primeira recorrência, por 12 a 36 meses. Os casos de segunda recorrência, presença de câncer ou trombofilia devem receber anticoagulantes perenemente31. Nos pacientes com história familiar e pessoal de tromboses e em pacientes com TVPMS espontânea, é interessante investigar a trombofilia6,14, pois pode estar presente em cerca de 26% desses casos6. Entretanto, devido ao baixo risco de ocorrência na TVPMS em geral e, inclusive, nos casos associados à trombofilia, outros autores sugerem que o tratamento por tempo prolongado ou ilimitado não se justificaria14.

Entretanto, sabemos que esse tipo de tratamento não impede, em todos os casos, complicações tardias, tais como: persistência do edema e desconforto, que limitam a função da extremidade. Em vista disso, autores têm preconizado tratamentos mais agressivos, os quais, em geral, foram utilizados em pequenas séries de casos, sem terem evidência científica comprovada7,9.

Assim, Adams et al.32 sugeriram a trombectomia venosa associada à descompressão venosa (retirada da costela, secção muscular ou de banda fibrosa), que teria melhor indicação nos casos com história clínica menor que 5 dias e imagem flebográfica de trombo recente. Uma alternativa, nessa situação, seria o uso de fibrinolíticos in situ33, seguido de descompressão venosa, quando a flebografia mostrar essa alteração34. Por outro lado, já foram observados resultados promissores com anticoagulação associada à descompressão, sem trombectomia35, para os casos acima referidos. Recentemente, com avanços tecnológicos dos procedimentos endovasculares (balões, stents e endopróteses), é possível que esses tratamentos venham a ocupar um espaço maior no tratamento da TVPMS. A Tabela 5 mostra, comparativamente, nossos resultados com os de outros autores, em relação aos sintomas residuais relacionados ao tipo de tratamento. Em nossa série de casos, esses não se mostraram elevados e foram semelhantes aos de Burihan et al.16 e de Heron36.

 

 

Concluímos, então, com base nos achados deste estudo, que as TVPMS foram mais freqüentes em pacientes submetidos a acessos venosos e com neoplasia em atividade. Comparando com dados da literatura, a evolução dos pacientes sob tratamento exclusivo com anticoagulantes foi, no mínimo, similar a outros tratamentos propostos.

 

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Correspondência:
Ricardo de Alvarenga Yoshida
Departamento de Cirurgia e Ortopedia
Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP
CEP 18618-970 - Botucatu, SP
Tel.: (14) 3811.6269
E-mail: ricardoyoshida@gmail.com

Artigo submetido em 09.06.05, aceito em 22.07.05.

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