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Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. v.5 n.4 Porto Alegre dez. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492006000400011 

RELATO DE CASO

 

Tratamento endovascular da síndrome da veia cava superior: relato de caso e revisão da literatura

 

Endovascular treatment of superior vena cava syndrome: case report and review of the literature

 

 

Marco Aurélio CardozoI; Eduardo LichtenfelsII; Nilon Erling Jr.III; Dorvaldo P. TarasconiIV

IProfessor de Cirurgia Vascular, Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (FFFCMPA), Porto Alegre, RS. Cirurgião vascular e endovascular, Santa Casa de Porto Alegre (ISCMPA), Porto Alegre, RS.
IIResidente de Cirurgia Vascular, FFFCMPA-ISCMPA, Porto Alegre, RS.
IIICirurgião vascular. Doutorando, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP.
IVRadiologista intervencionista, ISCMPA, Porto Alegre, RS.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Relatamos o caso de uma paciente portadora de síndrome da veia cava superior sintomática de origem benigna tratada pela técnica endovascular. A angiorressonância magnética pré-angioplastia evidenciou extensa trombose do tronco braquiocefálico esquerdo, da veia subclávia esquerda e obstrução da veia cava superior junto ao tronco braquiocefálico direito. A paciente realizou mastectomia radical 2 anos antes, associada à quimioterapia e radioterapia do tórax. Foram realizados angioplastia venosa e implante de stent expansível por balão. O resultado foi satisfatório, com alívio imediato dos sintomas devido à recanalização da veia cava superior e do tronco braquiocefálico direito. Foi instituída anticoagulação oral. A paciente permanece sem recidiva dos sintomas após 8 meses de acompanhamento. O tratamento endovascular é uma alternativa terapêutica com baixa morbidade e resultado satisfatório a médio prazo que pode ser oferecida aos pacientes portadores de síndrome da veia cava superior.

Palavras-chave: Angioplastia, veia cava, estenose.


ABSTRACT

We report a case of a patient with symptomatic benign superior vena cava syndrome treated by the endovascular technique. The angiographic resonance before angioplasty showed extensive thrombosis of the left brachiocephalic trunk, left subclavian vein and superior vena cava obstruction close to the right brachiocephalic trunk. The patient underwent radical mastectomy 2 years ago with adjuvant chemotherapy and chest radiotherapy. Venous angioplasty and balloon-expandable stenting were performed. Satisfactory result was obtained with immediate relief of symptoms due to recanalization of the right brachiocephalic trunk and superior vena cava. Oral anticoagulation was initiated. The patient is still asymptomatic after 8 months of follow-up. The endovascular treatment is a therapeutic alternative with low morbidity and satisfactory mid-term results that can be offered to patients with superior vena cava syndrome.

Key words: Angioplasty, vena cava, stenosis.


 

 

Introdução

A síndrome da veia cava superior (SVCS) de origem benigna representa 5-22% dos casos1-5. Entre as principais causas benignas, estão a fibrose mediastinal6,7, a seqüela pós-radiação, os cateteres venosos centrais, os marca-passos cardíacos, as fístulas arteriovenosas e os cateteres de hemodiálise1,2,8,9.

O tratamento da SVCS tem sido indicado para os pacientes sintomáticos. O manejo inicial constitui-se de medidas clínicas que visam ao alívio dos sintomas e a diminuição do edema no território drenado pela veia cava superior (VCS). O tratamento cirúrgico convencional ainda é a terapêutica mais freqüentemente utilizada para os casos refratários aos tratamentos menos invasivos, especialmente em pacientes mais jovens5,9,10.

Devido à baixa morbidade e aos resultados satisfatórios a médio prazo, as angioplastias venosas vêm se tornando o tratamento paliativo preferencial para a SVCS de origem maligna. O tratamento endovascular tem sido utilizado com sucesso em casos benignos de lesões pós-trombóticas, cicatrizes fibróticas pós-operatórias e pós-cateteres de longa permanência, hiperplasia intimal e lesões venosas pós-radioterapia. Porém, análises de séries com maior número de pacientes e avaliação de resultados a longo prazo são necessários para estabelecer os reais benefícios dessa terapêutica aos pacientes com SVCS8,11-13.

O objetivo deste estudo é demonstrar um caso de SVCS de origem benigna tratada com sucesso através da técnica endovascular e revisar a literatura.

 

Relato de caso

Paciente de 72 anos, feminina, referindo edema, rubor da face, pressão na cabeça e no pescoço e edema dos membros superiores com piora nos últimos 6 meses. Relatava exacerbação dos sintomas em posição horizontal e ao baixar a cabeça.

Foi submetida a mastectomia radical direita com esvaziamento axilar, associada à quimioterapia e radioterapia adjuvantes em razão de carcinoma de mama em 2003. A quimioterapia foi realizada através de cateter de longa permanência instalado em veia subclávia esquerda por aproximadamente 4 meses.

Após o diagnóstico clínico de SVCS, a paciente foi submetida a uma angiorressonância para estudo anatômico do caso e planejamento terapêutico. O exame demonstrou extensa trombose do tronco braquiocefálico (TBC) esquerdo, da veia subclávia esquerda e obstrução da VCS junto ao TBC direito (Figura 1).

 

 

O tratamento realizado consistiu em angioplastia venosa com colocação de stent. Foi realizada a abordagem da veia braquial direita, passagem de fio guia hidrofílico pela zona de obstrução, pré-dilatação com cutting balloon de 5 x 10 mm (Boston Scientific®) e implante de stent expansível por balão de 10 x 25 mm (Boston Scientific-Express LD®) (Figura 2). Na flebografia de controle do intra-operatório, foi observada a recanalização completa do TBC direito e da VCS (Figura 3).

 

 

 

 

A paciente apresentou alívio significativo dos sintomas e recebeu alta hospitalar após 48 horas, anticoagulada. Atualmente, encontra-se no oitavo mês de acompanhamento sem recidiva dos sintomas. Por solicitação da paciente, não foi realizado exame de imagem durante o acompanhamento.

 

Discussão

O diagnóstico etiológico é fundamental para a instituição da melhor terapêutica para o paciente com SVCS.

O tratamento inicial da SVCS de origem benigna inclui o uso de medidas clínicas de suporte, que visam à diminuição do edema da região drenada pela VCS, reduzindo, dessa forma, os sintomas da síndrome5,9.

A indicação de cirurgia de revascularização na SVCS de origem maligna é limitada devido à alta taxa de morbimortalidade e à curta sobrevida dos pacientes9. Nos casos de neoplasias mediastinais em que existe a possibilidade de cura da doença, a ressecção com revascularização venosa é a terapêutica de escolha14.

Nos últimos anos, com a evolução dos cateteres-balão e dos stents, a angioplastia percutânea transluminal vem se tornado uma alternativa terapêutica importante para os pacientes portadores de SVCS. A angioplastia permite o alívio rápido dos sintomas sem a necessidade de procedimento cirúrgico de grande porte15,16.

A preferência entre o uso de stent auto-expansível ou expansível por balão permanece uma questão de debate. Os stents auto-expansíveis são mais flexíveis e calibrosos, além de se expandirem e se adaptarem à parede venosa com o passar do tempo. Os stents expansíveis por balão apresentam maior precisão durante a sua liberação e maior força radial, diminuindo o risco de recoil17. A trombólise venosa com o uso de drogas fibrinolíticas previamente à angioplastia com stent não é obrigatória, sendo uma alternativa eficaz nos casos de oclusão extensa com presença de grande quantidade de trombos18. A pré-dilatação venosa com cateter balão da angioplastia fica reservada para as oclusões e para as estenoses muito extensas, em que pode haver a impossibilidade da passagem do sistema de liberação do stent. A colocação imediata do stent pode prevenir a embolização distal17,19.

Angioplastia com stent na SVCS de origem maligna tem indicação nos casos com sintomas agudos12, na falha do tratamento convencional ou recidiva dos sintomas, o que ocorre em 50% dos casos3. Para alguns autores, essa conduta deve ser sempre considerada, por ser um tratamento paliativo para pacientes com baixa expectativa de vida20.

Na SVCS de origem benigna, a indicação de angioplastia ainda é controversa10,11. O fato de os pacientes serem jovens e apresentarem expectativa de vida elevada gera a necessidade da realização de um procedimento com bom resultado a longo prazo. A cirurgia convencional de revascularização venosa com enxerto permanece o tratamento padrão com o qual todas as outras técnicas devem ser comparadas5,11,17,21. Atualmente, preconiza-se que esses pacientes devam ser submetidos inicialmente a angioplastia com ou sem a colocação de stent, associada à anticoagulação. Nenhum desses procedimentos inviabiliza uma revascularização venosa futura10,11,15.

Os resultados da angioplastia e colocação de stent para o tratamento da SVCS vêm sendo avaliados em diversos estudos. A completa resolução da síndrome é relatada em 68 a 100% dos casos12,22-25. O sucesso clínico do tratamento varia de 5526 a 93%12. O sucesso técnico inicial do tratamento endovascular varia de 90 a 100% na literatura. A taxa de perviedade geral fica em torno de 77 a 85%, e assistida entre 85 e 91%, com seguimento de 17 meses11,18,26. As taxas de reestenose observadas variam de 0 a 45%22,23. Nos pacientes com lesões associadas à hemodiálise, a taxa de reestenose varia de 60 a 80%27.

Resultados a longo prazo do tratamento endovascular da SVCS foram apresentados por Smayra et al. Os autores trataram 16 pacientes com SVCS de origem maligna, cinco de origem benigna e nove causadas por hemodiálise. A perviedade em 1 ano foi de 74% para a SVCS maligna, 50% (75% assistida) para benigna e 22% (56% assistida) para os pacientes dialíticos. Complicações ocorreram em 7% dos pacientes17.

Bornak et al. relataram uma experiência de nove pacientes tratados para SVCS de origem benigna através da técnica endovascular. A colocação de stent foi necessária em todos os casos devido ao resultado insuficiente após angioplastia isolada. A perviedade em 6 meses foi de 100%, e em 12 meses foi de 67% (100% assistida)16.

As complicações relacionadas à colocação de stent são pouco freqüentes, variando de 7 a 19%17,18,26. A migração do stent é uma complicação rara, mas grave, podendo levar ao óbito1,10,11.

A anticoagulação após a recanalização venosa não é um consenso. A maioria dos autores segue um protocolo de anticoagular os pacientes com heparina durante o procedimento e por 24-72 h, mantendo-os antiagregados (AAS 75-250 mg/dia) por 1-3 meses no período pós-operatório16.

O acompanhamento deve ser realizado através do exame clínico e estudo de imagem. A ultra-sonografia com Doppler colorido possui sensibilidade e especificidade de 100% para detecção de reestenoses no segmento venoso acessível ao exame. A flebografia, a angiotomografia multi-slice e a angiorressonância magnética podem ser utilizadas para complementar a investigação e planejar uma nova intervenção nos casos de reestenose venosa ou falência da terapêutica inicial. Embora a angiorressonância magnética apresente a desvantagem do artefato de imagem do stent metálico, ela é o método de escolha para a investigação em pacientes com perda de função renal16.

Concluímos que o tratamento endovascular é uma alternativa terapêutica que pode beneficiar pacientes com obstruções venosas centrais de origem benigna em casos selecionados. A intervenção endovascular é segura e apresenta bons índices de perviedade a curto e médio prazo, associada a baixas taxas de morbimortalidade.

 

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Correspondência:
Marco Aurélio Cardozo
Rua Marquês do Pombal, 1199/401
CEP 90540-001 - Porto Alegre, RS
Tel./Fax: (51) 3337.2306
E-mail: macardozo@terra.com.br

Artigo submetido em 20.06.06, aceito em 06.09.06.

 

 

Trabalho apresentado no Congresso Internacional de Cirurgia Endovascular, realizado em São Paulo no período de 20 a 22 de abril de 2006.

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