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Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. v.6 n.1 Porto Alegre mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492007000100011 

RELATO DE CASO

 

Tratamento endovascular de aneurisma de ilíaca roto: relato de caso

 

 

Adinaldo Adhemar Menezes da SilvaI; Luis Fernando ReisI; Daniel Gustavo MiquelinII; Priscilla Yukiko SanoII; Vlanna Sales PereiraIII; José Maria Pereirade GodoyIV

IProfessor, Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP), São José do Rio Preto, SP
IIMédico, Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular, FAMERP, São José do Rio Preto, SP
IIIResidentes, Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular, FAMERP, São José do Rio Preto, SP
IVProfessor livre-docente, Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular, FAMERP, São José do Rio Preto, SP

Correspondência

 

 


RESUMO

A taxa de mortalidade cirúrgica do aneurisma de ilíaca roto é similar à do aneurisma de aorta abdominal roto, devido à sua localização profunda na pelve, dificuldade de exposição distal da ilíaca decorrente do hematoma, bridas devido a laparotomia prévia e proximidade com ureter e estruturas venosas. O objetivo do presente estudo é enfatizar o procedimento endovascular como mais uma opção na correção dessas lesões. Relata-se o caso de um paciente de 60 anos de idade, submetido a derivação com enxerto aorto-biilíaco prévio com prótese há 5 anos, por aneurisma de aorta abdominal infra-renal, apresentando rotura de aneurisma em segmento remanescente da ilíaca comum esquerda. Estava hemodinamicamente estável após ressuscitação com fluidos e foi submetido ao tratamento endovascular de urgência, com a exclusão do aneurisma e ausência de vazamentos.

Palavras-chave: Aneurisma de ilíaca roto, tratamento endovascular de aneurisma, endoprótese.


 

 

Introdução

Os aneurismas de artérias ilíacas (AAI) são raros e representam 2 a 7% dos aneurismas do segmento aorto-ilíaco1,2.

O aparecimento de AAI após reparo do aneurisma de aorta abdominal (AAA) é variável (0,6-1,2%), subestimado, devido à dificuldade de detecção clínica, e relacionado com o tempo de seguimento pós-operatório. A maioria das séries relata nova formação ou progressão da doença aneurismática em torno de 4 a 4,5 anos, sendo acima de 5 anos na maioria dos casos3.

Os pacientes portadores de AAI são freqüentemente assintomáticos (em torno de 50%) e, em geral, observados nos exames de imagem para avaliação de outras condições clínicas, como disfunções urológicas, ginecológicas e gastrointestinais. Clinicamente, podem se apresentar com sintomas relacionados à compressão de estruturas adjacentes, gerando sintomas inespecíficos e comuns a outras doenças. A complicação mais temida – e muitas vezes a única forma de apresentação da doença – é a ruptura do saco aneurismático. A freqüência dessa complicação é variável, e recomenda-se o reparo eletivo desses aneurismas quando atingem 3 cm, na ausência de outras doenças graves ou risco cirúrgico elevado3.

A taxa de mortalidade associada ao tratamento cirúrgico dos AAI rotos situa-se em torno de 33%, semelhante à dos AAA rotos. Os AAI apresentam particularidades técnicas na sua abordagem cirúrgica, que os tornam mais difíceis para o reparo que os AAA: apresentam localização profunda na pelve, proximidade com o ureter, relação íntima com veias e exposição difícil dos ramos distais, principalmente na presença de ruptura com sangramento e bridas devido a laparotomia prévia1-3.

O tratamento endovascular de urgência nos aneurismas aorto-ilíacos rotos é uma opção terapêutica sob avaliação e tem mostrado resultados satisfatórios. Esses achados podem estar relacionados à condição menos invasiva do método, por se evitar a laparotomia, diminuindo o sangramento intra-operatório e a utilização de anestesia local4-6.

 

Relato de caso

Paciente, 60 anos, masculino, branco e sem acompanhamento anterior no serviço. Apresentou quadro de dor abdominal súbita em mesogástrio e quadrante inferior esquerdo (4 horas de evolução), associada a sinais de choque hipovolêmico. Ultra-som de abdome, realizado no serviço de origem e encaminhado com o doente, mostrava coleção líquida ao redor de prótese vascular utilizada em cirurgia prévia e hipótese de ruptura de enxerto. No setor de emergência, durante sua admissão, infundiu-se 1.000 mL de solução cristalóide e uma unidade de concentrado de hemácias. O doente melhorou da instabilidade hemodinâmica, mantendo-se com dor e massa pulsátil à palpação nas regiões mesogástrica e hipogástrica esquerda. Apresentava outros antecedentes, como correção de AAA infra-renal há 5 anos, com prótese aorto-biilíaca comum, e houve dilatação da ilíaca abaixo da anastomose, insuficiência renal crônica em hemodiálise e acidente vascular cerebral isquêmico (AVC) há 2 anos. Tomografia computadorizada (TC) de urgência mostrou enxerto aorto-biilíaco patente e aneurisma com sinais de ruptura em segmento remanescente da artéria ilíaca comum esquerda (Figura 1). Devido à presença de comorbidades e fragilidade do estado de saúde, optou-se pelo tratamento endovascular. O paciente foi conduzido ao setor de hemodinâmica, onde a angiografia mostrou presença de AAI comum esquerda com extravasamento do meio de contraste preenchendo toda a cavidade do pseudo-aneurisma recém-formado (Figura 2A).

 

 

 

 

 

 

O paciente iniciou quadro de confusão mental e agitação, requerendo anestesia geral. Acessou-se cirurgicamente a artéria femoral comum esquerda e por arteriotomia transversa e foram implantadas, de forma seqüencial, três endopróteses (uma de 14/12 x 80 mm e duas de 12/12 x 60 mm – Braile Biomédica®). A primeira endoprótese foi ancorada no ramo esquerdo da prótese de dácron previamente existente, que migrou. Uma segunda endoprótese foi colocada entre o ramo esquerdo da prótese de dácron e a primeira endoprótese. O terceiro módulo foi instalado até alcançar bom segmento da artéria ilíaca externa, excluindo o aneurisma por ausência completa de endovazamentos (Figura 2B). O paciente foi encaminhado à unidade de terapia intensiva e, durante sua evolução, apresentou dificuldade para extubação, devido à exacerbação do distúrbio de deglutição já existente e causado pelo AVC, sendo submetido à traqueostomia no 15º dia pós-operatório (PO) e desmame do respirador com êxito. No 19º PO, o paciente apresentou melena por hemorragia digestiva alta (HDA) devido a úlcera duodenal (Forrest IIB), e foi iniciado tratamento clínico. Controle tomográfico das endopróteses no 40º PO mostrou bom posicionamento e ausência de endovazamentos, com diminuição acentuada do hematoma (Figura 3). No 49º PO, o paciente evoluiu para o óbito por recidiva da HDA.

 

 

Discussão

O presente caso relata a possibilidade de tratamento endovascular do AAI roto em paciente que permaneceu estável hemodinamicamente e com anatomia favorável à colocação da endoprótese. A presença de laparotomia prévia, associada a hematoma pélvico, reforçou essa indicação, já que as condições clínicas presentes conferiam um risco elevado para a cirurgia convencional. Empregou-se anestesia geral, devido ao estado de agitação do paciente, que impossibilitou a anestesia local.

O tratamento padrão para os aneurismas aorto-ilíacos rotos é a laparotomia com enxerto aórtico sob anestesia geral4. Alguns estudos mostram as vantagens do tratamento endovascular dos aneurismas aorto-ilíacos rotos em relação à cirurgia convencional, pois evita a laparotomia, pode ser realizado com anestesia local ou loco-regional, diminui a perda sangüínea, mantém a integridade da parede abdominal e reduz a morbidade e a mortalidade decorrentes das lesões iatrogênicas causadas pela exploração do hematoma retroperitoneal e anatomia distorcida. Os pacientes submetidos ao tratamento endovascular de aneurisma roto descritos em outras séries apresentavam estabilidade hemodinâmica após ressuscitação com fluidos para realização de TC, alto risco cirúrgico ou abdome hostil (obesos, cirurgia abdominal prévia, neoplasia abdominal)1,4,5,7-9.

Alguns fatores limitam a realização do tratamento endovascular de urgência, como a necessidade de tomografia pré-operatória, dificuldade na obtenção de endopróteses com medidas apropriadas para cada paciente e maior tempo para vedação completa do aneurisma, quando comparado ao tempo para o pinçamento aórtico durante a cirurgia. Esse último fator de limitação tem sido reduzido com o uso de balão por punção percutânea da artéria femoral ou axilar, promovendo a oclusão aórtica até o implante da endoprótese4-6.

O tratamento endovascular eletivo do aneurisma de ilíaca tem apresentado bons resultados10, sendo cada vez mais aceito como opção de tratamento. Acreditamos que essa modalidade de tratamento possa ser empregada em condição de urgência, desde que um fluxograma seja criado, provendo exame tomográfico ágil, equipe médica especializada, recursos materiais apropriados e presentes no setor e avaliação rigorosa do estado hemodinâmico do paciente10. O seguimento desses pacientes é fundamental, visando identificar as intercorrências e interferir quando necessário10.

 

Referências

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3. Dosluoglu HH, Dryjski ML, Harris LM. Isolated iliac artery aneurysms in patients with or without previous abdominal aortic aneurysm repair. Am J Surg. 1999;178:129-32.         [ Links ]

4. Hechelhammer L, Lachat ML, Wildermuth S, Bettex D, Mayer D, Pfammatter T. Midterm outcome of endovascular repair of ruptured abdominal aortic aneurysms. J Vasc Surg. 2005;41:752-7.         [ Links ]

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Correspondência:
José Maria Pereira de Godoy
Rua Floriano Peixoto, 2950
São José do Rio Preto, SP
CEP 15010-020
Email: godoyjmp@riopreto.com.br

Artigo submetido em 13.05.06, aceito em 01.01.07.

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