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Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449

J. vasc. bras. v.5 n.4 Porto Alegre dez. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492006000400002 

EDITORIAIS

 

A redação científica

 

Scientific writing

 

 

Winston Bonetti Yoshida

Editor-chefe, J Vasc Bras.

 

 

Como apontado no editorial adjunto desta edição, a pesquisa científica envolve várias etapas consecutivas, tais como: idéia brilhante, levantamento da literatura, formulação da hipótese, delineamento, execução e redação. A redação é fundamental para a divulgação do trabalho executado. Como apontado em outros editoriais desta revista, a publicação em revista especializada é o meio mais efetivo de divulgação, pois atinge um público muito maior do que qualquer sala de congresso, valoriza o serviço e o trabalho do autor e ajuda no crescimento de nossa especialidade. A redação nada mais é do que um relatório sobre o projeto executado. Ele precisa ser simples, claro,preciso e conciso. Ao aplicar seu estilo pessoal ao texto, os autores precisam tomar cuidado para não contaminá-lo com excesso de verborragia, rebuscamento, erudição e gongorismo. Deve-se evitar inversões de frases, trocadilhos e metáforas. É preciso lembrar que o texto científico não é poético nem literário, e sim um relatório simples,claro,preciso e conciso, para ser compartilhado entre os colegas.

Antes de começar a escrever, é preciso selecionar a revista (analisar fator de impacto, indexação e público-alvo) e ler com atenção as suas normas. Paralelamente a isso, é preciso ler a literatura disponível - de preferência os textos completos. Nessa fase, faz-se o planejamento da redação, que inclui a estrutura do fluxo de idéias, que precisa ter começo, meio e fim. È mais fácil começar pelos materiais e métodos e resultados, para depois encarar a introdução e a discussão, que têm redação mais trabalhosa. O título em geral vem por último, mas requer muita habilidade. Da mesma forma que o texto, deve ser sintético e objetivo, levando-se em consideração que este será o primeiro filtro do leitor. È aconselhável incluir no título palavras-chave, pois ele será usado para indexação.

A introdução é a forma como o pensamento foi encaminhado para pergunta, ou seja, o que vai ser feito, a importância do tema ou problema (freqüência/gravidade) e sua evolução até a pergunta da pesquisa. É preciso dizer por que a pesquisa foi feita, com informações sobre o que se conhece e sobre as lacunas existentes. Em artigos originais, e mesmo em algumas revisões, é aconselhável não iniciar a introdução com intermináveis aspectos da história da medicina, recurso muito usado em nosso meio. A introdução não serve para mostrar erudição, nem é para dar aula sobre o assunto. As informações devem ser agrupadas sucintamente por tópicos, em vez de um critério exclusivamente cronológico. Finalmente, fecha-se a introdução apontando o que se pretende mostrar.

Na seção de materiais e métodos, é preciso incluir todas as informações necessárias para permitir que qualquer leitor possa repetir o trabalho. Deve-se descrever o tamanho da amostra (e como foi calculado), suas características, critérios de inclusão e exclusão, randomização (processo de sorteio dos grupos), seqüência experimental, parâmetros, equipamentos, e análise estatística. Devem-se definir com precisão os grupos e a amostra, incluindo critérios diagnósticos, estágios da doença e procedência. No caso de grupos controle, são definidos igualmente critérios para sua inclusão e suas características, bem como a forma de pareamento com os demais grupos.

Os resultados devem expor os achados de forma fria, simples e sem repetições ou comentários, usando-se tabelas, gráficos, fotos e desenhos. Deve-se colocar neles os dados de tendência central, tais como média e desvio padrão ou erro padrão ou mediana, moda e separatrizes, com os respectivos valores dos testes estatísticos.

Na discussão, faz-se a ligação entre os resultados e a literatura. De modo geral, pode-se fazer a discussão do método (discutindo amostra, grupos, procedimentos, delineamento, modelo, técnicas empregadas, etc.), seguida pela discussão dos resultados (precisão, limitação, coerência, significância clínica). A discussão deve explicar os achados, incluir pontos fortes e fracos do trabalho e projetar novas investigações. Também nesta seção deve-se evitar repetir os resultados e a introdução, assim como explicar o inexplicável e comentar assuntos não relacionados. As conclusões são a parte final, onde deve constar se os resultados autorizam as mesmas, vinculando-as estritamente aos objetivos.

O resumo é por onde todos começam a ler um artigo e por isso deve incluir os aspectos importantes da cada item. Quando estruturado, deve incluir contexto, hipótese, objetivos, delineamento geral, resultados com análise estatística, aspectos fundamentais da discussão, conclusões principais e novas perspectivas, em geral em cerca de 200 palavras. Algumas revistas dispensam o contexto.

Nos agradecimentos, divulga-se a agência financiadora, assim como entidades ou pessoas que tenham ajudado significativamente na elaboração do artigo. Deve-se evitar agradecimentos pelo apoio, estímulo, incentivo recebidos, ou pela cessão de equipamentos.

As referências devem ser colocadas de acordo com as normas da revista, sem inflacionar, procurando-se, sempre que isso for pertinente, citar autores nacionais e latino-americanos. Existem programas de computador que auxiliam nesse processo (End-Note™, Procite™, Reference Manager™, RefWorks™) e facilitam sobremaneira o trabalho da citação bibliográfica.

Uma vez terminado o trabalho de redação, deve-se dar um acabamento ao texto, suprimindo palavras desnecessárias, conferindo ligações entre sentenças e parágrafos, reescrevendo trechos de forma mais simples e direta (evitar voz passiva), padronizando o tempo verbal (preferencialmente no passado simples) e a pessoa (preferencialmente terceira pessoa do singular). Esse processo deverá ser feito por todos os co-autores e, eventualmente, por amigos que não participaram da elaboração.

O autor do trabalho é, em geral, aquele que tem maior participação e escreve o texto final. Os co-autores são aqueles que efetivamente participaram do projeto e da execução.

Assim, uma vez percorrido esse trajeto, o manuscrito deverá ser encaminhado, preferencialmente, para a nossa revista. A revisão será feita pelo corpo editorial, e as críticas apresentadas sempre serão um aprendizado importante para futuras publicações. È preciso vencer um hábito cultural arraigado em nossa Sociedade, de só apresentar os trabalhos na forma de temas-livres, em congressos. A nossa Sociedade, uma das maiores do mundo em número de sócios, precisa mostrar sua produção para a comunidade internacional através da publicação em nossa revista, para ser grande também em qualidade de artigos. Não existem fórmulas mágicas para se fazer uma boa redação, mas a bibliografia recomendada pode incentivar e ajudar neste mister.

 

Bibliografia Recomendada

1. Yoshida WB. A nossa produção científica invisível. J Vasc Bras. 2005;4:113.

2. Yoshida WB. Temas livres versus publicação. J Vasc Bras. 2005;4:319-20.

3. Campana AO. Redação de trabalho científico. J Pneumol. 2000;26:30-5.

4. Nahas FX, Ferreira LM. A arte de redigir um trabalho científico. Acta Cir Bras. 2005;20 Supl. 2:17-8.

5. Volpato GL, de Freitas EG. Desafios na publicação científica. Pesqui Odontol Bras. 2003;17(Supl 1):49-56.

6. Bolamos CEF. Redacción y presentación de informes. Rev Cienc Adm Financ Segur Soc. 2003;11:75-85.

7. Fried PW, Wechsler AS. How to get your paper published. J Thorac Cardiovasc Surg. 2001;121:S3-7.