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Jornal Vascular Brasileiro

Print version ISSN 1677-5449On-line version ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.6 no.1 Porto Alegre Mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492007000100006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Válvulas da veia braquial comum: estudo anatômico

 

 

Carlos Adriano Silva dos SantosI; Luiz Francisco Poli de FigueiredoII; Luiz Carlos Buarque de GusmãoIII; Guilherme Benjamin Brandão PittaIV; Fausto Miranda Jr.V

ICirurgião vascular, Hospital-Escola Dr. José Carneiro, Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), Maceió, AL
IIDoutor. Professor adjunto, Departamento de Cirurgia, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP
IIIDoutor. Professor adjunto, Departamento de Morfologia, Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Maceió, AL
IVDoutor. Professor adjunto, Departamento de Cirurgia, UNCISAL, Maceió, AL
VProfessor titular, Departamento de Cirurgia, UNIFESP, São Paulo, SP

Correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: Boa parte das insuficiências venosas é devida à incompetência de suas válvulas. Como uma das alternativas cirúrgicas, temos os enxertos venosos valvulados no segmento insuficiente.
OBJETIVO: Descrever a anatomia das válvulas da veia braquial comum.
MÉTODOS: Foram selecionados 30 cadáveres do sexo masculino, independentemente de raça, que tinham seus membros superiores articulados ao tronco. Os mesmos estavam formolizados e foram mantidos em conservação com solução de formol a 10%. Utilizamos como critério de exclusão a existência de desarticulação de um dos membros ou de alterações deformantes em topografia das estruturas estudadas.
RESULTADOS: O número total de válvulas identificadas foi de 28 em membro superior direito e de 33 em membro superior esquerdo, sendo 15 no segmento proximal direito e 21 no segmento proximal esquerdo. Mais de 91% das válvulas foram do tipo bicúspide e parietal.
CONCLUSÃO: Conclui-se que a veia braquial comum apresenta freqüentemente válvulas do tipo bicúspide e parietal.

Palavras-chave: Anatomia, cadáver, insuficiência venosa, varizes, transplante.


 

 

Introdução

Manifestações clínicas como dor nas pernas, edema, veias varicosas, pigmentações e ulcerações refletem grau avançado de insuficiência venosa representada, em sua maioria, por refluxo no sistema venoso1,2. Essas manifestações estão geralmente associadas a uma incompetência valvular no direcionamento ascendente do fluxo sangüíneo. Existem várias propostas cirúrgicas para a correção dessas válvulas incompetentes, as mais clássicas sendo representadas pelos transplantes valvulados, pelas transposições de segmentos com válvulas e pelas valvuloplastias (interna e externa)2-10.

Na tentativa de corrigir um segmento venoso incompetente onde haja refluxo, pode-se utilizar uma porção de uma outra veia que apresente suas válvulas competentes e que garanta o não refluxo naquele segmento; tratam-se dos enxertos venosos valvulados. Nesses casos, utilizam-se, na maioria das vezes, as veias dos membros superiores como as veias basílica, braquiais e axilar11. A escolha da veia doadora se dá de acordo com o diâmetro e com o número de válvulas presentes no segmento escolhido. Embora seja freqüentemente usada nesses casos, a veia braquial comum (VBC) é pouco citada na rotina médica.

A VBC pode ser definida como uma veia formada a partir da união da veia braquial medial com a veia braquial lateral. Origina-se no braço, apresenta válvulas, constitui uma importante via de circulação colateral do membro superior, unindo o braço à axila, e pode ser útil nas cirurgias para tratamento da insuficiência venosa crônica12-16.

O objetivo deste estudo é descrever a anatomia das válvulas da VBC em cadáveres humanos.

 

Métodos

O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas e da Universidade Federal de Alagoas.

Trata-se de um estudo descritivo macroscópico em cadáveres humanos conservados em formaldeído. Tivemos como amostra os membros superiores articulados ao tronco de 30 cadáveres.

Foram incluídos os cadáveres adultos do sexo masculino que, independentemente de raça, estivessem formolizados e que apresentassem os membros superiores articulados ao tronco. Excluímos os cadáveres que apresentavam alterações deformantes nos membros superiores (como tumoração), utilização prévia de alguns dos vasos relacionados anatomicamente com as estruturas estudadas, fratura óssea e lacerações que envolvessem as estruturas que compõem o conteúdo vascular e nervoso do braço.

A técnica de dissecação consistiu em colocar o cadáver em decúbito dorsal com o membro superior levado em abdução (aproximadamente 90º) e efetuar uma incisão longitudinal na face medial do membro, desde a axila até o epicôndilo medial do úmero.

Para que pudéssemos identificar melhor a VBC, dividimos o braço em três porções (proximal, medial e distal). Esses segmentos eram eqüidistantes entre si, limitados a partir de uma linha traçada entre epicôndilos do úmero (distalmente) e outra linha a partir da borda inferior do músculo redondo maior (proximalmente). O espaço entre esses dois limites foi dividido por três, e o resultado correspondeu ao comprimento dos segmentos.

Depois da dissecação, procuramos identificar o nível em que se deu a formação da VBC e sua continuidade ao longo do membro superior.

Para a variável válvula, utilizamos o teste z com duas amostras para médias (utilizou-se o programa Microsoft Excel® 2003, Redmond, WA, EUA). Para as variáveis freqüência e continuidade da VBC, utilizamos o teste do sinal. Foi adotado o valor de p igual ou menor do que 5% (a < 5%) para rejeitar a hipótese de nulidade.

 

Resultados

A VBC esteve presente em 73% (22/30) dos cadáveres estudados, com um intervalo de confiança de 95% (IC95%) variando de 57 a 89% e um p = 0,0081, sendo, portanto, significante. Dos cadáveres que apresentaram VBC, 10 (45%) tiveram sua origem no braço esquerdo, nove (41%) no braço direito e, em três (14%) dos cadáveres, a VBC encontrou-se em ambos os braços. Seu comprimento médio foi de 136 mm (IC95% 118-154) no lado direito e de 102 mm (IC95% 73-131) no lado esquerdo, não sendo significante a diferença entre os membros (p= 0,064). O maior diâmetro médio foi observado no terço proximal da VBC, sendo de 5,4 mm (IC95% 4,8-6,0) no lado direito e de 4,3 mm (IC95% 3,8-4,8) no lado esquerdo, não sendo significante a diferença entre os membros (p= 0,26).

A VBC no braço direito foi identificada em 12 cadáveres, totalizando 28 válvulas: uma no terço distal, 12 no terço medial e 15 no terço proximal, sendo 26 bicúspides e duas unicúspides (Tabela 1). O número de válvulas por VBC direita foi de uma no terço distal, de zero a duas no terço medial (com o número mais freqüente – MODA – de uma válvula) e de zero a três no terço proximal (com o número mais freqüente – MODA – de uma válvula) (Figura 1).

 

 

Já no braço esquerdo, 13 cadáveres apresentaram VBC, totalizando 33 válvulas, sendo duas no terço distal, 10 no terço medial e 21 no terço proximal (Figura 2). Dessas, 32 eram bicúspides e uma unicúspide (Figura 3). O número de válvulas por VBC foi de zero a duas no terço distal, de zero a duas no terço medial (com o número mais freqüente – MODA – de duas válvulas) e de zero a três no terço proximal (com o número mais freqüente – MODA – de duas válvulas).

 

 

 

 

A VBC apresenta um trajeto intimamente associado à artéria braquial (AB). As possibilidades encontradas de distribuição da VBC com relação à AB são apresentadas sob a forma de ilustração estilizada, numa visão tomográfica que corresponde a um corte transverso, tomando como nível um ponto intermédio de cada segmento do braço (Figuras 4, 5 e 6).

A VBC terminou desembocando na veia basílica em 18% (4/22) dos cadáveres, sendo o segmento proximal o destino de escolha. Em 82% (18/22) dos casos, a VBC desembocou na veia axilar (Tabela 2).

 

Discussão

Procurar alternativas em cirurgia vascular envolve buscar conhecimentos na anatomia clássica. As estruturas que até então se mostravam desconhecidas passam a ter novas perspectivas a partir de um estudo mais pormenorizado.

A VBC pode ser citada como uma ilustre desconhecida, passando despercebida na maioria das dissecações. Nem ao menos pertence à terminologia anatômica17, que é bastante omissa quanto à identificação dessa veia, chamando-a apenas de veia braquial não enfatizando se lateral, medial ou comum. A existência da VBC aliada à discreta informação bibliográfica disponível (quase sempre em livros clássicos de anatomia que nem nas estantes das grandes bibliotecas se encontram mais, sendo verdadeiras raridades) chamou-nos a atenção e motivou-nos a preparar um estudo mais avançado sobre esta veia.

Todavia, em nosso estudo, a VBC caracterizou-se por ser uma veia presente na maioria dos cadáveres (73%), com uma extensão média não muito longa, de 136 mm para o lado direito e de 102 mm para o lado esquerdo, sendo o seu maior diâmetro médio de 5,4 mm no lado direito e de 4,3 no lado esquerdo.

Autores como Gerard12, Salvi13, Hollinshead & Rose14, Gusmão & Prates15, Nicolas18, Paturet19 e Moore20 descreveram a presença da VBC de forma bastante diferente, sendo constante a afirmação de que esta veia se dá pela união das veias braquiais medial e lateral, não se importando em citar detalhes como o segmento em que se forma a veia ou se existe predomínio de ocorrência entre os braços. Não há, também, descrição da freqüência com que esta veia se apresenta. Tandler21 afirma que a VBC é formada em altura variada do braço. Latarjet & Ruiz Liard22 informa que as veias braquiais lateral e medial unem-se para formar a VBC na parte superior do braço. Santos & Gusmão16, além de citar a formação da VBC, informa que esta veia foi encontrada em 25% dos cadáveres por ele estudados e que sua origem se deu mais comumente no terço medial do braço, descrevendo o lado direito como predominante na ocorrência da VBC.

Nicolas18 foi o único autor que descreveu alguns parâmetros morfométricos da VBC, afirmando que essas veias são calibrosas e que podem chegar a 8 mm de diâmetro.

Porém, os resultados encontrados por nós quanto ao número de válvulas enfatiza que, no terço proximal da VBC, foi observado maior número de válvulas, sendo muito freqüente a presença dessas em todos os segmentos da VBC. Essas válvulas foram, em sua maioria, do tipo bicúspide e parietal.

Nicolas18 mencionou que as veias braquiais (lateral, medial e comum) possuem de cinco a 15 válvulas no total. Paturet19 descreveu que as veias braquiais apresentam em torno de seis a 12 válvulas no total. Não houve citação, por parte dos autores, do número de válvulas por terços ou total de válvulas na VBC, exclusivamente. Moore20 e Tandler21 mencionaram que as veias braquiais apresentam numerosas válvulas. Concordamos com Nicolas18, Paturet19, Moore20 e Tandler21 quanto ao fato da presença de válvulas nas veias braquiais. Lamentamos apenas não haver condições de comparar as válvulas da VBC exclusivamente, já que os autores não citaram individualmente as válvulas por veia braquial.

Entretanto, observamos que a VBC apresentou íntima relação com a AB, e essa relação esteve presente desde o segmento distal, sendo, portanto, a mais importante estrutura de identificação dessa veia. Durante o acesso cirúrgico à VBC, dada essa proximidade, foi possível lançar mão da identificação da pulsatilidade da AB como ponto de referência à VBC. Os dados encontrados corroboram o que tínhamos16 publicado previamente em um estudo sobre a veia basílica, em que salientamos a relação anatômica da VBC com a AB.

Outro fator importante foi que a maioria das VBC teve continuidade na axila, sendo que poucas ficaram limitadas ao braço e, mesmo nesses casos, o segmento proximal foi o destino de escolha. Esses resultados nos permitem concordar com autores como Hollinshead & Rose14, Gusmão & Prates15 e Santos & Gusmão16 quando afirmam que a VBC pode desembocar na veia axilar, sendo esse seu principal destino.

Com base nos dados que obtivemos e apresentamos no presente estudo, podemos concluir que a VBC apresenta freqüentemente válvulas do tipo bicúspide e parietal, localizadas em sua maioria no segmento proximal desta veia. Essa constante presença de válvulas em uma veia de bom diâmetro nos estimula a citar a VBC como uma das alternativas na busca de válvulas para o tratamento da insuficiência venosa crônica.

 

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Correspondência:
Carlos Adriano Silva dos Santos
Avenida Nelson Marinho de Araújo, 1043/106, Serraria
CEP 57045-570 – Maceió, AL
Email: carlos_adriano@hotmail.com

Artigo submetido em 08.11.06, aceito em 21.02.07.

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